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Poemas neste tema

Nascimento

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Estória de João-Joana

Meu leitor, o sucedido
em Lajes do Caldeirão
é caso de muito ensino,
merecedor de atenção.
Por isso é que me apresento
fazendo esta relação.

Vivia em dito arraial
do país das Alagoas
um rapaz chamado João,
cuja força era das boas
pra sujigar burro bravo,
tigres, onças e leoas.

João, lhe deram este nome
não foi de letra em cartório,
pois sua mãe e seu pai
viviam de peditório.
Gente assim do miserê
nunca soube o que é casório.

Ficou sendo João, pois esse
é nome de qualquer um.
Não carece excogitar,
pedir a doutor nenhum,
que a sentença vem do Céu,
não de lá do Barzabum.

De pequeno ficou órfão,
criado por seus dois manos.
Foi logo para o trabalho
com muitos outros fulanos
e seu muque, sem mentira,
era o de três otomanos.

Na enxada, quem que vencia
aquele tico de gente.
No boteco, se ele entrava
pra bochechar aguardente,
o saudavam com respeito:
Deus lhe salve, meu parente.

João moço não enjeitava
parada com sertanejo.
Podiam brincar com ele
sem carregar no gracejo.
Dizia que homem covarde
não é cabra, é percevejo.

Um dia de calor desses
que tacam fogo no agreste,
João suava que suava
sem despir a sua veste.
Companheiro, essa camisa
não é coisa que moleste?

lhe perguntou um amigo
que estava de peito nu.
E João se calado estava
nem deu pio de nambu.
Ninguém nunca viu seu pelo
nem por trás do murundu.

João era muito avexado
na hora de tomar banho.
Punha tranca no barraco
fugindo a qualquer estranho.
Em Lajes nenhum varão
tinha recato tamanho.

João nas últimas semanas
entrou a sofrer de inchaço.
Mesmo assim arranca toco
sem se carpir de cansaço.
Um dia, não guenta mais,
exclama: O que é que eu faço?

Os manos, vendo naquilo
coisa mei’ desimportante,
logo receitam de araque
meizinha sem variante
para qualquer macacoa:
Carece tomar purgante.

João entrou no purgativo
louco de dor e de medo,
se estorcendo e contorcendo
na solidão do arvoredo,
pois ele em sua aflição
lá se escondera bem cedo.

O gemido que exalava
do peito de João sozinho
alertou os seus dois manos
que foram ver de mansinho
como é que aquele bravo
se tornara tão fraquinho.

No chão de terra, essa terra
que a todos nós vai comer,
chorava uma criancinha
acabada de nascer,
e João, de peito desnudo,
acarinhava este ser.

Aquela cena imprevista
causou a maior surpresa.
O que tanto se ocultara
se mostrava sem defesa.
João deixara de ser João
por força da natureza.

A mulher surgia nele
ao mesmo tempo que o filho,
tal qual se brotassem junto
a espiga com o pé de milho,
ou como bala que estoura
sem se puxar o gatilho.

Se os manos levaram susto,
até eu, que apenas conto.
E o povo todo, assuntando
a estória ponto por ponto,
ficou em breve inteirado
do que aí vai sem desconto.

Nem menino nem menina
era João quando nasceu.
A mãe, sem saber ao certo,
o nome de João lhe deu,
dizendo: Vai vestir calça
e não saia que nem eu.

À proporção que crescia
feito animal na campina,
em João foi-se acentuando
a condição feminina,
mas ele jamais quis ser
tratado feito menina.

Pois nesse triste povoado
e cem léguas ao redor,
ser homem não é vantagem,
mas ser mulher é pior.
Quem vê claro já conclui:
de dois males o menor.

Homem é grão de poeira
na estrada sem horizonte;
mulher nem chega a ser isso
e tem de baixar a fronte
ante as ruindades da vida,
de altura maior que um monte.

A sorte, se presenteia
a todos doença e fome,
para as mulheres capricha
num privilégio sem nome.
Colhe miséria maior
e diz à coitada: Tome.

É forma de escravidão
a infinita pobreza,
mas duas vezes escrava
é a mulher com certeza,
pois, escrava de um escravo,
pode haver maior dureza?

Por isso aquela mocinha
fez tudo para iludir
aos outros e ao seu destino.
Mas rola não é tapir
e chega lá um momento
da natureza explodir.

João vira Joana: acontecem
dessas coisas sem preceito.
No seu colo está Joãozinho
mamando leite de peito.
Pelo menos esse aqui
de ser homem tem direito.

De ser homem: de escolher
o seu próprio sofrimento
e de escrever com peixeira
a lei do seu mandamento,
quando à falta de outra lei
ou eu fujo ou arrebento.

Joana desiste de tudo
que ganhara por mentira.
Sabe que agora lhe resta
apenas do saco a embira.
E nem mesmo lhe aproveita
esta minha pobre lira.

Saibam quantos deste caso
houverem ciência que a vida
não anda, em favor e graça,
igualmente repartida,
e que dor ensombra a falta
de amor, de paz e comida.

Meu leitor (não eleitor,
que eu nada te peço a ti
senão me ler com paciência
de Minas ao Piauí):
tendo contado meu conto,
adeus, me despeço aqui.
31/08 e 02/09/1966
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Amândio César

Amândio César

Natal

Nasceu!
Numa garagem abandonada, coberta de chapa de zinco,
E num caixote velho de latas de óleo,
Entre desperdícios sujos e usados.

Nossa Senhora e S. José tinham vindo pela estrada
Os pés no asfalto negro, onde circulavam carros de luxo:
Pedir boléia, pediram, mas ninguém os viu ou quis ver,
Ou escutar o gesto...
Iam todos apressados para a ceia da noite,
Desbragada como um conta-quilômetros

E cheia de neblina e de promessas.
Nasceu!
Num caixote velho de latas de óleo,
Entre desperdícios sujos e usados.

O clarão dos holofotes chamou lã os vadios de todas as noites:
Os quarda-noturnos, os polícias de giro,
Os que não têm cama para dormir,
Os poetas e os fugidos à lei — todos! —
Todos os que naquela e nas outras noites
Não têm para onde ir, nem têm onde comer.
Foi, porém, o clarão dos holofotes gastos que os levou lá:
E viram, sobre os desperdícios sujos, num caixote velho,
O Redentor do mundo,
Aquecido pelos dez cavalos-vapor de um velho "Ford T"
Que, trabalhando, acordava a vida no arrabalde longínquo.

S. José e Nossa Senhora choravam:

Todos pediam no mundo a ressurreição do Cristo!
E Ele viera, Ele encarnara de novo
Através do ventre puríssimo da Virgem,
Sob a custódia lirial do descendente de David.

Os donos de carros de luxo cortavam o nevoeiro
Comprometidos pelas amantes caras que ficavam para trás;
As camionetas de transporte temeram a polícia das estradas
E os outros todos também não quiseram dar boléia
Ao Filho de Deus. (... )

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Herberto Helder

Herberto Helder

Iv B

Foi-me dada um dia apenas, num dos centros da idade,
a linha medida quando
o mármore se encurva, uma linha
de seda tirada ao remoinho
do casulo. Foi-me dada na origem
mesma, no caos
das linhas. E nunca mais, sob os dedos que tanta
aspereza tocaram, de tanta matéria
esfriaram ou aqueceram:
vísceras, madeiras profundas se alguém batesse com os nós dos dedos
e ressoassem, massas
na escuridão, massas
de prata arrancadas às matrizes,
quando a minha idade estava certa — nunca
mais saberei a distância de uma palavra a outra.
Linha do tórax, macia como
o fio ao meio do coração
do casulo, seda
em bruto,
no princípio.
Assoprado louvor, de tudo.
Apertar na mão sal grosso.
Sentir a queimadura das tripas no alguidar até aos cotovelos.
Desde as unhas até às faúlhas entre os cabelos. Se a prancha
vergasse e a curva, medida vagarosamente,
de seda, o arco de baixo mármore luminoso,
fosse o que unia um pólo
a outro pólo, pontos
de força terrestre
terrível. O espaço entre os dois nomes:
eu e o mundo, mundo e poema, poema e nascimento.
Ou a morte, substantivo que raia.
Alinha verbal luzindo sob os dedos,
poderosamente no molde do mármore cosendo os órgãos
da frase de carne.
Foi-me dado uma vez, o dom, e já não sei.
Sítio ecoado noutro sítio do papel, não sei.
Rouco se o bafo de Deus lhe batia,
assim escrito: o choro.
Morte, aqui, num poema, atrás, adiante,
morte com música.
Este que chegou ao seu poema pelo mais alto que os poemas têm
chegou ao sítio de acabar com o mundo: não o quero
para o enlevo, o erro, disse,
quero-o para a estrela plenária que há nalguns sítios de alguns poerm
abruptos, sem autoria.
Esteve ali a descobrir a ríspida maneira
daquilo:
plutónio, o abismo.
A luz trabalhava à rapidez do esplendor.
Os pregos vivos pela cabeça dentro, eu sei.
Vaso feito ao vivo, soprado quente, disse, eu sei.
O sistema do som no recôndito do poema para sempre,
poema incólume, de
música e
magnificação.
Onde se fica para o delírio, na parte
alta, devorada pelo ouro, a parte inóspita.
Frequentado também pelo mais simples:
quantidade e frescura, exemplo:
as frutas embebedam.
Alguém disse: a estrela absoluta entrou pela tua suavidade.
Travessa a travessa de osso — porque eras virgem — e transmudou-te.
Filho.
A boca a doer com o bafo e o hausto.
Queimado onde se fecha a carne, ou aberto pode
dizer-se
como buraco de matéria materna.
Áspera sacaria em cima:
sacos brilhando, sacos de sangue amarrado.
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Herberto Helder

Herberto Helder

V E

Selaram-no com um nó vivo como se faz a um odre,
a ele, o dos membros trançados, o recôndito.
Podiam arrancá-lo aos limbos, à virgindade, ao pouco,
destrançá-lo
para o potente e o suave do mundo:
as ramas de leite que se devoram,
sal e mel que se devoram,
pão, o alimento ígneo,
a testa lavorada pela estrela saída agora da forja.
Custara-lhe que a cabeça e os membros atravessassem a vagina
materna.
Mas depois os dois lados da cabeça refulgiram muito,
e ele ergueu-se à altura do seu nome,
antebraços apanhando a luz, pés a correr como em cima de água,
torso puro: algures, algo.
E então selaram-no, e à púrpura nele, e à música jubilatória dos
tubos na boca,
nó de couro num odre vivo,
a frescura como uma chaga:
louco, bêbado. E selado
luzia.
Duro, o sopro e o sangue tornaram-no duro,
as mães não o acalentam, ele,
o sombrio filho das gramáticas,
porque já não quer o peso, o pesadelo:
membros por cima da cabeça e por baixo da barriga,
saco selado a nós de osso, vivo, saco
vivo, osso vivo, dentro um montão
de tripas
brilhando, autor,
como se ele mesmo fosse o poema, lembra-se, o primeiro, talhando
o fôlego,
o das substâncias
quentes, respiração e soluço, o dos elementos:
coziam-se pinhas, pérolas, abelhas, o floral das varas: lume,
se Deus atiçasse ao mesmo tempo as obras —
com uma volta de vento nas mãos fazia
um dia total, o abismo,
ou propriamente o pomar do mundo:
paus estuando de uma agudeza para dentro das frutas,
as laranjeiras com as labaredas,
colinas,
as colinas estremecem pelo poder das laranjas,
ou outros exemplos: que as mães trazem da sua noite a curva
arcaicamente rútila de uma bilha e levam-na até à água fechada, e
abrem-na,
e a água é rútila na bilha,
e por cima do ar comburente e da água tão forte,
poema do começo,
o sistema sideral infunde-se nos trabalhos do terror e da doçura:
a ideia, a idade,
o idioma:
o mais rouco ou mais leve ou de azougue —
poema que desconheço, o antigo, o novíssimo,
o que devora
a mão que o escreve: no papel fica apenas
sal de ouro,
e vê-se tão bem como o rosto se eleva
da sua condição de cometa escarpado caído
raso,
e depois erguido defronte das câmaras,
por entre as pranchas de mármore das florestas da terra,
limpo, lento
— um toque secreto na têmpora,
o tremor da música na boca,
porque é o primeiro e o último baptismo:
o poema escreve o poeta nos recessos mais baixos,
às vezes o nome enche-se de água quebrada no gargalo da bilha,
às vezes é um nome esvaziado de água:
a sangue grosso,
a árduo sopro,
quando o rosto inquilino da luz já não se filma.

1991 e 1994.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 2

Não se vai entregar aos vários “motores” a fabricação do estio
o sussurro da noite apresentada pormenores
para um “estilo de silêncio” ou inclinações graves
expectando “instantes iluminatórios” é certo que o cenário
ganharia uma qualidade empolgante
mas desiste-se porque “a mão” vem depressa
indagam: que mão? que direcção? que posição?
indagam que “acção de surpresa e sacralidade” (se há)
o que houver “e vê-se pela pressa” é uma
espécie de vivacidade ou uma turbulência íntima
e ao mesmo tempo cautela poder serena destreza
de “chamar” de dentro do pavor e “unir” por cima
do pavor
agora estamos a fazer força para afastar o excesso
de planos multiplicidades antropofagias para os lados todos
que andam
“procuram um centro?” sim “uma razão de razões”
uma zona suficiente leve fixa uma como que
“interminabilidade”
serve o cabelo serve uma pedra redonda — a submissão
de um animal colocado sobre o seu próprio sangue ingénuo
temas de dias consumidos ou consumados teatros para saídas
altas entradas altas saídas baixas entradas baixas “movimentos”
aí mesmo é que se desmata o sítio excepcional
o acaso da ocasião fértil por si
mão para “escrever” um propósito inerente a natureza compacta
de um “peso movimentado” até se encontrar como
“peso próprio”
esta doçura que é o escândalo dos “mortos usando
cabeças de ouro o terror da riqueza”
mão apenas em dedicatória a lavouras desconhecidas
da “festa”
ela mesma a sua festa inferida de aí estar
sobre o rosto que se imprime de dentro a “rotação”
irresistível enquanto desce enquanto os lábios
fervem da sua “lepra” e trevas e luzes se combinam
numa tensão interna
“escrita e escritura” desenvolvidas pelo silêncio
que as não ameaça mas de si as libera como uma
borboleta ávida uma dona do espaço
visível proprietária da luz e sua extensão
“sinal” daquilo que se abriu por sua energia mesma
e nenhum arrepio de horror sequer um “transe”
fere o flanco oferecido ao mundo
apenas um “nascimento” o ritmo trabalhado noutro e trabalhando
outro ritmo como a malha das artérias
um mapa uma flor quentíssima em fundo de atmosfera
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