Temas
Poemas neste tema

Literatura e Palavras

Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

PROSA

Hipérbole! desta memória
Triunfalmente não tens tido
Como erguer-te, hoje obscura história
Em livro de ferro vestido:

Pois instalo, pela ciência,
O hino de almas espirituais
Na obra de minha paciência,
Atlas, herbários e rituais.

Passeávamos nosso semblante
( Éramos dois, posso afirmar)
Nos encantos da cena adiante,
Ó irmã, para os teus reafirmar.

Turva-se a era de autoridade
Quando, sem motivo, se fala
Desse sul que a duplicidade
De nossa inconsciência assinala

Que, chão multíris, seu lugar,
Se existiu o deverão
Saber, não traz nome que ecoar
O ouro da trompa de Verão.

Sim, em uma ilha que o ar
Enche não de visões mas vista
Toda flor se abria invulgar
Sem em conversa ser revista.

Tais, imensas, que oportuna
Cada uma se preparou
Com lúcido entorno, lacuna
Que dos jardins a separou.

Idéias, glória do desejo,
Tudo em mim se exaltou de ver
As irídeas em cortejo
Surgir para o novo dever,

Mas seu olhar, terna e tranqüila,
Não o levou esta irmã
Além do sorriso e, a ouvi-la,
Cuido de meu antigo afã.

Oh! o Espírito de porfia
Saiba, quando estamos silentes,
Que a haste de mil lírios crescia
Por demais para nossas mentes

E não como a margem chora,
Se o jogo monótono mente
E quer a amplitude afora
Neste meu susto viridente

De ouvir todo o céu e a carta
Firmados em meus passos mil
Vezes, pela onda que se aparta,
Que esse país não existiu.

A criança do êxtase abdica
E douta já pelos caminhos
- Anastásio, é o que ela indica,
Criado p'ra eternos pergaminhos,

Antes de um túmulo rir em
Qualquer clima, seu antepassado,
Do nome - Pulquéria! - que tem,
Pelo alto gladíolo ocultado.


3 891 4
Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro

Cinco Horas

Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)

Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha idéia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...

(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...)

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.

8 021 4
José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira

Homens do futuro

Homens do futuro:

ouvi, ouvi este poeta ignorado
que cá de longe fechado numa gaveta
no suor do século vinte
rodeado de chamas e de trovões,
vai atirar para o mundo
versos duros e sonâmbulos como eu.
Versos afiados como dentes duma serra em mãos de injúria.
Versos agrestes como azorragues de nojo.
Versos rudes como machados de decepar.
Versos de lâmina contra a Paisagem do mundo
— essa prostituta que parece andar às ordens dos ricos
para adormecer os poetas.

Fora, fora do planeta,
tu, mulher lânguida
de braços verdes
e cantos de pássaros no coração!

Fora, fora as árvores inúteis
— ninfas paradas
para o cio dos faunos
escondidos no vento...

Fora, fora o céu
com nuvens onde não há chuva
mas cores para quadros de exposição!

Fora, fora os poentes
com sangue sem cadáveres
a iludiremos de campos de batalha suspensos!

Fora, fora as rosas vermelhas,
flâmulas de revolta para enterros na primavera
dos revolucionários mortos na cama!

Fora, fora as fontes
com água envenenada da solidão
para adormecer o desespero dos homens!

Fora, fora as heras nos muros
a vestirem de luz verde as sombras dos nossos mortos sempre
de pé!

Fora, fora os rios
a esquecerem-nos as lágrimas dos pobres!

Fora, fora as papoilas,
tão contentes de parecerem o rosto de sangue heróico dum
fantasma ferido!

Fora, fora tudo o que amoleça de afrodites
a teima das nossas garras
curvas de futuro!

Fora! Fora! Fora! Fora!

Deixem-nos o planeta descarnado e áspero
para vermos bem os esqueletos de tudo, até das nuvens.
Deixem-nos um planeta sem vales rumorosos de ecos úmidos
nem mulheres de flores nas planícies estendidas.
Uma planeta feito de lágrimas e montes de sucata
com morcegos a trazerem nas asas a penumbra das tocas.
E estrelas que rompem do ferro fundente dos fornos!
E cavalos negros nas nuvens de fumo das fábricas!
E flores de punhos cerrados das multidões em alma!
E barracões, e vielas, e vícios, e escravos
a suarem um simulacro de vida
entre bolor, fome, mãos de súplica e cadáveres,
montes de cadáveres, milhões de cadáveres, silêncios de cadáveres
e pedras!

Deixem-nos um planeta sem árvores de estrelas
a nós os poetas que estrangulamos os pássaros
para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens
— terríveis, à espera, na sombra do chão
sujo da nossa morte.

7 890 4
David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Testamento

Que fique só da minha vida

um monumento de palavras

Mas não de prata Nem de cinza

Antes de lava Antes de nada

Daquele nada que se aviva

quando se arrisca uma viagem

por entre os pântanos da ira

além do sol das barricadas

Ou quando um poço que cintila

parece o tecto de uma sala

Ou quando importa que se extinga

dentro de nós a inexacta

irradiação que vem das criptas

em que o azul nos sobressalta

em que à penumbra se diria

que se acrescenta o som das harpas

Ou quando a terra não expira

senão segredos feitos de água

Ou quando a morte nos avisa

Ou quando a vida nos agarra

Adeus ó pombas

todas iguais ante as muralhas

Adeus veredas invisíveis

que na floresta nos aguardam

Adeus ó barcos à deriva

Adeus canais Adeus guitarras

Adeus ó sílabas da brisa

Adeus sibilas ningas cabras

tantas que a Deus se prometiam

mas só adeuses encontravam

Adeus ó deusas de partida

no meu minuto de chegada

Adeus ardentes evasivas

a ver se um pouco as demorava

Se as demorava ou demovia

de tão depressa me deixarem

Adeus ó portas clandestinas

que ao fim da tarde se entreabrem

Adeus adeus íntimas vítimas

das cerimónias implacáveis

Como deixar-vos todavia

se as vossas mãos as vossas faces

ora parecem despedir-me

ora conseguem renovar-me

E tantas tantas tantas ilhas

no mar que não nos limitasse

Como deixar-vos se na linha

deste horizonte aquela praia

tão de repente se aproxima

tão de repente se me escapa

Jorram vulcânicas as crinas

de récuas de éguas subaquáticas

Jorram do fundo. E à superfície

crescem as ilhas assombradas

Eis que de longe lembras liras

mas entre as ondas só navalhas

É quando o poeta menos grita

que mais se crê nas suas lágrimas

Fique porém de quanto sinta

um monumento de palavras

Mas não de bronze Nem de argila

E nem de cinza nem de mármore

De fumo sim Do que se infiltra

no coração das velhas máquinas

no estertor dos suicidas

no riso triste dos apátridas

no ondular das gelosias

de onde se espia a madrugada

Do fumo enfim que se eterniza

na longa insónia das estátuas

E que de nós a alma extirpa

não nos deixando nem a máscara

quando é só corpo o que nos fica

para morrer às mãos dos bárbaros

E que nos conta só mentiras

E nos aceita só verdades

Múltiplas ágeis infinitas

sejam as linhas que ele trace

como as que traça a própria vida

sem liberdade em liberdade

Adeus ó fogo Adeus raízes

que todo o fumo alimentavam

E adeus o mel Adeus urtigas

da minha terra calcinada

Adeus cortiço Adeus cortiça

Ó madrugadas inflamáveis

Já se nem sabe a que sevícias

é que por fim a boca sabe

Nem qual a sombra que improvisa

esta sonâmbula sonata

que apazigua que arrepia

que nos destói que nos exalta

Nem qual o crime inda mais crime

se acaso chega a desvendar-se

Adeus adeus eterna esfinge

Adeus Não penses que me ultrajas

E lembro tudo o que era simples

antes do nada inevitável

Mas que do nada ao menos fique

um monumento de palavras

4 353 4