Poemas neste tema
Céu, Estrelas e Universo
Alberto de Oliveira
Os Amores da Estrela
Já sob o largo pálio a tenebrosa
Noite as estrelas nítidas e belas
Prendera ao seio, como mãe piedosa.
De umas as brancas lúcidas capelas,
De outras o manto e as clâmides de linho
Viam-se à luz da lua. Estas e aquelas,
Todas no lácteo sideral caminho
Dormiam, como bando alvinitente
De aves, à sombra, nos frouxéis de um ninho.
Vênus, porém, chorava; ela somente
De pé, cismando, o níveo olhar mais níveo
Que a prata, abria na amplidão dormente.
Olhava ao longo o célico declívio,
Como a buscar alguém que desejava,
Qual se deseja alguém que é doce alívio.
Só, no espaço desperta, como a escrava
Romana ao pé do leito da senhora
Velando à noite, a mísera velava.
Um deus de formas válidas adora;
São seus cabelos ouro puro, o peito
Veste a armadura de cristal da aurora.
Quando ele sai das púrpuras do leito,
O arco na mão, parece de diamantes
E rosados rubins seu rosto feito.
Dera por vê-lo agora as cintilantes
Lágrimas todas, líquido tesouro,
Que lhe tremem às pálpebras brilhantes...
Mas soa de repente um grande coro
Pelas cavas abóbadas... E logo
Assoma ao longe um capacete de ouro.
O deus ouviu-lhe o suplicante rogo!
Ei-lo que vem! seu plaustro os ares corta;
Ouve o relincho aos seus corcéis de fogo.
Já do roxo Levante se abre a porta...
E ao ver-lhe o vulto e as chamas da armadura,
Fria, trêmula, muda e quase morta,
Vênus desmaia na infinita altura.
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
Noite as estrelas nítidas e belas
Prendera ao seio, como mãe piedosa.
De umas as brancas lúcidas capelas,
De outras o manto e as clâmides de linho
Viam-se à luz da lua. Estas e aquelas,
Todas no lácteo sideral caminho
Dormiam, como bando alvinitente
De aves, à sombra, nos frouxéis de um ninho.
Vênus, porém, chorava; ela somente
De pé, cismando, o níveo olhar mais níveo
Que a prata, abria na amplidão dormente.
Olhava ao longo o célico declívio,
Como a buscar alguém que desejava,
Qual se deseja alguém que é doce alívio.
Só, no espaço desperta, como a escrava
Romana ao pé do leito da senhora
Velando à noite, a mísera velava.
Um deus de formas válidas adora;
São seus cabelos ouro puro, o peito
Veste a armadura de cristal da aurora.
Quando ele sai das púrpuras do leito,
O arco na mão, parece de diamantes
E rosados rubins seu rosto feito.
Dera por vê-lo agora as cintilantes
Lágrimas todas, líquido tesouro,
Que lhe tremem às pálpebras brilhantes...
Mas soa de repente um grande coro
Pelas cavas abóbadas... E logo
Assoma ao longe um capacete de ouro.
O deus ouviu-lhe o suplicante rogo!
Ei-lo que vem! seu plaustro os ares corta;
Ouve o relincho aos seus corcéis de fogo.
Já do roxo Levante se abre a porta...
E ao ver-lhe o vulto e as chamas da armadura,
Fria, trêmula, muda e quase morta,
Vênus desmaia na infinita altura.
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
2 759
Afrânio Peixoto
Anch'io
Na poça de lama
Como no divino céu,
Também passa a lua.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
Como no divino céu,
Também passa a lua.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
1 239
Alphonsus de Guimaraens
XII - Noite de Luar
A MARINHO DE ANDRADE
Ó luar, dá-me na tua asa branca o seu beijo,
Dá-me a sua carícia, o seu amor e aquela
Doce luz que roubaste aos meigos olhos dela,
Que é toda a minha vida e todo o meu desejo.
Uma estrela falar-me uma noite assim veio,
Deixando na minh'alma um cristalino rasto:
"É impossível que o luar sendo assim puro e casto
Não lhe tenha roubado a brancura do seio!"
E tu ó luar, disseste assim risonho: "Deixa
Falar a estrela! Foi esse astro que, sonhando,
A luz branca do olhar lhe roubou, terno e brando,
Enquanto a noite vinha arrancar-lhe a madeixa"
Estrela, mentes? Luar, mentes também? Seria
Uma blasfêmia cruel dizer agora ao certo
Se de vós veio a luz que ela tem, ou se o aberto
Olhar que tendes, dela em gotas veio um dia...
Uma blasfêmia... Pois eu não posso dizer-vos
Se ela é do céu, ou se vós sois da terra, tanto
É o sensualismo que me vem do vosso pranto,
Tanta é a celeste luz que me vem dos seus nervos!
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 546-547. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Salmos da Noite
Ó luar, dá-me na tua asa branca o seu beijo,
Dá-me a sua carícia, o seu amor e aquela
Doce luz que roubaste aos meigos olhos dela,
Que é toda a minha vida e todo o meu desejo.
Uma estrela falar-me uma noite assim veio,
Deixando na minh'alma um cristalino rasto:
"É impossível que o luar sendo assim puro e casto
Não lhe tenha roubado a brancura do seio!"
E tu ó luar, disseste assim risonho: "Deixa
Falar a estrela! Foi esse astro que, sonhando,
A luz branca do olhar lhe roubou, terno e brando,
Enquanto a noite vinha arrancar-lhe a madeixa"
Estrela, mentes? Luar, mentes também? Seria
Uma blasfêmia cruel dizer agora ao certo
Se de vós veio a luz que ela tem, ou se o aberto
Olhar que tendes, dela em gotas veio um dia...
Uma blasfêmia... Pois eu não posso dizer-vos
Se ela é do céu, ou se vós sois da terra, tanto
É o sensualismo que me vem do vosso pranto,
Tanta é a celeste luz que me vem dos seus nervos!
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 546-547. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Salmos da Noite
3 368
Amadeu Amaral
Nuvens
Sobre a lâmina azul de um céu todo bonança
passa uma nuvem clara em curvas franjas de onda,
— vaga que adormeceu num mar que não estronda,
nas mudas convulsões de uma tormenta mansa...
Bruma, sonho da terra, ergueu-se; e enquanto avança,
busca a forma fugaz, que se esboça e esbarronda;
aqui se esgarça, ali descai, além, redonda,
bóia ao sol que a redoira e ao vento que a embalança.
Sonhos, bruma secreta, entre anseios e dores,
sobem-nos da alma assim, livres, espaço em fora,
na lenta indecisão dos informes vapores...
Possam os meus pairar na luz por um momento,
ser a nuvem que arrasta o olhar perdido — embora
suceda a cada esboço um desmoronamento!
Publicado no livro Espumas: versos (1917).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.147. (Obras de Amadeu Amaral
passa uma nuvem clara em curvas franjas de onda,
— vaga que adormeceu num mar que não estronda,
nas mudas convulsões de uma tormenta mansa...
Bruma, sonho da terra, ergueu-se; e enquanto avança,
busca a forma fugaz, que se esboça e esbarronda;
aqui se esgarça, ali descai, além, redonda,
bóia ao sol que a redoira e ao vento que a embalança.
Sonhos, bruma secreta, entre anseios e dores,
sobem-nos da alma assim, livres, espaço em fora,
na lenta indecisão dos informes vapores...
Possam os meus pairar na luz por um momento,
ser a nuvem que arrasta o olhar perdido — embora
suceda a cada esboço um desmoronamento!
Publicado no livro Espumas: versos (1917).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.147. (Obras de Amadeu Amaral
1 361
Colombina
Banco de Jardim
Amo os céus iluminados
pelos astros infinitos;
mas, por mal dos meus pecados,
teus olhos são mais bonitos.
Em teus braços aninhada,
tenho ao alcance da mão
toda uma noite estrelada,
todo o sol no coração.
Amar — verbo transcendente
que a gente conjuga a dois...
É um sorriso no presente
e são lágrimas, depois.
Penso em ti se estás ausente,
penso em ti se perto estás:
longe — quero-te presente,
perto — que embora não vás!
Apesar dos desenganos,
de tanta desilusão,
nós sempre temos vinte anos
num canto do coração.
Publicado no livro Cantares de bem-querer (1956). Poema integrante da série Trovas.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
pelos astros infinitos;
mas, por mal dos meus pecados,
teus olhos são mais bonitos.
Em teus braços aninhada,
tenho ao alcance da mão
toda uma noite estrelada,
todo o sol no coração.
Amar — verbo transcendente
que a gente conjuga a dois...
É um sorriso no presente
e são lágrimas, depois.
Penso em ti se estás ausente,
penso em ti se perto estás:
longe — quero-te presente,
perto — que embora não vás!
Apesar dos desenganos,
de tanta desilusão,
nós sempre temos vinte anos
num canto do coração.
Publicado no livro Cantares de bem-querer (1956). Poema integrante da série Trovas.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 946
Zuca Sardan
Crepúsculo
O Sol ia afundando,
pouco a pouco,
no oceano ...
Não se deixou, porém,
impressionar ...
porque sabia
que a Terra
era redonda ...
e ele não estava assim
propriamente afundando,
mas rolando
pro lado de lá ...
( Pelo menos,
foi o que lhe contaram ... )
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
pouco a pouco,
no oceano ...
Não se deixou, porém,
impressionar ...
porque sabia
que a Terra
era redonda ...
e ele não estava assim
propriamente afundando,
mas rolando
pro lado de lá ...
( Pelo menos,
foi o que lhe contaram ... )
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
1 513
Augusto Frederico Schmidt
Apocalipse
As velas estão abertas como luzes.
As ondas crespas cantam porque o vento as afogou.
As estrelas estão dependuradas no céu e oscilam.
Nós as veremos descer ao mar como lágrimas.
As estrelas frias se desprenderão do céu
E ficarão boiando, as mãos brancas inertes, sobre as águas
[frias.
As estrelas serão arrastadas pelas correntes boiando nas
[águas imensas.
Seus olhos estarão fechados docemente
E seus seios se elevarão gelados e enormes
Sobre o escuro do tempo.
Publicado no livro Canto da Noite (1934).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
As ondas crespas cantam porque o vento as afogou.
As estrelas estão dependuradas no céu e oscilam.
Nós as veremos descer ao mar como lágrimas.
As estrelas frias se desprenderão do céu
E ficarão boiando, as mãos brancas inertes, sobre as águas
[frias.
As estrelas serão arrastadas pelas correntes boiando nas
[águas imensas.
Seus olhos estarão fechados docemente
E seus seios se elevarão gelados e enormes
Sobre o escuro do tempo.
Publicado no livro Canto da Noite (1934).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
2 137
Augusto de Campos
O Tygre
tyger! tyger! burning bright
in the forests of the night.
what immortal hand or eye
cd frame thy fearful symmetry?
tygre! tygre! brilho, brasa
que à furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?
em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
em que asas veio a chamma?
que mão colheu essa flamma?
que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
e o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?
teu cérebro, quem o malha?
que martelo? que fornalha
o moldou? que mão, que garra
seu terror mortal amarra?
quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
quem fez a ovelha te fez?
tyger! tyger! burning bright
in the forests of the night.
what immortal hand or eye
cd frame thy fearful symmetry?
tygre! tygre! brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?
Publicado em O Tygre, de William Blake (1977).Tradução do poema The Tyger, da série Songs of Experience, do livro Songs of Innocence and Experience, de William Blake.
In: CAMPOS, Augusto de. Viva vaia: poesia, 1949/1979. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 221-229
in the forests of the night.
what immortal hand or eye
cd frame thy fearful symmetry?
tygre! tygre! brilho, brasa
que à furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?
em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
em que asas veio a chamma?
que mão colheu essa flamma?
que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
e o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?
teu cérebro, quem o malha?
que martelo? que fornalha
o moldou? que mão, que garra
seu terror mortal amarra?
quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
quem fez a ovelha te fez?
tyger! tyger! burning bright
in the forests of the night.
what immortal hand or eye
cd frame thy fearful symmetry?
tygre! tygre! brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?
Publicado em O Tygre, de William Blake (1977).Tradução do poema The Tyger, da série Songs of Experience, do livro Songs of Innocence and Experience, de William Blake.
In: CAMPOS, Augusto de. Viva vaia: poesia, 1949/1979. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 221-229
2 353
Arnaldo Antunes
Imagem
palavralê
paisagemcontempla
cinemaassiste
cenavê
corenxerga
corpoobserva
luzvislumbra
vultoavista
alvomira
céuadmira
célulaexamina
detalhenota
imagemfita
olhoolha
Publicado no livro Tudos (1990), sem título. No livro Nome (1993), este
poema aparece com o título "Imagem". Música de Péricles Cavalcanti.
In: ANTUNES, Arnaldo. Tudos. 3.ed. São Paulo: Iluminuras, 1993
paisagemcontempla
cinemaassiste
cenavê
corenxerga
corpoobserva
luzvislumbra
vultoavista
alvomira
céuadmira
célulaexamina
detalhenota
imagemfita
olhoolha
Publicado no livro Tudos (1990), sem título. No livro Nome (1993), este
poema aparece com o título "Imagem". Música de Péricles Cavalcanti.
In: ANTUNES, Arnaldo. Tudos. 3.ed. São Paulo: Iluminuras, 1993
3 983
Antonio Fernando De Franceschi
Garça
1.
de relance
mero
surpresa
é te colher
em vôo:
o já fugaz
— ponto:
em riste
no horizonte
2.
a penas
te desenho
em derrisão:
asas taorminas
securas
branco arco sob o céu
3.
pelo estuo das águas
astúcia:
flaminga?
flamínia?
no claro em pluma
alvejo sem rasura
a branca garça
em sua alvura
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). p. 55-57. Poema integrante da série Poemas ao Natural.
de relance
mero
surpresa
é te colher
em vôo:
o já fugaz
— ponto:
em riste
no horizonte
2.
a penas
te desenho
em derrisão:
asas taorminas
securas
branco arco sob o céu
3.
pelo estuo das águas
astúcia:
flaminga?
flamínia?
no claro em pluma
alvejo sem rasura
a branca garça
em sua alvura
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). p. 55-57. Poema integrante da série Poemas ao Natural.
1 395
Alphonsus de Guimaraens Filho
A Todos os Poetas
A todos vós que um dia pressentistes
os passos alumbrados da poesia
na vossa alma soar — saudoso dia
que mais humanos, graves, e mais tristes
para sempre vos fez... A todos vós
que, amando, o amor sentistes impossível,
que, vendo o mundo, amastes o invisível,
e, ouvindo o canto, ouvistes nele a voz
de um reino imerso em névoa como clara
ilha na solidão... E deslumbrados
as palavras no vácuo erguestes para
reanimá-las e reacendê-las,
a todos vós o céu acolhe, consolados
pela luz da mais casta entre as estrelas.
Publicado no livro Sonetos com dedicatória (1956).
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 270-271
os passos alumbrados da poesia
na vossa alma soar — saudoso dia
que mais humanos, graves, e mais tristes
para sempre vos fez... A todos vós
que, amando, o amor sentistes impossível,
que, vendo o mundo, amastes o invisível,
e, ouvindo o canto, ouvistes nele a voz
de um reino imerso em névoa como clara
ilha na solidão... E deslumbrados
as palavras no vácuo erguestes para
reanimá-las e reacendê-las,
a todos vós o céu acolhe, consolados
pela luz da mais casta entre as estrelas.
Publicado no livro Sonetos com dedicatória (1956).
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 270-271
1 126
Raimundo Correia
Vésper
Do seu fastígio azul, serena e fria,
Desce a noite outonal, augusta e bela;
Vésper fulgura além... Vésper! Só ela
Todo o céu, doce e pálida, alumia.
De um mosteiro na cúpula irradia
Com frouxa luz... Em sua humilde cela,
Contemplativa e lânguida à janela,
Triste freira, fitando-a, se extasia...
Vésper, envolta em deslumbrante alvura,
Ó nuvens, que ides pelo espaço afora!
A quem tão longo olhar volve da altura?
Que olhar, irmão do seu, procura agora
Na terra o astro do amor? O olhar procura
Da solitária freira que o namora.
Publicado no livro Aleluias (1891).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.97
Desce a noite outonal, augusta e bela;
Vésper fulgura além... Vésper! Só ela
Todo o céu, doce e pálida, alumia.
De um mosteiro na cúpula irradia
Com frouxa luz... Em sua humilde cela,
Contemplativa e lânguida à janela,
Triste freira, fitando-a, se extasia...
Vésper, envolta em deslumbrante alvura,
Ó nuvens, que ides pelo espaço afora!
A quem tão longo olhar volve da altura?
Que olhar, irmão do seu, procura agora
Na terra o astro do amor? O olhar procura
Da solitária freira que o namora.
Publicado no livro Aleluias (1891).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.97
1 912
Felipe d’Oliveira
Encruzamento de Linhas
Núcleo de convergência no bojo da noite oval.
Lanterna verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada.)
Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas metades
a espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da chaminé
as estrelas inúteis à propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.
Mas se o maquinista fosse daltônico
a locomotiva teria parado.
Publicado no livro Lanterna verde (1926).
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.65
Lanterna verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada.)
Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas metades
a espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da chaminé
as estrelas inúteis à propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.
Mas se o maquinista fosse daltônico
a locomotiva teria parado.
Publicado no livro Lanterna verde (1926).
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.65
1 664
Castro Alves
O Navio Negreiro, Tragédia no Mar (I)
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — doirada borboleta —
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estritam num abraço insano
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar... Abrindo as velas
Ao quente arfar das variações marinhas,
Veleiro brigue à flor dos mares
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem?... Onde vai?... Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste Saara os córceis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!...
Embaixo — o mar... em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! Como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! Ó rudes marinheiros
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esta selvagem, livre poesia...
Orquestra — é o mar que ruge pela proa,
E o vento que nas cordas assobia...
..............................................
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávio poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu, que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviatã do espaço!
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas...
(...)
Publicado no livro A Cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 277-278.
Brinca o luar — doirada borboleta —
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estritam num abraço insano
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar... Abrindo as velas
Ao quente arfar das variações marinhas,
Veleiro brigue à flor dos mares
Como roçam na vaga as andorinhas...
Donde vem?... Onde vai?... Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste Saara os córceis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!...
Embaixo — o mar... em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! Como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! Ó rudes marinheiros
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esta selvagem, livre poesia...
Orquestra — é o mar que ruge pela proa,
E o vento que nas cordas assobia...
..............................................
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávio poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!
Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu, que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviatã do espaço!
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas...
(...)
Publicado no livro A Cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 277-278.
5 801
Mafalda Veiga
Baile
Deixei as cartas na mesa
alguém as há-de jogar
soltei a alma no vento
entre os claros do luar
vou cavalgar mais que o tempo
e antes do tempo chegar
à beira do sentimento
Correr os rumos do mundo
sem saber onde se vai
contar as estrelas no céu
respirar os vendavais
vou cavalgar mais que o vento
pra depois me demorar
à beira do sentimento
Vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
Ser dono do infinito
que anda nos brilhos da noite
calor e fulgor do corpo
que a lua rouba o alento
vou cavalgar mais que o vento
pra depois me demorar
à beira do sentimento
Vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
alguém as há-de jogar
soltei a alma no vento
entre os claros do luar
vou cavalgar mais que o tempo
e antes do tempo chegar
à beira do sentimento
Correr os rumos do mundo
sem saber onde se vai
contar as estrelas no céu
respirar os vendavais
vou cavalgar mais que o vento
pra depois me demorar
à beira do sentimento
Vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
Ser dono do infinito
que anda nos brilhos da noite
calor e fulgor do corpo
que a lua rouba o alento
vou cavalgar mais que o vento
pra depois me demorar
à beira do sentimento
Vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
1 317
Edgar Allan Poe
Dreams
Oh! that my young life were a lasting dream!
My spirit not awakening, till the beam
Of an Eternity should bring the morrow.
Yes! tho' that long dream were of hopeless sorrow,
'Twere better than the cold reality
Of waking life, to him whose heart must be,
And hath been still, upon the lovely earth,
A chaos of deep passion, from his birth.
But should it be— that dream eternally
Continuing— as dreams have been to me
In my young boyhood— should it thus be given,
'Twere folly still to hope for higher Heaven.
For I have revell'd, when the sun was bright
I' the summer sky, in dreams of living light
And loveliness,— have left my very heart
In climes of my imagining, apart
From mine own home, with beings that have been
Of mine own thought— what more could I have seen?
'Twas once— and only once— and the wild hour
From my remembrance shall not pass— some power
Or spell had bound me— 'twas the chilly wind
Came o'er me in the night, and left behind
Its image on my spirit— or the moon
Shone on my slumbers in her lofty noon
Too coldly— or the stars— howe'er it was
That dream was as that night—wind— let it pass.
I have been happy, tho' in a dream.
I have been happy— and I love the theme:
Dreams! in their vivid coloring of life,
As in that fleeting, shadowy, misty strife
Of semblance with reality, which brings
To the delirious eye, more lovely things
Of Paradise and Love— and all our own!
Than young Hope in his sunniest hour hath known.
1827
My spirit not awakening, till the beam
Of an Eternity should bring the morrow.
Yes! tho' that long dream were of hopeless sorrow,
'Twere better than the cold reality
Of waking life, to him whose heart must be,
And hath been still, upon the lovely earth,
A chaos of deep passion, from his birth.
But should it be— that dream eternally
Continuing— as dreams have been to me
In my young boyhood— should it thus be given,
'Twere folly still to hope for higher Heaven.
For I have revell'd, when the sun was bright
I' the summer sky, in dreams of living light
And loveliness,— have left my very heart
In climes of my imagining, apart
From mine own home, with beings that have been
Of mine own thought— what more could I have seen?
'Twas once— and only once— and the wild hour
From my remembrance shall not pass— some power
Or spell had bound me— 'twas the chilly wind
Came o'er me in the night, and left behind
Its image on my spirit— or the moon
Shone on my slumbers in her lofty noon
Too coldly— or the stars— howe'er it was
That dream was as that night—wind— let it pass.
I have been happy, tho' in a dream.
I have been happy— and I love the theme:
Dreams! in their vivid coloring of life,
As in that fleeting, shadowy, misty strife
Of semblance with reality, which brings
To the delirious eye, more lovely things
Of Paradise and Love— and all our own!
Than young Hope in his sunniest hour hath known.
1827
1 676
Fernando Pessoa
[1] A Cabeça do Grifo: O INFANTE D. HENRIQUE
Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
7 012
Edgar Allan Poe
Alone
From childhood's hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.
Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.
1829
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.
Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.
1829
1 968
Edgar Allan Poe
Evening Star
'Twas noontide of summer,
And mid-time of night;
And stars, in their orbits,
Shone pale, thro' the light
Of the brighter, cold moon,
'Mid planets her slaves,
Herself in the Heavens,
Her beam on the waves.
I gazed awhile
On her cold smile;
Too cold— too cold for me—
There pass'd, as a shroud,
A fleecy cloud,
And I turned away to thee,
Proud Evening Star,
In thy glory afar,
And dearer thy beam shall be;
For joy to my heart
Is the proud part
Thou bearest in Heaven at night,
And more I admire
Thy distant fire,
Than that colder, lowly light.
And mid-time of night;
And stars, in their orbits,
Shone pale, thro' the light
Of the brighter, cold moon,
'Mid planets her slaves,
Herself in the Heavens,
Her beam on the waves.
I gazed awhile
On her cold smile;
Too cold— too cold for me—
There pass'd, as a shroud,
A fleecy cloud,
And I turned away to thee,
Proud Evening Star,
In thy glory afar,
And dearer thy beam shall be;
For joy to my heart
Is the proud part
Thou bearest in Heaven at night,
And more I admire
Thy distant fire,
Than that colder, lowly light.
1 822
Paulo Leminski
ABAIXO O ALÉM
de dia
céu com nuvens
ou céu sem
de noite
não tendo nuvens
estrela
sempre tem
quem me dera
um céu vazio
azul isento
de sentimento.
céu com nuvens
ou céu sem
de noite
não tendo nuvens
estrela
sempre tem
quem me dera
um céu vazio
azul isento
de sentimento.
2 710
Eloise Petter
SOMBRA DE UM ABUTRE INSIDIOSO
Declaro a mim mesmo estes versos
Que a nuvem da paixão tornam dispersos
Encontrar meus desígnios absortos
Sombra de um abutre insidioso
Lua incandescente a derreter
Neste céu escuro deste ser
Carne flamejante, tenebrosa
Vaporosa se dissolve de prazer
Corpo insaciável desta vida
Lingua louca, contingente oceano
Nas palavras que te podem ser ditas
Não sucumbem à frieza ao teu encanto
Incorpórea sombra dança intermitente
Eu a sigo, apaixonada peregrina
Sobre o céu clemente e lento, eu me despeço
Uma noite no sepulcro do universo
Que a nuvem da paixão tornam dispersos
Encontrar meus desígnios absortos
Sombra de um abutre insidioso
Lua incandescente a derreter
Neste céu escuro deste ser
Carne flamejante, tenebrosa
Vaporosa se dissolve de prazer
Corpo insaciável desta vida
Lingua louca, contingente oceano
Nas palavras que te podem ser ditas
Não sucumbem à frieza ao teu encanto
Incorpórea sombra dança intermitente
Eu a sigo, apaixonada peregrina
Sobre o céu clemente e lento, eu me despeço
Uma noite no sepulcro do universo
928
Paulo Leminski
Haicai
a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão
cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença
me caiu ainda quente
na palma da mão
cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença
3 215
Eloise Petter
Egos-branon
Nas profundas mistificações de minha alma sangrando
Entrementes as vertentes do Rio Poseidon
Na longínqua galáxia imaginária de Egos-branon
Encontrei o que sou:
Viajante indelével de alguém que sonhou
Viajante indelével por entre mundos vazios
Flutuações cosmológicas e novembros frios
Viajante do estranho mito
Amálgama de caveiras sorridentes
Supercordas de um violino
E astronautas amarelos
Amálgama de partículas e desejos
Visões esculpidas em buracos negros
Cérebros falantes e macacos pequenos
Universos perdidos como bolhas ao vento
Em genes partidos
Em quantuns vendidos
Em ondas corpóreas
Que andam paradas
Viajante indelével da terra alada
Para além das estrelas
De várias dimensões
De ofuscantes teatros
E flamejantes paixões
Onde elétrons e prótons
Se beijam em atos
E as belas comédias
São homens que falam
Viajante indelével
Andarilho de corpos
Quarks de quasares
Que explodem e saltam
Nesta boca vermelha
Que toca meus lábios
Na longínqua galáxia imaginária de Egos-branon
Entrementes as vertentes do Rio Poseidon
Encontrei o que sou:
Espectro holográfico de alguém que sonhou
Entrementes as vertentes do Rio Poseidon
Na longínqua galáxia imaginária de Egos-branon
Encontrei o que sou:
Viajante indelével de alguém que sonhou
Viajante indelével por entre mundos vazios
Flutuações cosmológicas e novembros frios
Viajante do estranho mito
Amálgama de caveiras sorridentes
Supercordas de um violino
E astronautas amarelos
Amálgama de partículas e desejos
Visões esculpidas em buracos negros
Cérebros falantes e macacos pequenos
Universos perdidos como bolhas ao vento
Em genes partidos
Em quantuns vendidos
Em ondas corpóreas
Que andam paradas
Viajante indelével da terra alada
Para além das estrelas
De várias dimensões
De ofuscantes teatros
E flamejantes paixões
Onde elétrons e prótons
Se beijam em atos
E as belas comédias
São homens que falam
Viajante indelével
Andarilho de corpos
Quarks de quasares
Que explodem e saltam
Nesta boca vermelha
Que toca meus lábios
Na longínqua galáxia imaginária de Egos-branon
Entrementes as vertentes do Rio Poseidon
Encontrei o que sou:
Espectro holográfico de alguém que sonhou
847
Augusto dos Anjos
Amor e Crença
Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo
Ser que preside e rege os outros seres,
Que os encantos e a força dos poderes
Reúne tudo em si, num só encanto?
Esse mistério eterno e sacrossanto,
Essa sublime adoração do crente,
Esse manto de amor doce e clemente
Que lava as dores e que enxuga o pranto?!
Ah! Se queres saber a sua grandeza,
Estende o teu olhar à Natureza,
Fita a cúp'la do Céu santa e infinita!
Deus é o templo do Bem. Na altura Imensa,
O amor é a hóstia que bendiz a Crença,
ama, pois, crê em Deus, e... sê bendita!
Ser que preside e rege os outros seres,
Que os encantos e a força dos poderes
Reúne tudo em si, num só encanto?
Esse mistério eterno e sacrossanto,
Essa sublime adoração do crente,
Esse manto de amor doce e clemente
Que lava as dores e que enxuga o pranto?!
Ah! Se queres saber a sua grandeza,
Estende o teu olhar à Natureza,
Fita a cúp'la do Céu santa e infinita!
Deus é o templo do Bem. Na altura Imensa,
O amor é a hóstia que bendiz a Crença,
ama, pois, crê em Deus, e... sê bendita!
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