Poemas neste tema
Encontros e Desencontros
Fernando Pessoa
Este é o riso daquela
Este é o riso daquela
Em que não se reparou.
Quando a gente se acautela
Vê que não se acautelou.
Em que não se reparou.
Quando a gente se acautela
Vê que não se acautelou.
1 051
Fernando Pessoa
Duas vezes te falei
Duas vezes te falei
De que te iria falar.
Quatro vezes te encontrei
Sem palavra p’ra te dar.
De que te iria falar.
Quatro vezes te encontrei
Sem palavra p’ra te dar.
1 534
Fernando Pessoa
Compreender um ao outro
Compreender um ao outro
É um jogo complicado,
Pois quem engana não sabe
Se não estava enganado.
É um jogo complicado,
Pois quem engana não sabe
Se não estava enganado.
1 809
Fernando Pessoa
Cá estamos no píncaro — nós dois
Cá estamos no píncaro — nós dois.
Nós dois e Homero? Não sabemos. Esse está mais abaixo.
Estendemos a mão e cada qual ainda que cego chega a Deus (ele não)
O quê — você não chega? Então você desaparece? — ou não chegou.
Sou míope e português
Se houver troca de louros
(...)
P'ra Apolo falta-me a beleza
Mas também falta só isso.
[...]
[...]
Camarada Will, qualquer de nós
Vale o resto, excepto o outro
Ave, poema mudo de verso (poema diverso)
Verso mudo de frases
Mesmo (ó diabo!) mudo de mim
Não importa. Feliz encontro
Nós dois e Homero? Não sabemos. Esse está mais abaixo.
Estendemos a mão e cada qual ainda que cego chega a Deus (ele não)
O quê — você não chega? Então você desaparece? — ou não chegou.
Sou míope e português
Se houver troca de louros
(...)
P'ra Apolo falta-me a beleza
Mas também falta só isso.
[...]
[...]
Camarada Will, qualquer de nós
Vale o resto, excepto o outro
Ave, poema mudo de verso (poema diverso)
Verso mudo de frases
Mesmo (ó diabo!) mudo de mim
Não importa. Feliz encontro
1 609
Fernando Pessoa
Quando olhaste para trás,
Quando olhaste para trás,
Não supus que era por mim.
Mas sempre olhaste, e isso faz
Que fosse melhor assim.
Não supus que era por mim.
Mas sempre olhaste, e isso faz
Que fosse melhor assim.
852
Kenneth Koch
Energia na Suécia
Naqueles dias
Havia tanta energia dentro de mim e ao meu redor
Que podia usá-la e depois guardá-la, como as roupas
que alguém compra somente para uma viagem de ski
Mas que acaba usando todos os dias
Pois todos os dias são como uma viagem de ski –
Acho que eu era assim aos vinte e três anos.
Ver aquelas seis jovens no barco – estava em uma viagem de ski
Elas disseram, Somos todas de Mineápolis. Foi em Estocolmo.
A mistura de um visual feminino americano com sueco-americano
[era uma viagem de ski
Embora eu não tivesse nenhum motivo específico naquela
[para colocar toda a minha energia naquilo
Ainda assim ela estava ali, eu a tinha, era como
[um gigante que detém a hegemonia de seus nervos
No caso de precisar, ou como um pescador tem todas
[as suas varas e anzóis e iscas, e um acadêmico todos os seus livros
Ou como um aquecedor de água com seu gás
Sendo ele usado ou não, eu tinha toda aquela energia.
É sério, vocês são todas de Mineapolis? Eu disse, quase
[explodindo com a pressão.
Sim, uma delas, a segunda mais bonita, respondeu. Estamos
[aqui para passar alguns dias.
Durante oito ou dez anos eu pensei nesse momento
de tempos em tempos. Me pareceu que eu deveria ter
[feito algo naquela época,
Ter usado toda aquela energia. Fazer amor é uma maneira de usá-la
[e escrever é outra.
Talvez ambas sejam superestimadas, pois a relação é muito clara.
Mas provavelmente este é o destino humano e não vou contra ele aqui.
Às vezes as pessoas existem e a energia não, às vezes a energia existe
[mas as pessoas não.
Quando os deuses concedem os dois, um homem não pode reclamar.
(tradução de Marília Garcia)
663
Gertrude Stein
Homens
Às vezes os homens estão beijando. Os homens estão às vezes beijando e às vezes bebendo. Os homens estão às vezes beijando uns aos outros e às vezes então há três deles e um deles está falando e dois deles estão beijando e ambos, ambos os dois que estão beijando, têm seus olhos cheios então de lágrimas neles.
Às vezes os homens estão bebendo e estão amando e um deles está falando e dois estão brigando e um dos dois está tão à frente que então eles estão se amando e estão dizendo todas as coisas um ao outro. Todos os três estão dizendo um ao outro qualquer coisa. Todos os três estão dizendo um ao outro qualquer coisa. Um deles está escutando um outro um. Um deles está escutando dois deles. Um não está escutando eles e ele tem lágrimas então lágrimas de torpor e eles estão todos os três bebendo e dizendo uns aos outros todas as coisas.
Um deles está então cheio dessa coisa muito cheio de lágrimas nele. Ele está muito cheio então e está ganhando tendo o outro derrubado no chão. Ele está cheio então e beijando o outro então certo então de que o outro é um que ouve todas as coisas. Ele está cheio então e o terceiro deles então é um que ele então não chegaria perto. Ele era um cheio então e o terceiro então está ocupando alguma coisa. O um que então é um cheio é um que está precisando então que o terceiro não ocupe coisa alguma. O terceiro está ocupando alguma coisa. O cheio era um cheio e estava partindo quando nem um sabia coisa alguma sabia que ele estava partindo.
Os três se amaram. Dois deles estavam amando.Um deles não estava amando e lembrava de todas as coisas e ocupava alguma coisa. Um deles estava amando e tinha derrubado um outro no chão e estava precisando de que o outro outro não ocupasse coisa alguma. O outro o que foi derrubado no chão estava então amando e estava então sabendo que o cheio estava então amando. Ele estava amando então e o cheio estava amando então e eles eram então os que estavam amando. Eles tinham estado se beijando e o que estava derrubado no chão era um que poderia ter derrubado o cheio no chão.
Outra vez, bem mais tarde cada um deles encontrou um dos três. O um que era um cheio de lágrimas vindo dele enquanto ele estava amando e beijando não encontrou o um que estava então ocupando alguma coisa. Ele encontrou o outro e não o encontrou outra vez. Ele era um cheio então e estava assim por não querer encontrar o um que estava então ocupando alguma coisa. Ele era sempre um cheio de alguma coisa. Ele era agora um cheio por não querer encontrar o um que estava então ocupando alguma coisa. Ele não o encontrou. Ele ficou bem cheio por uma vez tê-lo quase encontrado. Ele era um bem cheio então. Ele não foi então encontrá-lo, àquele que estava então ocupando alguma coisa.
Um dos três encontrou um deles e queria encontrá-lo de novo e estar amando de novo mesmo que eles não chegassem de novo a se beijar e a chorar. Ele encontrou o um que estava então cheio de ser o que não precisa estar amando qualquer um que ele tenha conhecido; o um que quis ser o que não gosta de beijar, que não gosta de qualquer um que tenha sido um. Ele não estava gostando daquele que era então um cheio de ser um a não gostar de qualquer um que tinha sido um. O um que estava encontrando com ele o um que era então um cheio não estava gostando dele, não estava gostando daquele cheio. Ele perdeu algo perdeu ser um gostando do outro ser um cheio de beijar e chorar. Ele perdeu algo, o um que encontrou o outro que então era um cheio perdeu gostar daquele, perdeu o outro sendo um cheio de amar e chorar.
O um que era um cheio por ser então um que não quer encontrar o que estava então ocupando alguma coisa, era então um cheio por não querer conhecer qualquer um que tivesse sido. Ele não estava querendo então encontrar o que estava então ocupando alguma coisa. Ele era um cheio então por ter este sentimento então nele. Ele estava chorando um tanto então por estar cheio.
Cada um dos três era um tal, tal eles eram então. Cada um deles, os três deles, queria dizer alguma coisa sendo um tal. Cada um dos três era um tal bebendo e amando e falando. Cada um deles, cada um dos três era um que bebia com o outro amava um dos três, amava dois dos três amava todos os três, beijava um deles, chorava um tanto então. Cada um dos três era um tal. Cada um dos três queria dizer alguma coisa sendo um tal.
O um que estava ocupando alguma coisa era um tal sendo um a beber e a falar e a ouvir e a ocupar então alguma coisa, ocupar sendo um tal, um a beber e a ouvir e a falar, a ocupar completamente sendo um tal.
Ele era um a ocupar alguma coisa. Ele era um a ocupar sendo um tal, um a beber e a amar por escutar e por falar. Ele era um a ocupar sendo um tal a ocupar completamente sendo um tal, a beber e a amar por estar escutando e por estar falando.
Ele era um tencionando essa coisa por ser um tal tencionando ser um a ocupar completamente sendo um tal, amando por escutar, amando por falar, amando por beber. Ele estava ocupando plenamente sendo um tal e estava plenamente tencionando essa coisa por ser um tal, tencionando ser um a amar por ser um a escutar, por ser um a falar, por ser um a beber.
Ele era um tal, ele estava ocupando completamente sendo um tal, ele estava plenamente tencionando ser um tal. Ele estava completamente ocupando um tal e ele estava então ocupando alguma coisa, ele estava então ocupando alguma coisa e ele era então para o cheio, o que então precisava não estar encontrando ele, ele era para aquele um a ocupar alguma coisa onde ele o então cheio precisava ter todas as coisas em volta dele para que pudesse ser um a deixá-las para trás. Ele estava então ocupando alguma coisa o que poderia estar encontrando o que era então o cheio por ser o que precisava não estar encontrando ele, ele estava então ocupando alguma coisa e sendo um então a amar por beber, a amar por escutar, a amar por falar. Ele poderia então estar ocupando alguma coisa e tendo então o que era o cheio por precisar não estar encontrando ele, tendo o cheio então ser o que ele era ao ter um como aquele com quem ele poderia estar se encontrando outra vez, sendo um tencionando ocupar alguma coisa.
Ele era um completamente sendo um tal. Ele era um a tencionar completamente por ser um tal. Ele era um a ocupar alguma coisa por ser um amando por beber, amando por ouvir, amando por falar. Ele estava tencionando sendo um tal. Ele estava tencionando ao ser um tal. Ele era um tal.
O que foi derrubado no chão por ser um que vem amando e beijando e bebendo poderia ter derrubado no chão o que tinha então derrubado ele no chão. Ele poderia ter derrubado no chão o que derrubou ele no chão, e então ele o amou e ele o beijou, e eles então disseram que ambos então sabiam todas as coisas. Ele poderia ter derrubado no chão o que derrubou ele no chão e ele então não estaria amando e beijando e sabendo então todas as coisas. Às vezes, ele era um a derrubar alguém no chão e sendo um então a deixar alguém cair e sendo um então a saber alguma coisa. Ele estava então quando foi derrubado no chão pelo que ele poderia ter derrubado no chão ele estava então amando e beijando e eles estavam então sabendo de todas as coisas. Ele era um tal e era um que estava tencionando ao ser um sendo um tal. Ele era um que vinha sendo um tal e sendo um tal e sendo um a lembrar que se tornou um tal, e sendo um tal, e estando bebendo e beijando e amando ao estar tencionando ao ser um tal e ser então um tal, e ser então um que poderia ter derrubado no chão o outro e ser então o que foi derrubado no chão pelo que ele estava beijando então e amando então e eles estavam então sabendo todas as coisas, ele estava se lembrando que ele era o que era um tal. Eles estavam então sabendo todas as coisas e ele estava então se lembrando de todas as coisas e o outro depois estava cheio então por ser o que não se lembra de coisa alguma por ser o que não precisa estar lembrando de qualquer um ao ser um que tenha sido. Ele era o que tinha derrubado no chão o outro e o outro poderia ter derrubado ele no chão. Ele tinha derrubado no chão o outro e eles estavam então se beijando e amando e sabendo de todas as coisas.
Ele era um cheio e tinha derrubado no chão o outro. Ele era um cheio e era um tal. Ele era um tal e estava se lembrando de ter tencionado ao ser um tal. Ele não estava se lembrando de todas as coisas.
Ele tinha sido um tal um tal a amar. Ele tinha estado beijando então e bebendo então com lágrimas então surgindo nele. Ele tinha lágrimas ocupando ele quando ele estava se lembrando, quando ele não estava se lembrando sendo um tal. Ele era um cheio por ser um com lágrimas transbordando dele. Ele era um cheio por estar se lembrando, ele era um cheio por não estar se lembrando de ser um tal. Ele era um cheio de lágrimas inchando ele. Ele era um cheio de lágrimas escapando dele. Ele era um cheio de lágrimas sobrando nele. Ele era um que poderia ser um cheio por querer ter derrubado alguém no chão e ser um a chorar então. Ele poderia se lembrar de alguma coisa. Ele se lembrou de alguma coisa. Ele não se lembraria de todas as coisas. Ele seria um tal e seria um cheio estando completo então por ser um tal. Ele era um cheio por ser um a derrubar no chão o outro e admirar então o que tinha sido derrubado por ele. Ele estava sendo um tal. Ele estava tencionando alguma coisa ao ser um tal. Intencionava-se ao ser um tal .
Intencionava-se ao ser um tal e tantos se lembraram daquilo, se lembraram de que ele era um tal e de que se intencionava aquela coisa, intencionava-se ao ser um tal.
Ele era um tal e tinha tencionado ao ser um tal, intencionado ser um tal ao ser um tal. Ele estava se lembrando dessa coisa se lembrando de que ele era um tal. Ele se lembrou dessa coisa, ele se lembrou de que ele tinha tencionado ao ser um tal.
Ele estava tencionando outra vez ao ser um tal e estava se lembrando de que ele tinha mencionado outra vez que ele era um tal. Ele estava se lembrando outra vez de que ele era um tal e ele estava se lembrando outra vez de que ele estava tencionando. Ele era um tal.
Ele era um tal e estava se lembrando daquela coisa sendo um cheio. Ele era um cheio sendo um tal. Ele era um cheio se lembrando de ser um tal.
Ele era um cheio se lembrando de que ele não estava encontrando qualquer um que tenha sido. Ele era um cheio se lembrando de que ele poderia encontrar qualquer um que tenha ocupado alguma coisa. Ele era um cheio por estar chorando. Ele era um cheio. Ele estava se lembrando de alguma coisa ao ser um cheio. Ele estava se lembrando de ser um tal.
Ele estava se lembrando de ser um tal. Ele estava se lembrando de alguma coisa. Ele estava se lembrando de ter tencionando ao ser um tal. Ele era um tal. Qualquer um era um não se esquecendo outra vez de que ele era um tal. Ele era um não se esquecendo outra vez de que ele era um tal. Ele era um não derrubando um outro no chão e sendo então o cheio por não se tornar um a jamais fazer uma tal coisa. Ele era um cheio sendo um outra vez então não encontrando qualquer um que ele não tenha derrubado no chão. Ele era um cheio sendo um então encontrando outra vez o um que ele não chegou a derrubar no chão e sendo um não encontrando aquele outra vez. Ele era um tal. Ele estava se lembrando de alguma coisa.
Nem um dos três encontrou coisa algum de nem um outro deles. Qualquer um deles era um encontrando um outro. Qualquer um dos três era um tal.
Qualquer um dos três estava tencionando ser um tal. Qualquer um dos três era um tencionando alguma coisa sendo um tal. Qualquer um dos três estava sendo um a ser um tal. Cada um dos três era um sendo um do seu jeito. Cada um dos três era de um jeito diferente dos outros três. Cada um dos três era um tal.
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Sobre as tradutoras:
Marília Garcia é coeditora daModo de Usar & Co. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. Publicou os livrosEncontro às cegas (Rio de Janeiro: Moby Dick, 2001) e20 poemas para o seu walkman (SP/RJ: Cosac Naify/7Letras, 2007). Participou do Festival de Poesia Latino-americanaSalida al Mar, em Buenos Aires, e está entre os poetas convidados para o Festival Europalia na Bélgica, dedicado este ano ao Brasil. A poeta, tradutora e editora vive e trabalha no Rio de Janeiro.
1 556
Jaroslav Seifert
Retrato molhado
Aqueles dias lindos
quando a cidade parece um dado, um hino, um ventilador
ou uma concha de vieira à beira-mar
– tchau, tchau, belas garotas,
nos conhecemos hoje
e não nos veremos nunca mais.
Os domingos lindos
quando a cidade parece um futebol, um cartão e uma ocarina
ou um sino indo e vindo
– na rua ensolarada
as sombras dos passantes se beijavam
e eles seguiam, completos desconhecidos.
Aquelas noites lindas
quando a cidade parece uma rosa, um tabuleiro de xadrez, um violino
ou uma garota chorando
– no bar jogávamos dominó, dominó de bolas pretas, com as garotas magrelas,
olhando para seus joelhos
que eram esquálidos
feito dois crânios com as coroas de seda das cinta-ligas
no reino desesperado do amor.
(tradução de Marília Garcia).
1 172
Wisława Szymborska
Estação
Foi com pontualidade
que não cheguei à cidade de N.
Uma carta por enviar
te avisara.
Conseguiste não chegar
à hora prevista.
O comboio parou na linha n. 3.
Saiu imensa gente.
Seguiu na multidão para a saída
a minha ausência.
Tomou apressadamente o meu lugar
um grupo de mulheres
em toda aquela pressa.
Correu para uma delas
alguém que desconheço,
mas que ela reconheceu
de imediato.
Trocaram então ambos
um beijo que não nosso
durante o qual levou sumiço
a mala que não minha.
A estação da cidade de N.
passou sem problemas o exame
de existência objetiva.
Permaneceu no seu lugar o todo,
moveram-se os detalhes
pelos carris previstos.
Chegou mesmo a efectuar-se
o combinado encontro.
Fora do alcance
da nossa presença.
No paraíso perdido
da verossimilhança.
Noutro lugar.
Noutro lugar.
Como elas vibram, estas palavritas.
que não cheguei à cidade de N.
Uma carta por enviar
te avisara.
Conseguiste não chegar
à hora prevista.
O comboio parou na linha n. 3.
Saiu imensa gente.
Seguiu na multidão para a saída
a minha ausência.
Tomou apressadamente o meu lugar
um grupo de mulheres
em toda aquela pressa.
Correu para uma delas
alguém que desconheço,
mas que ela reconheceu
de imediato.
Trocaram então ambos
um beijo que não nosso
durante o qual levou sumiço
a mala que não minha.
A estação da cidade de N.
passou sem problemas o exame
de existência objetiva.
Permaneceu no seu lugar o todo,
moveram-se os detalhes
pelos carris previstos.
Chegou mesmo a efectuar-se
o combinado encontro.
Fora do alcance
da nossa presença.
No paraíso perdido
da verossimilhança.
Noutro lugar.
Noutro lugar.
Como elas vibram, estas palavritas.
1 539
Jaime Gil de Biedma
Peeping Tom
Olhos de solitário, rapazinho atônito
que surpreendi a olhar-nos
naquele pinhalzinho, junto à Faculdade de Letras,
há mais de onze anos,
quando ia a separar-me,
ainda aturdido de saliva e areia,
depois de nos rebolarmos os dois meio vestidos,
felizes como bichos.
Tua lembrança, é curioso
com que dissimulada intensidade de símbolo,
está unida àquela história,
minha primeira experiência de amor correspondido.
Pergunto-me por vezes que é feito de ti.
E se agora em tuas noites junto a um corpo
regressa a velha cena
e ainda espreitas nossos beijos.
Assim do passado volta a mim,
como um grito desconexo,
a imagem de teus olhos. Expressão
do meu próprio desejo.
(de Moralidades)
que surpreendi a olhar-nos
naquele pinhalzinho, junto à Faculdade de Letras,
há mais de onze anos,
quando ia a separar-me,
ainda aturdido de saliva e areia,
depois de nos rebolarmos os dois meio vestidos,
felizes como bichos.
Tua lembrança, é curioso
com que dissimulada intensidade de símbolo,
está unida àquela história,
minha primeira experiência de amor correspondido.
Pergunto-me por vezes que é feito de ti.
E se agora em tuas noites junto a um corpo
regressa a velha cena
e ainda espreitas nossos beijos.
Assim do passado volta a mim,
como um grito desconexo,
a imagem de teus olhos. Expressão
do meu próprio desejo.
(de Moralidades)
1 011
Mário Dionísio
Bom dia marinheiro
Bom dia marinheiro
há milénios sentado
nesse navio pirata
Traço-te o vulto a roxo
um claro azul nos olhos de água
ponho e a toda a volta um frémito vermelho
O teu cachimbo é agora uma sereia de prata
toda roída dum lado
por um cancro de estrelas que é só mágoa
e sobressalto frouxo
de cascos podres balouçando balouçante
ao som da lenda sem sabor dum cavaleiro
andante ridículo e ausente
no céu de chumbo onde passa lentamente um bombardeiro
com a morte no bojo
Águas fundas de amor e desencontro do que tanto se crê que não se crê
nestes fundos de lodo feitos sarça
não ardente mas fria de desespero e nojo
mesquinhamente tudo se disfarça
e desvirtua e se destrói e dói e ameaça
Que horror dizer bom dia ou até já
dizer adeus
ao que mais ninguém vê
há milénios sentado
nesse navio pirata
Traço-te o vulto a roxo
um claro azul nos olhos de água
ponho e a toda a volta um frémito vermelho
O teu cachimbo é agora uma sereia de prata
toda roída dum lado
por um cancro de estrelas que é só mágoa
e sobressalto frouxo
de cascos podres balouçando balouçante
ao som da lenda sem sabor dum cavaleiro
andante ridículo e ausente
no céu de chumbo onde passa lentamente um bombardeiro
com a morte no bojo
Águas fundas de amor e desencontro do que tanto se crê que não se crê
nestes fundos de lodo feitos sarça
não ardente mas fria de desespero e nojo
mesquinhamente tudo se disfarça
e desvirtua e se destrói e dói e ameaça
Que horror dizer bom dia ou até já
dizer adeus
ao que mais ninguém vê
2 018
Eduardo Guimaraens
Sedução
Sedução, atração secreta, inexplicável
das criaturas que mal se conhecem, quer
se compreendam ou não, ó sentido inefável,
do desejo que quer sem saber por que quer!
Por trás de uma vidraça, às vezes, o semblante
que vês, e de que o olhar lembra um raio autunal
de sol enquanto chove, e cuja enfeitiçante
graça é como a de um filtro amoroso e fatal...
Passas... E o teu olhar, que sonha, por acaso,
sente a fixá-lo o azul desse olhar, sem razão...
Levas, de volta, após, a tristeza do acaso
e a alegria do amor dentro do coração.
Ora por um instante, o momento que dura
quanto dura esse olhar que no teu se fitou,
sem querer — adoraste a estranha criatura
que não sabes quem seja, e que te deslumbrou!
Passaste... agonizava a última claridade.
Perdiam os jardins a forma, a luz, a cor...
Punge-te agora o coração uma saudade:
a do amor que morreu, um grande, um velho amor.
Outras vezes, o véu que um sorriso velava,
a teu lado alvejou... Branco. Leve... e fugiu.
Entretanto, essa boca ardeu, por ser a escrava
do teu beijo — e por ele é que no véu sorriu...
Quando cessou a orquestra, e a mãozinha enluvada
de pele da Suécia entre as tuas ficou
esquecida... foi teu esse corpo de fada,
mas do qual sabes só que contigo bailou.
De que amores sem nome evocas a lembrança,
se olhas bem esta boca? este queixo sutil?
Negro, aquele cabelo? E esse olhar de criança?
E aquelas nobres mãos? E este fino perfil?
Se assim não fora, o amor se igualaria à chama
que, à falta de ar, se extingue, ou como uma ânsia vã...
Nem fora belo amar, quando é de amor que se ama,
sem a alma de Romeu e os olhos de don Juan!
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Estâncias de um Peregrino
das criaturas que mal se conhecem, quer
se compreendam ou não, ó sentido inefável,
do desejo que quer sem saber por que quer!
Por trás de uma vidraça, às vezes, o semblante
que vês, e de que o olhar lembra um raio autunal
de sol enquanto chove, e cuja enfeitiçante
graça é como a de um filtro amoroso e fatal...
Passas... E o teu olhar, que sonha, por acaso,
sente a fixá-lo o azul desse olhar, sem razão...
Levas, de volta, após, a tristeza do acaso
e a alegria do amor dentro do coração.
Ora por um instante, o momento que dura
quanto dura esse olhar que no teu se fitou,
sem querer — adoraste a estranha criatura
que não sabes quem seja, e que te deslumbrou!
Passaste... agonizava a última claridade.
Perdiam os jardins a forma, a luz, a cor...
Punge-te agora o coração uma saudade:
a do amor que morreu, um grande, um velho amor.
Outras vezes, o véu que um sorriso velava,
a teu lado alvejou... Branco. Leve... e fugiu.
Entretanto, essa boca ardeu, por ser a escrava
do teu beijo — e por ele é que no véu sorriu...
Quando cessou a orquestra, e a mãozinha enluvada
de pele da Suécia entre as tuas ficou
esquecida... foi teu esse corpo de fada,
mas do qual sabes só que contigo bailou.
De que amores sem nome evocas a lembrança,
se olhas bem esta boca? este queixo sutil?
Negro, aquele cabelo? E esse olhar de criança?
E aquelas nobres mãos? E este fino perfil?
Se assim não fora, o amor se igualaria à chama
que, à falta de ar, se extingue, ou como uma ânsia vã...
Nem fora belo amar, quando é de amor que se ama,
sem a alma de Romeu e os olhos de don Juan!
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Estâncias de um Peregrino
1 219
Carlos Frydman
Nós
Para Luzia Salvi Frydman
Quando nos deparamos
meu outono era imenso
— um descampado queimado
um vazio sem ventos.
Tua afogada primavera trazia
brisas ao meu íntimo naufrágio.
Fertilizaste minha estiagem
numa repentina sementeira.
Havia um sol adormecido
em teu olhar distante, perdido,
abrandando minhas quimeras.
Nossos beijos foram temerosos
envoltos de incertezas.
Éramos cativos de tempos amargos,
fugidos de encontros vagos.
Despertamos um clamor de desejos sufocados,
e nos bebemos... e nos buscamos...
Nossas feições turvas e solitárias,
nossos peitos, campo fértil abandonado
— duas almas fugitivas enlaçaram-se.
Mas,
por sermos cativos inconformados
de longos tempos contritos,
nossos braços vacilaram nos abraços
e cruzamos nossos caminhos desencontrados.
Nossos primeiros atos,
com poucas palavras, harmonizaram-se.
Cresceu uma crença buscada,
e nossos corpos se confluíram
como dois rios incendiados
em nosso amor secreto e profundo,
onde no amor serenamos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
Quando nos deparamos
meu outono era imenso
— um descampado queimado
um vazio sem ventos.
Tua afogada primavera trazia
brisas ao meu íntimo naufrágio.
Fertilizaste minha estiagem
numa repentina sementeira.
Havia um sol adormecido
em teu olhar distante, perdido,
abrandando minhas quimeras.
Nossos beijos foram temerosos
envoltos de incertezas.
Éramos cativos de tempos amargos,
fugidos de encontros vagos.
Despertamos um clamor de desejos sufocados,
e nos bebemos... e nos buscamos...
Nossas feições turvas e solitárias,
nossos peitos, campo fértil abandonado
— duas almas fugitivas enlaçaram-se.
Mas,
por sermos cativos inconformados
de longos tempos contritos,
nossos braços vacilaram nos abraços
e cruzamos nossos caminhos desencontrados.
Nossos primeiros atos,
com poucas palavras, harmonizaram-se.
Cresceu uma crença buscada,
e nossos corpos se confluíram
como dois rios incendiados
em nosso amor secreto e profundo,
onde no amor serenamos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 180
Sérgio Milliet
XXIX [Eu tinha encontro marcado
Eu tinha encontro marcado
nas esquinas da minha vida.
Mas cheguei e não vi ninguém...
Agora eu vou pela calçada
sozinho, sozinho, sozinho...
Não tem mais esquina na vida
não tem mais encontro nem nada...
Será que meu amor se enganou
E só me espera no fim?
Publicado no livro Poemas (1937).
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.117. (Autores brasileiros, 19
nas esquinas da minha vida.
Mas cheguei e não vi ninguém...
Agora eu vou pela calçada
sozinho, sozinho, sozinho...
Não tem mais esquina na vida
não tem mais encontro nem nada...
Será que meu amor se enganou
E só me espera no fim?
Publicado no livro Poemas (1937).
In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.117. (Autores brasileiros, 19
1 484
Maria Helena Nery Garcez
Triz
O telefone que soa no deserto.
O timbre que retine na casa de surdos.
O recado que a empregada não anota.
O nome que o adolescente não pergunta,
o pedido de casamento
nunca feito por haver visita
— a hora quebrada —
a pétala última que acabou sendo não.
O encontro que se combinou
esperou
preparou
e que,
na última das últimas,
gorou.
O galo teima em cantar anunciando a madrugada.
(Sempre, e em todo meu lugar, houve um galo a anunciar a madrugada.)
Ilusão de natureza
mesmo ao pé do Minhocão.
Quererá isto dizer
que a vida teima em continuar,
apesar de comermos ovos de granja?
Triz.
Tudo por um triz.
Por um fio a vida toda.
Muita vez, fio de telefone.
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
O timbre que retine na casa de surdos.
O recado que a empregada não anota.
O nome que o adolescente não pergunta,
o pedido de casamento
nunca feito por haver visita
— a hora quebrada —
a pétala última que acabou sendo não.
O encontro que se combinou
esperou
preparou
e que,
na última das últimas,
gorou.
O galo teima em cantar anunciando a madrugada.
(Sempre, e em todo meu lugar, houve um galo a anunciar a madrugada.)
Ilusão de natureza
mesmo ao pé do Minhocão.
Quererá isto dizer
que a vida teima em continuar,
apesar de comermos ovos de granja?
Triz.
Tudo por um triz.
Por um fio a vida toda.
Muita vez, fio de telefone.
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
796
Mafalda Veiga
Procura por mim
Quando for já logo à noite na praia
Com o sol a derreter-se enfim
Procura por mim
Com o vento por saia
E em lugar de suor o sargaço.
Eu estarei quieto e assim sozinho
Cheio das dúvidas do universo
À tua espera
A desenhar o caminho
Para te escrever em verso
No meu regaço.
O abraço.
Com o sol a derreter-se enfim
Procura por mim
Com o vento por saia
E em lugar de suor o sargaço.
Eu estarei quieto e assim sozinho
Cheio das dúvidas do universo
À tua espera
A desenhar o caminho
Para te escrever em verso
No meu regaço.
O abraço.
1 332
Felipe Larson
A SAUDADE MARCA
Chega a ser engraçado
Como em tão pouco tempo
Tanta coisa aconteceu
No seu devido momento
Eu penso que talvez seja melhor
Eu não pensar muito nisso
Porque se não vou achar
Que tudo tem seu feitiço
Isso foi muito importante para mim
Eu acho que nunca vou esquecer
E você não tem idéia
Do quanto tenho pensado em você
Sei que sentirei tanta saudade
Mas o que posso fazer
Se tudo de mais estranho
Parece sempre acontecer comigo
Sei que talvez quando nos vermos
Tudo pode estar diferente
Mas isso não importa tanto
Pois a coisas acontecem tão de repente
Pessoas como você, marcam na vida.
Vou sentir muito a sua falta
Acho que não preciso destes versos
Para você saber o quanto é especial
Como em tão pouco tempo
Tanta coisa aconteceu
No seu devido momento
Eu penso que talvez seja melhor
Eu não pensar muito nisso
Porque se não vou achar
Que tudo tem seu feitiço
Isso foi muito importante para mim
Eu acho que nunca vou esquecer
E você não tem idéia
Do quanto tenho pensado em você
Sei que sentirei tanta saudade
Mas o que posso fazer
Se tudo de mais estranho
Parece sempre acontecer comigo
Sei que talvez quando nos vermos
Tudo pode estar diferente
Mas isso não importa tanto
Pois a coisas acontecem tão de repente
Pessoas como você, marcam na vida.
Vou sentir muito a sua falta
Acho que não preciso destes versos
Para você saber o quanto é especial
708
Janete Rodrigues Ribeiro
Estranha saudade
Então, tu apareceste no meu caminho
a ti entreguei meu coração
te contei meus segredos
te dei meu corpo e meus carinhos...
Todo meu mistério desvendei
tudo que tinha guardado
tanto tempo na minha solidão,
te ofereci tudo, cada pedaço, cada emoção...
Agora faço parte do teu todo
sou fração do teu total
somando essa imensa ternura
juntando um carinho sem igual!
Os minutos em hora se transformaram
longe de ti, teus abraços, teu olhar,
as marcas que em mim ficaram
de nossos momentos sob a luz do luar...
É assim, uma estranha saudade,
um sabor de ti, que dentro ficou,
encravado em minha alma,
lembranças do que se passou...
Acordo, olho o céu, vejo o sol
tudo iluminado à minha volta
recordo nossos corpos no lençol,
nosso abraço apertado, o último olhar...
E tu, voltando, rolando estrada
e eu, parada, perdida, presa ao chão,
olhando de longe, tu sumindo e
entrando cada vez mais fundo no meu coração!
a ti entreguei meu coração
te contei meus segredos
te dei meu corpo e meus carinhos...
Todo meu mistério desvendei
tudo que tinha guardado
tanto tempo na minha solidão,
te ofereci tudo, cada pedaço, cada emoção...
Agora faço parte do teu todo
sou fração do teu total
somando essa imensa ternura
juntando um carinho sem igual!
Os minutos em hora se transformaram
longe de ti, teus abraços, teu olhar,
as marcas que em mim ficaram
de nossos momentos sob a luz do luar...
É assim, uma estranha saudade,
um sabor de ti, que dentro ficou,
encravado em minha alma,
lembranças do que se passou...
Acordo, olho o céu, vejo o sol
tudo iluminado à minha volta
recordo nossos corpos no lençol,
nosso abraço apertado, o último olhar...
E tu, voltando, rolando estrada
e eu, parada, perdida, presa ao chão,
olhando de longe, tu sumindo e
entrando cada vez mais fundo no meu coração!
889
Angela Santos
Perpendicular do
Tempo
Foi
outro o lugar
outro o tempo
e o encontro no desencontro.
Fomos nós
e uma esquina
ao dobrar dos dias…
Não sei se me encontraste
se te procurava
eu.
Foi
outro o lugar
outro o tempo
e o encontro no desencontro.
Fomos nós
e uma esquina
ao dobrar dos dias…
Não sei se me encontraste
se te procurava
eu.
1 110
Angela Santos
Brumas
Via-te
chegar de manso
ao compasso da manhã
ainda coberta de
brumas
Via-te chegar
carregando luz aos cachos
no cabelo
e nos olhos o espanto,
sinal dos que olhando
acordam
Vinhas ao meu encontro,
serena, dir-se-ia
mas a tua alma, do signo da inquietação
espelhava-te sem o saberes
E ali quieta, olhando-me
com a impaciência
de quem carrega esperas,
procuravas no fundo de mim
o que lá não estava
e assustada
repelias o meu silencio.
Via-te partir
com mansidão igual à chegada
como se entre o chegar e partir
não existisse senão
o minúsculo "e" que os separa
Não sei bem
se partias ou ficavas
no fundo do fundo
que não vias em mim.
chegar de manso
ao compasso da manhã
ainda coberta de
brumas
Via-te chegar
carregando luz aos cachos
no cabelo
e nos olhos o espanto,
sinal dos que olhando
acordam
Vinhas ao meu encontro,
serena, dir-se-ia
mas a tua alma, do signo da inquietação
espelhava-te sem o saberes
E ali quieta, olhando-me
com a impaciência
de quem carrega esperas,
procuravas no fundo de mim
o que lá não estava
e assustada
repelias o meu silencio.
Via-te partir
com mansidão igual à chegada
como se entre o chegar e partir
não existisse senão
o minúsculo "e" que os separa
Não sei bem
se partias ou ficavas
no fundo do fundo
que não vias em mim.
1 015
Angela Santos
Trilho
Caminho
ao teu encontro para me encontrar
nesse cheiro de mata bravia
no fundo de um lago sereno
reflectido em tua alma
no sábio aprendizado trazido da vida
que tu nem pressentes,
na doce vibração do sentir
de mulher…
Caminho
como quem regressa a algo perdido
quiçá só esquecido
"isso" que não sei dizer,
que me trespassa o sentir
real como as mãos que olho
Caminho
sabendo que ali, nesse lugar que tem nome
tão perto e longe de mim
onde tu estás e eu estou,
eu encontrarei a chave
deste sentir que é o meu.
Será, então, que olharei
o pleno ser que pressinto
e saberei porque és
desde o começo um caminho
de volta a algo tão fundo
que julguei em mim perdido.
ao teu encontro para me encontrar
nesse cheiro de mata bravia
no fundo de um lago sereno
reflectido em tua alma
no sábio aprendizado trazido da vida
que tu nem pressentes,
na doce vibração do sentir
de mulher…
Caminho
como quem regressa a algo perdido
quiçá só esquecido
"isso" que não sei dizer,
que me trespassa o sentir
real como as mãos que olho
Caminho
sabendo que ali, nesse lugar que tem nome
tão perto e longe de mim
onde tu estás e eu estou,
eu encontrarei a chave
deste sentir que é o meu.
Será, então, que olharei
o pleno ser que pressinto
e saberei porque és
desde o começo um caminho
de volta a algo tão fundo
que julguei em mim perdido.
1 053
Angela Santos
Iris
de que tempo
ou de que profundeza obscura
haverias de surgir?
Que nada sei....
Ou sei apenas
que em minha vida incrustado
um diamante reflecte
a luz da íris
onde me espelho
E arrancada às entranhas
ao encontro do que em mim chamara
vieste
iluminar-me o sentido.
ou de que profundeza obscura
haverias de surgir?
Que nada sei....
Ou sei apenas
que em minha vida incrustado
um diamante reflecte
a luz da íris
onde me espelho
E arrancada às entranhas
ao encontro do que em mim chamara
vieste
iluminar-me o sentido.
697
Fernando Namora
Cantar D'Amigo
Estrangeiro!
talharam-nos em redor fossos, limites
e o cerco das fronteiras.
Estrangeiro! Ninguém entendeu, e nem tu, estrangeiro,
que entre nós não existem cordilheiras.
Ficaste de mãos desastradas, indiferentes,
quando a minha vida roçou a tua vida.
De olhos parados, indiferentes,
quando passei a teu lado.
Estrangeiro! Ficou-me esse desperdício de um adeus
que as tuas mãos frias não disseram,
nem os teus olhos vidrados,
nem a tua boca selada,
mas que eu pressenti, como alguém á beira de um cais,
ao ver sair barcos com gente que nos é estranha,
agitando lenços estranhos
alguém que sofre por nada.
Iludimos a vida, amigo!
E como para ultrapassar as fronteiras
os fossos,
as ironias
bastaria um só olhar!...
Não, estrangeiro! Vamos misturar o sangue dos rios
o abismo dos mapas
fazer qualquer coisa! misturar, misturar.
talharam-nos em redor fossos, limites
e o cerco das fronteiras.
Estrangeiro! Ninguém entendeu, e nem tu, estrangeiro,
que entre nós não existem cordilheiras.
Ficaste de mãos desastradas, indiferentes,
quando a minha vida roçou a tua vida.
De olhos parados, indiferentes,
quando passei a teu lado.
Estrangeiro! Ficou-me esse desperdício de um adeus
que as tuas mãos frias não disseram,
nem os teus olhos vidrados,
nem a tua boca selada,
mas que eu pressenti, como alguém á beira de um cais,
ao ver sair barcos com gente que nos é estranha,
agitando lenços estranhos
alguém que sofre por nada.
Iludimos a vida, amigo!
E como para ultrapassar as fronteiras
os fossos,
as ironias
bastaria um só olhar!...
Não, estrangeiro! Vamos misturar o sangue dos rios
o abismo dos mapas
fazer qualquer coisa! misturar, misturar.
2 606
Angela Santos
Poiésis
Vinhas
e eu não sei donde
nem porque vinhas
mas à tua chegada
alguma coisa se iluminava
e crescia
Revelação,
interminável afã de quem se busca
na imensidão dos estilhaços
que de si dispersos
vogam por aí
Vinhas e trazias
dores de punhais e mel
e cada sílaba carregava
o gosto a verdade
Silenciada a fonte,
de quando em vez se sente ainda,
hoje
menos cismo e mais corrente.
Só por vires
abençoada sejas
e eu não sei donde
nem porque vinhas
mas à tua chegada
alguma coisa se iluminava
e crescia
Revelação,
interminável afã de quem se busca
na imensidão dos estilhaços
que de si dispersos
vogam por aí
Vinhas e trazias
dores de punhais e mel
e cada sílaba carregava
o gosto a verdade
Silenciada a fonte,
de quando em vez se sente ainda,
hoje
menos cismo e mais corrente.
Só por vires
abençoada sejas
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