Poemas neste tema
Humanidade e Solidariedade
Francesca Angiolillo
Etiópia, Etiópia
Etiopía era a estação
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.
Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.
Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
721
Wanda Ramos
E correram os rios
Correram como rios as palavras
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
639
Mário-Henrique Leiria
CONFRATERNIZAÇÃO
A anca bem tostada
um rim na grelha
e ainda
a bexiga recheada
tudo com arroz
é evidente
e um notável molho
picante e sapiente
foi o que me coube
ah esquecia-me
também um olho
com champignon
ao natural
estava bom
nada de muito excepcional
mas comia-se
a contento
foi um jantar
bem agradável
todos louvámos
aquela sangria tão gelada
era um portento
no fim
após a marmelada
a aguardente
e o cafezinho fumegante
oferecemos
os sapatos o casaco
as calças e o penante
àquele pobrezinho
refugiado búlgaro
fugido à vacina
a camisa foi pró lixo
estava imprestável
suja
com manchas
nada fina
dá-la ao pobre búlgaro
seria imperdoável
um rim na grelha
e ainda
a bexiga recheada
tudo com arroz
é evidente
e um notável molho
picante e sapiente
foi o que me coube
ah esquecia-me
também um olho
com champignon
ao natural
estava bom
nada de muito excepcional
mas comia-se
a contento
foi um jantar
bem agradável
todos louvámos
aquela sangria tão gelada
era um portento
no fim
após a marmelada
a aguardente
e o cafezinho fumegante
oferecemos
os sapatos o casaco
as calças e o penante
àquele pobrezinho
refugiado búlgaro
fugido à vacina
a camisa foi pró lixo
estava imprestável
suja
com manchas
nada fina
dá-la ao pobre búlgaro
seria imperdoável
460
Sidónio Muralha
Menina fútil
A menina fútil deu um bodo aos pobres;
pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal…
– Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental…
A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela …
– Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela …
… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela …
Promessas … porque o resto era pecado
e pecar não é com ela …
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela … )
Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental…
Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;
– e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais põe avental…
pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal…
– Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental…
A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela …
– Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela …
… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela …
Promessas … porque o resto era pecado
e pecar não é com ela …
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela … )
Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental…
Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;
– e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais põe avental…
669
Daniel Lima
Há misérias nos homens
Há misérias nos homens
Os anjos cantam nas nuvens.
Era Sexta-feira Santa
Cristo morria.
Judas se enforcava.
E eu tomava sorvete.
Os anjos cantam nas nuvens.
Era Sexta-feira Santa
Cristo morria.
Judas se enforcava.
E eu tomava sorvete.
767
Renato Rezende
[Filtros]
Eu criei uma ilusão, um véu, há muitas camadas de tecido,
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.
Somos todos vazios,
Sem existência fixa.
A gente vai sempre virando
apenas mais uma vida,
perdida
ARRISCAR TUDO
Todos os recursos
Concentrar todos os esforços
Lançar tudo fora
Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece
se perde
diante do abismo
pisa
no vazio
Nada tem sentido
Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.
Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.
A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.
Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.
Isso é ser livre?
Toda pessoa que se preze é uma fracassada.
Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:
No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.
Somos todos vazios,
Sem existência fixa.
A gente vai sempre virando
apenas mais uma vida,
perdida
ARRISCAR TUDO
Todos os recursos
Concentrar todos os esforços
Lançar tudo fora
Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece
se perde
diante do abismo
pisa
no vazio
Nada tem sentido
Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.
Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.
A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.
Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.
Isso é ser livre?
Toda pessoa que se preze é uma fracassada.
Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:
No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
825
Renato Rezende
Serviço de Utilidade Pública
O Serviço de Busca de Paradeiro da Cruz
Vermelha Brasileira informa que as seguintes
pessoas estão sendo procuradas por seus
parentes. Informações podem ser fornecidas pelo
telefone 2509-3552. Benedito Francisco Dias,
de 78 anos, nascido em Nossa Senhora do
Livramento, em Mato Grosso, está desaparecido
desde 25 de dezembro de 1995. Edson
Rosa da Silva, carioca, de 47 anos,
desapareceu no Rio de Janeiro, em 1988.
Veronica Deptulsky, cujos pais, Romualdo e
Cecília, nasceram na colônia polonesa de Águia
Branca, em Colatina, ES. João Araújo da
Silva, 57 anos, paraibano de Aroeira, está
desaparecido desde 1992. Ele é marceneiro e
tem apelido de "Índio". Euclides Matta
Pascoal, de 76 anos, desapareceu em 1950.
Raimundo Ribeiro Ávila, de 59 anos, cearense.
Em 1988 foi visto em Brasília. Bolival
Pereira de Melo, que em 1961 trabalhou como
telegrafista na Usina de Barreiros, em
Pernambuco. Moisés Miranda, carioca, de 32
anos, saiu de casa dia 4 de abril de 1996
e desapareceu.
Vermelha Brasileira informa que as seguintes
pessoas estão sendo procuradas por seus
parentes. Informações podem ser fornecidas pelo
telefone 2509-3552. Benedito Francisco Dias,
de 78 anos, nascido em Nossa Senhora do
Livramento, em Mato Grosso, está desaparecido
desde 25 de dezembro de 1995. Edson
Rosa da Silva, carioca, de 47 anos,
desapareceu no Rio de Janeiro, em 1988.
Veronica Deptulsky, cujos pais, Romualdo e
Cecília, nasceram na colônia polonesa de Águia
Branca, em Colatina, ES. João Araújo da
Silva, 57 anos, paraibano de Aroeira, está
desaparecido desde 1992. Ele é marceneiro e
tem apelido de "Índio". Euclides Matta
Pascoal, de 76 anos, desapareceu em 1950.
Raimundo Ribeiro Ávila, de 59 anos, cearense.
Em 1988 foi visto em Brasília. Bolival
Pereira de Melo, que em 1961 trabalhou como
telegrafista na Usina de Barreiros, em
Pernambuco. Moisés Miranda, carioca, de 32
anos, saiu de casa dia 4 de abril de 1996
e desapareceu.
954
Renato Rezende
[O Outro]
Se todas as pessoas que estão nesses prédios descessem à rua agora seria uma grande confusão, as ruas ficariam entupidas de gente veríamos quantos somos, olharíamos um a um nos olhos
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
Muitas dessas pessoas devem sentir o que eu sinto esse sentimento de inadequação, esse não-pertencimento
(talvez, todos juntos, num grande abraço da cidade inteira, no meio da rota do planeta pelo universo, num momento diante do sol, nos ajudaria)
Uma amiga diz que é a vista embaçada, não ver
o seio...
Eu não sou escritor. Não sou poeta. Não sou artista. O artista é aquele que se utiliza da linguagem para criar mensagens, conteúdos, novos significados. Eu sou uma pessoa que se utiliza desesperadamente da linguagem para criar-me a mim mesmo, para outorgar conteúdo e significado a mim mesmo. Quando e se alcançar meu objetivo, não precisarei mais escrever. Não sou um poeta, não sou um escritor, não, não sou um artista.
E às vezes viver é um mar de doçura.
Vontade de vadiar o dia todo
Eu sempre quis que uma mulher se apaixonasse por mim
(mulher)
Eu sou alguém que não sabe quem é e tenta se inventar com palavras, fora esse esforço, sou mudo—isso é ser poeta?
Sou um homem quebrado.
Talvez de alguma forma mais humano
Que todos os outros homens, funcionando.
Eu não sou teu inimigo
Sou apenas outro.
Uma voz tentando dizer alguma coisa.
Na escuridão—ou na luz
Tão ofuscante que cega—na escuridão.
Alguém tentando nascer.
Talvez uma menina.
Talvez um menino. Algo de bom
Algo de gentil. Talvez uma flor...
Para ser cuidada. Poderia ser sua filha
Poderia ser
Seu maior sonho de amor.
A poesia serve para desmascarar.
969
Renato Rezende
Estelita Lins Com Laranjeiras
Nesta esquina havia um mendigo
que queria sempre falar comigo.
Quando me via me chamava.
Ei, ei, preciso falar com você!
Mas eu passava apressado e deprimido.
E lá ficava ele, sentado
entre cocôs de cachorro e lixo.
Quem sabe ele era o anjo, um Zipruana
São Francisco de Assis, o próprio Jesus Cristo
que me levaria enfim ao Paraíso.
Talvez ele fosse o anjo do eu-redimido.
Talvez ele fosse o meu anjo prometido.
Duvido.
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro 1997
que queria sempre falar comigo.
Quando me via me chamava.
Ei, ei, preciso falar com você!
Mas eu passava apressado e deprimido.
E lá ficava ele, sentado
entre cocôs de cachorro e lixo.
Quem sabe ele era o anjo, um Zipruana
São Francisco de Assis, o próprio Jesus Cristo
que me levaria enfim ao Paraíso.
Talvez ele fosse o anjo do eu-redimido.
Talvez ele fosse o meu anjo prometido.
Duvido.
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro 1997
922
Renato Rezende
O Balde
Rio de Janeiro,
minha cidade de agora.
Me preencho
com teu peso.
Sou um balde que flutua
com um furo
em tuas águas sujas
e pouco a pouco afunda.
As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra
desde o Império romano?
Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo
quase findo.
O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.
Tempo de menos.
Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.
A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).
Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.
Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.
Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.
Atravesso vários bairros
várias vidas.
Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e tua excremento.
Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.
Rio de Janeiro, 2 de maio 1997
minha cidade de agora.
Me preencho
com teu peso.
Sou um balde que flutua
com um furo
em tuas águas sujas
e pouco a pouco afunda.
As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra
desde o Império romano?
Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo
quase findo.
O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.
Tempo de menos.
Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.
A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).
Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.
Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.
Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.
Atravesso vários bairros
várias vidas.
Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e tua excremento.
Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.
Rio de Janeiro, 2 de maio 1997
736
Renato Rezende
Nós
Cada um de nós
tem uma vida
atroz e parecida.
Parecida com a daqueles
do nosso meio:
o mesmo score
de infinitas viagens,
aventuras, sexo
e também dinheiro.
Mas igualmente atroz
ou, se quiseres
(a perspectiva
depende do dia)
igualmente feia
ou bonita ou inquieta
ou esquisita
a vida
de outros homens.
Igual em essência
a vida de todos nós
sofrendo no corpo
o fogo do tempo:
o mesmo prazer
a mesmíssima dor
a voz
presa no peito
a sede de amor
os nós
de tantos anseios
e afetos desfeitos,
o destino incerto
sem ritmo
sem nexo,
o enorme desejo
de um dia estar em paz
e conhecer Deus
por fim falso ou verdadeiro.
E por todo o caminho
o espelho perplexo:
quem sou?
Desconfio
que somos o mesmo.
Rio de Janeiro, 26 de maio 1997
tem uma vida
atroz e parecida.
Parecida com a daqueles
do nosso meio:
o mesmo score
de infinitas viagens,
aventuras, sexo
e também dinheiro.
Mas igualmente atroz
ou, se quiseres
(a perspectiva
depende do dia)
igualmente feia
ou bonita ou inquieta
ou esquisita
a vida
de outros homens.
Igual em essência
a vida de todos nós
sofrendo no corpo
o fogo do tempo:
o mesmo prazer
a mesmíssima dor
a voz
presa no peito
a sede de amor
os nós
de tantos anseios
e afetos desfeitos,
o destino incerto
sem ritmo
sem nexo,
o enorme desejo
de um dia estar em paz
e conhecer Deus
por fim falso ou verdadeiro.
E por todo o caminho
o espelho perplexo:
quem sou?
Desconfio
que somos o mesmo.
Rio de Janeiro, 26 de maio 1997
1 078
Renato Rezende
Epílogo
Aqui
Todo o espaço é o Paraíso
ou nenhum o é
O exílio
é um estado de espírito
A mente é livre
para criar seu destino
Dançamos, em rodopio
o frenesi da vida
na direção do infinito
de cada instante ínfimo
Não importa a mínima
o caminho
O que vale um homem
é o amor
que sente por si mesmo
e pelo seu próximo
Amor que transborda
na puríssima orgia íntima
de sermos todos, sempre
eu
o mesmo
eu
Somos todos iguais
ao mesmo tempo parte
e unidade
desta força
que move o sol
e os outros astros
Todo o espaço é o Paraíso
ou nenhum o é
O exílio
é um estado de espírito
A mente é livre
para criar seu destino
Dançamos, em rodopio
o frenesi da vida
na direção do infinito
de cada instante ínfimo
Não importa a mínima
o caminho
O que vale um homem
é o amor
que sente por si mesmo
e pelo seu próximo
Amor que transborda
na puríssima orgia íntima
de sermos todos, sempre
eu
o mesmo
eu
Somos todos iguais
ao mesmo tempo parte
e unidade
desta força
que move o sol
e os outros astros
1 060
Renato Rezende
No Aeroporto
Todas essas milhares de pessoas
merecem amor e respeito.
Estamos todos tentando viver
da melhor maneira que sabemos.
Estamos todos querendo ser felizes.
Somos a flor da terra,
a coisa mais doce do planeta.
Sou eu e cada uma delas.
São Paulo, abril 1998
merecem amor e respeito.
Estamos todos tentando viver
da melhor maneira que sabemos.
Estamos todos querendo ser felizes.
Somos a flor da terra,
a coisa mais doce do planeta.
Sou eu e cada uma delas.
São Paulo, abril 1998
726
Renato Rezende
Pimentões Perfeitos
Num supermercado de um bairro pobre
vi uma bancada de pimentões amarelos,
ainda bons, saborosos
mas feios, amassados, alguns muito pequenos,
outros tortos,
diferentes dos pimentões plenos e perfeitos
mas encerados
dos Supermercados Eldorado.
Quando olhei para as pessoas notei
que são como os pimentões que comem.
São Paulo, 2 de outubro 1992
vi uma bancada de pimentões amarelos,
ainda bons, saborosos
mas feios, amassados, alguns muito pequenos,
outros tortos,
diferentes dos pimentões plenos e perfeitos
mas encerados
dos Supermercados Eldorado.
Quando olhei para as pessoas notei
que são como os pimentões que comem.
São Paulo, 2 de outubro 1992
995
Renato Rezende
O Elo Perdido
Porque eu sabia que havia um poema escondido ali
li um artigo inteiro no National Geographic
sobre arqueologia.
Na Etiópia, ingleses e nativos
descobriram ainda mais antigos restos de hominídios
que os famosos vestígios de Lucy.
Dentes
e ossos de um indivíduo, que certamente
não se considerava indivíduo, mas vagamente
sentia ser parte indivisível de um todo.
Talvez esse sentimento seja o elo perdido.
Nova York, 3 de março 1996
li um artigo inteiro no National Geographic
sobre arqueologia.
Na Etiópia, ingleses e nativos
descobriram ainda mais antigos restos de hominídios
que os famosos vestígios de Lucy.
Dentes
e ossos de um indivíduo, que certamente
não se considerava indivíduo, mas vagamente
sentia ser parte indivisível de um todo.
Talvez esse sentimento seja o elo perdido.
Nova York, 3 de março 1996
777
Renato Rezende
As Veias
O mesmo sangue que corre em minhas veias
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.
Nova York, 2 de março 1996
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.
Nova York, 2 de março 1996
1 065
Reynaldo Jardim
Não somos um
Não lhe direi o impossível,
a verdade alastrou-me:
o seu valor equivale
à densidade dos outros.
Não somos um. Que outrora
éramos um, ou pensamos
sermos eu, você, o outro,
três elementos distintos.
Cada movimento teu
altera, sem restrição,
o passo próximo dado
pelo seu pai ou amigo.
A função é coligada,
contínua, una, solúvel,
se arrebentarmos todos,
você se dissolverá.
Calarei o impossível
a multidão alastrou-me.
O meu valor equivale
à conjunta redenção.
a verdade alastrou-me:
o seu valor equivale
à densidade dos outros.
Não somos um. Que outrora
éramos um, ou pensamos
sermos eu, você, o outro,
três elementos distintos.
Cada movimento teu
altera, sem restrição,
o passo próximo dado
pelo seu pai ou amigo.
A função é coligada,
contínua, una, solúvel,
se arrebentarmos todos,
você se dissolverá.
Calarei o impossível
a multidão alastrou-me.
O meu valor equivale
à conjunta redenção.
718
Ricardo Aleixo
Brancos
eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
1 057
Cida Pedrosa
fotografia de guerra
o menino de camisa vermelha e sapatinhos
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
916
Hélia Correia
7.
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
1 173
Golgona Anghel
Meia-noite todo dia
Meia-noite todo dia
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
918
Nelly Sachs
POVOS DA TERRA
Povos da Terra,
vós, que com a força das desconhecidas
constelações vos envolveis como carretéis,
que coseis e de novo descoseis o que cosestes,
que entrais na confusão das línguas
como em colmeias,
para no doce picardes
e serdes picados –
Povos da Terra,
não destruais o universo das palavras,
não retalheis com as lâminas do ódio
o som que nasceu ao mesmo tempo em que o sopro.
Povos da Terra,
Oh, que ninguém pense em morte quando diz vida –
e que ninguém pense em sangue quando diz berço –
Povos da Terra,
deixai as palavras junto à sua fonte,
pois são elas que podem arrojar
os horizontes até aos céus verdadeiros
e com sua face oculta
como uma máscara por detrás a noite boceja
ajudar no parto das estrelas.
vós, que com a força das desconhecidas
constelações vos envolveis como carretéis,
que coseis e de novo descoseis o que cosestes,
que entrais na confusão das línguas
como em colmeias,
para no doce picardes
e serdes picados –
Povos da Terra,
não destruais o universo das palavras,
não retalheis com as lâminas do ódio
o som que nasceu ao mesmo tempo em que o sopro.
Povos da Terra,
Oh, que ninguém pense em morte quando diz vida –
e que ninguém pense em sangue quando diz berço –
Povos da Terra,
deixai as palavras junto à sua fonte,
pois são elas que podem arrojar
os horizontes até aos céus verdadeiros
e com sua face oculta
como uma máscara por detrás a noite boceja
ajudar no parto das estrelas.
655
Tomas Tranströmer
Arcos Românicos
Turistas amontoados no lusco-fusco da grande
igreja românica.
Nave após nave se abria sem perspectiva.
Algumas chamas de velas tremulando.
Um anjo cujo rosto não vi abraçava-me
e o murmúrio dele trespassava-me o corpo:
“Não tenhas vergonha de seres um ser humano, tem orgulho!
Em ti se abre uma nave após outra sem fim.
Nunca serás concluído, e é assim que tem de ser.”
Lágrimas cegavam-me
enquanto éramos levados para a intensa piazza iluminada
na companhia de Mr. e Mrs. Jones, Herr Tanaka e Signora Sabatini;
em cada um deles nave após nave se abria sem fim.
igreja românica.
Nave após nave se abria sem perspectiva.
Algumas chamas de velas tremulando.
Um anjo cujo rosto não vi abraçava-me
e o murmúrio dele trespassava-me o corpo:
“Não tenhas vergonha de seres um ser humano, tem orgulho!
Em ti se abre uma nave após outra sem fim.
Nunca serás concluído, e é assim que tem de ser.”
Lágrimas cegavam-me
enquanto éramos levados para a intensa piazza iluminada
na companhia de Mr. e Mrs. Jones, Herr Tanaka e Signora Sabatini;
em cada um deles nave após nave se abria sem fim.
676
Tomas Tranströmer
Acerca da História
Num dia de Março caminhei para escutar até à beira do lago.
O gelo era azul como o céu. E quebrava-se ao sol.
O sol sussurrava a um microfone debaixo do gelo.
Há um fervilhar e borbotar. De longe parece uma folha de papel
a ser amarrotada.
Tudo isto é como a História: o nosso presente. Descemos
nele, escutamos.
II
Conferências são como ilhas instáveis e voadoras.
Epílogo: uma frágil ponte suspensa de compromissos.
O tráfego inteiro passa por cima daquela ponte debaixo de estrelas,
debaixo de faces de crianças ainda por nascer, pálidas,
abandonadas, sem nome como grãos de arroz.
III
Em 1926, Goethe visitou a África disfarçado de Gide e reparou
nisso.
Há rostos que se tornam mais nítidos pelo que vêem depois da morte.
Ao chegarem notícias diárias da Argélia pela rádio
vi uma casa enorme e todas as janelas da casa eram escuras
excepto uma. Era dessa mesma que o rosto de Dreyfus olhava.
IV
Radical e Reaccionário vivem juntos como num casamento
miserável,
diminuídos um pelo outro, encostados um ao outro.
Mas nós, os seus filhos, temos de encontrar o nosso caminho.
Cada problema exige a sua linguagem privada.
Por qualquer vereda em que haja um traço de verdade, caminhem.
V
Num baldio não longe das leiras
há meses que está um jornal aberto cheio de notícias.
Envelhece devido ao dia e à noite, chuva e sol.
Está a ponto de se tornar uma planta, um repolho. Está
a unir-se à terra
como uma memória antiga que se transforma gradualmente em ti.
O gelo era azul como o céu. E quebrava-se ao sol.
O sol sussurrava a um microfone debaixo do gelo.
Há um fervilhar e borbotar. De longe parece uma folha de papel
a ser amarrotada.
Tudo isto é como a História: o nosso presente. Descemos
nele, escutamos.
II
Conferências são como ilhas instáveis e voadoras.
Epílogo: uma frágil ponte suspensa de compromissos.
O tráfego inteiro passa por cima daquela ponte debaixo de estrelas,
debaixo de faces de crianças ainda por nascer, pálidas,
abandonadas, sem nome como grãos de arroz.
III
Em 1926, Goethe visitou a África disfarçado de Gide e reparou
nisso.
Há rostos que se tornam mais nítidos pelo que vêem depois da morte.
Ao chegarem notícias diárias da Argélia pela rádio
vi uma casa enorme e todas as janelas da casa eram escuras
excepto uma. Era dessa mesma que o rosto de Dreyfus olhava.
IV
Radical e Reaccionário vivem juntos como num casamento
miserável,
diminuídos um pelo outro, encostados um ao outro.
Mas nós, os seus filhos, temos de encontrar o nosso caminho.
Cada problema exige a sua linguagem privada.
Por qualquer vereda em que haja um traço de verdade, caminhem.
V
Num baldio não longe das leiras
há meses que está um jornal aberto cheio de notícias.
Envelhece devido ao dia e à noite, chuva e sol.
Está a ponto de se tornar uma planta, um repolho. Está
a unir-se à terra
como uma memória antiga que se transforma gradualmente em ti.
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