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Poemas neste tema

Desejo

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Cabelos, os Meus Cabelos

Cabelos, los meus cabelos,
El-rei m'enviou por elos.
JOÃO ZORRO


Cabelos, os meus cabelos,
que fontes de negro espanto!
descendo por minhas costas
com segredos de floresta:

meus peitos, meus peitos altos,
são tochas em meio às trevas,
ardendo com seus perfumes,
queimando com fogos claros;

trago uma lua nos ombros,
cascatas pelo meu corpo,
e as sombras da madrugada
no topo de minhas coxas.

Meus peitos, meus peitos nus,
para o amado os tenho virgens:
se ele os pudesse colher,
duros ramos de alecrins!

Teria em corpo desnudo
a ternura do bom Deus,
as mãos derramando trigo
sobre papoulas dormidas.

Cabelos, os meus cabelos,
el-rei os mandou buscar
para os prender em seu leito:
meu corpo, o triste, vai junto.

Não mais verei os meus bosques,
não mais os trevos em flor:
minh'alma geme na estrada,
anoitecendo os caminhos.

Quer el-rei os meus cabelos,
e quer também o meu corpo:
arderei nas madrugadas,
rosa austera em grave leito.

Meu alvo corpo desnudo,
deserto avaro de estrelas,
um sonho de areias brancas
em brancas dunas a pique...

Arderei nas madrugadas,
sofrendo amargos carinhos:
meu coração, o infeliz,
suspira, pombo ferido.

Cabelos, os meus cabelos,
el-rei deseja o meu corpo:
sangrarei sobre seus linhos
como uma rola flechada.

Cabelos, os meus cabelos,
meus peitos, meus peitos altos,
meu virgem corpo desnudo
já não será para o amado.


In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
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Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Canto Segundo

And her head droo'd as when the lily lies
O'er charged with rain.
Don Juan.


I

Dorme! ao colo do amor, pálido amante,
Repousa, sonhador, nos lábios dela!
Qual em seio de mãe, febril infante!
No olhar, nos lábios da infantil donzela
Inebria teu seio palpitante!
O murmúrio do amor em forma bela
Tem doçuras que esmaiam no desejo
Dos sonhos ao vapor, na onda de um beijo!

II

Que importa a perdição manchasse um dia
A alvura virginal das roupas santas
E o mundo a esse corpo que tremia
Rompesse o véu que tímido alevantas?
E à noite lhe pousasse a fronte fria
Nesse leito em que trêmulo te encantas
E ao batejo venal murchasse flores,
Flores que abriam a infantis amores?

III

Que importa? se o amor teu rosto beija,
Se a beijas nua e sobre o peito dela
Teu peito juvenil ama e lateja!
Se tua langue palidez revela
Que tua alma febril sonha e deseja
Desmaiar-lhe de amor, gemer com ela,
Ébrio de vida, a soluçar d'enleio,
Pálido sonhador morrer-lhe ao seio!

IV

Que importa o mundo além? teu mundo é esse
Onde na vida o coração te alegra!
Teu mundo é o serafim que às noites desce
E que lava no amor a mancha negra!
É a névoa de luz onde não lê-se
Escrita à porta vil a infame regra
Que assinala o bordel à mão poluta
E diz nas letras fundas — prostituta!

V

A essa pobre mulher na fronte bela
Anátema, escreveu a turba fria!
Banhe o remorso o travesseiro dela,
Corram-lhe a mil da pálpebra sombria
Prantos do coração, não há erguê-la
A eterna maldição. E quem diria
A solitária dor, da noite ao manto
Que lavra o seio à cortesã em pranto?

VI

Ah! Madalenas míseras! ardentes
Quantos olhos azuis se não inundam
Nos transes do prazer em prantos quentes
Quando os seios febris em ais abundam,
Que o amante nos óculos trementes
Crê sonhos que do amor no mar se afundam!
Que suspiros no beijo que delira
Que são lágrimas só! que são mentira!

VII

E quantas vezes na cheirosa seda
Da longa trança desatada, solta,
Onde o moço de gozos embebeda
A fronte à febre juvenil revolta;
Quando a vida, o frescor, a imagem leda
De esp'rança que morreu ao leito volta;
As lágrimas na dor ferventes correm...
Como em céu de verão estrelas morrem?

(...)

IX

Amar uma perdida! que loucura!
Mas tão bela! que seio de Madona!
Nunca amara tão nívea criatura
Como aquela mulher que ali ressona!
(...)

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Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série O Poema do Frade.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1

NOTA: "O Poema do Frade" é composto de 5 cantos; o segundo é composto de 28 oitava
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Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

X [Meu amado não é servo nem é rei

Meu amado não é servo nem é rei,
é transeunte do cotidiano, que se move onde estou eu.
Tem uma cabeça, tensa de sonho e pensamento,
que inventa o que haveria de ser
e sabe o que lembrar e o que esquecer.
Os cabelos encanecem aos ventos crespos,
são fios nervosos que perscrutam a dor dos tempos
e só se alisam na trégua entre meus dedos.
Ele me olha atentamente
decifrando a epiderme de secreta pele.
Seu olho é azul, castanho, verde ou negro?
Só sei que a cor que mora dentro deles
é a luz solar em que me aqueço.
O rosto grave, que em sorrisos se mascara,
eu o cubro de ternuras como as espumas que lhe tocam
a barba.
A boca tem sabor de menta e de cigarro:
é o gosto da palavra que engulo no seu hálito
quando entre nós o beijo cala o vão diálogo.
As mãos são grandes, ásperas e cálidas, mãos operárias
no manejo exato da máquina e do lápis,
talvez da arma em tempos mais precários,
da flor capazes nas horas amoráveis.
Sua voz é morna e calma,
em mim ela se grava como em clave de carne o som do
amor em brasa.
O tronco é arquitetura eficiente para erguer um homem
acima do pó e das sarjetas.
Nele se agitam os braços na maré presente
e correm os pés no encalço de melhores ventos
e é destro o sexo em exercício de ancestral silêncio.
No corpo inteiro, sangue, músculos e nervos.
O resto, poros, pele, pelos.
Ele não é esbelto como o cedro ou outra espécie de
madeira:
é de matéria carnal, com dobras, curvaturas, rugas,
franzimentos,
e sua altura se flexiona humanamente.
Ele tem sombra, pois o sol é dele.
Eis seu retrato, ó filhas da cidade: olhai como eu o vejo.


Poema integrante da série Solo Urbano para um Cântico dos Cânticos.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Canteiro de obras. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebarã)
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Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Seio de Virgem

Quand on te voit, il vient à maints
Une envie dedans les mains
De te tâter, de te tenir...
Clément Marot


O que eu sonho noite e dia,
O que me dá poesia
E me torna a vida bela,
O que num brando roçar
Faz meu peito se agitar,
E' o teu seio, donzela!

Oh! quem pintara, o cetim
Desses limões de marfim,
Os leves cerúleos veios,
Na brancura deslumbrante
E o tremido de teus seios!

Quando os vejo, de paixão
Sinto pruridos na mão
De os apalpar e conter...
Sorriste do meu desejo?
Loucura! bastava um beijo
Para neles se morrer!

Minhas ternuras, donzela,
Votei-as à forma bela
Daqueles frutos de neve...
Aí duas cândidas flores
Que o pressentir dos amores
Faz palpitarem de leve.

Mimosos seios, mimosos,
Que dizem voluptuosos:
"Amai-nos, poetas, amai!
"Que misteriosas venturas
"Dormem nessas rosas puras
E se acordarão num ai!"

Que lírio, que nívea rosa,
Ou camélia cetinosa
Tem uma brancura assim?
Que flor da terra ou do céu,
Que valha do seio teu
Esse morango ou rubim?

Quantos encantos sonhados
Sinto estremecer velados
Por teu cândido vestido!
Sem ver teu seio, donzela,
Suas delícias revela
O poeta embevecido!

Donzela, feliz do amante
Que teu seio palpitante
Seio d'esposa fizer!
Que dessa forma tão pura
Fizer com mais formosura
Seio de bela mulher!

Feliz de mim... porém não!...
Repouse teu coração
Da pureza no rosal!
Tenho eu no peito uma aroma
Que valha a rosa que assoma
No teu seio virginal?...


Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

No Mar

Les étoiles s'allument au ciel, et la brise du soir
erre doucement parmi les fleurs: rêvez, chantez et
soupirez.
GEORGE SAND.

Era de noite — dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!

Ah! que véu de palidez
Da langue face na tez!
Como teus seios revoltos
Te palpitavam sonhando!
Como eu cismava beijando
Teus negros cabelos soltos!
Sonhavas? — eu não dormia;

A minh'alma se embebia
Em tua alma pensativa!
E tremias, bela amante,
A meus beijos, semelhante
Às folhas da sensitiva!

E que noite! que luar!
E que ardentias no mar!
E que perfumes no vento!
Que vida que se bebia
Na noite que parecia
Suspirar de sentimento!

Minha rola, ó minha flor,
Ó madressilva de amor!
Como eras saudosa então!
Como pálida sorrias
E no meu peito dormias
Aos ais do meu coração!

E que noite! que luar!
Como a brisa a soluçar
Se desmaiava de amor!
Como toda evaporava
Perfumes que respirava
Nas laranjeiras em flor!

Suspiravas? que suspiro!
Ai que ainda me deliro
Sonhando a imagem tua
Ao fresco da viração,
Aos ais do meu coração,
Embalada na falua!

Como virgem que desmaia,
Dormia a onda na praia!
Tua alma de sonhos cheia
Era tão pura, dormente,
Como a vaga transparente
Sobre seu leito de areia!

Era de noite — dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!


Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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