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Poemas neste tema

Amor à Distância

Violante do Céu

Violante do Céu

Canção

Amante pensamento,
Núncio de amor, correio da vontade,
Emulação do vento,
Lisonja da mais triste soledade,
Ministro da lembrança,
Gosto na posse, alívio na esperança,
Já que de minhas queixas
A causa idolatrada vás seguindo,
Diz-lhe qual me deixas:
Diz-lhe que estou morta, mas sentindo,
Que pode mal tão forte
Fazer que sinta (ai triste!) a mesma morte.
Diz-lhe que é já tanto
O pesar de me ver tão dividida,
Que só me causa espanto
A sombra que me segue de üa vida
Tão morta para o gosto
Como via (ai de mi!) para o desgosto.
Diz-lhe que me mata
Quem, vendo-me morrer sem resistência,
De socorrer-me trata,
Pois para quem padece o mal de ausência
Que é só remédio entendo
Ver o que quer ou fenecer querendo.
Diz-lhe que a memória
Toma por instrumento do meu dano
A já passada glória,
Fazendo o mais suave tão tirano,
Que o bem mais estimado
Me passa o coração, porque é passado.
Diz-lhe que se sabe
O poder de üa ausência rigorosa,
Que a que começa acabe
Antes que ela me acabe poderosa,
Pois de tal modo a sinto,
Que julgo ter por eterno o mais sucinto.
Diz-lhe que se admite
Rogos de um coração que o segue amante,
Que ver-me solicite
Apesar do preciso e do distante,
E que tão cedo seja
Que toda a compaixão se torne inveja.
Diz-lhe que se acorde
De uns efeitos de amor que encarecia,
E que todos recorde,
Mas que seja um minuto cada dia,
Pois eu cada minuto
Infinitas lembranças lhe tributo.
Diz-lhe que até à morte
Assistência contínua lhe ofereces,
E que te invejo a sorte;
E enfim, se de meu mal te compadeces,
Ó pensamento amigo,
Diz-lhe tudo, ou leva-me contigo.
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José Bonifácio de Andrada e Silva

José Bonifácio de Andrada e Silva

Ausência

Em Paris, no ano de 1790.

Pode o Fado cruel com mão ferrenha,
Eulina amada, meu encanto e vida,
Abafar este peito e sufocar-me!
Que pretende o Destino? em vão presume
Rasgar do meu o coração de Eulina,
Pois fazem sós um coração inteiro!
alma impressa,
Tu desafias, tu te ris do Fado.
Embora contra nós ausência fera,
Solitárias campinas estendidas,
Serras alpinas, áridos desertos,
Largos campos da cérula Amphitrite
Dois corpos enlaçados separando,
Conspirem-se até mesmo os Céus Tiranos.
Sim, os Céus! Ah! parece que nem sempre
Neles mora a bondade! Escuro Fado
Os homens bandeando, como o vento
Os grãos de areia sobre a praia infinda
Dos míseros mortais brinca e os males
Se tudo pode, isto não pode o Fado!
Sim, adorada, angelical Eulina.
Eterna viverás a esta alma unida,
Eterna! pois as almas nunca morrem.
Quando os corpos não possam atraídos
Ligarem-se em recíprocos abraços,
(Que prazer, minha amada! O Deus Supremo,
Quando fez com a voz grávido o Nada,
Maior não teve) podem nossas almas,
A despeito de mil milhões de males,
Da mesma morte. E contra nós que vale?
Do sangrento punhal, que o Fado vibre,
Quebrar a ponta; podem ver os Mundos
Errar sem ordem pelo espaço imenso;
Toda a Matéria reduzir-se em nada,
E podem ainda nossas almas juntas,
Em amores nadar de eterno gozo!


Publicado no livro Poesias Avulsas de Américo Elísio (1825).

In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similiar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.63-64. (Coleção Afrânio Peixoto
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