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Poemas neste tema

Morte e Luto

Alda do Espírito Santo

Alda do Espírito Santo

Onde estão os homens caçados neste vento de loucura

O sangue caindo em gotas na terra
homens morrendo no mato
e o sangue caindo, caindo...
Fernão Dias para sempre na história
da Ilha Verde, rubra de sangue,
dos homens tombados
na arena imensa do cais.
Aí o cais, o sangue, os homens,
os grilhões, os golpes das pancadas
a soarem, a soarem, a soarem
caindo no silêncio das vidas tombadas
dos gritos, dos uivos de dor
dos homens que não são homens,
na mão dos verdugos sem nome.
Zé Mulato, na história do cais
baleando homens no silêncio
do tombar dos corpos.
Aí, Zé Mulato, Zé Mulato.
As vítimas clamam vingança
O mar, o mar de Fernão Dias
engolindo vidas humanas
está rubro de sangue.
- Nós estamos de pé -
Nossos olhos se viram para ti.
Nossas vidas enterradas
nos campos da morte,
os homens do cinco de Fevereiro
os homens caídos na estufa da morte
clamando piedade
gritando p'la vida,
mortos sem ar e sem água
levantam-se todos
da vala comum
e de pé no coro de justiça
clamam vingança...
... Os corpos tombados no mato,
as casas, as casas dos homens
destruídas na voragem
do fogo incendiário,
as vias queimadas,
erguem o coro insólito de justiça
clamando vingança.
E vós todos carrascos
e vós todos algozes
sentados nos bancos dos réus:
- Que fizeste do meu povo?...
- Que respondeis?
- Onde está o meu povo?...
E eu respondo no silêncio
das vozes erguidas
clamando justiça...
Um a um, todos em fila...
Para vós, carrascos,
o perdão não tem nome.
A justiça vai soar,
E o sangue das vidas caídas
nos matos da morte
ensopando a terra
num silêncio de arrepios
vai fecundar a terra,
clamando justiça.
É a chamada da humanidade
cantando a esperança
num mundo sem peias
onde a liberdade
é a pátria dos homens...
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Todo Mundo E Ninguém (Auto da Lusitânia, de Gil Vicente)

(AUTO DA LUSITÂNIA, DE GIL VICENTE)
NINGUÉM
Tu estás a fim de quê?


TODO MUNDO
A fim de coisas buscar

que não consigo topar.

Mas não desisto, porque

o cara tem de teimar.


NINGUÉM
Me diz teu nome primeiro.


TODO MUNDO
Eu me chamo Todo Mundo

e passo o dia e o ano inteiro

correndo atrás de dinheiro,

seja limpo ou seja imundo.


BELZEBU
Vale a pena dar ciência

e anotar isto bem,

por ser fato verdadeiro:

que Ninguém tem consciência,

e Todo Mundo, dinheiro.


NINGUÉM
E que mais procuras, hem?


TODO MUNDO
Procuro poder e glória.


NINGUÉM
Eu cá não vou nessa história.

Só quero virtude… Amém.


BELZEBU
Mas o papai não se ilude

e traça: Livro Segundo.

Busca o poder Todo Mundo

e Ninguém busca virtude.


NINGUÉM
Que desejas mais, sabido?


TODO MUNDO
Minha ação elogiada

em todo e qualquer sentido.


NINGUÉM
Prefiro ser repreendido

quando der uma mancada.


BELZEBU
Aqui deixo por escrito

o que querem, lado a lado:

Todo Mundo ser louvado

e Ninguém levar um pito.


NINGUÉM
E que mais, amigo meu?


TODO MUNDO
Mais a vida. A vida, olé!


NINGUÉM
A vida? Não sei o que é.

A morte, conheço eu.


BELZEBU
Esta agora é muito forte

e guardo para ser lida:

Todo Mundo busca a vida

e Ninguém conhece a morte.


TODO MUNDO
Também quero o Paraíso,

mas sem ter que me chatear.


NINGUÉM
E eu, suando pra pagar

minhas faltas de juízo!


BELZEBU
Para que sirva de aviso,

mais uma transa se escreve:

Todo Mundo quer Paraíso

e Ninguém paga o que deve.




TODO MUNDO
Eu sou vidrado em tapear,

e mentir nasceu comigo.


NINGUÉM
A verdade eu sempre digo

sem nunca chantagear.


BELZEBU
Boto anúncio na cidade,

deste troço curioso:

Todo Mundo é mentiroso

e Ninguém fala verdade.


NINGUÉM
Que mais, bicho?


TODO MUNDO
Bajular.


NINGUÉM
Eu cá não jogo confete.


BELZEBU
Três mais quatro igual a sete.

O programa sai do ar.

Lero lero lero lero,

curro paco paco paco.

Todo Mundo é puxa-saco

e Ninguém quer ser sincero!
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