Poemas neste tema
Desejo
Pedro Nava
Educação Sentimental
P/Alberto Deodato
Mariquita fechou o Escrich
e teve vontade dum espanhol
com seu punhal
para matá-la...
In: REVISTA DE ANTROPOFAGIA, São Paulo, ano 1, n.9, p.2, jan. 192
Mariquita fechou o Escrich
e teve vontade dum espanhol
com seu punhal
para matá-la...
In: REVISTA DE ANTROPOFAGIA, São Paulo, ano 1, n.9, p.2, jan. 192
1 640
Luís Delfino
Cio
Não ouças, não, o soluçar do cheiro
Dos lírios brancos, dos rosais florentes...
Que te não fale ao ouvido o jasmineiro...
No vale Pã e os Sátiros não sentes?...
Olha. É cada perfume um mensageiro,
Que te enlaça nas asas transparentes:
Cantam teu nome os troncos e as correntes,
Dançando aos sons de um colossal pandeiro!...
Com junquilhos gentis prende-te os pulsos
Eros, morde-te estranho calafrio,
Antes carícia, o flanco, e aos seus impulsos
Verás irada a natureza em cio,
E os deuses desgrenhados e convulsos
Beijando em coro as Náiades do rio!...
Publicado no livro Rosas negras (1938).
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.83. (Os Melhores poemas, 23
Dos lírios brancos, dos rosais florentes...
Que te não fale ao ouvido o jasmineiro...
No vale Pã e os Sátiros não sentes?...
Olha. É cada perfume um mensageiro,
Que te enlaça nas asas transparentes:
Cantam teu nome os troncos e as correntes,
Dançando aos sons de um colossal pandeiro!...
Com junquilhos gentis prende-te os pulsos
Eros, morde-te estranho calafrio,
Antes carícia, o flanco, e aos seus impulsos
Verás irada a natureza em cio,
E os deuses desgrenhados e convulsos
Beijando em coro as Náiades do rio!...
Publicado no livro Rosas negras (1938).
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.83. (Os Melhores poemas, 23
1 488
Eudoro Augusto
Suma Biológica de Cacá de Aquino
Deus tudo vê.
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
O Diabo também.
Mas prefere as cenas mais fortes.
Deus tudo sabe. Noite e dia.
O Diabo também. E tripudia.
Deus tudo escuta.
O Diabo não faz por menos:
um rock pesado aos berros
num quarto de puta.
Deus é a consciência do Universo.
O Diabo não. Inconsciência total.
Bebe pra caralho
cai de boca no brilho
e só pensa em sacanagem.
Deus vota sempre com a democracia cristã.
O Diabo é mais alienado. Não sai da praia.
Não sai do Baixo. E faz o gênero intelectual de esquerda
só pra comer aquela militante de bunda empinada
e peitinhos de adolescente. É um doente.
Deus faz análise há séculos
por causa do problema da Virgem Maria.
Já o Diabo não tem pai nem mãe
não tem culpa nem mecanismos repressivos
e além do mais não leva muita fé
em terapias neofreudianas argentinas.
O hálito de Deus é a brisa da esperança.
O bafo do Diabo se tu cheira tu dança.
Deus é uma chama no coração.
O Diabo é um fogo no rabo.
Enquanto o Bem vai sarrando o Mal
um raio laser acende
tua xota no meu pau.
Religião não se discute. Ponto final.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 174
Claudio Willer
Faz Tempo que Eu Queria Dizer Isto
ainda não conseguiram destruir o mar
não foram capazes de estrangulá-lo com fios elétricos e rodovias
nem de o retalhar com cercas
ou de lotear as manchas do seu dorso
o mar ainda existe
presente na consciência dos amantes
nas madrugadas de suor cúmplice estampado nos lençóis
para podermos ver o mar
para penetrar aos poucos nestes refúgios mornos
cavernas do primitivo sonho
útero de filamentos luminosos
é preciso nos desnudarmos totalmente
e sabermos nos reconhecer
pelo toque da pele
como algo que termina e recomeça
dois poemas entrelaçados
mordendo-se como a serpente mítica
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
não foram capazes de estrangulá-lo com fios elétricos e rodovias
nem de o retalhar com cercas
ou de lotear as manchas do seu dorso
o mar ainda existe
presente na consciência dos amantes
nas madrugadas de suor cúmplice estampado nos lençóis
para podermos ver o mar
para penetrar aos poucos nestes refúgios mornos
cavernas do primitivo sonho
útero de filamentos luminosos
é preciso nos desnudarmos totalmente
e sabermos nos reconhecer
pelo toque da pele
como algo que termina e recomeça
dois poemas entrelaçados
mordendo-se como a serpente mítica
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 243
Rubens Rodrigues Torres Filho
Figura
Esse sorriso justo, pontuado por vírgulas abstratas,
e no caminho, seguramente em cena, mira
o claro desejo: desmisturar-nos, por qual arte,
em meio a tanto. Mexer com esses relevos
subordinados ao fio da ausência. E o que se supõe
dispõe flores avulsas e laços de linguagem.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Figura. São Paulo: Ed. do artista, 1987
e no caminho, seguramente em cena, mira
o claro desejo: desmisturar-nos, por qual arte,
em meio a tanto. Mexer com esses relevos
subordinados ao fio da ausência. E o que se supõe
dispõe flores avulsas e laços de linguagem.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Figura. São Paulo: Ed. do artista, 1987
1 260
Walmir Ayala
Astromulhersubmarino
A sereia não se divorcia
do azul, nem seus seios
de búzio esgotam leites
diluídos em nácares.
A sereia lança louca-
mente o gesto como rede;
e se enovela em sargaços
pesados de bichos vivos
como línguas brancas: ostras.
Sua cauda crispa-se em desejo
de tanto à áspera pedra estar ligada,
como ao tronco robusto, ao férreo, ao musculoso
marítimo afogado.
A sereia não se deixa
desprender da triste onda, embora ilhada,
embalsamada,
suspensa,
como quadro de um impossível
tornado ao alcance da mão,
radiosa e salina.
Não se desveste da metade de peixe que a metade
sua informa;
nas tesouras extremas de cauda se estreleja,
astromulhersubmarino
azul de água,
azul de mar,
azul de nada.
Publicado no livro O Edifício e o Verbo (1961). Poema integrante da série Sirenusas.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.69-7
do azul, nem seus seios
de búzio esgotam leites
diluídos em nácares.
A sereia lança louca-
mente o gesto como rede;
e se enovela em sargaços
pesados de bichos vivos
como línguas brancas: ostras.
Sua cauda crispa-se em desejo
de tanto à áspera pedra estar ligada,
como ao tronco robusto, ao férreo, ao musculoso
marítimo afogado.
A sereia não se deixa
desprender da triste onda, embora ilhada,
embalsamada,
suspensa,
como quadro de um impossível
tornado ao alcance da mão,
radiosa e salina.
Não se desveste da metade de peixe que a metade
sua informa;
nas tesouras extremas de cauda se estreleja,
astromulhersubmarino
azul de água,
azul de mar,
azul de nada.
Publicado no livro O Edifício e o Verbo (1961). Poema integrante da série Sirenusas.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.69-7
1 233
Antônio Barreto
Para Conhecer Sua Sereia
Não há limites para o meu amor:
o que dela conheço está no fundo do mar,
fechado com as chaves do meu desejo.
Diziam os gregos antigos
que cada homem tem uma sereia no
fundo do mar. Para conhecer a sua,
coloque dentro de uma garrafa uma
folha de papel com seu nome escrito,
fechando-a em seguida com uma rolha.
Amarre a garrafa numa pedra pesada
e, quando o sol nascer, atire-a ao
mar dizendo as seguintes palavras:
— SEREIA, SEREIA MINHA!
A HORA É CHEGADA, EU JÁ
SEI.
QUERO TE CONHECER,
Ó RAINHA,
COM A PERMISSÃO DE TEU
REI!
Não é necessário entrar
num escafandro ou vestir-se de
homem-rã para esperar por ela no fundo
das águas. Os hipocampos cuidarão
de avisá-la: eles são os carteiros do
mar.
À tardinha, procure na praia um
caracol e deite-se na areia para ouvi-lo.
Quando acordar-se para dentro,
num sonho súbito, você a verá linda
como nunca tivera imaginado,
pronunciando seu nome docemente.
Mas não tente pegá-la. Dizem
que Netuno, o Rei dos Mares,
tem ciúmes horríveis dos homens que
delas tentam se aproximar. As sereias
existem apenas para serem ouvidas e
admiradas.
Logo você descobrirá, todavia,
que o que existe de mais belo em sua
sereia é que ela não tem recordações.
E, como os anjos-da-guarda, só nos
aparecem nos sonhos.
Sua sereia simplesmente sabe
que é sua, eternamente, e mais nada.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.36-39. (Premiados, 3
o que dela conheço está no fundo do mar,
fechado com as chaves do meu desejo.
Diziam os gregos antigos
que cada homem tem uma sereia no
fundo do mar. Para conhecer a sua,
coloque dentro de uma garrafa uma
folha de papel com seu nome escrito,
fechando-a em seguida com uma rolha.
Amarre a garrafa numa pedra pesada
e, quando o sol nascer, atire-a ao
mar dizendo as seguintes palavras:
— SEREIA, SEREIA MINHA!
A HORA É CHEGADA, EU JÁ
SEI.
QUERO TE CONHECER,
Ó RAINHA,
COM A PERMISSÃO DE TEU
REI!
Não é necessário entrar
num escafandro ou vestir-se de
homem-rã para esperar por ela no fundo
das águas. Os hipocampos cuidarão
de avisá-la: eles são os carteiros do
mar.
À tardinha, procure na praia um
caracol e deite-se na areia para ouvi-lo.
Quando acordar-se para dentro,
num sonho súbito, você a verá linda
como nunca tivera imaginado,
pronunciando seu nome docemente.
Mas não tente pegá-la. Dizem
que Netuno, o Rei dos Mares,
tem ciúmes horríveis dos homens que
delas tentam se aproximar. As sereias
existem apenas para serem ouvidas e
admiradas.
Logo você descobrirá, todavia,
que o que existe de mais belo em sua
sereia é que ela não tem recordações.
E, como os anjos-da-guarda, só nos
aparecem nos sonhos.
Sua sereia simplesmente sabe
que é sua, eternamente, e mais nada.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.36-39. (Premiados, 3
1 505
Dante Milano
Fuga do Centauro
Surpreendi-a numa gruta,
O corpo fosforescente
Como uma Santa! Porém,
Rindo, quase com desdém,
Do meu êxtase inocente,
Toda nua e transparente,
Sob o véu, numa impudente
Postura de prostituta.
Receoso, tentei fugir.
Ela pegou-me das crinas,
Em minhas costas montou
E meus flancos esporeou.
Quis domar-me com mãos finas.
Ah, que tu não me dominas!
Logo aflaram-me as narinas
E comecei a nitrir...
Fui beijá-la e dei dentadas.
Havia sangue em seu gosto.
Espanquei-a com carícias,
Massacrei-a de delícias.
Arrastei-lhe o corpo exposto,
Nua, o gesto decomposto,
E pus-lhe as patas no rosto.
— Ela dava gargalhadas.
Estatelada no chão
Saía dela um calor
De forno, que a consumia,
Um hálito de agonia
E de esquálido suor.
E vendo-a perder a cor,
Sentia nela o sabor
De toda carne: extinção.
Afinal me libertei
Do seu espantoso abraço
E larguei-a quase morta,
Esvaída, a boca torta,
As mãos hirtas, o olhar baço.
Afastei-me, firme o passo,
Respirando um novo espaço,
Vitorioso como um rei.
Ela ergueu-se e de mãos postas
Pediu-me, ao ver-me partir,
Que jamais a abandonasse.
Tinha lágrimas na face.
A princípio eu quis sorrir:
Voltar, depois de fugir?
E fugi, mas a nitrir,
Com ela nas minhas costas...
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Momentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.130-131. (Pedra mágica, 1
O corpo fosforescente
Como uma Santa! Porém,
Rindo, quase com desdém,
Do meu êxtase inocente,
Toda nua e transparente,
Sob o véu, numa impudente
Postura de prostituta.
Receoso, tentei fugir.
Ela pegou-me das crinas,
Em minhas costas montou
E meus flancos esporeou.
Quis domar-me com mãos finas.
Ah, que tu não me dominas!
Logo aflaram-me as narinas
E comecei a nitrir...
Fui beijá-la e dei dentadas.
Havia sangue em seu gosto.
Espanquei-a com carícias,
Massacrei-a de delícias.
Arrastei-lhe o corpo exposto,
Nua, o gesto decomposto,
E pus-lhe as patas no rosto.
— Ela dava gargalhadas.
Estatelada no chão
Saía dela um calor
De forno, que a consumia,
Um hálito de agonia
E de esquálido suor.
E vendo-a perder a cor,
Sentia nela o sabor
De toda carne: extinção.
Afinal me libertei
Do seu espantoso abraço
E larguei-a quase morta,
Esvaída, a boca torta,
As mãos hirtas, o olhar baço.
Afastei-me, firme o passo,
Respirando um novo espaço,
Vitorioso como um rei.
Ela ergueu-se e de mãos postas
Pediu-me, ao ver-me partir,
Que jamais a abandonasse.
Tinha lágrimas na face.
A princípio eu quis sorrir:
Voltar, depois de fugir?
E fugi, mas a nitrir,
Com ela nas minhas costas...
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Momentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.130-131. (Pedra mágica, 1
1 261
Alice Ruiz
boca da noite
boca da noite
na calada em silêncio
grandes lábios
se abrem em sim
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. p.16. (Cantadas literárias, 24)
na calada em silêncio
grandes lábios
se abrem em sim
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. p.16. (Cantadas literárias, 24)
1 772
Mafalda Veiga
Tatuagens
em cada gesto perdido
tu és igual a mim
em cada ferida que sara
escondida do mundo
eu sou igual a ti
fazes pintura de guerra
que eu não sei apagar
pintas o sol da cor da terra
e a lua da cor do mar
em cada grito da alma
eu sou igual a ti
de cada vez que um olhar
te alucina e te prende
tu és igual a mim
fazes pinturas de sonhos
pintas o sol na minha mão
e és mistura de vento e lama
entre os luares perdidos no chão
em cada noite sem rumo
tu és igual a mim
de cada vez que procuro
preciso um abrigo
eu sou igual a ti
faço pinturas de guerra
que eu não sei apagar
e pinto a lua da cor da terra
e o sol da cor do mar
em cada grito afundado
eu sou igual a ti
de cada vez que a tremura
desata o desejo
tu és igual a mim
faço pinturas de sonhos
e pinto a lua na tua mão
misturo o vento e a lama
piso os luares perdidos no chão
tu és igual a mim
em cada ferida que sara
escondida do mundo
eu sou igual a ti
fazes pintura de guerra
que eu não sei apagar
pintas o sol da cor da terra
e a lua da cor do mar
em cada grito da alma
eu sou igual a ti
de cada vez que um olhar
te alucina e te prende
tu és igual a mim
fazes pinturas de sonhos
pintas o sol na minha mão
e és mistura de vento e lama
entre os luares perdidos no chão
em cada noite sem rumo
tu és igual a mim
de cada vez que procuro
preciso um abrigo
eu sou igual a ti
faço pinturas de guerra
que eu não sei apagar
e pinto a lua da cor da terra
e o sol da cor do mar
em cada grito afundado
eu sou igual a ti
de cada vez que a tremura
desata o desejo
tu és igual a mim
faço pinturas de sonhos
e pinto a lua na tua mão
misturo o vento e a lama
piso os luares perdidos no chão
1 167
Gilka Machado
Verão
A Primavera veio
e se foi, mas deixou tremendo em cada seio
um rebento de amor. O Verão se acentua,
e, de manhã, bem cedo,
vêm dos silêncios amplos e sombrios
dos versudos moitais,
vêm do arvoredo,
murmúrios
macios
de cicios...
Há um mistério, um segredo
que sai dos íntimos refolhos
da alma dos animais,
das plantas, do minério,
– amoroso mistério
que as mulheres relatam pelos olhos.
Parece mais redonda
a curva da montanha, a curva da onda...
Por onde quer que a luz dos olhos entre
estranha tumescência encontra em cada ventre;
o claro e escampo céu, sobre as coisas aberto
da terra está mais perto
e está mais lindo,
como que pesado, como que caindo,
das entranhas contendo nos profundos
desvãos a gravidez de novos mundos.
Verão!
Que maravilha!
– a luz fervilha
em tudo:
nota-se do silêncio no veludo
uma palpitação
de existência no embrião;
partículas de Sol a água envolve, rolando,
partículas de Sol tremem, de quando em quando,
na fronderia, no ar;
partículas de Sol pululam pela estrada
que trilho, iluminada...
Creio que a luz esteja a desovar,
sinto-a vivendo, sinto-a vibrando
na minha pele, em cada membro, a cada
instante, e vago contaminada,
pelo gérmens vitais da procriação solar.
O dia lembra uma exaustão de amor...
Verão! Que acídia, que langor!...
Quem me dera também me desdobrar assim
como esse azul etéreo
que paira sobre mim
num lírico elastério!...
Por ti, Verão, todo meu corpo sente
ânsia de se expandir indefinidamente,
ânsia de se esticar, de se esticar
como as montanhas, como o mar,
em curvas lentas, no semiústo ambiente;
ânsia de distender
uma serpente
que carrego enroscada no meu ser.
Quero amor, quero ardência! A ti me exponho.
Verão, sou toda fecundidade!
– O calor me penetra, o Sol me invade
o senso,
e tudo em torno a mim se torna mais extenso,
tudo em que os olhos ponho:
o céu, o oceano, a mata...
E enquanto em gestação a Terra se dilata,
Dilata-se minha alma à gestação do Sonho.
Publicado no livro Mulher Nua (1922).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Rio de Janeiro: L. Christiano, 1992. p. 237-239
e se foi, mas deixou tremendo em cada seio
um rebento de amor. O Verão se acentua,
e, de manhã, bem cedo,
vêm dos silêncios amplos e sombrios
dos versudos moitais,
vêm do arvoredo,
murmúrios
macios
de cicios...
Há um mistério, um segredo
que sai dos íntimos refolhos
da alma dos animais,
das plantas, do minério,
– amoroso mistério
que as mulheres relatam pelos olhos.
Parece mais redonda
a curva da montanha, a curva da onda...
Por onde quer que a luz dos olhos entre
estranha tumescência encontra em cada ventre;
o claro e escampo céu, sobre as coisas aberto
da terra está mais perto
e está mais lindo,
como que pesado, como que caindo,
das entranhas contendo nos profundos
desvãos a gravidez de novos mundos.
Verão!
Que maravilha!
– a luz fervilha
em tudo:
nota-se do silêncio no veludo
uma palpitação
de existência no embrião;
partículas de Sol a água envolve, rolando,
partículas de Sol tremem, de quando em quando,
na fronderia, no ar;
partículas de Sol pululam pela estrada
que trilho, iluminada...
Creio que a luz esteja a desovar,
sinto-a vivendo, sinto-a vibrando
na minha pele, em cada membro, a cada
instante, e vago contaminada,
pelo gérmens vitais da procriação solar.
O dia lembra uma exaustão de amor...
Verão! Que acídia, que langor!...
Quem me dera também me desdobrar assim
como esse azul etéreo
que paira sobre mim
num lírico elastério!...
Por ti, Verão, todo meu corpo sente
ânsia de se expandir indefinidamente,
ânsia de se esticar, de se esticar
como as montanhas, como o mar,
em curvas lentas, no semiústo ambiente;
ânsia de distender
uma serpente
que carrego enroscada no meu ser.
Quero amor, quero ardência! A ti me exponho.
Verão, sou toda fecundidade!
– O calor me penetra, o Sol me invade
o senso,
e tudo em torno a mim se torna mais extenso,
tudo em que os olhos ponho:
o céu, o oceano, a mata...
E enquanto em gestação a Terra se dilata,
Dilata-se minha alma à gestação do Sonho.
Publicado no livro Mulher Nua (1922).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Rio de Janeiro: L. Christiano, 1992. p. 237-239
2 155
Alberto de Oliveira
Terceiro Canto
I
Embala-me, balanço da mangueira,
Embala-me, que enquanto vou contigo,
Contigo venho, o meu pesar esqueço.
Rompe a luz da manhã rosada e linda,
Tudo desperta. E essa por quem padeço,
Lânguida e preguiçosa,
Entre brancos lençóis repousa ainda.
Embala-me, pendente da mangueira,
Na tensa corda, meu balanço amigo!
Em claro a noite inteira
Passei, pensando nela. Ah! que formosa
Estava ontem à tarde no mirante,
Um livro ao colo, às tranças uma rosa,
E o olhar perdido na amplidão distante!
Pensava... Em quem pensava?
Se fosse em mim... Como formosa estava!
Oh! não pausado e manso,
Mas aos arrancos, estirado voa,
Leva-me, meu balanço!
II
Assim cismando, à toa,
Olhos voltados já para a querida
Visão de Laura, já para o céu claro,
Para o campo e arredores,
A manhã passo. Sobre a serra erguida
Em frente nasce e, coroando-a, brilha
O sol. Loureja o ipê com as áureas flores.
Late nos grotões fundos, indo ao faro
Da caça, ao buzinar dos caçadores,
Da fazenda a matilha.
E no ar que sopra dos capões escuros,
Sente-se, de mistura a essências finas
E ao cheiro das resinas,
Um sabor acre de cajás maduros.
III
Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
(Que dia claro! esplende o mato e cheira!)
Chamar-me para em sua companhia
Saboreá-los sob a cajazeira!
— Vamos sós? perguntei-lhe. E a feiticeira:
— Então! tens medo de ir comigo? — E ria.
Compõe as tranças, salta-me ligeira
Ao braço, o braço no meu braço enfia.
— Uma carreira! — Uma carreira! — Aposto!
A um sinal breve dado de partida,
Corremos. Zune o vento em nosso rosto.
Mas eu me deixo atrás ficar, correndo,
Pois mais vale que a aposta da corrida
Ver-lhe as saias a voar, como vou vendo.
Imagem - 00020004
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma em Flor, 1900.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense)
NOTA: Alma em Flor é composto de 3 cantos. O terceiro tem 17 parte
Embala-me, balanço da mangueira,
Embala-me, que enquanto vou contigo,
Contigo venho, o meu pesar esqueço.
Rompe a luz da manhã rosada e linda,
Tudo desperta. E essa por quem padeço,
Lânguida e preguiçosa,
Entre brancos lençóis repousa ainda.
Embala-me, pendente da mangueira,
Na tensa corda, meu balanço amigo!
Em claro a noite inteira
Passei, pensando nela. Ah! que formosa
Estava ontem à tarde no mirante,
Um livro ao colo, às tranças uma rosa,
E o olhar perdido na amplidão distante!
Pensava... Em quem pensava?
Se fosse em mim... Como formosa estava!
Oh! não pausado e manso,
Mas aos arrancos, estirado voa,
Leva-me, meu balanço!
II
Assim cismando, à toa,
Olhos voltados já para a querida
Visão de Laura, já para o céu claro,
Para o campo e arredores,
A manhã passo. Sobre a serra erguida
Em frente nasce e, coroando-a, brilha
O sol. Loureja o ipê com as áureas flores.
Late nos grotões fundos, indo ao faro
Da caça, ao buzinar dos caçadores,
Da fazenda a matilha.
E no ar que sopra dos capões escuros,
Sente-se, de mistura a essências finas
E ao cheiro das resinas,
Um sabor acre de cajás maduros.
III
Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
(Que dia claro! esplende o mato e cheira!)
Chamar-me para em sua companhia
Saboreá-los sob a cajazeira!
— Vamos sós? perguntei-lhe. E a feiticeira:
— Então! tens medo de ir comigo? — E ria.
Compõe as tranças, salta-me ligeira
Ao braço, o braço no meu braço enfia.
— Uma carreira! — Uma carreira! — Aposto!
A um sinal breve dado de partida,
Corremos. Zune o vento em nosso rosto.
Mas eu me deixo atrás ficar, correndo,
Pois mais vale que a aposta da corrida
Ver-lhe as saias a voar, como vou vendo.
Imagem - 00020004
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma em Flor, 1900.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense)
NOTA: Alma em Flor é composto de 3 cantos. O terceiro tem 17 parte
2 435
Álvares de Azevedo
Tenho um seio que delira
I
Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!
II
Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!
III
Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!
IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemeu,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos loiros do céu!
V
Vibra à noite do mistério,
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!
VI
Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!
II
Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!
III
Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!
IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemeu,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos loiros do céu!
V
Vibra à noite do mistério,
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!
VI
Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
3 025
Mafalda Veiga
Em toda a parte
A distância é um fogo
Onde vou chegar
Num abraço fechado
Para te levar
Por campos abertos
Por onde puder
Levar-te por dentro
Pra não te perder
Nem com mil tormentas
Que arrasem o mundo
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
Hei-de lembrar-me de ti
Por outros caminhos
Hei-de vaguear
Num abraço fechado
Para te levar
E há uma canção
Que um dia aprendi
Eu hei-de cantá-la
A pensar em ti
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
hei-de lembrar-me de ti
Onde vou chegar
Num abraço fechado
Para te levar
Por campos abertos
Por onde puder
Levar-te por dentro
Pra não te perder
Nem com mil tormentas
Que arrasem o mundo
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
Hei-de lembrar-me de ti
Por outros caminhos
Hei-de vaguear
Num abraço fechado
Para te levar
E há uma canção
Que um dia aprendi
Eu hei-de cantá-la
A pensar em ti
Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
hei-de lembrar-me de ti
1 129
Raimundo Correia
Julieta
A loura Julieta enamorada,
Triste, lânguida, pálida, abatida,
Aparece radiante na sacada
Dos raios brancos do luar ferida.
Engolfa o olhar na sombra condensada,
Perscruta, busca em torno... e na avenida
Surge Romeu; da valerosa espada
Esplende a clara lâmina polida...
Sente-se o arfar de sôfregos desejos,
Estoura no ar um turbilhão de beijos,
Mas o dia reponta!... Ó indiscreta
Da cotovia matinal garganta!
Ó perigo do amor, que o amor quebranta!
Ó noites de Verona! Ó Julieta!
Publicado no livro Sinfonias (1882). Último da série Perfis Românticos, constituída por oito sonetos.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.149
Triste, lânguida, pálida, abatida,
Aparece radiante na sacada
Dos raios brancos do luar ferida.
Engolfa o olhar na sombra condensada,
Perscruta, busca em torno... e na avenida
Surge Romeu; da valerosa espada
Esplende a clara lâmina polida...
Sente-se o arfar de sôfregos desejos,
Estoura no ar um turbilhão de beijos,
Mas o dia reponta!... Ó indiscreta
Da cotovia matinal garganta!
Ó perigo do amor, que o amor quebranta!
Ó noites de Verona! Ó Julieta!
Publicado no livro Sinfonias (1882). Último da série Perfis Românticos, constituída por oito sonetos.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.149
2 195
Mafalda Veiga
Cúmplices (para o clube de fãs)
A noite vem às vezes tão perdida
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
E tantas vezes o que resta do calor
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer
Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto
Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
E tantas vezes o que resta do calor
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer
Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto
Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
1 266
Edgar Allan Poe
The Divine Right Of Kings
The only king by right divine
Is Ellen King, and were she mine
I'd strive for liberty no more,
But hug the glorious chains I wore.
Her bosom is an ivory throne,
Where tyrant virtue reigns alone ;
No subject vice dare interfere,
To check the power that governs here.
O! would she deign to rule my fate,
I'd worship Kings and kingly state,
And hold this maxim all life long,
The King — my King — can do no wrong. P
1845
Is Ellen King, and were she mine
I'd strive for liberty no more,
But hug the glorious chains I wore.
Her bosom is an ivory throne,
Where tyrant virtue reigns alone ;
No subject vice dare interfere,
To check the power that governs here.
O! would she deign to rule my fate,
I'd worship Kings and kingly state,
And hold this maxim all life long,
The King — my King — can do no wrong. P
1845
1 199
Paulo Leminski
sim
sim
eu quis a prosa
essa deusa
só diz besteiras
fala das coisas
como se novas
não quis a prosa
apenas a idéia
uma idéia de prosa
em esperma de trova
um gozo
uma gosma
uma poesia porosa
eu quis a prosa
essa deusa
só diz besteiras
fala das coisas
como se novas
não quis a prosa
apenas a idéia
uma idéia de prosa
em esperma de trova
um gozo
uma gosma
uma poesia porosa
1 929
Eloise Petter
SOMBRA DE UM ABUTRE INSIDIOSO
Declaro a mim mesmo estes versos
Que a nuvem da paixão tornam dispersos
Encontrar meus desígnios absortos
Sombra de um abutre insidioso
Lua incandescente a derreter
Neste céu escuro deste ser
Carne flamejante, tenebrosa
Vaporosa se dissolve de prazer
Corpo insaciável desta vida
Lingua louca, contingente oceano
Nas palavras que te podem ser ditas
Não sucumbem à frieza ao teu encanto
Incorpórea sombra dança intermitente
Eu a sigo, apaixonada peregrina
Sobre o céu clemente e lento, eu me despeço
Uma noite no sepulcro do universo
Que a nuvem da paixão tornam dispersos
Encontrar meus desígnios absortos
Sombra de um abutre insidioso
Lua incandescente a derreter
Neste céu escuro deste ser
Carne flamejante, tenebrosa
Vaporosa se dissolve de prazer
Corpo insaciável desta vida
Lingua louca, contingente oceano
Nas palavras que te podem ser ditas
Não sucumbem à frieza ao teu encanto
Incorpórea sombra dança intermitente
Eu a sigo, apaixonada peregrina
Sobre o céu clemente e lento, eu me despeço
Uma noite no sepulcro do universo
929
Charles Baudelaire
AS JÓIAS
A amada estava nua e, por ser eu seu amante,
Das jóias só guardara as que o bulício inquieta,
Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante
Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.
Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,
Este universo mineral que à luz figura
Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro
As coisas em que o som ao fogo se mistura.
Ela estava deitada e se deixava amar,
E do alto do divã, imersa em paz, sorria
A meu amor profundo e doce como o mar,
Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia.
O olhar cravado em mim, como um tigre abatido,
Com ar vago e distante ela ensaiava poses,
E o lúbrico fervor à candidez unido
Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses.
E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados
Como de óleo, imitar de um cisne a fluida linha,
Passavam diante de meus olhos sossegados;
E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha,
Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,
Para agitar minha alma enfim posta em repouso,
Ou arrancá-la então a rocha de cristal
Onde, calma e sozinha, ela encontra pouso.
Como se a luz de um novo esboço, unidade eu via
De Antíope a cintura a um busto adolescente,
De tal modo que os quadris moldavam-lhe a bacia.
E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente!
- E estando a lamparina agora agonizante,
Como na alcova houvesse a luz só da lareira
Toda vez que emitia um suspiro faiscante,
Inundava de sangue essa pele trigueira.
Das jóias só guardara as que o bulício inquieta,
Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante
Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.
Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,
Este universo mineral que à luz figura
Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro
As coisas em que o som ao fogo se mistura.
Ela estava deitada e se deixava amar,
E do alto do divã, imersa em paz, sorria
A meu amor profundo e doce como o mar,
Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia.
O olhar cravado em mim, como um tigre abatido,
Com ar vago e distante ela ensaiava poses,
E o lúbrico fervor à candidez unido
Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses.
E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados
Como de óleo, imitar de um cisne a fluida linha,
Passavam diante de meus olhos sossegados;
E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha,
Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,
Para agitar minha alma enfim posta em repouso,
Ou arrancá-la então a rocha de cristal
Onde, calma e sozinha, ela encontra pouso.
Como se a luz de um novo esboço, unidade eu via
De Antíope a cintura a um busto adolescente,
De tal modo que os quadris moldavam-lhe a bacia.
E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente!
- E estando a lamparina agora agonizante,
Como na alcova houvesse a luz só da lareira
Toda vez que emitia um suspiro faiscante,
Inundava de sangue essa pele trigueira.
3 892
Álvares de Azevedo
Ai Jesus!
Ai Jesus! não vês que gemo,
Que desmaio de paixão
Pelos teus olhos azuis?
Que empalideço, que tremo,
Que me expira o coração?
Ai Jesus!
Que por um olhar, donzela,
Eu poderia morrer
Dos teus olhos pela luz?
Que morte! que morte bela!
Antes seria viver!
Ai Jesus!
Que por um beijo perdido
Eu de gozo morreria
Em teus níveos seios nus?
Que no oceano dum gemido
Minh'alma se afogaria?
Ai Jesus!
Lira dos Vinte Anos - Primeira Parte
Que desmaio de paixão
Pelos teus olhos azuis?
Que empalideço, que tremo,
Que me expira o coração?
Ai Jesus!
Que por um olhar, donzela,
Eu poderia morrer
Dos teus olhos pela luz?
Que morte! que morte bela!
Antes seria viver!
Ai Jesus!
Que por um beijo perdido
Eu de gozo morreria
Em teus níveos seios nus?
Que no oceano dum gemido
Minh'alma se afogaria?
Ai Jesus!
Lira dos Vinte Anos - Primeira Parte
4 280
Álvares de Azevedo
Amoroso palor
No amor basta uma noite para fazer de um homem um Deus.
PROPÉRCIO
Amoroso palor meu rosto inunda,
Mórbida languidez me banha os olhos,
Ardem sem sono as pálpebras doridas,
Convulsivo tremor meu corpo vibra...
Quanto sofro por ti! Nas longas noites
Adoeço de amor e de desejos...
E nos meus sonhos desmaiando passa
A imagem voluptuosa da ventura:
Eu sinto-a de paixão encher a brisa,
Embalsamar a noite e o céu sem nuvens;
E ela mesma suave descorando
Os alvacentos véus soltar do colo,
Cheirosas flores desparzir sorrindo
Da mágica cintura.
Sinto na fronte pétalas de flores,
Sinto-as nos lábios e de amor suspiro...
Mas flores e perfumes embriagam...
E no fogo da febre, e em meu delírio
Embebem na minh'alma enamorada
Delicioso veneno.
Estrela de mistério! em tua fronte
Os céus revela e mostra-me na terra,
Como um anjo que dorme, a tua imagem
E teus encantos, onde amor estende
Nessa morena tez a cor de rosa.
Meu amor, minha vida, eu sofro tanto!
O fogo de teus olhos me fascina,
O langor de teus olhos me enlanguece,
Cada suspiro que te abala o seio
Vem no meu peito enlouquecer minh'alma!
Ah! vem, pálida virgem, se tens pena
De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh'alma à tua!
Eu quero ao pé de ti sentir o mundo
Na tu'alma infantil; na tua fronte
Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros
Sentir as virações do paraíso...
E a teus pés, de joelhos, crer ainda
Que não mente o amor que um anjo inspira,
Que eu posso na tu'alma ser ditoso,
Beijar-te nos cabelos soluçando
E no teu seio ser feliz morrendo!
Dezembro, 1851.
PROPÉRCIO
Amoroso palor meu rosto inunda,
Mórbida languidez me banha os olhos,
Ardem sem sono as pálpebras doridas,
Convulsivo tremor meu corpo vibra...
Quanto sofro por ti! Nas longas noites
Adoeço de amor e de desejos...
E nos meus sonhos desmaiando passa
A imagem voluptuosa da ventura:
Eu sinto-a de paixão encher a brisa,
Embalsamar a noite e o céu sem nuvens;
E ela mesma suave descorando
Os alvacentos véus soltar do colo,
Cheirosas flores desparzir sorrindo
Da mágica cintura.
Sinto na fronte pétalas de flores,
Sinto-as nos lábios e de amor suspiro...
Mas flores e perfumes embriagam...
E no fogo da febre, e em meu delírio
Embebem na minh'alma enamorada
Delicioso veneno.
Estrela de mistério! em tua fronte
Os céus revela e mostra-me na terra,
Como um anjo que dorme, a tua imagem
E teus encantos, onde amor estende
Nessa morena tez a cor de rosa.
Meu amor, minha vida, eu sofro tanto!
O fogo de teus olhos me fascina,
O langor de teus olhos me enlanguece,
Cada suspiro que te abala o seio
Vem no meu peito enlouquecer minh'alma!
Ah! vem, pálida virgem, se tens pena
De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh'alma à tua!
Eu quero ao pé de ti sentir o mundo
Na tu'alma infantil; na tua fronte
Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros
Sentir as virações do paraíso...
E a teus pés, de joelhos, crer ainda
Que não mente o amor que um anjo inspira,
Que eu posso na tu'alma ser ditoso,
Beijar-te nos cabelos soluçando
E no teu seio ser feliz morrendo!
Dezembro, 1851.
2 760
Augusto dos Anjos
Ariana
Ela é o tipo perfeita da ariana,
Branca, nevada, púbere, mimosa,
A carne exuberante e capitosa
Trescala a essência que de si dinama.
As níveas pomas do candor da rosa,
Rendilhando-lhe o colo de sultana,
Emergem da camisa cetinosa
Entre as rendas sutis de filigrana.
Dorme talvez. Em flácido abandono
Lembra formosa no seu casto sono
A languidez dormente da indiana.
Enquanto o amante pálido, a seu lado
Medita, a fronte triste, o olhar velado
No Mistério da Carne soberana.
Branca, nevada, púbere, mimosa,
A carne exuberante e capitosa
Trescala a essência que de si dinama.
As níveas pomas do candor da rosa,
Rendilhando-lhe o colo de sultana,
Emergem da camisa cetinosa
Entre as rendas sutis de filigrana.
Dorme talvez. Em flácido abandono
Lembra formosa no seu casto sono
A languidez dormente da indiana.
Enquanto o amante pálido, a seu lado
Medita, a fronte triste, o olhar velado
No Mistério da Carne soberana.
2 260
Álvares de Azevedo
MINHA AMANTE
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
Coração de mulher, qual filomela,
É todo amor e canto ao pé da noite.
JOÃO DE LEMOS
Fulcite me floribus... quia amore langueo.
Cant. Canticorum
Ah! volta inda uma vez! foi só contigo
Que, à noite, de ventura eu desmaiava...
E só nos lábios teus eu me embebia
De volúpias divinas!
Volta, minha ventura! eu tenho sede
Desses beijos ardentes que os suspiros
Ofegando interrompem! quantas noites
Fui ditoso contigo!
E quantas vezes te embalei tremendo
Sobre os joelhos meus! Quanto amorosa
Unindo à minha tua face pálida
De amor e febre ardias!
Oh! volta inda uma vez! ergue-se a lua,
Formosa como dantes, é bem noite,
Na minha solidão brilha, de novo,
Estrela de minh'alma!
Desmaio-me de amor, descoro e tremo...
Morno suor me banha o peito langue...
Meu olhar se escurece e eu te procuro
Com os lábios sedentos!
Oh! quem pudera sempre em teus amores
Sobre teu seio perfumar seus dias,
Beijar a tua fronte e em teus cabelos
Respirar ebrioso!
És a coroa de meus anos breves,
És a corda de amor d'íntima lira,
O canto ignoto, que me enleva em sonhos
De saudosas ternuras!
E tu és como a lua: inda és mais bela,
Quando a sombra nos vales se derrama,
Astro misterioso à meia-noite
Te revela a minh'alma!
Ó! minha lira, ó viração noturna,
Flores, sombras do vale, à minha amante...
Dizei que nesta noite de desejos
E de ternuras morro!
Segunda Parte
Coração de mulher, qual filomela,
É todo amor e canto ao pé da noite.
JOÃO DE LEMOS
Fulcite me floribus... quia amore langueo.
Cant. Canticorum
Ah! volta inda uma vez! foi só contigo
Que, à noite, de ventura eu desmaiava...
E só nos lábios teus eu me embebia
De volúpias divinas!
Volta, minha ventura! eu tenho sede
Desses beijos ardentes que os suspiros
Ofegando interrompem! quantas noites
Fui ditoso contigo!
E quantas vezes te embalei tremendo
Sobre os joelhos meus! Quanto amorosa
Unindo à minha tua face pálida
De amor e febre ardias!
Oh! volta inda uma vez! ergue-se a lua,
Formosa como dantes, é bem noite,
Na minha solidão brilha, de novo,
Estrela de minh'alma!
Desmaio-me de amor, descoro e tremo...
Morno suor me banha o peito langue...
Meu olhar se escurece e eu te procuro
Com os lábios sedentos!
Oh! quem pudera sempre em teus amores
Sobre teu seio perfumar seus dias,
Beijar a tua fronte e em teus cabelos
Respirar ebrioso!
És a coroa de meus anos breves,
És a corda de amor d'íntima lira,
O canto ignoto, que me enleva em sonhos
De saudosas ternuras!
E tu és como a lua: inda és mais bela,
Quando a sombra nos vales se derrama,
Astro misterioso à meia-noite
Te revela a minh'alma!
Ó! minha lira, ó viração noturna,
Flores, sombras do vale, à minha amante...
Dizei que nesta noite de desejos
E de ternuras morro!
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