Poemas neste tema
Dor e Desespero
Antidio Cabal
Epitáfio de Réndez Merodes, vulgo O Vigilante
Espero que esta seja a última vez que morro,
que não me coloquem de novo, com sangue, em outra fase da matéria
e me façam chorar em outro local,
eu quero que esta morte me seja de serventia para sempre.
que não me coloquem de novo, com sangue, em outra fase da matéria
e me façam chorar em outro local,
eu quero que esta morte me seja de serventia para sempre.
702
Vasko Popa
No suspiro
Pelas estradas da profundeza da alma
Pelas estradas azul-celeste
A erva-daninha viaja
As estradas se perdem
Sob os pés
Enxames de pregos violentam
As plantações cansadas
As lavouras desaparecem
Do campo
Lábios invisíveis
Apagaram o campo
A dimensão triunfa
Encantada pelas palmas de suas mãos lisas
Cinzalisas
771
Vasko Popa
- Depois do começo
O que faremos agora
Realmente o que faremos
Agora jantaremos a medula
Comemos a medula no almoço
Agora o oco dói em mim
Pois toquemos música
Gostamos de música
O que faremos quando os cães vierem
Eles gostam de ossos
Entalaremos em suas gargantas
E gozaremos
585
Leopoldo María Panero
Auto de fé
Deus o cão me chama e o ar queima um homem
horizonte de corpos ardendo intensamente
quinze anjos velam onde esteve minha testa
sou o negro, o obscuro: ardendo está meu nome.
O cavalo me busca e pronuncia meu nome
com o machado partiram de dois em dois meus dentes
longe, no ocaso, alguém diz algo ou mente
sou o negro, o obscuro: ardendo está meu nome.
A lei é o silêncio e também a blasfêmia
é mostrar aos homens uma cruz nos lábios
e dizer-lhes que arde, vela acesa,
minha alma na penumbra como blasfêmia
Deus mudo, escultura de sombra, pétalas pétreas
e o lance de dados de um cego encerra o poema.
:
AUTO DE FE
Dios el perro me llama el aire quema a un hombre
horizonte de cuerpos ardiendo intensamente
quince ángeles velan donde estuvo mi frente
soy el negro, el oscuro: ardiendo está mi nombre.
Mi caballo me busca y pronuncia mi nombre
con el hacha rompieron de dos en dos mi frente
lejos, en el ocaso, alguien dice algo o miente
soy el negro, el oscuro: ardiendo está mi nombre.
Es la ley el silencio y también la blasfemia
es mostrar a los hombres una cruz en la boca
y decirles que arde, como cabo de vela
mi alma en la penumbra como una blasfemia
Dios el mudo, escultura de sombra, florecer de roca
y los dados de un ciego que cierran el poema.
1 160
Leopoldo María Panero
Inferno
“Ah a bandeira, a bandeira da carne que sangra
e as flores do ártico que não existe” Arthur Rimbaud
Não busqueis mais, já não tenho olhos
pois o olho é símbolo de Jesus Cristo e de Deus
e sou o cristal do inferno
o cristal para morrer tão solitário
para morrer na página delicada como o sofrimento
como a dor mais atroz que é o sofrer inexistente
o padecer na página que não existe.
:
INFERNO
A Strindberg
“Ah la bandera, la bandera de la carne que sangra
y las flores del ártico que no existen” Arthur Rimbaud
No busquéis más, ya que no tengo ojos
pues el ojo es símbolo de Jesuscristo y de Dios
y yo soy el cristal del infierno
el cristal para morir tan solo
para murir en la página delgada como el sufrimiento
como el sufrir más atroz que es el sufrir que no existe
el sufrir en la página
que no existe.
677
Leopoldo María Panero
O Suplício
A febre se parece com Deus
A loucura: a última oração.
Longo tempo bebi em um estranho cálice
cheio de álcool e fezes
vi na maré da taça os peixes
atrozmente pálidos do sonho.
E ao erguer o brinde, disse
à Deus, ofereço este suplício
esta hóstia nascida do sangue
que de todos os olhos mana
como ordenando-me a beber, ordenando-me a morrer
para que ao fim seja ninguém
seja igual a Deus.
:
EL SUPLICIO
La fiebre se parece a Dios
La locura: la última oración.
Largo tiempo he bebido de un extraño cáliz
hecho de alcohol y heces
y vi en la marea de la copa los peces
atrozmente blancos del sueño.
Y al levantar la copa, digo
a Dios, te ofrezco este suplicio
y esta hostia nacida de la sangre
que de todos ojos mana
como ordenándome beber, como ordenándome morir
para que cuando al fin sea nadie
sea igual a Dios.
799
Gerard Manley Hopkins
Acordo, me corta a noite escura
Acordo, me corta a noite escura, não o dia,
Que horas, Oh que negras horas nós não vimos
Esta noite! que visões, coração; e caminhos!
E veremos, na longa espera da luz tardia.
Tal falo com testemunha. Mas quando digo
Horas, digo anos, vida. E minha desdita
São gritos incontáveis, cartas remetidas
Pra tão longe, ah!, ao ser que me é querido.
Sou fel, sou cor-combustão. Foi Deus que escolheu
Amargo o meu sabor: e meu sabor fui eu;
Ossos alçou, saturou meu sangue em castigo.
A levedura da alma amarga a massa ao leu.
Sou como os perdidos, seu castigo é o meu
Ser só um sudorento ser; mas é pior comigo.
(tradução de William Zeytounlian)
:
[I wake and feel the fell of dark, not day]
Gerard Manley Hopkins
I WAKE and feel the fell of dark, not day.
What hours, O what black hours we have spent
This night! what sights you, heart, saw; ways you went!
And more must, in yet longer light's delay.
With witness I speak this. But where I say
Hours I mean years, mean life. And my lament
Is cries countless, cries like dead letters sent
To dearest him that lives alas! away.
I am gall, I am heartburn. God's most deep decree
Bitter would have me taste: my taste was me;
Bones built in me, flesh filled, blood brimmed the curse.
Selfyeast of spirit a dull dough sours. I see
The lost are like this, and their scourge to be
As I am mine, their sweating selves; but worse.
.
.
.
776
Boris Vian
Morrerei de um câncer na coluna vertebral
Morrerei de um câncer na coluna vertebral
Será numa noite horrível
Clara, quente, perfumada, sensual
Morrerei de um apodrecimento
De certas células pouco conhecidas
Morrerei de uma perna arrancada
Por um rato gigante surgido de um buraco gigante
Morrerei de cem cortes
O céu terá desabado sobre mim
Estilhaçando-se como um vidro espesso
Morrerei de uma explosão de voz
Perfurando minhas orelhas
Morrerei de feridas silenciosas
Infligidas às duas da madrugada
Por assassinos indecisos e calvos
Morrerei sem perceber
Que morro, morrerei
Sepultado sob as ruínas secas
De mil metros de algodão tombado
Morrerei afogado em óleo de cárter
Espezinhado por imbecis indiferentes
E, logo a seguir, por imbecis diferentes
Morrerei nu, ou vestido com tecido vermelho
Ou costurado num saco com lâminas de barbear
Morrerei quem sabe sem me importar
Com o esmalte nos dedos do pé
E com as mãos cheias de lágrimas
E com as mãos cheias de lágrimas
Morrerei quando descolarem
Minhas pálpebras sob um sol raivoso
Quando me disserem lentamente
Maldades ao ouvido
Morrerei de ver torturar crianças
E homens pasmos e pálidos
Morrerei roído vivo
Por vermes, morrerei as
Mãos amarradas sob uma cascata
Morrerei queimado num incêndio triste
Morrerei um pouco, muito,
Sem paixão, mas com interesse
E quando tudo estiver acabado
Morrerei.
:
Je mourrai d´un cancer de la colonne vertébrale
Je mourrai d’un cancer de la colonne vertébrale
Ça sera par un soir horrible
Clair, chaud, parfumé, sensuel
Je mourrai d’un pourrissement
De certaines cellules peu connues
Je mourrai d’une jambe arrachée
Par un rat géant jailli d’un trou géant
Je mourrai de cent coupures
Le ciel sera tombé sur moi
Ça se brise comme une vitre lourde
Je mourrai d’un éclat de voix
Crevant mes oreilles
Je mourrai de blessures sourdes
Infligées à deux heures du matin
Par des tueurs indécis et chauves
Je mourrai sans m’apercevoir
Que je meurs, je mourrai
Enseveli sous les ruines sèches
De mille mètres de coton écroulé
Je mourrai noyé dans l’huille de vidange
Foulé aux pieds par des bêtes indifférentes
Et, juste après, par des bêtes différentes
Je mourrai nu, ou vêtu de toile rouge
Ou cousu dans un sac avec des lames de rasoir
Je mourrai peut-être sans m’en faire
Du vernis à ongles aux doigts de pied
Et des larmes plein les mains
Et des larmes plein les mains
Je mourrai quand on décollera
Mes paupières sous un soleil enragé
Quand on me dira lentement
Des méchancetés à l’oreille
Je mourrai de voir torturer des enfants
Et des hommes étonnés et blêmes
Je mourrai rongé vivant
Par des vers, je mourrai les
Mains attachées sous une cascade
Je mourrai brûlé dans un incendie triste
Je mourrai un peu, beaucoup,
Sans passion, mais avec intérêt
Et puis quand tout sera fini
Je mourrai.
Será numa noite horrível
Clara, quente, perfumada, sensual
Morrerei de um apodrecimento
De certas células pouco conhecidas
Morrerei de uma perna arrancada
Por um rato gigante surgido de um buraco gigante
Morrerei de cem cortes
O céu terá desabado sobre mim
Estilhaçando-se como um vidro espesso
Morrerei de uma explosão de voz
Perfurando minhas orelhas
Morrerei de feridas silenciosas
Infligidas às duas da madrugada
Por assassinos indecisos e calvos
Morrerei sem perceber
Que morro, morrerei
Sepultado sob as ruínas secas
De mil metros de algodão tombado
Morrerei afogado em óleo de cárter
Espezinhado por imbecis indiferentes
E, logo a seguir, por imbecis diferentes
Morrerei nu, ou vestido com tecido vermelho
Ou costurado num saco com lâminas de barbear
Morrerei quem sabe sem me importar
Com o esmalte nos dedos do pé
E com as mãos cheias de lágrimas
E com as mãos cheias de lágrimas
Morrerei quando descolarem
Minhas pálpebras sob um sol raivoso
Quando me disserem lentamente
Maldades ao ouvido
Morrerei de ver torturar crianças
E homens pasmos e pálidos
Morrerei roído vivo
Por vermes, morrerei as
Mãos amarradas sob uma cascata
Morrerei queimado num incêndio triste
Morrerei um pouco, muito,
Sem paixão, mas com interesse
E quando tudo estiver acabado
Morrerei.
:
Je mourrai d´un cancer de la colonne vertébrale
Je mourrai d’un cancer de la colonne vertébrale
Ça sera par un soir horrible
Clair, chaud, parfumé, sensuel
Je mourrai d’un pourrissement
De certaines cellules peu connues
Je mourrai d’une jambe arrachée
Par un rat géant jailli d’un trou géant
Je mourrai de cent coupures
Le ciel sera tombé sur moi
Ça se brise comme une vitre lourde
Je mourrai d’un éclat de voix
Crevant mes oreilles
Je mourrai de blessures sourdes
Infligées à deux heures du matin
Par des tueurs indécis et chauves
Je mourrai sans m’apercevoir
Que je meurs, je mourrai
Enseveli sous les ruines sèches
De mille mètres de coton écroulé
Je mourrai noyé dans l’huille de vidange
Foulé aux pieds par des bêtes indifférentes
Et, juste après, par des bêtes différentes
Je mourrai nu, ou vêtu de toile rouge
Ou cousu dans un sac avec des lames de rasoir
Je mourrai peut-être sans m’en faire
Du vernis à ongles aux doigts de pied
Et des larmes plein les mains
Et des larmes plein les mains
Je mourrai quand on décollera
Mes paupières sous un soleil enragé
Quand on me dira lentement
Des méchancetés à l’oreille
Je mourrai de voir torturer des enfants
Et des hommes étonnés et blêmes
Je mourrai rongé vivant
Par des vers, je mourrai les
Mains attachées sous une cascade
Je mourrai brûlé dans un incendie triste
Je mourrai un peu, beaucoup,
Sans passion, mais avec intérêt
Et puis quand tout sera fini
Je mourrai.
2 770
D. Dinis
O que vos nunca cuidei a dizer
Os diré, con tristeza, lo que nunca pensé
que os diría, señora,
porque veo que por vos muero,
porque sabéis que nunca os hablé
de cómo me mataba vuestro amor:
porque sabéis bien que de otra señora
yo no sentía ni siento temor.
Todo esto me hizo sentir
el temor que de vos tengo,
y desde ahí por vos dar a entender
que por otra moriría, de ella tengo,
sabéis bien, algo de temor;
y desde hoy, hermosa señora mía,
si me matáis, bien me lo habré buscado.
Y creed que tendré gusto
de que me matéis, pues yo sé con certeza
que en el poco tiempo que he de vivir,
ningún placer obtendré;
y porque estoy seguro de esto,
si me quisierais dar muerte, señora,
por gran misericordia os lo tendré.
1 947
Giuseppe Ungaretti
San Martino del Carso
Valloncello dell'Albero Isolato, 27 de agosto de 1916
Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro
De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto
No coração porém
nenhuma cruz me falta
É o meu coração
a região mais destroçada
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916
Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro
Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto
Ma nel cuore
nessuna croce manca
È il mio cuore
il paese più straziato
Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro
De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto
No coração porém
nenhuma cruz me falta
É o meu coração
a região mais destroçada
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916
Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro
Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto
Ma nel cuore
nessuna croce manca
È il mio cuore
il paese più straziato
1 638
Christine Lavant
Eu quero partir com os loucos o pão,
Eu quero partir com os loucos o pão,
migalhas diárias do desespero grande,
também o sino em meio ao peito,
ali onde o pombo aninha-se
e tem seu refúgio minúsculo
no ermo sobre as águas.
Residi por anos como pedra
no chão das coisas.
Eu ouvi, porém, o sino
sussurrar teu segredo
nos peixes com asas.
Hei-de aprender a voar e nadar,
deixar o pedregoso sob as pedras,
aconchegar em madrepérola
a melancolia, elevar aflição, ira.
Minhas asas são mais velhas
que tua paciência, minhas asas
vão à frente da coragem
que tomou sobre os ombros o louco.
Eu quero partir com os loucos o pão,
ali no ermo assustador do pombo,
onde o sino triparte o maior desespero
ao som tríplice do teu nome.
706
Tchicaya U Tam'si
O sangue ruim (andante)
I
Brota tua canção – Sangue ruim – como viver
o lixo à flor da alma, ser de carne lamento
a atrocidade do sangue flor de estrela, encarniçado
Serpentes na noite silvavam como cobres
Anágua mil sóis ressaca para um canto de órgãos
meu sangue se dispersou pois um solerte amanhã
falará de minha terra tudo como um belo destino
não iremos mais chorar sob o céu gris dos necrotérios
Eu serei a gaivota a morte por falta de sorte
Uma grande forca erguida reposta para as penas
ergue-me alto e confiante com roupas de festa
Chora o infortúnio virá enternecer os diamantes
Teu sangue te espanca, ó meus corações esbaforidos
Eu sou negro filho solar à mão com cantar demente.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Le mauvais sang (andante)
Tchicaya U Tam´si
I
Pousse ta chanson – Mauvais sang – comment vivre
l’ordure à fleur de l’âme, être a chair regret
l’atrocité du sang fleur d’étoile, nargué
Des serpentes dans la nuit sifflaient comme des cuivres
Cotillon mille soleils ressac pour un chant d’orgues
mon sang s’est disperse car un preux demain
dira sur ma ville tout comme un beau destin
nous n’irons plus pleurer sous le ciel gris des morgues
Je serai la mouette la morte par déveine
Un grand gibet levé remise pour les peines
m’emporte haut et fier en habits festonnés
Pleure le malheur viendra ternir les diamants
Ton sang te matraque, ô mes coeurs époumonés
Je suis noir fils solaire à main le chant demente.
(1955)
887
Gonzalo Rojas
Contra a morte
Arranco-me as visões e os olhos a cada dia que passa.
Não quero – não posso! – ver morrerem os homens a cada dia.
Prefiro ser pedra, ser treva,
a suportar o asco de abrandar-me por dentro e sorrir
a torto e a direito para prosperar em meu negócio.
Não tenho outro negócio senão estar aqui dizendo a verdade
no meio da rua e a todos os ventos:
a verdade de estar vivo, unicamente vivo,
com o pés na terra e o esqueleto livre neste mundo.
O que queremos disso de saltar de até o sol com nossas máquinas
à velocidade do pensamento. Demônios! O que queremos
com o voar além do infinito
se continuamos morrendo sem esperança alguma de viver
fora do tempo das trevas?
Deus não me serve. Ninguém me serve para nada.
Porém respiro. E como. E até durmo
pensando que faltam uns dez ou vinte anos para ir-me
de bruços, como todos, a dormir sob dois metros de cimento.
Não choro – não mesmo! Tudo há de ser como deve ser,
porém, não posso ver caixões e mais caixões
passarem, passarem, passarem, a cada minuto
cheios de algo, recheados de algo, não posso ver
ainda quente o sangue nos caixões.
Toco esta rosa, beijo as pétalas, adoro
a vida, não me canso de amar as mulheres – alimento-me
de gerar o mundo nelas. Porém, tudo é inútil!
Pois eu mesmo sou uma cabeça inútil
pronta para ser cortada por não entender o que é isso
de esperar outro mundo deste mundo.
Falam-me do Deus ou da História. Rio-me
de irem buscar tão longe a explicação da fome
que me devora, a fome de viver como o sol
na graça do ar, eternamente.
(tradução de Fabiano Calixto)
:
CONTRA LA MUERTE: Me arranco las visiones y me arranco los ojos cada día que pasa. / No quiero ver ¡no puedo! ver morir a los hombres cada día. / Prefiero ser de piedra, estar oscuro, / a soportar el asco de ablandarme por dentro y sonreír. / a diestra y a siniestra con tal de prosperar en mi negocio. // No tengo otro negocio que estar
aquí diciendo la verdad / en mitad de la calle y hacia todos los vientos: / la verdad de estar vivo, únicamente vivo, / con los pies en la tierra y el esqueleto libre en este mundo. // ¿Qué sacamos con eso de saltar hasta el sol con nuestras máquinas / a la velocidad del pensamiento, demonios: qué sacamos / con volar más allá del infinito / si seguimos muriendo sin esperanza alguna de vivir / fuera del tiempo oscuro? // Dios no me sirve. Nadie me sirve para nada. / Pero respiro, y como, y hasta duermo / pensando que me faltan unos diez o veinte años para irme / de bruces, como todos, a dormir en dos metros de cemento allá abajo. // No lloro, no me lloro. Todo ha de ser así como ha de ser, / pero no puedo ver cajones y cajones / pasar, pasar, pasar, pasar cada minuto / llenos de algo, rellenos de algo, no puedo ver / todavía caliente la sangre en los cajones. / Toco esta rosa, beso sus pétalos, adoro / la vida, no me canso de amar a las mujeres: me alimento / de abrir el mundo en ellas. Pero todo es inútil, / porque yo mismo soy una cabeza inútil / lista para cortar, por no entender qué es eso / de esperar otro mundo de este mundo. // Me hablan del Dios o me hablan de la Historia. Me río / de ir a buscar tan lejos la explicación del hambre / que me devora, el hambre de vivir como el sol / en la gracia del aire, eternamente.
.
.
.
Não quero – não posso! – ver morrerem os homens a cada dia.
Prefiro ser pedra, ser treva,
a suportar o asco de abrandar-me por dentro e sorrir
a torto e a direito para prosperar em meu negócio.
Não tenho outro negócio senão estar aqui dizendo a verdade
no meio da rua e a todos os ventos:
a verdade de estar vivo, unicamente vivo,
com o pés na terra e o esqueleto livre neste mundo.
O que queremos disso de saltar de até o sol com nossas máquinas
à velocidade do pensamento. Demônios! O que queremos
com o voar além do infinito
se continuamos morrendo sem esperança alguma de viver
fora do tempo das trevas?
Deus não me serve. Ninguém me serve para nada.
Porém respiro. E como. E até durmo
pensando que faltam uns dez ou vinte anos para ir-me
de bruços, como todos, a dormir sob dois metros de cimento.
Não choro – não mesmo! Tudo há de ser como deve ser,
porém, não posso ver caixões e mais caixões
passarem, passarem, passarem, a cada minuto
cheios de algo, recheados de algo, não posso ver
ainda quente o sangue nos caixões.
Toco esta rosa, beijo as pétalas, adoro
a vida, não me canso de amar as mulheres – alimento-me
de gerar o mundo nelas. Porém, tudo é inútil!
Pois eu mesmo sou uma cabeça inútil
pronta para ser cortada por não entender o que é isso
de esperar outro mundo deste mundo.
Falam-me do Deus ou da História. Rio-me
de irem buscar tão longe a explicação da fome
que me devora, a fome de viver como o sol
na graça do ar, eternamente.
(tradução de Fabiano Calixto)
:
CONTRA LA MUERTE: Me arranco las visiones y me arranco los ojos cada día que pasa. / No quiero ver ¡no puedo! ver morir a los hombres cada día. / Prefiero ser de piedra, estar oscuro, / a soportar el asco de ablandarme por dentro y sonreír. / a diestra y a siniestra con tal de prosperar en mi negocio. // No tengo otro negocio que estar
aquí diciendo la verdad / en mitad de la calle y hacia todos los vientos: / la verdad de estar vivo, únicamente vivo, / con los pies en la tierra y el esqueleto libre en este mundo. // ¿Qué sacamos con eso de saltar hasta el sol con nuestras máquinas / a la velocidad del pensamiento, demonios: qué sacamos / con volar más allá del infinito / si seguimos muriendo sin esperanza alguna de vivir / fuera del tiempo oscuro? // Dios no me sirve. Nadie me sirve para nada. / Pero respiro, y como, y hasta duermo / pensando que me faltan unos diez o veinte años para irme / de bruces, como todos, a dormir en dos metros de cemento allá abajo. // No lloro, no me lloro. Todo ha de ser así como ha de ser, / pero no puedo ver cajones y cajones / pasar, pasar, pasar, pasar cada minuto / llenos de algo, rellenos de algo, no puedo ver / todavía caliente la sangre en los cajones. / Toco esta rosa, beso sus pétalos, adoro / la vida, no me canso de amar a las mujeres: me alimento / de abrir el mundo en ellas. Pero todo es inútil, / porque yo mismo soy una cabeza inútil / lista para cortar, por no entender qué es eso / de esperar otro mundo de este mundo. // Me hablan del Dios o me hablan de la Historia. Me río / de ir a buscar tan lejos la explicación del hambre / que me devora, el hambre de vivir como el sol / en la gracia del aire, eternamente.
.
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1 015
Gerard Reve
Canção da bebida
Agora é a hora de deixar de beber.
Parar de uma vez, é preciso.
Foi com certeza o bastante.
Consola-me então, ó Espírito,
nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965,
em desespero profundo, e cercado de Trevas.
:
Drinklied
Nu moet ik van de drank af.
Het moet maar eens uit zjin.
Het is wel genoeg geweest.
Troost mij toch, o Geest,
in de nacht van 20 op 21 juli 1965,
in diepe ontzetting, en omringd door Duisternis.
806
János Pilinszky
Paixão de Ravensbrück
Sai das fileiras e detém-
-se no silêncio carregado.
Vibram, como no écran, seu crânio
raspado e as roupas de forçado.
Está medonhamente só.
Podem-se ver seus poros. Tudo
de seu parece tão imenso.
Tudo de seu – tão diminuto.
Apenas isto. Quanto ao resto,
o resto, nada singular,
foi, antes de cair por terra,
ter se esquecido de gritar.
(tradução de Nelson Ascher)
:
Ravensbrücki passió
Kilép a többiek közul,
megáll a kockacsendben,
mint vetitett kép hunyorog
rabruha és fegyencfej.
Félelmetesen maga van,
a pórusait látni,
mindene olyan óriás,
mindene oly parányi.
És nincs tovább. A többi már,
a többi annyi volt csak,
elfelejtett kiáltani
mielott földre roskadt.
400
Maria Ângela Alvim
Sempre distante amor e perto anseio
Sempre distante amor e perto anseio,
e triste descambar do adeus e a ida
em promessa que apenas prometida
tanto levou do ser que o fez alheio.
De outra morte morrer, opõe receio?
Morre um morto após si, já em seguida
à perda ao largo de alma tão perdida?
Mortos são os que morrem vida em meio.
São os vivos de amor, que amor esquece,
e, súbito, na morte amadurece
antes de tudo mais que vai morrendo.
Feridos numa dor que está vivendo
no arrastar em gemido e em passo tardo,
ter sido, mais que ser, terrível fardo.
e triste descambar do adeus e a ida
em promessa que apenas prometida
tanto levou do ser que o fez alheio.
De outra morte morrer, opõe receio?
Morre um morto após si, já em seguida
à perda ao largo de alma tão perdida?
Mortos são os que morrem vida em meio.
São os vivos de amor, que amor esquece,
e, súbito, na morte amadurece
antes de tudo mais que vai morrendo.
Feridos numa dor que está vivendo
no arrastar em gemido e em passo tardo,
ter sido, mais que ser, terrível fardo.
919
António José Forte
O Bom Artífice
Entretanto
dez séculos mais tarde no local do drama
o diabo
diante do seu fomo
levanta por instantes seus doces olhos
para quatro mil cadafalsos
Vêde
mais além o bom artífice
mostrando
anjos
ou
batéis
ainda uma canção
se gostais
de belas torturas
não ouvireis nada
dez séculos mais tarde no local do drama
o diabo
diante do seu fomo
levanta por instantes seus doces olhos
para quatro mil cadafalsos
Vêde
mais além o bom artífice
mostrando
anjos
ou
batéis
ainda uma canção
se gostais
de belas torturas
não ouvireis nada
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
1 093
Maria Ângela Alvim
Carta a Maria Clea
Embora faça sol, a dor oprime a altura.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
804
Noémia de Sousa
Grão d'areia
Um só ínfimo grão d'areia
nunca imaginei
pesar tanto.
--------------
eu depondo
no clássico ritual
sobre o nosso adeus
constrangidos torrões
a mancheias.
nunca imaginei
pesar tanto.
--------------
eu depondo
no clássico ritual
sobre o nosso adeus
constrangidos torrões
a mancheias.
3 069
Lúcio Cardoso
o existir contínuo e líquido
“Que é o pra sempre senão o existir contínuo e líquido de tudo aquilo que é liberto da contingência, que se transforma, evolui e deságua sem cessar em praias de sensações também mutáveis? Inútil esconder: o para sempre ali se achava diante dos meus olhos. Um minuto ainda, apenas um minuto – e também este escorregaria longe do meu esforço para captá-lo, enquanto eu mesmo, também para sempre, escorreria e passaria – e comigo, como uma carga de detritos sem sentidos e sem chama, também escoaria para sempre meu amor, meu tormento e até mesmo minha própria fidelidade. Sim, que é o para sempre senão a última imagem deste mundo – não exclusivamente deste, mas de qualquer mundo que se enovele numa arquitetura de sonho e de permanência – a figuração de nossos jogos e prazeres, de nossos achaques e medos, de nossos amores e de nossas traições – a força enfim que modela não esse que somos diariamente, mas o possível, o constantemente inatingido, que perseguimos como se acompanha o rastro de um amor que não se consegue, e que afinal é apenas a lembrança de um bem perdido – quando? – num lugar que ignoramos, mas cuja perda nos punge, e nos arrebata, totais, a esse nada ou a esse tudo inflamado, injusto ou justo, onde para sempre nos confundimos ao geral, ao absoluto, ao perfeito de que tanto carecemos.”
(de Crônica da Casa Assassinada)
(de Crônica da Casa Assassinada)
1 123
Cruz e Sousa
Pandemonium
a Maurício Jubim
Em fundo de tristeza e de agonia
O teu perfil passa-me noite e dia.
Aflito, aflito, amargamente aflito,
Num gesto estranho que parece um grito.
E ondula e ondula e palpitando vaga,
Como profunda, como velha chaga.
E paira sobre ergástulos e abismos
Que abrem as bocas cheias de exorcismos.
Com os olhos vesgos, a flutuar de esguelha,
Segue-te atrás uma visão vermelha.
Uma visão gerada do teu sangue
Quando no Horror te debateste exangue,
Uma visão que é tua sombra pura
rodando na mais trágica tortura.
A sombra dos supremos sofrimentos
Que te abalaram como negros ventos.
E a sombra as tuas voltas acompanha
Sangrenta, horrível, assombrosa, estranha.
E o teu perfil no vácuo perpassando
Vê rubros caracteres flamejando.
Vê rubros caracteres singulares
De todos os festins de Baltazares.
Por toda a parte escrito em fogo eterno:
Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!
E os emissários espectrais das mortes
Abrindo as grandes asas flamifortes...
E o teu perfil oscila, treme, ondula,
Pelos abismos eternais circula...
Circula e vai gemendo e vai gemendo
E suspirando outro suspiro horrendo.
E a sombra rubra que te vai seguindo
Também parece ir soluçando e rindo.
Ir soluçando, de um soluço cavo
Que dos venenos traz o torvo travo.
Ir soluçando e rindo entre vorazes
Satanismos diabólicos, mordazes.
E eu já nem sei se e realidade ou sonho
Do teu perfil o divagar medonho.
Não sei se e sonho ou realidade todo
Esse acordar de chamas e de lodo.
Tal é a poeira extrema confundida
Da morte a raios de ouro de outra Vida.
Tais são as convulsões do último arranco
Presas a um sonho celestial e branco.
Tais são os vagos círculos inquietos
Dos teus giros de lágrimas secretos.
Mas, de repente, eis que te reconheço,
Sinto da tua vida o amargo preço.
Eis que te reconheço escravizada,
Divina Mãe, na Dor acorrentada.
Que reconheço a tua boca presa
Pela mordaça de uma sede acesa
Presa, fechada pela atroz mordaça
Dos fundos desesperos da Desgraça.
Eis que lembro os teus olhos visionários
Cheios do fel de bárbaros Calvários.
E o teu perfil asas abrir parece
Para outra Luz onde ninguém padece...
Com doçuras feéricas e meigas
De Satãs juvenis, ao luar, nas veigas.
E o teu perfil forma um saudoso vulto
Como de Santa sem altar, sem culto.
Forma um vulto saudoso e peregrino
De força que voltou ao seu destino.
De ser humano que sofrendo tanto
Purificou-se nos Azuis do Encanto.
Subiu, subiu e mergulhou sozinho,
Desamparado, no fetal caminho.
Que lá chegou transfigurado e aéreo,
Com os aromas das flores do Mistério.
Que lá chegou e as mortas portas mudas
Fez abalar de imprecações agudas...
E vai e vai o teu perfil ansioso,
De ondulações fantásticas, brumoso.
E vai perdido e vai perdido, errante,
Trêmulo, triste, vaporoso, ondeante.
Vai suspirando, num suspiro vivo
Que palpita nas sombras incisivo...
Um suspiro profundo, tão profundo
Que arrasta em si toda a paixão do mundo.
Suspiro de martírio, de ansiedade,
De alívio, de mistério, de saudade.
Suspiro imenso, aterrador e que erra
Por tudo e tudo eternamente aterra...
O pandemonium de suspiros soltos
Dos condenados corações revoltos.
Suspiro dos suspiros ansiados
Que rasgam peitos de dilacerados.
E mudo e pasmo e compungido e absorto,
Vendo o teu lento e doloroso giro,
Fico a cismar qual é o rio morto
Onde vai divagar esse suspiro.
Em fundo de tristeza e de agonia
O teu perfil passa-me noite e dia.
Aflito, aflito, amargamente aflito,
Num gesto estranho que parece um grito.
E ondula e ondula e palpitando vaga,
Como profunda, como velha chaga.
E paira sobre ergástulos e abismos
Que abrem as bocas cheias de exorcismos.
Com os olhos vesgos, a flutuar de esguelha,
Segue-te atrás uma visão vermelha.
Uma visão gerada do teu sangue
Quando no Horror te debateste exangue,
Uma visão que é tua sombra pura
rodando na mais trágica tortura.
A sombra dos supremos sofrimentos
Que te abalaram como negros ventos.
E a sombra as tuas voltas acompanha
Sangrenta, horrível, assombrosa, estranha.
E o teu perfil no vácuo perpassando
Vê rubros caracteres flamejando.
Vê rubros caracteres singulares
De todos os festins de Baltazares.
Por toda a parte escrito em fogo eterno:
Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!
E os emissários espectrais das mortes
Abrindo as grandes asas flamifortes...
E o teu perfil oscila, treme, ondula,
Pelos abismos eternais circula...
Circula e vai gemendo e vai gemendo
E suspirando outro suspiro horrendo.
E a sombra rubra que te vai seguindo
Também parece ir soluçando e rindo.
Ir soluçando, de um soluço cavo
Que dos venenos traz o torvo travo.
Ir soluçando e rindo entre vorazes
Satanismos diabólicos, mordazes.
E eu já nem sei se e realidade ou sonho
Do teu perfil o divagar medonho.
Não sei se e sonho ou realidade todo
Esse acordar de chamas e de lodo.
Tal é a poeira extrema confundida
Da morte a raios de ouro de outra Vida.
Tais são as convulsões do último arranco
Presas a um sonho celestial e branco.
Tais são os vagos círculos inquietos
Dos teus giros de lágrimas secretos.
Mas, de repente, eis que te reconheço,
Sinto da tua vida o amargo preço.
Eis que te reconheço escravizada,
Divina Mãe, na Dor acorrentada.
Que reconheço a tua boca presa
Pela mordaça de uma sede acesa
Presa, fechada pela atroz mordaça
Dos fundos desesperos da Desgraça.
Eis que lembro os teus olhos visionários
Cheios do fel de bárbaros Calvários.
E o teu perfil asas abrir parece
Para outra Luz onde ninguém padece...
Com doçuras feéricas e meigas
De Satãs juvenis, ao luar, nas veigas.
E o teu perfil forma um saudoso vulto
Como de Santa sem altar, sem culto.
Forma um vulto saudoso e peregrino
De força que voltou ao seu destino.
De ser humano que sofrendo tanto
Purificou-se nos Azuis do Encanto.
Subiu, subiu e mergulhou sozinho,
Desamparado, no fetal caminho.
Que lá chegou transfigurado e aéreo,
Com os aromas das flores do Mistério.
Que lá chegou e as mortas portas mudas
Fez abalar de imprecações agudas...
E vai e vai o teu perfil ansioso,
De ondulações fantásticas, brumoso.
E vai perdido e vai perdido, errante,
Trêmulo, triste, vaporoso, ondeante.
Vai suspirando, num suspiro vivo
Que palpita nas sombras incisivo...
Um suspiro profundo, tão profundo
Que arrasta em si toda a paixão do mundo.
Suspiro de martírio, de ansiedade,
De alívio, de mistério, de saudade.
Suspiro imenso, aterrador e que erra
Por tudo e tudo eternamente aterra...
O pandemonium de suspiros soltos
Dos condenados corações revoltos.
Suspiro dos suspiros ansiados
Que rasgam peitos de dilacerados.
E mudo e pasmo e compungido e absorto,
Vendo o teu lento e doloroso giro,
Fico a cismar qual é o rio morto
Onde vai divagar esse suspiro.
2 251
Heinrich Heine
Legado
A minha vida chega ao fim,
Escrevo pois meu testamento;
Cristão, eu lego aos inimigos
Dádivas de agradecimento.
Aos meus fiéis opositores
Eu deixo as pragas e doenças,
A minha coleção de dores,
Moléstias e deficiências.
Recebam ainda aquela cólica,
Mordendo feito uma torquês,
Pedras no rim e as hemorroidas,
Que inflamam no final do mês.
As minhas cãimbras e gastrite,
Hérnias de disco e convulsões –
Darei de herança tudo aquilo
Que usufruí em diversões.
Adendo à última vontade:
Que Deus caído em esquecimento
Lembre de vós e vos apague
Toda a memória e sentimento.
:
Vermächtniß
Nun mein Leben geht zu End’,
Mach’ ich auch mein Testament;
Christlich will ich drin bedenken
Meine Feinde mit Geschenken.
Diese wu¨rd’gen, tugendfesten
Widersacher sollen erben
All mein Siechthum und Verderben,
Meine sämmtlichen Gebresten.
Ich vermach’ Euch die Coliken,
Die den Bauch wie Zangen zwicken,
Harnbeschwerden, die perfiden
Preußischen Hämorrhoiden.
Meine Krämpfe sollt Ihr haben,
Speichelfluß und Gliederzucken,
Knochendarre in dem Rucken,
Lauter schöne Gottesgaben.
Codizill zu dem Vermächtniß:
In Vergessenheit versenken
Soll der Herr Eu’r Angedenken,
Er vertilge Eu’r Gedächtniß.
[1851]
1 549
Horst Bienek
A época seguinte
I
Há uma época
........e a época seguinte
sobre qual época gostaríamos de conversar?
II
Quando o cervo pastou junto ao leão
quando amadureceu a maçã para aquele que adubara a macieira
quando àquele que pescou o peixe permitiu-se também comê-lo
era uma época
....................época paradisíaca
..........................sobre a qual nossos ouvidos
apreciavam o sermão
Quando nos apertamos de bruços em catres de madeira
quando a escuridão trancafiou nossos corpos em suor
quando a fome esmigalhou-nos os sonhos e o sono
era uma época
....................época tenebrosa
..........................que não desejávamos
aos nossos inimigos
Quando os vigias berravam no pátio para nossa contagem
quando cavamos da terra o carvão com ferramentas cegas
quando buscamos uma resposta nas petrificações negras
por que essa época
....................assim era
...........................sobre a qual preferiríamos
haver lido nos manuais escolares
Quando voltamos sem lembrança às cidades natais
quando – incógnitos – misturamo-nos entre os habitantes
quando arrombamos suas portas e deixamos voltar a desconfiança
era uma época
....................época dolorosa
...........................em que transbordamos
em nossa aflição
III
Nós estamos no caminho de uma época
para outra
..............................mas aonde nos encaminhamos
..............................não haveremos de chegar
..............................às vezes nossos joelhos partem-se
..............................e a chuva molha nossos rostos
nós cantamos
.............ninguém nos ouve
.............(pois o cansaço
.............cola-nos de suor os lábios)
nossos gestos são trémulos
.............ninguém os compreende
.............(pois o desespero
.............rebenta-nos os braços do tronco)
nós continuamos
no caminho que leva de uma época
...........................à época seguinte
IV
Por compaixão jogam-nos palavras no colo
:
Die Zeit danach:/ I / Es gibt eine Zeit / und die Zeit danach / von welcher Zeit wollen wir reden? // II / Als das Reh neben dem Löwen weidete / als der Apfel reifte für den der den Apfelbaum düngte / als wer den Fisch fing ihn auch essen durfte / das war eine Zeit / paradiesische Zeit / von der wir gerne / predigen hörten. // Als wir zusammengedrängt lagen auf hölzernen Pritschen / als die Dunkelheit unsere schwitzenden Leiber einsperrte / als uns der Hunger den Schlaf und den Traum zerspellte / das war eine Zeit / finstere Zeit / die wir unseren Feinden / nicht wünschten // Als der Schrei des Wachmanns uns auf den Appellplatz jagte / als wir mit stumpfen Geräaten die Kohle aus der Erde gruben / als wir in den schwarzen Versteinerungen eine Antwort suchten / warum diese Zeit / so war / von der wir lieber / in den Lesebüchern gelesen hätten // Als wir heimkehrten in die Städte ohne Erinnerung / als – unerkannt – wir uns unter ihre Bewohner mischten / als wir einbrachen in ihre Häuser und den Argwohn zurückliessen / das war eine Zeit / schmerzliche Zeit / die wir unserer Trauer / zuschütteten // III // Wir sind auf den Weg von der einen Zeit / in die andere / doch wohin wir auch gehen / wir kommen nicht an / machmal brechen wir in die Knie / und der Regen nässt unsre Gesichter / wir singen / man hört uns nicht / (denn die Müdigkeit / schweisst uns die Lippen zusammen) / unsere Gesten sind zaghaft / man begreift sie nicht / (denn die Verzweiflung / schlägt uns die Arme vom Rumpf) / wir gehen weiter / auf dem Weg von der einen Zeit / ind die Zeit danach // IV // Mitleidig wirft man uns Wörter in den Schoss
.
.
.
747
Cruz e Sousa
Tédio
Vala comum de corpos que apodrecem,
E esverdeada gangrene
Cobrindo vastidões que fosforescem
Sobre a esfera terrena.
Bocejo torvo de desejos turvos,
Languescente bocejo
De velhos diabos de chavelhos curvos
Rugindo de desejo.
Sangue coalhado, congelado, frio,
Espasmado nas veias
Pesadelo sinistro de algum rio
De sinistras sereias.
Alma sem rumo, a modorrar de sono,
Mole, túrbida, lassa.
Monotonias lúbricas de um mono
Dançando numa praça.
Mudas epilepsias, mudas, mudas,
Mudas epilepsias,
Masturbações mentais, fundas, agudas,
Negras nevrostenias.
Flores sangrentas do soturno vício
Que as almas queima e morde..
Música estranha de fetal suplício,
Vago, mórbido acorde.
Noite cerrada para o Pensamento
Nebuloso degredo
Onde em cavo clangor surdo do vento
Rouco pragueja o medo.
Plaga vencida por tremendas pragas,
Devorada por pestes,
Esboroada pelas rubras chagas
Dos incêndios celestes.
Sabor de sangue, Lágrimas e terra
Revolvida de fresco,
Guerra sombria dos sentidos, guerra,
Tantalismo dantesco.
Silêncio carregado e fundo e denso
Como um poço secreto,
Dobre pesado, carrilhão imenso
Do segredo inquieto.
Florescência do Mal, hediondo parto
Tenebroso do crime,
Pandemonium feral de ventre farto
Do Nirvana sublime.
Delírio contorcido, convulsivo
De felinas serpentes,
No silamento e no mover lascivo
Das caudas e dos dentes.
Porco lúgubre, lúbrico, trevoso
Do tábido pecado,
Fuçando colossal, formidoloso
Nos lodos do passado.
Ritmos de forças e de graças mortas,
Melancólico exílio,
Difusão de um mistério que abre portas
Para um secreto idílio.
Ócio das almas ou requinte delas,
Quint'essências, velhices
De luas de nevroses amarelas,
Venenosas meiguices.
Insônia morna e doente dos Espaços,
Letargia funérea,
Vermes, abutres a correr pedaços
Da carne deletéria.
Um misto de saudade e de tortura,
De lama, de ódio e de asco,
Carnaval infernal da Sepultura,
Risada do carrasco.
Ó tédio amargo, ó tédio dos suspiros,
Ó tédio d'ansiedades!
Quanta vez eu não subo nos teus giros
Fundas eternidades!
Quanta vez envolvido do teu luto
Nos sudários profundos
Eu, calado, a tremer, ao longe, escuto
Desmoronarem mundos!
Os teus soluços, todo o grande pranto,
Taciturnos gemidos,
Fazem gerar flores de amargo encanto
Nos corações doridos.
Tédio! que pões nas almas olvidadas
Ondulações de abismo
E sombras vesgas, lívidas, paradas,
No mais feroz mutismo!
Tédio do Réquiem do Universo inteiro,
Morbus negro, nefando,
Sentimento fatal e derradeiro
Das estrelas gelando.
O Tédio! Rei da Morte! Rei boêmio!
Ó Fantasma enfadonho!
És o sol negro, o criador, o gêmeo,
Velho irmão do meu sonho!
E esverdeada gangrene
Cobrindo vastidões que fosforescem
Sobre a esfera terrena.
Bocejo torvo de desejos turvos,
Languescente bocejo
De velhos diabos de chavelhos curvos
Rugindo de desejo.
Sangue coalhado, congelado, frio,
Espasmado nas veias
Pesadelo sinistro de algum rio
De sinistras sereias.
Alma sem rumo, a modorrar de sono,
Mole, túrbida, lassa.
Monotonias lúbricas de um mono
Dançando numa praça.
Mudas epilepsias, mudas, mudas,
Mudas epilepsias,
Masturbações mentais, fundas, agudas,
Negras nevrostenias.
Flores sangrentas do soturno vício
Que as almas queima e morde..
Música estranha de fetal suplício,
Vago, mórbido acorde.
Noite cerrada para o Pensamento
Nebuloso degredo
Onde em cavo clangor surdo do vento
Rouco pragueja o medo.
Plaga vencida por tremendas pragas,
Devorada por pestes,
Esboroada pelas rubras chagas
Dos incêndios celestes.
Sabor de sangue, Lágrimas e terra
Revolvida de fresco,
Guerra sombria dos sentidos, guerra,
Tantalismo dantesco.
Silêncio carregado e fundo e denso
Como um poço secreto,
Dobre pesado, carrilhão imenso
Do segredo inquieto.
Florescência do Mal, hediondo parto
Tenebroso do crime,
Pandemonium feral de ventre farto
Do Nirvana sublime.
Delírio contorcido, convulsivo
De felinas serpentes,
No silamento e no mover lascivo
Das caudas e dos dentes.
Porco lúgubre, lúbrico, trevoso
Do tábido pecado,
Fuçando colossal, formidoloso
Nos lodos do passado.
Ritmos de forças e de graças mortas,
Melancólico exílio,
Difusão de um mistério que abre portas
Para um secreto idílio.
Ócio das almas ou requinte delas,
Quint'essências, velhices
De luas de nevroses amarelas,
Venenosas meiguices.
Insônia morna e doente dos Espaços,
Letargia funérea,
Vermes, abutres a correr pedaços
Da carne deletéria.
Um misto de saudade e de tortura,
De lama, de ódio e de asco,
Carnaval infernal da Sepultura,
Risada do carrasco.
Ó tédio amargo, ó tédio dos suspiros,
Ó tédio d'ansiedades!
Quanta vez eu não subo nos teus giros
Fundas eternidades!
Quanta vez envolvido do teu luto
Nos sudários profundos
Eu, calado, a tremer, ao longe, escuto
Desmoronarem mundos!
Os teus soluços, todo o grande pranto,
Taciturnos gemidos,
Fazem gerar flores de amargo encanto
Nos corações doridos.
Tédio! que pões nas almas olvidadas
Ondulações de abismo
E sombras vesgas, lívidas, paradas,
No mais feroz mutismo!
Tédio do Réquiem do Universo inteiro,
Morbus negro, nefando,
Sentimento fatal e derradeiro
Das estrelas gelando.
O Tédio! Rei da Morte! Rei boêmio!
Ó Fantasma enfadonho!
És o sol negro, o criador, o gêmeo,
Velho irmão do meu sonho!
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