Poemas neste tema
Amizade
António Ferreira
Carta
Fez força ao meu intento a doce e branda
Musa tua, Bernardes, que a meu peito
Dá novo espírito, novo fogo manda.
Como um juízo queres que sujeito
Viva a tantos juízos, se não guarda
De tanto riso o rosto contrafeito?
Quanto em mi mais das musas o fogo arde,
Tanto trabalho mais para apagá-lo:
Quanto o silêncio val sabe-se tarde.
A medo vivo, a medo escrevo e falo;
Hei medo do que falo só comigo;
Mais inda a medo cuido, a medo calo.
Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.
Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.
Vida em tanta cautela, tanto aviso,
Quando me deixarás? quando verei
Um verdadeiro rosto, um simples riso?
Quando a mi me creram, todos crerei
Sem dúvida, sem cores, sem enganos,
E eu, que de mi mesmo seja reis
Ali tantos dias tristes, tantos anos
Levados pelos ares em desejos
De falsos bens, e nossos tristes danos!
A quem os deixa e foge, quão sobejos
Lhe parecem mais bens que os que só bastam,
Desviar da virtude os cegos pejos.
Quantos as vidas, quantos almas gastam
Em buscar seu perigo, e sua morte,
E trás ela seus jugos cruéis arrastam
Aqueles vivem só, a que coube em sorte
Ao som da flauta, que dos ombros pende,
O mundo desprezar com espírito forte.
Toda minhalma em desejar se estende
A doce vida, que tão doce cantas,
Que quase a força quebra, que me prende.
Mas ajunta a estas forças outras tantas,
Todas quebraria eu, se asas tivesse
Com que chegasse onde me tu levantas.
Se eu pudesse, Bernardes, se eu pudesse
Ser senhor só de mi, eu voaria
Onde do vulgo mais longe estivesse.
Ali quão livremente me riria
De quanto agora choro! ali meu canto
Livre por ares livres soltaria.
Enquanto me vês preso, amigo, enquanto
Sem espírito, sem forças, não me chames
Com teus versos, que a ti só honram tanto.
Por mais que me desejes, mais que me ames,
Não empregues em mi tão cegamente
Teu canto com que é bem que heróis afames.
Mas tratarei contigo amigamente
Do conselho que pedes, juízo e lima
Tem em si todo humilde e diligente.
Quem tanto a si mesmo ama, tanto amima,
Que a si se favorece, e se perdoa,
Que espírito mostrará em prosa ou rima?
Tais são alguns a que triste a hera coroa
Roubada do vão povo ao claro espírito
Que esconder-se trabalha, e então mais soa.
Aquele dá de si público grito:
Este cala e se esconde: o tempo enfim
Uma apaga; imortal faz doutro o escrito.
A primeira lei minha é, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim não creia,
Nem os que levemente se me rim.
Conheça-me a mi mesmo: siga a veia
Natural, não forçada: o juízo quero
De quem com juízo, e sem paixão me leia.
Na boa imitação e uso, que o fero
Engenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.
Muito, ó poeta! o engenho pode dar-te;
Mas muito mais que o engenho, o tempo e o estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te.
É necessário ser um tempo mudo:
Ouvir e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor, cometer tudo?
Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ó alto monte
Ao brando Apolo, às nove irmãs aceita.
Do bom escrever, saber primeiro é fonte:
Enriquece a memória de doutrina
De que um cante, outro ensine, outro se conte.
Isto me disse sempre uma divina
Voz à orelha; isto entendo e creio;
Isto ora me castiga, ora me ensina.
Cada um para seu fim, busca um meio:
Quem não sabe do ofício, não o trata;
Dos que sem saber escrevem o mundo é cheio.
Se ornares de fino ouro e branca prata
Quanto mais e melhor já resplandece,
Tanto mais val o engenho, sua arte se ata.
Não prende logo a planta, não florece
Sem ser da destra mão limpa e regada,
Co tempo e arte flor fruto parece.
Questão já foi de muitos disputada
Se obra em verso arte mais, se a natureza?
Uma sem outra val ou pouco ou nada.
Mas eu tomaria antes a dureza
Daquele que o trabalho e arte abrandou,
Que destoutro a corrente e vã presteza.
Vence o trabalho tudo; o que cansou
Seu espírito e seus olhos, alguma hora
Mostrará parte alguma do que achou.
A palavra que sai uma vez fora,
Mal se sabe tornar: é mais seguro
Não tê-la, que escusar a culpa agora.
Vejo teu verso brando, estilo puro,
Engenho, arte, doutrina: só queria
Tempo e lima de inveja forte muro.
Ensina muito, e muda um ano e um dia:
Como em pintura os erros vai mostrando
Depois o tempo, que o olho antes não via.
Corta o sobejo, vai acrescentando
O que falta, o baixo ergue, o alto modera,
Tudo a uma igual regra conformando.
Sirva própria palavra ao bom intento;
Haja juízo e regra e diferença
Da prática comum ó pensamento.
Dana ó estilo às vezes a sentença;
Tão igual venha tudo, e tão conforme,
Que em dúvida este ver qual deles vença.
Mas deligente assim a lima reforme
Teu verso, que não entre pelo são,
Tornando-o, em vez de orná-lo, então disforme.
O vício que se dá ó pintor, que a mão
Não sabe erguer da tábua, fuge: a graça
Tiram, quando alguns cuidam que a mais dão.
Roendo o triste verso, como traça
Sem sangue o deixam, sem espírito e vida:
Outro o parto sem forma traz à praça.
Há nas coisas um fim, há tal medida,
Que quanto passa, ou falta dela, é vício:
É necessária a emenda bem regida.
Necessário é, confesso, o artifício,
Não afeitado: empece a tenra planta
O muito mimo, o muito benefício.
Às vezes o que vem primeiro, tanta
Natural graça traz, que uma das nove
Deusas parece que o inspira e canta.
Qual é a língua cruel, que inda ouse e prove
Em vão ali seus fios? deixe inteiro
O bem-nascido verso, o mau renove?
Não mude, ou tire, ou ponha, sem primeiro
Vir os ouvidos do prudente esperto
Amigo, não invejoso ou lisonjeiro.
Engana-se o amor-próprio, falso e incerto
Também se engana o medo de aprazer-se;
Em ambos erro há quase igual e certo.
Para isto é bom remédio às vezes ler-se
A dois ou três amigos; o bom pejo
Honesto ajuda então melhor a ver-se.
Ali como juiz então me vejo:
Sinto quando igual vou, quando descaio,
Quando doutra maneira me desejo.
Quando eu meus versos lia ao meu Sampaio,
"Muda (dizia) e tira". Ia, e tornava:
"Inda (diz) na sentença bem não caio".
O que mais suavemente me soava,
O que me enchia o espírito, por mau tinha;
O que me desprazia me louvava.
Então conheci eu a dita minha
Em tal amigo, tão desenganado
juízo e certo, em que eu confiado vinha.
Quem dos olhos tantos lido, quem julgado
De tanto inimigo às vezes há de ser,
Convém tempo esperar, e ir bem armado.
Isto me faz, Bernardes meu, temer
No teu, como no meu: não val escusa;
Dói muito ver meu erro, e arrepender.
Quem louva o bom? quem bom e mau não escusa?
Mas tu não tens razão de temer muito,
Musa tua, Bernardes, que a meu peito
Dá novo espírito, novo fogo manda.
Como um juízo queres que sujeito
Viva a tantos juízos, se não guarda
De tanto riso o rosto contrafeito?
Quanto em mi mais das musas o fogo arde,
Tanto trabalho mais para apagá-lo:
Quanto o silêncio val sabe-se tarde.
A medo vivo, a medo escrevo e falo;
Hei medo do que falo só comigo;
Mais inda a medo cuido, a medo calo.
Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.
Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.
Vida em tanta cautela, tanto aviso,
Quando me deixarás? quando verei
Um verdadeiro rosto, um simples riso?
Quando a mi me creram, todos crerei
Sem dúvida, sem cores, sem enganos,
E eu, que de mi mesmo seja reis
Ali tantos dias tristes, tantos anos
Levados pelos ares em desejos
De falsos bens, e nossos tristes danos!
A quem os deixa e foge, quão sobejos
Lhe parecem mais bens que os que só bastam,
Desviar da virtude os cegos pejos.
Quantos as vidas, quantos almas gastam
Em buscar seu perigo, e sua morte,
E trás ela seus jugos cruéis arrastam
Aqueles vivem só, a que coube em sorte
Ao som da flauta, que dos ombros pende,
O mundo desprezar com espírito forte.
Toda minhalma em desejar se estende
A doce vida, que tão doce cantas,
Que quase a força quebra, que me prende.
Mas ajunta a estas forças outras tantas,
Todas quebraria eu, se asas tivesse
Com que chegasse onde me tu levantas.
Se eu pudesse, Bernardes, se eu pudesse
Ser senhor só de mi, eu voaria
Onde do vulgo mais longe estivesse.
Ali quão livremente me riria
De quanto agora choro! ali meu canto
Livre por ares livres soltaria.
Enquanto me vês preso, amigo, enquanto
Sem espírito, sem forças, não me chames
Com teus versos, que a ti só honram tanto.
Por mais que me desejes, mais que me ames,
Não empregues em mi tão cegamente
Teu canto com que é bem que heróis afames.
Mas tratarei contigo amigamente
Do conselho que pedes, juízo e lima
Tem em si todo humilde e diligente.
Quem tanto a si mesmo ama, tanto amima,
Que a si se favorece, e se perdoa,
Que espírito mostrará em prosa ou rima?
Tais são alguns a que triste a hera coroa
Roubada do vão povo ao claro espírito
Que esconder-se trabalha, e então mais soa.
Aquele dá de si público grito:
Este cala e se esconde: o tempo enfim
Uma apaga; imortal faz doutro o escrito.
A primeira lei minha é, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim não creia,
Nem os que levemente se me rim.
Conheça-me a mi mesmo: siga a veia
Natural, não forçada: o juízo quero
De quem com juízo, e sem paixão me leia.
Na boa imitação e uso, que o fero
Engenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.
Muito, ó poeta! o engenho pode dar-te;
Mas muito mais que o engenho, o tempo e o estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te.
É necessário ser um tempo mudo:
Ouvir e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor, cometer tudo?
Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ó alto monte
Ao brando Apolo, às nove irmãs aceita.
Do bom escrever, saber primeiro é fonte:
Enriquece a memória de doutrina
De que um cante, outro ensine, outro se conte.
Isto me disse sempre uma divina
Voz à orelha; isto entendo e creio;
Isto ora me castiga, ora me ensina.
Cada um para seu fim, busca um meio:
Quem não sabe do ofício, não o trata;
Dos que sem saber escrevem o mundo é cheio.
Se ornares de fino ouro e branca prata
Quanto mais e melhor já resplandece,
Tanto mais val o engenho, sua arte se ata.
Não prende logo a planta, não florece
Sem ser da destra mão limpa e regada,
Co tempo e arte flor fruto parece.
Questão já foi de muitos disputada
Se obra em verso arte mais, se a natureza?
Uma sem outra val ou pouco ou nada.
Mas eu tomaria antes a dureza
Daquele que o trabalho e arte abrandou,
Que destoutro a corrente e vã presteza.
Vence o trabalho tudo; o que cansou
Seu espírito e seus olhos, alguma hora
Mostrará parte alguma do que achou.
A palavra que sai uma vez fora,
Mal se sabe tornar: é mais seguro
Não tê-la, que escusar a culpa agora.
Vejo teu verso brando, estilo puro,
Engenho, arte, doutrina: só queria
Tempo e lima de inveja forte muro.
Ensina muito, e muda um ano e um dia:
Como em pintura os erros vai mostrando
Depois o tempo, que o olho antes não via.
Corta o sobejo, vai acrescentando
O que falta, o baixo ergue, o alto modera,
Tudo a uma igual regra conformando.
Sirva própria palavra ao bom intento;
Haja juízo e regra e diferença
Da prática comum ó pensamento.
Dana ó estilo às vezes a sentença;
Tão igual venha tudo, e tão conforme,
Que em dúvida este ver qual deles vença.
Mas deligente assim a lima reforme
Teu verso, que não entre pelo são,
Tornando-o, em vez de orná-lo, então disforme.
O vício que se dá ó pintor, que a mão
Não sabe erguer da tábua, fuge: a graça
Tiram, quando alguns cuidam que a mais dão.
Roendo o triste verso, como traça
Sem sangue o deixam, sem espírito e vida:
Outro o parto sem forma traz à praça.
Há nas coisas um fim, há tal medida,
Que quanto passa, ou falta dela, é vício:
É necessária a emenda bem regida.
Necessário é, confesso, o artifício,
Não afeitado: empece a tenra planta
O muito mimo, o muito benefício.
Às vezes o que vem primeiro, tanta
Natural graça traz, que uma das nove
Deusas parece que o inspira e canta.
Qual é a língua cruel, que inda ouse e prove
Em vão ali seus fios? deixe inteiro
O bem-nascido verso, o mau renove?
Não mude, ou tire, ou ponha, sem primeiro
Vir os ouvidos do prudente esperto
Amigo, não invejoso ou lisonjeiro.
Engana-se o amor-próprio, falso e incerto
Também se engana o medo de aprazer-se;
Em ambos erro há quase igual e certo.
Para isto é bom remédio às vezes ler-se
A dois ou três amigos; o bom pejo
Honesto ajuda então melhor a ver-se.
Ali como juiz então me vejo:
Sinto quando igual vou, quando descaio,
Quando doutra maneira me desejo.
Quando eu meus versos lia ao meu Sampaio,
"Muda (dizia) e tira". Ia, e tornava:
"Inda (diz) na sentença bem não caio".
O que mais suavemente me soava,
O que me enchia o espírito, por mau tinha;
O que me desprazia me louvava.
Então conheci eu a dita minha
Em tal amigo, tão desenganado
juízo e certo, em que eu confiado vinha.
Quem dos olhos tantos lido, quem julgado
De tanto inimigo às vezes há de ser,
Convém tempo esperar, e ir bem armado.
Isto me faz, Bernardes meu, temer
No teu, como no meu: não val escusa;
Dói muito ver meu erro, e arrepender.
Quem louva o bom? quem bom e mau não escusa?
Mas tu não tens razão de temer muito,
1 904
Emílio Moura
Marinha
Grito teu nome aos ventos.
Olha: há uma revoada marítima.
O horizonte se afasta, há um ritmo largo
de ondas que se espreguiçam.
Velas esguias,
para onde voam?
Sulcos de prata,
para onde levam?
Amiga, amiga! Ah, dize-me depressa:
Quem grita aos ventos o teu nome?
O mar, ou eu,
o grande mar que o está cantando?
Olha: há uma revoada marítima.
O horizonte se afasta, há um ritmo largo
de ondas que se espreguiçam.
Velas esguias,
para onde voam?
Sulcos de prata,
para onde levam?
Amiga, amiga! Ah, dize-me depressa:
Quem grita aos ventos o teu nome?
O mar, ou eu,
o grande mar que o está cantando?
1 000
Elisa Lucinda
Penetração do Poema das Sete Faces
A Carlos Drumond de Andrade
Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.
Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.
1 861
Eliane Pantoja Vaidya
Conta Akutagawa
Conta Akutagawa
que Bashô
o notável mestre
do hai-kai
estava morrendo.
Em seu quarto
reunidos
os mais queridos discípulos.
O silêncio estava presente
nem lua havia
e se distinguiam soluços e suspiros.
O maior poeta daquela Terra
agora morria
cercado de seus amigos.
Ah Quimera, ilusão graciosa
os que choravam o faziam
cada um por si
nenhum por ele.
Bashô olhou em torno
o coração árido
daqueles que o cercavam
— Terra morta —
Só os rostos eram quentes
e as lágrimas naturais.
que Bashô
o notável mestre
do hai-kai
estava morrendo.
Em seu quarto
reunidos
os mais queridos discípulos.
O silêncio estava presente
nem lua havia
e se distinguiam soluços e suspiros.
O maior poeta daquela Terra
agora morria
cercado de seus amigos.
Ah Quimera, ilusão graciosa
os que choravam o faziam
cada um por si
nenhum por ele.
Bashô olhou em torno
o coração árido
daqueles que o cercavam
— Terra morta —
Só os rostos eram quentes
e as lágrimas naturais.
822
Daniel Gabarra
Daniel Oliveira e Gabarra
Há um amigo
Há um Amigo Te conheço, não sei quanto Vejo parte
de ti, tento encaixá-las Não sei se te conheço em
parte ou apenas, o que tu queres que eu conheça. Te compreendo,
acho que te entendo Vejo o que me mostras e te considero por isto Uma amizade
Homeopática e creio que inteira. Bom tê-lo como Amigo.
Há um Amigo Te conheço, não sei quanto Vejo parte
de ti, tento encaixá-las Não sei se te conheço em
parte ou apenas, o que tu queres que eu conheça. Te compreendo,
acho que te entendo Vejo o que me mostras e te considero por isto Uma amizade
Homeopática e creio que inteira. Bom tê-lo como Amigo.
519
Diamond
Mosaico
Cada uma em seu lugar
Como cores, mil palavras
O ladrilheiro dos poemas
E seu trabalho para acomodar
Em forma de verso e prosa
Há um verbo para sonhar
A mensagem corajosa
Dizendo que vou amar
Você por toda minha vida
Enquanto a vida durar
Para amigos muito especiais.
Para o dia dezenove e
Para toda a vida
Como cores, mil palavras
O ladrilheiro dos poemas
E seu trabalho para acomodar
Em forma de verso e prosa
Há um verbo para sonhar
A mensagem corajosa
Dizendo que vou amar
Você por toda minha vida
Enquanto a vida durar
Para amigos muito especiais.
Para o dia dezenove e
Para toda a vida
1 140
Cleonice Rainho
Minha Rainha
Minha mestra é igual mamãe:
amiga, me dá a mão,
abre meu caminho
e põe sentimentos bons
no meu coração.
Minha mestra é inteligente,
tem o dom da bondade
e sabe orientar, ensinar,
fazer a gente
descobrir a verdade
de muitas coisas.
Transmite idéias novas,
que pergunta nas provas,
e... imaginem! também
sabe, como ninguém,
segurar meu pensamento
no exato momento
em que ele quer vadiar...
Minha mestra é minha tia
de mentirinha,
mas, na escola, em casa,
em qualquer lugar,
ela é igual mamãe:
— Minha Rainha!
Por isso, hoje, seu dia,
— Mestra minha, tão querida —
ponho-lhe uma coroa de flores,
para enaltecer sua vida
e aumentar minha. alegria.
amiga, me dá a mão,
abre meu caminho
e põe sentimentos bons
no meu coração.
Minha mestra é inteligente,
tem o dom da bondade
e sabe orientar, ensinar,
fazer a gente
descobrir a verdade
de muitas coisas.
Transmite idéias novas,
que pergunta nas provas,
e... imaginem! também
sabe, como ninguém,
segurar meu pensamento
no exato momento
em que ele quer vadiar...
Minha mestra é minha tia
de mentirinha,
mas, na escola, em casa,
em qualquer lugar,
ela é igual mamãe:
— Minha Rainha!
Por isso, hoje, seu dia,
— Mestra minha, tão querida —
ponho-lhe uma coroa de flores,
para enaltecer sua vida
e aumentar minha. alegria.
1 178
Cleonice Rainho
Manequinho
Mecânico, automático,
parece um menino verdadeiro
este boneco engraçadinho
que batizei de Manequinho.
Anda, olha, trabalha,
cumpre ordens
como escravo,
fala, gargalha
e dá até berro.
Só não aprendeu a sorrir
com seus lábios e dentes
de ferro.
Dei um beliscão nele
não pegou,
dei um biscoito
nem ligou.
E é gordo e robusto, como é!
pois só come e consome
energia elétrica, não é ?!
Fico horas observando este robô
que está sempre comigo:
— Quero ver se ele sabe ser amigo
parece um menino verdadeiro
este boneco engraçadinho
que batizei de Manequinho.
Anda, olha, trabalha,
cumpre ordens
como escravo,
fala, gargalha
e dá até berro.
Só não aprendeu a sorrir
com seus lábios e dentes
de ferro.
Dei um beliscão nele
não pegou,
dei um biscoito
nem ligou.
E é gordo e robusto, como é!
pois só come e consome
energia elétrica, não é ?!
Fico horas observando este robô
que está sempre comigo:
— Quero ver se ele sabe ser amigo
1 174
José Castello
Manoel de Barros busca o sentido da vida
Poeta diz ter solidão, mas acha que é opulência da alma e a traz, em sua obra, como amargor e sol
Manoel de Barros ficou perto de cinco meses com um longo questionário que lhe enviei pouco antes do carnaval deste ano. "Vou responder devagar e do meu jeito", ele me advertiu na época. Aceitei suas condições. Não imaginei, porém, que necessitasse de tanto tempo. Barros seguiu, em parte, as instruções de seus novos editores, da Record, que preferiam ver uma grande entrevista publicada no Estado apenas na época do lançamento do Livro sobre Nada. Mas não foi só essa preferência que o fez deixar o questionário de lado por um período tão longo. O poeta é um homem de hábitos lentos, que gosta de meditar muito antes de agir e não está acostumado a trair seu temperamento interiorano. Finalmente, no dia 12, ele despachou de Campo Grande, pelo correio, suas respostas a algumas perguntas que formulei. Assim começa um breve bilhete anexo: "Aí está o que pude; peço desculpas pela demora." Manoel de Barros respondeu por escrito, em organizadas folhas brancas do tipo ofício, datilografadas com esmero. Corrigiu os erros com a esferográfica, numerou metodicamente as questões e grampeou as páginas.
É um homem, sempre, cheio de cuidados. Antes de aceitar o convite da editora Record para se transferir - "proposta irrecusável por todos os motivos, até mesmo os financeiros", limita-se a dizer -, o poeta consultou José Elias Salomão, o proprietário da Civilização Brasileira. "Falei com ele e tudo bem; ficamos em paz todos", relata. A morte recente do editor Ênio Silveira, por certo, influenciou nessa decisão. Manoel de Barros se sentia tão ligado a Ênio que, enqunto ele estava vivo e mesmo com as condições precárias que a editora Civilização Brasileira atravessou na última década, não ousou mudar de casa. Os laços de amizade e a fidelidade pesaram mais que os interesses pessoais. Cada um de seus últimos livros editados por Ênio Silveira, mal ou bem (e, considerando que são livros de poemas, esses números são ótimos) vendeu, de todo modo, perto de 10 mil exemplares. "Acho que, na Record, esse número deve crescer por causa da estrutura de marketing da editora", diz. Apesar desse otimismo, Manoel de Barros continua a ser um homem basicamente melancólico e pessimista. "Acho que no futuro o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo", diz. "Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser." A seguir, as questões que ele decidiu responder.
Estado - Em que medida Mato Grosso do Sul está presente em sua poesia? Qual é sua relação com o regionalismo?
Manoel de Barros - Há sempre um lastro de ancestralidades que nos situa no espaço. Mas não importa muito onde o artista tenha nascido. O que marca um estilo literário é a maneira de mexer com as palavras. Poesia é um fenômeno de linguagem. De minha parte, confesso que fujo do regionalismo que não dê em arte, que só quer fazer registro. Não gosto de descrever lugares, bichos, coisas da natureza. Gosto de inventar. Quem descreve não é dono do assunto; quem inventa é. Não tenho compromisso com as verdades consagradas. O que desejo é me constar por meio de um trabalho estético. Se de tudo resultar um cheiro de coisa do chão, é bom. Pode até ser que seja regionalismo. Porém, há de ser mais transfigurismo pela palavra.
Estado - Você se sente isolado em Campo Grande?
Barros - Isolado não me sinto, juro. Às vezes me isolo, me tranco na minha toca para escrever, para ler, para imaginar. Parece que, no fechado, o imaginário se solta melhor. O que sinto mesmo é incompletude: essa falta de explicação para o sentido da vida. O que tenho é solidão. Mas solidão é opulência da alma. Tudo isso parece que destila amargor e sol na minha poesia.
Estado - As viagens marcaram sua poesia? Penso em um poeta como Vinícius de Moraes que, em cada cidade que viveu, parece ter sido um homem diferente.
Barros - Alguns anos da minha vida ambulei por lugares decadentes. Havia um certo fascínio em mim por cidades mortas, casas abandonadas, vestígios de civilizações. Um fascínio por ruínas habitadas por sapos e borboletas. Eu gostava de ver alguma germinação da inércia sobre ervinhas doentes, paredes leprentas, coissa desprezadas. As fontes de minha poesia, estou certo, vêm de errâncias desurbanas. Agora, o caso do Vinícius é outro. Ele é um poeta inumerável. Ele vem das grandes paixões, das grandes complexidades, das perplexidades humanas. Ele era 300, ele era 350, como diria o nosso Mário de Andrade. Manoel de Barros só é um bugre perturbado.
Estado - Existe essa entidade chamada poesia brasileira ou existem apenas poetas nascidos no Brasil?
Barros - Penso que existe sim uma poesia brasileira. Uma poesia que expresa a nossa alma e o nosso quintal. Porém, a linguagem, o tratamento que o poeta imprima à sua matéria pode fazer dele um poeta universal. Assim, as nossas particularidades podem ser universais por meio das palavras. Temos poetas do mundo nascidos no Brasil.
Estado - Como foi sua relação com o editor Ênio Silveira, recém- falecido?
Barros - Do Ênio fui amigo e companheiro desde o primeiro dia que conversamos. Uma das criaturas mais puras, mais honestas, mais idealistas que conheci. Um ser de escol - como se diz. Trocamos cartas por muitos anos. Trocamos amizades. Mandava a ele os meus originais e ficava quieto, esperando. De repente, me mandava as provas. Fazia questão de escrever as orelhas. Tenho cinco livros lançados por ele.
Estado - Como é hoje sua rotina de poeta?
Barros - Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo "lugar de ser inútil". Exploro há 60 anos esses mistéros. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro século para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler Vozes da Origem. Gosto de coissa que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem." Está no livro Vozes da Origem, da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.
Estado - Seu último livro publicado se chama O livro das Ignorãças (Civilização Brasileira, 1983). A citação de abertura é eloqüente: "As coisas que não existem são mais bonitas." Qual é o papel da ignorância na atividade poética?
Barros - Gosto de ver o que não aparece. Um que não era o adivinha de Tebas, o Tirésias, um que era apenas o Pote-Cru, andejo de beira de rios, criado em grotas de preá, me disse um dia: "Eu tenho vaticínios de lugares." Pote-Cru, ele tinha percepções sensoriais largas, como os adivinhos, os videntes, os bruxos, os urgos, os demiurgos, os curandeiros, os magos. Essa gente toda usa muito a ignorância para nos conhecer. Como é que eles podem dizer: "Vi a tarde se encolher no olho de um pássaro?" Entretanto, se encolhe! Como é que eles podem dizer: "Os carrapichos não pregam no vento." E, entretanto, não pregam. Essas descobertas vêm da ignorância.
Estado - Você vive em uma região brasileira em que a natureza, mal ou bem, ainda resiste. Há futuro para a natureza?
Barros - No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.
Manoel de Barros ficou perto de cinco meses com um longo questionário que lhe enviei pouco antes do carnaval deste ano. "Vou responder devagar e do meu jeito", ele me advertiu na época. Aceitei suas condições. Não imaginei, porém, que necessitasse de tanto tempo. Barros seguiu, em parte, as instruções de seus novos editores, da Record, que preferiam ver uma grande entrevista publicada no Estado apenas na época do lançamento do Livro sobre Nada. Mas não foi só essa preferência que o fez deixar o questionário de lado por um período tão longo. O poeta é um homem de hábitos lentos, que gosta de meditar muito antes de agir e não está acostumado a trair seu temperamento interiorano. Finalmente, no dia 12, ele despachou de Campo Grande, pelo correio, suas respostas a algumas perguntas que formulei. Assim começa um breve bilhete anexo: "Aí está o que pude; peço desculpas pela demora." Manoel de Barros respondeu por escrito, em organizadas folhas brancas do tipo ofício, datilografadas com esmero. Corrigiu os erros com a esferográfica, numerou metodicamente as questões e grampeou as páginas.
É um homem, sempre, cheio de cuidados. Antes de aceitar o convite da editora Record para se transferir - "proposta irrecusável por todos os motivos, até mesmo os financeiros", limita-se a dizer -, o poeta consultou José Elias Salomão, o proprietário da Civilização Brasileira. "Falei com ele e tudo bem; ficamos em paz todos", relata. A morte recente do editor Ênio Silveira, por certo, influenciou nessa decisão. Manoel de Barros se sentia tão ligado a Ênio que, enqunto ele estava vivo e mesmo com as condições precárias que a editora Civilização Brasileira atravessou na última década, não ousou mudar de casa. Os laços de amizade e a fidelidade pesaram mais que os interesses pessoais. Cada um de seus últimos livros editados por Ênio Silveira, mal ou bem (e, considerando que são livros de poemas, esses números são ótimos) vendeu, de todo modo, perto de 10 mil exemplares. "Acho que, na Record, esse número deve crescer por causa da estrutura de marketing da editora", diz. Apesar desse otimismo, Manoel de Barros continua a ser um homem basicamente melancólico e pessimista. "Acho que no futuro o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo", diz. "Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser." A seguir, as questões que ele decidiu responder.
Estado - Em que medida Mato Grosso do Sul está presente em sua poesia? Qual é sua relação com o regionalismo?
Manoel de Barros - Há sempre um lastro de ancestralidades que nos situa no espaço. Mas não importa muito onde o artista tenha nascido. O que marca um estilo literário é a maneira de mexer com as palavras. Poesia é um fenômeno de linguagem. De minha parte, confesso que fujo do regionalismo que não dê em arte, que só quer fazer registro. Não gosto de descrever lugares, bichos, coisas da natureza. Gosto de inventar. Quem descreve não é dono do assunto; quem inventa é. Não tenho compromisso com as verdades consagradas. O que desejo é me constar por meio de um trabalho estético. Se de tudo resultar um cheiro de coisa do chão, é bom. Pode até ser que seja regionalismo. Porém, há de ser mais transfigurismo pela palavra.
Estado - Você se sente isolado em Campo Grande?
Barros - Isolado não me sinto, juro. Às vezes me isolo, me tranco na minha toca para escrever, para ler, para imaginar. Parece que, no fechado, o imaginário se solta melhor. O que sinto mesmo é incompletude: essa falta de explicação para o sentido da vida. O que tenho é solidão. Mas solidão é opulência da alma. Tudo isso parece que destila amargor e sol na minha poesia.
Estado - As viagens marcaram sua poesia? Penso em um poeta como Vinícius de Moraes que, em cada cidade que viveu, parece ter sido um homem diferente.
Barros - Alguns anos da minha vida ambulei por lugares decadentes. Havia um certo fascínio em mim por cidades mortas, casas abandonadas, vestígios de civilizações. Um fascínio por ruínas habitadas por sapos e borboletas. Eu gostava de ver alguma germinação da inércia sobre ervinhas doentes, paredes leprentas, coissa desprezadas. As fontes de minha poesia, estou certo, vêm de errâncias desurbanas. Agora, o caso do Vinícius é outro. Ele é um poeta inumerável. Ele vem das grandes paixões, das grandes complexidades, das perplexidades humanas. Ele era 300, ele era 350, como diria o nosso Mário de Andrade. Manoel de Barros só é um bugre perturbado.
Estado - Existe essa entidade chamada poesia brasileira ou existem apenas poetas nascidos no Brasil?
Barros - Penso que existe sim uma poesia brasileira. Uma poesia que expresa a nossa alma e o nosso quintal. Porém, a linguagem, o tratamento que o poeta imprima à sua matéria pode fazer dele um poeta universal. Assim, as nossas particularidades podem ser universais por meio das palavras. Temos poetas do mundo nascidos no Brasil.
Estado - Como foi sua relação com o editor Ênio Silveira, recém- falecido?
Barros - Do Ênio fui amigo e companheiro desde o primeiro dia que conversamos. Uma das criaturas mais puras, mais honestas, mais idealistas que conheci. Um ser de escol - como se diz. Trocamos cartas por muitos anos. Trocamos amizades. Mandava a ele os meus originais e ficava quieto, esperando. De repente, me mandava as provas. Fazia questão de escrever as orelhas. Tenho cinco livros lançados por ele.
Estado - Como é hoje sua rotina de poeta?
Barros - Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo "lugar de ser inútil". Exploro há 60 anos esses mistéros. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro século para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler Vozes da Origem. Gosto de coissa que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem." Está no livro Vozes da Origem, da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.
Estado - Seu último livro publicado se chama O livro das Ignorãças (Civilização Brasileira, 1983). A citação de abertura é eloqüente: "As coisas que não existem são mais bonitas." Qual é o papel da ignorância na atividade poética?
Barros - Gosto de ver o que não aparece. Um que não era o adivinha de Tebas, o Tirésias, um que era apenas o Pote-Cru, andejo de beira de rios, criado em grotas de preá, me disse um dia: "Eu tenho vaticínios de lugares." Pote-Cru, ele tinha percepções sensoriais largas, como os adivinhos, os videntes, os bruxos, os urgos, os demiurgos, os curandeiros, os magos. Essa gente toda usa muito a ignorância para nos conhecer. Como é que eles podem dizer: "Vi a tarde se encolher no olho de um pássaro?" Entretanto, se encolhe! Como é que eles podem dizer: "Os carrapichos não pregam no vento." E, entretanto, não pregam. Essas descobertas vêm da ignorância.
Estado - Você vive em uma região brasileira em que a natureza, mal ou bem, ainda resiste. Há futuro para a natureza?
Barros - No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.
1 932
Olympia Mahu
Voar, voar
Não entendo como te admiras
Quando quero sair para voar sozinha.
Quero sair, voar
Voar bem alto...
Quem sabe, até, um vôo errante,
Estabanado, atropelado
Quem sabe, até, em queda livre..
Já vivi bastante sob tuas asas
Não tenho queixas, apenas alguns medos.
Quero soltar-me
Mostrar quem sou, o que aprendi
Que sei, não esqueço, Muito foi contigo...
Desprender-me de ti, é como soltar as amarras
Cortar o cordão que muito me protegeu
Mas, que hoje me aprisiona...
Gratidão te tenho demais
Mas, a inquietude é ainda maior.
Preciso sair por aí
Descobrir-me
Saber quem sou, o que faço,
Por onde caminhar...
Não te assuste!
Que bom que ainda tenho muitas dúvidas dentro de mim
E força suficiente para descobri-las
Quem sabe, solucioná-las.
Quero de ti a amizade, o apoio e o carinho
Coisas tão grande em ti
Que divides tão bem com todos.
Quero poder crescer
Para estar sempre por perto
Merecendo o teu respeito...
Olimpya Mahu, 26/7/94
Quando quero sair para voar sozinha.
Quero sair, voar
Voar bem alto...
Quem sabe, até, um vôo errante,
Estabanado, atropelado
Quem sabe, até, em queda livre..
Já vivi bastante sob tuas asas
Não tenho queixas, apenas alguns medos.
Quero soltar-me
Mostrar quem sou, o que aprendi
Que sei, não esqueço, Muito foi contigo...
Desprender-me de ti, é como soltar as amarras
Cortar o cordão que muito me protegeu
Mas, que hoje me aprisiona...
Gratidão te tenho demais
Mas, a inquietude é ainda maior.
Preciso sair por aí
Descobrir-me
Saber quem sou, o que faço,
Por onde caminhar...
Não te assuste!
Que bom que ainda tenho muitas dúvidas dentro de mim
E força suficiente para descobri-las
Quem sabe, solucioná-las.
Quero de ti a amizade, o apoio e o carinho
Coisas tão grande em ti
Que divides tão bem com todos.
Quero poder crescer
Para estar sempre por perto
Merecendo o teu respeito...
Olimpya Mahu, 26/7/94
1 060
Castro Alves
Maciel Pinheiro
Dieu soit en aide au pieux pèlerin.
BOUCHARD
Partes, amigo, do teu antro de águias,
Onde gerava um pensamento enorme,
Tingindo as asas no levante rubro,
Quando nos vales inda a sombra dorme...
Na fronte vasta, como um céu de idéias,
Aonde os astros surgem mais e mais...
Quiseste a luz das boreais auroras...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Verás a terra da infeliz Moema,
Bem como a Vênus se elevar das vagas;
Das serenatas ao luar dormida,
Que o mar murmura nas douradas plagas.
Terra de glórias, de canções e brios,
Esparta, Atenas, que não tem rivais...
Que, à voz da pátria, deixa a lira e ruge...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E quando o barco atravessar os mares,
Quais pandas asas, desfraldando a vela,
Há de surgir-tesse gigante imenso,
Que sobre os morros campeando vela...
Símblo de pedra, que o cinzel dos raios
Talhou nos montes, que se alteiam mais...
Atlas com a forma do gigante povo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Vai nas planícies dos infindos pampas
Erguer a tenda do soldado vate...
Livre... bem livre a Marselhesa aos ecos
Soltar bramindo no feroz combate
E após do fumo das batalhas tinto
Canta essa terra, canta os seus gerais,
Onde os gaúchos sobre as éguas voam...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E nesse lago de poesia virgem,
Quando boiares nas sutis espumas,
Sacode estrofes, qual do rio a garça
Pérolas solta das brilhantes plumas.
Pálido moço — como o bardo errante —
Teu barco voa na amplidão fugaz.
A nova Grécia quer um Byron novo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E eu, cujo peito como ua harpa homérica
Ruge estridente do que é grande ao sopro,
Saúdo o artista, que ao talhar a glória,
Pega da espada, sem deixar o escopro.
Da caravana guarda a areia a pégada:
No chão da história o passo teu verás...
Deus, que o Mazeppa nos estepes guia...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
BOUCHARD
Partes, amigo, do teu antro de águias,
Onde gerava um pensamento enorme,
Tingindo as asas no levante rubro,
Quando nos vales inda a sombra dorme...
Na fronte vasta, como um céu de idéias,
Aonde os astros surgem mais e mais...
Quiseste a luz das boreais auroras...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Verás a terra da infeliz Moema,
Bem como a Vênus se elevar das vagas;
Das serenatas ao luar dormida,
Que o mar murmura nas douradas plagas.
Terra de glórias, de canções e brios,
Esparta, Atenas, que não tem rivais...
Que, à voz da pátria, deixa a lira e ruge...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E quando o barco atravessar os mares,
Quais pandas asas, desfraldando a vela,
Há de surgir-tesse gigante imenso,
Que sobre os morros campeando vela...
Símblo de pedra, que o cinzel dos raios
Talhou nos montes, que se alteiam mais...
Atlas com a forma do gigante povo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Vai nas planícies dos infindos pampas
Erguer a tenda do soldado vate...
Livre... bem livre a Marselhesa aos ecos
Soltar bramindo no feroz combate
E após do fumo das batalhas tinto
Canta essa terra, canta os seus gerais,
Onde os gaúchos sobre as éguas voam...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E nesse lago de poesia virgem,
Quando boiares nas sutis espumas,
Sacode estrofes, qual do rio a garça
Pérolas solta das brilhantes plumas.
Pálido moço — como o bardo errante —
Teu barco voa na amplidão fugaz.
A nova Grécia quer um Byron novo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E eu, cujo peito como ua harpa homérica
Ruge estridente do que é grande ao sopro,
Saúdo o artista, que ao talhar a glória,
Pega da espada, sem deixar o escopro.
Da caravana guarda a areia a pégada:
No chão da história o passo teu verás...
Deus, que o Mazeppa nos estepes guia...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
2 081
Castro Alves
Partida do meu Mestre do Coração
O Exmo. Sr. D. Antônio de Macedo Costa, Bispo do Pará
Oh! Que silêncio expressivo!
Que triste melancolia!
Tudo nos diz dores;
Tudo nos diz agonia!
Chora terno o caro mestre,
O disciplo também chora;
Que todos sofrem agora!
Apenas ouço soluços
Arrancados dentre prantos!
Tristes ais, filhos da dor,
Partidos de peitos tantos!
Frases puras que bem dizem
O sofrer, as aflições,
Que pungem tais corações!...
Mas por que todos conjuntos,
Estais assim a chorar?
Que motivo vossas almas
Pôde assim sensibilizar?
Que motivo vossos peitos
Faz assim starem sofrendo;
Tantas dores padecendo?
Ai! É que a ausência penosa
Já pouco tarda a chegar!
É que impiedoso o destino
Dos olhos vai nos roubar
O mestre, o mestre querido,
Que nos sabia ensinar
A nosso Deus adorar!
Ai! É que dentro em breve
(Talvez pra sempre, oh! meu Deus!)
Não possamos mais ouvir
Os santos conselhos seus!
Ele tão bom nos guiava
A salvo por entre a lida
Desta tão custosa vida!
Chora, bem triste, Ginásio,
Derrama pranto sem fim!
Ah! Chora que isto consola
A quem sofre dor assim!.
Chora, que não mais verás
Unido alegre contigo
O teu mestre, o teu amigo!
Chora, chora, meu Ginásio.
Eis a hora de partir,
Dhora em diante saudades
Cruéis vos hão de ferir!
Que a nós juntos como agora
Não mais há de alumiar
Este sol, que vês brilhar.
A pátria nos tira o mestre
É — nos preciso ceder;
Mas nos não proíbe o pranto,
Nem no-lo pode tolher;
Que então seria matar
Fé de amigo os sentimentos
E aumentar-nos os tormentos!...
Ginásio Baiano. 14 de julho de 1861.
O discípulo amigo do coração
Oh! Que silêncio expressivo!
Que triste melancolia!
Tudo nos diz dores;
Tudo nos diz agonia!
Chora terno o caro mestre,
O disciplo também chora;
Que todos sofrem agora!
Apenas ouço soluços
Arrancados dentre prantos!
Tristes ais, filhos da dor,
Partidos de peitos tantos!
Frases puras que bem dizem
O sofrer, as aflições,
Que pungem tais corações!...
Mas por que todos conjuntos,
Estais assim a chorar?
Que motivo vossas almas
Pôde assim sensibilizar?
Que motivo vossos peitos
Faz assim starem sofrendo;
Tantas dores padecendo?
Ai! É que a ausência penosa
Já pouco tarda a chegar!
É que impiedoso o destino
Dos olhos vai nos roubar
O mestre, o mestre querido,
Que nos sabia ensinar
A nosso Deus adorar!
Ai! É que dentro em breve
(Talvez pra sempre, oh! meu Deus!)
Não possamos mais ouvir
Os santos conselhos seus!
Ele tão bom nos guiava
A salvo por entre a lida
Desta tão custosa vida!
Chora, bem triste, Ginásio,
Derrama pranto sem fim!
Ah! Chora que isto consola
A quem sofre dor assim!.
Chora, que não mais verás
Unido alegre contigo
O teu mestre, o teu amigo!
Chora, chora, meu Ginásio.
Eis a hora de partir,
Dhora em diante saudades
Cruéis vos hão de ferir!
Que a nós juntos como agora
Não mais há de alumiar
Este sol, que vês brilhar.
A pátria nos tira o mestre
É — nos preciso ceder;
Mas nos não proíbe o pranto,
Nem no-lo pode tolher;
Que então seria matar
Fé de amigo os sentimentos
E aumentar-nos os tormentos!...
Ginásio Baiano. 14 de julho de 1861.
O discípulo amigo do coração
1 772
Clodoveu A. de Almeida
Saudades
Tardes cor de ouro,
violáceas, afetuosas.
Tardes de pressentimento, de meditação,
que inundais de perfume e que cobris de rosas
meigos recantos de meu coração.
Tardes de doçura e recolhimento,
aveludadas, de arminho
Insinuais a delícia do carinho
e a beleza sem par do querer bem.
Enfeitais o infinito em linda cor de vinho,
lembrais a suavidade espiritual de alguém.
Vós que viveis acompanhando
toda a melancolia de meu ser,
ide longe, longe, para quem eu amo
dizei-lhe coisas que não sei dizer.
Tardes de reclínio, tardes de bondade,
cheias de mansidão crepuscular,
ide, contai-lhe esta agônica saudade
dizei-lhe da Amizade,
do amor
e do pesar...
Voai, voai, através destes espaços,
tardes religiosas, tardes calmas
e levai-lhe o aconchego de meus braços
uní eternamente as nossas almas.
violáceas, afetuosas.
Tardes de pressentimento, de meditação,
que inundais de perfume e que cobris de rosas
meigos recantos de meu coração.
Tardes de doçura e recolhimento,
aveludadas, de arminho
Insinuais a delícia do carinho
e a beleza sem par do querer bem.
Enfeitais o infinito em linda cor de vinho,
lembrais a suavidade espiritual de alguém.
Vós que viveis acompanhando
toda a melancolia de meu ser,
ide longe, longe, para quem eu amo
dizei-lhe coisas que não sei dizer.
Tardes de reclínio, tardes de bondade,
cheias de mansidão crepuscular,
ide, contai-lhe esta agônica saudade
dizei-lhe da Amizade,
do amor
e do pesar...
Voai, voai, através destes espaços,
tardes religiosas, tardes calmas
e levai-lhe o aconchego de meus braços
uní eternamente as nossas almas.
1 136
Antonio Roberval Miketen
Octava Cantiga de Amigo
Junto a las olas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
Aves ponen plumas en el horizonte
y las plumas, aguas de una fuente,
en Vigo, en las algas del mar,
del amigo me traen el tardar.
De más allá del mar viene, leve por plumas,
el dolor que no quiero llorar.
Sin embargo, las gaviotas ponen brumas
en lo profundo de mi penar,
donde, a orillas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
vengo al recuerdo de un amigo.
Aves ponen plumas en el horizonte
y las plumas, aguas de una fuente,
en Vigo, en las algas del mar,
del amigo me traen el tardar.
De más allá del mar viene, leve por plumas,
el dolor que no quiero llorar.
Sin embargo, las gaviotas ponen brumas
en lo profundo de mi penar,
donde, a orillas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
851
Antonio Roberval Miketen
Oitava Cantiga de Amigo
Junto às vagas do mar de Vigo,
venho ao relembrar de um amigo.
Aves põem plumas no horizonte
e as plumas, águas de uma fonte,
em Vigo, nas algas do mar,
do amigo, trazem-me o tardar.
Do além-mar vem, leve por plumas,
a dor que não quero chorar.
Porém as gaivotas põem brumas,
no profundo de meu penar,
onde, às margens do mar de Vigo,
venho ao relembrar de um amigo.
venho ao relembrar de um amigo.
Aves põem plumas no horizonte
e as plumas, águas de uma fonte,
em Vigo, nas algas do mar,
do amigo, trazem-me o tardar.
Do além-mar vem, leve por plumas,
a dor que não quero chorar.
Porém as gaivotas põem brumas,
no profundo de meu penar,
onde, às margens do mar de Vigo,
venho ao relembrar de um amigo.
1 096
Antonio Roberval Miketen
Eight Song of Friendship
Close to the waves of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
Birds shed feathers at the horizon
and the feathers, water from a spring
in Vigo, on the seaweeds
of the friend announce his delay.
From beyond comes, light as feathers,
the pain I do not want to lament.
But the svagulls fill with mist
the depth of my sorrow,
when, on the shores of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
I come to remember a friend.
Birds shed feathers at the horizon
and the feathers, water from a spring
in Vigo, on the seaweeds
of the friend announce his delay.
From beyond comes, light as feathers,
the pain I do not want to lament.
But the svagulls fill with mist
the depth of my sorrow,
when, on the shores of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
1 000
Albano Dias Martins
Crepúsculo de Agosto
Para a minha filha
Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.
Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.
Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
1 450
Antônio Girão Barroso
As Três Pessoas
Eram três pessoas distintas mas uma só, na verdade:
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.
1 139
Adailton Medeiros
Pré-texto para Cassiano Ricardo
amanhã o bom dia
na difícil manhã
chão romã
clã reipã
no reVerSo SIGno
EU mEU poemachão
poemapa poemassa
fada fica
riso rico
falo fala
sobre / vivEntes e
ternos amigos do
peito ó Jeremias
sem choro
nem velas
canto RICo ARDOr
sabiá-do-rosa-mente
na difícil manhã
chão romã
clã reipã
no reVerSo SIGno
EU mEU poemachão
poemapa poemassa
fada fica
riso rico
falo fala
sobre / vivEntes e
ternos amigos do
peito ó Jeremias
sem choro
nem velas
canto RICo ARDOr
sabiá-do-rosa-mente
960
Antero Coelho Neto
Palavras a um Amigo Triste
Meu querido amigo triste,
eu nunca encontrei as palavras.
Digo, as palavras certas e verdadeiras,
porque as outras são ditas fáceis
e logo, sempre esquecidas.
Eu falo daquelas palavras amigas,
justamente significativas para o pranto
da dor maior quando sofrida.
Essas eu acho que não existem,
pois jamais puderam dizer-me.
eu nunca encontrei as palavras.
Digo, as palavras certas e verdadeiras,
porque as outras são ditas fáceis
e logo, sempre esquecidas.
Eu falo daquelas palavras amigas,
justamente significativas para o pranto
da dor maior quando sofrida.
Essas eu acho que não existem,
pois jamais puderam dizer-me.
1 388
Antônio Brasileiro
Mágoa
1.
Fiz-me embrulho para presente
para ofertar-me aos amigos.
(Sempre fui o mesmo homem:
papel de seda, uma fita.)
2.
Amei tanto, tanto mesmo:
só me chamaram poeta.
Sorri tanto, e só sabiam
que eu tinha dentes bonitos.
3.
Guardei-me um dia no mar
chorei ondas pela praia.
Em mim nasceu uma flor
porque sempre fui jardim.
Fiz-me embrulho para presente
para ofertar-me aos amigos.
(Sempre fui o mesmo homem:
papel de seda, uma fita.)
2.
Amei tanto, tanto mesmo:
só me chamaram poeta.
Sorri tanto, e só sabiam
que eu tinha dentes bonitos.
3.
Guardei-me um dia no mar
chorei ondas pela praia.
Em mim nasceu uma flor
porque sempre fui jardim.
1 087
Marcial
V, 59-A ESTELA
Se prata não, e se ouro te não mando,
Discreta Estela, é só para teu bem.
O que dá muito, algo deseja em troca.
Estes de barro vasos, não te obrigam.
Discreta Estela, é só para teu bem.
O que dá muito, algo deseja em troca.
Estes de barro vasos, não te obrigam.
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Alfred Edward Housman
WITH RUE MY HEART
De mágoa o coração me pesa
Por áureos amigos que tive,
Donzelas de lábios rosados
E moços ligeiros e esbeltos.
De rios que um salto não vence
Os moços repousam nas margens;
E estão dormindo as donzelas
Em campos que às rosas descoram.
Por áureos amigos que tive,
Donzelas de lábios rosados
E moços ligeiros e esbeltos.
De rios que um salto não vence
Os moços repousam nas margens;
E estão dormindo as donzelas
Em campos que às rosas descoram.
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Antonio Machado
DESDE EL UMBRAL DEL SUEÑO
DESDE EL UMBRAL DEL SUEÑO...
Lá dos umbrais de um sonho me chamaram...
Era aquela voz boa, voz querida.
- Diz-me: virás comigo visitar a alma?...
No coração me entrava uma carícia.
- Contigo, sempre... E avancei no sonho
por uma longa e recta galeria,
sentindo o só roçar da veste pura
e o suave palpitar da mão amiga.
Lá dos umbrais de um sonho me chamaram...
Era aquela voz boa, voz querida.
- Diz-me: virás comigo visitar a alma?...
No coração me entrava uma carícia.
- Contigo, sempre... E avancei no sonho
por uma longa e recta galeria,
sentindo o só roçar da veste pura
e o suave palpitar da mão amiga.
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