Justiça e Igualdade
Sérgio Godinho
Cantiga da velha mãe e dos seus dois filhos
ai o meu rico filho, que pobre que é
Nascidos do mesmo ventre
Um vive de joelhos pró outro passar à frente
E esta velha mãe para aqui já no sol poente
Um dia há muito tempo, vi-os partir
levando cada um do outro o porvir
Seguiram pela estrada fora
Um voltou-se para trás, disse adeus que me vou embora
Voltaremos trazendo connosco a vitória
De que vitória falas, disse eu então
Da que faz um escravo do teu irmão?
Ou duma outra que rebenta
como um rio de fúria no peito feito tormenta
quando não há nada a perder no que se tenta?
Passaram muitos anos sem mais saber
nem por onde passavam, nem se por ter
criado os dois no mesmo chão
eram ainda irmãos, partilhavam ainda o pão
E o silêncio enchia de morte o meu coração
Depois vieram novas que o que vivia
da miséria do outro, se enriquecia
Não foi para isto que andei
dias que foram longos e noites que não contei
a lutar pra ter a justiça como lei
Às vezes rogo pragas de os ver assim
Sinto assim uma faca dentro de mim
Sei que estou velha e doente
Mas para ver o mundo girar de modo diferente
Ainda sei gritar, e arreganhar o dente
Estou quase a ir embora, mas deixo aqui
duas palavras pra um filho que perdi
Não quero dar-te conselhos
Mas se é teu próprio irmão que te faz viver de joelhos
Doa a quem doer, faz o que tens a fazer
Bocage
A lamentável catástrofe de D Inês de Castro
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos Céus andas pedindo
Justiça contra os ímpios matadores;
Ouvem-se inda na Fonte dos Amores
De quando em quando as náiades carpindo;
E o Mondego, no caso reflectindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:
Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morte formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:
Milagre da beleza e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abraça e croa
A malfadada Inês na sepultura.
Fernando Pessoa
32 - Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com o florir e ir correndo.
É essa a única missão no mundo.
Essa – existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.)
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?
(Athena, nº 4, Janeiro de 1925)
Filipa Leal
Entrevista de emprego
prejudicial ao nosso relacionamento, claro, claro, ao nosso relacionamento
profissional, tem toda a razão, devo ter cuidado com as palavras, sim,
e o senhor, o senhor gosta de palavras, não, mas tem ao menos cuidado com elas,
e de mulheres, o senhor gosta de mulheres, pergunto, trata-as com respeito,
o senhor sabe pontuar uma conversa, pergunto, sabe fazer as pausas certas,
desculpe, tem toda a razão, quem faz as perguntas aqui é o senhor,
e eu respondo, claro, se souber, mas sei pouco, tem toda a razão,
sim, sou formada em Letras, desculpe, sim, sim, gosto de Línguas, sim,
mas não da sua, confesso, desculpe, desculpe, é que de repente pensei
que pudesse estar a interpretar-me mal com o duplo sentido da palavra língua,
sabe como é, hoje em dia todo o cuidado com a palavra é pouco
e eu tinha acabado de lhe perguntar se gostava de mulheres, podia soar a sedução,
na verdade só procurava saber se o senhor era machista, desculpe, fui indelicada,
sim, tem toda a razão, eu gosto é de livros, eu gosto é das notícias que não vêm
nos jornais, eu gosto é de histórias de encantar, mas olhe que há algumas bem cruéis,
não, não são só as de terror, olhe que o terror às vezes está aos pés da câmara,
não, não, eu disse câmara, ouviu bem, achei que se dissesse cama podia voltar a
baralhá-lo, e daqui a pouco ainda pensava que tenho algum interesse em si,
tem razão, tem toda a razão, não me lembrei de destacar esse aspecto no currículo,
não pensei que escrever poemas fosse uma condenação curricular,
mas já que pede a minha opinião, compreendo que o senhor não há-de precisar
de uma pessoa como eu, repare, eu gosto de olhar para o céu horas a frio,
não, não, eu disse frio, ouviu bem, pareceu-me o termo adequado a este diálogo,
e sim, tem toda a razão, eu não devia tê-lo feito perder o seu tempo, desculpe,
desculpe não lhe ter dito mais cedo que só sei ler e escrever,
desculpe não lhe ter dito mais cedo que sou apenas o contrário de um analfabeto.
Martha Medeiros
A nova minoria
A comunidade dos sensatos nunca se organizou formalmente. Seus antepassados acasalaram-se com insensatos, e geraram filhos e netos e bisnetos mistos, o que poderia ser considerada uma bem-vinda diversidade cultural, mas não resultou em grande coisa. Os seres mistos seguiram procriando com outros insensatos, até que a insensatez passou a ser o gene dominante da raça. Restaram poucos sensatos puros.
Reconhecê-los não é difícil. Eles costumam ser objetivos em suas conversas, dizendo claramente o que pensam e baseando seus argumentos no raro e desprestigiado bom senso. Analisam as situações por mais de um ângulo antes de se posicionarem. Tomam decisões justas, mesmo que para isso tenham que ferir suscetibilidades. Não se comovem com os exageros e delírios de seus pares, preferindo manter-se do lado da razão. Serão pessoas frias? É o que dizem deles, mas ninguém imagina como sofrem intimamente por não serem compreendidos.
O sensato age de forma óbvia. Ele conhece o caminho mais curto para fazer as coisas acontecerem, mas as coisas só acontecem quando há um empenho conjunto. Sozinho ele não pode fazer nada contra a avassaladora reação dos que, diferentemente dele, dedicam suas vidas a complicar tudo. Para a maioria, a simplicidade é sempre suspeita, vá entender.
O sensato obedece a regras ancestrais, como, por exemplo, dar valor ao que é emocional e desprezar o que é mesquinho. Ele não ocupa o tempo dos outros com fofocas maldosas e de origem incerta. Ele não concorda com muita coisa que lê e ouve por aí, mas nem por isso exercita o espírito de porco agredindo pessoas que não conhece. Se é impelido a se manifestar, defende sua posição com ideias, sem precisar usar o recurso da violência.
O sensato não considera careta cumprir as leis, é a parte facilitadora do cotidiano. A loucura dele é mais sofisticada, envolve rompimento com algumas convenções, sim, mas convenções particulares, que não afetam a vida pública. O sensato está longe de ser um certinho. Ele tem personalidade, e se as coisas funcionam pra ele, é porque ele tem foco e não se desperdiça, utiliza seu potencial em busca de eficácia, em vez de gastar sua energia com teatralizações que dão em nada.
O sensato privilegia tudo o que possui conteúdo, pois está de acordo com a máxima que diz que mais grave do que ter uma vida curta é ter uma vida pequena. Sendo assim, ele faz valer o seu tempo. Reconhece que o Big Brother é um passatempo curioso, por exemplo, mas não tem estômago para aquela sequência de conversas inaproveitáveis. É o vazio da banalidade passando de geração para geração.
Ouvi de um sensato, dia desses: “Perdi minha turma. Eu convivia com pessoas criativas, que falavam a minha língua, que prezavam a liberdade, pessoas antenadas que não perdiam tempo com mediocridades. A gente se dispersou”. Ele parecia um índio.
Mesmo com poucas chances de sobrevivência, que se morra em combate. Sensatos, resistam.
Marcus Vinicius Quiroga
O desertor
nos faz pensar em duas partes:
o mundo de que se deserta
e o outro, para o qual se evade.
Daí o temor, o mal-estar,
a maldição a quem discorda:
às vezes, a lei diz mais alto,
pune o desertor com a morte.
A questão é que ele talvez
pudesse ter razão, portanto
quem permanece não perdoa
quem faz tudo não ser como antes.
Agora que há em nós a dúvida:
«é este mundo razoável?»
Como não culpá-lo por isto?
Como olhar-se no espelho em paz?
Martha Medeiros
A nova minoria
A comunidade dos sensatos nunca se organizou formalmente. Seus antepassados acasalaram-se com insensatos, e geraram filhos e netos e bisnetos mistos, o que poderia ser considerada uma bem-vinda diversidade cultural, mas não resultou em grande coisa. Os seres mistos seguiram procriando com outros insensatos, até que a insensatez passou a ser o gene dominante da raça. Restaram poucos sensatos puros.
Reconhecê-los não é difícil. Eles costumam ser objetivos em suas conversas, dizendo claramente o que pensam e baseando seus argumentos no raro e desprestigiado bom senso. Analisam as situações por mais de um ângulo antes de se posicionarem. Tomam decisões justas, mesmo que para isso tenham que ferir suscetibilidades. Não se comovem com os exageros e delírios de seus pares, preferindo manter-se do lado da razão. Serão pessoas frias? É o que dizem deles, mas ninguém imagina como sofrem intimamente por não serem compreendidos.
O sensato age de forma óbvia. Ele conhece o caminho mais curto para fazer as coisas acontecerem, mas as coisas só acontecem quando há um empenho conjunto. Sozinho ele não pode fazer nada contra a avassaladora reação dos que, diferentemente dele, dedicam suas vidas a complicar tudo. Para a maioria, a simplicidade é sempre suspeita, vá entender.
O sensato obedece a regras ancestrais, como, por exemplo, dar valor ao que é emocional e desprezar o que é mesquinho. Ele não ocupa o tempo dos outros com fofocas maldosas e de origem incerta. Ele não concorda com muita coisa que lê e ouve por aí, mas nem por isso exercita o espírito de porco agredindo pessoas que não conhece. Se é impelido a se manifestar, defende sua posição com ideias, sem precisar usar o recurso da violência.
O sensato não considera careta cumprir as leis, é a parte facilitadora do cotidiano. A loucura dele é mais sofisticada, envolve rompimento com algumas convenções, sim, mas convenções particulares, que não afetam a vida pública. O sensato está longe de ser um certinho. Ele tem personalidade, e se as coisas funcionam pra ele, é porque ele tem foco e não se desperdiça, utiliza seu potencial em busca de eficácia, em vez de gastar sua energia com teatralizações que dão em nada.
O sensato privilegia tudo o que possui conteúdo, pois está de acordo com a máxima que diz que mais grave do que ter uma vida curta é ter uma vida pequena. Sendo assim, ele faz valer o seu tempo. Reconhece que o Big Brother é um passatempo curioso, por exemplo, mas não tem estômago para aquela sequência de conversas inaproveitáveis. É o vazio da banalidade passando de geração para geração.
Ouvi de um sensato, dia desses: “Perdi minha turma. Eu convivia com pessoas criativas, que falavam a minha língua, que prezavam a liberdade, pessoas antenadas que não perdiam tempo com mediocridades. A gente se dispersou”. Ele parecia um índio.
Mesmo com poucas chances de sobrevivência, que se morra em combate. Sensatos, resistam.
José Mário Rodrigues
Lamento
subindo aos céus num trem de nuvens.
Lá se foi Margarida Alves
pelas veredas dos canaviais
na dança desnorteada dos ventos.
Não lamento as respirações interrompidas
sobre as pedras.
A morte é limpa e afirmativa
e suas vidas tiveram sentido.
Lamento os que ficam
sem sentido algum
e inúteis, covardes e impassíveis,
esperam apodrecer em seus domínios.
Daniel Francoy
RODOVIA CÂNDIDO PORTINARI
Quilômetro 1: os homens
jogam bola aprisionados.
Quilômetro 2: cuida-se
de passarinhos diz
a placa meio escondida.
2.
O lavrado campo de cana
é plano e amarelo.
Os lavradores assinalando o horizonte
são sombras magras na distância lúgubre
com uma leveza de pássaros negros:
campo de trigo com corvos
e os abutres que planam
tão perto do sol ofuscados incinerados
que no súbito voo descendente haverá
quem pranteie a queda de Ícaro.
3.
Repete-se o campo de trigo
com corvos com homens
no lugar dos corvos.
Na contraluz ontem eram
os lavradores no canavial.
Hoje foram os cárceres
roçando a relva bronze.
Um deles – chapéu de palha –
parou o trabalho, olhos
no ônibus a desembarcar
as suas mulheres e crianças
também elas transformadas
em corvos em voo cego e raso.
Com o chapéu de palha, parecia
o holandês em autorretrato:
os olhos feridos, lúcido, mutilado.
José Mário Rodrigues
OS MENINOS
Recife.
Todos os dias
o roteiro é sempre o mesmo:
vão em bando para além das esquinas
arrancam os nossos excessos
aspiram o cheiro dos seus sonhos
dissipam a voracidade de sua fome.
E voltam a dormir nas calçadas do Recife.
Bernardo Pinto de Almeida
Hotel Spleen 2
condição corrente nos tempos que vão
a disfarçar numa sombra de estoicismo
o que se vê de longe à vista desarmada,
ainda que isso apenas forma ténue
passagem de um vapor no horizonte.
A mulher que da sala para a cozinha
leva nas mãos o peso que sustenta a casa
sua força hipotecada
a uma ordem qualquer do universo,
o gesto solícito do porteiro diante da gorjeta
criança que chora no berço.
Tudo isso — por consideração que se lhe deva —
por injusto que seja, conduta imperativa
jogo da finança fortuna nos casinos
acidentes vários combustão do mundo
não chega para assinalar o que parece impor
a tristeza que de dentro do mundo cobre o mundo.
Fina, subtil dor que nos renega nos rasga
nos deixa a braços com nada
presença do que foge do que ficou por dizer
sem mistério nem medo
mas ainda assim ao lado do que interessa
abaixo, acima do que interessa.
A forma que a tristeza toma tantas vezes
quando num olhar magoado que se ergue
um só fio de voz do outro lado
frágil segurança que numa teia se teceu.
Canção do cabaré voz gemida do travesti
voz nostálgica na rádio riso desbotado.
Pathos do medo ou da obscuridade
sorriso trémulo junto a um túmulo deserto
luzir dos olhos sob a lágrima, boca que estremece
diante do mundo trágico )cómico( até fúnebre
— não a alma as suas expressões
a compaixão do mundo.
A lucidez da real- politik o fausto das largas avenidas
seus transeuntes inebriados de luz, pobres, sem- abrigo
a dor compassiva dos gestos suburbanos
que se vestem à noite no silêncio dos quartos
deusas num cinema doméstico: ainda
a consciência deste fio de vida
gotejando como se por uma brecha.
O que avariou para sempre
passo em falso no trapézio
momento sem grandeza em que se fecha:
como chamar-lhe sem convocar num lapso
as formas heróicas do dizer?
Senão no braço magro de sida
que estende ao fio do candeeiro um gesto último
brutal a solidão que no berço anuncia o seu destino
mundo de dor e suspeita não mais escapável
náufrago que ao longe de uma vez se afunda
horizontes que contemplam deslumbrantes poentes.
Inevitável tragédia cobre-nos, dia após dia
cada vez que uma mão se solta de outra
riso não coincide com o riso que o suscita
olhar com o olhar que o procura
a casa já não está onde ainda ontem parecia
sólida serena inexpugnável.
É então cósmico esse grave silêncio
que desce como um manto sobre as coisas
poeira de estrelas devastadas do arrefecimento
que aos pouco sobre todos vai caindo
obedecendo a princípios anteriores a tudo?
Caos reina em toda a parte.
Guerra em toda a parte:
fio de nada em volta da cabeça: negrume
indiferença para que todos trabalham sem descanso.
Está cansada a manhã se ao levantar-se
não surpreende o mundo como a rosa que foi
o mar que já não encontra areia mas um muro
a voz quando o telefone se desliga
ou se faz nela sentir o peso a dor contida
daqueles que envelhecem em silêncio?
Envelheceu o mundo:
reduziu-se ao pouco mais que nada
mesmo se por debaixo do maior barulho.
Ainda que de si a si nada atormente mais
o velho que morre abandonado sobre a cama
o que se asfixiou se pendurou na cela
em vez da estrada firme preferiu
momento sem nome sequer tempo lá dentro
a amplitude do salto sobre qualquer vazio?
Tudo então é silêncio?
Pero da Ponte
Dom Bernaldo, Pois Tragedes
convosc'ũa tal molher,
a peior que vós sabedes,
se o alguazil souber,
açoutar-vo-la querrá,
e a puta queixar-s'-á,
e vós assanhar-vos-edes.
Mais vós, que tod'entendedes
quant'entende bom segrel,
pera que demo queredes
puta que nom há mester?
Ca vedes que vos fará:
em logar vos meterá
u vergonha prenderedes.
Mais que conselho faredes,
se alguém a 'l-rei disser
ca molher vosco teedes
e a justiçar quiser?
Senom Deus nom lhi valrá;
e vós, a quem pesará,
valer nom lhi poderedes.
E vós mentes nom metedes,
se ela filho fezer,
andando, como veedes,
com algum peom qualquer,
aqual temp'havemos já?
Alguém vos sospeitará
que no filho part'havedes!
Pedro Amigo de Sevilha
Maior Garcia Vi Tam Pobr'ogano
que nunca tam pobr'outra molher vi:
que, se nom fosse o arcediano,
nom havia que deitar sobre si;
ar cobrou pois sobr'ela o daiam;
e por aquelo que lh'antr'ambos dam,
and'ela toda coberta de pano.
João Soares Coelho
Joam Garcia Tal Se Foi Loar
e enfenger que dava [i] sas doas
e que trobava por donas mui boas;
e oí end'o meirinho queixar
e dizer que fará, se Deus quiser,
que nom trobe quem trobar nom dever
por ricas donas nem por infançoas.
E oí noutro dia en queixar
ũas coteifas e outras cochõas,
e o meirinho lhis disse: - Varõas,
e nom vos queixedes, ca se eu tornar,
eu vos farei que nẽum trobador
nom trobe em talho senom de qual for,
nem ar trobe por mais altas pessõas.
Ca manda 'l-rei, porque há en despeito,
que trobem os melhores trobadores
polas mais altas donas e melhores,
e tem assi por razom, com proveito;
e o coteife que for trobador
trobe, mais cham'a coteifa "senhor",
e andarám os preitos com dereito.
E o vilão que trobar souber
que trob'e chame "senhor" sa molher,
e haverá cada um o seu dereito.
João Airas de Santiago
Ai Justiça, Mal Fazedes, Que Nom
queredes ora dereito filhar
de Mor da Cana, porque foi matar
Joan'Airas, ca fez mui sem razom;
mais se dereito queredes fazer,
ela sô el devedes a meter,
ca o manda o Livro de Leon.
Ca lhi queria gram bem, e des i
nunca lhi chamava senom senhor;
e quando lh'el queria mui milhor,
foi-o ela logo matar ali;
mais, Justiça, pois tam gram torto fez,
metede-a já sô el ũa vez,
ca o manda o dereito assi.
E quando mais Joan'Airas cuidou
que houvesse de Mor da Cana bem,
foi-o ela logo matar por en,
tanto que el em seu poder entrou;
mais, Justiça, pois que assi é já,
metam-na sô el, e padecerá
a que o a mui gram torto matou.
E quen'os ambos vir jazer, dirá:
- Beeito seja aquel que o julgou!
João Airas de Santiago
Meu Senhor Rei de Castela
venho-me vos querelar:
eu amei ũa donzela,
por que m'ouvistes trobar;
e com quem se foi casar,
por quant'eu dela bem dixi,
quer-m'ora por en matar.
Fiador pera dereito
lhi quix perante vós dar;
el houve de mim despeito
e mandou-me desafiar;
nom lh'eu sei alá morar,
venh'a vós que m'emparedes
ca nom hei quem m'emparar.
Senhor, por Santa Maria,
mandad'ante vós chamar
ela e mim algum dia,
mandade-nos razõar:
se s'ela de mim queixar
de nulha rem que dissesse,
em sa prisom quer'entrar.
Se mi justiça nom val
ante rei tam justiceiro,
ir-m'-ei ao de Portugal.
João Airas de Santiago
O Voss'amig'há de Vós Gram Pavor
ca sab'el que vos fazem entender
que foi, amiga, de vós mal dizer;
mais voss'amigo diz end'o melhor:
que, de quanto disse de vós e diz,
vó'lo julgad'assi come senhor;
ca diz que nom quer i outro juiz.
Queixades-vos del, mais, se Deus quiser,
saberedes, a pouca de sazom,
que nunca disse de vós se bem nom,
nem dirá, mais diz quant'i há mester:
que, de quanto disse de vós e diz,
vó'lo julgade como vos prouguer;
ca diz que nom quer i outro juiz.
Rogou-m'el muito que vos jurass'eu
que nunca disse de vós senom bem,
nen'o dirá, e ar diz outra rem,
e nom há mais que diga, cuido-m'eu:
que, de quanto disse de vós e diz,
vós julgad'i o voss[o] e o seu;
ca diz que nom quer i outro juiz.
Filhad'o seu preito, como [el] diz,
sobre vós, e conselho-vo-lo eu,
e nom ponhades i outro juiz.
Estêvão da Guarda
Em Preito Que Dom Foam Há
com um meestre há gram castom;
e o meestre pressopom
o de que o dereit'está
tam contrairo, per quant'eu vi,
que, se lh'outrem nom acorr'i,
o meestre dequeerá.
Mais, se decae, quem será
que já dereito nem razom
for demandar nem defensom
em tal meestre, que nom dá
em seu feit'ajuda de si,
mais levará, per quant'oí,
quem lh'o dereito sosterrá?
Ca o meestre entende já,
se decaer, que lh'é cajom
antr'os que leterados som,
onde vergonha prenderá
d'errar seu dereito assi;
e quem esto vir, des ali,
por mal andante o terrá.
Estêvão da Guarda
Meu Dano Fiz Por Tal Juiz Pedir
qual mi a reínha, madre del-rei, deu
- um cavaleiro oficial seu -
pois me nom val d'ante tal juiz ir;
ca se vou i e lev'o meu vogado,
sempre me diz que está embargado,
de tal guisa que me nom pod'oir.
Por tal juiz nunca jamais será
desembargad'este preito que hei,
nem a reínha nem seu filh'el-rei,
pero lhe mandem, nunca m'oirá;
ca já me disse que me nom compria
d'ir per d'ant'el, pois m'oir nom podia,
mentr'embargad'estever com'está.
Mais a reínha, pois que certa for
de qual juiz ena sa casa tem,
terrá por razom - esto sei eu bem -
de põer i outro juiz melhor;
e assi poss'eu haver meu dereito,
pois que d'i for este juiz tolheito
e me derem qualquer outr'oídor.
Estêvão da Guarda
Vós, Dom Josep, Venho Eu Preguntar
pois pelos vossos judeus talhadores
vos é talhado, a grandes e meores,
quanto cada um judeu há de dar,
per qual razom Dom Foam judeu,
a que já talha foi posta no seu,
s'escusa sempre de vosco reitar?
- [E]stêvam da Guarda, pode quitar
qual judeu quer de reitar os senhores,
mais na talha, graças nem amores
num lhi faram os que ham de talhar;
e Dom Foam já per vezes deu
do que talharom, com'eu dei do meu,
er dará mais, e querrá-se livrar.
- Dom Josep, tenho por sem razom,
pois já fam vosc', em talha, igualdade
(u do seu dem quanto lhi foi talhado),
que per senhores haja defensom
de nom peitar com'outro peitador,
como peita qualquer talhador
quanto lhi talham, sem escusaçom.
- [E]stêvam da Guarda, per tal auçom
qual vós dizedes, foi já demandado
e foi per el seu feito desputado,
assi que dura na desputaçom;
e do talho nom tem [i] o melhor,
ca deu gram peça; mais pois seu senhor
lha peita, quanto val tal quitaçom!
[...]
- Já Dom Foam, por mal que mi quer, diz
que nego quant'hei, por nom peitar nada;
e de com'é mia fazend'apostada,
vós, Dom Estêvam, sodes en bem fiz
que nunca foi de mia talha negado,
mais sabudo é, certo, apregoado,
quant'hei na terra, móvil e raíz.
- Dom Josep, já [or']eu certo fiz
que do vosso nom é rem sonegado,
mais é [a]tam certo e apreçado
come o vinho forte em Alhariz;
e el queria de vós, des i arreigado,
de vos haver assi espeitado
com'hoj'el é pelo maior juiz.
Estêvão da Guarda
Pero El-Rei Há Defeso
que juiz nom filhe peito
do que per ant'el há preito,
vedes o que hei apreso:
quem s'ajudar quer do Alho
faz barata d'alg'e dá-lho.
Pero que é cousa certa
que el-rei pôs tal defesa,
ond'a bom juiz nom pesa,
dizem que, per encoberta,
quem s'ajudar quer do Alho
faz barata d'algu'e dá-lho.
Pero em tod'home cabe,
em que há sem e cordura,
que se aguarde tal postura,
vedes que diz quen'o sabe:
quem s'ajudar quer do Alho
barata d'algu'e dá-lho.
Em prata ou em retalho
ou em dobras em bisalho.
Estêvão da Guarda
Martim Gil, Um Homem Vil
se quer de vós querelar:
que o mandastes atar
cruamente a um esteo,
dando-lh'açoutes bem mil;
e aquesto, Martim Gil,
parece a todos mui feo.
Nõn'o posso end'eu partir,
pero que o já roguei,
que se nom queix'end'a 'l-rei:
ca se sente tam maltreito
que nom cuida en guarir;
e, Martim Gil, quen'o vir,
parece mui lai, de feito.
Tam cruamente e tam mal
diz que foi ferido entom
que teedes i cajom,
[se] s'el desto nom guarece;
é aquesto feito tal,
Martim Gil, tam desigual,
ca já mui peior parece.
D. Dinis
Joam Bolo Jouv'em Ua Pousada
bem des ogano que da era passou,
com medo do meirinho, que lh'achou
ũa mua que tragia negada;
pero diz el que se lhi for mester
que provará ante qual juiz quer
que a trouxe sempre dês que foi nada.
Esta mũa pod'el provar por sua,
que a nom pod'home dele levar
pelo dereito, se a nom forçar,
ca moram bem cento naquela rua,
per que el poderá provar mui bem
que aquela mua, que ora tem,
que a teve sempre, mentre foi mua.
Nõn'a perderá se houver bom vogado,
pois el pode per enquisas põer
como lha virom criar e trager
em cas sa madr[e], u foi el criado;
e provará per maestre Reinel
que lha guardou bem dez meses daquel
cerro, ou bem doze, que trag'inchado.
D. Dinis
Ou É Meliom Garcia Queixoso
ou nom faz come home de parage
escontra duas meninhas que trage,
contra que[m] nom cata bem nem fremoso:
ca lhas vej'eu trager, bem des antano
ambas vestidas de mui mao pano,
nunca mais feo vi nem mais lixoso.
Andam ant'el chorando mil vegadas,
por muito mal que ham com el levado;
[e] el, come home desmesurado
contra elas, que andam mui coitadas,
nom cata rem do que catar devia;
e poilas [el] tem sigo noit'e dia,
seu mal é tragê-las mal lazeradas.
E pois el sa fazenda tam mal cata
contra elas, que faz viver tal vida,
que nem del nem d'outrem nom ha[m] guarida,
eu nom lho tenho por bõa barata
de as trager como trag', em concelho,
chorosas e minguadas de conselho,
ca Demo lev'a prol que xi lh'en ata.