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Poemas neste tema

Criatividade e Inspiração

Paulo Leminski

Paulo Leminski

a propaganda meu meio de vida

(...)
a propaganda meu meio de vida
me dá algumas satisfações
afinal
todo layoutman é um pouco poeta concreto
e aliás é fantástico como os homens de arte das agências
entendem um trabalho concreto na hora
enquanto os literati dizem:
— o que é isso? que quer dizer? isso não é poesia.
só me dou com cartunistas fotógrafos cineastas desenhistas
tudo menos escritores
dos quais acabei por ter grande horror

o bom é que estar em propaganda
facilita enormemente as coisas para nós
em termos de letra-set execução produção fotografia papel
uma agência é um laboratório de mensagens

isso está muito bom
além disso me pagam bem
e eu disponho dos melhores homens de arte da praça
todos amigos meus
servo-mecânico para um senhor-mecanismo
conduzo com alguma elegância
meu destino de médico & monstro

fiz uma palestra/debate
proposta minha
na arquitetura daqui
sobre o tema O BELO VERSUS O NOVO

no qual desenvolvi a idéia seguinte
isso que se chama arte moderna
deslocou o centro da idéia de BELO
para a idéia de NOVO
q eu disse ser própria de sociedades industriais
em adiantado estado de consumismo
capitalistas ou socialistas
o pau que quebrou vou te contar

imensamente interessado em tudo que você
produz
me mande me diga me comunique

com toda a amizade

Leminski


In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 24-25
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Aníbal Raposo

Aníbal Raposo

Poema na Madrugada

Tu e eu na mesma hélice
Tu, muitas espiras acima
Que voas mais alto...
Cirandas à volta da lua feiticeira
Com as tuas asas de fogo
Incendeias-me o corpo
E em torrentes e lava
O meu amor flui
E como ela,
Em desespero,
Procura o mar...

Deixa-me dançar contigo uma dança índia
À volta da fogueira
Do nosso encantamento.
Deixa-me enlouquecer ao ritmo
Dum batuque africano
Transposto para um terreiro da Baía.
Deixa-me sentir os sortilégios
De Oxúm e de Oxalá.
Deitar, na praia, flores a Iemanjá.
Adorar a mãe Terra
Sentir-lhe o cheiro
Depois de uma chuvada de Agosto.
Eu quero ser, ao mesmo tempo,
Vinho e mosto.
Madrugada, sol nascente,
Entardecer e sol posto.

Curare.
Veneno na ponta da zarabatana.
Réstia de lucidez em mente insana.

Canta comigo irmã
A cantiga da terra prenhe.
Enforquemos as vaidades
Em gravatas ridículas
Confeccionadas em boa seda
E vendidas por um moderno bufarinheiro
Junto à catedral de Milão.

Deixa-me fundear nas tuas angras.
Ser o teu pirata argelino de estimação.
O teu bandeirante,
Buscando a esmeralda perdida
No meio do sertão.

Eu quero ser o desatino da tua insónia.
A tua noite mal dormida.
A tua cicatriz, a tua ferida,
Cauterizada com ferros ardentes.
Quero ser o teu ranger de dentes
Ante o desespero da miséria...
O teu grilo falante.
O espinho da tua rosa triunfante.

Deixa-me caboucar o sonho.
Construir castelos quiméricos.
Inventar outra arquitectura.
Redonda.
Quero esperar por ti
Na paragem do autocarro
Que vai partir, já
Para Nova Deli.

Quero ser uma luzinha ténue
Na via láctea nocturna
Desta vida favelada.
Rocinha!
Rio e margem,
Voo picado
Pedra Bonita, pivete.
(Glória ao escrete!)
O poder está
Na ponta do canivete!
Ipanema...
Saravah! Irmão Vinícius
Poetinha do amor e do vício.

Aqui estou!
Dou-te razão:
A inspiração continua a estar
Bem no fundo do copo
E da alma.

Salvé musa minha
Habitante da ilha irmã.
Continuas a ser o meu luzeiro,
Estrela da manhã.
Por ti adoro Baco.
Por ti versejo.
Por ti faço charadas,
Num desejo
De te ter mais perto.
Sem ti sou um navio no deserto.
O profeta do caos.
Caruso a cantar na ópera de Manaus.
O porco nos joelhos do visionário Klaus Kinsky
Na epopeia de Fritz Carraldo.
O caldo
Da loucura...

Pura...

Heroína...

Menina...

Lua...

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