Poemas neste tema
Felicidade e Alegria
Rui Costa
Acidente I (helderiana virulenta)
eu às vezes apetece-me que vocês sejam felizes hoje,
roubando aos bocados. Com gotas de sono a morder alto,
rebentando nas asas.
Às vezes procuro chamar a atenção, isto é, por vezes decido morrer
para sempre. Sem anzóis a cair dos braços movendo o ritmo do ar.
E sem pena, horizontal a tudo. Então costumo ver os amigos encostados
uns aos outros, lavando árvores. Ou entrando pelo sangue, com as mãos
todas a dar olhos.
Lembro-me de vocês quando decido morrer para sempre.
E quando sou eterno, comendo folhas sentado.
Sei que há paredes brancas onde as éguas não entram. Ficamos
às vezes à conversa nos rios infinitos, chorando lentamente
uma felicidade louca. E somos loucos perguntando, chovendo
no coração louco. E nada existe que não seja apavorado e
tremendo.
Mas tu sabes. Eu quero que tu oiças. As nuvens são inteligentes
e é por elas que as nossas mãos recebem. Por tudo quanto não existe,
pondo pedras demoradas junto ao lugar do amor. Tantos mortos,
dizes,
órgãos repartidos por tanta nenhuma coisa. Nada. Tanto.
Eu sou louco e compreendo. Eu tenho o meu orgulho e a minha força.
Canso-me. Uso as minhas mãos. Deixo o coração ser alternado
e comestível. E o vento passa lá fora e eu passo cá dentro e lá fora.
E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras.
Neste extremo lugar dos homens,
coroado de tudo.
roubando aos bocados. Com gotas de sono a morder alto,
rebentando nas asas.
Às vezes procuro chamar a atenção, isto é, por vezes decido morrer
para sempre. Sem anzóis a cair dos braços movendo o ritmo do ar.
E sem pena, horizontal a tudo. Então costumo ver os amigos encostados
uns aos outros, lavando árvores. Ou entrando pelo sangue, com as mãos
todas a dar olhos.
Lembro-me de vocês quando decido morrer para sempre.
E quando sou eterno, comendo folhas sentado.
Sei que há paredes brancas onde as éguas não entram. Ficamos
às vezes à conversa nos rios infinitos, chorando lentamente
uma felicidade louca. E somos loucos perguntando, chovendo
no coração louco. E nada existe que não seja apavorado e
tremendo.
Mas tu sabes. Eu quero que tu oiças. As nuvens são inteligentes
e é por elas que as nossas mãos recebem. Por tudo quanto não existe,
pondo pedras demoradas junto ao lugar do amor. Tantos mortos,
dizes,
órgãos repartidos por tanta nenhuma coisa. Nada. Tanto.
Eu sou louco e compreendo. Eu tenho o meu orgulho e a minha força.
Canso-me. Uso as minhas mãos. Deixo o coração ser alternado
e comestível. E o vento passa lá fora e eu passo cá dentro e lá fora.
E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras.
Neste extremo lugar dos homens,
coroado de tudo.
481
Martha Medeiros
Feliz por nada
Geralmente, quando uma pessoa exclama Estou tão feliz!, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.
Digamos: feliz porque maio recém começou e temos longos oito meses para fazer de 2010 um ano memorável. Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou.
Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama.
Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.
Feliz por nada, nada mesmo?
Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza.
“Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?
Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma.
Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.
Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.
Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre.
Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?
A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.
Ser feliz por nada talvez seja isso.
Digamos: feliz porque maio recém começou e temos longos oito meses para fazer de 2010 um ano memorável. Feliz por estar com as dívidas pagas. Feliz porque alguém o elogiou.
Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama.
Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.
Feliz por nada, nada mesmo?
Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza.
“Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?
Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma.
Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.
Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.
Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre.
Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?
A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.
Ser feliz por nada talvez seja isso.
1 068
Amália Bautista
Conta-mo outra vez
Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me outra vez que o casal
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes, por favor:
é a história mais bela que conheço.
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me outra vez que o casal
do conto foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes, por favor:
é a história mais bela que conheço.
794
Daniel Francoy
ALEGRIA
Que improvável trazer
o dom da alegria.
Que clandestino trago
de vinho saboreio
na tarde que germina
– dulcíssimo perfume –
duras ervas daninhas
(pressinto na mandíbula
as raízes que quebram
as pedras, ascendendo).
E entre tanta alegria
e entre tanta doçura
que improvável trazer
a morte clandestina –
no homem a gravidez
dos terrenos baldios.
Que doído plantar.
Que doído deixar
de plantar: vivo ou morto
de mim nada precisa.
o dom da alegria.
Que clandestino trago
de vinho saboreio
na tarde que germina
– dulcíssimo perfume –
duras ervas daninhas
(pressinto na mandíbula
as raízes que quebram
as pedras, ascendendo).
E entre tanta alegria
e entre tanta doçura
que improvável trazer
a morte clandestina –
no homem a gravidez
dos terrenos baldios.
Que doído plantar.
Que doído deixar
de plantar: vivo ou morto
de mim nada precisa.
1 231
Herberto Helder
3D
Uma golfada de ar que me acorda numa imagem larga.
Os braços apertam os pulmões da estrela.
E o golpe freme a toda a altura negra. Tremo
na linha sísmica que atravessa o sono.
De ferro em brasa na cabeça,
medo e delírio,
o sombrio trabalho da beleza com as unhas fincadas
na matéria atenta
à olaria.
E súbito, apenas pelo uso elementar das coisas,
esse júbilo terrível.
Os braços apertam os pulmões da estrela.
E o golpe freme a toda a altura negra. Tremo
na linha sísmica que atravessa o sono.
De ferro em brasa na cabeça,
medo e delírio,
o sombrio trabalho da beleza com as unhas fincadas
na matéria atenta
à olaria.
E súbito, apenas pelo uso elementar das coisas,
esse júbilo terrível.
1 122
Herberto Helder
Texto 6
Não se esqueçam de uma energia bruta e de uma certa
maneira delicada de colocá-la no “espaço”
ponham-na a andar a correr a saber
sobre linhas curvas e linhas rectas “fulminantes”
ponham-na sobre patins com o stique e a bola como
"ponto de referência” ou como “pretexto espaço-tempo”
para aplicação da “dança”
experimentem uma ou duas vezes ou três reter determinada
“imagem” e metam-na “para dentro” assim imóvel
e fiquem parados “aí” com a imagem parada talvez brilhando
(• qualquer coisa como uma sagrada suspensão
e abrindo os olhos então o jogo retoma a imagem
que entretanto ficou incrustada no escuro a brilhar sempre
e dela “parece” que o movimento parte de novo
é uma “linguagem” e energia e delicadeza atravessam o ar
espectáculo do “verbo primeiro e último” apanhem a figura “absoluta”
do pé esquerdo o patim refulge a mão direita “prolonga-se”
vamos achar bem que o stique seja a “respiração”
extrema e extensa
a bola põe-se a “caligrafar” todo um sistema de planos
intensos leves
"metáfora” decerto minuto a minuto destruída pela pergunta
"que jogo é este para o entendimento dos olhos?”
a resposta “alegria” tudo esgota
mas só um sentimento de urgência corporal dá ao jogo
uma “necessária dimensão”
“o jogo respira?” perguntam e diz-se “que respira”
“então deixem-no lá viver” como se se tratasse de
“uma criatura”
podemos confundir “isto” com “acertar”?
o jogo apenas acerta consigo mesmo e este acerto é o próprio
“jogo”
nele ressaltam só qualidades de acção força delicadeza
envolvimento em si mesmo
e o prazer de maquinar o universo numa restrita
organização de linhas vividas em “iminência”
de imagem em imagem se transfere o corpo
sempre à beira de “ser” e parando e continuando
e ainda “apagando e recomeçando” como se continuamente
bebesse de si e tivesse o ar pequeno para demonstrar
a grandeza de si a si mesmo
“referido a quê senão ao absurdo de um espelho?”
“a enviar-se” cerradamente entre os seus limites
zona frequentada pela “ausência viva”
destreza porque sim forma porque sim aplicação porque sim
de tudo em tudo
de nada em nada pelo gozo “básico” de “estar a ser”
maneira delicada de colocá-la no “espaço”
ponham-na a andar a correr a saber
sobre linhas curvas e linhas rectas “fulminantes”
ponham-na sobre patins com o stique e a bola como
"ponto de referência” ou como “pretexto espaço-tempo”
para aplicação da “dança”
experimentem uma ou duas vezes ou três reter determinada
“imagem” e metam-na “para dentro” assim imóvel
e fiquem parados “aí” com a imagem parada talvez brilhando
(• qualquer coisa como uma sagrada suspensão
e abrindo os olhos então o jogo retoma a imagem
que entretanto ficou incrustada no escuro a brilhar sempre
e dela “parece” que o movimento parte de novo
é uma “linguagem” e energia e delicadeza atravessam o ar
espectáculo do “verbo primeiro e último” apanhem a figura “absoluta”
do pé esquerdo o patim refulge a mão direita “prolonga-se”
vamos achar bem que o stique seja a “respiração”
extrema e extensa
a bola põe-se a “caligrafar” todo um sistema de planos
intensos leves
"metáfora” decerto minuto a minuto destruída pela pergunta
"que jogo é este para o entendimento dos olhos?”
a resposta “alegria” tudo esgota
mas só um sentimento de urgência corporal dá ao jogo
uma “necessária dimensão”
“o jogo respira?” perguntam e diz-se “que respira”
“então deixem-no lá viver” como se se tratasse de
“uma criatura”
podemos confundir “isto” com “acertar”?
o jogo apenas acerta consigo mesmo e este acerto é o próprio
“jogo”
nele ressaltam só qualidades de acção força delicadeza
envolvimento em si mesmo
e o prazer de maquinar o universo numa restrita
organização de linhas vividas em “iminência”
de imagem em imagem se transfere o corpo
sempre à beira de “ser” e parando e continuando
e ainda “apagando e recomeçando” como se continuamente
bebesse de si e tivesse o ar pequeno para demonstrar
a grandeza de si a si mesmo
“referido a quê senão ao absurdo de um espelho?”
“a enviar-se” cerradamente entre os seus limites
zona frequentada pela “ausência viva”
destreza porque sim forma porque sim aplicação porque sim
de tudo em tudo
de nada em nada pelo gozo “básico” de “estar a ser”
608
Herberto Helder
75
se alguém respirasse e cantasse uma palavra,
e súbito fosse respirado por ela, fosse
cantado assim
de puro júbilo ou, quem sabe? de medo puro,
poria no termo o selo de si mesmo?
quem é que sabe onde fica o mundo?
e de quê e de quem e de como é composto e dito,
de como uma palavra, uma só, regula
ininterruptamente tudo, e alguém a põe em uso,
oh glória idiomática,
e é posto e disposto até que abuso de que espécie de infuso espírito
das profundezas dessa palavra
e súbito fosse respirado por ela, fosse
cantado assim
de puro júbilo ou, quem sabe? de medo puro,
poria no termo o selo de si mesmo?
quem é que sabe onde fica o mundo?
e de quê e de quem e de como é composto e dito,
de como uma palavra, uma só, regula
ininterruptamente tudo, e alguém a põe em uso,
oh glória idiomática,
e é posto e disposto até que abuso de que espécie de infuso espírito
das profundezas dessa palavra
684
Herberto Helder
27
retira-se alguém um pouco atrás na noite
para fazer uma escola da leveza,
sentar-se sobre si mesmo devorando uma laranja,
pronta,
colhida ao caos, que ela sim ilumina quem a usa,
e é isto: a laranja faz rodar os dedos, torna
leve, pelos dedos,
aquele que a levanta, e tão exacto gosto na língua,
tão transbordante,
dói no fino do frio açúcar,
e a laranja levanta tudo: luz e dedos, e a pessoa
com a ferida na boca, o gosto
magoado até à pronúncia das expressões mais simples do idioma,
golpe a golpe,
como em estrangeiro brutal,
ou inexpugnável,
que faz ele? talha trémula, oh Deus! lavrada a pau virgem e folha de
ouro,
mete-lhe os polegares pelos umbigos, devora-a, celebra, embebeda-se,
que escola de laranja terrestre não se pode mais que esta leveza
para fazer uma escola da leveza,
sentar-se sobre si mesmo devorando uma laranja,
pronta,
colhida ao caos, que ela sim ilumina quem a usa,
e é isto: a laranja faz rodar os dedos, torna
leve, pelos dedos,
aquele que a levanta, e tão exacto gosto na língua,
tão transbordante,
dói no fino do frio açúcar,
e a laranja levanta tudo: luz e dedos, e a pessoa
com a ferida na boca, o gosto
magoado até à pronúncia das expressões mais simples do idioma,
golpe a golpe,
como em estrangeiro brutal,
ou inexpugnável,
que faz ele? talha trémula, oh Deus! lavrada a pau virgem e folha de
ouro,
mete-lhe os polegares pelos umbigos, devora-a, celebra, embebeda-se,
que escola de laranja terrestre não se pode mais que esta leveza
1 043
Herberto Helder
35
pêras plenas na luz subida para colhê-las
com hábil ebriedade, tardas
frutas no talento de amadurecerem, e tão afundadas em si mesmas e
prontas
quando se colhem: e era eu no orvalho:
que júbilo contabilista me levava a somá-las:
a quantidade de amor, o cuidado virado ao brilho,
às colinas,
e o medo então de que o sabor me fira muito
lábios e língua,
e a acuidade me destroce a fala: tanto
quero lucidez e
estudo para me arrebatarem, e não sei
de operação que me devolva
ali, no ápice
terrestre,
a unidade numérica, unhas
e cascas luzindo:
pêra tão única no mais apurado desde a raiz,
que me tremesse a boca
como se fosse de um idioma estrito mas desmedido no sentido,
e a arte apenas das contas bastasse para o alvoroço
de erguer-me num pomar,
o tacto atento nas pêras densas,
oh destros dedos repetidos no extremo dos dias, eu:
formal, aritmético,
quem sabe se escolhendo a morte pelos dedos
com hábil ebriedade, tardas
frutas no talento de amadurecerem, e tão afundadas em si mesmas e
prontas
quando se colhem: e era eu no orvalho:
que júbilo contabilista me levava a somá-las:
a quantidade de amor, o cuidado virado ao brilho,
às colinas,
e o medo então de que o sabor me fira muito
lábios e língua,
e a acuidade me destroce a fala: tanto
quero lucidez e
estudo para me arrebatarem, e não sei
de operação que me devolva
ali, no ápice
terrestre,
a unidade numérica, unhas
e cascas luzindo:
pêra tão única no mais apurado desde a raiz,
que me tremesse a boca
como se fosse de um idioma estrito mas desmedido no sentido,
e a arte apenas das contas bastasse para o alvoroço
de erguer-me num pomar,
o tacto atento nas pêras densas,
oh destros dedos repetidos no extremo dos dias, eu:
formal, aritmético,
quem sabe se escolhendo a morte pelos dedos
520
Herberto Helder
Tríptico - Iii
Todas as coisas são mesa para os pensamentos
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
—Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos — meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.
E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.
Ela explica tudo, e o vir para mim —
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
— é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.
Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
— E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
—Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos — meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.
E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.
Ela explica tudo, e o vir para mim —
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
— é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.
Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
— E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.
803
Herberto Helder
Colinas Amarelas, Árvores Vermelhas
colinas amarelas, árvores vermelhas,
crua água pelas pedras frias fora e transparente abaixo delas,
e o júbilo imediato de ver apenas isso,
e isso por si só estar tão certo,
e nem um instante me ocorrer que a força destas coisas é um instante apenas da força da sua morte,
e que essas mortes uma a uma são a minha própria morte
somada erradamente
crua água pelas pedras frias fora e transparente abaixo delas,
e o júbilo imediato de ver apenas isso,
e isso por si só estar tão certo,
e nem um instante me ocorrer que a força destas coisas é um instante apenas da força da sua morte,
e que essas mortes uma a uma são a minha própria morte
somada erradamente
1 118
Fernando Fitas
Havia um barco
Havia um barco
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.
O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã
Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.
O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã
Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
650
Matilde Campilho
Veleiro
Bem: as palmeiras brilham mais que o ouro. Walter Benjamin tinha razão sobre os círculos — quanto mais se roda em volta do amor, mais o amor se expande. A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo. Bem, quatrocentos anos depois e você & eu ainda somos uma espécie de Ferris Bueller’s Day Off. Ó, você viu os coros dos meninos na avenida? A alegria é um carro de bombeiros todo enfeitado de penas e cavalos bravos, atravessando tudo. A liberdade se faz inteira debaixo da palavra, entre um músico Tang e um jarro de Oaxaca. Os continentes se aproximam docemente e, como você me explicou, o selvagem europeu ainda vai soltar seu esplendor. Acredito muito naquilo que ninguém mais espera, principalmente depois que dei de caras com o dorso da baleia solitária. Todo canto tem um tom, e a maioria dos mamíferos se agrupam pelo reconhecimento de uma musicalidade comum. Sim, o fadista vai escolher o fadista, e as manadas de baleia costumam espalhar seu sopro de cerca de 20 hertz por oceanos infinitos. Em comunhão. Mas imagine você que em 1989 alguém descobriu uma baleia que canta solitária e a 52 hertz — sem primos, sem irmãos, sem melhor amigo, sem ilha onde fazer um pit stop. Ninguém vocaliza sua frequência, ouvido nenhum escuta seus 52 pontos. Há milagres. Depois do surgimento da baleia solitária, depois dos círculos de Benjamin, depois do desdobramento do poema XIX, depois do berlinde de Seymour Glass sendo girado no dedo do jogador de basquete, me diga, como não acreditar no brilho natural que diariamente resplandece no peito da terra? Bem, seu rosto de espanto frente ao sorvete de morango numa tarde de domingo é a manobra que puxa o lustro à pele do planeta. Benzinho, estamos invertendo a poesia de Eliot. Estamos curando o resfriado de Madame Sosostris, e esta coisa da alegria ainda vai dar muito certo. Seja como for, dê por onde der, seguimos usando o colar de pérolas que é feito dos olhos do marinheiro fenício. No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará.
1 496
Matilde Campilho
Estação do Trem
Depois de acordarmos
sempre ainda meio vivos
um pouco ensonados
é mais ou menos fácil
entrar na vida
depois dessas coisas
Prometemos várias vezes
que não trocaríamos o amor
por jogatinas de pingue-pongue
e quando finalmente percebemos
que o ás do pingue-pongue
é exatamente
a medida certa do amor
ajubilamos na gargalhada
que só pode ser
que afinal, sempre foi
nós dois acreditamos nisso
a herança de Deus para nós
Sim, olha
eu lembro
de quando tu só sabias contar
até 400.
sempre ainda meio vivos
um pouco ensonados
é mais ou menos fácil
entrar na vida
depois dessas coisas
Prometemos várias vezes
que não trocaríamos o amor
por jogatinas de pingue-pongue
e quando finalmente percebemos
que o ás do pingue-pongue
é exatamente
a medida certa do amor
ajubilamos na gargalhada
que só pode ser
que afinal, sempre foi
nós dois acreditamos nisso
a herança de Deus para nós
Sim, olha
eu lembro
de quando tu só sabias contar
até 400.
1 354
Matilde Campilho
Chapéu de Palha
Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
679
Nuno Fernandes Torneol
Ai Madr', o Meu Amigo Que Nom Vi
Ai madr', o meu amigo que nom vi
há gram sazom, dizem-mi que é 'qui,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
E sempr'eu punhei de lhi mal fazer,
mais, pois ora vẽo por me veer,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
Por quanta coita el por mi levou
nom lhi poss'al fazer, mais, pois chegou,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
há gram sazom, dizem-mi que é 'qui,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
E sempr'eu punhei de lhi mal fazer,
mais, pois ora vẽo por me veer,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
Por quanta coita el por mi levou
nom lhi poss'al fazer, mais, pois chegou,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
614
Paio Gomes Charinho
Disserom-M'hoj', Ai Amiga, Que Nom
Disserom-m'hoj', ai amiga, que nom
é meu amig'almirante do mar,
e meu coraçom já pode folgar
e dormir já, e, por esta razom,
o que do mar meu amigo sacou
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou
mui bem a mim, ca já nom andarei
triste por vento que veja fazer,
nem por tormenta nom hei de perder
o sono, amiga; mais, se foi el-rei
o que do mar meu amigo sacou,
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou
mui bem a mim, ca, já cada que vir
algum home de fronteira chegar,
nom hei medo que mi diga pesar;
mais, porque m'el fez bem sem lho pedir,
o que do mar meu amigo sacou
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou.
é meu amig'almirante do mar,
e meu coraçom já pode folgar
e dormir já, e, por esta razom,
o que do mar meu amigo sacou
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou
mui bem a mim, ca já nom andarei
triste por vento que veja fazer,
nem por tormenta nom hei de perder
o sono, amiga; mais, se foi el-rei
o que do mar meu amigo sacou,
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou
mui bem a mim, ca, já cada que vir
algum home de fronteira chegar,
nom hei medo que mi diga pesar;
mais, porque m'el fez bem sem lho pedir,
o que do mar meu amigo sacou
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou.
465
Lourenço
Amiga, Quero-M'ora Cousecer
Amiga, quero-m'ora cousecer
se ando mais leda por ũa rem:
porque dizem que meu amigo vem;
mais a quem me vir querrei parecer
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
Querrei andar triste por lhi mostrar
ca mi nom praz, assi Deus mi perdom,
pero al mi tenho eu no coraçom;
mas a quem me vir querrei semelhar
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
Pero, amiga, sempre receei
d'andar triste quando gram prazer vir,
mais hei-o de fazer por m'encobrir;
e, a força de mi, parecerei
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
se ando mais leda por ũa rem:
porque dizem que meu amigo vem;
mais a quem me vir querrei parecer
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
Querrei andar triste por lhi mostrar
ca mi nom praz, assi Deus mi perdom,
pero al mi tenho eu no coraçom;
mas a quem me vir querrei semelhar
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
Pero, amiga, sempre receei
d'andar triste quando gram prazer vir,
mais hei-o de fazer por m'encobrir;
e, a força de mi, parecerei
triste, quando souber que el verrá,
mais meu coraçom mui ledo seerá.
645
Juião Bolseiro
Da Noite D'eire Poderam Fazer
Da noite d'eire poderam fazer
grandes três noites, segundo meu sem,
mais na d'hoje mi vẽo muito bem,
ca vẽo meu amigo,
e, ante que lh'ouvisse dizer rem,
vẽo a luz e foi logo comigo.
E pois m'eu eire senlheira deitei,
a noite foi e vẽo e durou,
mais a d'hoje pouco a semelhou,
ca vẽo meu amigo,
e, tanto que mi a falar começou,
vẽo a luz e foi logo comigo.
E comecei eu eire de cuidar
[e] começou a noite de crecer,
maila d'hoje nom quis assi fazer,
ca vẽo meu amigo,
e, faland'eu com el a gram prazer,
vẽo a luz e foi logo comigo.
grandes três noites, segundo meu sem,
mais na d'hoje mi vẽo muito bem,
ca vẽo meu amigo,
e, ante que lh'ouvisse dizer rem,
vẽo a luz e foi logo comigo.
E pois m'eu eire senlheira deitei,
a noite foi e vẽo e durou,
mais a d'hoje pouco a semelhou,
ca vẽo meu amigo,
e, tanto que mi a falar começou,
vẽo a luz e foi logo comigo.
E comecei eu eire de cuidar
[e] começou a noite de crecer,
maila d'hoje nom quis assi fazer,
ca vẽo meu amigo,
e, faland'eu com el a gram prazer,
vẽo a luz e foi logo comigo.
603
João Soares Coelho
Amigas, Por Nostro Senhor
Amigas, por Nostro Senhor,
andade ledas migo,
ca puj'antre mia madr'amor
e antr'o meu amigo
e por aquest'ando leda;
gram dereit'hei [d]'andar leda
e andade migo ledas.
Pero mia madre nom foss'i,
mandou-mi que o visse;
nunca tam bom mand[ad]'oí
come quando mi o disse
e por aquest'ando leda;
gram dereit'hei d'andar leda
e andade migo ledas.
E mandou-o migo falar
(vedes que bem mi há feito)
e venho-mi-vos en loar,
ca puji já assi o preito
e por aquest'ando leda;
gram dereit'hei d'andar leda
e andade migo ledas.
andade ledas migo,
ca puj'antre mia madr'amor
e antr'o meu amigo
e por aquest'ando leda;
gram dereit'hei [d]'andar leda
e andade migo ledas.
Pero mia madre nom foss'i,
mandou-mi que o visse;
nunca tam bom mand[ad]'oí
come quando mi o disse
e por aquest'ando leda;
gram dereit'hei d'andar leda
e andade migo ledas.
E mandou-o migo falar
(vedes que bem mi há feito)
e venho-mi-vos en loar,
ca puji já assi o preito
e por aquest'ando leda;
gram dereit'hei d'andar leda
e andade migo ledas.
612
João Soares Coelho
Fremosas, a Deus Louvado, Com Tam Muito Bem Como Hoj'hei
Fremosas, a Deus louvado, com tam muito bem como hoj'hei,
e do que sõo mais leda: ca todo quant'eu desejei
vi, quando vi meu amigo.
e do que sõo mais leda: ca todo quant'eu desejei
vi, quando vi meu amigo.
485
Juião Bolseiro
Ai Meu Amigo, Meu, Per Bõa Fé,
Ai meu amigo, meu, per bõa fé,
e nom doutra, per bõa fé, mais meu,
rog'eu a Deus, que mi vos hoje deu,
que vos faça tam ledo seer migo
quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
ca nunca fui tam leda pois naci.
Bom dia vejo, pois vos vej'aqui,
meu amigo, meu, a la fé, sem al;
faça-vos Deus ledo, que pod'e val,
seer migo, meu bem e meu desejo,
quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
ca nunca fui tam leda pois naci.
Meu gasalhado, se mi valha Deus,
e amigo meu e meu coraçom,
faça-vos Deus em algũa sazom
seer migo tam led'e tam pagado
quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
ca nunca fui tam leda pois naci.
e nom doutra, per bõa fé, mais meu,
rog'eu a Deus, que mi vos hoje deu,
que vos faça tam ledo seer migo
quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
ca nunca fui tam leda pois naci.
Bom dia vejo, pois vos vej'aqui,
meu amigo, meu, a la fé, sem al;
faça-vos Deus ledo, que pod'e val,
seer migo, meu bem e meu desejo,
quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
ca nunca fui tam leda pois naci.
Meu gasalhado, se mi valha Deus,
e amigo meu e meu coraçom,
faça-vos Deus em algũa sazom
seer migo tam led'e tam pagado
quam leda fui hoj'eu, quando vos vi,
ca nunca fui tam leda pois naci.
566
Juião Bolseiro
Fui Hoj'eu, Madre, Veer Meu Amigo
Fui hoj'eu, madre, veer meu amigo,
que envio[u] muito rogar por en,
porque sei eu ca mi quer mui gram bem;
mais vedes, madre, pois m'el vio consigo,
foi el tam ledo que, des que naci,
nunca tam led'home com molher vi.
Quand'eu cheguei, estava el chorando
e nom folgava o seu coraçom,
cuidand'em mi, se iria, se nom,
mais, pois m'el viu, u m'el estava asperando,
foi el tam ledo que, des que naci,
nunca tam led'home com molher vi.
E, pois Deus quis que eu fosse u m'el visse,
diss'el, mia madre, como vos direi:
"Vej'eu viir quanto bem no mund'hei";
e vedes, madre, quand'el esto disse,
foi tam ledo que, des que eu naci,
nunca tam led'home com molher vi.
que envio[u] muito rogar por en,
porque sei eu ca mi quer mui gram bem;
mais vedes, madre, pois m'el vio consigo,
foi el tam ledo que, des que naci,
nunca tam led'home com molher vi.
Quand'eu cheguei, estava el chorando
e nom folgava o seu coraçom,
cuidand'em mi, se iria, se nom,
mais, pois m'el viu, u m'el estava asperando,
foi el tam ledo que, des que naci,
nunca tam led'home com molher vi.
E, pois Deus quis que eu fosse u m'el visse,
diss'el, mia madre, como vos direi:
"Vej'eu viir quanto bem no mund'hei";
e vedes, madre, quand'el esto disse,
foi tam ledo que, des que eu naci,
nunca tam led'home com molher vi.
670
João Garcia de Guilhade
Fostes, Amig', Hoje Vencer
Fostes, amig', hoje vencer
na voda, em bafordar bem,
tôdolos outros e praz-m'en;
ar direi-vos outro prazer:
a leva do parecer da voda,
per bõa fé, eu mi a levo toda.
E, poilos vencedes assi,
nunca deviam a lançar
vosc', amigo, nem bafordar;
ar falemos logo de mi:
a leva do parecer da voda,
per bõa fé, eu mi a levo toda.
E muito mi praz do que sei
que vosso bom prez verdad'é,
meu amigo, e, per bõa fé,
outro gram prazer vos direi:
a leva do parecer da voda,
per bõa fé, eu mi a levo toda.
A tôdalas donas pesou
quando me virom sigo estar,
e punharom de s'afeitar,
mais praza-vos de como eu vou:
a leva do parecer da voda
per bõa fé, eu mi a levo toda.
na voda, em bafordar bem,
tôdolos outros e praz-m'en;
ar direi-vos outro prazer:
a leva do parecer da voda,
per bõa fé, eu mi a levo toda.
E, poilos vencedes assi,
nunca deviam a lançar
vosc', amigo, nem bafordar;
ar falemos logo de mi:
a leva do parecer da voda,
per bõa fé, eu mi a levo toda.
E muito mi praz do que sei
que vosso bom prez verdad'é,
meu amigo, e, per bõa fé,
outro gram prazer vos direi:
a leva do parecer da voda,
per bõa fé, eu mi a levo toda.
A tôdalas donas pesou
quando me virom sigo estar,
e punharom de s'afeitar,
mais praza-vos de como eu vou:
a leva do parecer da voda
per bõa fé, eu mi a levo toda.
613