Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Manuel Alegre
Coisa amar
Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
13 529
4
Florbela Espanca
Nihil Novum
Na penumbra do pórtico encantado
De Bruges, noutras eras, já vivi;
Vi os templos do Egito com Loti;
Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.
No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao Bósforo errei, pensando em ti!
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de nácar e brocado...
Mordi as rosas brancas de Ispahan
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca bárbara e deserta,
Triste, a florir numa ansiedade vã!
Sempre da vida – o mesmo estranho mal,
E o coração – a mesma chaga aberta!
De Bruges, noutras eras, já vivi;
Vi os templos do Egito com Loti;
Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.
No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao Bósforo errei, pensando em ti!
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de nácar e brocado...
Mordi as rosas brancas de Ispahan
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca bárbara e deserta,
Triste, a florir numa ansiedade vã!
Sempre da vida – o mesmo estranho mal,
E o coração – a mesma chaga aberta!
6 148
4
Elizabeth Barrett Browning
Como te amo?
Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido - quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido - quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.
5 846
4
José Gomes Ferreira
Todos os Punhais
...
Todos os punhais que fulgem nos gritos,
Todas as fomes que doem no pão
Todo o suor que luz nas estrelas
Todas as lanças nos dedos da reza,
Todos os soluços para ressuscitar os filhos mortos,
Todos os desejos nos alçapões do frio,
Todas as jóias nos pescoços dos espelhos rachados
Todos os assassinos que andaram aos colo das mães,
Todos os atestados de pobreza com lágrimas de carimbo,
Todos os murmúrios do sol no quarto ao lado à hora da morte…
Tudo, tudo, tudo
Se condensou de repente
Numa nuvem negra de milhões de lágrimas
A humilharem-me de ternura
- eu que quero ser alheio, duro, indiferente…
…. Enquanto os outros dançam, cantam, bebem,
vivem, amam, riem, suam
neste pobre planeta
magoado das pedras e dos homens
onde cresceu por acaso o meu coração no musgo
aberto para a consciência absurda
deste remorso sem sentido.
Todos os punhais que fulgem nos gritos,
Todas as fomes que doem no pão
Todo o suor que luz nas estrelas
Todas as lanças nos dedos da reza,
Todos os soluços para ressuscitar os filhos mortos,
Todos os desejos nos alçapões do frio,
Todas as jóias nos pescoços dos espelhos rachados
Todos os assassinos que andaram aos colo das mães,
Todos os atestados de pobreza com lágrimas de carimbo,
Todos os murmúrios do sol no quarto ao lado à hora da morte…
Tudo, tudo, tudo
Se condensou de repente
Numa nuvem negra de milhões de lágrimas
A humilharem-me de ternura
- eu que quero ser alheio, duro, indiferente…
…. Enquanto os outros dançam, cantam, bebem,
vivem, amam, riem, suam
neste pobre planeta
magoado das pedras e dos homens
onde cresceu por acaso o meu coração no musgo
aberto para a consciência absurda
deste remorso sem sentido.
6 402
4
Paulo Leminski
eu queria tanto
eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito
eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois
Publicado no livro Não Fosse Isso e Era Menos. Não Fosse Tanto e Era Quase (1980).
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito
eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois
Publicado no livro Não Fosse Isso e Era Menos. Não Fosse Tanto e Era Quase (1980).
5 671
4
Paulo Leminski
eu queria tanto
eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito
eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois
Publicado no livro Não Fosse Isso e Era Menos. Não Fosse Tanto e Era Quase (1980).
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito
eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois
Publicado no livro Não Fosse Isso e Era Menos. Não Fosse Tanto e Era Quase (1980).
5 671
4
Vladimir Maiakovski
PODER
Tu sabes e conhece melhor do que eu a velha história…
Na primeira noite, eles se aproximam de nossa casa,
roubam-nos uma flor e nós não dizemos nada…
Na segunda noite, eles não só se aproximam da nossa casa,
mas pulam o muro, pisam nas flores, matam o nosso cãozinho
E nós não dizemos nada…
Até que um dia, o mais sábio deles, entra em nossa casa,
rouba-nos a luz, arranca a voz de nossa garganta
e aí então meus caros amigos
é que não podemos dizer mais nada mesmo.
Na primeira noite, eles se aproximam de nossa casa,
roubam-nos uma flor e nós não dizemos nada…
Na segunda noite, eles não só se aproximam da nossa casa,
mas pulam o muro, pisam nas flores, matam o nosso cãozinho
E nós não dizemos nada…
Até que um dia, o mais sábio deles, entra em nossa casa,
rouba-nos a luz, arranca a voz de nossa garganta
e aí então meus caros amigos
é que não podemos dizer mais nada mesmo.
4 620
4
Vladimir Maiakovski
PODER
Tu sabes e conhece melhor do que eu a velha história…
Na primeira noite, eles se aproximam de nossa casa,
roubam-nos uma flor e nós não dizemos nada…
Na segunda noite, eles não só se aproximam da nossa casa,
mas pulam o muro, pisam nas flores, matam o nosso cãozinho
E nós não dizemos nada…
Até que um dia, o mais sábio deles, entra em nossa casa,
rouba-nos a luz, arranca a voz de nossa garganta
e aí então meus caros amigos
é que não podemos dizer mais nada mesmo.
Na primeira noite, eles se aproximam de nossa casa,
roubam-nos uma flor e nós não dizemos nada…
Na segunda noite, eles não só se aproximam da nossa casa,
mas pulam o muro, pisam nas flores, matam o nosso cãozinho
E nós não dizemos nada…
Até que um dia, o mais sábio deles, entra em nossa casa,
rouba-nos a luz, arranca a voz de nossa garganta
e aí então meus caros amigos
é que não podemos dizer mais nada mesmo.
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4
Thiago de Mello
Lição de Escuridão
Caboclo companheiro meu de várzea,
contigo cada dia um pouco aprendo
as ciências desta selva que nos une.
Contigo, que me ensinas o caminho dos ventos,
me levas a ler, nas lonjuras do céu,
os recados escritos pelas nuvens,
me avisas do perigo dos remansos
e quando devo desviar de viés a proa da canoa
para varar as ondas de perfil.
Sabes o nome e o segredo de todas as árvores,
a paragem calada que os peixes preferem
quando as águas começam a crescer.
Pelo canto, a cor do bico, o jeito de voar.
identificas todos os pássaros da selva.
Sozinho (eu mais Deus, tu me explicas).
atravessas a noite no centro da mata.
corajoso e paciente na tocaia da caça.
a traição dos felinos não te vence.
Contigo aprendo as leis da escuridão,
quando me apontas na distância da margem,
viajando na noite sem estrelas,
a boca (ainda não consigo ver) do Lago Grande
de onde me fui pequenino e te deixei.
De novo no chão da infância,
contigo aprendo também
que ainda não tens olhos para ver
as raízes de tua vida escura,
não sabes quais são os dentes que te devoram
nem os cipós que te amarram à servidão.
Nos teus olhos opacos
aprendo o que nos distingue.
Já repartes comigo a ciência e a paciência.
Quero contigo repartir a esperança,
estrela vigilante em minha fronte
e em teu olhar apenas um tição
encharcado de engano e cativeiro.
Barreirinha, 1981
Publicado no livro Mormaço na Floresta (1981).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
contigo cada dia um pouco aprendo
as ciências desta selva que nos une.
Contigo, que me ensinas o caminho dos ventos,
me levas a ler, nas lonjuras do céu,
os recados escritos pelas nuvens,
me avisas do perigo dos remansos
e quando devo desviar de viés a proa da canoa
para varar as ondas de perfil.
Sabes o nome e o segredo de todas as árvores,
a paragem calada que os peixes preferem
quando as águas começam a crescer.
Pelo canto, a cor do bico, o jeito de voar.
identificas todos os pássaros da selva.
Sozinho (eu mais Deus, tu me explicas).
atravessas a noite no centro da mata.
corajoso e paciente na tocaia da caça.
a traição dos felinos não te vence.
Contigo aprendo as leis da escuridão,
quando me apontas na distância da margem,
viajando na noite sem estrelas,
a boca (ainda não consigo ver) do Lago Grande
de onde me fui pequenino e te deixei.
De novo no chão da infância,
contigo aprendo também
que ainda não tens olhos para ver
as raízes de tua vida escura,
não sabes quais são os dentes que te devoram
nem os cipós que te amarram à servidão.
Nos teus olhos opacos
aprendo o que nos distingue.
Já repartes comigo a ciência e a paciência.
Quero contigo repartir a esperança,
estrela vigilante em minha fronte
e em teu olhar apenas um tição
encharcado de engano e cativeiro.
Barreirinha, 1981
Publicado no livro Mormaço na Floresta (1981).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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4
Thiago de Mello
Lição de Escuridão
Caboclo companheiro meu de várzea,
contigo cada dia um pouco aprendo
as ciências desta selva que nos une.
Contigo, que me ensinas o caminho dos ventos,
me levas a ler, nas lonjuras do céu,
os recados escritos pelas nuvens,
me avisas do perigo dos remansos
e quando devo desviar de viés a proa da canoa
para varar as ondas de perfil.
Sabes o nome e o segredo de todas as árvores,
a paragem calada que os peixes preferem
quando as águas começam a crescer.
Pelo canto, a cor do bico, o jeito de voar.
identificas todos os pássaros da selva.
Sozinho (eu mais Deus, tu me explicas).
atravessas a noite no centro da mata.
corajoso e paciente na tocaia da caça.
a traição dos felinos não te vence.
Contigo aprendo as leis da escuridão,
quando me apontas na distância da margem,
viajando na noite sem estrelas,
a boca (ainda não consigo ver) do Lago Grande
de onde me fui pequenino e te deixei.
De novo no chão da infância,
contigo aprendo também
que ainda não tens olhos para ver
as raízes de tua vida escura,
não sabes quais são os dentes que te devoram
nem os cipós que te amarram à servidão.
Nos teus olhos opacos
aprendo o que nos distingue.
Já repartes comigo a ciência e a paciência.
Quero contigo repartir a esperança,
estrela vigilante em minha fronte
e em teu olhar apenas um tição
encharcado de engano e cativeiro.
Barreirinha, 1981
Publicado no livro Mormaço na Floresta (1981).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
contigo cada dia um pouco aprendo
as ciências desta selva que nos une.
Contigo, que me ensinas o caminho dos ventos,
me levas a ler, nas lonjuras do céu,
os recados escritos pelas nuvens,
me avisas do perigo dos remansos
e quando devo desviar de viés a proa da canoa
para varar as ondas de perfil.
Sabes o nome e o segredo de todas as árvores,
a paragem calada que os peixes preferem
quando as águas começam a crescer.
Pelo canto, a cor do bico, o jeito de voar.
identificas todos os pássaros da selva.
Sozinho (eu mais Deus, tu me explicas).
atravessas a noite no centro da mata.
corajoso e paciente na tocaia da caça.
a traição dos felinos não te vence.
Contigo aprendo as leis da escuridão,
quando me apontas na distância da margem,
viajando na noite sem estrelas,
a boca (ainda não consigo ver) do Lago Grande
de onde me fui pequenino e te deixei.
De novo no chão da infância,
contigo aprendo também
que ainda não tens olhos para ver
as raízes de tua vida escura,
não sabes quais são os dentes que te devoram
nem os cipós que te amarram à servidão.
Nos teus olhos opacos
aprendo o que nos distingue.
Já repartes comigo a ciência e a paciência.
Quero contigo repartir a esperança,
estrela vigilante em minha fronte
e em teu olhar apenas um tição
encharcado de engano e cativeiro.
Barreirinha, 1981
Publicado no livro Mormaço na Floresta (1981).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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4
José Gomes Ferreira
Extrai Todos os Dias
Extrai do todos-os-dias
O hoje de todo-o-sempre
Até ao fim do mundo
Quando o sol gelar
A última eternidade.
Embala amanhã nos braços dos outros
A criança esquecida
Que foi agora atropelada
Por mil automóveis
Em todas as ruas do mundo.
Procura nas lágrimas recentes
Os olhos de hão-de chorá-las
Daqui a dez mil anos.
E se queres a glória
De ser ignorado
Pelo egoísmo do futuro
Ouve, poeta do desdém novo:
Canta os mortos das barricadas
E a volúpia das dores do tempo.
(Mas pede às rosas
que continuem a repetir-se
até o fim das pedras…
O hoje de todo-o-sempre
Até ao fim do mundo
Quando o sol gelar
A última eternidade.
Embala amanhã nos braços dos outros
A criança esquecida
Que foi agora atropelada
Por mil automóveis
Em todas as ruas do mundo.
Procura nas lágrimas recentes
Os olhos de hão-de chorá-las
Daqui a dez mil anos.
E se queres a glória
De ser ignorado
Pelo egoísmo do futuro
Ouve, poeta do desdém novo:
Canta os mortos das barricadas
E a volúpia das dores do tempo.
(Mas pede às rosas
que continuem a repetir-se
até o fim das pedras…
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4
Artur de Azevedo
Que Horror
Estou esplenético e tétrico.
Sorumbático e sombrio...
Vi de longe um bonde elétrico!
Não faço versos, não rio...
In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
Sorumbático e sombrio...
Vi de longe um bonde elétrico!
Não faço versos, não rio...
In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
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4
Afonso Schmidt
Cubatão
Minha terra não passa de uma estrada,
um bambual que rumoreja ao vento;
sol de fogo em areia prateada,
deslumbramento e mais deslumbramento.
O chafariz em forma de carranca,
confidente das moças do arrabalde,
despeja a sua gargalhada branca
no bojo de latão de um velho balde,
Nas portas, parasitas cor de sangue,
um mastro esguio em cada casinhola;
gente tostada que desfolha o mangue,
crianças pálidas que vêm da escola.
Ao fundo, a Serra. Pinceladas frouxas,
de ouro e tristeza, em fundo azul. Aquelas
manchas que são jacatirões — as roxas,
e aleluias — as manchas amarelas.
A minha terra, quando a vejo, escampa,
cheia de sol e de visões amigas,
lembra-me o cromo que enfeitava a tampa
de uma caixa de goma, das antigas...
Publicado no livro Mocidade (1921).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
um bambual que rumoreja ao vento;
sol de fogo em areia prateada,
deslumbramento e mais deslumbramento.
O chafariz em forma de carranca,
confidente das moças do arrabalde,
despeja a sua gargalhada branca
no bojo de latão de um velho balde,
Nas portas, parasitas cor de sangue,
um mastro esguio em cada casinhola;
gente tostada que desfolha o mangue,
crianças pálidas que vêm da escola.
Ao fundo, a Serra. Pinceladas frouxas,
de ouro e tristeza, em fundo azul. Aquelas
manchas que são jacatirões — as roxas,
e aleluias — as manchas amarelas.
A minha terra, quando a vejo, escampa,
cheia de sol e de visões amigas,
lembra-me o cromo que enfeitava a tampa
de uma caixa de goma, das antigas...
Publicado no livro Mocidade (1921).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
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4
Paulo Leminski
Acordei bemol
acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido
6 107
4
D. Pedro II
V - A Vida e o Barco
Andar e mais andar é a vida a bordo;
Mal estudo, e apenas eu vou lendo;
A noite com a música entretendo;
Deito-me cedo, e mais cedo acordo.
Saudosíssimo a pátria eu recordo,
E, pra consolo versos lhe fazendo,
Desenho terras só aquela vendo,
E para não chorar os lábios mordo.
Enfim há de chegar, eu bem o sei,
Que o Brasil eu reveja jubiloso;
E, se outrora eu servi-lo só pensei,
Muito mais forte e muito mais zeloso,
Para ainda mais servi-lo, voltarei
Té que nele encontre o último repouso.
Bordo do Gironde, 14 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
Mal estudo, e apenas eu vou lendo;
A noite com a música entretendo;
Deito-me cedo, e mais cedo acordo.
Saudosíssimo a pátria eu recordo,
E, pra consolo versos lhe fazendo,
Desenho terras só aquela vendo,
E para não chorar os lábios mordo.
Enfim há de chegar, eu bem o sei,
Que o Brasil eu reveja jubiloso;
E, se outrora eu servi-lo só pensei,
Muito mais forte e muito mais zeloso,
Para ainda mais servi-lo, voltarei
Té que nele encontre o último repouso.
Bordo do Gironde, 14 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
3 144
4
D. Pedro II
V - A Vida e o Barco
Andar e mais andar é a vida a bordo;
Mal estudo, e apenas eu vou lendo;
A noite com a música entretendo;
Deito-me cedo, e mais cedo acordo.
Saudosíssimo a pátria eu recordo,
E, pra consolo versos lhe fazendo,
Desenho terras só aquela vendo,
E para não chorar os lábios mordo.
Enfim há de chegar, eu bem o sei,
Que o Brasil eu reveja jubiloso;
E, se outrora eu servi-lo só pensei,
Muito mais forte e muito mais zeloso,
Para ainda mais servi-lo, voltarei
Té que nele encontre o último repouso.
Bordo do Gironde, 14 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
Mal estudo, e apenas eu vou lendo;
A noite com a música entretendo;
Deito-me cedo, e mais cedo acordo.
Saudosíssimo a pátria eu recordo,
E, pra consolo versos lhe fazendo,
Desenho terras só aquela vendo,
E para não chorar os lábios mordo.
Enfim há de chegar, eu bem o sei,
Que o Brasil eu reveja jubiloso;
E, se outrora eu servi-lo só pensei,
Muito mais forte e muito mais zeloso,
Para ainda mais servi-lo, voltarei
Té que nele encontre o último repouso.
Bordo do Gironde, 14 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
3 144
4
Afonso Schmidt
Caras Sujas
Ao longo destas avenidas,
recordação de velhas lendas,
cantam as chácaras floridas
com suas líricas vivendas.
Lá dentro, há risos, jogos, danças,
crástinas, módulas fanfarras,
um pandemônio de crianças,
um zangarreio de cigarras.
Fora, penduram-se na grade
os pobres, como gafanhotos;
têm dos outros a mesma idade.
mas estão pálidos e rotos.
Chora a injustiça da cidade
na cara suja dos garotos.
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
recordação de velhas lendas,
cantam as chácaras floridas
com suas líricas vivendas.
Lá dentro, há risos, jogos, danças,
crástinas, módulas fanfarras,
um pandemônio de crianças,
um zangarreio de cigarras.
Fora, penduram-se na grade
os pobres, como gafanhotos;
têm dos outros a mesma idade.
mas estão pálidos e rotos.
Chora a injustiça da cidade
na cara suja dos garotos.
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
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4
Afonso Schmidt
Caras Sujas
Ao longo destas avenidas,
recordação de velhas lendas,
cantam as chácaras floridas
com suas líricas vivendas.
Lá dentro, há risos, jogos, danças,
crástinas, módulas fanfarras,
um pandemônio de crianças,
um zangarreio de cigarras.
Fora, penduram-se na grade
os pobres, como gafanhotos;
têm dos outros a mesma idade.
mas estão pálidos e rotos.
Chora a injustiça da cidade
na cara suja dos garotos.
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
recordação de velhas lendas,
cantam as chácaras floridas
com suas líricas vivendas.
Lá dentro, há risos, jogos, danças,
crástinas, módulas fanfarras,
um pandemônio de crianças,
um zangarreio de cigarras.
Fora, penduram-se na grade
os pobres, como gafanhotos;
têm dos outros a mesma idade.
mas estão pálidos e rotos.
Chora a injustiça da cidade
na cara suja dos garotos.
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
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4
José Gomes Ferreira
Quem anda nos meus olhos
Quem anda nos meus olhos
A querer salvar o mundo
Com espadas de lágrimas?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha sombra
A arrastar a armadura negra
Do Cavaleiro da Resignação
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha alma
A querer estrangular gigantes
Com mãos de adormecer lírios ?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha ira
A enterrar punhais de solidão
Nos monstros dos Desvios Nevoentos?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda no meu sonho
A ressuscitar filhos mortos nos regaços,
Para morrerem outra vez de fome?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha voz,
A iludir-me de clangores de peleja
Na cidade dos inimigos trocados?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Sim, matar-te
Para nunca mais sentir na cara
o frio de lâmina das tuas lágrimas
E ficar diante da vida,
Terrível e seco
De mãos nuas
- à espera de outras mãos de algum dia,
Suadas da camaradagem do mundo novo.
A querer salvar o mundo
Com espadas de lágrimas?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha sombra
A arrastar a armadura negra
Do Cavaleiro da Resignação
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha alma
A querer estrangular gigantes
Com mãos de adormecer lírios ?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha ira
A enterrar punhais de solidão
Nos monstros dos Desvios Nevoentos?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda no meu sonho
A ressuscitar filhos mortos nos regaços,
Para morrerem outra vez de fome?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha voz,
A iludir-me de clangores de peleja
Na cidade dos inimigos trocados?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Sim, matar-te
Para nunca mais sentir na cara
o frio de lâmina das tuas lágrimas
E ficar diante da vida,
Terrível e seco
De mãos nuas
- à espera de outras mãos de algum dia,
Suadas da camaradagem do mundo novo.
7 247
4
José Gomes Ferreira
Quem anda nos meus olhos
Quem anda nos meus olhos
A querer salvar o mundo
Com espadas de lágrimas?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha sombra
A arrastar a armadura negra
Do Cavaleiro da Resignação
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha alma
A querer estrangular gigantes
Com mãos de adormecer lírios ?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha ira
A enterrar punhais de solidão
Nos monstros dos Desvios Nevoentos?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda no meu sonho
A ressuscitar filhos mortos nos regaços,
Para morrerem outra vez de fome?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha voz,
A iludir-me de clangores de peleja
Na cidade dos inimigos trocados?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Sim, matar-te
Para nunca mais sentir na cara
o frio de lâmina das tuas lágrimas
E ficar diante da vida,
Terrível e seco
De mãos nuas
- à espera de outras mãos de algum dia,
Suadas da camaradagem do mundo novo.
A querer salvar o mundo
Com espadas de lágrimas?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha sombra
A arrastar a armadura negra
Do Cavaleiro da Resignação
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha alma
A querer estrangular gigantes
Com mãos de adormecer lírios ?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha ira
A enterrar punhais de solidão
Nos monstros dos Desvios Nevoentos?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda no meu sonho
A ressuscitar filhos mortos nos regaços,
Para morrerem outra vez de fome?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha voz,
A iludir-me de clangores de peleja
Na cidade dos inimigos trocados?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Sim, matar-te
Para nunca mais sentir na cara
o frio de lâmina das tuas lágrimas
E ficar diante da vida,
Terrível e seco
De mãos nuas
- à espera de outras mãos de algum dia,
Suadas da camaradagem do mundo novo.
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José Gomes Ferreira
Quem anda nos meus olhos
Quem anda nos meus olhos
A querer salvar o mundo
Com espadas de lágrimas?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha sombra
A arrastar a armadura negra
Do Cavaleiro da Resignação
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha alma
A querer estrangular gigantes
Com mãos de adormecer lírios ?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha ira
A enterrar punhais de solidão
Nos monstros dos Desvios Nevoentos?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda no meu sonho
A ressuscitar filhos mortos nos regaços,
Para morrerem outra vez de fome?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha voz,
A iludir-me de clangores de peleja
Na cidade dos inimigos trocados?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Sim, matar-te
Para nunca mais sentir na cara
o frio de lâmina das tuas lágrimas
E ficar diante da vida,
Terrível e seco
De mãos nuas
- à espera de outras mãos de algum dia,
Suadas da camaradagem do mundo novo.
A querer salvar o mundo
Com espadas de lágrimas?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha sombra
A arrastar a armadura negra
Do Cavaleiro da Resignação
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha alma
A querer estrangular gigantes
Com mãos de adormecer lírios ?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha ira
A enterrar punhais de solidão
Nos monstros dos Desvios Nevoentos?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda no meu sonho
A ressuscitar filhos mortos nos regaços,
Para morrerem outra vez de fome?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Quem anda na minha voz,
A iludir-me de clangores de peleja
Na cidade dos inimigos trocados?
És tu D. Quixote, e vou matar-te.
Sim, matar-te
Para nunca mais sentir na cara
o frio de lâmina das tuas lágrimas
E ficar diante da vida,
Terrível e seco
De mãos nuas
- à espera de outras mãos de algum dia,
Suadas da camaradagem do mundo novo.
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4
João Cabral de Melo Neto
O Sertanejo Falando
A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.
2.
Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-las na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.
Publicado no livro A educação pela pedra (1966)
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.335-336. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.
2.
Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-las na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.
Publicado no livro A educação pela pedra (1966)
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.335-336. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
7 613
4
Junqueira Freire
O Hino da Cabocla
(Canção nacional)
Sou índia, sou virgem, sou linda, sou débil,
— É quando vós outros, ó tapes, dizeis!
Sabei, bravos tapes! — que eu sei com destreza
Cravar minhas setas no peito dos reis!
Sabei que não canto somente prazeres,
Sabei que não gemo somente de amores:
Sabei que nem sempre vagueio nos bosques,
Sabei que nem sempres me adorno de flores.
Meus lábios não beijam os lábios do amante,
Meus lábios combatem tirânicas leis:
Meus lábios são como trovões estupendos,
Que cospem coriscos na face dos reis!
Quem viu-me nas liças, quem viu-me covarde,
Aos silvos da flecha — quem viu-me escorar?
Eu sou como a onça, pequena e valente,
Eu sei os perigos da guerra afrontar!
Enchi meus carcases de agudas taquaras,
Que iguais nas florestas jamais achareis;
E dessa taquaras fatais é que pendem
As vidas infames de todos os reis.
Sou índia, não nego: — meus finos cabelos
— Qual juba ferina — bem longos que são!
Porém esse peito, que férvido pulsa,
É másculo, ó tapes! — ou é de um leão!
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
Sou índia, sou virgem, sou linda, sou débil,
— É quando vós outros, ó tapes, dizeis!
Sabei, bravos tapes! — que eu sei com destreza
Cravar minhas setas no peito dos reis!
Sabei que não canto somente prazeres,
Sabei que não gemo somente de amores:
Sabei que nem sempre vagueio nos bosques,
Sabei que nem sempres me adorno de flores.
Meus lábios não beijam os lábios do amante,
Meus lábios combatem tirânicas leis:
Meus lábios são como trovões estupendos,
Que cospem coriscos na face dos reis!
Quem viu-me nas liças, quem viu-me covarde,
Aos silvos da flecha — quem viu-me escorar?
Eu sou como a onça, pequena e valente,
Eu sei os perigos da guerra afrontar!
Enchi meus carcases de agudas taquaras,
Que iguais nas florestas jamais achareis;
E dessa taquaras fatais é que pendem
As vidas infames de todos os reis.
Sou índia, não nego: — meus finos cabelos
— Qual juba ferina — bem longos que são!
Porém esse peito, que férvido pulsa,
É másculo, ó tapes! — ou é de um leão!
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
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Junqueira Freire
O Hino da Cabocla
(Canção nacional)
Sou índia, sou virgem, sou linda, sou débil,
— É quando vós outros, ó tapes, dizeis!
Sabei, bravos tapes! — que eu sei com destreza
Cravar minhas setas no peito dos reis!
Sabei que não canto somente prazeres,
Sabei que não gemo somente de amores:
Sabei que nem sempre vagueio nos bosques,
Sabei que nem sempres me adorno de flores.
Meus lábios não beijam os lábios do amante,
Meus lábios combatem tirânicas leis:
Meus lábios são como trovões estupendos,
Que cospem coriscos na face dos reis!
Quem viu-me nas liças, quem viu-me covarde,
Aos silvos da flecha — quem viu-me escorar?
Eu sou como a onça, pequena e valente,
Eu sei os perigos da guerra afrontar!
Enchi meus carcases de agudas taquaras,
Que iguais nas florestas jamais achareis;
E dessa taquaras fatais é que pendem
As vidas infames de todos os reis.
Sou índia, não nego: — meus finos cabelos
— Qual juba ferina — bem longos que são!
Porém esse peito, que férvido pulsa,
É másculo, ó tapes! — ou é de um leão!
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
Sou índia, sou virgem, sou linda, sou débil,
— É quando vós outros, ó tapes, dizeis!
Sabei, bravos tapes! — que eu sei com destreza
Cravar minhas setas no peito dos reis!
Sabei que não canto somente prazeres,
Sabei que não gemo somente de amores:
Sabei que nem sempre vagueio nos bosques,
Sabei que nem sempres me adorno de flores.
Meus lábios não beijam os lábios do amante,
Meus lábios combatem tirânicas leis:
Meus lábios são como trovões estupendos,
Que cospem coriscos na face dos reis!
Quem viu-me nas liças, quem viu-me covarde,
Aos silvos da flecha — quem viu-me escorar?
Eu sou como a onça, pequena e valente,
Eu sei os perigos da guerra afrontar!
Enchi meus carcases de agudas taquaras,
Que iguais nas florestas jamais achareis;
E dessa taquaras fatais é que pendem
As vidas infames de todos os reis.
Sou índia, não nego: — meus finos cabelos
— Qual juba ferina — bem longos que são!
Porém esse peito, que férvido pulsa,
É másculo, ó tapes! — ou é de um leão!
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
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