Poemas neste tema
Dor e Desespero
Raimundo Bento Sotero
Separação
Dá-me cedo, Senhor, humilde assento
Ao lado da que foi tão de repente,
Pois desde o dia em que se fez ausente
Que vivo entre um soluço e um Lamento.
Oh! Como dói, meu Deus, o sentimento
De perder quem a vida não consente
Que nem um só instante saia à mente,
Pois se eterniza cá no sofrimento!
Vou assim, por sol quente e noite fria,
Arrastando meu fardo de agonia
Como um doente já de "Sentinela".
Leva-me, Pai, também à tua presença.
A Morte para mim é recompensa:
Melhor morrer a viver longe Dela!
Ao lado da que foi tão de repente,
Pois desde o dia em que se fez ausente
Que vivo entre um soluço e um Lamento.
Oh! Como dói, meu Deus, o sentimento
De perder quem a vida não consente
Que nem um só instante saia à mente,
Pois se eterniza cá no sofrimento!
Vou assim, por sol quente e noite fria,
Arrastando meu fardo de agonia
Como um doente já de "Sentinela".
Leva-me, Pai, também à tua presença.
A Morte para mim é recompensa:
Melhor morrer a viver longe Dela!
952
Juscelino Vieira Mendes
Chuva
Chuva, chove
Cai, mata, desce veloz
Torrencial, matinal
Desgraçadamente sobre eles, nós, todos...
Inunda, transborda rios: de sangue!
De água, sem cessar...
Continua matando, transbordando
No estado do Rio; do Paraná; de São Paulo e do Ceará...
Nada de água; água prá nada.
Fogem de lá prá cá... enchente...ingente, indigente!
Para morrerem de sede; de fome
Sem amor, de dor, de saudade.
Sem saudade; de amor...
Continua caindo, sempre
Molhando, invadindo
matando-os; não eles...
Não latifundiários; não os bons
Somente os maus
Desce, chove
cresce, enche
Mata a fome: de fome
Uns, outros, todos...
(...e inunda-me também o coração!).
enchente de janeiro de 1977.
Cai, mata, desce veloz
Torrencial, matinal
Desgraçadamente sobre eles, nós, todos...
Inunda, transborda rios: de sangue!
De água, sem cessar...
Continua matando, transbordando
No estado do Rio; do Paraná; de São Paulo e do Ceará...
Nada de água; água prá nada.
Fogem de lá prá cá... enchente...ingente, indigente!
Para morrerem de sede; de fome
Sem amor, de dor, de saudade.
Sem saudade; de amor...
Continua caindo, sempre
Molhando, invadindo
matando-os; não eles...
Não latifundiários; não os bons
Somente os maus
Desce, chove
cresce, enche
Mata a fome: de fome
Uns, outros, todos...
(...e inunda-me também o coração!).
enchente de janeiro de 1977.
1 013
Luís Amaro
Bairro
Em teu corpo enfim repousarei
Das pedras ásperas
Que mal sei pisar?
Das guerras, dos cilícios,
Dos ecos a doerem nos ouvidos
Como pedradas.
E dos tédios que sangram?
Ah, finalmente
Ao desfolhar teu corpo desfolhado
— Mas inda fresco e belo —
A vida será minha?
Das pedras ásperas
Que mal sei pisar?
Das guerras, dos cilícios,
Dos ecos a doerem nos ouvidos
Como pedradas.
E dos tédios que sangram?
Ah, finalmente
Ao desfolhar teu corpo desfolhado
— Mas inda fresco e belo —
A vida será minha?
912
Cirstina Areias
Uma Imagem na TV do Fim do Século
A criança loura da doença letal adquirida
Tem um cansaço no olhar velho que vagueia,
Transpassa...
A criança terminal
Põe a cabeça no ombro infinito da mãe
E deixa escapar, do abnegado aconchego,
Toda a calamidade e infâmia do mundo...
O que há nesse abraço que não é meu,
Que não me pertence,
Mas que me mortifica?!
A criança loura, do olhar castanho cansado,
Da doença terminal adquirida,
(Adquirida nos bancos públicos,
Nos banheiros públicos,
Nos Homens Públicos...)
A criança loura jaz sua cabeça no ombro inútil da mãe
Há um enorme fastio de brinquedos em seu olhar...
A criança loura jaz sua cabeça no ombro da mãe,
A criança loura
Jaz seu olhar em meu olhar...
Tem um cansaço no olhar velho que vagueia,
Transpassa...
A criança terminal
Põe a cabeça no ombro infinito da mãe
E deixa escapar, do abnegado aconchego,
Toda a calamidade e infâmia do mundo...
O que há nesse abraço que não é meu,
Que não me pertence,
Mas que me mortifica?!
A criança loura, do olhar castanho cansado,
Da doença terminal adquirida,
(Adquirida nos bancos públicos,
Nos banheiros públicos,
Nos Homens Públicos...)
A criança loura jaz sua cabeça no ombro inútil da mãe
Há um enorme fastio de brinquedos em seu olhar...
A criança loura jaz sua cabeça no ombro da mãe,
A criança loura
Jaz seu olhar em meu olhar...
775
Juscelino Vieira Mendes
Tormento
Para Maristela Mendes
Porque, enquanto um homem permanece
entre os vivos, há esperança.
Eclesiastes, IX, 4
Há essa angústia de ser humano
E os répteis
se entrincheiram no hospital
E os vermes
se preparam para devorar uma linda criança
Indecorosa orgia da dor
Cruel da degenerescência humana...
E há essa indiferença de ser humano
que transcende as raias do absurdo
Insensatez:
"Onde está o teu crachá?"
"Não tem ninguém para examinar o sangue!"
"Já estou no meu horário de saída..."
E há essa alegria de ser humano
De ter com quem contar
Ter a quem buscar
Que paira sobre todos
E a todos domina
E ama
E há essa esperança de ser humano
Na manhã que vem suave e forte
sobre a embriaguez sonora do vento
apavorando vermes e répteis
E entre a angústia, alegria e esperança
um trilho imenso de leito ao lar
onde enfermeiras e médicos
crachás e pessoas; vozes e braços
harmonizam o cântico singelo e belo:
"Ela está salva — vai!...
Maristela vive — vem!."
Domingo, 29 de julho de 1990.
Notas:
1.Conquista - município baiano de Vitória da Conquista, lugar de nascimento do autor deste poema.
2. "Em Busca do Tempo Perdido" - (parte inicial: "No Caminho de Swann") - obra máxima de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana - Editor Victor Civita.
3.Logradouros públicos e estabelecimentos citados: permanecem com seus nomes inalterados.
4.As expressões: "cérebro emocional" e as palavras: "amígdala" e "hipocampo" são usadas no mesmo sentido na obra "Inteligência Emocional" de Daniel Goleman, tradução de Marcos Santarrita - Editora Objetiva Ltda.
5.Clemente: pai do autor deste poema, falecido em acidente de automóvel aos 37 anos de idade chegando em Vit. da Conquista.
Porque, enquanto um homem permanece
entre os vivos, há esperança.
Eclesiastes, IX, 4
Há essa angústia de ser humano
E os répteis
se entrincheiram no hospital
E os vermes
se preparam para devorar uma linda criança
Indecorosa orgia da dor
Cruel da degenerescência humana...
E há essa indiferença de ser humano
que transcende as raias do absurdo
Insensatez:
"Onde está o teu crachá?"
"Não tem ninguém para examinar o sangue!"
"Já estou no meu horário de saída..."
E há essa alegria de ser humano
De ter com quem contar
Ter a quem buscar
Que paira sobre todos
E a todos domina
E ama
E há essa esperança de ser humano
Na manhã que vem suave e forte
sobre a embriaguez sonora do vento
apavorando vermes e répteis
E entre a angústia, alegria e esperança
um trilho imenso de leito ao lar
onde enfermeiras e médicos
crachás e pessoas; vozes e braços
harmonizam o cântico singelo e belo:
"Ela está salva — vai!...
Maristela vive — vem!."
Domingo, 29 de julho de 1990.
Notas:
1.Conquista - município baiano de Vitória da Conquista, lugar de nascimento do autor deste poema.
2. "Em Busca do Tempo Perdido" - (parte inicial: "No Caminho de Swann") - obra máxima de Marcel Proust, tradução de Mário Quintana - Editor Victor Civita.
3.Logradouros públicos e estabelecimentos citados: permanecem com seus nomes inalterados.
4.As expressões: "cérebro emocional" e as palavras: "amígdala" e "hipocampo" são usadas no mesmo sentido na obra "Inteligência Emocional" de Daniel Goleman, tradução de Marcos Santarrita - Editora Objetiva Ltda.
5.Clemente: pai do autor deste poema, falecido em acidente de automóvel aos 37 anos de idade chegando em Vit. da Conquista.
1 048
Juscelino Vieira Mendes
Morreu Sem Constrangimento
(Tragédia em três atos)
"Eu pensei que ciúme era uma idéia. Não é. É uma dor.
Mas eu não me senti, como eles se sentem, num melodrama
da Broadway. Eu não queria matar ninguém. Eu só queria morrer."
Floyd Dell
Houve quem dissesse
que matou e morreu
por amor, como se se pudesse
matar e morrer, aniquilando o eu
Ódio o tornou cego
Impulso do Id é o que restou
Não aceitou o controle do ego
Matou - Não amou!...
Estreitamento da consciência
sobrou apenas sentimento
Agiu sem Providência
e viveu tão pouco tempo
Martirizou-se; tornou-se pura violência
em tórrida manhã de dezembro:
Matou, Morreu, Morremos - Sem Constrangimento...
11 de dezembro de 1995
NOTA:
Morte prematura
No dia 11 de dezembro, Christian Hartmann, 21, matou com seis tiros a ex-namorada Renata Cristina Francisco Alves, 20, e feriu gravemente Winston Goldoni, 23, com quem Renata estava namorando. Depois, se matou com um tiro na boca. Tudo numa sala de computadores da Escola Politécnica da USP. Eles cursavam engenharia macatrônica. Christian e Renata tiveram um relacionamento em 94, e ele já a havia ameaçado de morte.
Folha de São Paulo, página 18, 11/12/95.
"Eu pensei que ciúme era uma idéia. Não é. É uma dor.
Mas eu não me senti, como eles se sentem, num melodrama
da Broadway. Eu não queria matar ninguém. Eu só queria morrer."
Floyd Dell
Houve quem dissesse
que matou e morreu
por amor, como se se pudesse
matar e morrer, aniquilando o eu
Ódio o tornou cego
Impulso do Id é o que restou
Não aceitou o controle do ego
Matou - Não amou!...
Estreitamento da consciência
sobrou apenas sentimento
Agiu sem Providência
e viveu tão pouco tempo
Martirizou-se; tornou-se pura violência
em tórrida manhã de dezembro:
Matou, Morreu, Morremos - Sem Constrangimento...
11 de dezembro de 1995
NOTA:
Morte prematura
No dia 11 de dezembro, Christian Hartmann, 21, matou com seis tiros a ex-namorada Renata Cristina Francisco Alves, 20, e feriu gravemente Winston Goldoni, 23, com quem Renata estava namorando. Depois, se matou com um tiro na boca. Tudo numa sala de computadores da Escola Politécnica da USP. Eles cursavam engenharia macatrônica. Christian e Renata tiveram um relacionamento em 94, e ele já a havia ameaçado de morte.
Folha de São Paulo, página 18, 11/12/95.
3 262
Luís Amaro
A Um Poeta
(memorando Manuel Ribeiro de Pavia)
Não reveleis o sono. A luz do dia
Fere de mais a alma; e, oculta,
A face esquece a sua chaga rubra.
A dor, amordaçando, purifica:
Que ela te dê, no sangue, o novo alento
Para outros voos de que sairás vencido
(Mas entretanto vives…) E procura
Haurir na solidão a graça, o prémio
Daquele instante puro, essencial
A que não chega o vão rumor do tempo
Desfigurado e vil. E, já liberto,
Conhecerás tua verdade inteira
Ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
Segredar-te as palavras invisíveis
De que é tecida a Noite — tua esperança!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Não reveleis o sono. A luz do dia
Fere de mais a alma; e, oculta,
A face esquece a sua chaga rubra.
A dor, amordaçando, purifica:
Que ela te dê, no sangue, o novo alento
Para outros voos de que sairás vencido
(Mas entretanto vives…) E procura
Haurir na solidão a graça, o prémio
Daquele instante puro, essencial
A que não chega o vão rumor do tempo
Desfigurado e vil. E, já liberto,
Conhecerás tua verdade inteira
Ouvindo alguém, sem corpo nem memória,
Segredar-te as palavras invisíveis
De que é tecida a Noite — tua esperança!
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 020
António Gancho
Tu és mortal meu Deus
Noite, vem noite
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
1 542
João Monge
Aerograma
Deus queira que esta
Vos mate a fome aos sentidos
Por agora
Deus queira que esta
Vos guarde a dor aos gemidos
Noite fora
Dançamos fandangos
Sobre uma navalha
Pássaros em bando
Em nuvens de limalha
E assim eu cá vou indo.
Vem-me o fel à boca
As tripas ao coração
A noite trás a forca pela sua mão
Sonho com fantasmas
De pele preta e luzidia
Com manuais de coragem e cobardia
Dizem que há sempre
Um barco azul para partir
Nosso hino
Embarca a alma
E os restos de um rosto a sorrir
Do destino
Põe o meu retrato
No altar de S. João
E uma vela com formato de canhão
Cansa-se esta escrita
Com dois dedos num baraço
Assim o quis a desdita
Vai um abraço.
Vos mate a fome aos sentidos
Por agora
Deus queira que esta
Vos guarde a dor aos gemidos
Noite fora
Dançamos fandangos
Sobre uma navalha
Pássaros em bando
Em nuvens de limalha
E assim eu cá vou indo.
Vem-me o fel à boca
As tripas ao coração
A noite trás a forca pela sua mão
Sonho com fantasmas
De pele preta e luzidia
Com manuais de coragem e cobardia
Dizem que há sempre
Um barco azul para partir
Nosso hino
Embarca a alma
E os restos de um rosto a sorrir
Do destino
Põe o meu retrato
No altar de S. João
E uma vela com formato de canhão
Cansa-se esta escrita
Com dois dedos num baraço
Assim o quis a desdita
Vai um abraço.
1 286
Sérgio Godinho
Emboscadas
Foste como quem me armasse uma emboscada
ao sentir-me desatento
dando aquilo em que me dei
foste como quem me urdisse uma cilada
vi-me com tão pouca coisa
depois do que tanto amei
Rasguei o teu sorriso
quatro vezes foi preciso
por não precisares de mim
e depois, quando dormias
fiuz de conta que fugias
e que eu não ficava assim
nesta dor em que me vejo
do nos ver quase no fim
Foste como quem lançasse as armadilhas
que se lançam aos amantes
quando amar foi coisa em vão
foste como quem vestisse as mascarilhas
dos embustes que se tramam
ao cair da escuridão
Resgatei o teu carinho
quatro vezes fiz o ninho
num beiral do teu jardim
e depois, já em cuidado
vi no teu espelho do passado
a tua imagem de mim
e esta dor em que me vejo
de nos ver quase no fim
Foste como quem cumprisse uma vingança
que guardavas às escuras
esperando a sua vez
foste como quem me desse uma bonança
fraquejando à tempestade
de tão frágil que se fez
Resgatei o teu ciúme
quatro vezes deitei lume
ao teu corpo de marfim
e depois, como uma espada
pousie na terra queimada
o meu ramo de alecrim
e esta dor em que me vejo
de nos ver perto do fim.
ao sentir-me desatento
dando aquilo em que me dei
foste como quem me urdisse uma cilada
vi-me com tão pouca coisa
depois do que tanto amei
Rasguei o teu sorriso
quatro vezes foi preciso
por não precisares de mim
e depois, quando dormias
fiuz de conta que fugias
e que eu não ficava assim
nesta dor em que me vejo
do nos ver quase no fim
Foste como quem lançasse as armadilhas
que se lançam aos amantes
quando amar foi coisa em vão
foste como quem vestisse as mascarilhas
dos embustes que se tramam
ao cair da escuridão
Resgatei o teu carinho
quatro vezes fiz o ninho
num beiral do teu jardim
e depois, já em cuidado
vi no teu espelho do passado
a tua imagem de mim
e esta dor em que me vejo
de nos ver quase no fim
Foste como quem cumprisse uma vingança
que guardavas às escuras
esperando a sua vez
foste como quem me desse uma bonança
fraquejando à tempestade
de tão frágil que se fez
Resgatei o teu ciúme
quatro vezes deitei lume
ao teu corpo de marfim
e depois, como uma espada
pousie na terra queimada
o meu ramo de alecrim
e esta dor em que me vejo
de nos ver perto do fim.
1 356
Albano Dias Martins
Aqui começam
todas
as doenças. A do feno
e seus alvéolos furtivos, a da lepra
das palavras traídas, nunca
usadas. E as maleitas
da pele, a insanável
maresia da língua.
as doenças. A do feno
e seus alvéolos furtivos, a da lepra
das palavras traídas, nunca
usadas. E as maleitas
da pele, a insanável
maresia da língua.
1 222
Carlos de Oliveira
Desço
pelo cascalho interno da terra,
onde o esqueleto da vida
se petrifica protestando.
Como um rio ao contrário,de águas povoadas
por alucinações mortas boiando levadas
para a alma da terra,
procuro os úberes do fogo.
de Descida Aos Infernos
onde o esqueleto da vida
se petrifica protestando.
Como um rio ao contrário,de águas povoadas
por alucinações mortas boiando levadas
para a alma da terra,
procuro os úberes do fogo.
de Descida Aos Infernos
2 365
Celso Emilio Ferreiro
Longa noite de pedra
O teito é de pedra.
De pedra son os muros
i as tebras.
De pedra o chan
i as reixas.
As portas,
as cadeas,
o aire,
as fenestras,
as olladas,
son de pedra.
Os corazós dos homes
que ao lonxe espreitan
feitos están
tamén
de pedra.
I eu, morrendo
nesta longa noite
de pedra.
De pedra son os muros
i as tebras.
De pedra o chan
i as reixas.
As portas,
as cadeas,
o aire,
as fenestras,
as olladas,
son de pedra.
Os corazós dos homes
que ao lonxe espreitan
feitos están
tamén
de pedra.
I eu, morrendo
nesta longa noite
de pedra.
1 686
Geraldo Falcão
Sede
Boca invisível
na flor da boca,
lábios rachados
de sol e sal,
de folha e palha.
Língua de brasa
queima a garganta;
voz abafada,
som que farfalha.
As cimitarras
voam ao vento,
cortam papéis
(brancas mortalhas).
Ossos ressecos
feitos de pó,
baixos-relevos
no chão gretado.
Rente à corrente
de águas que fervem
alço o meu corpo
círio fanado,
chama indecisa
que arde tão só.
na flor da boca,
lábios rachados
de sol e sal,
de folha e palha.
Língua de brasa
queima a garganta;
voz abafada,
som que farfalha.
As cimitarras
voam ao vento,
cortam papéis
(brancas mortalhas).
Ossos ressecos
feitos de pó,
baixos-relevos
no chão gretado.
Rente à corrente
de águas que fervem
alço o meu corpo
círio fanado,
chama indecisa
que arde tão só.
1 000
Bocage
O poeta asseteado por amor
Ó Céus! Que sinto nalma! Que tormento!
Que repentino frenesi me anseia!
Que veneno a ferver de veia em veia
Me gasta a vida, me desfaz o alento!
Tal era, doce amada, o meu lamento;
Eis que esse deus, que em prantos se recreia,
Me diz: < Contemplar Ursulina um só momento!
>>Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura
De seus olhos travessos, e cum tiro
Puni tua sacrílega loucura:
>>De morte, por piedade hoje te firo;
Vai pois, vai merecer na sepultura
À tua linda ingrata algum suspiro.>>
Que repentino frenesi me anseia!
Que veneno a ferver de veia em veia
Me gasta a vida, me desfaz o alento!
Tal era, doce amada, o meu lamento;
Eis que esse deus, que em prantos se recreia,
Me diz: < Contemplar Ursulina um só momento!
>>Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura
De seus olhos travessos, e cum tiro
Puni tua sacrílega loucura:
>>De morte, por piedade hoje te firo;
Vai pois, vai merecer na sepultura
À tua linda ingrata algum suspiro.>>
2 181
Abade de Jazente
Amor é um arder que se não sente
Amor é um arder que se não sente;
É febre, que no peito faz secura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.
É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágua, que devora o fogo ardente.
É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.
É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos.
É quem me mata e vida me está dando.
É febre, que no peito faz secura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.
É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágua, que devora o fogo ardente.
É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.
É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos.
É quem me mata e vida me está dando.
1 163
Bocage
O autor aos seus versos
Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:
Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:
Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:
Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:
Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:
Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:
Desculpa tendes, se valeis tão pouco,
Que não pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.
2 707
Fernando Pessoa
XXX - I do not know what truth the false untruth
I do not know what truth the false untruth
Of this sad sense of the seen world may own,
Or if this flowered plant bears also a fruit
Unto the true reality unknown.
But as the rainbow, neither earth's nor sky's,
Stands in the dripping freshness of lulled rain,
A hope, note real yet not fancy's, lies
Athwart the moment of our ceasing pain.
Somehow, since pain is felt yet felt as ill,
Hope hath a better warrant than being hoped;
Since pain is felt as aught we should not feel
Man hath a Nature's reason for having groped,
Since Time was Time and age and grief his measures
Towards a better shelter than Time's pleasures.
Of this sad sense of the seen world may own,
Or if this flowered plant bears also a fruit
Unto the true reality unknown.
But as the rainbow, neither earth's nor sky's,
Stands in the dripping freshness of lulled rain,
A hope, note real yet not fancy's, lies
Athwart the moment of our ceasing pain.
Somehow, since pain is felt yet felt as ill,
Hope hath a better warrant than being hoped;
Since pain is felt as aught we should not feel
Man hath a Nature's reason for having groped,
Since Time was Time and age and grief his measures
Towards a better shelter than Time's pleasures.
4 116
Fernando Pessoa
30 - L'INCONNUE
L'INCONNUE
Let thy hand set
My hair back. Look
Into mine eyes.
There runs a brook
Right through the heat
Of my hushed cries.
Let thy hand rest
Upon my brow.
Let thine eyes smile
Into the unrest
Of mine eyes now
Thine for a while.
Ay, forget not
To let that touch
Be felt by me,
Light like a thought
Of it, and such
As hope can be.
Let thy hand sweep
Over my hair
One little while.
I seem asleep
But cannot bear
To feel me smile.
All things have failed.
All hopes are dead.
All joys are brief.
Ay, let thy hand,
As if it quailed
From feeling sad,
Give me relief!
No matter if
None understand.
Ay, on my brow
Let thy hand be.
What life is now
Is worth so little
That pain seems brittle
And thought a slough.
Put my hair back
From my brow's pain.
There runs a track
Of lightness through
My heavy brain.
What does this mean?
These are words set
To an idle tune.
What I regret
Hath never been.
Lest my rest fret,
True rest, come soon!
Let thy hand set
My hair back. Look
Into mine eyes.
There runs a brook
Right through the heat
Of my hushed cries.
Let thy hand rest
Upon my brow.
Let thine eyes smile
Into the unrest
Of mine eyes now
Thine for a while.
Ay, forget not
To let that touch
Be felt by me,
Light like a thought
Of it, and such
As hope can be.
Let thy hand sweep
Over my hair
One little while.
I seem asleep
But cannot bear
To feel me smile.
All things have failed.
All hopes are dead.
All joys are brief.
Ay, let thy hand,
As if it quailed
From feeling sad,
Give me relief!
No matter if
None understand.
Ay, on my brow
Let thy hand be.
What life is now
Is worth so little
That pain seems brittle
And thought a slough.
Put my hair back
From my brow's pain.
There runs a track
Of lightness through
My heavy brain.
What does this mean?
These are words set
To an idle tune.
What I regret
Hath never been.
Lest my rest fret,
True rest, come soon!
4 426
Fernando Pessoa
27 - THE BROKEN WINDOW
THE BROKEN WINDOW
My heart is silent as a look.
There is a home beyond the hills.
My heart is silent as a look.
My home is there, beyond the hills.
I bear my heart like an old curse.
There is no reason for regret.
I bear my heart like an old curse.
Why should we reason or regret?
My heart dwells in me like a ghost.
Beyond the hills my hope lies dead.
My heart dwells with me like a ghost.
Beyond my hope the hills lie dead.
They took away my heart like weeds.
It was not true that I should live.
They took away my heart like weeds.
I could not think it true to live.
Now there are great stains in my heart.
They are like blood-stains on a floor.
Now there are great stains in my heart.
And my heart lies upon the floor.
The room is closed for ever now.
My heart is now buried alive.
My heart is closed for ever now.
The whole room is buried alive.
My heart is silent as a look.
There is a home beyond the hills.
My heart is silent as a look.
My home is there, beyond the hills.
I bear my heart like an old curse.
There is no reason for regret.
I bear my heart like an old curse.
Why should we reason or regret?
My heart dwells in me like a ghost.
Beyond the hills my hope lies dead.
My heart dwells with me like a ghost.
Beyond my hope the hills lie dead.
They took away my heart like weeds.
It was not true that I should live.
They took away my heart like weeds.
I could not think it true to live.
Now there are great stains in my heart.
They are like blood-stains on a floor.
Now there are great stains in my heart.
And my heart lies upon the floor.
The room is closed for ever now.
My heart is now buried alive.
My heart is closed for ever now.
The whole room is buried alive.
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Fernando Pessoa
24 - EPISODE
EPISODE
No matter what we dream,
What we dream is true.
No matter what doth seem,
God doth it view
And therefore it is
Real as all this.
No matter what we wish,
We have it elsewhere,
Now, e'er now and rich
Are we here of there.
Inside our felt I
God we self-descry.
Sometimes I think hope
May make this come true,
But I stop, I grope,
And life, fear and woe
Is all that remains.
Wherefore then these pains,
This unrest that thrills
With a possible joy,
All the pain that fills
Our hope till it cloy?
Wherefore this, wherefore
If all is unsure?
O give me a breeze
On a meadow land,
And let that breeze please
Nor I understand.
For all anguish is
A vague wish for bliss.
No matter what we dream,
What we dream is true.
No matter what doth seem,
God doth it view
And therefore it is
Real as all this.
No matter what we wish,
We have it elsewhere,
Now, e'er now and rich
Are we here of there.
Inside our felt I
God we self-descry.
Sometimes I think hope
May make this come true,
But I stop, I grope,
And life, fear and woe
Is all that remains.
Wherefore then these pains,
This unrest that thrills
With a possible joy,
All the pain that fills
Our hope till it cloy?
Wherefore this, wherefore
If all is unsure?
O give me a breeze
On a meadow land,
And let that breeze please
Nor I understand.
For all anguish is
A vague wish for bliss.
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Fernando Pessoa
PRAYER
PRAYER
Our lady of Useless Tears,
Thine is my heart's best shrine.
I am sick with the gorging years,
I am drunk with the bitter wine
Of having but cares and fears,
Of knowing but how to pine.
It is useless to pray to thee,
But my heart is full of pain.
Thy glance would be charity,
Even if the look were disdain.
Give me that I may be
A child like thine again.
My sense of me is all tears.
I pity my heart too much.
O a cradle for my fears
And the hem of thy garment to clutch!
O wert thou alive and near us,
And thy hand a hand that could touch!
I do not know how to pray.
My heart is a torn pall.
See how my hair grows gray.
O teach my lips to call
On thy name night and day
As if that name were all.
My fathers' faith doth rise
To my lips this sick hour.
I pray to thee with mine eyes
Rosaries of anguish. O dower
My soul with a least sweet lies
Of thy suffering son's power!
I have forgotten the taste
Of faith, and ache for prayer.
My heart is a garden laid waste.
O thy hand on my hair
Like a mother's hand let rest
And let me die with it there!
Our lady of Useless Tears,
Thine is my heart's best shrine.
I am sick with the gorging years,
I am drunk with the bitter wine
Of having but cares and fears,
Of knowing but how to pine.
It is useless to pray to thee,
But my heart is full of pain.
Thy glance would be charity,
Even if the look were disdain.
Give me that I may be
A child like thine again.
My sense of me is all tears.
I pity my heart too much.
O a cradle for my fears
And the hem of thy garment to clutch!
O wert thou alive and near us,
And thy hand a hand that could touch!
I do not know how to pray.
My heart is a torn pall.
See how my hair grows gray.
O teach my lips to call
On thy name night and day
As if that name were all.
My fathers' faith doth rise
To my lips this sick hour.
I pray to thee with mine eyes
Rosaries of anguish. O dower
My soul with a least sweet lies
Of thy suffering son's power!
I have forgotten the taste
Of faith, and ache for prayer.
My heart is a garden laid waste.
O thy hand on my hair
Like a mother's hand let rest
And let me die with it there!
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