Paixão
Fernando Pessoa
MARIA: Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração...
Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
Quando há amor a gente não conversa:
Ama-se, e fala-se para se sentir.
Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas,
Sem que mo digas, se eu sentir que me amas.
Mas tu dizes palavras com sentido,
E esqueces-te de mim; mesmo que fales
Só de mim, não te lembras que eu te amo.
Ah, não perguntes nada, antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse toda com o coração.
Se te vejo não sei quem sou; eu amo.
Se me faltas, (...)
Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas
Quando deves amar-me. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
O Alguém pra te falar de quem tu amas.
Diz-me porque é que o amor te faz ser triste?
Canso-te? Posso eu cansar-te se amas?
Ninguém no mundo amou como tu amas.
Sinto que me amas, mas que a nada amas,
E não sei compreender isto que sinto.
Dize-me qualquer palavra mais sentida
Que essas palavras que, como se as perderas,
buscas
E encontras cinzas.
Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há coisa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que não o fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro,
E com essas alegrias e esse prazer
Eu viria depois a amar-te. Quando,
Criança, eu, se brincava a ter marido,
Me faltava crescer e o não sentia,
O que me satisfazia eras já tu,
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma estrada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.
Tens um segredo? Dize-mo, que eu sei tudo
De ti, quando m'o digas com a alma.
Em palavras estranhas que m'o fales,
Eu compreenderei só porque te amo.
Se o teu segredo é triste, eu saberei
Chorar contigo até que o esqueças todo.
Se o não podes dizer, dize que me amas,
E eu sentirei sem qu'rer o teu segredo.
Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já hoje, mas de longe,
Como as coisas se podem ver de longe,
E ser-se feliz só por se pensar
Em chegar onde ainda se não chega.
Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta!
FAUSTO:
Compreendo-te tanto que não sinto.
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir...?
MARIA:
Para que queres compreender
Se dizes qu'rer sentir?
Fernando Pessoa
EPITALÂMIO – XIV - T
De conhecer essas entranhas em chupados sorvos,
De pôr primeira mão nesse cabelo do ventre
E apalpar o fojo labiado,
A fortaleza feita para ser tomada, e pela qual
Sente o aríete engrossar e doer de desejo.
A trémula alegre noiva sente todo o calor do dia
Nesse lugar ainda enclaustrado
Onde a sua virginal mão nocturna fingia
Um vazio lucro de prazer.
E dos outros a maior parte é disto que segredará,
Sabendo o rápido trabalho que é;
E as crianças, que observam com ávidos olhos,
Agora antegozam de saber
Da carne, e com homens e mulheres crescidos fazer
O acto coceguento e líquido
Por cujo sabor em cantos escusos tentam
O que mal sabem como é seco ainda.
Fernando Pessoa
Fiquei doido, fiquei tonto…
Meus beijos foram sem conto,
Apertei-a contra mim,
Aconcheguei-a em meus braços,
Embriaguei-me de abraços...
Fiquei tonto e foi assim...
Sua boca sabe a flores,
Bonequinha, meus amores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me,
E tantos beijos p'ra dar-me
Quantos eu lhe dou também.
Ah que tontura e que fogo!
Se estou perto dela, é logo
Uma pressa em meu olhar,
Uma música em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a querer achar.
Dá-me beijos, dá-me tantos
Que, enleado nos teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria vida,
Nem minha alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.
Não descanso, não projecto
Nada certo, sempre inquieto
Quando te não beijo, amor,
Por te beijar, e se beijo
Por não me encher o desejo
Nem o meu beijo melhor.
Ibn Ammar
Saudade
sem que uma lágrima me caía
como a do enamorado enternecido,
ou de ti, Sevilha,
sem um suspiro de ansiedade?
sois terras vestidas, pela chuva fina,
com a túnica da mocidade,
a mocidade que se desvaneceu
quando me furtou meus amuletos
assaltou-me a memória dos amores ardentes
como se me consumisse um lume violento
no mais profundo deste meu coração.
oh noites minhas de antigamente!
Que me importavam censuras dos críticos!
Nada me desviava do amor mais louco.
A insónia vem-me de uns olhos lânguidos
E sofro por uma silhueta de esbelto talhe.
Ibn Ammar
Do amor
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
Florbela Espanca
Meu Amor
É pouco, é muito pouco e é bastante
Para que esta paixão doida e constante
Dia após dia cresça com vigor!
Como de um sonho vago e sem fervor
Nasce assim urna paixão tão inquietante!
Meu doido coração triste e amante
Como tu buscas o ideal na dor!
Isto era só quimera, fantasia,
Mágoa de sonho que se esvai num dia,
Perfume leve dum rosal do céu...
paixão ardente, louca isto é agora,
Vulcão que vai crescendo hora por hora...
Ó meu amor, que imenso amor o meu!
Florbela Espanca
Trazes-me em tuas mãos
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso,
Que a solitária estrada perfumou.
Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me poisou.
0 silencio, em redor, é urna asa quieta...
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de túlipa entreaberta...
Cheira a ervas amargas, cheira a sándalo...
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo...
Florbela Espanca
Crepúsculo
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes...
E os lírios fecham... Meu Amor, não sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes...
O Silêncio abre as mãos... entorna rosas...
Andam no ar carícias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando...
E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha
Um coração ardente palpitando...
Florbela Espanca
Confissão
De frio e de gelado, de pérfido e cruel,
Como um orvalho frio no tampo duma lousa,
Como em doirada taça algum amargo fel.
Odeio-te também. O teu olhar ideal
O teu perfil suave, a tua boca linda,
São belas expressões de todo o humano mal
Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda.
Desprezo-te também. Quando te ris e falas,
Eu fico-me a pensar no mal que tu calas
Dizendo que me queres em íntimo fervor!
Odeio-te e desprezo-te. Aqui toda a minh’alma
Confessa-to a rir, muito serena e calma!
...................................................................
Ah, como eu te adoro, como eu te quero, amor!...
Florbela Espanca
Blasfêmia
Cai a noite nos longes donde vim...
Toda eu sou alma e amor! Sou um jardim!
Um pátio alucinante de Granada!
Dos meus cílios, a sombra enluarada,
Quando os teus olhos descem sobre mim,
Traça trêmulas hastes de jasmim
Na palidez da face extasiada!
Sou no teu rosto a luz que o alumia...
Sou a expressão das tuas mãos de raça...
E os beijos que me dás já foram meus...
Em ti sou glória, altura e poesia!
E vejo-me (Oh, milagre cheio de graça!)
Dentro de ti, em ti, igual a Deus!...
Florbela Espanca
Humildade
Beijar terna e humilde em lânguido fervor;
Q’ria poisar fervente a boca apaixonada
Em cada passo teu, ó meu bendito amor!
De cada beijo meu, havia de nascer
Uma sangrenta flor! Ébria de luz, ardente!
No colo purpurino havia de trazer
Desfeito no perfume o mist’rioso Oriente!
Q’ria depois colher essas flores reais,
Essas flores de sonho, estranhas, sensuais,
E lançar-tas aos pés em perfumados molhos.
Bem paga ficaria, ó meu cruel amante!
Se, sobre elas, eu visse apenas um instante
Cair como um orvalho os teus divinos olhos!
Florbela Espanca
Vi
E ao sol que é loiro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de Princesas e de Fadas;
Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;
Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!
E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço!
H.C. Artmann
querida idolatrada
de chemnitz a missiones poughkeepsie u.r.s.s. recommandé
à senhora eu envio esta carta de amor
para que possa encaixá-la em seu lac de cygne
como um pássaro sibilante a mais a migrar
na pejada concha do céu junino da ômegabóboda
no recém-restaurado átrio da sinfônica do estado aleluia
eu sou em verdade um sem-vergonha um sacropândego
um heitor vira-copos a patinar campinas
por ousar dirigir esta carta a seu pas
de deux
mas eu nada exijo não eu tão-só peço-lhe
que aceite as pérolas que lanço a seus corpos
todos os seus sonhos misericordiosa sra.! saúdo-a! sua bença!
minha filiforminha escrita à pena minha carta em claro
minha extraordinária orig. pat. insígniaficante
como nada mais peço-lhe que a aceite como
um homem de princípios um rolls royce 59 uma ferrari 60
polidactilocomotiva a engatinhar para las vegas tou-tou
tou-tou tou-tou
uma banheira sob-medida no maksoud em são paulo
um swing em pub& cócegas em núcleos ricos de novela
em alphaville em estilo casa-grande-e-bengala do eng. arq.
e urbanista komudyabusxamavaoblableblufu-
lanim
e caso tudo isso não lhe chegue aos pés pois seja
ainda
uma diva radiante em sua próxima performance
a 23 deste 19h30 em ponto horário de brasília
merda merda merda
e uma ovação entre 69 cortinas e chuva de
rosas champagne
deus sobre os montes! o que deveria nem tudo
e que por certo nem tudo será minha epistolazinha
minha clara-neve
minha belíssima
minha fofa
minha tu tu
minha toda toda papoulacreponizada
via aérea par avion luftpost u.a.m.
no trajeto entre aa& bee
(tradução de Ricardo Domeneck)
Jalāl ad-Dīn Muḥammad Balkhī, Rūmī
Vem ao pomar
Há vinho, luz e namorados na romãzeira.
Se não vieres, estes não têm importância.
Se tu vieres, estes não têm importância.
André Pieyre de Mandiargues
Brulote
Nizâr Qabbânî
sobre o amor marinho
Frank O'Hara
Para Lígia, após uma festa
Jacques Brel
Não vá embora
Herberto Helder
Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios
Hadewijch de Antuérpia
Por mais tristes que estejam
Abu Ishaq Ibrahim Ibn Sahl al-Isra’ili al-Ishbili
Um belo rapaz
me pergunta sorrindo: – qual a tua religião?
Eu lhe respondo: em teu amor encontro minha fé,
meu paraíso, meu Deus e minha eternidade.
Tradução de Paulo Azevedo Chaves, in "Nus" (Editora Comunicarte, 1991).
Isabel Câmara
Hora sagrada
Sob o travesseiro
a tesoura segura
o Ouro
o Trigo
o abraço ligeiro
de quem tem cheiro
das coisas pagãs
anãs sob o linho fino
o vinho rastreiro.
Faço a feira
vivo beirando a beira
da Orgia
que pia, escorrega,
cortando ligeira
a noite do dia que me alivia.
E aí só cria
meu mundo de fantasia
Agora vê se não chia
Você não é minha tia.
Caio Valério Catulo
99.
Juvêncio, te roubei quando brincavas.
Mas não impunemente: pois da cruz mais alta
me vejo, há uma hora ou mais, pendido
pedindo-te perdão, e sem que minhas lágrimas
consigam aplacar a tua ira.
Assim que te beijei, teus dedos delicados
te lavaram o lábio com gotículas,
de modo que do meu no teu não resta nada,
pois julgaste ser mijo, não saliva.
Desde então me castigas com um amor negado,
e de tantas maneiras me excrucias,
que vejo, então, mudado o beijo de ambrosia
em amargor pior que o mesmo amargo;
por um selinho amor assim me castigou:
o que faria, ai, ai, se fossem dois?
Surripui tibi, dum ludis, mellite Iuventi,
suaviolum dulci dulcius ambrosia.
verum id non impune tuli: namque amplius horam
suffixum in summa me memini esse cruce,
dum tibi me purgo nec possum fletibus ullis
tantillum vestrae demere saevitiae.
nam simul id factum est, multis diluta labella
guttis abstersisti omnibus articulis,
ne quicquam nostro contractum ex ore maneret,
tamquam commictae spurca saliva lupae.
praeterea infesto miserum me tradere amori
non cessasti omnique excruciare modo,
ut mi ex ambrosia mutatum iam foret illud
suaviolum tristi tristius elleboro.
quam quoniam poenam misero proponis amori,
numquam iam posthac basia surripiam.
Erich Fried