Poemas neste tema
Ciência e Razão
Fernando Pessoa
A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã é uma coisa abstracta, está, não é uma coisa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «Começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos a manhã,
Por isso se não há vantagem em por nomes errados às coisas,
Devemos nunca lhes por nomes alguns.
A manhã é uma coisa abstracta, está, não é uma coisa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «Começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos a manhã,
Por isso se não há vantagem em por nomes errados às coisas,
Devemos nunca lhes por nomes alguns.
1 490
Fernando Pessoa
O meu sentimento é cinza
O meu sentimento é cinza
Da minha imaginação,
E eu deixo cair a cinza
No cinzeiro da Razão.
Da minha imaginação,
E eu deixo cair a cinza
No cinzeiro da Razão.
2 271
Fernando Pessoa
Este tal Robertson, diz Jesus Cristo
Este tal Robertson, diz Jesus Cristo
Ao seu divino Pai
Tem o ousio de dizer que eu não existo
Deixa-o disse Deus Padre. Eis a verdade:
Tal pai tal filho; é natural assim
E o não existir é qualidade
Que tu herdas de mim.
Ao seu divino Pai
Tem o ousio de dizer que eu não existo
Deixa-o disse Deus Padre. Eis a verdade:
Tal pai tal filho; é natural assim
E o não existir é qualidade
Que tu herdas de mim.
964
Clemente Rebora
Texto XXXIV dos Framment lirici
Ciência vence natureza:
é glória. Imensamente ferve
de máquinas ressoa e de moedas
o atrito humano,
enquanto, à parte, o coro dos vencidos
geme ou submerge, e sem sentido
a melodia da floresta
jaz sem ser ouvida.
Ó, nas ruas da aurora um despertar de fogo,
quando
pássaros de ninhos urbanos
por entre chaminés e canos
revoam altas as sirenes
em meio a incensos de fumaça
chamando para o bom trabalho!
E assim se desata a jornada
de hora em hora, até o meio-dia
e daí descendo pela encosta
a forjar coisas, pensamentos,
nas sucessões entrelaçadas
nos movimentos martelados,
até que a noite acolhe o peito que arde
aspirando sua força e sua vontade
na dura volta para casa
que nos subúrbios escurece entre os ecos
das mais tardias oficinas,
e agora o tremular das formas
que se demoram, precavidas,
no tinir luminoso de alamedas.
(tradução de Maurício Santana Dias)
é glória. Imensamente ferve
de máquinas ressoa e de moedas
o atrito humano,
enquanto, à parte, o coro dos vencidos
geme ou submerge, e sem sentido
a melodia da floresta
jaz sem ser ouvida.
Ó, nas ruas da aurora um despertar de fogo,
quando
pássaros de ninhos urbanos
por entre chaminés e canos
revoam altas as sirenes
em meio a incensos de fumaça
chamando para o bom trabalho!
E assim se desata a jornada
de hora em hora, até o meio-dia
e daí descendo pela encosta
a forjar coisas, pensamentos,
nas sucessões entrelaçadas
nos movimentos martelados,
até que a noite acolhe o peito que arde
aspirando sua força e sua vontade
na dura volta para casa
que nos subúrbios escurece entre os ecos
das mais tardias oficinas,
e agora o tremular das formas
que se demoram, precavidas,
no tinir luminoso de alamedas.
(tradução de Maurício Santana Dias)
808
Heiner Müller
Lamento do historiador
No quarto livro dos ANNALES Tácito queixa-se
Pela duração do tempo de paz, mal interrompido
Por disputas fronteiriças pueris, com a descrição
Das quais precisa contentar-se, cheio
De inveja de seus predecessores
Que tiveram à disposição guerras-mamute
Com imperadores à frente, exigindo uma Roma
Sempre maior, povos subjugados, reis cativos
Revoltas e crises de estado: material dos bons.
E Tácito desculpa-se junto a seus leitores.
Eu, por minha vez, dois mil anos depois dele,
Não preciso desculpar-me e não posso
Queixar-me da falta de bom material.
(tradução de Ricardo Domeneck)
Pela duração do tempo de paz, mal interrompido
Por disputas fronteiriças pueris, com a descrição
Das quais precisa contentar-se, cheio
De inveja de seus predecessores
Que tiveram à disposição guerras-mamute
Com imperadores à frente, exigindo uma Roma
Sempre maior, povos subjugados, reis cativos
Revoltas e crises de estado: material dos bons.
E Tácito desculpa-se junto a seus leitores.
Eu, por minha vez, dois mil anos depois dele,
Não preciso desculpar-me e não posso
Queixar-me da falta de bom material.
(tradução de Ricardo Domeneck)
962
Antidio Cabal
Epitáfio de Tomás Elías, vulgo O Doutor
Aqui jaz um acadêmico cuja saberdoria
o levou a cultivar a ignorância
baseando-se no conhecimento.
Passante, não ponhas flores em seu túmulo,
ele não as entenderia.
o levou a cultivar a ignorância
baseando-se no conhecimento.
Passante, não ponhas flores em seu túmulo,
ele não as entenderia.
745
Helmut Heissenbüttel
Manchas de tinta fogem céleres
manchas de tinta fogem céleres sobre o conceito
.......da tarde de setembro
um Miró de 1931 com o título Silence
o poço dos pássaros migratórios está em movimento
a lâmpada da escrivaninha resolve enigma nenhum
em vão Miró estica seus braços de Heidegger
.......a Wittgenstein
a amarelada luz pluvial da tarde de setembro cola-se
.......ao vidro da janela
os braços amarelados da tarde de setembro aconchegam
.......-me a si
a amarelada luz de setembro da tarde chuvosa golpeia
.......como um projétil de silêncio
Tintenflecke fliehen rasch über das Konzept des Septemberabends
ein Miró von 1931 mit dem Titel Silence
der Springbrunnen der Schwalben ist unterwegs
die Schreibtischlampe löst keine Rätsel
vergeblich streckt der Miró seine Arme von Heidegger
.......bis Wittgenstein
das gelbe Regenlicht des Septemberabends klebt
.......an der Fensterscheibe
die gelben Arme des Septemberabends pressen mich an sich
das gelbe Septemberlicht des Regenabends schlägt lautlos ein
.......wie ein Geschoss aus Schweigen
.......da tarde de setembro
um Miró de 1931 com o título Silence
o poço dos pássaros migratórios está em movimento
a lâmpada da escrivaninha resolve enigma nenhum
em vão Miró estica seus braços de Heidegger
.......a Wittgenstein
a amarelada luz pluvial da tarde de setembro cola-se
.......ao vidro da janela
os braços amarelados da tarde de setembro aconchegam
.......-me a si
a amarelada luz de setembro da tarde chuvosa golpeia
.......como um projétil de silêncio
Tintenflecke fliehen rasch über das Konzept des Septemberabends
ein Miró von 1931 mit dem Titel Silence
der Springbrunnen der Schwalben ist unterwegs
die Schreibtischlampe löst keine Rätsel
vergeblich streckt der Miró seine Arme von Heidegger
.......bis Wittgenstein
das gelbe Regenlicht des Septemberabends klebt
.......an der Fensterscheibe
die gelben Arme des Septemberabends pressen mich an sich
das gelbe Septemberlicht des Regenabends schlägt lautlos ein
.......wie ein Geschoss aus Schweigen
785
Manuel António Pina
A um Jovem Poeta
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
1 941
Manuel António Pina
O livro
E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas: «Água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.
Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.
pedra de mármore não digas: «Água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.
Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.
1 734
Paulo Leminski
Primeiras páginas
ergo sum, aliás, Ego sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, — vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus. Vejo mais. Já lá vão anos III me destaquei de Europa e a gente civil, lá morituro. Isso de “barbarus — non intellegor ulli” — dos exercícios de exílio de Ovídio é comigo. Do parque do príncipe, a lentes de luneta, CONTEMPLO A CONSIDERAR O CAIS, O MAR, AS NUVENS, OS ENIGMAS E OS PRODÍGIOS DE BRASÍLIA. Desde verdes anos, via de regra, medito horizontal manhã cedo, só vindo à luz já sol meiodia. Estar, mister de deuses, na atual circunstância, presença no estanque dessa Vrijburg , gaza de mapas, taba rasa de humores, orto e zôo, oca de feras e casa de flores. Plantas sarcófagas e carnívoras atrapalham-se, um lugar ao sol e um tempo na sombra. Chacoalham, cintila a água gota a gota, efêmeros chocam enxames. Cocos fecham-se em copas, mamas ampliam: MAMÕES. O vapor umedece o bolor, abafa o mofo, asfixia e fermenta fragmentos de fragrâncias. Cheiro um palmo à frente do nariz, mim, imenso e imerso, bom. Bestas, feras entre flores festas circulam em jaula tripla — as piores, dupla as maiores; em gaiolas, as menores, à ventura — as melhores. Animais anormais engendra o equinócio, desleixo no eixo da terra, desvio das linhas de fato. Pouco mais que o nome o toupinambaoults lhes signou, suspensos apenas pelo nó do apelo. De longe, três pontos... Em foco, Tatu, esferas rolando de outras eras, escarafuncham mundos e fundos. Saem da mãe com setenta e um dentes, dos quais dez caem aí mesmo, vinte e cinco ao primeiro bocado de terra, vinte o vento leva, quatorze a água, e um desaparece num acidente. Um, na algaravia geral, por nome, Tamanduá, esparrama língua no pó de incerto inseto, fica de pé, zarolho de tão perto, cara a cara, ali, aí, esdruxula num acúmulo e se desfaz eclipsado em formigas. Pela ou na rama, voce mettalica longisonans, a araponga malha ferro frio, bentevi no mal-me-quer-bem-me-quer. A dois lances de pedra daqui, volta e meia, dois giros; meia volta, vultos a três por dois. De onde em onde, vão e vêm; de quando em vez, vêem o que tem. Perante o segundo elemento, a manada anda e desanda, papa e bebe, mama e baba. Depois da laguna, enchem a anterior lacuna. Anta, nunca a vi tão gorda. Nuvens que o gambá fede empalidecem o nariz das pacas. Capivara, estômago a sair pelas órbitas, ou, porque fartas se estatelam arrotando capinzais ou, como são sabem senão comer, jogam o gargalo para o alto, arreganhando a dentadura, tiriricas de estar sem fome. Ensy, joão chamado bobo, não tuge nem muge, não foge tiro, brilho nem barulho — gálbula, brachyptera, insectívora, taciturna, non scansoria, stupida — , para jogar sério a esmo. Monos se penteando espelham-se no banho das piranhas, cara quase rosto no quasequase das águas: agulhas fazem boa boca, botam mau olhado anulando-lhes a estampa, símios para sempre. Na aguada, o corpanzil réptil entretece lagartos e lagostas. Monstros da natura desvairada nestes ares, à tona, boquiaberta, à toa, cabisbaixa, o mesmo nenhum afã. Tira pestana ao sol uma jibóia que é só borboletas. Tucanos atrás dos canos, máscara sefardim, arcanos no tutano. Jibóia, no local do crime, desamarram espirais englobando cabras, ovelhas, bois. Chifres da boca para fora — esfinges bucefálicas entre aspas — decompõem pelos mangues o conteúdo: cospem cornos o dobro. Exorbitantes, duram contos de séculos, estabelece Marcgravf, na qualidade de profeta. Vegetam eternidades. Crias? Mudas? Cruzam e descruzam entre si? Não, esse pensamento, não, — é sístole dos climas e sintoma do calor em minha cabeça. Penso mas não compensa: a sibila me belisca, a pitonisa me hipnotiza, me obelisco, essa python medusa e visa, eu paro, viro paupau, pedrapedra. Dédalos de espelho de Elísio, torre babéu, hortus urbis diaboli, furores de Thule, delícias de Menrod, curral do pasmo, cada bicho silencia e seleciona andamentos e paramentos. Bichos bichando, comigo que se passa? Abrir meu coração a Artyczewski. Virá Artyczewski. Nossas manhãs de fala me faltam. Um papagaio pegou meu pensamento, amola palavras em polaco, imitando Articzewski (Cartepanie! Cartepanie!). Bestas geradas no mais aceso fogo do dia... Comer esses animais há de perturbar singularmente as coisas do pensar. Palmilho os dias entre essas bestas estranhas, meus sonhos se populam da estranha fauna e flora: o estalo de coisas, o estalido dos bichos, o estar interessante: a flora fagulha e a fauna floresce... Singulares excessos... In primis cogitationibus circa generationem animalium, de his omnibus non cogitavi. Na boca da espera, Articzewski demora como se o parisse, possesso desta erva de negros que me ministrou, — riamba, pemba, gingongó, chibaba, jererê, monofa, charula, ou pango, tabaqueação de toupinambaoults, gês e negros minas, segundo Marcgravf. Aspirar estes fumos de ervas, encher os peitos nos hálitos deste mato, a essência, a cabeça quieta, ofício de ofídio.
1 483
Rolf Dieter Brinkmann
Improvisação 1, 2 3 (com Han Shan, entre outros)
"Ninguém sabe de onde veio Han Shan."
Ele desceu da planície na
montanha fria,
escreveu "o que há de se fazer aqui?", na pedra,
os títulos ausentes, sem numeração,
ele sentou-se e observou a neve,
as explicações, "notas de rodapé", vieram depois, e nada explicavam.
As caligrafias no frio, brancas,
a contemplação da pedra, o esquecimento
das lembranças, o que é
uma conquista. Ele escreveu "o sábio não
tem nem um centavo", quando foi mais uma vez
surpreendido
por exigências de que abandonasse
a montanha, atormentado pelos "pêsames das moscas"
&, ao limpar o quarto, sentiu-se satisfeito.
3.
Cantar uma canção,
sem intenção além
de cantar uma canção,
é um trabalho árduo,
como sentar-se diante
da montanha coberta
de neve, contemplá-la
sem distração por anos
e então, um dia,
com uma única pincelada
de tinta branca sobre
o branco do papel,
estabelecer que qualquer
um vê que a montanha
está completamente vazia.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Improvisation 1, 2 & 3 (u.a. nach Han Shan) / "Niemand weiss, woher Han Shan kam." / Er stieg aus der Ebene auf den / Kalten Berg, // schrieb, "was soll ich hier tun?", in den Stein, // die Überschriften fehlten, keine Numerierung // er sass und sah auf den Schnee, // die Erklärungen, "Fussnoten", folgten später, erklärten nichts. // Die Kalligraphien in der Kälte, weiss, / das Anschauen des Steins, das Vergessen // der Erinnerungen, was // eine Leistung ist. Er schrieb "der Wissende / hat keinen Pfenning," als er wieder // überrumpelt / wurde vom Verlangen, den Berg / zu verlassen, geplagt von der "Kondolation der Fliegen" / &, als er das Zimmer ausfegte, war er zufrieden. // 2 // Klack, klack: die Geselschaft / ist das Abstrakte, / ("slle gaffen / mich an, seit ich den / Weg verlor") / du hörst die vielen / Geräusche der Schuhe, / ("die Personen der / Handlung sind frei erfunden, / dasselbe gilt für / die Handlung") / es ist dasselbe / unendliche Geräusch, / das die Welt erfüllt, überall, wo du bist. / Und, sagen wir, noch einmal: "plötzlich" / als du die Kurve nahmst, / aus der Stadt herausfuhrst, / nachts auf der Autobahn, / und die Lichterketten zu Ende / waren, hast du´s gewusst, / ("gibts was zu / freuen, freue dich / daran")|wenn erst / Unkraut durch den / Schädel spriesst / etc.) / klack, klack (wie Chachacha) / die Wirkung. Und wirklich / ist schwierig, das nicht länger anzusehen, / sondern einzelnes. // 3 // Ein Lied zu singen / mit nichts als der Absicht, / ein Lied zu singen, // ist eine schwere Arbeit, / wie vor dem Schnee bedeckten / Berg zu sitzen, // ihn jahrelang, ohne / Ablenkung, anzuschauen und / dann, eines Tages, // mit einem einzigen / Strich weisser Tusche / auf das weisse Papier // zu setzen, dass jeder / sieht der Berg ist / absolut leer.
755
Vitorino Nemésio
Tubo de ensaio
Árvores do Canadá, uma por uma,
A caminho de Otawa, de autocarro,
Propõem seus galhos hibernais ainda
À minha angústia já primaveril.
Com tão pouca matéria a fotossíntese,
Que oxigénio de amor espero eu delas,
Com que carbono as poderei amar?
Porque, enfim, eu morrendo dou-me aos bosques,
A tal selva de Dante é a dor da espécie,
E o mezzo dei camin aqui passar.
Só é estranho que fracos pensamentos
Eu verta nestes tubos de ensaiar:
Eu, que, por causa de Escherichia Coli,
Quase não sei (como se diz?) — meiar...
A Poesia é um louco laboratório,
E eu dispo a bata para não chorar.
(Os 3 últimos poemas in Poesias de Vitorino Nemésio, por Maria Madalena Gonçalves. Lisboa: Comunicação, 1983.)
.
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A caminho de Otawa, de autocarro,
Propõem seus galhos hibernais ainda
À minha angústia já primaveril.
Com tão pouca matéria a fotossíntese,
Que oxigénio de amor espero eu delas,
Com que carbono as poderei amar?
Porque, enfim, eu morrendo dou-me aos bosques,
A tal selva de Dante é a dor da espécie,
E o mezzo dei camin aqui passar.
Só é estranho que fracos pensamentos
Eu verta nestes tubos de ensaiar:
Eu, que, por causa de Escherichia Coli,
Quase não sei (como se diz?) — meiar...
A Poesia é um louco laboratório,
E eu dispo a bata para não chorar.
(Os 3 últimos poemas in Poesias de Vitorino Nemésio, por Maria Madalena Gonçalves. Lisboa: Comunicação, 1983.)
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1 470
Vitorino Nemésio
Arte poética
A poesia do abstracto?
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento.
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde,
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
são propriamente poesia.
Poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.
in A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX, seleção e prefácio de Manuel de Freitas.
1 871
Vasco Graça Moura
Nova meditação sobre a palavra
assim a palavra se prestasse
ao jade ao jogo ao jugo de uma toda
arte poética e nunca ripostasse
em golpes repentinos de judoka
assim nunca o poema se traísse
na trama aleatória de uma aposta
perdida no seu hábil mecanismo
traria o juro ao artesão que o monta
ao jade ao jogo ao jugo de uma toda
arte poética e nunca ripostasse
em golpes repentinos de judoka
assim nunca o poema se traísse
na trama aleatória de uma aposta
perdida no seu hábil mecanismo
traria o juro ao artesão que o monta
2 268
Luís Filipe Castro Mendes
A CAMILO PESSANHA, PASSANDO EM JAIPUR
Uma imagem a passar pela retina
e nada mais: venham outros falar-nos de experiência,
de transformar o vivido em consciência,
de reter o que é fugaz!
Uma imagem a passar pela retina,
porque o sentido de tudo está na velocidade do carro
que me permitiu fotografar…
1 251
Ada Ciocci
Ode à palavra
O tempo jamais conseguirá desfazer
a essência de tua fortaleza,
já que és do cosmo absoluto
e
da troca de idéias entre os homens,
o fundamento.
E, ainda que,
bastando-se,
e,
infinitamente sendo tu,
realidade,
verdade,
ciência,
alma,
corpo,
dogma,
mito,
e,
não tendo infinito,
ocupas lugar primeiro,
na VIDA
a essência de tua fortaleza,
já que és do cosmo absoluto
e
da troca de idéias entre os homens,
o fundamento.
E, ainda que,
bastando-se,
e,
infinitamente sendo tu,
realidade,
verdade,
ciência,
alma,
corpo,
dogma,
mito,
e,
não tendo infinito,
ocupas lugar primeiro,
na VIDA
1 013
Raimundo Correia
Versos a um Artista
A Olavo Bilac
Tu artista, com zelo,
Esmerilha e investiga!
Níssia, o melhor modelo
Vivo, oferece, da beleza antiga.
Para esculpi-la, em vão, árduos, no meio
De esbraseada arena,
Batem-se, quebram-se em fatal torneio,
Pincel, lápis, buril, cinzel e pena.
A Afrodite pagã, que o pejo afronta,
Exposta nua do universo às vistas,
Dos seios duros na marmórea ponta
Amamentando gerações de artistas,
Não na excede; e, ao contrário, em sua rica
Nudez, por mil espelhos,
Mostra o que ela não mostra, de pudica,
Do colo abaixo e acima dos artelhos.
Analisa-a, sagaz, linha por linha,
E à tão sagaz minúcia apenas poupa
Tudo o que se não vê, mas se adivinha
Por sob a avara roupa...
Deixa que a roupa avara
Do peito o virginal tesoiro esconda,
E o mais, até... onde, perfeita e clara,
A barriga da perna se arredonda...
Basta-te à vista esperta
Revela-se, através do linho grosso,
O alabastro da espádua mal coberta,
E o Paros do pescoço.
Basta que traia, como trai, de leve,
O contorno flexuoso...
Basta esse rosto ideal - púrpura e neve -
E a curva grega do nariz gracioso.
Um quase nada basta, enfim, que traia
Ao teu olhar agudo,
Para que este deduza, tire, extraia
Daquele quase nada, quase tudo...
(...)
In: Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.51-55
NOTA: Poema composto de 35 quadras
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
1880/1922 - Parnasianismo
TRAÇOS FORMAIS:
Decassílabo
Hexassílabo
Quadra
TEMAS/ASSUNTOS
ARTE
- Artes Plásticas e Visuais
- Linguagem/Literatura
NOME
- Escritor
. Olavo Bilac
RELIGIÃO/MITOLOGI
Tu artista, com zelo,
Esmerilha e investiga!
Níssia, o melhor modelo
Vivo, oferece, da beleza antiga.
Para esculpi-la, em vão, árduos, no meio
De esbraseada arena,
Batem-se, quebram-se em fatal torneio,
Pincel, lápis, buril, cinzel e pena.
A Afrodite pagã, que o pejo afronta,
Exposta nua do universo às vistas,
Dos seios duros na marmórea ponta
Amamentando gerações de artistas,
Não na excede; e, ao contrário, em sua rica
Nudez, por mil espelhos,
Mostra o que ela não mostra, de pudica,
Do colo abaixo e acima dos artelhos.
Analisa-a, sagaz, linha por linha,
E à tão sagaz minúcia apenas poupa
Tudo o que se não vê, mas se adivinha
Por sob a avara roupa...
Deixa que a roupa avara
Do peito o virginal tesoiro esconda,
E o mais, até... onde, perfeita e clara,
A barriga da perna se arredonda...
Basta-te à vista esperta
Revela-se, através do linho grosso,
O alabastro da espádua mal coberta,
E o Paros do pescoço.
Basta que traia, como trai, de leve,
O contorno flexuoso...
Basta esse rosto ideal - púrpura e neve -
E a curva grega do nariz gracioso.
Um quase nada basta, enfim, que traia
Ao teu olhar agudo,
Para que este deduza, tire, extraia
Daquele quase nada, quase tudo...
(...)
In: Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.51-55
NOTA: Poema composto de 35 quadras
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
1880/1922 - Parnasianismo
TRAÇOS FORMAIS:
Decassílabo
Hexassílabo
Quadra
TEMAS/ASSUNTOS
ARTE
- Artes Plásticas e Visuais
- Linguagem/Literatura
NOME
- Escritor
. Olavo Bilac
RELIGIÃO/MITOLOGI
5 476
Murillo Mendes
O Fósforo
Acendendo um fósforo
acendo Prometeu, o futuro, a liquidação dos falsos deuses,
o trabalho do homem.
o
O fósforo: tão rabbioso quanto secreto. Furioso, deli-
cado. Encolhe-se no seu casulo marrom; mas quando cha-
mado e provocado, polêmico estoura, esclarecendo tudo.
O século é polêmico.
o
O gás não funciona hoje. Temos greve dos gasistas. A
Itália tornou-se a Grevelândia. Mas preferimos essa semi-
-anarquia à "ordem" fascista.
O fósforo, hoje em férias, espera paciente no seu casulo
o dia de amanhã desprovido de greves. O dia racional, o
dia do entendimento universal, o dia do mundo sem classes,
o dia de Prometeu totalizado.
o
O fósforo é o portador mais antigo da tradição viva. Eu
sou pela tradição viva, capaz de acompanhar a correnteza
da modernidade. Que riquezas poderosas extraio dela!
Subscrevo a grande palavra de Jaures: "De l'autel des
ancêtres on doit garder non les cendres mais le feu."
Poema integrante da série Setor Micro-Lições de Coisas.
In: MENDES, Murilo. Poliedro: Roma, 1965/66. Pref. Eliane Zagury. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1972
acendo Prometeu, o futuro, a liquidação dos falsos deuses,
o trabalho do homem.
o
O fósforo: tão rabbioso quanto secreto. Furioso, deli-
cado. Encolhe-se no seu casulo marrom; mas quando cha-
mado e provocado, polêmico estoura, esclarecendo tudo.
O século é polêmico.
o
O gás não funciona hoje. Temos greve dos gasistas. A
Itália tornou-se a Grevelândia. Mas preferimos essa semi-
-anarquia à "ordem" fascista.
O fósforo, hoje em férias, espera paciente no seu casulo
o dia de amanhã desprovido de greves. O dia racional, o
dia do entendimento universal, o dia do mundo sem classes,
o dia de Prometeu totalizado.
o
O fósforo é o portador mais antigo da tradição viva. Eu
sou pela tradição viva, capaz de acompanhar a correnteza
da modernidade. Que riquezas poderosas extraio dela!
Subscrevo a grande palavra de Jaures: "De l'autel des
ancêtres on doit garder non les cendres mais le feu."
Poema integrante da série Setor Micro-Lições de Coisas.
In: MENDES, Murilo. Poliedro: Roma, 1965/66. Pref. Eliane Zagury. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1972
2 235
Sebastião Uchoa Leite
As Categorias Límpidas
Constroem tocas em margens de córregos
e riachos, e passam quase toda a vida
na água em busca de larvas e insetos e
cutucam sedimentos de aluvião com os
bicos. Os machos têm espora afiada e
oca nos calcanhares, que se liga a uma
glândula venenosa na coxa. Os organis-
mos ovíparos formam ovos no corpo e
óvulos muito protoplasmáticos onde o pla-
no de clivagem não consegue penetrar
e dividir a extremidade vegetativa, ou
seja, a clivagem meroblástica caracteri-
za vertebrados terrestres répteis ou pás-
saros. Caldwell enfatizou o caráter rep-
tiliano desses mamíferos paradoxais, mas
navegadores europeus por muito tempo
foram ludibriados por taxidermistas chine-
ses e por costuras de cabeças e troncos
de macacos às partes traseiras de peixes.
Porém não se conseguiu achar emendas
ou costuras. O enigma interno sendo ainda
maior, contudo, os primeiros evolucionis-
tas franceses insistiram em que a anato-
mia não podia mentir: os ovos, eles bra-
davam, acabarão por serem encontra-
dos um dia (naquele tempo ainda não se
encontrara glândulas mamárias). Saint-
Hilaire manteve acesa a chama da ovi-
paridade. Caldwell solucionou um misté-
rio específico, intensificando, porém, o
problema geral. A natureza clamava pe-
las categorias límpidas, pois é impossí-
vel vencer num mundo assim: ou se é um
primitivo prima facie ou especializado
por uma simplicidade implícita e oculta.
1991
Poema integrante da série Informes.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
e riachos, e passam quase toda a vida
na água em busca de larvas e insetos e
cutucam sedimentos de aluvião com os
bicos. Os machos têm espora afiada e
oca nos calcanhares, que se liga a uma
glândula venenosa na coxa. Os organis-
mos ovíparos formam ovos no corpo e
óvulos muito protoplasmáticos onde o pla-
no de clivagem não consegue penetrar
e dividir a extremidade vegetativa, ou
seja, a clivagem meroblástica caracteri-
za vertebrados terrestres répteis ou pás-
saros. Caldwell enfatizou o caráter rep-
tiliano desses mamíferos paradoxais, mas
navegadores europeus por muito tempo
foram ludibriados por taxidermistas chine-
ses e por costuras de cabeças e troncos
de macacos às partes traseiras de peixes.
Porém não se conseguiu achar emendas
ou costuras. O enigma interno sendo ainda
maior, contudo, os primeiros evolucionis-
tas franceses insistiram em que a anato-
mia não podia mentir: os ovos, eles bra-
davam, acabarão por serem encontra-
dos um dia (naquele tempo ainda não se
encontrara glândulas mamárias). Saint-
Hilaire manteve acesa a chama da ovi-
paridade. Caldwell solucionou um misté-
rio específico, intensificando, porém, o
problema geral. A natureza clamava pe-
las categorias límpidas, pois é impossí-
vel vencer num mundo assim: ou se é um
primitivo prima facie ou especializado
por uma simplicidade implícita e oculta.
1991
Poema integrante da série Informes.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A ficção vida. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993
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Ribeiro Couto
A Invenção da Poesia Brasileira
Eu escutava o homem maravilhoso,
O revelador tropical das atitudes novas,
O mestre das transformações em caminho:
"É preciso criar a poesia deste país de sol!
Pobre da tua poesia e da dos teus amigos,
Pobre dessa poesia nostálgica,
Dessa poesia de fracos diante da vida forte.
A vida é força.
A vida é uma afirmação de heroísmos quotidianos,
De entusiasmos isolados donde nascem mundos.
Lá vai passando uma mulher... Chove na velha
praça...
Pobre dessa poesia de doentes atrás de janelas!
Eu quero o sol na tua poesia e na dos teus amigos!
O Brasil é cheio de sol! O Brasil é cheio de força!
É preciso criar a poesia do Brasil!"
Eu escutava, de olhos irônicos e mansos,
O mestre ardente das transformações próximas.
Por acaso, começou a chover docemente
Na tarde monótona que se ia embora.
Pela vidraça da minha saleta morta
Ficamos a olhar a praça debaixo da chuva lenta.
Ficamos em silêncio um tempo indefinido...
E lá embaixo passou uma mulher sob a chuva.
Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.11
O revelador tropical das atitudes novas,
O mestre das transformações em caminho:
"É preciso criar a poesia deste país de sol!
Pobre da tua poesia e da dos teus amigos,
Pobre dessa poesia nostálgica,
Dessa poesia de fracos diante da vida forte.
A vida é força.
A vida é uma afirmação de heroísmos quotidianos,
De entusiasmos isolados donde nascem mundos.
Lá vai passando uma mulher... Chove na velha
praça...
Pobre dessa poesia de doentes atrás de janelas!
Eu quero o sol na tua poesia e na dos teus amigos!
O Brasil é cheio de sol! O Brasil é cheio de força!
É preciso criar a poesia do Brasil!"
Eu escutava, de olhos irônicos e mansos,
O mestre ardente das transformações próximas.
Por acaso, começou a chover docemente
Na tarde monótona que se ia embora.
Pela vidraça da minha saleta morta
Ficamos a olhar a praça debaixo da chuva lenta.
Ficamos em silêncio um tempo indefinido...
E lá embaixo passou uma mulher sob a chuva.
Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.11
1 293
Sebastião Uchoa Leite
Digitações
A poética é uma máquina
Há um código central
Em que se digita ANULA
É a máquina do nada
Que anda ao contrário
Da sua meta
A repetição é a morte
Noutro código lateral
Digita-se ENTRA
E os cupins invadem o quarto
1990
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
Há um código central
Em que se digita ANULA
É a máquina do nada
Que anda ao contrário
Da sua meta
A repetição é a morte
Noutro código lateral
Digita-se ENTRA
E os cupins invadem o quarto
1990
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
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Emiliano Perneta
Metamorfoses
A Mme. Georgine Mongruel.
Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.
Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.
Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...
Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.
Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.
Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...
Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
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Sebastião Uchoa Leite
Fragmentos Cósmicos
Todo sistema tende
A um grau crescente de desordem
Onde depositar
O lixo cósmico?
Informação é matéria prima
A paciência é elástica
Inflar bem lento e explodir
Como no Big Bang
1990
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
A um grau crescente de desordem
Onde depositar
O lixo cósmico?
Informação é matéria prima
A paciência é elástica
Inflar bem lento e explodir
Como no Big Bang
1990
Poema integrante da série Máquina de Signos.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
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