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Poemas neste tema

Relações e Família

Manuel da Fonseca

Manuel da Fonseca

Ruas da Cidade

Na noite calada e quieta como um grande segredo,
andando ao deus-dará nestas ruas desertas,
saio lá do fundo do meu sonho
e olho ao redor de mim.

Cá fora há tudo o que não é do meu sonho:
o frio, e os altos prédios fechados,
e as ruas mortas como paisagem de cemitérios.

E a claridade fugidia dos candeeiros cansados,
como pálpebras que se vão fechar.
E o torpor saindo de todas as coisas
e pairando no ar, como um desmaio iminente...

Só eu ainda tenho passos para andar
e uma não sei que ternura
para todos que estão, para lá das paredes
adormecidos e descuidados
à morte que espreita escondida no mistério da noite...

Em que casa e andar estará dormindo
aquela de quem não sei o nome nem a vida,
mas descobri a cor dos cabelos e a melodia do corpo
quando nos cruzamos esta manhã?
Nesse momento,
ou fosse porque chovia sol sobre a algazarra de gestos
das gentes que iam e vinham e se falavam e continuavam
ou porque nos olhássemos de certa maneira que não saberei contar,
mesmo de longe, dissemos com os olhos, um para o outro
— Hoje é um dia de glória!
Mas tão estranho me pareceu
aquele milagre entre dois desconhecidos,
que nem voltei a cabeça para trás...
Agora este desânimo sem nome
de quem traiu um dia inteiro de vida
e teima ir pela noite dentro
à espera nem sabe de quê ...

De tantas horas iguais estou farto!

Mas ao fim e sempre a mesma esperança:
"um dia virá..."
E eu que tenho a vida desarrumada
como se fosse um milionário bêbado,
ergo-me e saio para a rua deslumbrado
e ressuscitado, todos os dias, ao amanhecer.
E vai a coisa tão certa como uma religião,
quanto pressinto que me olham de todas as caras
como se espiassem um louco...
Onde estão ouvidos que entendam as minhas falas?

E a noite vem encontrar-me deserto e abandonado...
Ah, um dia, quando a morte chegar,
hei de erguer para ela os meus olhos molhados,
e hei de contar-lhe a indiferença do mundo
e a amargura dos altos sonhos desfeitos...
— assim como um menino fazendo queixas a sua mãe.

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Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Poemas para a amiga (fragmento 8)

Contemplo agora
o leito que vazio
se contempla.
Contemplo agora
o leito que vazio
em mim se estende
e se me aproximo
existe qualquer coisa
trescalando aroma em mim.

Onde o teu corpo, amante-amiga,
onde o carinho
que compungido em recebia
e aquela forma que tranquila
ainda ontem descobrias?

Agora eu te diria
o quanto te agradeço o corpo teu
se o me dás ou se o me tomas,
e o recolhendo em mim,
em mim me vais colhendo,
como eu que tomo em ti
o que de ti me vais doando.

Eu muito te agradeço este teu corpo
quando nos leitos o estendias e o me davas,
às vezes, temerosa,
e, ofegante, às vezes,
e te agradeço ainda aquele instante (o percebeste)
em que extasiado ao contemplá-lo
em mim me conturbei
– (o percebeste) me aguardaste
e nos olhos te guardei.

Eu muito te agradeço, amante-amiga,
este teu corpo que com fúria eu possuía,
corpo que eu mais amava
quanto mais o via,
pequeno e manso enigma
que eu decifrei como podia.

Agora eu te diria
o que não soubeste
e nunca o saberias:
o que naquele instante eu te ofertava
nunca a mim eu já doara
e nunca o doaria.

Nele eu fui pousar
quando cansado e dúbio,
dele eu fui tomar
quando ofegante e rubro,
dele e nele eu revivia
e foi por ele que eu senti
a solidão, e o amor
que em mim havia.

Teu corpo quando amava
me excedia,
e me excedendo
com o amor foi me envolvendo,
e nesse amor absorvente
de tal forma absorvendo,
que agora que o não tenho
não sei como permaneço nesta ausência
em que tuas formas se envolveram,
tanto o amor
e a forma do teu corpo
no meu corpo se inscreveram.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O silêncio

Era complicado. Primeiro deitou os restos de comida no caixote do lixo. Depois passou os pratos e os talheres por água corrente debaixo da torneira. Depois mergulhou-os numa bacia com sabão e água quente e, com um esfregão, limpou tudo muito bem. Depois tornou a aquecer água e deitou-a no lava-loiças com duas medidas de sonasol e de novo lavou pra­tos, colheres, garfos e facas. Em seguida passou a loiça e os talheres por água limpa e pô-los a escorrer na banca de pedra.
As suas mãos tinham ficado ásperas, esta­va cansada de estar de pé e doíam-lhe um pou­co as costas. Mas sentia dentro de si uma gran­de limpeza como se em vez de, estar a lavar a loiça estivesse a lavar a sua alma. A luz sem abat-jour da cozinha fazia brilhar os azulejos brancos. Lá fora, na doce noite de Verão, um cipreste ondulava branda­mente.
O pão estava no cesto, a roupa na gaveta, os copos no armário. O vaivém, a agitação e o tumulto do dia repousavam.
Havia um grande sossego. Tudo estava ar­rumado e o dia estava pronto.
E Joana atravessou devagar a sua casa.
Ia abrindo e fechando as portas, abrindo e fechando as luzes. Os quartos desapareciam no escuro e surgiam do escuro na claridade.
Um doce silêncio pairava como uma sede estendida.
O silêncio desenhava as paredes, cobria as mesas, emoldurava os retratos. O silêncio escul­pia os volumes, recortava as linhas, aprofunda­va os espaços. Tudo era plástico e vibrante, denso da própria realidade. O silêncio como um estremecer profundo percorria a casa.
As coisas conhecidas - o muro, a porta, o espelho - mostravam uma por uma a sua bele­za e a sua serenidade. E nas janelas abertas a noite de Junho mostrava o seu rosto constelado e suspenso.
Joana deu lentamente a volta à sala. To­cou o vidro, a cal, a madeira. Há muito já que cada coisa tinha encontrado ali o seu lugar. E era como se esse lugar, como se a relação entre a mesa, o espelho, a porta, fossem a expressão de uma ordem que ultrapassava a casa.
As coisas pareciam atentas. E a mulher que lavara a loiça procurava o centro dessa atenção. Sempre o procurara, mas quem o po­de captar?
O silêncio agora era maior. Era como uma flor que tivesse desabrochado inteiramente e alisasse todas as suas pétalas.
E em roda deste silêncio os astros da noite exterior giravam lentamente e o seu movimen­to imperceptível tomava em si a ordem e o si­lêncio da casa.
Com as mãos tocando a parede branca Joa­na respirou docemente. Era ali o seu reino, ali na paz da contemplação nocturna. Da ordem e do silêncio do universo erguia-se uma infinita liberdade: Ela respirava essa liberdade que era a lei da sua vida, o alimento do seu ser.
A paz que a cercava era aberta e transparente. A forma das coisas era uma grafia, uma escrita. Uma escrita que ela não entendia mas reconhecia.
Atravessou a sala e debruçou-se na janela aberta em frente do puro instante azul da noi­te.
As estrelas brilhavam, íntimas e distantes. E pareceu-lhe que entre ela e a casa e as estrelas fora estabelecida desde sempre uma aliança. Era como se o peso da sua consciência fosse ne­cessário ao equilíbrio das constelações, como se uma intensa unidade atravessasse o universo in­teiro.
E ela habitava essa unidade, estava presen­te e viva na relação das coisas e a própria reali­dade atenta a abrigava em sua imensa e aguda presença.
No ar, na cal, no vidro, tocava a sua felici­dade e essa felicidade era no seu centro unida­de.
Debruçou-se na janela e apoiou os braços na pedra fresca do parapeito.
Uma leve brisa agitou os ramos dos cedros. No rio, rouca, apitou uma sereia. Na torre o si­no bateu duas badaladas. Foi então que se ouviu o grito.
Um longo grito agudo, desmedido. Um grito que atravessava as paredes, as portas, a sa­la, os ramos do cedro.
Joana virou-se na janela. Houve uma pau­sa. Um pequeno momento imóvel, suspenso, hesitante. Mas logo novos gritos se ergueram, trespassando a noite. Estavam a gritar na rua, do outro lado da casa. Era uma voz de mulher. Uma voz nua, desgarrada, solitária. Uma voz que de grito em grito se ia desformando, desfi­gurando até ficar transformada em uivo. Uivo rouco e cego. Depois a voz enfraqueceu, bai­xou, tomou um ritmo de soluço, um tom de la­mentação. Mas logo voltou a crescer, com fúria, raiva, desespero, violência.
Na paz da noite, de cima a baixo, os gritos abriram uma grande fenda, uma ferida, E as­sim como a água começa a invadir o interior en­xuto quando se abre um rombo no casco de um navio, assim agora, pela fenda que os gritos ti­nham aberto, o terror, a desordem, a divisão, o pânico penetravam no interior da casa, do mundo, da noite.
Joana afastou-se da janela que dava para o jardim, atravessou a sala, o corredor e o quarto e, no outro lado da casa, debruçou-se na janela que dava para a rua.
A mulher via-se mal, agarrada à parede, na meia-luz, do outro lado do passeio. Os seus gritos nus, próximos, desmedidos enchiam a penumbra. Na sua voz a terra e a vida tinham despido os seus véus, o seu pudor e mostravam o seu abismo, revelavam a sua desordem, a sua treva. De uma ponta à outra da rua os gritos corriam batendo contra as portas fechadas.
Era uma rua estreita, apertada entre edifí­cios sem cor, pesados e tristes. Ali a noite era cinzenta, o ar baço, parado e pegajoso.
Cães vadios farejavam o chão dos passeios e rebuscavam os caixotes do lixo tentando agar­rar sob as tampas os restos, as cascas, o pescoço da galinha degolada.
O edifício enorme da prisão enchia todo o lado esquerdo da rua com as altas paredes cor­tadas por pequenas janelas de grades. A essa parede estava encostada a mulher. As vezes er­guia a cara e então via-se o rosto torcido e desfi­gurado pelo grito. Ao seu lado desenhava-se o vulto de um homem. Era tarde. As portas e as janelas estavam fe­chadas sobre gente adormecida e na rua não pas­sava mais ninguém. Só de longe a longe se ouvia um chiar de carros na viragem das esquinas.
O homem procurava arrastar a mulher e, quando os gritos diminuíam um instante, im­plorava-lhe que se calasse, pedia:
- Vamos embora.
Mas ela não o ouvia. Gritava como se esti­vesse só no mundo, como se tivesse ultrapassa­do toda a companhia e toda a razão e tivesse encontrado a pura solidão. Gritava contra as paredes, contra as pedras, contra a sombra da noite. Erguia a sua voz como se a arrancasse do chão, como se o seu desespero e a sua dor bro­tassem do próprio chão que a suportava. Erguia a sua voz como se quisesse atingir com ela os confins do universo e, aí, tocar alguém, acordar alguém, obrigar alguém, a responder. Gritava contra o silêncio.
Às vezes calava-se um momento e inclina­va a cabeça para trás como quem espera ouvir uma resposta.
Então, de novo, o homem implorava:
- Cala-te, cala-te. Vamos embora daqui.
Mas ela recomeçava a gritar e batia com os punhos na parede da prisão como se quisesse forçar a pedra a responder. Gritava como se quisesse atingir um ausente, acordar um ador­mecido, abalar uma consciência impassível e, alheada, tocar o coração de um morto.
Através das paredes, das portas, das ruas, da cidade, gritava para o fundo do universo, para o fundo do espaço, para o fundo da ocul­tação da noite, para o fundo do silêncio.
De repente calou-se, curvou a cabeça, ta­pou o rosto com as mãos. Então o homem co­briu-lhe os cabelos com o xaile, afastou-a da parede, passou-lhe um braço em roda dos om­bros, e, devagar, juntos, desceram a rua e vira­ram a esquina.
Durante algum tempo flutuou no ar pesa­do da rua um eco de soluços e de passos que se afastavam e diminuíam. Depois voltou o silên­cio.
Um silêncio opaco e sinistro onde se ouvia o esgravatar dos cães.
Joana voltou para a sala. Tudo agora, des­de o fogo da estrela até ao brilho polido da me­sa, se tinha tornado desconhecido. Tudo se tinha tornado acidente absurdo, sem ligação, sem reino. As coisas não eram dela, nem eram ela, nem estavam com ela. Tudo se tornara alheio, tudo se tornara ruína irreconhecível.
E, tocando sem os sentir o vidro, a madei­ra, a cal, Joana atravessou como estrangeira a sua casa.

(1966)


Sophia de Mello Breyner Andresen | "Histórias da Terra e do Mar", págs. 47 a 55 | Texto Editora, 3ª. edição, 1989
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