Poemas neste tema
Sabedoria
Bruna Lombardi
INVESTIGAÇÃO DA VIDA
Falamos da mesma coisa, você e eu
só que você possui a estranha luz
dos que já sacaram tudo
coisa serena que brota da sabedoria
enquanto eu
movimento as mãos, quase choro
busco a veemência, a atitude
de drama que me ensinaram de criança
sou arrogante, intolerante
minha impaciência não se justifica.
Talvez porque eu seja daqueles que acreditam
que se muda o curso do mundo
com uma ideia
e se luta e se rebela e essas coisas todas
que sempre me pareceram dignas e justas
e me inflamaram
e me deram um rumo.
Agora já não sei. Tento evitar o caminho da descrença
e não tenho ainda a sua lucidez.
Talvez seja esse o difícil minuto
que antecede o fruto.
Talvez.
Falamos de um só sentido, uma mesma consciência
pequenos e humanos, às vezes um pouco tristes.
só que você possui a estranha luz
dos que já sacaram tudo
coisa serena que brota da sabedoria
enquanto eu
movimento as mãos, quase choro
busco a veemência, a atitude
de drama que me ensinaram de criança
sou arrogante, intolerante
minha impaciência não se justifica.
Talvez porque eu seja daqueles que acreditam
que se muda o curso do mundo
com uma ideia
e se luta e se rebela e essas coisas todas
que sempre me pareceram dignas e justas
e me inflamaram
e me deram um rumo.
Agora já não sei. Tento evitar o caminho da descrença
e não tenho ainda a sua lucidez.
Talvez seja esse o difícil minuto
que antecede o fruto.
Talvez.
Falamos de um só sentido, uma mesma consciência
pequenos e humanos, às vezes um pouco tristes.
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Aníbal Machado
O homem que ri
O homem que ri liberta-se. O que faz rir esconde-se.
Teu inimigo de certo modo te pertence: é um dos teus aspectos.
Teu inimigo de certo modo te pertence: é um dos teus aspectos.
1 685
1
Costa Andrade
Contratados
A hora do sol posto
as rolas traçam
desenhos de feitiços sinuosos
caminhos sob a calma das mulembas
e abraços de segredos e silêncios.
...longe...muito longe
um risco brando
acorda os ecos dos quissanjes
vermelho como o fogo das queimadas
com imagens de mucuisses e luar.
Canções que os velhos cantam
murmurando.
e nos homens cansados de lembrar
a distância vai calando mágoas.
renasce em cada braço
a força de um secreto entendimento.
as rolas traçam
desenhos de feitiços sinuosos
caminhos sob a calma das mulembas
e abraços de segredos e silêncios.
...longe...muito longe
um risco brando
acorda os ecos dos quissanjes
vermelho como o fogo das queimadas
com imagens de mucuisses e luar.
Canções que os velhos cantam
murmurando.
e nos homens cansados de lembrar
a distância vai calando mágoas.
renasce em cada braço
a força de um secreto entendimento.
1 269
1
Machado de Assis
Espinosa
Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante idéia.
E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.
Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas
Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.
Publicado no livro Poesias Completas: Crisálidas, Falenas, Americanas, Ocidentais. Poema integrante da série Ocidentais.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.163. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante idéia.
E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.
Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas
Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.
Publicado no livro Poesias Completas: Crisálidas, Falenas, Americanas, Ocidentais. Poema integrante da série Ocidentais.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.163. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
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1
Raul de Leoni
Ironia!
Ironia! Ironia!
Minha consolação! Minha filosofia!
Imponderável máscara discreta
Dessa infinita dúvida secreta,
Que é a tragédia recôndita do ser!
Muita gente não te há de compreender
E dirá que és renúncia e covardia!
Ironia! Ironia!
És a minha atitude comovida:
O amor-próprio do Espírito, sorrindo!
O pudor da Razão diante da Vida!
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
Minha consolação! Minha filosofia!
Imponderável máscara discreta
Dessa infinita dúvida secreta,
Que é a tragédia recôndita do ser!
Muita gente não te há de compreender
E dirá que és renúncia e covardia!
Ironia! Ironia!
És a minha atitude comovida:
O amor-próprio do Espírito, sorrindo!
O pudor da Razão diante da Vida!
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
2 271
1
Juó Bananére
O Gorvo i o Raposo
Fabula di Lafontana
Traduçó futuriste
Mestre gorvo n'un gaglio sintadigno,
Tenha nu bico un furmaggio;
Mestre rapozo sintino u xirigno,
Aparlô nistu linguagio:
— Eh! dottore Corvo, bondí!
Come stá o signore, stá bózigno?
Come o signore é bunitigno!
Té parece uma giurití
Apariáno a virdade pura,
O xirósa griatura!
Si o vostro linguagio
E' uguali co vostro prumagio,
Giuro per Zan Biniditto
Che in tutto istu distritto
Non tê ôtro passarigno
Che segia maise bunitigno.
O gorvo ficô tô inxado
Con istas adulaçô,
Chi até paricia o Rodorfo
No tempo da intervençó.
I pr'a amustrá o linguagio
Abri os brutto bicô,
I dixó gaí o furmagio
Chi o Raposo logo pigô
I dissi:
Sô gorvo, o signore é un goió
Piore do Gapitó!
Ma aprenda bê ista liçó,
I non credite maise in dulaçó.
I assi dizéno fui s'imbora,
Se rino do gorvo gaipóra.
O Gorvo, danado da a vida,
I co logro cre illi livô,
Pigô um pidaço di górda
I s'inforcô.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
Traduçó futuriste
Mestre gorvo n'un gaglio sintadigno,
Tenha nu bico un furmaggio;
Mestre rapozo sintino u xirigno,
Aparlô nistu linguagio:
— Eh! dottore Corvo, bondí!
Come stá o signore, stá bózigno?
Come o signore é bunitigno!
Té parece uma giurití
Apariáno a virdade pura,
O xirósa griatura!
Si o vostro linguagio
E' uguali co vostro prumagio,
Giuro per Zan Biniditto
Che in tutto istu distritto
Non tê ôtro passarigno
Che segia maise bunitigno.
O gorvo ficô tô inxado
Con istas adulaçô,
Chi até paricia o Rodorfo
No tempo da intervençó.
I pr'a amustrá o linguagio
Abri os brutto bicô,
I dixó gaí o furmagio
Chi o Raposo logo pigô
I dissi:
Sô gorvo, o signore é un goió
Piore do Gapitó!
Ma aprenda bê ista liçó,
I non credite maise in dulaçó.
I assi dizéno fui s'imbora,
Se rino do gorvo gaipóra.
O Gorvo, danado da a vida,
I co logro cre illi livô,
Pigô um pidaço di górda
I s'inforcô.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 196
2 015
1
Renata Pallottini
O Carro
O carro corre ao longe numa boa
feito a nuvem que passa,
feito o vento que voa.
A máquina do carro é o fino;
o ruído ardido
é o defeito que tem tudo que é feito.
Senão, tudo era chato
e perfeito.
In: PALLOTTINI, Renata. Café com leite. São Paulo: Quinteto, 1988. p.1
feito a nuvem que passa,
feito o vento que voa.
A máquina do carro é o fino;
o ruído ardido
é o defeito que tem tudo que é feito.
Senão, tudo era chato
e perfeito.
In: PALLOTTINI, Renata. Café com leite. São Paulo: Quinteto, 1988. p.1
2 703
1
Hermes Fontes
Messianeida
São Francisco de Assis pregou aos pássaros,
e Santo Antônio aos peixes.
Mais corajoso do que São Francisco
e do que Santo Antônio,
Jesus pregou aos homens e às mulheres...
Perderam, todos eles, o seu tempo
e o seu sermão:
O mais sábio por certo,
o mais sábio de todos foi São João,
que pregou no deserto...
Publicado no livro A Fonte da Mata...: 1830 em 1930 (1930). Poema integrante da série A Fonte.
In: FONTES, Hermes. Poesias escolhidas. Sel. e pref. Oliveira e Silva. Rio de Janeiro: Epasa, 1944. p.332-333. (Coleção de lirismo brasileiro
e Santo Antônio aos peixes.
Mais corajoso do que São Francisco
e do que Santo Antônio,
Jesus pregou aos homens e às mulheres...
Perderam, todos eles, o seu tempo
e o seu sermão:
O mais sábio por certo,
o mais sábio de todos foi São João,
que pregou no deserto...
Publicado no livro A Fonte da Mata...: 1830 em 1930 (1930). Poema integrante da série A Fonte.
In: FONTES, Hermes. Poesias escolhidas. Sel. e pref. Oliveira e Silva. Rio de Janeiro: Epasa, 1944. p.332-333. (Coleção de lirismo brasileiro
1 960
1
Zuca Sardan
Naufrágio
Quem pratica a virtude
só pra ganhar boa média
está mesmo muito perto
do vício.
Mais prático, no caso,
logo começar pelo vício...
Não há força sem habilidade.
Mas, pra que força?
Habilidade, só, resolve...
Responde-me, oh Infortúnio,
grão parteiro do Gênio:
"É menina ou menino?"
Oh almas fortes
domadoras da voluptuosidade,
Pilotos hábeis e serenos
evitando os rochedos:
"HOMEM AO MAR!!"
In: SARDAN, Zuca. Ás de colete. Pref. Alcides Villaça. Il. do autor. 2.ed.ampinas: Ed. da Unicamp, 1994. p.19. (Matéria de poesia
só pra ganhar boa média
está mesmo muito perto
do vício.
Mais prático, no caso,
logo começar pelo vício...
Não há força sem habilidade.
Mas, pra que força?
Habilidade, só, resolve...
Responde-me, oh Infortúnio,
grão parteiro do Gênio:
"É menina ou menino?"
Oh almas fortes
domadoras da voluptuosidade,
Pilotos hábeis e serenos
evitando os rochedos:
"HOMEM AO MAR!!"
In: SARDAN, Zuca. Ás de colete. Pref. Alcides Villaça. Il. do autor. 2.ed.ampinas: Ed. da Unicamp, 1994. p.19. (Matéria de poesia
1 804
1
Augusto dos Anjos
Agonia de um filósofo
Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, não me consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto agora à morte de um inseto!...
ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!
No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!
Rig-Veda. E, ante obras tais, não me consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto agora à morte de um inseto!...
ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!
No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!
6 703
1
Franz Kafka
O pião
Um filósofo costumava circular onde brincavam crianças. E se via um menino que tinha um pião já ficava à espreita. Mal o pião começava a rodar, o filósofo o perseguia com a intenção de agarrá-lo. Não o preocupava que as crianças fizessem o maior barulho e tentassem impedi-lo de entrar na brincadeira; se ele pegava o pião enquanto este ainda girava, ficava feliz, mas só por um instante, depois atirava-o ao chão e ia embora. Na verdade, acreditava que o conhecimento de qualquer insignificância, por exemplo, o de um pião que girava, era suficiente ao conhecimento do geral. Por isso não se ocupava dos grandes problemas – era algo que lhe parecia antieconômico. Se a menor de todas as ninharias fosse realmente conhecida, então tudo estava conhecido; sendo assim só se ocupava do pião rodando. E sempre que se realizavam preparativos para fazer o pião girar, ele tinha esperança de que agora ia conseguir; e se o pião girava, a esperança se transformava em certeza enquanto corria até perder o fôlego atrás dele. Mas quando depois retinha na mão o estúpido pedaço de madeira, ele se sentia mal e a gritaria das crianças – que ele até então não havia escutado e agora de repente penetrava nos seus ouvidos – afugentava-o dali e ele cambaleava como um pião lançado com um golpe sem jeito da fieira.
4 095
1
Fernando Pessoa
A ciência, a ciência, a ciência...
A CIÊNCIA, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com tanto esforço dado a ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com tanto esforço dado a ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.
6 170
1
Fernando Pessoa
Terceira: D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL
Claro em pensar, e claro no sentir,
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à idéia tida.
Tudo o mais é com Deus!
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à idéia tida.
Tudo o mais é com Deus!
5 589
1
Ana Hatherly
O círculo
O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
2 512
1
Angela Santos
Espelho
Olhei
em teus olhos
como quem se debruça sobre um rio sereno
e olhando bem no fundo
pressenti a mágoa e vi os sinais,
os sulcos as marcas gravadas
trazidas pelo caminhar....
Olhei tua fronte adornada
aqui e ali por levíssimos fios de prata
e a tua boca linda, vermelho sangue …
e desejei-te…
Nos teus olhos eu li,
a verdade que sentira
no teu rosto entendi a madureza
que trazes em ti
na tua boca o beijo pressentido
que o timbre da palavra
deixou em mim
Nas tuas palavras, a sabedoria, a inteireza,
a verdade , a alegria, a mágoa, a serenidade
e até a luz eu senti…
a luz-guia que nos leva ao cerne de almas irmãs
ao fundo do coração que treme
ao desejo lume que nos consome
ao sonho que nos traz juntas
e à vida que ligou
nossos caminhos aqui.
em teus olhos
como quem se debruça sobre um rio sereno
e olhando bem no fundo
pressenti a mágoa e vi os sinais,
os sulcos as marcas gravadas
trazidas pelo caminhar....
Olhei tua fronte adornada
aqui e ali por levíssimos fios de prata
e a tua boca linda, vermelho sangue …
e desejei-te…
Nos teus olhos eu li,
a verdade que sentira
no teu rosto entendi a madureza
que trazes em ti
na tua boca o beijo pressentido
que o timbre da palavra
deixou em mim
Nas tuas palavras, a sabedoria, a inteireza,
a verdade , a alegria, a mágoa, a serenidade
e até a luz eu senti…
a luz-guia que nos leva ao cerne de almas irmãs
ao fundo do coração que treme
ao desejo lume que nos consome
ao sonho que nos traz juntas
e à vida que ligou
nossos caminhos aqui.
1 139
1
Soares Bulcão
Parêmias
Quem muito quer do futuro
vê tudo através do verde;
Mais vale o pouco seguro:
— Quem muito quer, tudo perde.
A desgraça no mais forte
Mais robustece a esperança;
Nunca descreias da sorte;
—Quem espera sempre alcança.
Nunca motejes do pobre
Nem dos defeitos que vês;
Por igual o céu nos cobre:
— Cada qual como Deus fez.
Como a boca, a pena explica
Reservas do pensamento;
A letra da pena fica,
—Palavras, leva-as o vento.
Quem o bem fez bem espere,
E o mal também, se é devido:
Porque — Quem com ferro fere
Com o ferro será ferido.
Vai com jeito e paciência,
Se do melhor queres tu;
Bem nos mostra a experiência:
— Quem se vexa come cru.
Muita coisa que vidrilha
Parece ser um tesouro...
Não te iludas com o que brilha:
—Nem tudo que brilha é ouro...
vê tudo através do verde;
Mais vale o pouco seguro:
— Quem muito quer, tudo perde.
A desgraça no mais forte
Mais robustece a esperança;
Nunca descreias da sorte;
—Quem espera sempre alcança.
Nunca motejes do pobre
Nem dos defeitos que vês;
Por igual o céu nos cobre:
— Cada qual como Deus fez.
Como a boca, a pena explica
Reservas do pensamento;
A letra da pena fica,
—Palavras, leva-as o vento.
Quem o bem fez bem espere,
E o mal também, se é devido:
Porque — Quem com ferro fere
Com o ferro será ferido.
Vai com jeito e paciência,
Se do melhor queres tu;
Bem nos mostra a experiência:
— Quem se vexa come cru.
Muita coisa que vidrilha
Parece ser um tesouro...
Não te iludas com o que brilha:
—Nem tudo que brilha é ouro...
1 325
1
Miguel de Couto Guerreiro
Lisboa Emaraçada, no Século Iluminado
I — Como passa o mau por bom
Faz do diabo o povo um santo;
Ajuda o adulador;
Cala o sábio, por temor
De se opor a povo tanto…
E vai o diabo em andor.
II — Século iluminado
O Século iluminado
Ouço a este chamar.
E ninguém pode negar
Que está bem adiantado
Em mentir e em enganar.
III — Dos sabichões do tempo
Nenhuma razão alcanço
Para andar empanturrada
Esta gente iluminada.
Dizem que os velhos têm ranço…
E eles menos, que têm nada.
IV — Da causa de muitos erros
Tanto néscio! Tanto insano!
Donde vem tal desatino?
Tudo nasce de um engano,
Que é pelo poder humano
Medir o Poder Divino.
( in Antologia de Poetas Alentejanos)
Faz do diabo o povo um santo;
Ajuda o adulador;
Cala o sábio, por temor
De se opor a povo tanto…
E vai o diabo em andor.
II — Século iluminado
O Século iluminado
Ouço a este chamar.
E ninguém pode negar
Que está bem adiantado
Em mentir e em enganar.
III — Dos sabichões do tempo
Nenhuma razão alcanço
Para andar empanturrada
Esta gente iluminada.
Dizem que os velhos têm ranço…
E eles menos, que têm nada.
IV — Da causa de muitos erros
Tanto néscio! Tanto insano!
Donde vem tal desatino?
Tudo nasce de um engano,
Que é pelo poder humano
Medir o Poder Divino.
( in Antologia de Poetas Alentejanos)
930
1
Haroldo de Campos
hieróglifo para mario schoenberg
o olhar transfinito do mário
nos ensina
a ponderar melhor a indecifrada
equação cósmica
cinzazul
semicerrando verdes
esse olhar
nos incita a tomar o sereno
pulso das coisas
a auscultar
o ritmo micro -
macrológico da matéria
a aceitar
o spavento della materia (ungaretti)
onde kant viu a cintilante lei das estrelas
projetar-se no céu interno da ética
na estante de mário
física e poesia coexistem
como asas de um pássaro -
espaço curvo -
colhidas pela têmpera absoluta de volpi
seu marxismo zen
é dialético
e dialógico
e deixa ver que a sabedoria
pode ser tocável como uma planta
que cresce das raízes e deita folhas
e viça
e logo se resolve numa flor de lótus
de onde
- só visível quando damos conta -
um bodisatva nos dirige seu olhar transfinito.
nos ensina
a ponderar melhor a indecifrada
equação cósmica
cinzazul
semicerrando verdes
esse olhar
nos incita a tomar o sereno
pulso das coisas
a auscultar
o ritmo micro -
macrológico da matéria
a aceitar
o spavento della materia (ungaretti)
onde kant viu a cintilante lei das estrelas
projetar-se no céu interno da ética
na estante de mário
física e poesia coexistem
como asas de um pássaro -
espaço curvo -
colhidas pela têmpera absoluta de volpi
seu marxismo zen
é dialético
e dialógico
e deixa ver que a sabedoria
pode ser tocável como uma planta
que cresce das raízes e deita folhas
e viça
e logo se resolve numa flor de lótus
de onde
- só visível quando damos conta -
um bodisatva nos dirige seu olhar transfinito.
3 396
1
José Costa Matos
Passaram
Passaram como infâncias... águas... tais
como os aviões, avoantes, folhas secas,
manhãs de flores, tardes de pardais
e as falsificações de eternidades.
Que levaram, enfim? Toda essa gente
quis carregar alguma coisa, é certo:
planta que desce um galho sobre a rua
perde uma folha pra quem passa perto.
Passaram. Padres que não leram Bíblias,
Picassos que perderam seus pincéis,
astrônomos que olhavam para o chão.
Estiveram na escola, eram doutores.
E fica, indecifrada, a alma dos dias,
cartas de Deus que poucos sabem ler.
De O Povoamento da Solidão (1991)
como os aviões, avoantes, folhas secas,
manhãs de flores, tardes de pardais
e as falsificações de eternidades.
Que levaram, enfim? Toda essa gente
quis carregar alguma coisa, é certo:
planta que desce um galho sobre a rua
perde uma folha pra quem passa perto.
Passaram. Padres que não leram Bíblias,
Picassos que perderam seus pincéis,
astrônomos que olhavam para o chão.
Estiveram na escola, eram doutores.
E fica, indecifrada, a alma dos dias,
cartas de Deus que poucos sabem ler.
De O Povoamento da Solidão (1991)
870
1
Elisa Lucinda
Aviso da Lua que Menstrua
Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente.
Ela é uma cobra de avental.
Não despreze a meditação doméstica.
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente.
Ela é uma cobra de avental.
Não despreze a meditação doméstica.
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!
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Edimilson de Almeida Pereira
Induca Maria do Rosário
Induca, a vida onde
está?
O menino entrou na parede
e sumiu no escuro
da sala.
Induca, cheguei tarde
seus olhos estavam prontos.
Outro menino entra na parede
com uns biscoitos
muitos brancos.
Eh, Induca, a vida onde
está?
Espero que a noite desça
com paciência, espero.
Você chamará atenção do medo
com um provérbio.
Iinduca, os meninos
vêm saindo da parede.
A noite é outra e se curva.
Eu sei, eu sei
um provérbio.
está?
O menino entrou na parede
e sumiu no escuro
da sala.
Induca, cheguei tarde
seus olhos estavam prontos.
Outro menino entra na parede
com uns biscoitos
muitos brancos.
Eh, Induca, a vida onde
está?
Espero que a noite desça
com paciência, espero.
Você chamará atenção do medo
com um provérbio.
Iinduca, os meninos
vêm saindo da parede.
A noite é outra e se curva.
Eu sei, eu sei
um provérbio.
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Douglas Mondo
Mulher das águas
És mulher das águas,
quando recebes em teu corpo a espuma
como bruma e beijas sábia ventura.
Tão doce tua voz como mel,
quando acalentas o rouxinol cansado
e embriagas de amor o querubim no céu.
No campo desabrocha o suave lírio,
quando tuas mãos tocam o vento
e no etéreo molduras um mosaico delírio.
Teus afagos são gemidos como músicas lascivas,
quando entorpecem as almas dos poetas loucos
e calam a noite de inveja das estrelas em orgia.
Cai a última pétala em tua túnica suave graça,
quando brilham os olhos da esmeralda e da pérola
e silencia quem passa e nunca vira mulher tão bela.
És mulher tão linda e sábia,
quando a manhã faz da sabedoria um sorriso dela
e da poesia um desejo lânguido nesse dia.
quando recebes em teu corpo a espuma
como bruma e beijas sábia ventura.
Tão doce tua voz como mel,
quando acalentas o rouxinol cansado
e embriagas de amor o querubim no céu.
No campo desabrocha o suave lírio,
quando tuas mãos tocam o vento
e no etéreo molduras um mosaico delírio.
Teus afagos são gemidos como músicas lascivas,
quando entorpecem as almas dos poetas loucos
e calam a noite de inveja das estrelas em orgia.
Cai a última pétala em tua túnica suave graça,
quando brilham os olhos da esmeralda e da pérola
e silencia quem passa e nunca vira mulher tão bela.
És mulher tão linda e sábia,
quando a manhã faz da sabedoria um sorriso dela
e da poesia um desejo lânguido nesse dia.
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