Poemas neste tema
Amor à Distância
Martha Medeiros
Relacionamento à distância
Ele me contou a história em um tom baixo de voz. Terminaram a relação, mas a cicatriz não havia fechado. Ele ainda gostava dela, só que não deu certo. Namoraram durante quase um ano, ele morando em Porto Alegre, ela em Vitória do Espírito Santo. Mais de 2.000km os separavam. Não podiam pegar um avião todos os meses. Tinham seus empregos, suas famílias. Culpava a distância pelo fim. Agora era tratar de conhecer outra pessoa para se reerguer. “Já entrei no Tinder”, disse ele. Tive vontade de rir, mas ele não parecia estar fazendo piada. Fiz cara de “agora vai”, sem convicção.
Relacionamento a distância — não são todos assim, hoje? Em vez de conviver, viramos uns bisbilhoteiros. Compreensível, já que esse troço chamado rede social captura mesmo. Se você é seguidor de gente interessante, então, é um vício, pois são muitos textos bem escritos, fotos originais, comentários divertidos, dicas de livros e filmes. Ainda assim, moderação e tino: ninguém é tão estupendo como se apresenta no mundo virtual. Onde foi parar nosso lado sombrio?
Fraquezas, angústias, dúvidas: não há espaço para eles no Instagram e no Facebook. Dá a impressão de que ninguém chora ou se atrapalha no cotidiano — são raros os que expõem sua bad trip (o ego não deixa). Normal, mas é bom lembrar que quem aprisiona sua dor não se relaciona, não para valer. Intimidade se atinge com divisão de fardo, troca. Paixões e amigos dão sentido à nossa vida porque ajudam a nos passar a limpo, a colarmos nossas fraturas, a nos tornarmos pessoas melhores. Cultuo a solidão, como já disse mil vezes, mas ela é um pit-stop, apenas. Se escolho estar só o tempo inteiro, sem interagir com as emoções dos outros e sem expressar as minhas inquietudes de viva voz, não evoluo, nada evolui.
Meu amigo conhecia profundamente sua namorada capixaba? Pouco, pois o WhatsApp não dá conta da nossa humanidade, não substitui olhares e abraços. Difícil demonstrar nossos desconfortos através de mensagens on-line, então dá-lhe oba-oba. Resultado: depressão virou epidemia e os suicídios se sucedem porque, entre outros motivos, as pessoas se sentem inadequadas por estar sofrendo, o que é um absurdo. Sofrer é adequado. Sofrer é normal. Todo mundo sofre, mesmo que não pareça. E não parece mesmo, pela tremenda distância estabelecida entre o nosso eu real e o real dos outros.
Do quarto dos pais ao quarto dos filhos pode existir um corredor de 2.000km a separá-los. Entre a minha cadeira no restaurante e a sua, abre-se uma cratera a cada vez que colocamos o celular sobre a mesa e ficamos checando as redes em vez de conversar, rir, fazer confidências. Relacionamento à distância é silêncio a dois, pode estar acontecendo aí mesmo dentro do seu casamento perfeito.
Relacionamento a distância — não são todos assim, hoje? Em vez de conviver, viramos uns bisbilhoteiros. Compreensível, já que esse troço chamado rede social captura mesmo. Se você é seguidor de gente interessante, então, é um vício, pois são muitos textos bem escritos, fotos originais, comentários divertidos, dicas de livros e filmes. Ainda assim, moderação e tino: ninguém é tão estupendo como se apresenta no mundo virtual. Onde foi parar nosso lado sombrio?
Fraquezas, angústias, dúvidas: não há espaço para eles no Instagram e no Facebook. Dá a impressão de que ninguém chora ou se atrapalha no cotidiano — são raros os que expõem sua bad trip (o ego não deixa). Normal, mas é bom lembrar que quem aprisiona sua dor não se relaciona, não para valer. Intimidade se atinge com divisão de fardo, troca. Paixões e amigos dão sentido à nossa vida porque ajudam a nos passar a limpo, a colarmos nossas fraturas, a nos tornarmos pessoas melhores. Cultuo a solidão, como já disse mil vezes, mas ela é um pit-stop, apenas. Se escolho estar só o tempo inteiro, sem interagir com as emoções dos outros e sem expressar as minhas inquietudes de viva voz, não evoluo, nada evolui.
Meu amigo conhecia profundamente sua namorada capixaba? Pouco, pois o WhatsApp não dá conta da nossa humanidade, não substitui olhares e abraços. Difícil demonstrar nossos desconfortos através de mensagens on-line, então dá-lhe oba-oba. Resultado: depressão virou epidemia e os suicídios se sucedem porque, entre outros motivos, as pessoas se sentem inadequadas por estar sofrendo, o que é um absurdo. Sofrer é adequado. Sofrer é normal. Todo mundo sofre, mesmo que não pareça. E não parece mesmo, pela tremenda distância estabelecida entre o nosso eu real e o real dos outros.
Do quarto dos pais ao quarto dos filhos pode existir um corredor de 2.000km a separá-los. Entre a minha cadeira no restaurante e a sua, abre-se uma cratera a cada vez que colocamos o celular sobre a mesa e ficamos checando as redes em vez de conversar, rir, fazer confidências. Relacionamento à distância é silêncio a dois, pode estar acontecendo aí mesmo dentro do seu casamento perfeito.
578
Filipa Leal
Nesta brisa quase suave
Nesta brisa quase suave
de plantas já anoitecidas
quase te toco entre as regas,
e entristeço.
A tua ausência é tão real
como os vastos campos de girassóis
secos, envelhecidos, quase mortos.
Alugo a voz e a expressão
a par de todos os espaços
deste lugar que se inicia.
Tudo isto é simples:
tenho o coração desarrumado.
Vem.
de plantas já anoitecidas
quase te toco entre as regas,
e entristeço.
A tua ausência é tão real
como os vastos campos de girassóis
secos, envelhecidos, quase mortos.
Alugo a voz e a expressão
a par de todos os espaços
deste lugar que se inicia.
Tudo isto é simples:
tenho o coração desarrumado.
Vem.
369
Martha Medeiros
Relações virtuais
Fui absolutamente rendida pelo poder das relações virtuais. Acredito que é possível conhecer alguém por e-mail, se apaixonar por e-mail, odiar por e-mail, tudo isso sem jamais ter visto a pessoa. As palavras escritas no computador podem muito. Mas nem sempre enxergam a verdade.
São sete horas de uma manhã chuvosa. Você não dormiu bem à noite. Põe pra tocar um som instrumental que deixa suas emoções à flor da pele. Vai para o computador e começa a escrever para alguém especial as coisas mais íntimas que lhe passam no coração. Chora. Escreve. Olha para a chuva. Escreve mais um pouco. Envia.
São onze horas da noite deste mesmo dia. O destinatário da sua mensagem está dando uma festa. Todo mundo fala alto, ri muito, rola a maior sonzeira. Ele pega uma cerveja e dá uma escapada até o computador. Abre o correio. Está lá a mensagem. Um texto longo que ele lê com pressa. Destaca algumas palavras: "a saudade é tanta... sozinha demais... dividir o que sinto..." Papo brabo. Responderá amanhã. Deleta.
Alguém pode escrever com raiva, escrever com dor, escrever com ironia, escrever com dificuldade, escrever debochando, escrever apressado, escrever na obrigação, escrever com segundas intenções. Nada disso chegará no outro lado da tela: a pressa, a hesitação, a tristeza. As palavras chegarão desacompanhadas. Será preciso confiar no talento do remetente em passar emoção junto de cada frase. Como pouquíssimas pessoas têm esse dom, uma mensagem sensível poderá ser confundida com secura, tudo porque faltou um par de olhos, faltou um tom de voz.
Se você passou a desprezar alguém, pode escrever "não quero mais te ver". Se você ama muito alguém, mas a falta de sintonia lhe vem machucando, pode escrever "não quero mais te ver".
Uma mesma frase e duas mensagens diferentes. Palavras são apenas resumos dos nossos sentimentos profundos, sentimentos que para serem explanados precisam mais do que um sujeito, um verbo e um predicado. Precisam de toque, visão, audição. Amor virtual é legal, mas o teclado ainda não dá conta de certas sutilezas.
São sete horas de uma manhã chuvosa. Você não dormiu bem à noite. Põe pra tocar um som instrumental que deixa suas emoções à flor da pele. Vai para o computador e começa a escrever para alguém especial as coisas mais íntimas que lhe passam no coração. Chora. Escreve. Olha para a chuva. Escreve mais um pouco. Envia.
São onze horas da noite deste mesmo dia. O destinatário da sua mensagem está dando uma festa. Todo mundo fala alto, ri muito, rola a maior sonzeira. Ele pega uma cerveja e dá uma escapada até o computador. Abre o correio. Está lá a mensagem. Um texto longo que ele lê com pressa. Destaca algumas palavras: "a saudade é tanta... sozinha demais... dividir o que sinto..." Papo brabo. Responderá amanhã. Deleta.
Alguém pode escrever com raiva, escrever com dor, escrever com ironia, escrever com dificuldade, escrever debochando, escrever apressado, escrever na obrigação, escrever com segundas intenções. Nada disso chegará no outro lado da tela: a pressa, a hesitação, a tristeza. As palavras chegarão desacompanhadas. Será preciso confiar no talento do remetente em passar emoção junto de cada frase. Como pouquíssimas pessoas têm esse dom, uma mensagem sensível poderá ser confundida com secura, tudo porque faltou um par de olhos, faltou um tom de voz.
Se você passou a desprezar alguém, pode escrever "não quero mais te ver". Se você ama muito alguém, mas a falta de sintonia lhe vem machucando, pode escrever "não quero mais te ver".
Uma mesma frase e duas mensagens diferentes. Palavras são apenas resumos dos nossos sentimentos profundos, sentimentos que para serem explanados precisam mais do que um sujeito, um verbo e um predicado. Precisam de toque, visão, audição. Amor virtual é legal, mas o teclado ainda não dá conta de certas sutilezas.
666
Herberto Helder
Quatro Poemas Árabes - Decepção
Disseram que a minha Layla vive em Tayma,
quando os barcos do estio aí lançam as âncoras.
Eis porém que se esgotaram os meses de verão.
Porque a arrasta o exílio de lugar em lugar?
quando os barcos do estio aí lançam as âncoras.
Eis porém que se esgotaram os meses de verão.
Porque a arrasta o exílio de lugar em lugar?
1 008
Eduardo Pitta
Pouco tenho para alinhavar
Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.
Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam
a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
e a memória a estiolar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.
Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam
a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
e a memória a estiolar.
717
Fernão Rodrigues Lobo Soropita
A uma partida
Partistes-vos, e [a] alma juntamente
Em partes desiguais se me partiu;
A melhor, que era vossa, vos seguiu;
Ficou-me a outra, fraca e descontente.
Bem sei que a natureza o não consente,
Mas Amor, que mais pode, o consentiu,
Por que a fé que em presença vos serviu,
Também vos sirva agora, estando ausente.
Eu, sem mim e sem vós, não sei que espero,
Nem com que maravilhas me sustento
Nas sombras tristes do meu bem passado.
Só sei que cada dia mais vos quero,
E que por mais que possa o esquecimento,
Nunca poderá mais que meu cuidado.
Em partes desiguais se me partiu;
A melhor, que era vossa, vos seguiu;
Ficou-me a outra, fraca e descontente.
Bem sei que a natureza o não consente,
Mas Amor, que mais pode, o consentiu,
Por que a fé que em presença vos serviu,
Também vos sirva agora, estando ausente.
Eu, sem mim e sem vós, não sei que espero,
Nem com que maravilhas me sustento
Nas sombras tristes do meu bem passado.
Só sei que cada dia mais vos quero,
E que por mais que possa o esquecimento,
Nunca poderá mais que meu cuidado.
567
Matilde Campilho
Não É Cair: É Voar Com Estilo
I was going to right to a poem but then I didn’t. A week ago I wrote to you a tiny telegram que dizia: “I’ll be home soon! Do not cry princess.” Foi duro pra caramba essa distância, mas é bom saber que você se fez rainha e que o afastamento de dois corpos a muito contribuiu para isso. Doeu, mas foi. E os santos padroeiros ajudaram. Sebastião, Antônio, Jorge e as multidões revolucionárias que andam ascabuçadas com a crise econômica. Às vezes, penso na fazendo do meu pai. É como aquela imagem do rosto do tigre que me vem as barbas, mas depois passa. Também escuto as canções do Tim Maia, mas nada resolve muito bem. Só sei da fazenda do pai, da fronha do tigre, do choro do mendigo e… vá lá vai. Já é lucaraça. Fiz-me poeta para dizeres okay. “Don’t you understand?” Como dizia o rapaz na chuva: “Don’t you?”. Isto não ouviria comigo, esquece! Alguns monges andam procurando mirra nas extremidades dos grãos da terra, mas já sabemos que isso é um valente estado de ilusão. Ou então é fé, sabe se lá. Tu deves saber. Tu sabes muito sobre escavação e horas são. Esta noite escrevi outro sério pedido de casamento, mas acho que já não vais na conversa. Faz tripas coração, mas sei muito bem que me amas pelos olhinhos e nunca pelas coisas que um dia morrem de podres, zonas internas e tal. Poemas. Bá. Andas bem empenhado em saber porque raios é que escrevo em inglês, mas nem eu sei. Deve ser só mais fácil mentir à estrangeiro. Desde que este da poesia era tudo verdade, mas não sei não. Também achei que o amor tinha muito menos mutação que um plátano e agora fica aqui sentado na minha fazenda assistindo a transição das estações. Alguém fez disso uma enorme ilusão. E olha que nem sei o que é a morte. My bad or my luck. Os olhos da avó ainda são azuis. Está tudo igual naquela sala é só puxar os sofás um pouco mais pra frente. É da crise, sei lá. Europa não parece querer ter outra palavra. Vi que na cidade o homem se suspende a troco de dinheiro e que fica na praça por horas e horas. Faz uns cento e tal euros por mês. Saudade do Rio all, my friend. Saudade de tudo aqui que a gente foi um dia, mas agora só existem os poemas. A mentira dos poemas. E a tradução dos poemas feitas por heróis que julgam, sei lá, amar a história que já morreu. Guarda nuns sessenta mil. Pode ser que te dê sorte.
722
Fernando Fitas
Mais do que o rumor
Mais do que o rumor
das folhas rente ao chão
é o pressentido som
das nossas vozes
solidariamente obrigadas
ao silêncio
E mais do que a nudez
pousada nos teus olhos
é esta certeza
de não saber as palavras
do teu corpo
amanhecendo no frio
de todas as esperas
Gélidos desertos
nos braços do poema
das folhas rente ao chão
é o pressentido som
das nossas vozes
solidariamente obrigadas
ao silêncio
E mais do que a nudez
pousada nos teus olhos
é esta certeza
de não saber as palavras
do teu corpo
amanhecendo no frio
de todas as esperas
Gélidos desertos
nos braços do poema
759
Nuno Fernandes Torneol
Que Coita Tamanha Hei a Sofrer
Que coita tamanha hei a sofrer,
por amar amig'e non'o veer,
e pousarei sô lo avelanal.
Que coita tamanha hei endurar,
por amar amig'e nom lhi falar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e nom lhi falar,
nem lh'ousar a coita que hei mostrar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e o nom veer,
nem lh'ousar a coita que hei dizer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei dizer,
e nom mi dam seus amores lezer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei mostrar,
e nom mi dam seus amores vagar,
e pousarei sô lo avelanal.
por amar amig'e non'o veer,
e pousarei sô lo avelanal.
Que coita tamanha hei endurar,
por amar amig'e nom lhi falar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e nom lhi falar,
nem lh'ousar a coita que hei mostrar,
e pousarei sô lo avelanal.
Por amar amig'e o nom veer,
nem lh'ousar a coita que hei dizer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei dizer,
e nom mi dam seus amores lezer,
e pousarei sô lo avelanal.
Nom lhe ousar a coita que hei mostrar,
e nom mi dam seus amores vagar,
e pousarei sô lo avelanal.
723
Pero da Ponte
Foi-S'o Meu Amigo Daqui
Foi-s'o meu amigo daqui
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
572
Nuno Fernandes Torneol
Foi-S'um Dia Meu Amigo Daqui
Foi-s'um dia meu amigo daqui
e nom me viu, e porque o nom vi,
madre, ora morrerei.
Quando m'el viu, nom foi polo seu bem,
ca morre agora por mi e por en,
madre, ora morrerei.
Foi-s'el daqui e nom m'ousou falar
nem eu a el, e por en com pesar,
madre, ora morrerei.
e nom me viu, e porque o nom vi,
madre, ora morrerei.
Quando m'el viu, nom foi polo seu bem,
ca morre agora por mi e por en,
madre, ora morrerei.
Foi-s'el daqui e nom m'ousou falar
nem eu a el, e por en com pesar,
madre, ora morrerei.
496
Fernão Garcia Esgaravunha
Se Deus Me Leixe de Vós Bem Haver
Se Deus me leixe de vós bem haver,
senhor fremosa, nunca vi prazer
des quando m'eu de vós parti.
E fez-mi o voss'amor tam muito mal,
que nunca vi prazer de mim, nem d'al,
des quando m'eu de vós parti.
Houv'eu tal coita no meu coraçom
que nunca vi prazer, se ora nom,
des quando m'eu de vós parti.
senhor fremosa, nunca vi prazer
des quando m'eu de vós parti.
E fez-mi o voss'amor tam muito mal,
que nunca vi prazer de mim, nem d'al,
des quando m'eu de vós parti.
Houv'eu tal coita no meu coraçom
que nunca vi prazer, se ora nom,
des quando m'eu de vós parti.
686
Pero da Ponte
Pois Vos Ides Daqui, Ai Meu Amigo
Pois vos ides daqui, ai meu amigo,
conselhar-vos-ei bem, se mi creverdes:
tornade-vos mais cedo que poderdes,
e guisarei como faledes migo;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
Nom mi tardedes, com'outra vegada
mi tardastes, [ca] muit'hei en gram medo,
mais punhade de vos viirdes cedo,
ca nossa fala muit'é bem parada;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
E, se vós queredes meu gasalhado,
venha-vos em mente o que vos rogo:
pois vos ides, de vos viirdes logo,
e falarei convosco mui de grado;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
conselhar-vos-ei bem, se mi creverdes:
tornade-vos mais cedo que poderdes,
e guisarei como faledes migo;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
Nom mi tardedes, com'outra vegada
mi tardastes, [ca] muit'hei en gram medo,
mais punhade de vos viirdes cedo,
ca nossa fala muit'é bem parada;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
E, se vós queredes meu gasalhado,
venha-vos em mente o que vos rogo:
pois vos ides, de vos viirdes logo,
e falarei convosco mui de grado;
e, pois, amigo, comigo falardes,
atal mi venha qual mi vós orardes.
735
Pero da Ponte
Mia Madre, Pois Se Foi Daqui
Mia madre, pois se foi daqui
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
o meu amig'e o nom vi,
nunca fui leda nem dormi,
bem vo-lo juro, des entom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Mia madre, como viverei?
Ca nom dórmio nem dormirei,
pois meu amigo em cas d'el-rei
me tarda tam longa sazom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
Pois sab'el ca lhi quer'eu bem
melhor ca mi nem outra rem,
porque mi tarda e nom vem
faz sobre mi gram traiçom,
madr', e el por mi outrossi,
tam coitad'é seu coraçom.
E direi-vos que nos avém:
eu perço [i] por el o sem
e el por mi o coraçom.
503
Paio Gomes Charinho
Ai Santiago, Padrom Sabido
Ai Santiago, padrom sabido,
vós mi adugades o meu amigo;
sobre mar vem quem frores d'amor tem;
mirarei, madre, as torres de Jeen.
Ai Santiago, padrom provado,
vós mi adugades o meu amado;
sobre mar vem quem frores d'amor tem;
mirarei, madre, as torres de Jeen.
vós mi adugades o meu amigo;
sobre mar vem quem frores d'amor tem;
mirarei, madre, as torres de Jeen.
Ai Santiago, padrom provado,
vós mi adugades o meu amado;
sobre mar vem quem frores d'amor tem;
mirarei, madre, as torres de Jeen.
641
Martim Soares
Nostro Senhor! Como Jaço Coitado
Nostro Senhor! como jaço coitado,
morrend'assi em tal poder d'Amor,
que me tolheu o sem e, mal pecado!,
al me tolh'el, de que mi faz peor:
tolhe-me vós, a que nom sei rogar
pola mia coita, nem vo-la mostrar
– assi me tem end'Amor obridado.
E grave dia com Amor foi nado,
que me de coita sempre sofredor
fez e m'ar faz viver tam alongado
d'u eu os olhos vi da mia senhor
e d'u eu vi o seu bom parecer;
se m'est'a mim podess'escaecer,
log'eu seria guarid'e cobrado.
E saberia, d'algum bem, mandado,
de que hoj'eu nom sõo sabedor
– mais sei que éste desej'e cuidado,
e como morre quem jaz na maior
coita d'amor das que eu nunca vi;
e, mal pecado!, moir'hoj'eu assi,
de mia senhor long'e desemparado.
E dereit'é, ca fui mal conselhado
que lhe falei, pero m'houv'en sabor,
ca entendi que foi tam sem seu grado,
que lhe fugi da terra com pavor
que houve dela; e fiz mui mal sem,
ca nom mi havi'a dizer nulha rem
ond'eu nem outrem fosse despagado.
morrend'assi em tal poder d'Amor,
que me tolheu o sem e, mal pecado!,
al me tolh'el, de que mi faz peor:
tolhe-me vós, a que nom sei rogar
pola mia coita, nem vo-la mostrar
– assi me tem end'Amor obridado.
E grave dia com Amor foi nado,
que me de coita sempre sofredor
fez e m'ar faz viver tam alongado
d'u eu os olhos vi da mia senhor
e d'u eu vi o seu bom parecer;
se m'est'a mim podess'escaecer,
log'eu seria guarid'e cobrado.
E saberia, d'algum bem, mandado,
de que hoj'eu nom sõo sabedor
– mais sei que éste desej'e cuidado,
e como morre quem jaz na maior
coita d'amor das que eu nunca vi;
e, mal pecado!, moir'hoj'eu assi,
de mia senhor long'e desemparado.
E dereit'é, ca fui mal conselhado
que lhe falei, pero m'houv'en sabor,
ca entendi que foi tam sem seu grado,
que lhe fugi da terra com pavor
que houve dela; e fiz mui mal sem,
ca nom mi havi'a dizer nulha rem
ond'eu nem outrem fosse despagado.
728
Martim Codax
Ai Deus, Se Sab'ora Meu Amigo
Ai Deus, se sab'ora meu amigo
com'eu senheira estou em Vigo!
E vou namorada...
Ai Deus, se sab'ora meu amado
com'eu em Vigo senheira manho!
E vou namorada...
Com'eu senheira estou em Vigo
e nulhas gardas nom hei comigo!
E vou namorada...
Com'eu senheira em Vigo manho
e nulhas gardas migo nom trago!
E vou namorada...
E nulhas gardas nom hei comigo,
ergas meus olhos que choram migo!
E vou namorada...
E nulhas gardas migo nom trago,
ergas meus olhos que choram ambos!
E vou namorada...
com'eu senheira estou em Vigo!
E vou namorada...
Ai Deus, se sab'ora meu amado
com'eu em Vigo senheira manho!
E vou namorada...
Com'eu senheira estou em Vigo
e nulhas gardas nom hei comigo!
E vou namorada...
Com'eu senheira em Vigo manho
e nulhas gardas migo nom trago!
E vou namorada...
E nulhas gardas nom hei comigo,
ergas meus olhos que choram migo!
E vou namorada...
E nulhas gardas migo nom trago,
ergas meus olhos que choram ambos!
E vou namorada...
1 066
Martim Codax
Ai Ondas Que Eu Vim Veer
Ai ondas que eu vim veer,
se me saberedes dizer
por que tarda meu amigo sem mim?
Ai ondas que eu vim mirar,
se me saberedes contar
por que tarda meu amigo sem mim?
se me saberedes dizer
por que tarda meu amigo sem mim?
Ai ondas que eu vim mirar,
se me saberedes contar
por que tarda meu amigo sem mim?
1 448
João Soares Coelho
Ai Deus, a Vó'lo Digo
Ai Deus, a vó'lo digo:
foi s'ora o meu amigo;
e se o verei, velida?
Quem m'end'ora soubesse
verdad'e mi dissesse
e se o verei, velida?
Foi-s'el mui sem meu grado
e nom sei eu mandado;
e se o verei, velida?
Que fremosa que sejo,
morrendo com desejo;
e se o verei, velida?
foi s'ora o meu amigo;
e se o verei, velida?
Quem m'end'ora soubesse
verdad'e mi dissesse
e se o verei, velida?
Foi-s'el mui sem meu grado
e nom sei eu mandado;
e se o verei, velida?
Que fremosa que sejo,
morrendo com desejo;
e se o verei, velida?
828
Juião Bolseiro
Vej'eu, Mia Filha, Quant'é Meu Cuidar
- Vej'eu, mia filha, quant'é meu cuidar,
as barcas novas viir pelo mar,
em que se foi voss'amigo daqui.
- Nom vos pês, madre, se Deus vos empar,
irei veer se vem meu amig'i.
- Cuid'eu, mia filha, no meu coraçom,
das barcas novas, que aquelas som
em que se foi voss'amigo daqui.
- Nom vos pês, madre, se Deus vos perdom,
irei veer se vem meu amig'i.
- Filha fremosa, por vos nom mentir,
vej'eu as barcas pelo mar viir
em que se foi voss'amigo daqui.
- Nom vos pês, madre, quant'eu poder ir,
irei veer se vem meu amig'i.
as barcas novas viir pelo mar,
em que se foi voss'amigo daqui.
- Nom vos pês, madre, se Deus vos empar,
irei veer se vem meu amig'i.
- Cuid'eu, mia filha, no meu coraçom,
das barcas novas, que aquelas som
em que se foi voss'amigo daqui.
- Nom vos pês, madre, se Deus vos perdom,
irei veer se vem meu amig'i.
- Filha fremosa, por vos nom mentir,
vej'eu as barcas pelo mar viir
em que se foi voss'amigo daqui.
- Nom vos pês, madre, quant'eu poder ir,
irei veer se vem meu amig'i.
765
Lourenço
Estes Com Que Eu Venho Preguntei
Estes com que eu venho preguntei
quant'há que veemos, per boa fé,
dessa terra u [a] mia senhor é;
mais dizem-mi o que lhis nom creerei:
dizem que mais d'oito dias nom há
e a mi é que mais d'um an'i há!
Mais de pram nom lhe-lo poss'eu creer
aos que dizem que tam pouc'há i
que m'eu, d'u est a mia senhor, parti;
mais que mi querem creente fazer?
Dizem que mais d'oito dias nom há
e a mi é que mais d'um an'i há!
Mentr'eu morar u nom vir mia senhor,
se m'oito dias tant'ham a durar,
mais me valria log'em me matar,
se m'oito dias tam gram sazom for.
Dizem que mais d'oito dias nom há
e a mi é que mais d'um an'i há!
E se mais d[e] oito dias nom som
que de mia senhor foi alongado,
forte preito tenho começado,
pois m'oito dias foi tam gram sazom!
quant'há que veemos, per boa fé,
dessa terra u [a] mia senhor é;
mais dizem-mi o que lhis nom creerei:
dizem que mais d'oito dias nom há
e a mi é que mais d'um an'i há!
Mais de pram nom lhe-lo poss'eu creer
aos que dizem que tam pouc'há i
que m'eu, d'u est a mia senhor, parti;
mais que mi querem creente fazer?
Dizem que mais d'oito dias nom há
e a mi é que mais d'um an'i há!
Mentr'eu morar u nom vir mia senhor,
se m'oito dias tant'ham a durar,
mais me valria log'em me matar,
se m'oito dias tam gram sazom for.
Dizem que mais d'oito dias nom há
e a mi é que mais d'um an'i há!
E se mais d[e] oito dias nom som
que de mia senhor foi alongado,
forte preito tenho começado,
pois m'oito dias foi tam gram sazom!
493
Juião Bolseiro
Nas Barcas Novas Foi-S'o Meu Amigo Daqui
Nas barcas novas foi-s'o meu amigo daqui,
e vej'eu viir barcas e tenho que vem i,
mia madre, o meu amigo.
Atendamos, ai madr', e sempre vos querrei bem,
ca vejo viir barcas e tenho que i vem,
mia madre, o meu amigo.
Nom faç'eu desguisado, mia madr', em o cuidar,
ca nom podia muito sem mi alhur morar,
mia madre, o meu amigo.
e vej'eu viir barcas e tenho que vem i,
mia madre, o meu amigo.
Atendamos, ai madr', e sempre vos querrei bem,
ca vejo viir barcas e tenho que i vem,
mia madre, o meu amigo.
Nom faç'eu desguisado, mia madr', em o cuidar,
ca nom podia muito sem mi alhur morar,
mia madre, o meu amigo.
681
Juião Bolseiro
Nom Perdi Eu, Meu Amigo, Des Que Me de Vós Parti
Nom perdi eu, meu amigo, des que me de vós parti,
do meu coraçom gram coita, nem gram pesar, mais perdi
quanto tempo, meu amigo,
vós nom vivestes comigo.
Nem perderam os olhos meus chorar nunca, nem eu mal,
des que vos vós daqui fostes, mais vedes que perdi al:
quanto tempo, meu amigo,
vós nom vivestes comigo.
do meu coraçom gram coita, nem gram pesar, mais perdi
quanto tempo, meu amigo,
vós nom vivestes comigo.
Nem perderam os olhos meus chorar nunca, nem eu mal,
des que vos vós daqui fostes, mais vedes que perdi al:
quanto tempo, meu amigo,
vós nom vivestes comigo.
735
João Mendes de Briteiros
Amiga, Bem [S]Ei Que Nom Há
Amiga, bem [s]ei que nom há
voss'amigo nẽum poder
de vos falar nem vos veer,
e vedes por que o sei já:
porque vos vej'ambos andar
mui tristes e sempre chorar.
Encobride[s]-vos sobejo
de mim, e já o feito eu sei
e poridade vos terrei,
mais vedes por que o vejo:
porque vos vej'ambos andar
mui tristes e sempre chorar.
Come se fosse o feito meu,
vos guardarei quant'eu poder,
e negar-mi-o nom há mester,
ca vedes por que o sei eu:
porque vos vej'ambos andar
mui tristes e sempre chorar.
Nem choredes, ca o pesar
sol Deus tost'em prazer tornar.
voss'amigo nẽum poder
de vos falar nem vos veer,
e vedes por que o sei já:
porque vos vej'ambos andar
mui tristes e sempre chorar.
Encobride[s]-vos sobejo
de mim, e já o feito eu sei
e poridade vos terrei,
mais vedes por que o vejo:
porque vos vej'ambos andar
mui tristes e sempre chorar.
Come se fosse o feito meu,
vos guardarei quant'eu poder,
e negar-mi-o nom há mester,
ca vedes por que o sei eu:
porque vos vej'ambos andar
mui tristes e sempre chorar.
Nem choredes, ca o pesar
sol Deus tost'em prazer tornar.
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