Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Pedro António Correia Garção
Soneto
Três vezes vi, Marília, de alva lua,
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado,
A linda aurora da presença tua.
Então subindo à serra calva e nua,
De um íngreme rochedo pendurado,
Os olhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.
Ali comigo vinham ter pastores,
Que meus suspiros férvidos ouviam,
Cortados do alarido dos clamores.
Tanto que a causa do meu mal sabiam,
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fugiam.
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado,
A linda aurora da presença tua.
Então subindo à serra calva e nua,
De um íngreme rochedo pendurado,
Os olhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.
Ali comigo vinham ter pastores,
Que meus suspiros férvidos ouviam,
Cortados do alarido dos clamores.
Tanto que a causa do meu mal sabiam,
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fugiam.
1 667
Flávio Villa-Lobos
Desencontro
Tantas mentiras dissemos um
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.
Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.
ao outro
querendo esconder a verdade
que nos atinge.
Pertencemos a mesma sina
cantamos a mesma música
somos o vértice
da mesma esquina.
Paira no ar um certo
desvario
(depois de tua enésima partida)
e me faz pensar
como a vida
é cheia de lugares vazios,
de tolos pensamentos,
de horas mal vividas.
851
Felipe Sampaio
Duas Faces
Morri duas vezes.
Duas faces desiguais.
Estranho...
Eu que procurei-as.
O primeiro rosto era lindo,
Singelamente único e terno.
Engraçado...
Um rosto que tinha tudo
Para me dar a vida,
Uma nova vida.
Mas me negou,
Me magoou,
Me matou.
Senti ali o fardo melancólico
De ser reduzido
Ao mais ínfimo ser.
"Formigas, levem-me!"
Fujo,
Atravesso a porta
E escolho um segundo rosto.
Basta um.
Encho-me de coragem.
A morte vem a 4 rodas.
Um rosto agora desconhecido,
Inocente e amedrontado
Que passa por cima de mim
E compreensivelmente foje.
Esquisito...
Agora ele é quem foge,
Enquanto ali eu fico
Mais uma vez
Sentido um peso
Em minhas costas,
Enquanto espero que o primeiro rosto,
Terrivelmente belo,
Vá até a mim
E ao menos chore.
01/06/97
Duas faces desiguais.
Estranho...
Eu que procurei-as.
O primeiro rosto era lindo,
Singelamente único e terno.
Engraçado...
Um rosto que tinha tudo
Para me dar a vida,
Uma nova vida.
Mas me negou,
Me magoou,
Me matou.
Senti ali o fardo melancólico
De ser reduzido
Ao mais ínfimo ser.
"Formigas, levem-me!"
Fujo,
Atravesso a porta
E escolho um segundo rosto.
Basta um.
Encho-me de coragem.
A morte vem a 4 rodas.
Um rosto agora desconhecido,
Inocente e amedrontado
Que passa por cima de mim
E compreensivelmente foje.
Esquisito...
Agora ele é quem foge,
Enquanto ali eu fico
Mais uma vez
Sentido um peso
Em minhas costas,
Enquanto espero que o primeiro rosto,
Terrivelmente belo,
Vá até a mim
E ao menos chore.
01/06/97
375
Fabio Valor Caldas
Janela
Foi da janela do meu quarto
Que te vi pela primeira e última vez,
Com o meu olhar sonolento
Observava a tua presença.
Seus cabelos brincando com o vento,
E seus olhos distraídos,
Suas pernas em passos frágeis,
E seus belos movimentos perdidos.
Uma passo gracioso saindo da calçada,
No momento em que um alegre
passarinho cantava em seu cortejo,
E você apenas caminhava...
Até que o carro te surpreendeu,
Derrubou-te no chão
Sujando tudo de sangue,
Levando sua alma para longe de mim.
Que te vi pela primeira e última vez,
Com o meu olhar sonolento
Observava a tua presença.
Seus cabelos brincando com o vento,
E seus olhos distraídos,
Suas pernas em passos frágeis,
E seus belos movimentos perdidos.
Uma passo gracioso saindo da calçada,
No momento em que um alegre
passarinho cantava em seu cortejo,
E você apenas caminhava...
Até que o carro te surpreendeu,
Derrubou-te no chão
Sujando tudo de sangue,
Levando sua alma para longe de mim.
945
Flávio Sátiro Fernandes
Ofício da escrita
Sento-me à máquina
e tento vencer,
numa hora imprópria
para menore, o desafio
da folha em branco.
Se as letras
não saltam,
não adianta
fazê-las pular
da esfera.
Penso que o defeito
é da máquina
e não da mente
que emperra.
Forço novamente
a escrita
e as palavras se espalham
cheias de bolor.
Armo-me com
uma chave de fenda
e desparafuso
as teclas
e a barra
com que preencherei
os espaços da memória.
O carro já não anda.
a não ser quando
eu engato
a marcha-retrocesso
de volta à vida.
A esta altura,
a máquina não é mais
que um montão
de letras delirantes
em ordem (an)alfabética.
Como recompor
o que a vida mecânica
teima em manter
sob o jugo do espírito?
Jogo para o alto
os tipos enferrujados
e eles caem de papo pro ar.
No caos maquinário
e digital,
restam, apenas,
o til, o circunflexo,
o grave e o agudo acento
e mais a crase limpa,
de uso racional,
entre parênteses
que se derramam tristes,
prendendo o que resta
de mim na folha branca,
desafiadoramente branca.
e tento vencer,
numa hora imprópria
para menore, o desafio
da folha em branco.
Se as letras
não saltam,
não adianta
fazê-las pular
da esfera.
Penso que o defeito
é da máquina
e não da mente
que emperra.
Forço novamente
a escrita
e as palavras se espalham
cheias de bolor.
Armo-me com
uma chave de fenda
e desparafuso
as teclas
e a barra
com que preencherei
os espaços da memória.
O carro já não anda.
a não ser quando
eu engato
a marcha-retrocesso
de volta à vida.
A esta altura,
a máquina não é mais
que um montão
de letras delirantes
em ordem (an)alfabética.
Como recompor
o que a vida mecânica
teima em manter
sob o jugo do espírito?
Jogo para o alto
os tipos enferrujados
e eles caem de papo pro ar.
No caos maquinário
e digital,
restam, apenas,
o til, o circunflexo,
o grave e o agudo acento
e mais a crase limpa,
de uso racional,
entre parênteses
que se derramam tristes,
prendendo o que resta
de mim na folha branca,
desafiadoramente branca.
813
Florisvaldo Mattos
Duração do Aroma
Não morrem no campo as flores.
Pacíficas continuam
arquiteturas de angústia
dissolvendo-se no chão
amoroso das searas.
Como nuvens distraídas
ficam no solto. Ali somente,
um sofrimento que vem,
uma esperança que vai
da boca dos camponeses
ao chão que abriga silêncio.
Não é pranto nem flor, É vinho.
De amarelo outono e lábios
pranto vinho e flores ficam
incrustados no alimento,
De sangue batendo aos pingos
na superfície das horas
vai seu perfume durando
nas colheitas. Sobrevive
no suor dos músculos tão
sofridos de cicatrizes,
como um hálito de cinza
prenhe de soluço verde.
Prossegue na dor, reunida
à ferrugem dos arados,
a melancolia de olhos,
de pele sacrificada
e ternura corrompida,
de arames e privações.
Que venha o vento brandindo
foices de lua no campo
e corte cercas corte o rio
e das chuvas no caminho
corte horizontes de linho.
Entre abelhas e madeiras,
no coração das florestas
corte as flores e o vizinho
aroma das madrugadas.
Corte pranto dos vaqueiros,
corte rastro dos cavalos
e de quem sofre sozinho
corte voz molhada e fria.
Que venha vento soprando
ferraduras de amargura,
decepe haste das flores
com o alfange da agonia.
Fria lâmina de sombra
inevitável traspasse
o dorso branco do dia.
E o que fica suado na terra
não é pranto nem flor. É vinho.
Sobrevivência do aroma
no lamento desses rostos,
dessas chuvas no caminho,
não morrem no campo as flores:
perduram constituídas
de soluços como o vinho.
Pacíficas continuam
arquiteturas de angústia
dissolvendo-se no chão
amoroso das searas.
Como nuvens distraídas
ficam no solto. Ali somente,
um sofrimento que vem,
uma esperança que vai
da boca dos camponeses
ao chão que abriga silêncio.
Não é pranto nem flor, É vinho.
De amarelo outono e lábios
pranto vinho e flores ficam
incrustados no alimento,
De sangue batendo aos pingos
na superfície das horas
vai seu perfume durando
nas colheitas. Sobrevive
no suor dos músculos tão
sofridos de cicatrizes,
como um hálito de cinza
prenhe de soluço verde.
Prossegue na dor, reunida
à ferrugem dos arados,
a melancolia de olhos,
de pele sacrificada
e ternura corrompida,
de arames e privações.
Que venha o vento brandindo
foices de lua no campo
e corte cercas corte o rio
e das chuvas no caminho
corte horizontes de linho.
Entre abelhas e madeiras,
no coração das florestas
corte as flores e o vizinho
aroma das madrugadas.
Corte pranto dos vaqueiros,
corte rastro dos cavalos
e de quem sofre sozinho
corte voz molhada e fria.
Que venha vento soprando
ferraduras de amargura,
decepe haste das flores
com o alfange da agonia.
Fria lâmina de sombra
inevitável traspasse
o dorso branco do dia.
E o que fica suado na terra
não é pranto nem flor. É vinho.
Sobrevivência do aroma
no lamento desses rostos,
dessas chuvas no caminho,
não morrem no campo as flores:
perduram constituídas
de soluços como o vinho.
888
Florisvaldo Mattos
Apogeu dos Vagões
Noturnos vagões carregados de amargura
de empilhados produtos e origens,
correi sobre horizontes dos dias!
Composição de espanto corrosivo
acerca-se de mim, vai penetrando
com violência em meus olhos. Vence-me
a carne e os nervos, minha voz,
meu desesperado sangue e cansaço, como
fantasma criminoso que, alta noite,
entrasse em minha casa fortemente
nutrido de perigos e desastres.
Negros, armados de geometria difícil,
rota economia de outonos ressentidos,
duram interiores funerários
sobre sacos sombrios e carregadores.
Barris de angústia, lento soluço,
arrastado gemido sobre trilhos,
correi, sempre correi, sombra
afogada na sombra de sangrento galope.
Confuso grito e fúria registrando
velocidade e pressentimentos,
avançai contra noites, contra os dias
noturnos vagões, consistência
de amarguras espessas e ferragens,
cruel fome de rodas gira-mundo.
de empilhados produtos e origens,
correi sobre horizontes dos dias!
Composição de espanto corrosivo
acerca-se de mim, vai penetrando
com violência em meus olhos. Vence-me
a carne e os nervos, minha voz,
meu desesperado sangue e cansaço, como
fantasma criminoso que, alta noite,
entrasse em minha casa fortemente
nutrido de perigos e desastres.
Negros, armados de geometria difícil,
rota economia de outonos ressentidos,
duram interiores funerários
sobre sacos sombrios e carregadores.
Barris de angústia, lento soluço,
arrastado gemido sobre trilhos,
correi, sempre correi, sombra
afogada na sombra de sangrento galope.
Confuso grito e fúria registrando
velocidade e pressentimentos,
avançai contra noites, contra os dias
noturnos vagões, consistência
de amarguras espessas e ferragens,
cruel fome de rodas gira-mundo.
777
Francisco Moniz Barreto
Improviso
Ver... e do que se vê logo abrasado,
Sentir o coração de um fogo ardente,
De prazer um suspiro de repente
Exalar, e após ele um ai magoado!
Aquilo que não foi ainda logrado,
Nem o será talvez, lograr na mente;
Do rosto a cor mudar constantemente,
Ser feliz e ser logo desgraçado;
Desejar tanto mais quão mais se prive,
Calmar o ardor que pelas veias corre,
Já querer, já buscar que ele se ative;
O que isto é, a todos nós ocorre:
—Isto é amor, e deste amor se vive!
—Isto é amor, e deste amor se morre!
Sentir o coração de um fogo ardente,
De prazer um suspiro de repente
Exalar, e após ele um ai magoado!
Aquilo que não foi ainda logrado,
Nem o será talvez, lograr na mente;
Do rosto a cor mudar constantemente,
Ser feliz e ser logo desgraçado;
Desejar tanto mais quão mais se prive,
Calmar o ardor que pelas veias corre,
Já querer, já buscar que ele se ative;
O que isto é, a todos nós ocorre:
—Isto é amor, e deste amor se vive!
—Isto é amor, e deste amor se morre!
542
Francisco Nóbrega
Solidão Amena
Malfazeja flor entre os homens
e os campinas humanas desgarradas,
rosa garrida com pétalas desfolhadas,
sombra perdida em horizontes sem fim,
tristeza alada...
Carregada com cores da sarjeta,
resplandeces, contudo, os tons da madrugada,
refúgio pobre de poeta angustiado,
prenhe de inspiração e ansiedade,
dor amada...
Amiga és dos puros, dos padres e dos poetas,
dos que labutam em claustro próprio,
gerando idéias, amargando sonhos,
e que ao fim deste clausura haja,
alegria ansiada...
Qual recato que conduz a dor d’alma,
escapando das mundanas vãs querelas,
arrematas teu leito de esperanças
ao encontro da luz anunciada,
amiga aureolada...
Mitigas a dor aos seres criadores,
na jornada sombria em que sua vida passa,
abrigo afetuoso de peregrinos escritores,
bálsamo amado com mágoas camufladas,
promessa sonhada...
Hás de levar-me aos cimos montanhosos,
donde se alcança o compreender sublime,
descortinando o mistério em plenitude,
amorizando o sonho de uma vida,
paz alcançada.
e os campinas humanas desgarradas,
rosa garrida com pétalas desfolhadas,
sombra perdida em horizontes sem fim,
tristeza alada...
Carregada com cores da sarjeta,
resplandeces, contudo, os tons da madrugada,
refúgio pobre de poeta angustiado,
prenhe de inspiração e ansiedade,
dor amada...
Amiga és dos puros, dos padres e dos poetas,
dos que labutam em claustro próprio,
gerando idéias, amargando sonhos,
e que ao fim deste clausura haja,
alegria ansiada...
Qual recato que conduz a dor d’alma,
escapando das mundanas vãs querelas,
arrematas teu leito de esperanças
ao encontro da luz anunciada,
amiga aureolada...
Mitigas a dor aos seres criadores,
na jornada sombria em que sua vida passa,
abrigo afetuoso de peregrinos escritores,
bálsamo amado com mágoas camufladas,
promessa sonhada...
Hás de levar-me aos cimos montanhosos,
donde se alcança o compreender sublime,
descortinando o mistério em plenitude,
amorizando o sonho de uma vida,
paz alcançada.
758
Fernanda Botelho
Amnésia
Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas:
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.
Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).
E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.
E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.
Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).
E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.
E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.
1 740
Fernando Braga
Longe Noturno
Meus olhos emigraram para São Luís
minha cidade pavorosamente triste,
onde um meio de céu esconde o rosto
de Deus das vidraças da planície.
Vim aqui tornar-me em arbusto
onde sou o argonauta deste verde.
Morto pão esquecido sobre a mesa
foi minha ceia incrivelmente tarda.
Noturno vinho em resto abandonado
ferve-me o corpo hipertencialmente
reto, nesta noite sem data dalguma
safra onde me disponho não mais sentir-me.
minha cidade pavorosamente triste,
onde um meio de céu esconde o rosto
de Deus das vidraças da planície.
Vim aqui tornar-me em arbusto
onde sou o argonauta deste verde.
Morto pão esquecido sobre a mesa
foi minha ceia incrivelmente tarda.
Noturno vinho em resto abandonado
ferve-me o corpo hipertencialmente
reto, nesta noite sem data dalguma
safra onde me disponho não mais sentir-me.
271
Moacyr Felix
Poema quase Explicação
Luzes cortam a noite básica
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.
E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.
Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.
Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.
Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.
1 306
Fernanda Benevides
Flagrante
Eu não tinha este ar preocupado.
O coração sofrido.
A alma dilacerada.
Eu não tinha este este olhar perdido.
Esta dor da vida.
Estas mágoas...
Eu não sabia o que era solidão.
Esta sede de afeto.
Esta fome de emoção.
Eu não tinha este sabor amargo.
Este fel.
Este travo.
Eu não tinha esta face.
Serei eu?...
( in, QUANDO AS MUSAS CANTAM)
Fortaleza - Ce, 1990
O coração sofrido.
A alma dilacerada.
Eu não tinha este este olhar perdido.
Esta dor da vida.
Estas mágoas...
Eu não sabia o que era solidão.
Esta sede de afeto.
Esta fome de emoção.
Eu não tinha este sabor amargo.
Este fel.
Este travo.
Eu não tinha esta face.
Serei eu?...
( in, QUANDO AS MUSAS CANTAM)
Fortaleza - Ce, 1990
942
Moacyr Felix
Sentimento Clássico
Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.
Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.
Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.
Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.
1 310
Eustáquio Gorgone
O Rodeio - 3
Gradil de madeira,
gradil de madeira.
Uma donzela com focinho
de rosas
quebrando a vidraça.
Por desespero e fatuidade
os animais choram
dentro das moringas.
Ela tem lenços e miniaturas,
ela tem lenços e miniaturas.
Mas nada, nada, nada enxuga
seu crescente sofrimento.
E o sol vai passando
com sua viseira de luz.
Ela não conhece corcundas,
ela não conhece corcundas
cheias de orquídeas.
Tudo para ela é cinzento.
Debalde doidos amores
esperam o seu sorriso.
gradil de madeira.
Uma donzela com focinho
de rosas
quebrando a vidraça.
Por desespero e fatuidade
os animais choram
dentro das moringas.
Ela tem lenços e miniaturas,
ela tem lenços e miniaturas.
Mas nada, nada, nada enxuga
seu crescente sofrimento.
E o sol vai passando
com sua viseira de luz.
Ela não conhece corcundas,
ela não conhece corcundas
cheias de orquídeas.
Tudo para ela é cinzento.
Debalde doidos amores
esperam o seu sorriso.
795
Eunaldo Costa
Olha aquela negra
Olha aquela negra, turbeculosa,
Estendida nas grama úmidas do canteiro do jardim.
A chuva e o vento caindo-lhe no corpo
Cansado da vida dos becos.
- Seu nome ?
- Pouco importa,
- Poderia ser Carlota
- ou outro qualquer.
Naquela negra, seminua, enferma,
Abandonada, o mundo só não sujou
A sua alma, que conserva a pureza inicial.
Nesta hora tardia da noite
O sono fechou as pálpebras da cidade,
Mas existem alguns olhos abertos
Vendo as luzes descendo sobre a negra
Que agoniza junto às rosas do canteiro do jardim.
Estendida nas grama úmidas do canteiro do jardim.
A chuva e o vento caindo-lhe no corpo
Cansado da vida dos becos.
- Seu nome ?
- Pouco importa,
- Poderia ser Carlota
- ou outro qualquer.
Naquela negra, seminua, enferma,
Abandonada, o mundo só não sujou
A sua alma, que conserva a pureza inicial.
Nesta hora tardia da noite
O sono fechou as pálpebras da cidade,
Mas existem alguns olhos abertos
Vendo as luzes descendo sobre a negra
Que agoniza junto às rosas do canteiro do jardim.
1 089
Fábio Afonso de Almeida
Édrio
Uma sombra entra no bar
Cabelos escorridos, terno barato
Olhos empapuçados e perdidos
Måos que escondem vil tremor
Dentes trincados de medo
E o gesto disfarçado, casual.
O gole. E o corpo arrepia-se numa gastura
Treme da cabeça aos pés. Os olhos inchados voltam para fora
Os olhos piscam ante o sol forte da rua
Em frente ås torres brancas
Da catedral...
Cidade maldita!
Duas torres e um rosto macilento, eu vejo
O jardim sujo em frente, os ônibus, a multidåo
Ah! A química branca e frenética!
Maldita! Maldita!
Escadas de mármore dançando ao sol
Tempo bêbado, ângulos estranhos
Cadedrais tortas da vida.
O solítário sorri dois dentes apenas
Monumental ironia. Escarnece do mundo
E a escadaria se contorce, subindo...
Alguém entende? A catedral tonta
Da cidade maldita. Os insetos da rua
Correm em fuga incerta.
A dor de Deus bebe o mundo.
Cabelos escorridos, terno barato
Olhos empapuçados e perdidos
Måos que escondem vil tremor
Dentes trincados de medo
E o gesto disfarçado, casual.
O gole. E o corpo arrepia-se numa gastura
Treme da cabeça aos pés. Os olhos inchados voltam para fora
Os olhos piscam ante o sol forte da rua
Em frente ås torres brancas
Da catedral...
Cidade maldita!
Duas torres e um rosto macilento, eu vejo
O jardim sujo em frente, os ônibus, a multidåo
Ah! A química branca e frenética!
Maldita! Maldita!
Escadas de mármore dançando ao sol
Tempo bêbado, ângulos estranhos
Cadedrais tortas da vida.
O solítário sorri dois dentes apenas
Monumental ironia. Escarnece do mundo
E a escadaria se contorce, subindo...
Alguém entende? A catedral tonta
Da cidade maldita. Os insetos da rua
Correm em fuga incerta.
A dor de Deus bebe o mundo.
935
Adriano Espínola
Haicai
Tristeza
Uma árvore torta.
Uma ave cantando grave.
A tarde já morta.
Outono
Folhas. Ventania.
Cajus se despencam nus:
apodrece o dia.
Uma árvore torta.
Uma ave cantando grave.
A tarde já morta.
Outono
Folhas. Ventania.
Cajus se despencam nus:
apodrece o dia.
2 738
Emílio Moura
Calmaria
Água estagnada
nuvem parada,
folha perdida,
pássaro de asa
partida.
¾ Ó vento que morreis,
de leve, de leve,
despertai!
Luz que se apaga,
sombra diluída,
névoa que vaga,
voz que se cala,
ferida.
¾ Ó voz que adormeceis
de manso, de manso,
gritai, gritai!
Tímida esperança,
pálido desejo:
a tarde tão mansa,
tão lânguida a noite
que vem.
¾ Ó alma náufraga,
como tudo o mais:
desesperai!
nuvem parada,
folha perdida,
pássaro de asa
partida.
¾ Ó vento que morreis,
de leve, de leve,
despertai!
Luz que se apaga,
sombra diluída,
névoa que vaga,
voz que se cala,
ferida.
¾ Ó voz que adormeceis
de manso, de manso,
gritai, gritai!
Tímida esperança,
pálido desejo:
a tarde tão mansa,
tão lânguida a noite
que vem.
¾ Ó alma náufraga,
como tudo o mais:
desesperai!
1 168
Eduardo Bacelar
Noites em Claro
Meia noite e o telefone não tocou,
A noite inteira já acabou.
Quem quisesse poderia ter me encontrado.
Se quisessem....
22 e passam das 4
Muito cedo para acordar,
Muito tarde para dormir.
Mas sempre posso escrever
Como faço agora,
Como não tenho nada mais a fazer,
Quero tanto
E tão pouco…
A noite é minha amiga.
Amiga cruel de minha solidão,
De minhas paixões não correspondidas,
De minha vida não vivida.
No silêncio e na escuridão,
Tudo parece possível,
Meus sonhos e pesadelos
São reais e estão vivos.
A medida que escrevo
O tempo passa,
Alheio a tudo.
Obstinado como já fui.
Quando procuro minha cama,
Já sentindo o peso de meus pensamentos,
Minha janela está como passei a noite.
Em claro.
A noite inteira já acabou.
Quem quisesse poderia ter me encontrado.
Se quisessem....
22 e passam das 4
Muito cedo para acordar,
Muito tarde para dormir.
Mas sempre posso escrever
Como faço agora,
Como não tenho nada mais a fazer,
Quero tanto
E tão pouco…
A noite é minha amiga.
Amiga cruel de minha solidão,
De minhas paixões não correspondidas,
De minha vida não vivida.
No silêncio e na escuridão,
Tudo parece possível,
Meus sonhos e pesadelos
São reais e estão vivos.
A medida que escrevo
O tempo passa,
Alheio a tudo.
Obstinado como já fui.
Quando procuro minha cama,
Já sentindo o peso de meus pensamentos,
Minha janela está como passei a noite.
Em claro.
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Emílio Moura
Renúncia
Se eu cheguei a esta renúncia total, foi porque o meu sofrimento me transfigurou sem que eu o percebesse.
Aqui estou, tímido e humilde.
Parece que aqui estou há séculos.
Meus olhos já não compreendem outra realidade.
A realidade que amei dorme na sombra.
Aqui estou, tímido e humilde.
Parece que aqui estou há séculos.
Meus olhos já não compreendem outra realidade.
A realidade que amei dorme na sombra.
1 086
Emílio Burlamaqui
Ninguém
Saio à rua, ninguém fala comigo.
Entretanto, descuidado, não falo com ninguém.
Volto à casa, ninguém deixou recado.
Porém já é tarde, durmo, esqueço,
E não telefono para ninguém.
No cais, o lenço de ninguém se agita
Enquanto entre nós a distância se faz.
E eu, estranhamente, fico olhando o mar,
Sem atinar, sem acenar,
Sem adeus.
O trem chega, a distância se desfaz.
E, no meio de uma multidão indistinta
Que não me diz mais nada,
Distingo ninguém tentando me dizer alguma coisa.
Apesar disso, passo apressado sem escutar
Aquilo que ninguém queria me contar.
Por que será então que,
Mesmo eu não correspondendo a tanta fidelidade
E a tão exato desvelo,
A presença de ninguém persiste assim
Tão intensa e tão densa
Junto a mim?
Será que, qual ave preta
E tal como noutra história,
Ninguém se afastará de mim
Nunca mais?
Entretanto, descuidado, não falo com ninguém.
Volto à casa, ninguém deixou recado.
Porém já é tarde, durmo, esqueço,
E não telefono para ninguém.
No cais, o lenço de ninguém se agita
Enquanto entre nós a distância se faz.
E eu, estranhamente, fico olhando o mar,
Sem atinar, sem acenar,
Sem adeus.
O trem chega, a distância se desfaz.
E, no meio de uma multidão indistinta
Que não me diz mais nada,
Distingo ninguém tentando me dizer alguma coisa.
Apesar disso, passo apressado sem escutar
Aquilo que ninguém queria me contar.
Por que será então que,
Mesmo eu não correspondendo a tanta fidelidade
E a tão exato desvelo,
A presença de ninguém persiste assim
Tão intensa e tão densa
Junto a mim?
Será que, qual ave preta
E tal como noutra história,
Ninguém se afastará de mim
Nunca mais?
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Eliane Pantoja Vaidya
Conta Akutagawa
Conta Akutagawa
que Bashô
o notável mestre
do hai-kai
estava morrendo.
Em seu quarto
reunidos
os mais queridos discípulos.
O silêncio estava presente
nem lua havia
e se distinguiam soluços e suspiros.
O maior poeta daquela Terra
agora morria
cercado de seus amigos.
Ah Quimera, ilusão graciosa
os que choravam o faziam
cada um por si
nenhum por ele.
Bashô olhou em torno
o coração árido
daqueles que o cercavam
— Terra morta —
Só os rostos eram quentes
e as lágrimas naturais.
que Bashô
o notável mestre
do hai-kai
estava morrendo.
Em seu quarto
reunidos
os mais queridos discípulos.
O silêncio estava presente
nem lua havia
e se distinguiam soluços e suspiros.
O maior poeta daquela Terra
agora morria
cercado de seus amigos.
Ah Quimera, ilusão graciosa
os que choravam o faziam
cada um por si
nenhum por ele.
Bashô olhou em torno
o coração árido
daqueles que o cercavam
— Terra morta —
Só os rostos eram quentes
e as lágrimas naturais.
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