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Poemas neste tema

Nação e Patriotismo

Inácio José de Alvarenga Peixoto

Inácio José de Alvarenga Peixoto

Sonho Poético

Oh, que sonho, oh, que sonho eu tive nesta
feliz, ditosa, sossegada sesta!
Eu vi o Pão d'Açúcar levantar-se,
e no meio das ondas transformar-se
na figura do Índio mais gentil,
representando só todo o Brasil.
Pendente a tiracol de branco arminho,
côncavo dente de animal marinho
as preciosas armas lhe guardava:
era tesouro e juntamente aljava.
De pontas de diamante eram as setas,
as hásteas de ouro, mas as penas pretas;
que o Índio valeroso, ativo e forte,
não manda seta em que não mande a morte.
Zona de penas de vistosas cores,
guarnecida de bárbaros lavores,
de folhetas e pérolas pendentes,
finos cristais, topázios transparentes,
em recamadas peles de saíras,
rubins, e diamantes e safiras,
em campo de esmeralda escurecia
a linda estrela que nos traz o dia.
No cocar... oh! que assombro, oh! que riqueza!
Vi tudo quanto pode a natureza:
no peito, em grandes letras de diamante,
o nome da Augustíssima Imperante.
De inteiriço coral novo instrumento
as mãos lhe ocupa, enquanto ao doce acento
das saudosas palhetas, que afinava,
Píndaro Americano assim cantava:
"Sou vassalo, sou leal;
como tal,
fiel constante,
sirvo à glória da imperante,
sirvo à grandeza real.
Aos Elísios descerei,
fiel sempre a Portugal,
ao famoso vice-rei,
ao ilustre general,
às bandeiras que jurei.
Insultando o fado e a sorte
e a fortuna desigual,
a quem morrer sabe, a morte
nem é morte nem é mal."


In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960.
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Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu

A Faustino Xavier de Novais

Bem-vindo sejas, poeta,
A estas praias brasileiras!
Na pátria das bananeiras
As glórias não são de mais:
Bem-vindo o filho do Douro!
A terra das harmonias,
Que tem Magalhães e Dias,
Bem pode saudar Novais.

Vieste a tempo, poeta,
Trazer-nos o sal da graça,
Pois c'os terrores da praça
Andava a gente a fugir:
Agora calmando o medo,
E ao bom humor dando largas,
A comprimir as ilhargas
Agora vão todos rir.

Entre todos os paquetes
Que o velho mundo nos manda,
Eu sustento sem demanda
Tamar foi o mais feliz:
Os outros trazem cebolas,
Vinho em pipas, trapalhadas,
Este trouxe gargalhadas,
Sem ser fazenda em barris.

Venha a sátira mordente,
Brilhe viva a tua veia,
Já que a cidade está cheia
Desses eternos Manéis:
Os barões andam às dúzias,
Como os frades nos conventos,
Comendadores aos centos,
Viscondes a pontapés.

Aproveita estes bons tipos,
Há-os aqui com fartura,
E salte a caricatura
Nos traços do teu pincel:
Ou quer na prosa ou no verso,
Dá-lhes bem severo ensino,
Ressuscita o Tolentino,
Embeleza o teu laurel.

Pinta este Rio num quadro,
As letras falsas dum lado,
As discussões do senado,
As quebras, os trambulhões;
Mascates roubando moças,
E lá no fundo da tela
Desenha a febre amarela,
Vida e morte aos cachações.

Oh! canta! o povo te aplaude,
E os louros pra ti são certos!
Acharás braços abertos
No meu paterno torrão:
Se és português lá na Europa,
Aqui, vivendo conosco
Debaixo do colmo tosco,
Aqui serás nosso irmão!

Bem-vindo, bem-vindo sejas
A estas praias brasileiras!
Na pátria das bananeiras
As glórias não são de mais.
Bem-vindo o filho do Douro!
A terra das harmonias,
Que tem Magalhães e Dias,
Bem pode saudar Novais.

1860

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Publicado no livro As primaveras (1867). Poema integrante da série Suplemento às Primaveras.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Gonçalves Crespo

Gonçalves Crespo

Ao Rabequista Eugênio Dégremont

Recitada na noite de 25 de fevereiro de 1877 no Teatro de
S.João do Porto


Vede-o! É tão criança! ó mães, olhai-o!
Como é vivo o fulgor e ardente o raio
Que vibra nesse olhar!
Faz gosto vê-lo assim tão pequenino
Enlevado nos sons do violino
A sonhar, a sonhar...

E ao passo que a sua alma vai sonhando,
Vão-se ante nossos olhos desdobrando
Quadros a mil e mil.
A rabeca suspira? Assim amenas
São na longínqua roça as cantilenas
Das moças do Brasil.

Vibram ríspidos sons? E logo ouvimos
Curvar o vento da floresta os cimos
Com ruidoso fragor...
E uivam pintadas onças e as araras
Roçam, fugindo, as trêmulas taquaras.
E crocita o condor.

Enterrados nas úmidas pastagens
Mugem raivosos búfalos selvagens,
E por entre os sarçais
Pula a pantera; os jacarés astutos
Choram, fingindo lacrimosos lutos
Nos fulvos areais.

Soluçou a rabeca? Ouvi, formosas,
São os negros soltando as lastimosas
Canções do seu país;
Sem família, sem pátria, sem amores,
Ninguém mitiga o fel daquelas dores,
Triste raça infeliz!

Agora, como em namorado anseio,
Sai da rabeca um lânguido gorjeio
Que enleva o coração.
E a saudade repinta-nos ao vivo
Dos sabiás o cântico lascivo
Nas sombras do sertão.

Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto,
Com meu olhar de prantos não enxuto,
Ó criança gentil,
Que em vez de perseguir as borboletas
Vens batalhar no meio dos atletas
E honrar o teu Brasil!

Não presumas, porém, prodígio das crianças!
Que basta o fogo, o estro, a viva inspiração;
É mister trabalhar, sem isso nada alcanças;
A glória chamarás, ser-te-á o apelo em vão.

Pois que! tu cuidarás, criança, porventura
Que sem lutar, sofrer, sem hórridos tormentos
O artista poderia erguer aos quatro ventos
A Epopéia, o Drama, a Estátua, a Partitura?

Vamos, trabalha pois, ó meu precoce artista,
Dos precipícios ri, vinga-me o barrocal!
Para o profundo azul estende a larga vista.
Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!

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Publicado no livro Noturnos (1882).

In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
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Domingos Caldas Barbosa

Domingos Caldas Barbosa

Lundum em Louvor de uma Brasileira Adotiva

Eu vi correndo hoje o Tejo
Vinha soberbo e vaidoso;
Só por ter nas suas margens
O meigo Lundum gostoso.

Que lindas voltas que fez
Estendido pela praia
Queria beijar-lhe os pés.

Se o Lundum bem conhecera
Quem o havia cá dançar;
De gosto mesmo morrera
Sem poder nunca chegar.

Ai rum rum
Vence fandangos e gigas
A chulice do Lundum.

Quem me havia de dizer
Mas a coisa é verdadeira;
Que Lisboa produziu
Uma linda Brasileira.

Ai beleza
As outras são pela pátria
Esta pela Natureza.

Tomara que visse a gente
Como nhanhá dança aqui;
Talvez que o seu coração
Tivesse mestre d'ali.

Ai companheiro
Não será ou sim será
O jeitinho é Brasileiro.

Uns olhos assim voltados
Cabeça inclinada assim,
Os passinhos assim dados
Que vêm entender com mim.

Ai afeto
Lundum entendeu com eu
A gente está bem quieto.

Um lavar em seco a roupa
Um saltinho cai não cai;
O coração Brasileiro
A seus pés caindo vai.

Ai esperanças
É nas chulices de lá
Mas é de cá nas mudanças.

Este Lundum me dá vida
Quando o vejo assim dançar;
Mas temo se continua.
Que Lundum me há de matar.

Ai lembrança
Amor me trouxe o Lundum
Para meter-me na dança.

Nhanhá faz um pé de banco
Com seus quindins, seus popôs,
Tinha lançado os seus laços
Aperta assim mais os nós.

Oh! doçura
As lobedas de nhanhá
Apertam minha ternura.

Logo que nhanhá saiu
Logo que nhanhá dançou,
O cravo que tinha ao peito
Envergonhado murchou.

Ai que peito
Se quiser flores bem novas
Aqui tem Amor perfeito.

Pois segue as danças de lá
Os de lá deve querer;
E se tem de lá melindres
Nunca tenha malmequer.

Ai delírio
Ela semeia saudades
De enxerto no meu martírio.

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Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).

In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)

NOTA: Chulice: de chulo; no texto, graças, malícias. Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Quindins: dengues, meiguices, encantos. Popôs: possivelmente "dengues". Lobedas: possivelmente "fitas". Melindre: planta também conhecida como beijo-de-frad
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Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Minha Terra

Minha terra tem palmeiras
onde cantava o Gonçalves
dias antes do naufrágio.
Mas o oceano bebeu tudo:
sabiá palmeiras canto.
(Nossos mares têm Gonçalves.)
E eu aqui fiquei sozinho
sem terra sabiá cem dias.
Não aqueles do Gonçalves
mas os meus, que ele contar
não contava, só cantava
pendurado nas palmeiras.

Em cismar sozinho à noite
mais prazer encontro eu cá
pois descobri que cismar
sozinho é inda melhor
que cismar acompanhado.
De dia cismo ou de noite,
prazer encontro em cismar
O Tejo e o mar. O que cismo?
Sei lá! (Sei cá?) Sei que é
contrário ao que cismaria
lá se cá não estivesse
cogitando no acolá.

Minha terra tem primores!
(Nunca vi um primoreiro...)
Hão de ser frutos mui raros:
Gonçalves, guarde um pra mim!
Vou ver se também naufrago
no litoral do... onde mesmo?
Minha terra tem poetas
sensíveis como o Gonçalves
O Casimiro de Abreu
a até Manuel Bandeira,
que passam a vida inteira
ensinando à sua gente:

(...)

Não permita Deus que eu morra!
É o que dizia o Gonçalves
que queria ser eterno
pra sofrer eternamente
a saudade das palmeiras,
do primor, do sabiá.
Não que eu deseje o contrário
(morro até sem permissão!)
mas o que eu queria mesmo
era voltar carregado
de todo todo este amor
que só por cá descobri.

Minha terra tem palmeiras
onde cantava e inda canta
o Gonçalves e eu quisera
que meus pobres dias fossem
tão gonçalvos quanto os dele.
E seria uma tenção:
ai dá-me cá, ai toma lá,
a palmeira, o sabiá.
Minha terraterramada,
o Gonçalves tem razão:
(do) exílio uma (só) canção.

(Lisboa 1975)

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Poema integrante da série III. Pessoal.

In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2).

NOTA: Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
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Osório Duque-Estrada

Osório Duque-Estrada

Hino Nacional Brasileiro

I

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza

Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

II

Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro desta flâmula
— Paz no futuro e glória no passado.

Mas, se ergues da Justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!


Publicado no livro Hino Nacional Brasileiro (1922).

In: CORREA, Avelino A. Hinos e canções do Brasil. 5.ed. São Paulo: Ática, 1982. p.12-13

NOTA: Música de Francisco Manuel da Silva (composta para a coroação de D. Pedro II, em 1841). A letra de Osório Duque-Estrada foi vencedora do concurso para "a melhor composição poética que se adapte, com todo o rigor do ritmo, à música do Hino Nacional Brasileiro", em 1909, e oficializada em 1922. Citação de versos da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846) e de imagens do poema em prosa "Meditação" (capítulo III, parte IV), de Gonçalves Dias. Publicado no Diário Oficial de 02 set. 1971, seção 1, parte 1, Suplemento, anexo
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Juvenal Galeno

Juvenal Galeno

As Formas de Governo

Logo após a indepêndencia
De minha pátria nação,
Sobre as formas de governo
Versou forte discussão:
Um queria monarquia
Sujeita à Constituição,
Outro — um rei absoluto,
E outro mais resoluto
Pedia a — federação!

Então, então
Não podia eu, como agora,
Dizer minha opinião!

Palavra puxa palavra...
Té que se escuta o canhão;
As balas voam ferinas...
De mortos cobrem-se o chão!
Quando o brado da vitória
Solta uma forte facção...
E gemidos consternados
A prole dos fuzilados
Aos olhos da multidão!

Então, então
Não podia eu, como agora,
Dizer minha opinião!

Como infante, a minha pátria
Não sabia o que escolher;
Era nóvel — só por isso
Ninguém devera morrer;
Pois é próprio das crianças
O querer e não querer;
Hoje, não — mestra exp'riência
Nos mostra a conveniência
Do que devemos fazer!
(...)
Assim pois com toda a calma,
Após muito meditar,
Vejamos qual dos governos
É o mais fácil de aturar:
A república?... Excelente!
Só ela vem-nos salvar!
Mas... se o chefe, ou presidente,
Como o Lopes, é ingente
No despotismo sem par?...

Então, então...
Já não sou republicano...
Já mudei de opinião!

O governo absoluto,
o rei não sendo cruel,
Sendo das letras esteio
Do povo amigo fiel...
Este sim... é excelente!
Mas, se como a cascavel,
Mau se torna e desumano...
E também fero tirano
Ódio todo... e todo fel?...

Então, então
Eu não quero tal governo,
Já mudei de opinião!

(...)


In: GALENO, Juvenal. Lendas e canções populares, 1859/1865. Introd. F. Alves de Andrade. 4.ed. Fortaleza: Casa de Juvenal Galeno, 197
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Luís Gama

Luís Gama

Sortimento de Gorras para a Gente do Grande Tom

(...)

Se grosseiro alveitar ou charlatão
Entre nós se proclama sabichão;
E, com cartas compradas na Alemanha.
Por mil anos impinge ipecacuanha;
Se mata, por honrar a Medicina,
Mais voraz do que uma ave de rapina;
E num dia, se, errando na receita,
Pratica no mortal cura perfeita;
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se os nobres desta terra, empanturrados,
Em Guiné têm parentes enterrados;
E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,
Esquecem os negrinhos seus patrícios;
Se mulatos de cor esbranquiçada,
Já se julgam de origem refinada,
E, curvos à mania que os domina,
Desprezam a vovó que é preta-mina:
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se o governo do Império Brasileiro,
Faz coisas de espantar o mundo inteiro,
Transcendendo o Autor da geração,
o jumento transforma em sor Barão;
Se estúpido matuto, apatetado,
Idolatra o papel de mascarado;
E fazendo-se o lorpa deputado,
N'Assembléia vai dar seu — apolhado,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se impera no Brasil o patronato,
Fazendo que o Camelo seja Gato,
Levando o seu domínio a ponto tal,
Que torna em sapiente o animal;
Se deslustram honrosos pergaminhos,
Patetas que nem servem p'ra meirinhos,
E que sendo formados Bacharéis,
Sabem menos do que pecos bedéis,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se temos Deputados, Senadores,
Bons Ministros e outros chuchadores;
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão;
Se já temos calçados — mac-lama,
Novidade que esfalta a voz da Fama,
Blasonando as gazetas — que há progresso,
Quando tudo caminha p'ra o regresso:
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!

Se contamos vadios empregados,
Porque são das potências afilhados,
E sucumbe, à matroca, abandonado,
O homem de critério, que é honrado;
Se temos militares de trapaça,
Que da guerra jamais viram fumaça,
Mas que empolgam chistosos ordenados,
Que ao povo, sem sentir, são arrancados;
Não te espantes ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!

(...)

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Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).

In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.24-26. (Últimas gerações, 4)

NOTA: Poema composto de 13 parte
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Juvenal Galeno

Juvenal Galeno

A Moda

O que eu desejo, senhoras,
É que se cumpra o rifão:
— Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: —
Eis a minha opinião!

Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!

É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!

Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.

Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.

Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!

E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! —
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? —
(...)

Batinas e polonaise,
Hoje, bico — amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!

E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)

E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!

Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!


Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).

In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 196
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Capinan

Capinan

Soy Loco Por Ti, America, 1967

Soy loco por ti, America
Yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea amarte
Que su nombre sea amarte
Soy loco por ti de amores
Tenga como colores
La espuma blanca de Latino America
Y el cielo como bandera
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Sorriso de quase nuvem
Os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas
O corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante
Desse país sem nome
Esse tango, esse rancho
Esse povo, dizei-me
Arde o fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
El nombre del hombre muerto
Ya no se puede decirlo
Quem sabe
Antes que o dia arrebente
Antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto
Antes que a definitiva noite
Se espalhe em Latino America
El nombre del hombre es pueblo
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Espero a manhã que cante
El nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes
Soy loco por ti de amores
Um poema ainda existe
Com palmeiras, com trincheiras
Canções de guerra, quem sabe
Canções de mar, ay hasta te conmover
Soy loco por ti, America
Soy loco por ti de amores
Soy loco por ti, America
Sou loco por ti de amores
Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício
No precipício de luzes
Entre saudades, soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços, nos olhos
Nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda
Dentro dos braços da camponesa
Guerrilheira, manequim
Ai de mim
Nos braços de quem me queira

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In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 48, p. 40-41, 1978

NOTA: Parceria com Gilberto Gil e Torquato Net
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Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

A Sé do Rio de Janeiro

Positivamente não contáveis com um passeio à Sé do Rio de Janeiro.

Quando nos ocupamos do Palácio Imperial, visitastes e estudastes comigo a igreja do antigo Convento do Carmo, elevada a catedral desta cidade por alvará de 15 de junho de 1808, c, sem dúvida, vos supusestes por isso livres de um novo passeio exclusivamente destinado à Sé.

Acrescentai mais unia suave ilusão ao número das vossas ilusões perdidas. Armai-vos de paciência, porque eu resolvi dar na Sé com todos os meus companheiros de passeio, e temos muito que andar.

Aqui não há apelação nem agravo. Sou senhor absoluto nos meus passeios. Há tantos subdelegados que governam como reizinhos absolutos na sua terra, que não deve admirar que eu me faça ditador na minha obra. Aqueles bichos não são melhores do que eu.

Preparai-vos, já disse. Não julgueis que o passeio à Sé vai ser feito muito cômoda e agradavelmente, seguindo pela Rua do Ouvidor, parando diante da Notre Dame de Paris para admirar as sedas expostas, comprando coronéis no Desmarais, e ao chegar a Rua Direita, descansando um pouco nos banquinhos do boulevard Carceller, e entrando enfim na Capela Imperial para ouvir o cantochão dos cônegos, que realmente desafinam muito, porém, não tão desastradamente para o Tesouro Nacional como as companhias líricas italianas, que têm a sua Sé no Provisório, abismo permanente do dinheiro público.

Desenganem-se e aprontem-se. Temos que acompanhar a Sé e o competente cabido, que fizeram mais mudanças do que os franciscanos e os carmelitas, ou tantas como os inquilinos que deixam de pagar aos proprietários o aluguel das casas em que moram.

Comecemos.

A catedral do Rio de Janeiro e o corpo capitular estabeleceram-se apenas, se realizou a sua instituição na primeira matriz da cidade, tia igreja dedicada ao mártir S. Sebastião.

Mas onde era essa Igreja de S. Sebastião?

É impossível prosseguir no nosso passeio sem deixar esclarecido este ponto.

Cumpre contar em quatro palavras uma longa história.

Os franceses são tidos na conta de homens de tanto espírito como bom gosto, e eu creio que eles merecem, desde o meado do século décimo sexto, esta reputação, porque, enquanto os portugueses, descobridores do Brasil, depois de mais de vinte anos de empenhos de colonização dos seus domínios da América, deixavam deserta e desestimada a magnífica Niterói, namoraram-se da formosa cabocla tão perdidamente os franceses, que um belo dia ousaram com mão armada apoderar-se dela.

Os portugueses trocaram então, a indiferença por amor, e ciumentos daqueles intrusos apaixonados, vieram, no fim de cinco anos, em 1560, atacar o estrangeiro que dominava no Rio de Janeiro. Mem de Sá, o terceiro governador geral do Brasil, foi quem dirigiu a empresa e, ficou vencedor, mas chegou, viu, venceu, e... foi-se, e apenas foi-se, tornaram os franceses vencidos, porém não convencidos, a ocupar as suas posições.

Realmente fora um muito gastar de pólvora sem proveito algum. Mem de Sá regalou-se de dar pancada, e não colheu resultados reais. Deu pancada de cego. Pôs os intrusos fora de casa, mas logo retirou-se, deixando a casa sem moradores e com a porta aberta.

E que porta! – A barra do Rio de Janeiro.

Os franceses tornaram a entrar, e fizeram multo bem.

Portugal devia ter mandado um bom presente ao rei de França, que não soube ou não pôde acudir com reforços poderosos aos poucos vassalos seus que estavam sonhando com a França Antártica no Rio de Janeiro.

Mas, abandonados pelo seu governo, os franceses, no fim de outros cinco anos, viram chegar à formosa baía de Niterói Estácio de Sá, sobrinho do governador geral do Brasil, à frente de uma coluna de portugueses, para lançá-los fora das posições que ocupavam.

Os franceses eram poucos. Tinham, porém, a seu favor o concurso valioso dos tamoios, que os estimavam.

Estácio de Sá reconheceu que a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro não era questão de pouco mais ou menos, e como trazia a incumbência gloriosa de fundar uma cidade que dominasse a majestosa baía, desembarcou junto do Pão de Açúcar, e na bela praia, que durante algum tempo se denominou de Martim Afonso e depois ficou sendo chamada Praia Vermelha, lançou, no ano de 1565, os fundamentos de uma cidade a que deu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Convém saber, pelo sim pelo não, que o nome da cidade foi mais aconselhado pela devoção a um grande senhor da terra do que pela que era devida àquele santo mártir do céu. Estácio de Sá, neste caso, fez de S. Sebastião um pau de cabeleira para render seus cultos ao rei de Portugal D. Sebastião. Foi um dom escondido atrás de um santo.

Não me chamem má língua. Brito Freire foi quem me revelou o segredo dessa mistificação de que foi vítima o santo, porque escreveu no livro 1, § 78 da sua Guerra Brasílica, que "chamaram (a cidade) de S. Sebastião, vinculando a lisonja de el-rei, que era do mesmo nome daquele tempo, à devoção do santo".

E o mais é que a lisonja sabe a açúcar mesmo ao paladar dos santos. S. Sebastião tanto gostou da lembrança de Estácio de Sá, que chegou a descer do céu, como em breve terei ocasião de dizer, e pôs em debandada os franceses e tamoios, que teimavam em resistir.

Continuemos, porém, a história. Lançados os fundamentos da cidade, isto é, resolvida a sua fundação na praia de Martim Afonso, levantou-se uma igreja a S. Sebastião. Foi um templo edificado em poucos dias, e não passou de uma casa de pau-a-pique com o seu teto coberto de palha.

Não tenhais pena de S. Sebastião pela rudeza e humildade da sua primeira igreja entre nós. Eu creio que nessa casa de palha ele foi mais sincera e piedosamente adorado do que o são atualmente todos os santos e santas em seus ricos templos e com as suas brilhantíssimas festas, anunciadas pelas gazetas a modo de espetáculos de teatros, com a declaração do mestre que vai reger a música, das moças bonitas que vão cantar os solos, e não sei mesmo se do fogueteiro que fabricou as girândolas.

Quase dois anos correram em que Estácio de Sá, com os portugueses na praia de Martim Afonso, e os franceses nos pontos que ocupavam, levaram a trocar balas e seus índios a trocar flechas com verdadeira inutilidade, até que a 19 de janeiro de 1567, chegou o governador geral Mem, de Sá em socorro do sobrinho, e como o dia seguinte, 20 de janeiro, fosse consagrado a S. Sebastião, aproveitou a coincidência para atacar os franceses, e o fez com tanto ardor, que completamente os derrotou, tomando-lhes todas as suas fortificações e destruindo todas as suas esperanças de França Antártica.

Renhida e terrível foi a peleja. A vitória, porém, não podia deixar de declarar-se pelos portugueses, porque do lado contrário batalhavam os sectários de Calvino e nas colunas de Mem de Sá verdadeiros católicos, entre os quais combatia, segundo a voz da tradição, o próprio santo mártir S. Sebastião.

Declaro que neste ponto não invento um romance de mau gosto, nem repito história que me fosse contada pelo meu amigo o padre velho. Apenas e simplesmente retiro uma tradição conservada por alguns autores.

Brito Freire diz relativamente a S. Sebastião as seguintes palavras: "a quem os portugueses aclamaram padroeiro em esta guerra, porque em algumas ocasiões mais apertadas (referem às relações manuscritas do venerável padre José de Anchieta) que a favor dos nossos se vira pelejar contra os inimigos".

Rocha Pita, ainda mais positivo, tratando da fundação da cidade do Rio de Janeiro, escreve o seguinte: "deu-se-lhe o nome de S. Sebastião, a cujo patrocínio atribuíram todos aquela vitória, em que houve indícios certos (como é tradição constante) que fora nela capitão, sendo por mu
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Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Drama de Bárbara Heliodora

"Bárbara bela
do norte estrela
que o meu destino
sabes guiar."

Quem é esse que assim canta
como quem está chorando?
Suas faces encovaram,
seus olhos se amorteceram,
sobre seus cabelos negros
cai uma chuva de cinza.
Ah! e havia tanta brasa
em torno de seus cabelos,
tanto sol na sua ilharga,
tanto ouro nas suas minas,
tanto potro galopando
nas suas terras sem fim.

Grão de poeira quando o vento
a madrugada castiga:
Já não é mais Alvarenga
quem foi Alvarenga um dia.

Do galho tomba uma fruta
verde sobre o lago fundo.
A árvore guardava a seiva
toda nessa fruta verde.
A mão trêmula do poeta
mal sabe aquilo que escreve:

"Tu entre os braços
ternos abraços
da filha amada
podes gozar."

A essas horas, na distância,
vai pela tarde dorida
sob a chuva, entre salpicos
de lama, um caixão mortuário
sem enfeites nem bordados,
senão os que a lama asperge
no pano que cobre as tábuas.

Quando a alvura da açucena
se refugiava nas moitas,
Maria Ifigênia encontra
sua gruta para sempre.

É deveras a Princesa
do Brasil, essa menina
de madeixas escorridas,
de lábios esmaecidos,
de túnica mal vestida?

Essa, a mesma por quem vinham
da Corte os melhores mestres
de dança e língua estrangeira?
A de damascos e auréolas
a quem brotavam nos dedos
tíbios ramos de coral?

Linda, lendária Princesa,
por quem chora já sem lágrimas
pobre mulher desvairada
de olhos que olham mas não vêem.

Chora Bárbara Heliodora
Guilhermina da Silveira.
E em suas artérias corre
o sangue de Amador Bueno!
Chora, porém já sem lágrimas.

É de mármore seu rosto.
Seu busto cai sobre os joelhos:
flores que de trepadeiras
pendem murchas para o solo.

Talvez já nem saiba como
– para donaire da estirpe –
na ponta dos pés erguida
em hora periclitante
ousou admoestar o esposo:
"Antes a miséria, a fome,
a morte, do que a traição!"

Valem muralhas de pedra
para represa dos rios,
certas palavras eternas
que decidem do destino.


Publicado no livro Madrinha Lua (1952)
LISBOA, Henriqueta. Obras completas: poesia geral: 1929-1983. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p. 21.
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