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Poemas neste tema

Dor e Desespero

William Blake

William Blake

O Preço da Experiência

Das Canções da experiência
(Tradução de Orlando Ferreira)

Qual é o preço da experiência? Os homens a compram com uma canção?
Adquirem sabedoria dançando nas ruas? Não, ela é comprada pelo preço
De tudo que um homem possui, sua casa, sua esposa, seus filhos.
A sabedoria é vendida num mercado sombrio onde ninguém vem comprar,
E no campo infecundo que o fazendeiro ara em vão por seu pão.

É fácil triunfar sob o sol do verão
E na colheita cantar na carroça cheia de grão.
É fácil falar de prudência aos aflitos,
Falar das leis da prudência ao andarilho sem teto,
Ouvir o grito faminto do corvo na estação invernal
Quando o sangue vermelho mistura-se ao vinho e ao tutano do cordeiro

É tão fácil sorrir diante da ira da natureza
Ouvir o uivo do cão diante da porta no inverno, e o boi a mugir no matadouro;
Ver um deus em cada brisa e uma bênção em cada tempestade.
Ouvir o som do amor no raio que arrasa a casa do inimigo;
Rejubilar-se diante do praga que cobre seu campo, e da doença que ceifa seus filhos,
Enquanto nossas oliveiras e nosso vinho cantam e riem diante da porta, e nossos
/filhos nos trazem frutas e flores.
Então o lamento e a dor estão quase esquecidos, bem como o escravo que gira omoinho,
E o cativo acorrentado, o pobre prisioneiro, e o soldado no campo de batalha
Quando os ossos rompidos deixam-no gemendo à espera da morte feliz.
É fácil rejubilar-se sob a tenda da prosperidade:
Eu poderia cantar e me rejubilar deste modo: mas eu não sou assim.
1797

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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Elegia dum incoerente

Tua Presença
É o todo-inteiro,
Real, verdadeiro,
De que a beleza
É um fragmento;
Tua Presença
Lembra um Mosteiro,
É como um claustro,
Como um convento
Onde se bebe
Recolhimento,
E cada qual
Se sente menos
Preso da Vida
Que a carne tenra
Recém-nascida
Se prende à vida
Pelo cordão
Umbilical.

A tua Ausência
É o todo-inteiro
Real, verdadeiro,
De que o Inferno
É um fragmento;
A tua Ausência
Lembra as galés,
Traz-nos atados
De mãos e pés,
Remando sós
Pelos infinitos
Mares deste mundo,
Seguindo o rumo
Dos Desvairados,
Como proscritos,
Como gafados.
A tua Ausência!
Antes ser cego,
Antes cativo,
Antes ser posto
Num caixão estreito,
Levado à cova
E sepulto vivo.

Tua Presença
É como nave
De Catedral,
Dum goticismo
Tão trabalhado,
Tão requintado,
Que são aladas
As próprias pedras
Das arcarias
Abobadadas,
E os capitéis
Das colunatas
Fogem em bandos,
Em revoadas
Ascensionais,
Para aquele ponto,
Exterior ao mundo,
Pra onde tendem
As catedrais!

A tua Ausência
É um oceano
Glauco e sem fundo
Onde naufragam
Os bens do mundo;
É uma imagem
Tumultuária
Dos Derradeiros
Dias Finais;
É como um campo aberto
Para a pilhagem
Das tentações,
Dos desatinos,
Das abjecções;
A tua Ausência
É cavalgada
Desenfreada
DApocalipse,
É o remorso
De quem celebra,
Com mãos profanas,
Ritos sagrados,
É um telescópio
Das dores humanas

Tua Presença
Dimana graças
De iluminura;
Foi modelada
Num raio fulvo
De luz sidéria;
Tem os caprichos,
As fantasias,
Duma voluta
De incenso em brasa;
Tua Presença
Foi feita à imagem
Das vagas névoas,
Sonhos dispersos
Pelos rutilantes
Rubros gritantes
Da madrugada,
E em si resume
O azul doente
Em que dilui
A macerada
Melancolia
Do Sol poente.
É essência Pura
Do ideal,
É um vitral
Que transfigura
Raios de Sol
Que correm montes
Buscando fontes
Para as calar

Sòmente estou triste,
Pois sei que a Presença
Que eu canto em bravatas
Com coros de latas
E versos quebrados,
Enfim, só existe
Na minha Elegia,
Nas minhas bravatas,
Se um dia tombar.

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