Poemas neste tema
Nação e Patriotismo
Affonso Ávila
Os Insurgentes
O LÚRIDO JOIO DO REVERSO
(...)
onde o vôo insurgente de Antônio
como poderá ser independente um povo
que não produz toda a roupa de que se veste
onde o vôo insurgente de Artur
é a questão do nosso minério de ferro
é o futuro do Brasil, que se atira criminosamente
pela janela,
como se faz a um traste incômodo e imprestável
onde o vôo insurgente de Aníbal
queria ver como surgiam as novas gerações
todos livres da exploração e do medo
onde o vôo insurgente de Murilo
grandes da terra, tremei nas cadeiras blindadas
que já vem a cólera santa
abrindo narinas de fogo
onde o vôo insurgente de Carlos
o poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e
outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
O LÚCIDO JOGO DO REVÉS
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 37-39. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Código de Minas.
NOTA: Citação do poema "Nosso Tempo", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
(...)
onde o vôo insurgente de Antônio
como poderá ser independente um povo
que não produz toda a roupa de que se veste
onde o vôo insurgente de Artur
é a questão do nosso minério de ferro
é o futuro do Brasil, que se atira criminosamente
pela janela,
como se faz a um traste incômodo e imprestável
onde o vôo insurgente de Aníbal
queria ver como surgiam as novas gerações
todos livres da exploração e do medo
onde o vôo insurgente de Murilo
grandes da terra, tremei nas cadeiras blindadas
que já vem a cólera santa
abrindo narinas de fogo
onde o vôo insurgente de Carlos
o poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e
outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
O LÚCIDO JOGO DO REVÉS
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 37-39. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Código de Minas.
NOTA: Citação do poema "Nosso Tempo", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
1 901
1
Luís Delfino
Primeira Missa no Brasil
A Victor Meirelles
Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, em cima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas
Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.
Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.
Da armada a gente ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.
In: DELFINO, Luiz. Algas e musgos. Rio de Janeiro: Livr. Papelaria, Lytho-Typographia Pimenta de Melo, s.d. Poema integrante da série Gravuras
Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, em cima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas
Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.
Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.
Da armada a gente ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.
In: DELFINO, Luiz. Algas e musgos. Rio de Janeiro: Livr. Papelaria, Lytho-Typographia Pimenta de Melo, s.d. Poema integrante da série Gravuras
3 023
1
Manuel Bandeira
A Camões
Quando n'alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.
Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.
E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,
Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.
Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.
E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,
Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.
5 976
1
Fernando Pessoa
Sétimo (II): D. FILIPA DE LENCASTRE
Que enigma havia em teu seio
Que só gênios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?
Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!
Que só gênios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?
Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!
7 129
1
Manuel Machado
Canto a Andaluzia
Cádiz, graciosa claridade.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.
1 181
1
Felipe Vianna
BLUMENAU
Minha Blumenau.
A terra natal
De gente bela
De alto astral.
Teu rio divide
Em duas partes
Um povo forte
De belas artes.
Tão criativo
E tão potente
Que em todo Brasil
É imponente.
Brasão alemão.
Exemplo vivo
De um povo forte
E criativo.
Não se amedronta
E dá exemplo:
Trabalho árduo,
Vitória sempre.
E no futuro
Serás lembrado;
Vitorioso,
Glorificado.
Futuro certo
E postulado;
É a vitória,
Povo amado.
Blumenauense
Sou com orgulho.
Sou povo forte
E sempre luto.
Nunca desisto
Pois sempre venço.
Sou com orgulho
Blumenauense.
20/09/1997
A terra natal
De gente bela
De alto astral.
Teu rio divide
Em duas partes
Um povo forte
De belas artes.
Tão criativo
E tão potente
Que em todo Brasil
É imponente.
Brasão alemão.
Exemplo vivo
De um povo forte
E criativo.
Não se amedronta
E dá exemplo:
Trabalho árduo,
Vitória sempre.
E no futuro
Serás lembrado;
Vitorioso,
Glorificado.
Futuro certo
E postulado;
É a vitória,
Povo amado.
Blumenauense
Sou com orgulho.
Sou povo forte
E sempre luto.
Nunca desisto
Pois sempre venço.
Sou com orgulho
Blumenauense.
20/09/1997
720
1
Augusto dos Anjos
Ave Libertas
Ao clarão irial da madrugada,
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!
2 177
1
Fernando Pessoa
XI. A ÚLTIMA NAU
Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol azíago
Erma, e entre choros de ânsia e de presago
Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.
Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol azíago
Erma, e entre choros de ânsia e de presago
Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.
Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.
6 625
1
João Cabral de Melo Neto
O Sol em Pernambuco
O sol em Pernambuco leva dois sóis,
sol de dois canos, de tiro repetido;
o primeiro dos dois. o fuzil de fogo.
incendeia a terra: tiro de inimigo).
O sol ao aterrissar em Pernambuco,
acaba de voar dormindo o mar deserto; mas ao dormir
se refaz, e pode decolar mais aceso;
assim, mais do que acender incendeia,
para rasar mais desertos no caminho;
ou rasá-los mais, até um vazio de mar
por onde ele continue a voar dormindo.
*
Pinzón
diz que o cabo Rostro Hermoso (que se diz hoje de Santo Agostinho)
cai pela terra de mais luz da terra(mudou o nome, sobrou a luz a pino);
dá-se que hoje dói na vida tanta luz: ela revela real
o real, impõe filtros: as lentes negras, lentes de diminuir,
as lentes de distanciar, ou do exílio. (O sol em Pernambuco leva
dois sóis, sol de dois canos, de tiro repetido; o segundo dos
dois, o fuzil de luz, revela real a terra: tiro de inimigo).
sol de dois canos, de tiro repetido;
o primeiro dos dois. o fuzil de fogo.
incendeia a terra: tiro de inimigo).
O sol ao aterrissar em Pernambuco,
acaba de voar dormindo o mar deserto; mas ao dormir
se refaz, e pode decolar mais aceso;
assim, mais do que acender incendeia,
para rasar mais desertos no caminho;
ou rasá-los mais, até um vazio de mar
por onde ele continue a voar dormindo.
*
Pinzón
diz que o cabo Rostro Hermoso (que se diz hoje de Santo Agostinho)
cai pela terra de mais luz da terra(mudou o nome, sobrou a luz a pino);
dá-se que hoje dói na vida tanta luz: ela revela real
o real, impõe filtros: as lentes negras, lentes de diminuir,
as lentes de distanciar, ou do exílio. (O sol em Pernambuco leva
dois sóis, sol de dois canos, de tiro repetido; o segundo dos
dois, o fuzil de luz, revela real a terra: tiro de inimigo).
9 388
1
Giselle del Pino
Lembranças
Eu sou
agora toda a Europa.
Passei a vida a amarrar meus navios.
Sou o punhado de areia
Que coube na mão do mar.
Nasci da bruma,
Da vasta quimera,
Que mocidades em mim
Vieram e se foram.
Sou de Portugal a semente,
Da Espanha a volúpia,
Da França a espada,
Que a Inglaterra me beijou depois.
Sei que as cinzas baixam campa,
Na fúria dos séculos degredada.
E todos os vales de amores
Alumbram minha alma e meu coração.
Eu sou agora toda a América
De Brasis e miseráveis.
A minha vida está condenada ao porto,
A espera desta história
Recriada todo dia
Pela tela de espelhos
Em que minha alma se prendeu.
agora toda a Europa.
Passei a vida a amarrar meus navios.
Sou o punhado de areia
Que coube na mão do mar.
Nasci da bruma,
Da vasta quimera,
Que mocidades em mim
Vieram e se foram.
Sou de Portugal a semente,
Da Espanha a volúpia,
Da França a espada,
Que a Inglaterra me beijou depois.
Sei que as cinzas baixam campa,
Na fúria dos séculos degredada.
E todos os vales de amores
Alumbram minha alma e meu coração.
Eu sou agora toda a América
De Brasis e miseráveis.
A minha vida está condenada ao porto,
A espera desta história
Recriada todo dia
Pela tela de espelhos
Em que minha alma se prendeu.
841
1
Silvaney Paes
Enchente
Quisera
Deus Chovesse...
Para não ser solitário riacho
Ser rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Capaz de apenas com um trago
Arrasta-la em meus braços
Buscando o antigo regaço
Quisera Deus Chovesse...
E já sendo o rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrario do triste riacho
Abrir caminho, espaço.
Para encontrar nesse corpo
O deleite do abraço
Quisera Deus Chovesse...
E sendo rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrário do tímido Riacho
Fugir contigo nos braços
Para num longínquo destino
Perder-me em teu lácio.
Quisera Deus só chovesse...
Para fingir ser rio turvo
Incauto
Revolto e Bravo.
Até conquistar os teus beijos,
Para num remanso tranqüilo
Deleitando-me no abraço
Ser de novo teu manso Riacho.
Chorarei por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.
Chorarei por vós meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.
Chorarei por vós meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.
Chorei por vós meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.
Chorarei por vós meninas,
Mais só chorarei.
Diante de vós sou Fraca,
Sociedade parca,
Sou vossa Mãe Pátria.
Deus Chovesse...
Para não ser solitário riacho
Ser rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Capaz de apenas com um trago
Arrasta-la em meus braços
Buscando o antigo regaço
Quisera Deus Chovesse...
E já sendo o rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrario do triste riacho
Abrir caminho, espaço.
Para encontrar nesse corpo
O deleite do abraço
Quisera Deus Chovesse...
E sendo rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrário do tímido Riacho
Fugir contigo nos braços
Para num longínquo destino
Perder-me em teu lácio.
Quisera Deus só chovesse...
Para fingir ser rio turvo
Incauto
Revolto e Bravo.
Até conquistar os teus beijos,
Para num remanso tranqüilo
Deleitando-me no abraço
Ser de novo teu manso Riacho.
Chorarei por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.
Chorarei por vós meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.
Chorarei por vós meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.
Chorei por vós meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.
Chorarei por vós meninas,
Mais só chorarei.
Diante de vós sou Fraca,
Sociedade parca,
Sou vossa Mãe Pátria.
1 374
1
Silvaney Paes
Náufrago
Trago desde
o berço o fado,
de com foice fazendo talhos
ou mesmo que me seja a nado,
cumprir o caminho inverso do parto.
reencontrar-me com o passado,
para reatar seculares laços
que para traz foram deixados.
Sendo um dos teus filhos bastardos,
que ficaram por aí largados,
carrego desde aquele parto
algo que jamais poderás nega-lo.
pois dos teus filhos mais legítimos,
que por cá foram nascidos,
trago todos os traços
e também naquilo que falo
encontrará teu registro.
Se os de cá a sal foram provados,
em azeite viram-se banhados
como o mais raro ungüento,
mais que não me torças o rosto
reparando nas marcas que trago
pois te chego como naufrago
em tuas águas banhado,
e não serei jamais abortado,
antes que possa abraça-lo.
E se me abrires os teus braços,
acolhendo-me como filho
não serei só lamento ou gemido
chegado de forma ondular marinho,
em tuas praias cuspido.
Te guardarei tamanho apreço,
que no dia em que me veres partindo,
retornando ao meu antigo ninho
serei um dos tantos gritos,
dos teus filhos mais queridos
saídos de Portugal.
o berço o fado,
de com foice fazendo talhos
ou mesmo que me seja a nado,
cumprir o caminho inverso do parto.
reencontrar-me com o passado,
para reatar seculares laços
que para traz foram deixados.
Sendo um dos teus filhos bastardos,
que ficaram por aí largados,
carrego desde aquele parto
algo que jamais poderás nega-lo.
pois dos teus filhos mais legítimos,
que por cá foram nascidos,
trago todos os traços
e também naquilo que falo
encontrará teu registro.
Se os de cá a sal foram provados,
em azeite viram-se banhados
como o mais raro ungüento,
mais que não me torças o rosto
reparando nas marcas que trago
pois te chego como naufrago
em tuas águas banhado,
e não serei jamais abortado,
antes que possa abraça-lo.
E se me abrires os teus braços,
acolhendo-me como filho
não serei só lamento ou gemido
chegado de forma ondular marinho,
em tuas praias cuspido.
Te guardarei tamanho apreço,
que no dia em que me veres partindo,
retornando ao meu antigo ninho
serei um dos tantos gritos,
dos teus filhos mais queridos
saídos de Portugal.
1 049
1
Susana Pestana
Huila
África
adormecida
nas pétalas capturadas da vida.
Sonho com o vermelho da terra
Nas cores de um planalto esquecido.
Mãe minha, mostra-me paz
nunca tocada e muita vez prometida.
Afasta essa mão branca
deixa-me dormir
nesta noite violada.
adormecida
nas pétalas capturadas da vida.
Sonho com o vermelho da terra
Nas cores de um planalto esquecido.
Mãe minha, mostra-me paz
nunca tocada e muita vez prometida.
Afasta essa mão branca
deixa-me dormir
nesta noite violada.
972
1
Ednólia Fontenele
O Rio Deságua em Mim
O rio deságua em mim!
algum braço do Parnaíba
prende minha intenção de viver longe.
Estou aqui
mas permaneço lá,
suando com o calor
de suas tardes quentes
que se afogam nas águas do mar.
O RIO PARNAÍBA DESÁGUA EM MIM
algum braço do Parnaíba
prende minha intenção de viver longe.
Estou aqui
mas permaneço lá,
suando com o calor
de suas tardes quentes
que se afogam nas águas do mar.
O RIO PARNAÍBA DESÁGUA EM MIM
947
1
Virgílio Fernandes Almeida
A morena sestrosa e os 60 mais
Olho pela janela da sala e vejo apenas ruas completamente nevadas. Ninguém, nem uma alma viva! Apenas o frio, que ocupa cada pedaço dessa região norte da costa leste dos EUA, chamada de Nova Inglaterra. Do lado de dentro, a lembrança do calor tropical invade todos espaços da sala e do coração. O som toca incessantemente os príncipes da música brasileira: Tom Jobim, João Gilberto, Caetano e Gil. Os versos de Ary Barroso, na voz suave e no violão preciso de João Gilberto, ecoam e repicam na minha cabeça: "Brasil, terra boa e gostosa, da morena sestrosa de olhar indiferente…" Agora, quando preparo o retorno ao Brasil, depois de mais uma longa temporada no exterior, vejo as diferenças culturais entre o nosso país e os EUA pipocarem na minha cabeça.
A revista eletrônica "Slate", que chega no meu computador todo sábado de manhã pela Internet, publicou no início de dezembro uma reportagem intitulada "Os 60 mais". Para a surpresa dos leitores, não estavam ali relacionados as 60 maiores fortunas dos EUA. A lista era no entanto formada pelas 60 maiores doações feitas por pessoas à sociedade americana. Doações destinadas a propiciar avanços nas ciências, nas artes e na cultura. São doações que vão para institutos de pesquisas, universidades, hospitais, museus e bibliotecas principalmente. A lista foi encabeçada pela doação de 100 milhões de dólares, feita por um rico empresário de supermercados do estado de Utah para a criação do Instituto Skaggs (nome do empresário) de pesquisa em biologia química, com o intuito de estudar novos medicamentos. Um doador, que preferiu o anonimato, entregou a Universidade da Califórnia em Los Angeles um cheque de 45 milhões de dólares para a construção de um centro de pesquisa em genética e neurociências. Um casal de Nova York doou ao Museu Metropolitano da cidade quadros de Picasso, Modigliani, Braquer e outros no valor de 60 milhões de dólares. Embora não fazendo juz ao título de homem mais rico dos EUA, Bill Gates, presidente da Microsoft, doou 25 milhões ao Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Harvard, onde ele foi estudante no início dos anos 70.
Em 1996, as doações dos americanos perfizeram um total de 143,9 bilhões de dólares. Para se ter uma idéia do impacto que essas doações têm no avanço das ciências, da tecnologia e da medicina nos EUA, basta comparar os números acima com o total de gastos em pesquisa feitos pelo Ministério de Ciência e Tecnologia do Brasil em 1994, que foram da ordem de 900 milhões de dólares. Está claro que a sociedade americana não vê o governo como responsável por tudo! Há, por todo os EUA, um forte espírito de comunidade, que nós brasileiros cegamente teimamos em ignorar.
Mas por que tantas doações? Seria apenas generosidade? Claro que não! As razões são várias. Vão desde o caráter filantrópico, até as motivações de natureza moral, religiosa e histórica da sociedade americana. Por exemplo, a revista "Slate" espera que a publicação anual da lista dos "60 mais" acirre o espiríto competitivo entre os ricos americanos, para ver quem vai doar mais no próximo ano. Mas antes de tudo, as doações estão ligadas também à visão e ao pragmatismo do americano. Ou seja, investir naquilo que trará benefícios para a sociedade americana a longo prazo. E os investimentos nas ciências, nas artes, na literatura e na cultura em geral são favas contadas. São indispensáveis para qualquer país que busca uma qualidade de vida e um futuro brilhante para sua população.
A revista eletrônica "Slate", que chega no meu computador todo sábado de manhã pela Internet, publicou no início de dezembro uma reportagem intitulada "Os 60 mais". Para a surpresa dos leitores, não estavam ali relacionados as 60 maiores fortunas dos EUA. A lista era no entanto formada pelas 60 maiores doações feitas por pessoas à sociedade americana. Doações destinadas a propiciar avanços nas ciências, nas artes e na cultura. São doações que vão para institutos de pesquisas, universidades, hospitais, museus e bibliotecas principalmente. A lista foi encabeçada pela doação de 100 milhões de dólares, feita por um rico empresário de supermercados do estado de Utah para a criação do Instituto Skaggs (nome do empresário) de pesquisa em biologia química, com o intuito de estudar novos medicamentos. Um doador, que preferiu o anonimato, entregou a Universidade da Califórnia em Los Angeles um cheque de 45 milhões de dólares para a construção de um centro de pesquisa em genética e neurociências. Um casal de Nova York doou ao Museu Metropolitano da cidade quadros de Picasso, Modigliani, Braquer e outros no valor de 60 milhões de dólares. Embora não fazendo juz ao título de homem mais rico dos EUA, Bill Gates, presidente da Microsoft, doou 25 milhões ao Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Harvard, onde ele foi estudante no início dos anos 70.
Em 1996, as doações dos americanos perfizeram um total de 143,9 bilhões de dólares. Para se ter uma idéia do impacto que essas doações têm no avanço das ciências, da tecnologia e da medicina nos EUA, basta comparar os números acima com o total de gastos em pesquisa feitos pelo Ministério de Ciência e Tecnologia do Brasil em 1994, que foram da ordem de 900 milhões de dólares. Está claro que a sociedade americana não vê o governo como responsável por tudo! Há, por todo os EUA, um forte espírito de comunidade, que nós brasileiros cegamente teimamos em ignorar.
Mas por que tantas doações? Seria apenas generosidade? Claro que não! As razões são várias. Vão desde o caráter filantrópico, até as motivações de natureza moral, religiosa e histórica da sociedade americana. Por exemplo, a revista "Slate" espera que a publicação anual da lista dos "60 mais" acirre o espiríto competitivo entre os ricos americanos, para ver quem vai doar mais no próximo ano. Mas antes de tudo, as doações estão ligadas também à visão e ao pragmatismo do americano. Ou seja, investir naquilo que trará benefícios para a sociedade americana a longo prazo. E os investimentos nas ciências, nas artes, na literatura e na cultura em geral são favas contadas. São indispensáveis para qualquer país que busca uma qualidade de vida e um futuro brilhante para sua população.
673
1
Paula Nei
Fortaleza
Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza — a loura desposada
Do sol dormita, à sombra dos palmares.
Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins plantada
Na brancura de místicos altares.
Lá canta em cada ramo um passarinho...
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais.
É minha terra, a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais.
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza — a loura desposada
Do sol dormita, à sombra dos palmares.
Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins plantada
Na brancura de místicos altares.
Lá canta em cada ramo um passarinho...
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais.
É minha terra, a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais.
3 690
1
Oliveira Neto
O Parnaíba
Águas turvas, imenso, vagaroso,
O Parnaíba desce para o mar.
Qual um molusco, lerdo, preguiçoso,
parece sem vontade de chegar!
Sereno, vai andando, majestoso,
o aguaceiro barrento a deslizar...
E nas margens um bando vaporoso
de garças cor de neve a esvoaçar...
Ó velho Parnaíba dos poetas!
O progresso mudou o teu destino
e te deu novas e importantes metas!
És portador de um mundo de esperanças
E o povo do Nordeste canta o hino
do sonhado futuro de bonanças...
O Parnaíba desce para o mar.
Qual um molusco, lerdo, preguiçoso,
parece sem vontade de chegar!
Sereno, vai andando, majestoso,
o aguaceiro barrento a deslizar...
E nas margens um bando vaporoso
de garças cor de neve a esvoaçar...
Ó velho Parnaíba dos poetas!
O progresso mudou o teu destino
e te deu novas e importantes metas!
És portador de um mundo de esperanças
E o povo do Nordeste canta o hino
do sonhado futuro de bonanças...
1 907
1
Manuel de Araújo Porto Alegre
Colombo
Canto XXVI
O Descobrimento da América
Mais uma hora velou. Deu meia-noite.
Rendeu-se o quarto no maior silêncio.
Acalmada a emoção, e mais convicto,
Fez sinal, e a esquadra pôs à capa,
Sem que alguém da manobra visse a causa.
Sentado, e enfraquecido por vigílias,
Ainda olhava; mas, cedendo ao corpo,
Ali mesmo dormiu, té que de um salto
Erguido ao trom de festival bombarda,
E da grita dos seus, que repeliam
Com Bermejo, na Pinta — "Terra, Terra —
Sem olhar, convencido da verdade,
Por grato impulso, ajoelhou-se orando,
Antes que a terra lhe alegrasse a vista!
Vinha o dia rompendo, e descobrindo
Sobre a linha do mar a terra ansiada!
Como ao empaste das fecundas tintas,
A natureza e a luz na tela fulgem,
Assim fulgia o ondulado aspeto
De Condene floresta, e pouco a pouco,
Ao sorriso das auras fugitivas,
No ar se abriam graciosas palmas,
Como guerreiros de emplumados elmos,
Vindo à plaga a festejar as naves.
Com o prumo na mão, sondando a costa,
Entrou numa abra que no fundo tinha
Surgidouro seguro. Manda o chefe
A manobra de paz! e a um tempo viu-se
Cair o pano, atravessar a frota,
Morder o ferro a desejada areia.
Os descrentes então se convenceram
De que um homem de Deus vê mais que os outros.
Baixam dos turcos o ligeiro esquife
E o real escaler apendoado.
O prazer, que remoça, agita o Nauta.
Larga o burel da devoção, e o peito
De lúcida couraça veste; cinge
A espada de almirante, e sobre os ombros
Traça um manto escarlate, mimo régio.
Protege a fronte com um brilhante almafre,
De cujo cimo pontiagudo rompe
Trífida palma de recurvas plumas.
Toma o pacto real, feito em Granada,
E o pendão de Isabel, o novo lábaro,
Que há de breve vencer mais que o de Roma.
Descem com ele os empregados régios,
E os Pinzões, a quem dera a honra e guarda
Do estandarte real. Acena ao mestre:
Alam as prontas, vogas à ribeira;
Qual amplexo de amor, todos sentiram
O doce abalo do encontrão da praia.
De um salto juvenil pisa Colombo
A nova terra, e, com seguro braço,
A bandeira real, no solo planta.
Beija a plaga almejada, ledo chora:
Foi geral a emoção! Disse o silêncio
Na mudez respeitosa mais que a língua.
Ao céu erguendo os lacrimosos olhos
Na mão sustendo o crucifixo, disse:
"Deus eterno, Senhor onipotente,
A cujo verbo criador o espaço,
Fecundado, soltou o firmamento
O Sol, e a Terra, e os ventos do Oceano,
Bendito sejas, Santo, Santo, Santo!
Sempre bendito em toda parte sejas,
Que se exalte tua alta majestade
Por haver concedido ao servo humilde
O teu nome louvar nestas distâncias.
Permite, ó meu Senhor, que agora mesmo,
Como primícias deste santo empenho,
A teu Filho Divino humilde ofereça
Esta terra e o mundo sempre a chame
Terra de Vera Cruz! E que assim seja!"
Ergue-se, e o laço do estandarte afrouxa:
Sopra o vento, desdobra-o, resplandecem
De um lado a imagem do Cordeiro, e do outro
As armas espanholas. Como assenso
Da divina mansão, esparge a brisa
Um chuveiro de flores sobre a imagem,
Flores não vistas da européia gente!
O Descobrimento da América
Mais uma hora velou. Deu meia-noite.
Rendeu-se o quarto no maior silêncio.
Acalmada a emoção, e mais convicto,
Fez sinal, e a esquadra pôs à capa,
Sem que alguém da manobra visse a causa.
Sentado, e enfraquecido por vigílias,
Ainda olhava; mas, cedendo ao corpo,
Ali mesmo dormiu, té que de um salto
Erguido ao trom de festival bombarda,
E da grita dos seus, que repeliam
Com Bermejo, na Pinta — "Terra, Terra —
Sem olhar, convencido da verdade,
Por grato impulso, ajoelhou-se orando,
Antes que a terra lhe alegrasse a vista!
Vinha o dia rompendo, e descobrindo
Sobre a linha do mar a terra ansiada!
Como ao empaste das fecundas tintas,
A natureza e a luz na tela fulgem,
Assim fulgia o ondulado aspeto
De Condene floresta, e pouco a pouco,
Ao sorriso das auras fugitivas,
No ar se abriam graciosas palmas,
Como guerreiros de emplumados elmos,
Vindo à plaga a festejar as naves.
Com o prumo na mão, sondando a costa,
Entrou numa abra que no fundo tinha
Surgidouro seguro. Manda o chefe
A manobra de paz! e a um tempo viu-se
Cair o pano, atravessar a frota,
Morder o ferro a desejada areia.
Os descrentes então se convenceram
De que um homem de Deus vê mais que os outros.
Baixam dos turcos o ligeiro esquife
E o real escaler apendoado.
O prazer, que remoça, agita o Nauta.
Larga o burel da devoção, e o peito
De lúcida couraça veste; cinge
A espada de almirante, e sobre os ombros
Traça um manto escarlate, mimo régio.
Protege a fronte com um brilhante almafre,
De cujo cimo pontiagudo rompe
Trífida palma de recurvas plumas.
Toma o pacto real, feito em Granada,
E o pendão de Isabel, o novo lábaro,
Que há de breve vencer mais que o de Roma.
Descem com ele os empregados régios,
E os Pinzões, a quem dera a honra e guarda
Do estandarte real. Acena ao mestre:
Alam as prontas, vogas à ribeira;
Qual amplexo de amor, todos sentiram
O doce abalo do encontrão da praia.
De um salto juvenil pisa Colombo
A nova terra, e, com seguro braço,
A bandeira real, no solo planta.
Beija a plaga almejada, ledo chora:
Foi geral a emoção! Disse o silêncio
Na mudez respeitosa mais que a língua.
Ao céu erguendo os lacrimosos olhos
Na mão sustendo o crucifixo, disse:
"Deus eterno, Senhor onipotente,
A cujo verbo criador o espaço,
Fecundado, soltou o firmamento
O Sol, e a Terra, e os ventos do Oceano,
Bendito sejas, Santo, Santo, Santo!
Sempre bendito em toda parte sejas,
Que se exalte tua alta majestade
Por haver concedido ao servo humilde
O teu nome louvar nestas distâncias.
Permite, ó meu Senhor, que agora mesmo,
Como primícias deste santo empenho,
A teu Filho Divino humilde ofereça
Esta terra e o mundo sempre a chame
Terra de Vera Cruz! E que assim seja!"
Ergue-se, e o laço do estandarte afrouxa:
Sopra o vento, desdobra-o, resplandecem
De um lado a imagem do Cordeiro, e do outro
As armas espanholas. Como assenso
Da divina mansão, esparge a brisa
Um chuveiro de flores sobre a imagem,
Flores não vistas da européia gente!
1 820
1
Rubem Alves
Caro sr Roberto Marinho
São Paulo, segunda, 17 de fevereiro de 1997.
Sonhos fazem um povo. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o brasileiro sonhar
Meu pensamento, de tanto ler os poetas e interpretar sonhos, acabou por adquirir prazer especial em associações insólitas. E foi assim que aconteceu: a visão de um anjo me fez pensar no senhor.
Explico-me.
Perturbado pelas orgias natalinas, tratei de proteger-me contra a loucura ouvindo música sacra e revendo as obras de arte referentes ao nascimento do Menino Deus. Meus olhos se detiveram na tela "Anunciação", de Fillipo Lippi: o Anjo, ajoelhado, de perfil, lindo rosto juvenil, asas cor-de-abóbora com manchas negras, mansamente diante da Virgem Bendita, assentada, olhos castamente voltados para o chão, as Sagradas Escrituras na mão esquerda, enquanto um Pássaro, pomba, aproxima-se dela em vôo, asas abertas, e está prestes a pousar no seu colo.
O Anjo trouxera o Pássaro. O Pássaro era a semente engravidante. E, como é bem sabido, nos poemas sagrados o Pássaro é o Espírito. Maria foi engravidada pelo Pássaro Divino.
Uma tradição teológica antiquíssima reza que Maria permaneceu ginecologicamente virgem porque foi pelo seu ouvido que o Pássaro entrou. Acredito: muitas gravidezes acontecem através do ouvido.
Ora, o que entra no ouvido é a palavra: o Pássaro Divino cantou um canto tão lindo que a Virgem ficou grávida e dela nasceu o Filho de Deus.
Hoje muito se fala sobre anjos e suas funções. Mas nunca ouvi ninguém se referir aos importantíssimos Anjos Engravidantes, os mesmos que fizeram Sara ficar grávida depois de velha. Assim, pela mediação de um Anjo Engravidante, Deus Todo-Poderoso empreendeu trazer o Paraíso de novo à Terra.
Foi então que o meu pensamento deu uma cambalhota. Pensou que, se fosse hoje, as coisas teriam acontecido de forma diversa: a Virgem, em vez de ter o livro sagrado na mão esquerda, estaria ligada a algum canal de televisão.
Anjos e televisões se parecem em virtude de sua limitada capacidade virtual: dentro dos dois moram e voam pombas sem número. E seria do vídeo que a Pomba divina estaria saindo e voando, não só para o ouvido como também para os olhos da Virgem. Por meio da televisão, a Imaculada Conceição.
Anjos frequentemente aparecem disfarçados de homens comuns.
Veio-me, então, a idéia de que, talvez, o senhor pudesse ser um deles. O Anjo engravidou uma virgem pela palavra. A TV engravida por palavra e imagem. O senhor, dono da Globo, é muito mais potente que qualquer anjo. Anjos engravidam no varejo. O senhor pode engravidar no atacado. Já imaginou?
Engravidar uma nação inteira?
Eu não tenho 63 anos: 63 paus de fósforo que nunca mais se acenderão. O senhor, pelo que me consta, é mais velho que eu.
Meu pai dizia que a vida, até os 60, é de direito. Depois é bonificação. Depois dos 60, todos estamos equidistantes da eternidade.
O senhor já notou que os ipês florescem no inverno? Sabe por quê? No inverno é frio e seco. As árvores ficam com medo de morrer. Por isso produzem, florescem e ejaculam suas sementes ao vento. Antes de morrer, um grande orgasmo de cor e beleza.
Querem plantar suas sementes no ventre da mãe-terra.
Não seria a hora de fazer como os ipês? No Brasil inteiro não há homem mais potente que o senhor: in-seminar palavras e imagens nos ouvidos e nos olhos de todo mundo... Para quê?
O venerável santo Agostinho disse que um povo é um conjunto de pessoas unidas por um mesmo sonho. São os sonhos que fazem um povo. Mas sonhos não moram em argumentos ou razão.
Moram nas imagens e na poesia. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o povo brasileiro sonhar.
Os textos sagrados fazem a promessa de que, com a vinda do Messias, os velhos desandariam a sonhar. Pensei que o senhor, já velho, poderia ser tocado pela promessa messiânica e ter um sonho parecido com o de Abraão, o de ser pai de uma nação.
Mas isso só se o senhor aceitar a vocação de Anjo Engravidante.
Deus me livre, não estou sugerindo que o senhor encha os programas da TV Globo com programas educativos. Programas educativos são inteligentes, belos e inúteis. Somente os que já estão educados se interessam por eles. Quem não é educado, para ser engravidado, tem de ser seduzido.
Anjo Engravidante, para engravidar, tem antes de ser Anjo Sedutor. Os sedutores sabem que a sedução se faz com coisas mínimas. "Sermões e lógicas jamais convencem", dizia Whitman.
"Só se convence fazendo sonhar", dizia Bachelard. Sedução por imagens mínimas, palavras poucas, haicais, aperitivos. Por favor: não mate a fome do povo. Faça o povo ficar faminto. Uma televisão "fome-gerante"...
Assim, se o senhor se transformasse em Anjo Engravidante, poderia ir pingando mínimas sementes nos mínimos intervalos dos programas, imagens daquelas coisas boas e belas, gestos, atitudes, pensamentos que seduziriam as pessoas a ir recriando o Paraíso neste nosso país. Criar fome de Paraíso...
Não seria uma bela maneira de ir se preparando para dizer adeus?
Eu já estou dizendo adeus faz muito. Mas o senhor pode dizer adeus de um jeito que eu não posso: ir voando, batendo as asas cor-de-abóbora com manchas negras de um Anjo Engravidante...
Rubem Alves, 63, educador, escritor e psicanalista, doutor em filosofia pela Universidade de Princeton (EUA), é professor emérito da Unicamp.
in Folha de São Paulo, segunda, 17 de fevereiro de 1997.
Sonhos fazem um povo. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o brasileiro sonhar
Meu pensamento, de tanto ler os poetas e interpretar sonhos, acabou por adquirir prazer especial em associações insólitas. E foi assim que aconteceu: a visão de um anjo me fez pensar no senhor.
Explico-me.
Perturbado pelas orgias natalinas, tratei de proteger-me contra a loucura ouvindo música sacra e revendo as obras de arte referentes ao nascimento do Menino Deus. Meus olhos se detiveram na tela "Anunciação", de Fillipo Lippi: o Anjo, ajoelhado, de perfil, lindo rosto juvenil, asas cor-de-abóbora com manchas negras, mansamente diante da Virgem Bendita, assentada, olhos castamente voltados para o chão, as Sagradas Escrituras na mão esquerda, enquanto um Pássaro, pomba, aproxima-se dela em vôo, asas abertas, e está prestes a pousar no seu colo.
O Anjo trouxera o Pássaro. O Pássaro era a semente engravidante. E, como é bem sabido, nos poemas sagrados o Pássaro é o Espírito. Maria foi engravidada pelo Pássaro Divino.
Uma tradição teológica antiquíssima reza que Maria permaneceu ginecologicamente virgem porque foi pelo seu ouvido que o Pássaro entrou. Acredito: muitas gravidezes acontecem através do ouvido.
Ora, o que entra no ouvido é a palavra: o Pássaro Divino cantou um canto tão lindo que a Virgem ficou grávida e dela nasceu o Filho de Deus.
Hoje muito se fala sobre anjos e suas funções. Mas nunca ouvi ninguém se referir aos importantíssimos Anjos Engravidantes, os mesmos que fizeram Sara ficar grávida depois de velha. Assim, pela mediação de um Anjo Engravidante, Deus Todo-Poderoso empreendeu trazer o Paraíso de novo à Terra.
Foi então que o meu pensamento deu uma cambalhota. Pensou que, se fosse hoje, as coisas teriam acontecido de forma diversa: a Virgem, em vez de ter o livro sagrado na mão esquerda, estaria ligada a algum canal de televisão.
Anjos e televisões se parecem em virtude de sua limitada capacidade virtual: dentro dos dois moram e voam pombas sem número. E seria do vídeo que a Pomba divina estaria saindo e voando, não só para o ouvido como também para os olhos da Virgem. Por meio da televisão, a Imaculada Conceição.
Anjos frequentemente aparecem disfarçados de homens comuns.
Veio-me, então, a idéia de que, talvez, o senhor pudesse ser um deles. O Anjo engravidou uma virgem pela palavra. A TV engravida por palavra e imagem. O senhor, dono da Globo, é muito mais potente que qualquer anjo. Anjos engravidam no varejo. O senhor pode engravidar no atacado. Já imaginou?
Engravidar uma nação inteira?
Eu não tenho 63 anos: 63 paus de fósforo que nunca mais se acenderão. O senhor, pelo que me consta, é mais velho que eu.
Meu pai dizia que a vida, até os 60, é de direito. Depois é bonificação. Depois dos 60, todos estamos equidistantes da eternidade.
O senhor já notou que os ipês florescem no inverno? Sabe por quê? No inverno é frio e seco. As árvores ficam com medo de morrer. Por isso produzem, florescem e ejaculam suas sementes ao vento. Antes de morrer, um grande orgasmo de cor e beleza.
Querem plantar suas sementes no ventre da mãe-terra.
Não seria a hora de fazer como os ipês? No Brasil inteiro não há homem mais potente que o senhor: in-seminar palavras e imagens nos ouvidos e nos olhos de todo mundo... Para quê?
O venerável santo Agostinho disse que um povo é um conjunto de pessoas unidas por um mesmo sonho. São os sonhos que fazem um povo. Mas sonhos não moram em argumentos ou razão.
Moram nas imagens e na poesia. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o povo brasileiro sonhar.
Os textos sagrados fazem a promessa de que, com a vinda do Messias, os velhos desandariam a sonhar. Pensei que o senhor, já velho, poderia ser tocado pela promessa messiânica e ter um sonho parecido com o de Abraão, o de ser pai de uma nação.
Mas isso só se o senhor aceitar a vocação de Anjo Engravidante.
Deus me livre, não estou sugerindo que o senhor encha os programas da TV Globo com programas educativos. Programas educativos são inteligentes, belos e inúteis. Somente os que já estão educados se interessam por eles. Quem não é educado, para ser engravidado, tem de ser seduzido.
Anjo Engravidante, para engravidar, tem antes de ser Anjo Sedutor. Os sedutores sabem que a sedução se faz com coisas mínimas. "Sermões e lógicas jamais convencem", dizia Whitman.
"Só se convence fazendo sonhar", dizia Bachelard. Sedução por imagens mínimas, palavras poucas, haicais, aperitivos. Por favor: não mate a fome do povo. Faça o povo ficar faminto. Uma televisão "fome-gerante"...
Assim, se o senhor se transformasse em Anjo Engravidante, poderia ir pingando mínimas sementes nos mínimos intervalos dos programas, imagens daquelas coisas boas e belas, gestos, atitudes, pensamentos que seduziriam as pessoas a ir recriando o Paraíso neste nosso país. Criar fome de Paraíso...
Não seria uma bela maneira de ir se preparando para dizer adeus?
Eu já estou dizendo adeus faz muito. Mas o senhor pode dizer adeus de um jeito que eu não posso: ir voando, batendo as asas cor-de-abóbora com manchas negras de um Anjo Engravidante...
Rubem Alves, 63, educador, escritor e psicanalista, doutor em filosofia pela Universidade de Princeton (EUA), é professor emérito da Unicamp.
in Folha de São Paulo, segunda, 17 de fevereiro de 1997.
989
1
Luís Filipe Maçarico
Alentejo
Alentejo terra de vento e silêncio
onde o Homem semeia a Palavra
Alentejo terra de sonho e sofrimento
onde o poema tem sede de flores
e rios. Como quem faz um pão,
escrevo à sombra das tuas oliveiras.
E canto o vôo altivo das cegonhas.
Esta leveza de viver em ruas brancas...
(Mértola, 1994)
onde o Homem semeia a Palavra
Alentejo terra de sonho e sofrimento
onde o poema tem sede de flores
e rios. Como quem faz um pão,
escrevo à sombra das tuas oliveiras.
E canto o vôo altivo das cegonhas.
Esta leveza de viver em ruas brancas...
(Mértola, 1994)
1 237
1
Humberto de Campos
Pero Coelho
(Descobridor do Ceará)
Na umidade do cárcere de Olinda
— Enjaulado jaguar que a vida acaba
Lembrando a selva rumorosa e linda —
Sonha o conquistador da Ibiapaba.
O sonho é o resto da jornada: é a vinda;
E a morte; é a sede; é o desespero; a taba
Toda investindo. A terra em fogo. Um baba;
Outro cai; outro fica; outro se finda...
Dois filhos morrem nos seus braços: vede!
E nem, sequer, irmão de Agar, tem perto,
Nos olhos água que lhes mate a sede!
E, ao fim de tudo, acusações e gritas...
Ah! por que não tombara no Deserto
Abraçado com os seus israelitas!?...
Na umidade do cárcere de Olinda
— Enjaulado jaguar que a vida acaba
Lembrando a selva rumorosa e linda —
Sonha o conquistador da Ibiapaba.
O sonho é o resto da jornada: é a vinda;
E a morte; é a sede; é o desespero; a taba
Toda investindo. A terra em fogo. Um baba;
Outro cai; outro fica; outro se finda...
Dois filhos morrem nos seus braços: vede!
E nem, sequer, irmão de Agar, tem perto,
Nos olhos água que lhes mate a sede!
E, ao fim de tudo, acusações e gritas...
Ah! por que não tombara no Deserto
Abraçado com os seus israelitas!?...
1 345
1
Castro Alves
O Povo ao Poder
QUANDO nas praças seleva
Do povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz...
Que o gigante da calçada
Com pé sobre a barricada
Desgrenhado, enorme, e nu,
Em Roma é Catão ou Mário,
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kossuth.
A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.
Na tortura, na fogueira...
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem... nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deíxai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.
A palavra! vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas quinfâmia! Ai, velha Roma,
Ai, cidade de Vendoma,
Ai, mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.
Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.
No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhe o pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções...
Não deixais que o filho louco
Grite "oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações".
Mas embalde... Que o direito
Não é pasto do punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...
Ah! não há muitos setembros
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.
Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.
Irmãos da terra da América,
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas,
Bebei torrentes de luz...
Ai! soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, é povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações.
Do povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz...
Que o gigante da calçada
Com pé sobre a barricada
Desgrenhado, enorme, e nu,
Em Roma é Catão ou Mário,
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kossuth.
A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.
Na tortura, na fogueira...
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem... nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deíxai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.
A palavra! vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas quinfâmia! Ai, velha Roma,
Ai, cidade de Vendoma,
Ai, mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.
Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.
No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhe o pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções...
Não deixais que o filho louco
Grite "oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações".
Mas embalde... Que o direito
Não é pasto do punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...
Ah! não há muitos setembros
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.
Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.
Irmãos da terra da América,
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas,
Bebei torrentes de luz...
Ai! soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, é povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações.
2 473
1
Crisódio T. Araújo
Reflexos de Timor
Reflexos de Timor
Reflexos da terra há muito deixada
Por tantos e tantos chorada...
Reflexos de um mar sedento de Paz
Corado do sangue de todo o que jaz...
Reflexos de um grito do Monte
Cansado de tanto sofrer...
Reflexos, Reflexos de Timor...
Reflexos de quem clama a Justiça
De um Mundo sem Lei nem Amor!
Reflexos de um Povo que grita
Liberdade, Liberdade, Viva Timor!
Reflexos da terra há muito deixada
Por tantos e tantos chorada...
Reflexos de um mar sedento de Paz
Corado do sangue de todo o que jaz...
Reflexos de um grito do Monte
Cansado de tanto sofrer...
Reflexos, Reflexos de Timor...
Reflexos de quem clama a Justiça
De um Mundo sem Lei nem Amor!
Reflexos de um Povo que grita
Liberdade, Liberdade, Viva Timor!
1 440
1
Castro Alves
Ode ao Dous de Julho
(Recitada no Teatro de São Paulo)
Era no Dous de Julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito ...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?! ...
Debruçados do céu. . . a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era tocha — o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma — o vasto chão!
Por palmas — o troar da artilharia!
Por feras — os canhões negros rugiam!
Por atletas — dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro — era a amplidão!
Não! Não eram dous povos os que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A liberdade — em frente à escravidão.
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão! ...
No entanto a luta recrescia indômita
As bandeiras - corno águias eriçadas —
"Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis!
......................................................
......................................................
Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço e as brisas forasteiras
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha
Uma voz se elevou clara e divina.
Eras tu — liberdade peregrina!
Esposa do porvir — noiva do Sol!...
Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide
Formada pelos mortos do Cabrito,
Um pedaço de gládio — no infinito...
Um trapo de bandeira — namplidão!. ..
(S. Paulo, junho de 1868)
Era no Dous de Julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito ...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?! ...
Debruçados do céu. . . a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era tocha — o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma — o vasto chão!
Por palmas — o troar da artilharia!
Por feras — os canhões negros rugiam!
Por atletas — dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro — era a amplidão!
Não! Não eram dous povos os que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A liberdade — em frente à escravidão.
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão! ...
No entanto a luta recrescia indômita
As bandeiras - corno águias eriçadas —
"Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis!
......................................................
......................................................
Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço e as brisas forasteiras
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha
Uma voz se elevou clara e divina.
Eras tu — liberdade peregrina!
Esposa do porvir — noiva do Sol!...
Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide
Formada pelos mortos do Cabrito,
Um pedaço de gládio — no infinito...
Um trapo de bandeira — namplidão!. ..
(S. Paulo, junho de 1868)
2 184
1