Poemas neste tema
Cultura e Tradição
Agostinho Neto
Lá no horizonte
Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas
Poesia africana
Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa
No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas
Poesia africana
E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone
Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas
Poesia africana
Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa
No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas
Poesia africana
E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone
Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.
3 829
1
David Mestre
O Sol nasce a Oriente
Povo, de ti canto o movimento
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança
Do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos la'bios de Zumbi
De ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sabia das aves
o dialecto novo do silêncio
e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onc,a posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa.
De ti amo a denuncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a danc,a prometida do sol
nascer um dia a Oriente
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança
Do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos la'bios de Zumbi
De ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sabia das aves
o dialecto novo do silêncio
e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onc,a posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa.
De ti amo a denuncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a danc,a prometida do sol
nascer um dia a Oriente
1 693
1
Emílio de Menezes
Quadras Encomendadas pela Cerveja Brahma
Escrito no dia 15 de dezembro:
O José Bonifácio se insulava
Nessa ilha pitoresca, Paquetá!
Lugar que a água de coco dominava
E a Brahma-Porter dominando está.
Escrito no dia 21 de fevereiro:
O pintor Victor Meireles,
Que faleceu nesta data,
Dizia que ao próprio Zoeller
Já era a cerveja grata.
Escrito no dia 11 de abril:
Nesta data morreu nosso Macedo,
Autor do Moço loiro e Moreninha.
Quando o releio penso assim em segredo:
Um chope loiro e um copo da Negrinha.
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 1980. Poema integrante da série Esparsos e Inéditos
O José Bonifácio se insulava
Nessa ilha pitoresca, Paquetá!
Lugar que a água de coco dominava
E a Brahma-Porter dominando está.
Escrito no dia 21 de fevereiro:
O pintor Victor Meireles,
Que faleceu nesta data,
Dizia que ao próprio Zoeller
Já era a cerveja grata.
Escrito no dia 11 de abril:
Nesta data morreu nosso Macedo,
Autor do Moço loiro e Moreninha.
Quando o releio penso assim em segredo:
Um chope loiro e um copo da Negrinha.
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 1980. Poema integrante da série Esparsos e Inéditos
1 686
1
Mário António
Uma negra convertida
Minha avó negra, de panos escuros,
da cor do carvão...
Minha avó negra de panos escuros
que nunca mais deixou...
Andas de luto,
toda és tristeza...
Heroína de ideias,
rompeste com a velha tradição
dos cazumbis, dos quimbandas...
Não xinguilas, no obito.
Tuas mãos de dedos encarquilhados,
tuas mãos calosas da enxada,
tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra,
quitabas e quifufutilas - ,
tuas mãos, ora tranquilas,
desfilam as contas gastas de um rosário já velho...
Teus olhos perderam o brilho;
e da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas...
Avózinha,
as vezes, ouço vozes que te segredam
saudades da tua velha sanzala,
da cubata onde nasceste,
das algazarras dos óbitos,
das tentadoras mentiras do quimbanda,
dos sonhos de alambamento
que supunhas merecer...
E penso que... se pudesses,
talvez revivesses
as velhas tradições!
da cor do carvão...
Minha avó negra de panos escuros
que nunca mais deixou...
Andas de luto,
toda és tristeza...
Heroína de ideias,
rompeste com a velha tradição
dos cazumbis, dos quimbandas...
Não xinguilas, no obito.
Tuas mãos de dedos encarquilhados,
tuas mãos calosas da enxada,
tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra,
quitabas e quifufutilas - ,
tuas mãos, ora tranquilas,
desfilam as contas gastas de um rosário já velho...
Teus olhos perderam o brilho;
e da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas...
Avózinha,
as vezes, ouço vozes que te segredam
saudades da tua velha sanzala,
da cubata onde nasceste,
das algazarras dos óbitos,
das tentadoras mentiras do quimbanda,
dos sonhos de alambamento
que supunhas merecer...
E penso que... se pudesses,
talvez revivesses
as velhas tradições!
1 281
1
Gonçalves Crespo
Nera
I
Uma larga piscina, obra de um grego artista,
Atrai da alcova em meio a fascinada vista.
II
De trabalhado bronze um Pã malicioso
Finge na tênue flauta um canto harmonioso.
III
Uma estátua do Amor, de Paros cor-de-rosa,
Entre verdes festões assoma graciosa.
IV
Em jarras do Corinto esmaiam belas flores,
Espalham-se no ar suavíssimos olores.
V
O teto é de mosaico e ornado de figuras;
Riem pela parede eróticas pinturas.
VI
Sobre mesas de jaspe, orladas de embutidos,
Repousam jóias de ouro, esplêndidos vestidos.
VII
Nas púrpuras do leito ebúrneo uma criança
Dormita; a luz do sol lhe beija a loira trança.
VIII
Formosa! vista assim, no leito adormecida,
É náiade gentil em relva umedecida.
IX
Murmuram do clépsidro as águas. Entretanto
Nera seu corpo estira em flácido quebranto.
X
Abre — felino jeito! — os lábios cor-de-rosa,
Como em busca de um beijo, a dama voluptuosa.
XI
Sonha! julga sentir no rosto de açucena
Os beijos de Batilo, o gladiador da arena.
XII
Súbito, em toda a Roma a plebe dissoluta
"Ao Circo!" ruge e grita; a dama acorda e escuta.
XIII
Ergue o corpo de neve a linda Galatéia,
"Ao Circo!" e em seu olhar sorri ignota idéia.
1870
Publicado no livro Miniaturas (1871).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
Uma larga piscina, obra de um grego artista,
Atrai da alcova em meio a fascinada vista.
II
De trabalhado bronze um Pã malicioso
Finge na tênue flauta um canto harmonioso.
III
Uma estátua do Amor, de Paros cor-de-rosa,
Entre verdes festões assoma graciosa.
IV
Em jarras do Corinto esmaiam belas flores,
Espalham-se no ar suavíssimos olores.
V
O teto é de mosaico e ornado de figuras;
Riem pela parede eróticas pinturas.
VI
Sobre mesas de jaspe, orladas de embutidos,
Repousam jóias de ouro, esplêndidos vestidos.
VII
Nas púrpuras do leito ebúrneo uma criança
Dormita; a luz do sol lhe beija a loira trança.
VIII
Formosa! vista assim, no leito adormecida,
É náiade gentil em relva umedecida.
IX
Murmuram do clépsidro as águas. Entretanto
Nera seu corpo estira em flácido quebranto.
X
Abre — felino jeito! — os lábios cor-de-rosa,
Como em busca de um beijo, a dama voluptuosa.
XI
Sonha! julga sentir no rosto de açucena
Os beijos de Batilo, o gladiador da arena.
XII
Súbito, em toda a Roma a plebe dissoluta
"Ao Circo!" ruge e grita; a dama acorda e escuta.
XIII
Ergue o corpo de neve a linda Galatéia,
"Ao Circo!" e em seu olhar sorri ignota idéia.
1870
Publicado no livro Miniaturas (1871).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
1 604
1
Gonçalves Crespo
Na Roça
Cercada de mestiças, no terreiro,
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouco e pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.
Brilham insetos no capim rasteiro,
Vêm das matas os negros recolhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto de um tropeiro.
Atrás das grandes, pardas borboletas,
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.
Desponta a lua; o sabiá gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada...
Publicado no livro Miniaturas (1871).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
Cisma a Senhora Moça; vem descendo
A noite, e pouco e pouco escurecendo
O vale umbroso e o monte sobranceiro.
Brilham insetos no capim rasteiro,
Vêm das matas os negros recolhendo;
Na longa estrada ecoa esmorecendo
O monótono canto de um tropeiro.
Atrás das grandes, pardas borboletas,
Crianças nuas lá se vão inquietas
Na varanda correndo ladrilhada.
Desponta a lua; o sabiá gorjeia;
Enquanto às portas do curral ondeia
A mugidora fila da boiada...
Publicado no livro Miniaturas (1871).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
2 052
1
Inácio José de Alvarenga Peixoto
Sonho Poético
Oh, que sonho, oh, que sonho eu tive nesta
feliz, ditosa, sossegada sesta!
Eu vi o Pão d'Açúcar levantar-se,
e no meio das ondas transformar-se
na figura do Índio mais gentil,
representando só todo o Brasil.
Pendente a tiracol de branco arminho,
côncavo dente de animal marinho
as preciosas armas lhe guardava:
era tesouro e juntamente aljava.
De pontas de diamante eram as setas,
as hásteas de ouro, mas as penas pretas;
que o Índio valeroso, ativo e forte,
não manda seta em que não mande a morte.
Zona de penas de vistosas cores,
guarnecida de bárbaros lavores,
de folhetas e pérolas pendentes,
finos cristais, topázios transparentes,
em recamadas peles de saíras,
rubins, e diamantes e safiras,
em campo de esmeralda escurecia
a linda estrela que nos traz o dia.
No cocar... oh! que assombro, oh! que riqueza!
Vi tudo quanto pode a natureza:
no peito, em grandes letras de diamante,
o nome da Augustíssima Imperante.
De inteiriço coral novo instrumento
as mãos lhe ocupa, enquanto ao doce acento
das saudosas palhetas, que afinava,
Píndaro Americano assim cantava:
"Sou vassalo, sou leal;
como tal,
fiel constante,
sirvo à glória da imperante,
sirvo à grandeza real.
Aos Elísios descerei,
fiel sempre a Portugal,
ao famoso vice-rei,
ao ilustre general,
às bandeiras que jurei.
Insultando o fado e a sorte
e a fortuna desigual,
a quem morrer sabe, a morte
nem é morte nem é mal."
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960.
feliz, ditosa, sossegada sesta!
Eu vi o Pão d'Açúcar levantar-se,
e no meio das ondas transformar-se
na figura do Índio mais gentil,
representando só todo o Brasil.
Pendente a tiracol de branco arminho,
côncavo dente de animal marinho
as preciosas armas lhe guardava:
era tesouro e juntamente aljava.
De pontas de diamante eram as setas,
as hásteas de ouro, mas as penas pretas;
que o Índio valeroso, ativo e forte,
não manda seta em que não mande a morte.
Zona de penas de vistosas cores,
guarnecida de bárbaros lavores,
de folhetas e pérolas pendentes,
finos cristais, topázios transparentes,
em recamadas peles de saíras,
rubins, e diamantes e safiras,
em campo de esmeralda escurecia
a linda estrela que nos traz o dia.
No cocar... oh! que assombro, oh! que riqueza!
Vi tudo quanto pode a natureza:
no peito, em grandes letras de diamante,
o nome da Augustíssima Imperante.
De inteiriço coral novo instrumento
as mãos lhe ocupa, enquanto ao doce acento
das saudosas palhetas, que afinava,
Píndaro Americano assim cantava:
"Sou vassalo, sou leal;
como tal,
fiel constante,
sirvo à glória da imperante,
sirvo à grandeza real.
Aos Elísios descerei,
fiel sempre a Portugal,
ao famoso vice-rei,
ao ilustre general,
às bandeiras que jurei.
Insultando o fado e a sorte
e a fortuna desigual,
a quem morrer sabe, a morte
nem é morte nem é mal."
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960.
5 722
1
José de Anchieta
Na Festa de São Lourenço
2o. ATO
No 2o. ato entram três diabos, que querem destruir a aldeia com
pecados, aos quais resistem São Lourenço e São Sebastião e o Anjo
da Guarda, livrando a aldeia e prendendo os diabos, cujos nomes
são: Guaixará, que é o rei; Aimbirê e Saravaia, seus criados.
Guaixará — (...)
Abá, serã, xe jabé? Quem, como eu?
Ixé serobiaripyra, Eu sou conceituado,
xe anangusú mixyra, sou o diabão assado,
Guaixará serímbae, Guaixará chamado,
Kuépe imoerapoanimbyra. por aí afamado.
(...)
Moraséia e ikatú, É bom dançar,
jeguáka, jemopiránga, adornar-se, tingir-se de
vermelho,
samongy, jetymanguánga, empenar o corpo, pintar as
pernas,
jemoúna, petymbú, fazer-se negro, fumar,
karaí moñamomoñánga... curandeirar...
Jemoyrõ, morapití, De enfurecer-se, andar
matando,
joú, tapúia rára, comer um ao outro, prender
tapuias,
aguasá, moropotára; amancebar-se, ser desonesto,
mañána, syguarajy espião, adúltero
— naipotári abá sejára. — não quero que o gentio
deixe.
Angarí Para isso
ajosúb abá koty, convivo com os índios,
texerorobiár, ujábo. induzindo-os a acreditarem em
mim.
Oú teñé xe peábo Vêm inutilmente afastar-me
"abaré" jába, kori, os tais "padres", agora,
Tupã rekó mombeguábo. apregoando a lei de Deus.
(...)
Saravaia — (...)
Chama quatro companheiros, que ajudem:
Tataurána, Tataurana,
erú ke nde mosurána! traze a tua muçurana!
Urubú, Jaguarusú, Urubu, Jaguaruçu,
ingapéma be perú! trazei também a ingapema!
Kaburé, jorí eñána Caborê, vem correndo
tobajára tiaú! comer os inimigos!
Acodem todos quatro, com suas armas, e dizem:
Tataurana — Ko xe musuranusú. Aqui está a minha muçurana
grossa.
Taú korí ijybapuéra, Eu lhe comerei os braços,
Jaguarusú juguéra, Jaguaruçu o pescoço,
iakanguéra Urubú, Urubu sua caveira,
Kaburé setymambuéra. Caborê as suas pernas.
Urubu — Ko aikó, Aqui estou,
syguepuéra tarasó vou levar as suas tripas e
bofes
iñyambebúia abé, para minha velha sogra.
xe raixó guaibi supé. Veio também a panela,
Oubé senaempepó, cozerão à minha vista.
tomoji xe renondé.
Jaguaruçu — Kobé ingape koatiára, Aqui está também a ingapema
listrada,
tajakáng mombúk murú. para quebrar-lhes as cabeças.
Iaputuúma taú. Comerei os seus miolos.
Xe aguaraguasú, jaguára. Sou o guará, a onça.
Xe jaguareté iporú! Sou jaguaretê antropófago!
Caborê — Kueisé ko aporapití, Andei por aqui derrotando,
ajurujúba jukábo, matando franceses,
uiñemoerapoangatuábo. para tornar-me famoso.
Tasó nde pyri, korí, Irei a teu lado, agora,
aipó tubixába guábo. devorar estes chefes.
(...)
Imagem - 00570010
In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954.
NOTA: Tradução da parte em tupi, por M. de L. de Paula Martin
No 2o. ato entram três diabos, que querem destruir a aldeia com
pecados, aos quais resistem São Lourenço e São Sebastião e o Anjo
da Guarda, livrando a aldeia e prendendo os diabos, cujos nomes
são: Guaixará, que é o rei; Aimbirê e Saravaia, seus criados.
Guaixará — (...)
Abá, serã, xe jabé? Quem, como eu?
Ixé serobiaripyra, Eu sou conceituado,
xe anangusú mixyra, sou o diabão assado,
Guaixará serímbae, Guaixará chamado,
Kuépe imoerapoanimbyra. por aí afamado.
(...)
Moraséia e ikatú, É bom dançar,
jeguáka, jemopiránga, adornar-se, tingir-se de
vermelho,
samongy, jetymanguánga, empenar o corpo, pintar as
pernas,
jemoúna, petymbú, fazer-se negro, fumar,
karaí moñamomoñánga... curandeirar...
Jemoyrõ, morapití, De enfurecer-se, andar
matando,
joú, tapúia rára, comer um ao outro, prender
tapuias,
aguasá, moropotára; amancebar-se, ser desonesto,
mañána, syguarajy espião, adúltero
— naipotári abá sejára. — não quero que o gentio
deixe.
Angarí Para isso
ajosúb abá koty, convivo com os índios,
texerorobiár, ujábo. induzindo-os a acreditarem em
mim.
Oú teñé xe peábo Vêm inutilmente afastar-me
"abaré" jába, kori, os tais "padres", agora,
Tupã rekó mombeguábo. apregoando a lei de Deus.
(...)
Saravaia — (...)
Chama quatro companheiros, que ajudem:
Tataurána, Tataurana,
erú ke nde mosurána! traze a tua muçurana!
Urubú, Jaguarusú, Urubu, Jaguaruçu,
ingapéma be perú! trazei também a ingapema!
Kaburé, jorí eñána Caborê, vem correndo
tobajára tiaú! comer os inimigos!
Acodem todos quatro, com suas armas, e dizem:
Tataurana — Ko xe musuranusú. Aqui está a minha muçurana
grossa.
Taú korí ijybapuéra, Eu lhe comerei os braços,
Jaguarusú juguéra, Jaguaruçu o pescoço,
iakanguéra Urubú, Urubu sua caveira,
Kaburé setymambuéra. Caborê as suas pernas.
Urubu — Ko aikó, Aqui estou,
syguepuéra tarasó vou levar as suas tripas e
bofes
iñyambebúia abé, para minha velha sogra.
xe raixó guaibi supé. Veio também a panela,
Oubé senaempepó, cozerão à minha vista.
tomoji xe renondé.
Jaguaruçu — Kobé ingape koatiára, Aqui está também a ingapema
listrada,
tajakáng mombúk murú. para quebrar-lhes as cabeças.
Iaputuúma taú. Comerei os seus miolos.
Xe aguaraguasú, jaguára. Sou o guará, a onça.
Xe jaguareté iporú! Sou jaguaretê antropófago!
Caborê — Kueisé ko aporapití, Andei por aqui derrotando,
ajurujúba jukábo, matando franceses,
uiñemoerapoangatuábo. para tornar-me famoso.
Tasó nde pyri, korí, Irei a teu lado, agora,
aipó tubixába guábo. devorar estes chefes.
(...)
Imagem - 00570010
In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954.
NOTA: Tradução da parte em tupi, por M. de L. de Paula Martin
3 304
1
Lindolf Bell
Gal Legal
Estremecida lua
nos olhos da América
da rosa-dos-ventos,
eu te saudo
aveave,
naunua
Florgal, Blumengal,
verde-morena-barriga-verde,
eu te saudo,
noite crespa
de atlânticos cabelos.
Gal Galileu Galilei
de um navio
de seda e luz
Gal Ipanema — Itapema
Gal Bahia do Itajaí
Gal nossa de cada dia
venha a nós
a tua voz
de ave-eva,
erva medrada do sim
e do silencio,
venha a nós
Gal Galera
dos mares bravios
de coração tropical.
Gal Galáxia
Gal Gala Dali
Gal Gala Daqui
GalGalGal
NeferNeferNefer
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
nos olhos da América
da rosa-dos-ventos,
eu te saudo
aveave,
naunua
Florgal, Blumengal,
verde-morena-barriga-verde,
eu te saudo,
noite crespa
de atlânticos cabelos.
Gal Galileu Galilei
de um navio
de seda e luz
Gal Ipanema — Itapema
Gal Bahia do Itajaí
Gal nossa de cada dia
venha a nós
a tua voz
de ave-eva,
erva medrada do sim
e do silencio,
venha a nós
Gal Galera
dos mares bravios
de coração tropical.
Gal Galáxia
Gal Gala Dali
Gal Gala Daqui
GalGalGal
NeferNeferNefer
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
1 979
1
Sílvio Romero
Batatinha quando nasce
Batatinha quando nasce
Deita rama pelo chão;
Mulatinha quando deita
Bota a mão no coração.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.247. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Deita rama pelo chão;
Mulatinha quando deita
Bota a mão no coração.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.247. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
10 202
1
Sílvio Romero
Jogo dos Dedos
(Sergipe e Pernambuco)
Dedo miudinho,
Seu vizinho,
Maior de todos,
Fura-bolos,
Cata piolhos.
Este diz que está com fome,
Este diz que não tem o quê;
Este diz vai furtar;
Este diz que não vá lá,
Este diz que Deus dará.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.292. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Dedo miudinho,
Seu vizinho,
Maior de todos,
Fura-bolos,
Cata piolhos.
Este diz que está com fome,
Este diz que não tem o quê;
Este diz vai furtar;
Este diz que não vá lá,
Este diz que Deus dará.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.292. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 968
1
Sílvio Romero
Outra [Parlendas
(Sergipe, Rio de Janeiro e Pernambuco)
Amanhã é domingo,
Pé de cachimbo;
Galo monteiro
Pisou na areia;
A areia é fina
Que dá no sino;
O sino é douro
Que dá no besouro;
O besouro é de prata
Que dá na mata;
A mata é valente,
Que dá no tenente;
O tenente é mofino,
Que dá no menino;
Menino é valente
Que dá em toda gente.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.294. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Amanhã é domingo,
Pé de cachimbo;
Galo monteiro
Pisou na areia;
A areia é fina
Que dá no sino;
O sino é douro
Que dá no besouro;
O besouro é de prata
Que dá na mata;
A mata é valente,
Que dá no tenente;
O tenente é mofino,
Que dá no menino;
Menino é valente
Que dá em toda gente.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.294. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 659
1
Sílvio Romero
Balaio
(Rio Grande do Sul)
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do coração;
Moça que não tem balaio
Bota a costura no chão.
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do presidente:
Por causa deste balaio
Já mataram tanta gente!...
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio de tapeti;
Por causa deste balaio
Me degradaram daqui.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.198. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do coração;
Moça que não tem balaio
Bota a costura no chão.
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do presidente:
Por causa deste balaio
Já mataram tanta gente!...
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio de tapeti;
Por causa deste balaio
Me degradaram daqui.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.198. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 564
1
Sílvio Romero
Outra [Parlendas
Dinglin, dingues, Maria Pires?
Dinglin, dingues, Estou fazendo papa.
Dinglin, dingues, Para Quem?
Dinglin, dingues, Para João Manco.
................Quem foi que o mancou?
Foi a pedra.
Cadê a pedra?
Está no mato.
Cadê o mato
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu...
Cadê o boi?
Foi buscar milho.
Para quem?
Para a galinha.
Cadê a galinha?
Está pondo.
Cadê o ovo?
O padre o bebeu.
Cadê o padre?
Foi dizer missa.
Cadê a missa.
Já se acabou.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.295. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Dinglin, dingues, Estou fazendo papa.
Dinglin, dingues, Para Quem?
Dinglin, dingues, Para João Manco.
................Quem foi que o mancou?
Foi a pedra.
Cadê a pedra?
Está no mato.
Cadê o mato
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu...
Cadê o boi?
Foi buscar milho.
Para quem?
Para a galinha.
Cadê a galinha?
Está pondo.
Cadê o ovo?
O padre o bebeu.
Cadê o padre?
Foi dizer missa.
Cadê a missa.
Já se acabou.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.295. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 624
1
Sílvio Romero
Reisado da Borboleta, do Maracujá e do Pica-Pau
CENA 2a.
(Aparece uma figura representando a borboleta)
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal,
Venha cantar doces hinos
Hoje noite de Natal.
Borboleta:
Deus lhe dê mui boa noite,
Boa noite lhe dê Deus;
Que eu não sou mal ensinada,
Ensino meu pai me deu.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal;
Venha cantar doces hinos,
Hoje noite de Natal.
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Sou linda, sou feiticeira;
Ando no meio da casa,
Procurando quem me queira.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc.
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Verde da cor da esperança,
Ando no meio da casa,
Com alegria e bonança.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc..
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Vivo de ar e de luz;
Ando no meio da casa
Com minhas asas azuis.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc..
Borboleta:
Adeus, senhores, adeus,
Já são horas de partir;
Entre a bonina e a açucena
Já são horas de dormir.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.150-151. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
(Aparece uma figura representando a borboleta)
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal,
Venha cantar doces hinos
Hoje noite de Natal.
Borboleta:
Deus lhe dê mui boa noite,
Boa noite lhe dê Deus;
Que eu não sou mal ensinada,
Ensino meu pai me deu.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal;
Venha cantar doces hinos,
Hoje noite de Natal.
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Sou linda, sou feiticeira;
Ando no meio da casa,
Procurando quem me queira.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc.
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Verde da cor da esperança,
Ando no meio da casa,
Com alegria e bonança.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc..
Borboleta:
Eu sou uma borboleta,
Vivo de ar e de luz;
Ando no meio da casa
Com minhas asas azuis.
Coro:
Borboleta bonitinha,
Saia fora do rosal, etc..
Borboleta:
Adeus, senhores, adeus,
Já são horas de partir;
Entre a bonina e a açucena
Já são horas de dormir.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.150-151. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 470
1
Sílvio Romero
A Moura
(Pernambuco)
Estava a moura
Em seu lugar,
Foi a mosca
Lhe fazer mal;
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a mosca
Em seu lugar,
Foi a aranha
Lhe fazer mal;
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava,
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a aranha
Em seu lugar,
Foi o rato
Lhe fazer mal;
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o rato
Em seu lugar,
Foi o gato
Lhe fazer mal;
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia,
Inquietar!
Estava o gato
Em seu lugar,
Foi o cachorro
Lhe fazer mal;
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o cachorro
Em seu lugar,
Foi o pau
Lhe fazer mal;
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o pau
No seu lugar,
Foi o fogo
Lhe fazer mal;
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o fogo
Em seu lugar,
Foi a água
Lhe fazer mal;
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a água
Em seu lugar,
Foi o boi
Lhe fazer mal;
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o boi
Em seu lugar
Foi a faca
Lhe fazer mal;
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a faca
Em seu lugar,
Foi o homem
Lhe fazer mal;
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o homem
Em seu lugar,
Foi a morte
Lhe fazer mal;
A morte no homem,
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.86-88. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Estava a moura
Em seu lugar,
Foi a mosca
Lhe fazer mal;
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a mosca
Em seu lugar,
Foi a aranha
Lhe fazer mal;
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava,
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a aranha
Em seu lugar,
Foi o rato
Lhe fazer mal;
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o rato
Em seu lugar,
Foi o gato
Lhe fazer mal;
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia,
Inquietar!
Estava o gato
Em seu lugar,
Foi o cachorro
Lhe fazer mal;
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o cachorro
Em seu lugar,
Foi o pau
Lhe fazer mal;
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o pau
No seu lugar,
Foi o fogo
Lhe fazer mal;
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o fogo
Em seu lugar,
Foi a água
Lhe fazer mal;
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a água
Em seu lugar,
Foi o boi
Lhe fazer mal;
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o boi
Em seu lugar
Foi a faca
Lhe fazer mal;
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava a faca
Em seu lugar,
Foi o homem
Lhe fazer mal;
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
Estava o homem
Em seu lugar,
Foi a morte
Lhe fazer mal;
A morte no homem,
O homem na faca,
A faca no boi,
O boi na água,
A água no fogo,
O fogo no pau,
O pau no cachorro,
O cachorro no gato,
O gato no rato,
O rato na aranha,
A aranha na mosca,
A mosca na moura,
A moura fiava;
Coitada da moura,
Que tudo a ia
Inquietar!
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.86-88. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
4 118
1
Gonçalves Crespo
Jatir e Coema
JATIR
Desprezo-te, Coema, a velha usança
Que entre nós se pratica... desprezaste:
O bem-vindo estrangeiro abandonaste
Que em mole rede o corpo seu descansa.
Desprezo-te, Coema, bem criança
Em meus braços de ferro te criaste
E neles sempre firme abrigo achaste
Mas pede a tua ação pronta vingança.
COEMA
Senhor das matas, meu Jatir valente,
Tu desconheces este amor ardente,
Choro embalde a teus pés mísera louca!
Afoga-me em teus braços musculosos.
Antes isso, que os beijos asquerosos
Do bem-vindo estrangeiro em minha boca!
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1942.
NOTA: Jatir e Coema: personagens de OS TIMBIRAS, de Gonçalves Dia
Desprezo-te, Coema, a velha usança
Que entre nós se pratica... desprezaste:
O bem-vindo estrangeiro abandonaste
Que em mole rede o corpo seu descansa.
Desprezo-te, Coema, bem criança
Em meus braços de ferro te criaste
E neles sempre firme abrigo achaste
Mas pede a tua ação pronta vingança.
COEMA
Senhor das matas, meu Jatir valente,
Tu desconheces este amor ardente,
Choro embalde a teus pés mísera louca!
Afoga-me em teus braços musculosos.
Antes isso, que os beijos asquerosos
Do bem-vindo estrangeiro em minha boca!
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1942.
NOTA: Jatir e Coema: personagens de OS TIMBIRAS, de Gonçalves Dia
1 724
1
Luís Gama
Pacotilha
Não ralhem, não façam bulha,
Que eu não sei se isto é pulha.
Polca
(...)
Se trôpego velho
De queixo caído,
Dengoso e rendido,
Com moça se liga;
Lá quando mal cuida
Na fronte lhe saltam,
Relevos que esmaltam,
Em forma de espiga.
Se rapa o que pode
Finório empregado,
Campando de honrado,
Cuidando que brilha;
Em dia aziago
Tropeça, baqueia,
E vai, na cadeia,
Juntar-se à quadrilha.
Se impinge nobreza
Brutal vendilhão,
Que sendo Barão,
Já pensa que é gente;
Aqueles que o viram
Cebolas vendendo
Vão sempre dizendo —
Que o lorpa é demente.
Se em peitos que fervem
Infâmias tremendas
Avultam comendas
E prêmios de honor;
É que, com dinheiro,
Os rudes cambetas
Se levam das tretas
E mudam de cor.
Se fino larápio
De vícios coberto,
Com foros d'esperto,
De honrado se aclama;
É que a ladroeira.
Banindo o critério,
Firmou seu império
C'o gente de fama.
Se audaz rapinanto,
Fidalgo ou Barão,
Por ser figurão,
Triunfa da Lei;
É que há Magistrados
Que empolgam presentes
Fazendo inocentes
Os manos da grei.
Mulato esfolado,
Que diz-se fidalgo,
Porque tem de galgo
O longo focinho;
Não perde a catinga,
De cheiro falace,
Ainda que passe
Por bráseo cadinho.
E se eu que pretácio,
D'Angola oriundo,
Alegre, jucundo,
Nos meus vou cortando;
É que não tolero
Falsários parentes,
Ferrarem-me os dentes,
Por brancos passando.
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.69-70. (Últimas gerações, 4
Que eu não sei se isto é pulha.
Polca
(...)
Se trôpego velho
De queixo caído,
Dengoso e rendido,
Com moça se liga;
Lá quando mal cuida
Na fronte lhe saltam,
Relevos que esmaltam,
Em forma de espiga.
Se rapa o que pode
Finório empregado,
Campando de honrado,
Cuidando que brilha;
Em dia aziago
Tropeça, baqueia,
E vai, na cadeia,
Juntar-se à quadrilha.
Se impinge nobreza
Brutal vendilhão,
Que sendo Barão,
Já pensa que é gente;
Aqueles que o viram
Cebolas vendendo
Vão sempre dizendo —
Que o lorpa é demente.
Se em peitos que fervem
Infâmias tremendas
Avultam comendas
E prêmios de honor;
É que, com dinheiro,
Os rudes cambetas
Se levam das tretas
E mudam de cor.
Se fino larápio
De vícios coberto,
Com foros d'esperto,
De honrado se aclama;
É que a ladroeira.
Banindo o critério,
Firmou seu império
C'o gente de fama.
Se audaz rapinanto,
Fidalgo ou Barão,
Por ser figurão,
Triunfa da Lei;
É que há Magistrados
Que empolgam presentes
Fazendo inocentes
Os manos da grei.
Mulato esfolado,
Que diz-se fidalgo,
Porque tem de galgo
O longo focinho;
Não perde a catinga,
De cheiro falace,
Ainda que passe
Por bráseo cadinho.
E se eu que pretácio,
D'Angola oriundo,
Alegre, jucundo,
Nos meus vou cortando;
É que não tolero
Falsários parentes,
Ferrarem-me os dentes,
Por brancos passando.
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.69-70. (Últimas gerações, 4
1 908
1
Juó Bananére
U garnevallo inda a cittá - Também tive u corsego
U garnevallo inda a cittá – També tive u corsego(1)
Una roba che si xame u curdó – A indisgunhambaçó
– Os carros garnevallsco – O Fausdino
Rebero e o Garonello senza gabeza.
Lustrissimu Redattore
du "Piralho"
In questo I'anno u garnevallo inda a cittá istive xiinho.
Tenía genti piore da festa da a Penha.
També tive u corsego.
U corsego é una roba che si buta una purçó de intomovel uno atraiz du otro, e si incomincia da virá, virá, virá.. té di notte. U corsigo fui inda a avenidiga(2) Baoliste(3).
Intó io pigué a mia figlia. Ciurmelinha e o Beppino e flumos inda a cittá, ma quando io xigué proprio ingoppa a ladére do dottore Falcone(5) io inxergué(6) tutto o mondo lá e vurté inda a gasa mia pur causa di largá a Gurmelinha co Beppino, perchê sinó tenía da murré i sopra di quello aperto che tenía lá inda a cittá.
Intó io larghé us mios figlios e vurté.
Eh! ma che roba meravigliosa. Tutta a cittá stava illuminata co'as lamparina azzurra, virmeglio, marello, roxe e verdi (inda(7) a terra mia, "verdi" é uno maestro che té fazido a musiga(8) du "Guarani"(9), da "Molhere du Surdado"(10), ecc. ecc.).
S’imagine aóra che di repente incominció da pertá che a genti non poteva né andá.
Quano a genti vuleva andá giá tenía da levá un piscoço.
Ma io figava chéto, pur causa che o Lacarato mi disse che se io faceva qualche altra indisgunhambaçó e fosse preso p'ra gadeia, non mi surtava mais.
Intó io levé cinquantaquattro piscoçó inté xigá indo o larghe du Arrusá e non mi disse né(11) una parola.
Ma inveiz, quano io xigué lá, tenía una purçó d’ingafagesto che venía uno atraiz du otro, gridando come us imbriagone e currendo indo o meio du póvolo.
Io pregunté p'ro Beppino che robba fosse quella e u Beppino mi cuntaro che queflo si xame u curdó.
lo stavo mesimo indegninado(12) quando uno di quellos indisgraziato si pisó bnima di uno mio gallo che io tenho ingoppa u dedó.
Intó si signore che io non inxergué, né o Lacarato, né gadeia, né nada, ma inveiz mi fIz un puntapelo sopra di quello indisgraziato che elli fui acaí(13) mesimo ingoppa a gabeza do Lacarato che stavo(14) parado lá inda a porta du "Curréu Baolistano".
O Lacarato indisgambó inzima di mi, ma io che non só troxa p'ra burro, indisgambai indo u meie du póvolo, che o Lacarato non fui capaiz di mi pigá.
Intó io fui lá inda a porta d’un mio cumpadro che té lá inda a rua Quinze e, figué lá parado pur causa da vedé us prestiti(16) garnevallesco.
Di repenti vignó us Incentrico(17). Ih! mamma mia, come era bunito. Tenia mais de cinquanta carros tuttos molto bunito, molto xiigno da papelo durado, ma inveiz quello che io truvé(18) mais bunito fui quello carruçó che diceva che o Fausdino Rebéro, (quello que fui sbarrato) quano non gura, mata...
O Fausdino Rebéro é mio cumpanhero inda a "briosa".
Tenía també un’altro garro dove venía una gadera d’indeputado che tutto os mondo vuleva trepá, ma inveiz o Carlo Garcia é che stava quasi pigando. O Garonello inveiz no! questo giá tenía gabeza curtada e stavo supra du chon.
Povero(19) Garonello.
Con tutto o a stima c’ua sideraçó, il suo griato
Publicada no jornal O Pirralho, 24 fev. 1912. p. 12.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 64-66. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: côrsego. (2) Pronúnc.: avenídiga. (3) Além dos dias de carnaval, o corso em São Paulo era uma prática comum nos domingos e dias festivos. Acontecia inicialmente na Av. Higienópolis, tendo passado depois para a Av. Paulista, que precisava ser irrigada, pois só foi asfaltada no início de 1915 (O Pirralho, 6 jan. 912, p. 16; 6 fev. 1915, p. 7). Dele tomava parte "toda a elite da sociedade paulistana" (SILVA, 1924, p. 73). (4) P. indá. (5) Ladeira Dr. Falcão, mais tarde denominada Travessa de Santo Antônio, era um dos trechos do caminho que ligava o centro da cidade ao interior. Em 1877, passou a se chamar Rua Dr. Falcão Filho (AMARAL, 1980, p. 467). (6) P. inxergué, tutto. (7) P. indá. (8) Pronúnc.: músiga. (9) P. Guarany. (10) Mulher ou soldado?, vaudeville que estreiou em São Paulo em novembro de 1911 (O Estado de S. Paulo, 18 nov. 1911, p.5). (11) P. ne. (12) P. indegniado. (13) P. acahi. (14) It. Stavo: estava (eu), forma usada aqui no lugar da terceira pessoal verbal. (15) P. indisgombó. (16) Pronúnc.: préstiti. (17) Pronúnc.: Incêntrico. Refere-se ao Clube dos Excêntricos, que no carnaval de 1912 procurou reviver em São Paulo o carnaval de outrora (O Estado de S. Paulo, 9 mar. 1912, p. 9). (18) It. Trovare: encontrar, achar. (19) Pronúnc.: póvero.
Una roba che si xame u curdó – A indisgunhambaçó
– Os carros garnevallsco – O Fausdino
Rebero e o Garonello senza gabeza.
Lustrissimu Redattore
du "Piralho"
In questo I'anno u garnevallo inda a cittá istive xiinho.
Tenía genti piore da festa da a Penha.
També tive u corsego.
U corsego é una roba che si buta una purçó de intomovel uno atraiz du otro, e si incomincia da virá, virá, virá.. té di notte. U corsigo fui inda a avenidiga(2) Baoliste(3).
Intó io pigué a mia figlia. Ciurmelinha e o Beppino e flumos inda a cittá, ma quando io xigué proprio ingoppa a ladére do dottore Falcone(5) io inxergué(6) tutto o mondo lá e vurté inda a gasa mia pur causa di largá a Gurmelinha co Beppino, perchê sinó tenía da murré i sopra di quello aperto che tenía lá inda a cittá.
Intó io larghé us mios figlios e vurté.
Eh! ma che roba meravigliosa. Tutta a cittá stava illuminata co'as lamparina azzurra, virmeglio, marello, roxe e verdi (inda(7) a terra mia, "verdi" é uno maestro che té fazido a musiga(8) du "Guarani"(9), da "Molhere du Surdado"(10), ecc. ecc.).
S’imagine aóra che di repente incominció da pertá che a genti non poteva né andá.
Quano a genti vuleva andá giá tenía da levá un piscoço.
Ma io figava chéto, pur causa che o Lacarato mi disse che se io faceva qualche altra indisgunhambaçó e fosse preso p'ra gadeia, non mi surtava mais.
Intó io levé cinquantaquattro piscoçó inté xigá indo o larghe du Arrusá e non mi disse né(11) una parola.
Ma inveiz, quano io xigué lá, tenía una purçó d’ingafagesto che venía uno atraiz du otro, gridando come us imbriagone e currendo indo o meio du póvolo.
Io pregunté p'ro Beppino che robba fosse quella e u Beppino mi cuntaro che queflo si xame u curdó.
lo stavo mesimo indegninado(12) quando uno di quellos indisgraziato si pisó bnima di uno mio gallo che io tenho ingoppa u dedó.
Intó si signore che io non inxergué, né o Lacarato, né gadeia, né nada, ma inveiz mi fIz un puntapelo sopra di quello indisgraziato che elli fui acaí(13) mesimo ingoppa a gabeza do Lacarato che stavo(14) parado lá inda a porta du "Curréu Baolistano".
O Lacarato indisgambó inzima di mi, ma io che non só troxa p'ra burro, indisgambai indo u meie du póvolo, che o Lacarato non fui capaiz di mi pigá.
Intó io fui lá inda a porta d’un mio cumpadro che té lá inda a rua Quinze e, figué lá parado pur causa da vedé us prestiti(16) garnevallesco.
Di repenti vignó us Incentrico(17). Ih! mamma mia, come era bunito. Tenia mais de cinquanta carros tuttos molto bunito, molto xiigno da papelo durado, ma inveiz quello che io truvé(18) mais bunito fui quello carruçó che diceva che o Fausdino Rebéro, (quello que fui sbarrato) quano non gura, mata...
O Fausdino Rebéro é mio cumpanhero inda a "briosa".
Tenía també un’altro garro dove venía una gadera d’indeputado che tutto os mondo vuleva trepá, ma inveiz o Carlo Garcia é che stava quasi pigando. O Garonello inveiz no! questo giá tenía gabeza curtada e stavo supra du chon.
Povero(19) Garonello.
Con tutto o a stima c’ua sideraçó, il suo griato
Publicada no jornal O Pirralho, 24 fev. 1912. p. 12.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 64-66. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: côrsego. (2) Pronúnc.: avenídiga. (3) Além dos dias de carnaval, o corso em São Paulo era uma prática comum nos domingos e dias festivos. Acontecia inicialmente na Av. Higienópolis, tendo passado depois para a Av. Paulista, que precisava ser irrigada, pois só foi asfaltada no início de 1915 (O Pirralho, 6 jan. 912, p. 16; 6 fev. 1915, p. 7). Dele tomava parte "toda a elite da sociedade paulistana" (SILVA, 1924, p. 73). (4) P. indá. (5) Ladeira Dr. Falcão, mais tarde denominada Travessa de Santo Antônio, era um dos trechos do caminho que ligava o centro da cidade ao interior. Em 1877, passou a se chamar Rua Dr. Falcão Filho (AMARAL, 1980, p. 467). (6) P. inxergué, tutto. (7) P. indá. (8) Pronúnc.: músiga. (9) P. Guarany. (10) Mulher ou soldado?, vaudeville que estreiou em São Paulo em novembro de 1911 (O Estado de S. Paulo, 18 nov. 1911, p.5). (11) P. ne. (12) P. indegniado. (13) P. acahi. (14) It. Stavo: estava (eu), forma usada aqui no lugar da terceira pessoal verbal. (15) P. indisgombó. (16) Pronúnc.: préstiti. (17) Pronúnc.: Incêntrico. Refere-se ao Clube dos Excêntricos, que no carnaval de 1912 procurou reviver em São Paulo o carnaval de outrora (O Estado de S. Paulo, 9 mar. 1912, p. 9). (18) It. Trovare: encontrar, achar. (19) Pronúnc.: póvero.
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1
Bernardino Lopes
Mameluca
A que aí anda, esguia mameluca,
De olhos de amêndoa e tranças azeviche,
Tem uns ares fidalgos da Tijuca
E petulantes trajos a Niniche.
É justo, é natural que ela capriche
Em mostrar o cabelo, a espádua, a nuca
E essas pálpebras roxas de derviche,
Como um goivo aromal que se machuca.
Abre às soalheiras, em sanguíneo estofo,
A escandalosa e original papoula
Do pára-sol clownesco, álacre e fofo;
E o lírio do alto, quando espia o glabro
Rosto oval da cabocla, abre a caçoula,
E a via-láctea acende em candelabro!
Publicado no livro Brasões (1895).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
De olhos de amêndoa e tranças azeviche,
Tem uns ares fidalgos da Tijuca
E petulantes trajos a Niniche.
É justo, é natural que ela capriche
Em mostrar o cabelo, a espádua, a nuca
E essas pálpebras roxas de derviche,
Como um goivo aromal que se machuca.
Abre às soalheiras, em sanguíneo estofo,
A escandalosa e original papoula
Do pára-sol clownesco, álacre e fofo;
E o lírio do alto, quando espia o glabro
Rosto oval da cabocla, abre a caçoula,
E a via-láctea acende em candelabro!
Publicado no livro Brasões (1895).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
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1
Juvenal Galeno
A Moda
O que eu desejo, senhoras,
É que se cumpra o rifão:
— Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: —
Eis a minha opinião!
Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!
É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!
Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.
Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.
Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!
E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! —
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? —
(...)
Batinas e polonaise,
Hoje, bico — amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!
E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)
E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!
Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 196
É que se cumpra o rifão:
— Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: —
Eis a minha opinião!
Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!
É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!
Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.
Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.
Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!
E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! —
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? —
(...)
Batinas e polonaise,
Hoje, bico — amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!
E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)
E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!
Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 196
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1
Capinan
No Coração da Saideira
Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça, ninguém pra cantar
Me lembro tanto
É tão grande a saudade
Que até parece verdade que o tempo
Ainda pode voltar
Tempo de praia
De ponta de pedra
Das noites de lua
Dos blocos de rua
Do susto e a carreira
Da caramboleia
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, mugunzá cravo e canela (BIS)
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar
Tempo do corso
Na rua da Aurora
Moço na praça
Menina e senhora
No bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima do caramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda
Apesar da quarta-feira
No coração da saideira
Vendo a vida se enfeitar
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 58, p. 45-46, 1979
NOTA: Parceria com Edu Lob
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça, ninguém pra cantar
Me lembro tanto
É tão grande a saudade
Que até parece verdade que o tempo
Ainda pode voltar
Tempo de praia
De ponta de pedra
Das noites de lua
Dos blocos de rua
Do susto e a carreira
Da caramboleia
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, mugunzá cravo e canela (BIS)
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar
Tempo do corso
Na rua da Aurora
Moço na praça
Menina e senhora
No bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima do caramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda
Apesar da quarta-feira
No coração da saideira
Vendo a vida se enfeitar
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 58, p. 45-46, 1979
NOTA: Parceria com Edu Lob
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1
Felipe Vianna
BLUMENAU
Minha Blumenau.
A terra natal
De gente bela
De alto astral.
Teu rio divide
Em duas partes
Um povo forte
De belas artes.
Tão criativo
E tão potente
Que em todo Brasil
É imponente.
Brasão alemão.
Exemplo vivo
De um povo forte
E criativo.
Não se amedronta
E dá exemplo:
Trabalho árduo,
Vitória sempre.
E no futuro
Serás lembrado;
Vitorioso,
Glorificado.
Futuro certo
E postulado;
É a vitória,
Povo amado.
Blumenauense
Sou com orgulho.
Sou povo forte
E sempre luto.
Nunca desisto
Pois sempre venço.
Sou com orgulho
Blumenauense.
20/09/1997
A terra natal
De gente bela
De alto astral.
Teu rio divide
Em duas partes
Um povo forte
De belas artes.
Tão criativo
E tão potente
Que em todo Brasil
É imponente.
Brasão alemão.
Exemplo vivo
De um povo forte
E criativo.
Não se amedronta
E dá exemplo:
Trabalho árduo,
Vitória sempre.
E no futuro
Serás lembrado;
Vitorioso,
Glorificado.
Futuro certo
E postulado;
É a vitória,
Povo amado.
Blumenauense
Sou com orgulho.
Sou povo forte
E sempre luto.
Nunca desisto
Pois sempre venço.
Sou com orgulho
Blumenauense.
20/09/1997
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1
Cora Coralina
Todas as vidas
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
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