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Poemas neste tema

Justiça e Igualdade

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Salty Dogs

fui cedo à pista para estudar as chances e aí
vem esse homem chegando e
limpando o pó dos bancos. ele prossegue em seu trabalho, tirando o pó,
muito
provavelmente contente por ter seu trabalho simples.
eu sou daqueles que não veem muita diferença
entre um cientista atômico e um homem que limpa os assentos
exceto pela sorte na jogada -
pais com dinheiro suficiente para dirigi-lo com segurança para uma
vida mais generosa.
"como é que vai?", perguntei-lhe enquanto ele ia tirando o pó.
"tudo bem, e como vai você?", ele perguntou.
"eu até que acerto com os cavalos. é com as mulheres que eu perco."
ele riu. "é, um homem tem duas ou três experiências ruins,
isso realmente o derruba."
"eu não ligo para duas ou três," eu lhe disse, "eu ligo para
11 ou 12."
"cara, você deve conhecer muita coisa nessa altura. qual você prefere
para o
primeiro?"
eu lhe disse que Salty Dog estava dando 4 para 1 e deveria chegar
em primeiro ou segundo. (45 minutos depois ele o fez.) mas ainda não
eram 45
minutos depois. o homem continuou a tirar o pó e eu pensei em todos os
meus empregos podres e como eu estava contente por tê-los. por um
tempo. depois era questão de largar ou ser demitido.
ambos me faziam sentir bem.
é quando você vive com uma mulher por mais de dois
anos que você sabe o que poderá acontecer só que você não sabe
exatamente por quê. não está no horóscopo. está no desempenho
passado,
não no horóscopo.
meu amigo, limpando o pó dos assentos, ele também não sabia
exatamente por quê.
saí para tomar um café. a garota magra atrás do
balcão era uma morena com uma pequena flor azul no cabelo,
belos olhos, belo sorriso. paguei meu café.
"boa sorte", ela disse.
"para você também", eu disse.
levei o café para meu assento, o vento vinha do oeste,
tomei um gole e esperei pela ação, pensando em
muitas coisas, coisas demais. a cena dissolveu-se em grama e
árvores e a pista suja de corridas, e me lembrei de cortinas sujas em
quartos sujos de pensão esvoaçando para a frente e para trás em um
vento leve,
e pensei em tropas sujas saqueando algum vilarejo novo,
e em minhas antigas namoradas infelizes novamente com seus novos
homens.
eu me sentei e tomei meu café e esperei pelo primeiro
páreo.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Vidas na Lata do Lixo

o vento sopra forte esta noite
e é um vento frio
e eu penso nos
garotos na miséria.
espero que eles tenham uma garrafa
de vinho.
é quando você está na miséria
que percebe que
tudo
tem um dono
e que os cadeados estão por toda
parte.
este é o modo como funciona a
democracia:
você pega aquilo que pode,
tenta manter o que pegou
e acrescentar mais ao acumulado
se possível.
é esta também a maneira de agir de uma
ditadura
a diferença é que elas destroem ou
escravizam seus
dissidentes.
nós simplesmente esquecemos
os nossos.
nos dois casos
o vento segue
frio e
cortante.

As filmagens iam começar em Culver City. O bar ficava lá, e o hotel com o meu quarto. A parte seguinte seria feita no distrito da Rua Alvarado, onde ficava o apartamento da mulher.
Depois vinha um bar que frequentávamos na 6th Street com Vermont. Mas as primeiras tomadas seriam em Culver City.
Jon nos levou para ver o hotel. Parecia autêntico. Os bebuns moravam ali. O bar ficava embaixo. Nós ficamos parados, olhando.
– Que tal? – perguntou Jon.
– Sensacional. Mas já vivi em lugares piores.
– Eu sei – disse Sarah. – Eu vi.
Subimos para o quarto.
– Aqui está. Parece familiar?
Era pintado de cinza, como muitos desses lugares. Persianas rasgadas. A mesa e a cadeira. A geladeira coberta de grossa crosta de sujeira. E a pobre cama bamba.
– Está perfeito, Jon. É o quarto.
Fiquei um pouco triste por não ser jovem e estar fazendo tudo aquilo de novo, bebendo e brigando e jogando com as palavras. Quando a gente é jovem, pode realmente aguentar uma surra. A comida não importava. O que importava era beber e sentar à máquina. Eu devia ter sido louco, mas há muitos tipos de loucura, e alguns são muito gostosos. Eu morria de fome para ter tempo de escrever. Não se faz mais isso. Olhando aquela mesa, via-me ali sentado de novo. Naquele tempo estava louco e sabia disso e não importava.
– Vamos descer pra dar outra verificada no bar...
Descemos. Os bebuns que iam aparecer no filme já estavam lá. Bebiam.
– Vamos lá, Sarah, vamos pegar um banco. Tchau, Jon...
O garçom nos apresentou aos bêbados. Eram o Grande Monstro e o Pequeno Monstro, o Nojento, Buffo, Cabeça de Cachorro, Lady Lila, Lance Livre, Clara e outros.
Sarah perguntou ao Nojento o que ele estava bebendo.
– Parece bom – disse.
– É um Cape Cod, suco de amora e vodca.
– Eu tomo um Cape Cod – disse Sarah ao garçom, Cowboy Cal.
– Vodca 7 – eu disse ao Cowboy.
Tomamos algumas. O Grande Monstro me contou uma história de uma briga deles todos com os tiras. Muito interessante. E eu sabia, pelo jeito de ele contar, que era verdade.
Depois veio a chamada para o almoço para os atores e a equipe. Os bebuns ficaram onde estavam.
– É melhor a gente comer – disse Sarah.
Saímos pelos fundos e para leste do hotel. Haviam instalado uma grande banca. Os extras, técnicos, operários e outros já comiam. A comida tinha boa aparência. Jon veio ter com a gente. Pegamos nossas rações na carroça e o seguimos até a ponta da mesa. Quando passávamos, Jon parou. Um homem comia sozinho. Jon apresentou-nos.
– Esse é Lance Edwards...
Edwards fez-nos um leve aceno de cabeça e voltou ao seu filé.
Sentamo-nos na ponta da mesa. Edwards era um dos coprodutores.
– Esse Edwards age como um filho da puta – eu disse.
– Oh – disse Jon – ele é muito acanhado. É um dos caras dos quais Friedman estava tentando se livrar.
– Talvez tivesse razão.
– Hank – disse Sarah –, você nem conhece o cara.
Eu atacava minha cerveja.
– Coma sua comida, Sarah.
Ela ia acrescentar dez anos à minha vida, para o melhor ou para o pior.
– Vamos filmar uma cena com Jack na sala. Você deve vir ver.
– Depois de comermos, vamos voltar pro bar. Quando estiverem prontos pra filmar, mandem alguém nos chamar.
– Tudo bem – disse Jon.
Depois de comermos, contornamos o hotel até o outro lado, verificando-o. Jon nos acompanhava. Vários reboques estacionavam ao longo da rua. Vimos o Rolls-Royce de Jack. E junto a ele um grande reboque prateado, com um anúncio na porta: JACK BLEDSOE.
– Veja – disse Jon –, ele tem um periscópio em cima, pra ver quem se aproxima...
– Nossa...
– Escuta, tenho de acertar umas coisas...
– Tudo bem... Tchau...
Jon tinha uma coisa engraçada. Seu sotaque francês ia desaparecendo à medida que ele só falava inglês nos Estados Unidos. Era um pouco triste.
A porta do reboque de Jack abriu-se. Era ele.
– Ei, entrem!
Subimos os degraus. Uma televisão estava ligada. Uma garota jovem deitava-se no beliche, vendo TV.
– Essa é Cleo. Comprei uma moto pra ela. A gente roda junto.
Um cara sentava-se na outra ponta.
– Esse é meu irmão, Doug...
Eu me aproximei de Doug, ensaiei uns passos de boxe na frente dele. Ele não disse nada. Apenas encarava. Sujeito frio. Ótimo. Eu gostava de caras frios.
– Tem alguma coisa pra beber? – perguntei a Jack.
– Claro...
Pegou um uísque, serviu-me uma dose com água.
– Obrigado...
– Quer um pouco? – ele perguntou a Sarah.
– Obrigada – ela disse. – Não gosto de misturar bebidas.
– Ela está tomando Cape Cods – eu disse.
– Oh...
Sarah e eu nos sentamos. O uísque era bom.
– Gosto deste lugar – eu disse.
– Fique o quanto quiser – disse Jack.
– Talvez eu fique pra sempre...
Jack me lançou seu famoso sorriso.
– Seu irmão não é de falar muito, é?
– Não, não é.
– Um cara frio.
– Ééé.
– Bem, Jack, decorou suas falas?
– Eu nunca olho as minhas falas até o último instante antes da filmagem.
– Sensacional. Bem, escuta, a gente tem de se mandar.
– Eu sei que você consegue, Jack – disse Sarah. – Estamos satisfeitos por você ter o papel principal.
– Obrigado.
No bar, os bebuns ainda estavam lá e não pareciam nem um pouco mais bêbados. Era preciso muita coisa pra derrubar um profissional.
Sarah tomou outro Cape Cod. Eu voltei ao Vodca 7.
Bebemos e ouvimos outras histórias. Cheguei até a contar uma. Talvez houvesse passado uma hora. Aí eu ergui o olhar e vi Jack parado, olhando por cima das portas de vaivém da entrada. Eu via apenas a cabeça dele.
– Ei, Jack – gritei –, entre e tome uma.
– Não, Hank, vamos filmar agora. Por que não vem ver?
– Já vou lá, baby...
Pedimos mais duas doses. E já as atacávamos quando Jon entrou.
– Vamos filmar agora – ele disse.
– Tudo bem – disse Sarah.
– Tudo bem – disse eu.
Acabamos nossas doses, e eu peguei umas duas garrafas de cerveja para levar conosco.
Seguimos Jon por uma escada acima e pelo quarto adentro. Cabos por toda parte. Técnicos mexendo-se de um lado para outro.
– Aposto que poderiam rodar um filme com cerca de um terço desses porras todos.
– É o que Friedman diz.
– Às vezes ele tem razão.
– Tudo bem – disse Jon –, estamos quase prontos. Fizemos alguns ensaios. Agora filmamos. Você – disse para mim – fica nesse canto. Pode ver daqui sem entrar na cena.
Sarah recuou até ali comigo.
– SILÊNCIO! – gritou o assistente de direção de Jon. – PREPARANDO PRA RODAR!
Tudo ficou em silêncio.
Então foi a vez de Jon:
– CÂMERA! AÇÃO!
A porta do quarto abriu-se e Jack Bledsoe entrou cambaleando. Merda, era o jovem Chinaski! Era eu! Senti uma dor mole dentro de mim. Juventude, sua filha da puta, aonde foi você?
Queria voltar a ser o jovem bêbado. Queria ser Jack Bledsoe. Mas era apenas o cara velho no canto, mamando uma cerveja.
Bledsoe cambaleou até a janela junto à mesa. Abriu a persiana escangalhada. Ensaiou uns passos de boxe, um sorriso no rosto. Depois sentou-se à mesa, pegou um lápis e um pedaço de papel. Ficou ali sentado algum tempo, depois puxou a rolha de uma garrafa de vinho, tomou uma talagada, acendeu um cigarro. Ligou o rádio e deu sorte de sintonizar Mozart.
Começou a escrever naquele pedaço de papel com o lápis, enquanto a cena escurecia...
Pegara a coisa. Pegara do jeito que era, quer isso significasse alguma coisa ou não, ele a pegara como era.
Eu me aproximei dele e apertei sua mão.
– Peguei bem? – ele perguntou.
– Pegou – eu disse.
No bar lá embaixo, os bebuns ainda estavam em serviço e com a mesma aparência.
Sarah voltou aos seus Cape Cods e eu tomei a rota do Vodca 7. Ouvimos algumas histórias ótimas. Mas havia uma tristeza no ar, porque depois de rodado o filme, o bar e o hotel iam ser desmontados, para servir a algum fim comercial. Alguns dos fregueses moravam no hotel há décadas. Outros moravam numa estação ferroviária deserta próxima, e havia uma ação judicial para retirá-los dali. Por isso, a bebida era pesada e triste.
Sarah disse por fim:
– Precisamos voltar pra casa pra dar comida aos gatos.
A bebida podia esperar.
Hollywood podia esperar.
Os gatos não esperavam.
Concordei.
Despedimo-nos dos bebuns e fomos para o carro. Eu não me preocupava com a direção. Alguma coisa na visão do jovem Chinaski naquele velho quarto de hotel me estabilizara. Filho da puta, eu fora um jovem touro do caralho. Realmente um fodido de primeira.
Sarah se preocupava com o futuro dos pinguços. Eu também não gostava daquilo. Por outro lado, não podia vê-los sentados em torno da minha porta da frente, bebendo e contando suas histórias. Muitas vezes o charme diminui quando chega perto demais da realidade. E quantos irmãos a gente pode manter?
Eu dirigia em frente. Chegamos.
Os gatos esperavam.
Sarah desceu e limpou as tigelas deles e eu abri as latas.
Simplicidade, era disso que se precisava.
Subimos, tomamos banho, trocamos de roupa e fomos para a cama.
– Que é que aquele pessoal vai fazer? – perguntou Sarah.
– Eu sei. Eu sei...
Aí chegou a hora de dormir. Desci para dar uma última olhada e voltei. Sarah já adormecera. Apaguei a luz. Dormimos. Tendo visto fazer o filme naquela tarde, agora estávamos um pouco diferentes, jamais voltaríamos a pensar ou falar exatamente da mesma forma. Agora sabíamos algo mais, mas, o que era, parecia muito vago e talvez até um pouco desagradável.
– Hollywood
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Poema Para Chefes de Departamento Pessoal:

Um velho me pediu um cigarro
e eu cuidadosamente saquei dois.
“Tô procurando emprego. Vou ficar aqui,
debaixo do sol e fumando.”
Ele estava no limite da mendicância e da fúria
e se escorava na morte.
Era um dia frio, de fato, e os caminhões
carregados e pesados como putas velhas
batiam e chacoalhavam pelas ruas...
Caímos como placas de um teto podre
enquanto o mundo luta para se livrar do peso
que lhe atrapalha as ideias.
(Deus é um lugar solitário e sem bife.)
Somos pássaros agonizantes
navios à deriva –
o mundo se choca contra nós
e nós
estendemos nossos braços
e nós
estendemos nossas pernas
como o beijo da morte da centopeia:
mas eles, gentis, nos dão um tapinha nas costas
e chamam nosso veneno de “política”.
Bem, nós fumamos, ele e eu – homenzinhos
mordiscando pensamentos medíocres...
Nenhum dos cavalos entra,
e enquanto você vê as luzes das cadeias
e dos hospitais cintilarem,
e homens carregando bandeiras com o cuidado dispensado aos bebês,
lembre-se disso:
você é um instrumento cheio de tripas
coração e barriga, cuidadosamente planejado –
de modo que se você pegar um avião para Savannah,
pegue o melhor avião;
ou se você comer frango feito na pedra quente,
faça-o com um animal nobre.
(Você o chama de ave; eu chamo as aves de
flores.)
E se você decidir matar alguém,
que seja qualquer um e não alguém importante:
alguns homens são feitos de partes mais especiais e
preciosas: não mate
se puder
um presidente ou um Rei
ou um homem
atrás de uma escrivaninha –
estes possuem longitudes celestiais
atitudes luminais.
Se essa for sua decisão,
escolha um de nós
que estamos aqui parados, fumando, furiosos;
estamos entorpecidos pela tristeza e
pela febre
por escalar escadas rotas.
Leve-nos
nunca fomos crianças
como as suas crianças.
Não entendemos de canções de amor
como a sua namorada.
Nossos rostos são como linóleo rachado
fendido sob o peso dos passos resolutos
de nossos mestres.
Estamos misturados a cabeças de cenoura
e semente de papoula e a uma gramática bêbada;
desperdiçamos os dias como melros loucos
ansiando pelas noites de trago.
Nossos sorrisos humanos e descoloridos
nos envolvem como os confetes de outra pessoa:
nós sequer pertencemos ao Partido.
Somos uma cena apagada
com o branco e doentio apagador do Tempo.
Fumamos, insones como um prato de figos.
Fumamos, tão mortos quanto um nevoeiro.
Leve-nos.
Um assassinato na banheira
ou algo rápido e certeiro; nossos nomes
nos jornais.
Conhecidos, por um momento, enfim
por milhões de olhos indiferentes de um violeta apagado
que se mantêm ocupados
apenas com os lampejos
das caricaturas de pobres feitas
por seus comediantes conceituados, mal-acostumados
e corretos.
Conhecidos, por um momento, enfim,
como eles também serão conhecidos
como você será conhecido
por um homem todo cinza em uma casa toda cinza
que se senta e acaricia uma espada
mais longa que a noite
mais longa que a dor de coluna da montanha
mais longa que todos os prantos
que têm uma bomba atômica sendo expelida das gargantas
e explodindo em uma terra nova,
menos planejada.
Fumamos e as nuvens não nos notam.
Um gato caminha e sacode o Shakespeare
de suas costas.
Sebo, sebo, vela como cera: nossas espinhas
são curvadas e nossas consciências queimam
de um jeito inocente
o que ainda restava do pavio da vida nos
foi distribuído.
Um velho me pede um cigarro
e me conta seus problemas
e isto
é o que ele disse:
que a Idade era um crime
e que a Compaixão apanhou as bolinhas de gude
e que o Ódio apanhou a
grana.
Ele poderia ter sido seu pai
ou o meu.
Ele poderia ter sido um garanhão
ou um santo.
Mas o que quer que ele tenha sido
agora estava condenado
e nós ficamos debaixo do sol e
fumamos
e olhamos em volta
em nosso ócio
para ver quem era o próximo da
fila.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Faíscas

a fábrica longe da Av. Santa Fé era
melhor.
empacotávamos suportes de luminárias
pesados em caixas pesadas e longas
e depois jogávamos as caixas em pilhas
de seis.
aí os carregadores
vinham
esvaziar sua mesa e
você começava as seis seguintes.

jornada de dez horas
quatro no sábado
pagamento pelo sindicato
bom demais para trabalho não especializado
e se você não chegava lá
com músculos
logo, logo ia arranjá-los

a maioria de nós em 
camisetas brancas e jeans
cigarro no bico
cerveja furtiva
a gerência olhando
pro outro lado

poucos brancos
os brancos não demoravam:
trabalhadores preguiçosos
na maioria mexicanos e
pretos
frios e rancorosos

aqui e ali
brilhava uma faca
ou alguém
era ferido
a gerência olhando
pro outro lado

os raros brancos que ficavam
eram loucos

trabalhava-se
e as jovens mexicanas
nos mantinham
acesos e esperançosos
seus olhos piscando
mensagens
de lá da
linha de montagem.

eu era um dos
brancos loucos
que duraram
eu era bom trabalhador
só pelo ritmo da coisa
pelo diabo da coisa
e depois de dez horas
de trabalho duro
depois de trocar insultos
vivendo entre atritos
com os que não eram suficientemente calmos
para se conformar
saíamos
ainda dispostos

subíamos em nossos velhos
carros para
voltar para casa
beber metade da noite
brigar com nossas mulheres

para recomeçar no dia seguinte
a embalar os suportes
sabendo que éramos
uns babacas
fazendo os ricos
mais ricos

enfiávamos
nossa camiseta branca
e o jeans
e deslizávamos
entre as jovens mexicanas

éramos simples e perfeitos
para o que fazíamos
ressaca
podíamos
fazer bem pra burro
nosso trabalho

mas isso
não nos tocou
nunca

entre aquelas paredes despelando

o barulho das brocas
e serras

as faíscas

éramos uma turma boa
naquele balé mortal

éramos maravilhosos

dávamos a eles
muito mais do que pediam

e ainda assim
a eles não dávamos
nada.
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