Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Onésimo Silveira
Quadro
Lá vem nho Cacai da ourela do mar
Acenando a sua desilusão
De todos os continentes!
Ele traz o peito afogado em maresias
E os olhos cansados da distancia das horas...
Lá vem nho Cacai
Com a boca amarga de sal
A boiar o seu corpo morto
Na calmaria da tarde!
Nho Cacai vem alimentar os seus filhos
Com histórias de sereias...
Com histórias das farturas das Ame'ricas...
Os seus filhos acreditam nas Américas
E sabem dormir com fome...
Acenando a sua desilusão
De todos os continentes!
Ele traz o peito afogado em maresias
E os olhos cansados da distancia das horas...
Lá vem nho Cacai
Com a boca amarga de sal
A boiar o seu corpo morto
Na calmaria da tarde!
Nho Cacai vem alimentar os seus filhos
Com histórias de sereias...
Com histórias das farturas das Ame'ricas...
Os seus filhos acreditam nas Américas
E sabem dormir com fome...
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3
Aureliano Lessa
Tristeza
Dizes que meu amor te encanta a vida
Teus alvos dias, teus noturnos sonhos:
Mas tens a face de prazer tingida,
Teus lábios são risonhos!
Não podem florescer o amor e o riso
Nos mesmos lábios da paixão o fogo
Mata as rosas do rosto, de improviso
Gera a tristeza logo.
Olha: minh'alma é pálida e tristonha.
Minha fronte é nublada e sempre aflita.
Entretanto, uma imagem, bem risonha
Dentro em minh'alma habita.
Mas esse ermo sorrir que tenho n'alma.
Não é como da aurora o riso ardente:
É o sorrir da estrela em noite calma.
Brilhando docemente.
Ah! se me queres a teus pés prostrado.
Troca o riso por pálida beleza:
Mulher! torna-te o anjo que hei sonhado.
Um anjo de tristeza!
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
Teus alvos dias, teus noturnos sonhos:
Mas tens a face de prazer tingida,
Teus lábios são risonhos!
Não podem florescer o amor e o riso
Nos mesmos lábios da paixão o fogo
Mata as rosas do rosto, de improviso
Gera a tristeza logo.
Olha: minh'alma é pálida e tristonha.
Minha fronte é nublada e sempre aflita.
Entretanto, uma imagem, bem risonha
Dentro em minh'alma habita.
Mas esse ermo sorrir que tenho n'alma.
Não é como da aurora o riso ardente:
É o sorrir da estrela em noite calma.
Brilhando docemente.
Ah! se me queres a teus pés prostrado.
Troca o riso por pálida beleza:
Mulher! torna-te o anjo que hei sonhado.
Um anjo de tristeza!
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 917
3
Ilka Brunhilde Laurito
Carta Enigmática
Amado, se encontrares sobre tua mesa de trabalho
um coração flechado com as iniciais da minha mágoa,
não me culpes, não: foi uma criança a quem emprestei um
canivete enferrujado.
E se o correio te entregar este envelope sem local e data
com uma clave de sol sobre uma ausência em pauta,
não creias que fui eu que silenciei sereias
que já não sabem atrair para longínquas ilhas.
A tua possibilidade musical é um desperdício.
Compõe ao menos um poema concretista
em que desgastes requintes de tipografia
contra o pudor de ser como eu, só lírico.
Eu te decifro.
Ou me devoras, meu querido,
como me tens devorado dia a dia
sem ter fome de mim.
Ora, direis, mas que mulher ridícula.
Ela é capaz de rodar um disco-voador na sua vitrola
e não consegue fixar uma flor nas suas raízes.
Tudo tão natural, tão simples.
O telefone, o som estereofônico, o ultra-som
(e as telecotecomunicações?)...
Ai, deflagro a minha dor no ardor da bateria
— amante-batucada sem amor-passista
é o meu apelido.
Mas rescindiram o meu contrato
(será que foste tu um dos jurados?).
(...)
1968
Publicado no livro Janela de apartamento (1968).
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.69. (Sélesis, 13
um coração flechado com as iniciais da minha mágoa,
não me culpes, não: foi uma criança a quem emprestei um
canivete enferrujado.
E se o correio te entregar este envelope sem local e data
com uma clave de sol sobre uma ausência em pauta,
não creias que fui eu que silenciei sereias
que já não sabem atrair para longínquas ilhas.
A tua possibilidade musical é um desperdício.
Compõe ao menos um poema concretista
em que desgastes requintes de tipografia
contra o pudor de ser como eu, só lírico.
Eu te decifro.
Ou me devoras, meu querido,
como me tens devorado dia a dia
sem ter fome de mim.
Ora, direis, mas que mulher ridícula.
Ela é capaz de rodar um disco-voador na sua vitrola
e não consegue fixar uma flor nas suas raízes.
Tudo tão natural, tão simples.
O telefone, o som estereofônico, o ultra-som
(e as telecotecomunicações?)...
Ai, deflagro a minha dor no ardor da bateria
— amante-batucada sem amor-passista
é o meu apelido.
Mas rescindiram o meu contrato
(será que foste tu um dos jurados?).
(...)
1968
Publicado no livro Janela de apartamento (1968).
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.69. (Sélesis, 13
2 439
3
Álvares de Azevedo
PENSAMENTOS DELA
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
Talvez, à noite, quando a hora finda
Em que eu vivo de tua formosura,
Vendo em teus olhos... nessa face linda
A sombra de meu anjo da ventura,
Tu sorrias de mim porque não ouso
Leve turbar teu virginal repouso,
A murmurar ternura.
Eu sei. Entre minh'alma e tua aurora
Murmura meu gelado coração.
Meu enredo morreu. Sou triste agora,
Estrela morta em noite de verão!
Prefiro amar-te bela no segredo!
Se foras minha tu verias cedo
Morrer tua ilusão!
Eu não sou o ideal, alma celeste,
Vida pura de lábios recendentes,
Que teu imaginar de encantos veste
E sonhas nos teus seios inocentes!...
Flor que vives de aromas e luar,
Oh! nunca possas ler do meu penar
As páginas ardentes!
Se em cânticos de amor a minha fronte
Engrinaldo por ti, amor cantando,
Com as rosas que amava Anacreonte,
É que alma dormida, palpitando...
No raio de teus olhos se ilumina,
Em ti respira inspiração divina
E ela sonha cantando!
Não a acordes contudo. A vida nela
Como a ave no mar suspira e cai...
Às vezes, teu alento de donzela
E de teus lábios o morrer de um ai,
Tua imagem de fada, num instante
Estremecem-na, embalam-na expirante
E lhe dizem: "sonhai!"
Mas quando o teu amante fosse esposo
E tu, sequiosa e lânguida de amor,
O embalasses ao seio voluptuoso
E o beijasses dos lábios no calor,
Quando tremesses mais, não te doera
Sentir que nesse peito que vivera
Murchou a vida em flor?
Segunda Parte
Talvez, à noite, quando a hora finda
Em que eu vivo de tua formosura,
Vendo em teus olhos... nessa face linda
A sombra de meu anjo da ventura,
Tu sorrias de mim porque não ouso
Leve turbar teu virginal repouso,
A murmurar ternura.
Eu sei. Entre minh'alma e tua aurora
Murmura meu gelado coração.
Meu enredo morreu. Sou triste agora,
Estrela morta em noite de verão!
Prefiro amar-te bela no segredo!
Se foras minha tu verias cedo
Morrer tua ilusão!
Eu não sou o ideal, alma celeste,
Vida pura de lábios recendentes,
Que teu imaginar de encantos veste
E sonhas nos teus seios inocentes!...
Flor que vives de aromas e luar,
Oh! nunca possas ler do meu penar
As páginas ardentes!
Se em cânticos de amor a minha fronte
Engrinaldo por ti, amor cantando,
Com as rosas que amava Anacreonte,
É que alma dormida, palpitando...
No raio de teus olhos se ilumina,
Em ti respira inspiração divina
E ela sonha cantando!
Não a acordes contudo. A vida nela
Como a ave no mar suspira e cai...
Às vezes, teu alento de donzela
E de teus lábios o morrer de um ai,
Tua imagem de fada, num instante
Estremecem-na, embalam-na expirante
E lhe dizem: "sonhai!"
Mas quando o teu amante fosse esposo
E tu, sequiosa e lânguida de amor,
O embalasses ao seio voluptuoso
E o beijasses dos lábios no calor,
Quando tremesses mais, não te doera
Sentir que nesse peito que vivera
Murchou a vida em flor?
1 991
3
Ernesto Cardenal
Epigramas
Te dou Claudia, estes versos, porque tu és a dona
os escrevi simples para que tu os entendas.
São para ti somente, mas se a ti não te interessam,
um dia se divulgarão, talvez por toda Hispanoamerica...
e se ao amor que os ditou, tu também o desprezas,
outras sonharão com este amor que não foi para elas.
E talvez verás, Claudia, que estes poemas,
(escritos para conquistar-te) despertam
em outros casais enamorados que os leiam
os beijos que em ti não despertou o poeta.
Ao perder-te eu a ti, tu e eu perdemos:
Eu, porque tu eras o que eu mais amava
e tu porque eu era o que te amava mais
mas de nós dois tu perdes mais que eu:
porque eu poderei amar a outras como te amava a ti,
mas a ti não te amarão como te amava eu.
Moças que algum dia leiam emocionadas estes versos
e sonheis com um poeta:
Sabei que eu os fiz para uma como vós
e que foi em vão.
os escrevi simples para que tu os entendas.
São para ti somente, mas se a ti não te interessam,
um dia se divulgarão, talvez por toda Hispanoamerica...
e se ao amor que os ditou, tu também o desprezas,
outras sonharão com este amor que não foi para elas.
E talvez verás, Claudia, que estes poemas,
(escritos para conquistar-te) despertam
em outros casais enamorados que os leiam
os beijos que em ti não despertou o poeta.
Ao perder-te eu a ti, tu e eu perdemos:
Eu, porque tu eras o que eu mais amava
e tu porque eu era o que te amava mais
mas de nós dois tu perdes mais que eu:
porque eu poderei amar a outras como te amava a ti,
mas a ti não te amarão como te amava eu.
Moças que algum dia leiam emocionadas estes versos
e sonheis com um poeta:
Sabei que eu os fiz para uma como vós
e que foi em vão.
2 755
3
Natália Correia
Sete luas
Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas
Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.
Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.
Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas
Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.
Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.
Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.
4 777
3
Silvaney Paes
Novo Amor
Troquei
de amor
E pareceu-me vulgar no começo
Mais não era.É que Chorava...
Por um amor que partiu o meu peito.
Troquei de amor
Mais terá sido vingança, despeito?
Não. Apenas me deram um ombro
Para recostar o meu peito
Troquei de amor
Mais tão rápido? Nem afogastes teu peito!
E a despeito do amor?
Aquele ombro era muito perto do peito.
Troquei de amor
Mais foi só para mata-lo no peito?
Não. Um amor que nasceu para um ombro
Que de tão perto arrebatou o meu peito.
de amor
E pareceu-me vulgar no começo
Mais não era.É que Chorava...
Por um amor que partiu o meu peito.
Troquei de amor
Mais terá sido vingança, despeito?
Não. Apenas me deram um ombro
Para recostar o meu peito
Troquei de amor
Mais tão rápido? Nem afogastes teu peito!
E a despeito do amor?
Aquele ombro era muito perto do peito.
Troquei de amor
Mais foi só para mata-lo no peito?
Não. Um amor que nasceu para um ombro
Que de tão perto arrebatou o meu peito.
1 243
3
Florbela Espanca
Balada
Amei-te muito, e eu creio que me quiseste
Também por um instante, nesse dia
Em que tão docemente me disseste
Que amavas ’ma mulher que o não sabia.
Amei-te muito, muito! Tão risonho
Aquele dia foi, aquela tarde!...
E morreu como morre todo o sonho
Deixando atrás de si só a saudade...
E na taça do amor, a ambrosia
Da quimera bebi naquele dia
A tragos bons, profundos, a cantar...
O meu sonho morreu... Que desgraçada!
.................................................................
E como o rei de Thule da balada
Deitei também a minha taça ao mar...
Também por um instante, nesse dia
Em que tão docemente me disseste
Que amavas ’ma mulher que o não sabia.
Amei-te muito, muito! Tão risonho
Aquele dia foi, aquela tarde!...
E morreu como morre todo o sonho
Deixando atrás de si só a saudade...
E na taça do amor, a ambrosia
Da quimera bebi naquele dia
A tragos bons, profundos, a cantar...
O meu sonho morreu... Que desgraçada!
.................................................................
E como o rei de Thule da balada
Deitei também a minha taça ao mar...
5 898
3
Machado de Assis
Horas Vivas
Noite: abrem-se as flores . . .
Que esplendores!
Cíntia sonha seus amores
Pelo céu.
Tênues as neblinas
Às campinas
Descem das colinas,
Como um véu.
Mãos em mãos travadas,
Animadas,
Vão aquelas fadas
Pelo ar;
Soltos os cabelos,
Em novelos,
Puros, louros, belos,
A voar.
— "Homem, nos teus dias
Que agonias,
Sonhos, utopias,
Ambições;
Vivas e fagueiras,
As primeiras,
Como as derradeiras
Ilusões!
— "Quantas, quantas vidas
Vão perdidas,
Pombas mal feridas
Pelo mal!
Anos após anos,
Tão insanos,
Vêm os desenganos
Afinal.
— "Dorme: se os pesares
Repousares,
Vês? — por estes ares
Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
E lascivas,
Somos — horas vivas
De dormir. —"
Que esplendores!
Cíntia sonha seus amores
Pelo céu.
Tênues as neblinas
Às campinas
Descem das colinas,
Como um véu.
Mãos em mãos travadas,
Animadas,
Vão aquelas fadas
Pelo ar;
Soltos os cabelos,
Em novelos,
Puros, louros, belos,
A voar.
— "Homem, nos teus dias
Que agonias,
Sonhos, utopias,
Ambições;
Vivas e fagueiras,
As primeiras,
Como as derradeiras
Ilusões!
— "Quantas, quantas vidas
Vão perdidas,
Pombas mal feridas
Pelo mal!
Anos após anos,
Tão insanos,
Vêm os desenganos
Afinal.
— "Dorme: se os pesares
Repousares,
Vês? — por estes ares
Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
E lascivas,
Somos — horas vivas
De dormir. —"
2 013
3
Ferreira Gullar
No corpo
De que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama.
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama.
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.
4 302
3
Castro Alves
Martírio
A linda morena que, louco, adorava,
Que em sonhos beijava, tremendo de amor,
Não viu meus amores, descreu do meu canto,
Sorriu do meu pranto, com riso traidor.
Cismava — era ela o meu bom pensamento;
O meu sentimento se louco sentia;
Meu anjo da guarda nas noites de insônia,
Meu doce favônio se a espr’ança nascia.
E sempre eu a via: no céu seus encantos,
Na brisa os seus cantos julgava escutar,
Na noite o negrume dos negros cabelos,
Seus olhos tão belos no belo luar.
Mas foi um delírio de louca miragem
Formosa paisagem do amor que sonhei...
A rosa que dei-lhe, queimada de beijos,
Serviu aos desejos de alguém? oh! não sei...
Mulher, sim, não rias do pobre, do triste!
Por que não cuspiste na pobre flor?
Mas fundo desprezo mostrar-me quiseste,
Ludíbrio fizeste de mim, deste amor...
Pois bem; eu não posso deixar de adorar-te...
Quem pode escapar-te, quem pode esquecer-te?
Desprezos não matam amores tão santos,
Só posso meus prantos p’ra sempre esconder-te.
Despreza-me, virgem, minh’alma te implora!
Verás nessa hora que chama de amor!
E cada suplício que sofra minh’alma
É mais uma palma da c’roa da dor.
Que em sonhos beijava, tremendo de amor,
Não viu meus amores, descreu do meu canto,
Sorriu do meu pranto, com riso traidor.
Cismava — era ela o meu bom pensamento;
O meu sentimento se louco sentia;
Meu anjo da guarda nas noites de insônia,
Meu doce favônio se a espr’ança nascia.
E sempre eu a via: no céu seus encantos,
Na brisa os seus cantos julgava escutar,
Na noite o negrume dos negros cabelos,
Seus olhos tão belos no belo luar.
Mas foi um delírio de louca miragem
Formosa paisagem do amor que sonhei...
A rosa que dei-lhe, queimada de beijos,
Serviu aos desejos de alguém? oh! não sei...
Mulher, sim, não rias do pobre, do triste!
Por que não cuspiste na pobre flor?
Mas fundo desprezo mostrar-me quiseste,
Ludíbrio fizeste de mim, deste amor...
Pois bem; eu não posso deixar de adorar-te...
Quem pode escapar-te, quem pode esquecer-te?
Desprezos não matam amores tão santos,
Só posso meus prantos p’ra sempre esconder-te.
Despreza-me, virgem, minh’alma te implora!
Verás nessa hora que chama de amor!
E cada suplício que sofra minh’alma
É mais uma palma da c’roa da dor.
3 177
3
Gilka Machado
Reflexão
Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.
Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detem-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.
Ela, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...
Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...
(in Sublimação, 1928)
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.
Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detem-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.
Ela, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...
Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...
(in Sublimação, 1928)
3 648
3
Luís de Camões
No mundo quis o Tempo que se achasse
No mundo quis um tempo que se achasse
o bem que por acerto ou sorte vinha;
e, por experimentar que dita tinha,
quis que a Fortuna em mim se experimentasse.
Mas por que meu destino me mostrasse
que nem ter esperanças me convinha,
nunca nesta tão longa vida minha
cousa me deixou ver que desejasse.
Mudando andei costume, terra e estado,
por ver se se mudava a sorte dura;
a vida pus nas mãos de um leve lenho.
Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado)
já sei que deste meu buscar ventura,
achado tenho já, que não a tenho.
o bem que por acerto ou sorte vinha;
e, por experimentar que dita tinha,
quis que a Fortuna em mim se experimentasse.
Mas por que meu destino me mostrasse
que nem ter esperanças me convinha,
nunca nesta tão longa vida minha
cousa me deixou ver que desejasse.
Mudando andei costume, terra e estado,
por ver se se mudava a sorte dura;
a vida pus nas mãos de um leve lenho.
Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado)
já sei que deste meu buscar ventura,
achado tenho já, que não a tenho.
5 289
3
Mário de Sá-Carneiro
Éstatua Falsa
Só de oiro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh'alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como ontem, para mim, hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida no ar...
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh'alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como ontem, para mim, hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida no ar...
5 875
3
Vinicius de Moraes
Anfiguri
Aquilo que eu ouso
Não é o que quero
Eu quero o repouso
Do que não espero.
Não quero o que tenho
Pelo que custou
Não sei de onde venho
Sei para onde vou.
Homem, sou a fera
Poeta, sou um louco
Amante, sou pai.
Vida, quem me dera...
Amor, dura pouco...
Poesia, ai!...
Rio, 1965
Não é o que quero
Eu quero o repouso
Do que não espero.
Não quero o que tenho
Pelo que custou
Não sei de onde venho
Sei para onde vou.
Homem, sou a fera
Poeta, sou um louco
Amante, sou pai.
Vida, quem me dera...
Amor, dura pouco...
Poesia, ai!...
Rio, 1965
1 645
2
Charles Bukowski
Melancolia
a história da melancolia
inclui a todos nós.
eu, eu escrevo em folhas sujas
enquanto encaro fixamente as paredes azuis
e o nada.
estou tão acostumado à melancolia
que
a cumprimento como a uma velha
amiga.
farei agora 15 minutos de sofrimento
pela ruiva perdida,
digo aos deuses.
faço isso e me sinto um tanto mal
bastante triste,
então me levanto
REVIGORADO
mesmo sabendo que nada está
resolvido.
isto é o que eu ganho por chutar
a religião no rabo.
deveria ter chutado o rabo
da ruiva
onde estão seu cérebro e seu pão com
manteiga
na...
mas não, eu estava me sentindo triste
com tudo:
a ruiva perdida foi apenas outro
golpe numa longa vida
de perdas...
escuto uns tambores no rádio agora
e dou uma risada.
há alguma coisa errada comigo
além da
melancolia.
inclui a todos nós.
eu, eu escrevo em folhas sujas
enquanto encaro fixamente as paredes azuis
e o nada.
estou tão acostumado à melancolia
que
a cumprimento como a uma velha
amiga.
farei agora 15 minutos de sofrimento
pela ruiva perdida,
digo aos deuses.
faço isso e me sinto um tanto mal
bastante triste,
então me levanto
REVIGORADO
mesmo sabendo que nada está
resolvido.
isto é o que eu ganho por chutar
a religião no rabo.
deveria ter chutado o rabo
da ruiva
onde estão seu cérebro e seu pão com
manteiga
na...
mas não, eu estava me sentindo triste
com tudo:
a ruiva perdida foi apenas outro
golpe numa longa vida
de perdas...
escuto uns tambores no rádio agora
e dou uma risada.
há alguma coisa errada comigo
além da
melancolia.
1 955
2
Carlos Drummond de Andrade
Boca
Boca: nunca te beijarei.
Boca de outro, que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos.
Boca: se meu desejo
é impotente para fechar-te,
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.
Boca amarga pois impossível,
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade.
Boca de outro, que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos.
Boca: se meu desejo
é impotente para fechar-te,
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.
Boca amarga pois impossível,
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade.
1 664
2
Carlos Drummond de Andrade
Epigrama Para Emílio Moura
Tristeza de ver a tarde cair
como cai uma folha.
(No Brasil não há outono
mas as folhas caem.)
Tristeza de comprar um beijo
como quem compra jornal.
Os que amam sem amor
não terão o reino dos céus.
Tristeza de guardar um segredo
que todos sabem
e não contar a ninguém
(que esta vida não presta)
como cai uma folha.
(No Brasil não há outono
mas as folhas caem.)
Tristeza de comprar um beijo
como quem compra jornal.
Os que amam sem amor
não terão o reino dos céus.
Tristeza de guardar um segredo
que todos sabem
e não contar a ninguém
(que esta vida não presta)
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Eu Chamei-Te Para Ser a Torre
Eu chamei-te para ser a torre
Que viste um dia branca ao pé do mar.
Chamei-te para me perder nos teus caminhos.
Chamei-te para sonhar o que sonhaste.
Chamei-te para não ser eu:
Pedi-te que apagasses
A torre que eu fui a minha vida os sonhos que sonhei.
Que viste um dia branca ao pé do mar.
Chamei-te para me perder nos teus caminhos.
Chamei-te para sonhar o que sonhaste.
Chamei-te para não ser eu:
Pedi-te que apagasses
A torre que eu fui a minha vida os sonhos que sonhei.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Soneto de Eurydice
Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
Porém nem nas marés nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
E devagar tornei-me transparente
Como morta nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.
Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.
Porém nem nas marés nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.
E devagar tornei-me transparente
Como morta nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.
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Nuno Júdice
Poema com indicação de lugar
Sob os muros arruinados
de onde espreitam os lagartos, ou num horizonte de urtigas
loucas!, no coração da terra ou na amarga
dissipação da névoa! Deixa-me entregue à solidão! E que as ávores
maléficas surjam de dentro da noite, pousando-me nos lábios
os seus frutos apodrecidos. Cedo ao lugar comum do amor
uma demolição de alma.
Julgava que trazias contigo um incêndio de cedros,
e que os teus dedos rasgavam o obscuro rosto
de salmos efémeros como a infância. Que o surdo ruído da terra
contra a madeira se dissipava sob a tua voz,
e que a tua presença se perpetuaria sob a vigilância viciosa
dos adolescentes litorais. Eles sabiam que uma condenação
pesava sobre a manhã luminosa da tua pele; o espírito órfão
vagueia sonâmbulo no pó levantado pelos teus passos.
E um florescer
de gritos secou há muito nas grandes colheitas
da vida.
Mostro-te o mosto mortal da cidade. O teu corpo perde-se
no pontão
metálico do cais e eu, de joelhos, volto o rosto
para o branco sono das águas.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 37 | Na regra do jogo, 1982
de onde espreitam os lagartos, ou num horizonte de urtigas
loucas!, no coração da terra ou na amarga
dissipação da névoa! Deixa-me entregue à solidão! E que as ávores
maléficas surjam de dentro da noite, pousando-me nos lábios
os seus frutos apodrecidos. Cedo ao lugar comum do amor
uma demolição de alma.
Julgava que trazias contigo um incêndio de cedros,
e que os teus dedos rasgavam o obscuro rosto
de salmos efémeros como a infância. Que o surdo ruído da terra
contra a madeira se dissipava sob a tua voz,
e que a tua presença se perpetuaria sob a vigilância viciosa
dos adolescentes litorais. Eles sabiam que uma condenação
pesava sobre a manhã luminosa da tua pele; o espírito órfão
vagueia sonâmbulo no pó levantado pelos teus passos.
E um florescer
de gritos secou há muito nas grandes colheitas
da vida.
Mostro-te o mosto mortal da cidade. O teu corpo perde-se
no pontão
metálico do cais e eu, de joelhos, volto o rosto
para o branco sono das águas.
Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 37 | Na regra do jogo, 1982
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Nuno Júdice
Poema de amor
O céu, as linhas de luz na água,
caminhos diferentes para o coração.
A queda de sons diversos na atenta coincidência
dos ouvidos. A relação de uma límpida tarde
com um movimento de ombros junto do teu corpo,
na luminosa sequência da tua voz.
Um andar divino de transparente espectro
sobre o fundo de árvores;
o acentuar da impressão dos teus olhos
na quente atmosfera estagnada.
Mas o súbito levantar do vento dissipou
a primitiva aparência. Um canto lívido
de mortas recordações apenas subsistiu,
o indefinido desgosto dos teus braços,
o remorso de gestos incompletos
que a memória suspende.
Nem me espanto já com a tua proximidade.
Bem vindos, decompostos lábios!
O ranger da cama sobrepõe-se
ao ruído das cigarras.
caminhos diferentes para o coração.
A queda de sons diversos na atenta coincidência
dos ouvidos. A relação de uma límpida tarde
com um movimento de ombros junto do teu corpo,
na luminosa sequência da tua voz.
Um andar divino de transparente espectro
sobre o fundo de árvores;
o acentuar da impressão dos teus olhos
na quente atmosfera estagnada.
Mas o súbito levantar do vento dissipou
a primitiva aparência. Um canto lívido
de mortas recordações apenas subsistiu,
o indefinido desgosto dos teus braços,
o remorso de gestos incompletos
que a memória suspende.
Nem me espanto já com a tua proximidade.
Bem vindos, decompostos lábios!
O ranger da cama sobrepõe-se
ao ruído das cigarras.
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Florbela Espanca
Verdades Cruéis
Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.
Hoje amam, amanhã ’squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!...
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.
Hoje amam, amanhã ’squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!...
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Florbela Espanca
Esquecimento
Esse de quem eu era e que era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapar’ceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tacteio sombras... Que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...
E desse que era meu já me não lembro...
Ah, a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapar’ceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tacteio sombras... Que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...
E desse que era meu já me não lembro...
Ah, a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...
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