Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Hemetério Cabrinha
Geminidade
Numa gôta de orvalho escassa, cintilante,
Há um mundo a rolar latente, palpitante
Em sua pequenez etérea, cristalina,
Que à luz do sol parece estrêla, diamantina;
Há um beijo de Deus para exaltar a vida...
E essa gôta do céu, na pétala caída,
Vivificando a planta e colorindo a flor,
Tem para a Natureza uma expansão de amor.
Assim também o pranto -- a lágrima tremente --
Como a gôta de orvalho, a derramar-se quente
De uns olhos cujo encanto a sobra da tristeza
Apagou, para dar emocional beleza
Que só a dor profunda esboça, plasma, imprime;
Traz em seu cintilar o que há de mais sublime
Nos refolhos sutís da alma desolada;
E num rosto ou num colo ebúrneo derramada,
Como o orvalho do céu, esplende em seu fulgor,
Um ósculo de Deus na exaltação da dor.
Há um mundo a rolar latente, palpitante
Em sua pequenez etérea, cristalina,
Que à luz do sol parece estrêla, diamantina;
Há um beijo de Deus para exaltar a vida...
E essa gôta do céu, na pétala caída,
Vivificando a planta e colorindo a flor,
Tem para a Natureza uma expansão de amor.
Assim também o pranto -- a lágrima tremente --
Como a gôta de orvalho, a derramar-se quente
De uns olhos cujo encanto a sobra da tristeza
Apagou, para dar emocional beleza
Que só a dor profunda esboça, plasma, imprime;
Traz em seu cintilar o que há de mais sublime
Nos refolhos sutís da alma desolada;
E num rosto ou num colo ebúrneo derramada,
Como o orvalho do céu, esplende em seu fulgor,
Um ósculo de Deus na exaltação da dor.
1 514
Gervásio de Pilares
Soneto
Ó triste mausoléu! Ó urna fria!
funesto monumento, sombra escura,
depósito fatal da formosura,
horroroso despojo da alegria.
Permite que te façam companhia,
as lágrimas que verto com ternura,
e sirva tanto mar de sepultura,
em que se oculte o Sol do melhor dia.
Mas se não tens da pedra a natureza,
quando pranto que é tão multiplicado,
não consegue abrandar tanta dureza:
deixa que nessa pira arda abrasado,
este meu coração logrando a empresa,
de ser em holocausto consagrado.
funesto monumento, sombra escura,
depósito fatal da formosura,
horroroso despojo da alegria.
Permite que te façam companhia,
as lágrimas que verto com ternura,
e sirva tanto mar de sepultura,
em que se oculte o Sol do melhor dia.
Mas se não tens da pedra a natureza,
quando pranto que é tão multiplicado,
não consegue abrandar tanta dureza:
deixa que nessa pira arda abrasado,
este meu coração logrando a empresa,
de ser em holocausto consagrado.
397
Gilberto Diener
Rio bagagem
Agreste, agreste canção
Que fala dos moleques
No rio tomando banho,
Caçando passarinho
Pelas estradas;
O rio era um quintal
Moleques banhando.
Canção da terra;
Dois corações
Podem ser felizes.
Tinha um negrinho, tiziu,
Sua risada espantava a passarada;
No seu coração, guardava um segredo:
Moça dos seus olhos
Tinha cabelos como espiga de milho;
Um sonho tão forte na noite
Onde a lua clareia
E reflete no Bagagem
A sua mocidade...
Um amor tão impossível
Não tem cura;
Duas raças tão puras
Não se podem misturar.
Nos dias que vadiava pela cidade,
Aspirava fundo o cheiro,
Alegria súbita de ver
Seus olhos claros;
Ao seu encontro a terra estremecia,
Sua risada espantava a passarada,
Um veneno exalava dos olhos nas janelas;
A cidade não consente um amor como este.
Banhos de rio, agreste canção;
Velhos amigos, velhos corações
Fez desse amor
A tristeza mais profunda.
E na noite em que os cães latem,
E silenciam instantaneamente...
A cidade prepara sua tocaia,
Seu bote escorraçador;
Ataca e bane velozmente
E, no clarear do dia,
O resto da violência
Se acabou a risada,
Tomou conta a passarada.
Nas noites de estrelas,
Pelo vale nas estradas,
Vem tanger os guaribas;
A terra estremece
Com a sua presença,
Os amigos o abraçam
E relembra a cor dos cabelos
De sua amada, banhos de rio...
Assim quando sopra o vento o milharal
Agreste, agreste canção.
Bahia / 1982
Que fala dos moleques
No rio tomando banho,
Caçando passarinho
Pelas estradas;
O rio era um quintal
Moleques banhando.
Canção da terra;
Dois corações
Podem ser felizes.
Tinha um negrinho, tiziu,
Sua risada espantava a passarada;
No seu coração, guardava um segredo:
Moça dos seus olhos
Tinha cabelos como espiga de milho;
Um sonho tão forte na noite
Onde a lua clareia
E reflete no Bagagem
A sua mocidade...
Um amor tão impossível
Não tem cura;
Duas raças tão puras
Não se podem misturar.
Nos dias que vadiava pela cidade,
Aspirava fundo o cheiro,
Alegria súbita de ver
Seus olhos claros;
Ao seu encontro a terra estremecia,
Sua risada espantava a passarada,
Um veneno exalava dos olhos nas janelas;
A cidade não consente um amor como este.
Banhos de rio, agreste canção;
Velhos amigos, velhos corações
Fez desse amor
A tristeza mais profunda.
E na noite em que os cães latem,
E silenciam instantaneamente...
A cidade prepara sua tocaia,
Seu bote escorraçador;
Ataca e bane velozmente
E, no clarear do dia,
O resto da violência
Se acabou a risada,
Tomou conta a passarada.
Nas noites de estrelas,
Pelo vale nas estradas,
Vem tanger os guaribas;
A terra estremece
Com a sua presença,
Os amigos o abraçam
E relembra a cor dos cabelos
De sua amada, banhos de rio...
Assim quando sopra o vento o milharal
Agreste, agreste canção.
Bahia / 1982
1 020
Gentil Braga
O Orvalho
Nas flores mimosas, nas folhas virentes
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
2 426
Gabriel Archanjo de Mendonça
Segredo
Eu quis depositar o meu segredo
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
923
Glícia Rodrigues
Nada
Num dia cinza
Mais triste que uma vida triste
Peguei uma cebola
Meticulosamente tirei
Capa por capa
Querendo descobrir não sei quê
Desmanchei-a cuidadosamente
Para nada machucar
Não chorei
Também não choveu
Como das outras vezes aprontei o jantar
E nada absolutamente nada aconteceu
E a noite continuou coma a mesma triste dor.
Mais triste que uma vida triste
Peguei uma cebola
Meticulosamente tirei
Capa por capa
Querendo descobrir não sei quê
Desmanchei-a cuidadosamente
Para nada machucar
Não chorei
Também não choveu
Como das outras vezes aprontei o jantar
E nada absolutamente nada aconteceu
E a noite continuou coma a mesma triste dor.
858
Pedro António Correia Garção
Soneto
Três vezes vi, Marília, de alva lua,
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado,
A linda aurora da presença tua.
Então subindo à serra calva e nua,
De um íngreme rochedo pendurado,
Os olhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.
Ali comigo vinham ter pastores,
Que meus suspiros férvidos ouviam,
Cortados do alarido dos clamores.
Tanto que a causa do meu mal sabiam,
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fugiam.
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado,
A linda aurora da presença tua.
Então subindo à serra calva e nua,
De um íngreme rochedo pendurado,
Os olhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.
Ali comigo vinham ter pastores,
Que meus suspiros férvidos ouviam,
Cortados do alarido dos clamores.
Tanto que a causa do meu mal sabiam,
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fugiam.
1 700
Flávio Villa-Lobos
Desencontro
Tantas mentiras dissemos um
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.
Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.
Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.
863
Flávio Villa-Lobos
Legados
Velejo por entre correntes marítimas
que o navio do destino
faz balançar,
arrastando meu sonho
em torvelinho, rumo às águas profundas
do imensurável mar.
As ondas eram pequenas,
pequeno era meu desejo de amar.
Quando me libertei da timidez
era tarde, tarde demais.
As ondas viraram vagas, vagalhões
e afundaram meu barco de papel.
As estrelas da anunciação
- que brilhavam como sóis
no mapa do céu -
apagaram-se todas.
Levaram com elas
o caminho do sonho acalentado
- inútil saber se sobreviveu.
Restou a figura do vento bravo
ventania carregando ao léu
minhas lágrimas velozes,
deixando-me apenas
um olhar vago,
eternamente escravo
do que não aconteceu.
que o navio do destino
faz balançar,
arrastando meu sonho
em torvelinho, rumo às águas profundas
do imensurável mar.
As ondas eram pequenas,
pequeno era meu desejo de amar.
Quando me libertei da timidez
era tarde, tarde demais.
As ondas viraram vagas, vagalhões
e afundaram meu barco de papel.
As estrelas da anunciação
- que brilhavam como sóis
no mapa do céu -
apagaram-se todas.
Levaram com elas
o caminho do sonho acalentado
- inútil saber se sobreviveu.
Restou a figura do vento bravo
ventania carregando ao léu
minhas lágrimas velozes,
deixando-me apenas
um olhar vago,
eternamente escravo
do que não aconteceu.
932
Fabio Valor Caldas
Janela
Foi da janela do meu quarto
Que te vi pela primeira e última vez,
Com o meu olhar sonolento
Observava a tua presença.
Seus cabelos brincando com o vento,
E seus olhos distraídos,
Suas pernas em passos frágeis,
E seus belos movimentos perdidos.
Uma passo gracioso saindo da calçada,
No momento em que um alegre
passarinho cantava em seu cortejo,
E você apenas caminhava...
Até que o carro te surpreendeu,
Derrubou-te no chão
Sujando tudo de sangue,
Levando sua alma para longe de mim.
Que te vi pela primeira e última vez,
Com o meu olhar sonolento
Observava a tua presença.
Seus cabelos brincando com o vento,
E seus olhos distraídos,
Suas pernas em passos frágeis,
E seus belos movimentos perdidos.
Uma passo gracioso saindo da calçada,
No momento em que um alegre
passarinho cantava em seu cortejo,
E você apenas caminhava...
Até que o carro te surpreendeu,
Derrubou-te no chão
Sujando tudo de sangue,
Levando sua alma para longe de mim.
955
Francisco Nóbrega
Solidão Amena
Malfazeja flor entre os homens
e os campinas humanas desgarradas,
rosa garrida com pétalas desfolhadas,
sombra perdida em horizontes sem fim,
tristeza alada...
Carregada com cores da sarjeta,
resplandeces, contudo, os tons da madrugada,
refúgio pobre de poeta angustiado,
prenhe de inspiração e ansiedade,
dor amada...
Amiga és dos puros, dos padres e dos poetas,
dos que labutam em claustro próprio,
gerando idéias, amargando sonhos,
e que ao fim deste clausura haja,
alegria ansiada...
Qual recato que conduz a dor d’alma,
escapando das mundanas vãs querelas,
arrematas teu leito de esperanças
ao encontro da luz anunciada,
amiga aureolada...
Mitigas a dor aos seres criadores,
na jornada sombria em que sua vida passa,
abrigo afetuoso de peregrinos escritores,
bálsamo amado com mágoas camufladas,
promessa sonhada...
Hás de levar-me aos cimos montanhosos,
donde se alcança o compreender sublime,
descortinando o mistério em plenitude,
amorizando o sonho de uma vida,
paz alcançada.
e os campinas humanas desgarradas,
rosa garrida com pétalas desfolhadas,
sombra perdida em horizontes sem fim,
tristeza alada...
Carregada com cores da sarjeta,
resplandeces, contudo, os tons da madrugada,
refúgio pobre de poeta angustiado,
prenhe de inspiração e ansiedade,
dor amada...
Amiga és dos puros, dos padres e dos poetas,
dos que labutam em claustro próprio,
gerando idéias, amargando sonhos,
e que ao fim deste clausura haja,
alegria ansiada...
Qual recato que conduz a dor d’alma,
escapando das mundanas vãs querelas,
arrematas teu leito de esperanças
ao encontro da luz anunciada,
amiga aureolada...
Mitigas a dor aos seres criadores,
na jornada sombria em que sua vida passa,
abrigo afetuoso de peregrinos escritores,
bálsamo amado com mágoas camufladas,
promessa sonhada...
Hás de levar-me aos cimos montanhosos,
donde se alcança o compreender sublime,
descortinando o mistério em plenitude,
amorizando o sonho de uma vida,
paz alcançada.
771
Francisco Moniz Barreto
Improviso
Ver... e do que se vê logo abrasado,
Sentir o coração de um fogo ardente,
De prazer um suspiro de repente
Exalar, e após ele um ai magoado!
Aquilo que não foi ainda logrado,
Nem o será talvez, lograr na mente;
Do rosto a cor mudar constantemente,
Ser feliz e ser logo desgraçado;
Desejar tanto mais quão mais se prive,
Calmar o ardor que pelas veias corre,
Já querer, já buscar que ele se ative;
O que isto é, a todos nós ocorre:
—Isto é amor, e deste amor se vive!
—Isto é amor, e deste amor se morre!
Sentir o coração de um fogo ardente,
De prazer um suspiro de repente
Exalar, e após ele um ai magoado!
Aquilo que não foi ainda logrado,
Nem o será talvez, lograr na mente;
Do rosto a cor mudar constantemente,
Ser feliz e ser logo desgraçado;
Desejar tanto mais quão mais se prive,
Calmar o ardor que pelas veias corre,
Já querer, já buscar que ele se ative;
O que isto é, a todos nós ocorre:
—Isto é amor, e deste amor se vive!
—Isto é amor, e deste amor se morre!
556
Felipe Sampaio
Duas Faces
Morri duas vezes.
Duas faces desiguais.
Estranho...
Eu que procurei-as.
O primeiro rosto era lindo,
Singelamente único e terno.
Engraçado...
Um rosto que tinha tudo
Para me dar a vida,
Uma nova vida.
Mas me negou,
Me magoou,
Me matou.
Senti ali o fardo melancólico
De ser reduzido
Ao mais ínfimo ser.
"Formigas, levem-me!"
Fujo,
Atravesso a porta
E escolho um segundo rosto.
Basta um.
Encho-me de coragem.
A morte vem a 4 rodas.
Um rosto agora desconhecido,
Inocente e amedrontado
Que passa por cima de mim
E compreensivelmente foje.
Esquisito...
Agora ele é quem foge,
Enquanto ali eu fico
Mais uma vez
Sentido um peso
Em minhas costas,
Enquanto espero que o primeiro rosto,
Terrivelmente belo,
Vá até a mim
E ao menos chore.
01/06/97
Duas faces desiguais.
Estranho...
Eu que procurei-as.
O primeiro rosto era lindo,
Singelamente único e terno.
Engraçado...
Um rosto que tinha tudo
Para me dar a vida,
Uma nova vida.
Mas me negou,
Me magoou,
Me matou.
Senti ali o fardo melancólico
De ser reduzido
Ao mais ínfimo ser.
"Formigas, levem-me!"
Fujo,
Atravesso a porta
E escolho um segundo rosto.
Basta um.
Encho-me de coragem.
A morte vem a 4 rodas.
Um rosto agora desconhecido,
Inocente e amedrontado
Que passa por cima de mim
E compreensivelmente foje.
Esquisito...
Agora ele é quem foge,
Enquanto ali eu fico
Mais uma vez
Sentido um peso
Em minhas costas,
Enquanto espero que o primeiro rosto,
Terrivelmente belo,
Vá até a mim
E ao menos chore.
01/06/97
381
Florisvaldo Mattos
Apogeu dos Vagões
Noturnos vagões carregados de amargura
de empilhados produtos e origens,
correi sobre horizontes dos dias!
Composição de espanto corrosivo
acerca-se de mim, vai penetrando
com violência em meus olhos. Vence-me
a carne e os nervos, minha voz,
meu desesperado sangue e cansaço, como
fantasma criminoso que, alta noite,
entrasse em minha casa fortemente
nutrido de perigos e desastres.
Negros, armados de geometria difícil,
rota economia de outonos ressentidos,
duram interiores funerários
sobre sacos sombrios e carregadores.
Barris de angústia, lento soluço,
arrastado gemido sobre trilhos,
correi, sempre correi, sombra
afogada na sombra de sangrento galope.
Confuso grito e fúria registrando
velocidade e pressentimentos,
avançai contra noites, contra os dias
noturnos vagões, consistência
de amarguras espessas e ferragens,
cruel fome de rodas gira-mundo.
de empilhados produtos e origens,
correi sobre horizontes dos dias!
Composição de espanto corrosivo
acerca-se de mim, vai penetrando
com violência em meus olhos. Vence-me
a carne e os nervos, minha voz,
meu desesperado sangue e cansaço, como
fantasma criminoso que, alta noite,
entrasse em minha casa fortemente
nutrido de perigos e desastres.
Negros, armados de geometria difícil,
rota economia de outonos ressentidos,
duram interiores funerários
sobre sacos sombrios e carregadores.
Barris de angústia, lento soluço,
arrastado gemido sobre trilhos,
correi, sempre correi, sombra
afogada na sombra de sangrento galope.
Confuso grito e fúria registrando
velocidade e pressentimentos,
avançai contra noites, contra os dias
noturnos vagões, consistência
de amarguras espessas e ferragens,
cruel fome de rodas gira-mundo.
781
Florisvaldo Mattos
Duração do Aroma
Não morrem no campo as flores.
Pacíficas continuam
arquiteturas de angústia
dissolvendo-se no chão
amoroso das searas.
Como nuvens distraídas
ficam no solto. Ali somente,
um sofrimento que vem,
uma esperança que vai
da boca dos camponeses
ao chão que abriga silêncio.
Não é pranto nem flor, É vinho.
De amarelo outono e lábios
pranto vinho e flores ficam
incrustados no alimento,
De sangue batendo aos pingos
na superfície das horas
vai seu perfume durando
nas colheitas. Sobrevive
no suor dos músculos tão
sofridos de cicatrizes,
como um hálito de cinza
prenhe de soluço verde.
Prossegue na dor, reunida
à ferrugem dos arados,
a melancolia de olhos,
de pele sacrificada
e ternura corrompida,
de arames e privações.
Que venha o vento brandindo
foices de lua no campo
e corte cercas corte o rio
e das chuvas no caminho
corte horizontes de linho.
Entre abelhas e madeiras,
no coração das florestas
corte as flores e o vizinho
aroma das madrugadas.
Corte pranto dos vaqueiros,
corte rastro dos cavalos
e de quem sofre sozinho
corte voz molhada e fria.
Que venha vento soprando
ferraduras de amargura,
decepe haste das flores
com o alfange da agonia.
Fria lâmina de sombra
inevitável traspasse
o dorso branco do dia.
E o que fica suado na terra
não é pranto nem flor. É vinho.
Sobrevivência do aroma
no lamento desses rostos,
dessas chuvas no caminho,
não morrem no campo as flores:
perduram constituídas
de soluços como o vinho.
Pacíficas continuam
arquiteturas de angústia
dissolvendo-se no chão
amoroso das searas.
Como nuvens distraídas
ficam no solto. Ali somente,
um sofrimento que vem,
uma esperança que vai
da boca dos camponeses
ao chão que abriga silêncio.
Não é pranto nem flor, É vinho.
De amarelo outono e lábios
pranto vinho e flores ficam
incrustados no alimento,
De sangue batendo aos pingos
na superfície das horas
vai seu perfume durando
nas colheitas. Sobrevive
no suor dos músculos tão
sofridos de cicatrizes,
como um hálito de cinza
prenhe de soluço verde.
Prossegue na dor, reunida
à ferrugem dos arados,
a melancolia de olhos,
de pele sacrificada
e ternura corrompida,
de arames e privações.
Que venha o vento brandindo
foices de lua no campo
e corte cercas corte o rio
e das chuvas no caminho
corte horizontes de linho.
Entre abelhas e madeiras,
no coração das florestas
corte as flores e o vizinho
aroma das madrugadas.
Corte pranto dos vaqueiros,
corte rastro dos cavalos
e de quem sofre sozinho
corte voz molhada e fria.
Que venha vento soprando
ferraduras de amargura,
decepe haste das flores
com o alfange da agonia.
Fria lâmina de sombra
inevitável traspasse
o dorso branco do dia.
E o que fica suado na terra
não é pranto nem flor. É vinho.
Sobrevivência do aroma
no lamento desses rostos,
dessas chuvas no caminho,
não morrem no campo as flores:
perduram constituídas
de soluços como o vinho.
894
Moacyr Felix
Poema quase Explicação
Luzes cortam a noite básica
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
1 313
Moacyr Felix
Sentimento Clássico
Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
1 317
Flávio Sátiro Fernandes
Ofício da escrita
Sento-me à máquina
e tento vencer,
numa hora imprópria
para menore, o desafio
da folha em branco.
Se as letras
não saltam,
não adianta
fazê-las pular
da esfera.
Penso que o defeito
é da máquina
e não da mente
que emperra.
Forço novamente
a escrita
e as palavras se espalham
cheias de bolor.
Armo-me com
uma chave de fenda
e desparafuso
as teclas
e a barra
com que preencherei
os espaços da memória.
O carro já não anda.
a não ser quando
eu engato
a marcha-retrocesso
de volta à vida.
A esta altura,
a máquina não é mais
que um montão
de letras delirantes
em ordem (an)alfabética.
Como recompor
o que a vida mecânica
teima em manter
sob o jugo do espírito?
Jogo para o alto
os tipos enferrujados
e eles caem de papo pro ar.
No caos maquinário
e digital,
restam, apenas,
o til, o circunflexo,
o grave e o agudo acento
e mais a crase limpa,
de uso racional,
entre parênteses
que se derramam tristes,
prendendo o que resta
de mim na folha branca,
desafiadoramente branca.
e tento vencer,
numa hora imprópria
para menore, o desafio
da folha em branco.
Se as letras
não saltam,
não adianta
fazê-las pular
da esfera.
Penso que o defeito
é da máquina
e não da mente
que emperra.
Forço novamente
a escrita
e as palavras se espalham
cheias de bolor.
Armo-me com
uma chave de fenda
e desparafuso
as teclas
e a barra
com que preencherei
os espaços da memória.
O carro já não anda.
a não ser quando
eu engato
a marcha-retrocesso
de volta à vida.
A esta altura,
a máquina não é mais
que um montão
de letras delirantes
em ordem (an)alfabética.
Como recompor
o que a vida mecânica
teima em manter
sob o jugo do espírito?
Jogo para o alto
os tipos enferrujados
e eles caem de papo pro ar.
No caos maquinário
e digital,
restam, apenas,
o til, o circunflexo,
o grave e o agudo acento
e mais a crase limpa,
de uso racional,
entre parênteses
que se derramam tristes,
prendendo o que resta
de mim na folha branca,
desafiadoramente branca.
824
Fernando Braga
Longe Noturno
Meus olhos emigraram para São Luís
minha cidade pavorosamente triste,
onde um meio de céu esconde o rosto
de Deus das vidraças da planície.
Vim aqui tornar-me em arbusto
onde sou o argonauta deste verde.
Morto pão esquecido sobre a mesa
foi minha ceia incrivelmente tarda.
Noturno vinho em resto abandonado
ferve-me o corpo hipertencialmente
reto, nesta noite sem data dalguma
safra onde me disponho não mais sentir-me.
minha cidade pavorosamente triste,
onde um meio de céu esconde o rosto
de Deus das vidraças da planície.
Vim aqui tornar-me em arbusto
onde sou o argonauta deste verde.
Morto pão esquecido sobre a mesa
foi minha ceia incrivelmente tarda.
Noturno vinho em resto abandonado
ferve-me o corpo hipertencialmente
reto, nesta noite sem data dalguma
safra onde me disponho não mais sentir-me.
278
Fábio Afonso de Almeida
Édrio
Uma sombra entra no bar
Cabelos escorridos, terno barato
Olhos empapuçados e perdidos
Måos que escondem vil tremor
Dentes trincados de medo
E o gesto disfarçado, casual.
O gole. E o corpo arrepia-se numa gastura
Treme da cabeça aos pés. Os olhos inchados voltam para fora
Os olhos piscam ante o sol forte da rua
Em frente ås torres brancas
Da catedral...
Cidade maldita!
Duas torres e um rosto macilento, eu vejo
O jardim sujo em frente, os ônibus, a multidåo
Ah! A química branca e frenética!
Maldita! Maldita!
Escadas de mármore dançando ao sol
Tempo bêbado, ângulos estranhos
Cadedrais tortas da vida.
O solítário sorri dois dentes apenas
Monumental ironia. Escarnece do mundo
E a escadaria se contorce, subindo...
Alguém entende? A catedral tonta
Da cidade maldita. Os insetos da rua
Correm em fuga incerta.
A dor de Deus bebe o mundo.
Cabelos escorridos, terno barato
Olhos empapuçados e perdidos
Måos que escondem vil tremor
Dentes trincados de medo
E o gesto disfarçado, casual.
O gole. E o corpo arrepia-se numa gastura
Treme da cabeça aos pés. Os olhos inchados voltam para fora
Os olhos piscam ante o sol forte da rua
Em frente ås torres brancas
Da catedral...
Cidade maldita!
Duas torres e um rosto macilento, eu vejo
O jardim sujo em frente, os ônibus, a multidåo
Ah! A química branca e frenética!
Maldita! Maldita!
Escadas de mármore dançando ao sol
Tempo bêbado, ângulos estranhos
Cadedrais tortas da vida.
O solítário sorri dois dentes apenas
Monumental ironia. Escarnece do mundo
E a escadaria se contorce, subindo...
Alguém entende? A catedral tonta
Da cidade maldita. Os insetos da rua
Correm em fuga incerta.
A dor de Deus bebe o mundo.
946
Fernanda Botelho
Amnésia
Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas:
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.
Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).
E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.
E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.
Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).
E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.
E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.
1 760
Fernanda Benevides
Flagrante
Eu não tinha este ar preocupado.
O coração sofrido.
A alma dilacerada.
Eu não tinha este este olhar perdido.
Esta dor da vida.
Estas mágoas...
Eu não sabia o que era solidão.
Esta sede de afeto.
Esta fome de emoção.
Eu não tinha este sabor amargo.
Este fel.
Este travo.
Eu não tinha esta face.
Serei eu?...
( in, QUANDO AS MUSAS CANTAM)
Fortaleza - Ce, 1990
O coração sofrido.
A alma dilacerada.
Eu não tinha este este olhar perdido.
Esta dor da vida.
Estas mágoas...
Eu não sabia o que era solidão.
Esta sede de afeto.
Esta fome de emoção.
Eu não tinha este sabor amargo.
Este fel.
Este travo.
Eu não tinha esta face.
Serei eu?...
( in, QUANDO AS MUSAS CANTAM)
Fortaleza - Ce, 1990
952
Emílio Moura
Calmaria
Água estagnada
nuvem parada,
folha perdida,
pássaro de asa
partida.
¾ Ó vento que morreis,
de leve, de leve,
despertai!
Luz que se apaga,
sombra diluída,
névoa que vaga,
voz que se cala,
ferida.
¾ Ó voz que adormeceis
de manso, de manso,
gritai, gritai!
Tímida esperança,
pálido desejo:
a tarde tão mansa,
tão lânguida a noite
que vem.
¾ Ó alma náufraga,
como tudo o mais:
desesperai!
nuvem parada,
folha perdida,
pássaro de asa
partida.
¾ Ó vento que morreis,
de leve, de leve,
despertai!
Luz que se apaga,
sombra diluída,
névoa que vaga,
voz que se cala,
ferida.
¾ Ó voz que adormeceis
de manso, de manso,
gritai, gritai!
Tímida esperança,
pálido desejo:
a tarde tão mansa,
tão lânguida a noite
que vem.
¾ Ó alma náufraga,
como tudo o mais:
desesperai!
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