Poemas neste tema
Humanidade e Solidariedade
Alexandre Dáskalos
Carta
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo pra sofrer
Boca Para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica jeito
Para o branco me dizer
"Obra de preto sem jeito"
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois ... e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum ...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pai da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão.
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo pra sofrer
Boca Para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica jeito
Para o branco me dizer
"Obra de preto sem jeito"
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois ... e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum ...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pai da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão.
2 043
1
Clóvis Ramos
O Cego Bartimeu
Há poesia em tudo o que é divino.
Nas bodas de Caná como na Ceia.
Embora eu seja um poeta pequenino,
cantar o Deus de Amor minhalma anseia.
Quando Jesus seguia, sol a pino,
de Jericó na estrada — sol e areia — ,
o cego Bartimeu — homem franzino —
de ser repreendido não receia.
— "Ó Filho de Davi, tem piedade!"
Jesus parou. — "Que queres que te faça?"
— "Que eu veja, meu Senhor!" E a claridade
do dia iluminou aqueles olhos,
aquele coração cheio de graça,
aquela alma liberta dos escolhos!
Nas bodas de Caná como na Ceia.
Embora eu seja um poeta pequenino,
cantar o Deus de Amor minhalma anseia.
Quando Jesus seguia, sol a pino,
de Jericó na estrada — sol e areia — ,
o cego Bartimeu — homem franzino —
de ser repreendido não receia.
— "Ó Filho de Davi, tem piedade!"
Jesus parou. — "Que queres que te faça?"
— "Que eu veja, meu Senhor!" E a claridade
do dia iluminou aqueles olhos,
aquele coração cheio de graça,
aquela alma liberta dos escolhos!
1 278
1
Castro Alves
O Vidente
Virá o dia da felicidade
para todos.
(Isaías)
Às vezes quando à tarde, nas tardes brasileiras,
A cisma e a sombra descem das altas cordilheiras;
Quando a viola acorda na choça o sertanejo
E a linda lavadeira cantando deixa o brejo,
E a noite - a freira santa - no órgão das florestas
Um salmo preludia nos troncos, nas giestas;
Se acaso solitário passo pelas picadas,
Que torcem-se escamosas nas lapas escarpadas,
Encosto sobre as pedras a minha carabina,
Junto a meu cão, que dorme nas sarças da colina,
E, como uma harpa eólia entregue ao tom dos ventos
- Estranhas melodias, estranhos pensamentos,
Vibram-me as cordas dalma enquanto absorto cismo,
Senhor! vendo tua sombra curvada sobre o abismo,
Colher a prece alada, o canto que esvoaça
E a lágrima que orvalha o lírio da desgraça,
Então, num santo êxtase, escuto a terra e os céus.
E o vácuo se povoa de tua sombra, ó Deus!
Ouço o cantar dos astros no mar do firmamento;
No mar das matas virgens ouço o cantar do vento,
Aromas que selevam, raios de luz que descem,
Estrelas que despontam, gritos que se esvaecem,
Tudo me traz um canto de imensa poesia,
Como a primícia augusta da grande profecia;
Tudo me diz que o Eterno, na idade prometida,
Há de beijar na face a terra arrependida.
E, desse beijo santo, desse ósculo sublime
Que lava a iniqüidade, a escravidão e o crime,
Hão de nascer virentes nos campos das idades,
Amores, esperanças, glórias e liberdades!
Então, num santo êxtase, escuto a terra e os céus,
O vácuo se povoa de tua sombra, ó Deus!
E, ouvindo nos espaços as louras utopias
Do futuro cantarem as doses melodias,
Dos povos, das idades, a nova promissão...
Me arrasta ao infinito a águia da inspiração ...
Então me arrojo ousado das eras através,
Deixando estrelas, séculos, volverem-se a meus pés...
Porque em minhalma sinto ferver enorme grito,
Ante o estupendo quadro das telas do infinito...
Que faz que, em santo êxtase, eu veja a terra e os céus,
E o vácuo povoado de tua sombra, ó Deus!
Eu vejo a erra livre... como outra Madalena,
Banhando a fronte pura na viração serena,
Da urna do crepúsculo, verter nos céus azuis
Perfumes, luzes, preces, curvada aos pés da cruz...
No mundo - tenda imensa da humanidade inteira
Que o espaço tem por teto, o sol tem por lareira,
Feliz se aquece unida a universal família.
Oh! dia sacrossanto em que a justiça brilha,
Eu vejo em ti das ruínas vetustas do passado,
O velho sacerdote augusto e venerado
Colher a parasita - a santa flor - o culto,
Como o coral brilhante do mar na vasa oculto...
Não mais inunda o templo a vil superstição;
A fé - a pomba mística - e a águia da razão,
Unidas se levantam do vale escuro dalma,
Ao ninho do infinito voando em noite calma.
Mudou-se o férreo cetro, esse aguilhão dos povos,
Na virga do profeta coberta de renovos.
E o velho cadafalso horrendo e corcovado,
Ao poste das idades por irrisão ligado
Parece embalde tenta cobrir com as mãos a fronte,
- Abutre que esqueceu que o sol vem no horizonte.
Vede: as crianças louras aprendem no Evangelho
A letra que comenta algum sublime velho,
Em toda a fronte há luzes, em todo o peito amores,
Em todo o céu estrelas, em todo o campo flores ...
E, enquanto, sob as vinhas, a ingênua camponesa
Enlaça às negras tranças a rosa da deveza;
Dos saaras africanos, dos gelos da Sibéria,
Do Cáucaso, dos campos dessa infeliz lbéria,
Dos mármores lascados da terra santa homérica,
Dos pampas, das savanas desta soberba América
Prorrompe o hino livre, o hino do trabalho!
E, ao canto dos obreiros, na orquestra audaz do malho,
O ruído se mistura da imprensa, das idéias,
Todos da liberdade forjando as epopéias,
Todos coas mãos calosas, todos banhando a fronte
Ao sol da independência que irrompe no horizonte.
Oh! escutai! ao longe vago rumor se eleva
Como o trovão que ouviu-se quando na escura treva,
O braço onipotente rolou Satã maldito.
É outro condenado ao raio do infinito,
É o retumbar por terra desses impuros paços,
Desses serralhos negros, desses Egeus devassos,
Saturnos de granito, feitos de sangue e ossos...
Que bebem a existência do povo nos destroços ...
..........................................................................
Enfim a terra é livre! Enfim lá do Calvário
A águia da liberdade, no imenso itinerário,
Voa do Calpe brusco às cordilheiras grandes,
Das cristas do Himalaia aos píncaros dos Andes!
Quebraram-se as cadeias, é livre a terra inteira,
A humanidade marcha com a Bíblia por bandeira-.
São livres os escravos... quero empunhar a lira,
Quero que estalma ardente um canto audaz desfira,
Quero enlaçar meu hino aos murmúrios dos ventos,
Às harpas das estrelas, ao mar, aos elementos!
.............................................................
Mas, ai! longos gemidos de míseros cativos,
Tinidos de mil ferros, soluços convulsivos,
Vêm-me bradar nas sombras, como fatal vedeta:
"Que pensas, moço triste? Que sonhas tu, poeta?"
Então curvo a cabeça de raios carregada,
E, atando brônzea corda à lira amargurada,
O canto de agonia arrojo à terra, aos céus,
E ao vácuo povoado de tua sombra, ó Deus!
para todos.
(Isaías)
Às vezes quando à tarde, nas tardes brasileiras,
A cisma e a sombra descem das altas cordilheiras;
Quando a viola acorda na choça o sertanejo
E a linda lavadeira cantando deixa o brejo,
E a noite - a freira santa - no órgão das florestas
Um salmo preludia nos troncos, nas giestas;
Se acaso solitário passo pelas picadas,
Que torcem-se escamosas nas lapas escarpadas,
Encosto sobre as pedras a minha carabina,
Junto a meu cão, que dorme nas sarças da colina,
E, como uma harpa eólia entregue ao tom dos ventos
- Estranhas melodias, estranhos pensamentos,
Vibram-me as cordas dalma enquanto absorto cismo,
Senhor! vendo tua sombra curvada sobre o abismo,
Colher a prece alada, o canto que esvoaça
E a lágrima que orvalha o lírio da desgraça,
Então, num santo êxtase, escuto a terra e os céus.
E o vácuo se povoa de tua sombra, ó Deus!
Ouço o cantar dos astros no mar do firmamento;
No mar das matas virgens ouço o cantar do vento,
Aromas que selevam, raios de luz que descem,
Estrelas que despontam, gritos que se esvaecem,
Tudo me traz um canto de imensa poesia,
Como a primícia augusta da grande profecia;
Tudo me diz que o Eterno, na idade prometida,
Há de beijar na face a terra arrependida.
E, desse beijo santo, desse ósculo sublime
Que lava a iniqüidade, a escravidão e o crime,
Hão de nascer virentes nos campos das idades,
Amores, esperanças, glórias e liberdades!
Então, num santo êxtase, escuto a terra e os céus,
O vácuo se povoa de tua sombra, ó Deus!
E, ouvindo nos espaços as louras utopias
Do futuro cantarem as doses melodias,
Dos povos, das idades, a nova promissão...
Me arrasta ao infinito a águia da inspiração ...
Então me arrojo ousado das eras através,
Deixando estrelas, séculos, volverem-se a meus pés...
Porque em minhalma sinto ferver enorme grito,
Ante o estupendo quadro das telas do infinito...
Que faz que, em santo êxtase, eu veja a terra e os céus,
E o vácuo povoado de tua sombra, ó Deus!
Eu vejo a erra livre... como outra Madalena,
Banhando a fronte pura na viração serena,
Da urna do crepúsculo, verter nos céus azuis
Perfumes, luzes, preces, curvada aos pés da cruz...
No mundo - tenda imensa da humanidade inteira
Que o espaço tem por teto, o sol tem por lareira,
Feliz se aquece unida a universal família.
Oh! dia sacrossanto em que a justiça brilha,
Eu vejo em ti das ruínas vetustas do passado,
O velho sacerdote augusto e venerado
Colher a parasita - a santa flor - o culto,
Como o coral brilhante do mar na vasa oculto...
Não mais inunda o templo a vil superstição;
A fé - a pomba mística - e a águia da razão,
Unidas se levantam do vale escuro dalma,
Ao ninho do infinito voando em noite calma.
Mudou-se o férreo cetro, esse aguilhão dos povos,
Na virga do profeta coberta de renovos.
E o velho cadafalso horrendo e corcovado,
Ao poste das idades por irrisão ligado
Parece embalde tenta cobrir com as mãos a fronte,
- Abutre que esqueceu que o sol vem no horizonte.
Vede: as crianças louras aprendem no Evangelho
A letra que comenta algum sublime velho,
Em toda a fronte há luzes, em todo o peito amores,
Em todo o céu estrelas, em todo o campo flores ...
E, enquanto, sob as vinhas, a ingênua camponesa
Enlaça às negras tranças a rosa da deveza;
Dos saaras africanos, dos gelos da Sibéria,
Do Cáucaso, dos campos dessa infeliz lbéria,
Dos mármores lascados da terra santa homérica,
Dos pampas, das savanas desta soberba América
Prorrompe o hino livre, o hino do trabalho!
E, ao canto dos obreiros, na orquestra audaz do malho,
O ruído se mistura da imprensa, das idéias,
Todos da liberdade forjando as epopéias,
Todos coas mãos calosas, todos banhando a fronte
Ao sol da independência que irrompe no horizonte.
Oh! escutai! ao longe vago rumor se eleva
Como o trovão que ouviu-se quando na escura treva,
O braço onipotente rolou Satã maldito.
É outro condenado ao raio do infinito,
É o retumbar por terra desses impuros paços,
Desses serralhos negros, desses Egeus devassos,
Saturnos de granito, feitos de sangue e ossos...
Que bebem a existência do povo nos destroços ...
..........................................................................
Enfim a terra é livre! Enfim lá do Calvário
A águia da liberdade, no imenso itinerário,
Voa do Calpe brusco às cordilheiras grandes,
Das cristas do Himalaia aos píncaros dos Andes!
Quebraram-se as cadeias, é livre a terra inteira,
A humanidade marcha com a Bíblia por bandeira-.
São livres os escravos... quero empunhar a lira,
Quero que estalma ardente um canto audaz desfira,
Quero enlaçar meu hino aos murmúrios dos ventos,
Às harpas das estrelas, ao mar, aos elementos!
.............................................................
Mas, ai! longos gemidos de míseros cativos,
Tinidos de mil ferros, soluços convulsivos,
Vêm-me bradar nas sombras, como fatal vedeta:
"Que pensas, moço triste? Que sonhas tu, poeta?"
Então curvo a cabeça de raios carregada,
E, atando brônzea corda à lira amargurada,
O canto de agonia arrojo à terra, aos céus,
E ao vácuo povoado de tua sombra, ó Deus!
4 677
1
Alcides Werk
Das Águas Grandes
o barco passando e a onda molhando
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.
(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.
Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)
o barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que vêem.
E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja - que não seja séria,
falar de tudo - menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.
(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.
Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)
o barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que vêem.
E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja - que não seja séria,
falar de tudo - menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.
1 653
1
Amândio César
Natal
Nasceu!
Numa garagem abandonada, coberta de chapa de zinco,
E num caixote velho de latas de óleo,
Entre desperdícios sujos e usados.
Nossa Senhora e S. José tinham vindo pela estrada
Os pés no asfalto negro, onde circulavam carros de luxo:
Pedir boléia, pediram, mas ninguém os viu ou quis ver,
Ou escutar o gesto...
Iam todos apressados para a ceia da noite,
Desbragada como um conta-quilômetros
E cheia de neblina e de promessas.
Nasceu!
Num caixote velho de latas de óleo,
Entre desperdícios sujos e usados.
O clarão dos holofotes chamou lã os vadios de todas as noites:
Os quarda-noturnos, os polícias de giro,
Os que não têm cama para dormir,
Os poetas e os fugidos à lei — todos! —
Todos os que naquela e nas outras noites
Não têm para onde ir, nem têm onde comer.
Foi, porém, o clarão dos holofotes gastos que os levou lá:
E viram, sobre os desperdícios sujos, num caixote velho,
O Redentor do mundo,
Aquecido pelos dez cavalos-vapor de um velho "Ford T"
Que, trabalhando, acordava a vida no arrabalde longínquo.
S. José e Nossa Senhora choravam:
Todos pediam no mundo a ressurreição do Cristo!
E Ele viera, Ele encarnara de novo
Através do ventre puríssimo da Virgem,
Sob a custódia lirial do descendente de David.
Os donos de carros de luxo cortavam o nevoeiro
Comprometidos pelas amantes caras que ficavam para trás;
As camionetas de transporte temeram a polícia das estradas
E os outros todos também não quiseram dar boléia
Ao Filho de Deus. (... )
Numa garagem abandonada, coberta de chapa de zinco,
E num caixote velho de latas de óleo,
Entre desperdícios sujos e usados.
Nossa Senhora e S. José tinham vindo pela estrada
Os pés no asfalto negro, onde circulavam carros de luxo:
Pedir boléia, pediram, mas ninguém os viu ou quis ver,
Ou escutar o gesto...
Iam todos apressados para a ceia da noite,
Desbragada como um conta-quilômetros
E cheia de neblina e de promessas.
Nasceu!
Num caixote velho de latas de óleo,
Entre desperdícios sujos e usados.
O clarão dos holofotes chamou lã os vadios de todas as noites:
Os quarda-noturnos, os polícias de giro,
Os que não têm cama para dormir,
Os poetas e os fugidos à lei — todos! —
Todos os que naquela e nas outras noites
Não têm para onde ir, nem têm onde comer.
Foi, porém, o clarão dos holofotes gastos que os levou lá:
E viram, sobre os desperdícios sujos, num caixote velho,
O Redentor do mundo,
Aquecido pelos dez cavalos-vapor de um velho "Ford T"
Que, trabalhando, acordava a vida no arrabalde longínquo.
S. José e Nossa Senhora choravam:
Todos pediam no mundo a ressurreição do Cristo!
E Ele viera, Ele encarnara de novo
Através do ventre puríssimo da Virgem,
Sob a custódia lirial do descendente de David.
Os donos de carros de luxo cortavam o nevoeiro
Comprometidos pelas amantes caras que ficavam para trás;
As camionetas de transporte temeram a polícia das estradas
E os outros todos também não quiseram dar boléia
Ao Filho de Deus. (... )
1 407
1
Antônio Massa
A Teia da Vida
Renda bordada
tecida no ventre
envolvendo em seus nós
o corpo do homem
rede fechada
que liberta a face
humana e insigne
em busca do outro
no jogo de laço
as almas se encontram
e a cama de gato
as une em uma
seu contorno único
é palco de paz
incoercível e sã
inconcebível e adversa
o equilíbrio fibra
nas raízes desse todo
que caminha gloriosamente
sobre o tênue fio da vida
tecida no ventre
envolvendo em seus nós
o corpo do homem
rede fechada
que liberta a face
humana e insigne
em busca do outro
no jogo de laço
as almas se encontram
e a cama de gato
as une em uma
seu contorno único
é palco de paz
incoercível e sã
inconcebível e adversa
o equilíbrio fibra
nas raízes desse todo
que caminha gloriosamente
sobre o tênue fio da vida
1 445
1
Amândio César
Caminhada
Irmãos!
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.
Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.
Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.
Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.
1 060
1
Ezra Pound
SAUDAÇÃO
Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.
2 867
1
Umberto Saba
A Cabra
Falei com uma cabra.
Sòzinha no prado, amarrada.
Saciada de erva, molhada
pela chuva, balava.
Aquele balido era fraterno
à minha dor. E eu respondi, primeiro
por graça, depois porque o sofrer é eterno,
tem uma voz não vária.
Esta voz senti
gemer naquela cabra solitária.
Numa cabra de perfil semita
senti que se queixavam outros males,
os da vida infinita.
LA CAPRA
Ho parlato a una capra.
Era sola sul prato, era legata.
Sazia d"erba, bagnata
dalla pioggia, belava.
Quell"uguale belato era fraterno
al mio dolore. Ed io risposi, prima
per celia, poi perché il dolore è eterno.
ha una voce e non varia.
Questa voce sentiva
gemere in una capra solitaria.
In una capra dal viso semita
sentiva querelarsi ogni altro male,
ogni altra vita.
Sòzinha no prado, amarrada.
Saciada de erva, molhada
pela chuva, balava.
Aquele balido era fraterno
à minha dor. E eu respondi, primeiro
por graça, depois porque o sofrer é eterno,
tem uma voz não vária.
Esta voz senti
gemer naquela cabra solitária.
Numa cabra de perfil semita
senti que se queixavam outros males,
os da vida infinita.
LA CAPRA
Ho parlato a una capra.
Era sola sul prato, era legata.
Sazia d"erba, bagnata
dalla pioggia, belava.
Quell"uguale belato era fraterno
al mio dolore. Ed io risposi, prima
per celia, poi perché il dolore è eterno.
ha una voce e non varia.
Questa voce sentiva
gemere in una capra solitaria.
In una capra dal viso semita
sentiva querelarsi ogni altro male,
ogni altra vita.
2 387
1
Murillo Mendes
A Tentação
Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:
"Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz".
Eu paro pálido tremendo:
"Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz".
1 187
1
Natália Correia
I
Combustível a besta se encorpora
no gesto e penúltimo o homem
compenetra-se funcionário
da sua adiada escória.
Da bomba o guincho de giz
no quadro preto da memória
pontos de sangue em nossos ii
HISTÓRIA aos quadradinhos ora
o bípede era uma vez
não identificado objecto
um não saber que fazer
de não ser propriamente insecto
com conta aberta em Andrómeda
e uísque em Vésper por anestésico.
Oh cosmonauta! comichão
de não encontrares teu cemitério.
Mundo imundo como o mundo
homem bilião de formigas
suando o cimento de cidades
por mísseis interrompidas.
Presente como lixo varrido
pela vassoura do adiante
pressa de mãos que estrangulam
uma criança no volante
homem como autopintando
pelas trevas do teu ofício
de te ganhares aos viciados
dados de seres só homem por vício.
Homem aflição de teres alma
alma como pombo-correio
quem vem pousar na tua linha
sem que tu saibas porque veio
lógica como paragógica
arrogância que rumina a ruína
ardidas pinhas do pinheiro europa
queimada lã da ovelha hiroxima
fumegante palha da ásia
na boca da mula américa
rato da rússia roendo o mapa.
Terra insolentemente esférica
saibro da carne desvividacom que o homem seu sorriso faz.
No mostrador das carícias
falta um minuto para o caos.
de Mátria(1968)
no gesto e penúltimo o homem
compenetra-se funcionário
da sua adiada escória.
Da bomba o guincho de giz
no quadro preto da memória
pontos de sangue em nossos ii
HISTÓRIA aos quadradinhos ora
o bípede era uma vez
não identificado objecto
um não saber que fazer
de não ser propriamente insecto
com conta aberta em Andrómeda
e uísque em Vésper por anestésico.
Oh cosmonauta! comichão
de não encontrares teu cemitério.
Mundo imundo como o mundo
homem bilião de formigas
suando o cimento de cidades
por mísseis interrompidas.
Presente como lixo varrido
pela vassoura do adiante
pressa de mãos que estrangulam
uma criança no volante
homem como autopintando
pelas trevas do teu ofício
de te ganhares aos viciados
dados de seres só homem por vício.
Homem aflição de teres alma
alma como pombo-correio
quem vem pousar na tua linha
sem que tu saibas porque veio
lógica como paragógica
arrogância que rumina a ruína
ardidas pinhas do pinheiro europa
queimada lã da ovelha hiroxima
fumegante palha da ásia
na boca da mula américa
rato da rússia roendo o mapa.
Terra insolentemente esférica
saibro da carne desvividacom que o homem seu sorriso faz.
No mostrador das carícias
falta um minuto para o caos.
de Mátria(1968)
1 742
1
Miguel de Unamuno
El cuerpo canta
El cuerpo canta
El cuerpo canta;
la sangre aúlla;
la tierra charla;
la mar murmura;
el cielo calla
y el hombre escucha.
El cuerpo canta;
la sangre aúlla;
la tierra charla;
la mar murmura;
el cielo calla
y el hombre escucha.
1 422
1
Daniel Faria
Sabes, leitor
Sabes, leitor,que estamos ambos na mesma página
e aproveito o facto de teres chegado agora
para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar
que te digo alguma coisa não necessária,mas podia ter-te dito acredita,
que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.Ou melhor,
que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre
apesar de nós.
esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
a flor que se abrir é já um pouco de ti.E a flor que te estendo,
mesmo que a recuses
nunca a poderei conhecer,nem jamais,por muito que a ame,
a colherei
a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
de Dos Líquidos (2000)
e aproveito o facto de teres chegado agora
para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar
que te digo alguma coisa não necessária,mas podia ter-te dito acredita,
que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.Ou melhor,
que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre
apesar de nós.
esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
a flor que se abrir é já um pouco de ti.E a flor que te estendo,
mesmo que a recuses
nunca a poderei conhecer,nem jamais,por muito que a ame,
a colherei
a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
de Dos Líquidos (2000)
2 112
1
Judas Isgorogota
As Luvas de N Senhora
Éramos três, os retirantes do sertão inóspito:
Eu, meu pai, minha mãe, alguns sonhos, e só.
Eles, moços; eu tinha alguns meses apenas.
E nós fomos morar no alto do Jacutinga,
Bairro de gente humilde de Maceió.
A vontade materna estava assim cumprida.
— "Filho meu não se cria no sertão!
Não terei filho para vê-lo às garras
Do cangaço e do crime,
Da ignorância, da miséria, do ódio,
Que precise matar para ganhar o pão."
Fomos viver os três num casebre de taipa.
A pobreza era tanta
Que meu pai disse assim: "Não sei se vale a pena...
Não foi para isto que você nasceu..."
Respondeu minha mãe, com sertanejo entono:
— "Se pretende voltar para o sertão, que volte;
Morreremos aqui, o nosso filho e eu!"
Sorte de retirante é assim: dias passados,
A maleita bateu impiedosa nos três...
Todos tremendo como varas verdes,
Assim ficamos quase um mês...
E cadê água para as bocas ressequidas
Pela febre? E onde o alimento, a ajuda
De alguém para fechar ao menos nossos olhos
Pela última vez?
Foi nesse instante cruel de nossa vida
Que nos surgiu Mãe Inês...
Uma manhã cheia de sol, duas mãos negras e humildes,
Ansiosas e aflitas,
Achegaram-se a mim. — "Pobre inocente...
Quase a morrer de fome..."
E no quarto se ouviu o seu fundo suspiro,
Angustiado e longo...
E me deu a beber daquele leite
Que era todo humildade e era humana ternura
E que tinha o calor de uma noite do Congo...
Ao pensar em Mãe Inês, tenho uma idéia estranha:
— Quando visita um pobre lar,
Nossa Senhora, femininamente,
Calça umas luvas de veludo negro
Para nos amparar...
Eu, meu pai, minha mãe, alguns sonhos, e só.
Eles, moços; eu tinha alguns meses apenas.
E nós fomos morar no alto do Jacutinga,
Bairro de gente humilde de Maceió.
A vontade materna estava assim cumprida.
— "Filho meu não se cria no sertão!
Não terei filho para vê-lo às garras
Do cangaço e do crime,
Da ignorância, da miséria, do ódio,
Que precise matar para ganhar o pão."
Fomos viver os três num casebre de taipa.
A pobreza era tanta
Que meu pai disse assim: "Não sei se vale a pena...
Não foi para isto que você nasceu..."
Respondeu minha mãe, com sertanejo entono:
— "Se pretende voltar para o sertão, que volte;
Morreremos aqui, o nosso filho e eu!"
Sorte de retirante é assim: dias passados,
A maleita bateu impiedosa nos três...
Todos tremendo como varas verdes,
Assim ficamos quase um mês...
E cadê água para as bocas ressequidas
Pela febre? E onde o alimento, a ajuda
De alguém para fechar ao menos nossos olhos
Pela última vez?
Foi nesse instante cruel de nossa vida
Que nos surgiu Mãe Inês...
Uma manhã cheia de sol, duas mãos negras e humildes,
Ansiosas e aflitas,
Achegaram-se a mim. — "Pobre inocente...
Quase a morrer de fome..."
E no quarto se ouviu o seu fundo suspiro,
Angustiado e longo...
E me deu a beber daquele leite
Que era todo humildade e era humana ternura
E que tinha o calor de uma noite do Congo...
Ao pensar em Mãe Inês, tenho uma idéia estranha:
— Quando visita um pobre lar,
Nossa Senhora, femininamente,
Calça umas luvas de veludo negro
Para nos amparar...
1 354
1
José Fanha
GRITO
De ti que inventaste
a paz
a ternura
e a paixão
o beijo
o beijo fundo intenso e louco
e deixaste lá para trás
a côncava do medo
à hora entre cão e lobo
à hora entre lobo e cão.
De ti que em cada ano
cada dia cada mês
não paraste de acender
uma e outra vez
a flor eléctrica
do mais desvairado
coração.
De ti que fugiste à estepe
e obrigaste
à ordem dos caminhos
o pastor
a cabra e o boi
e do fundo do tempo
me chamaste teu irmão.
De ti que ergueste a casa
sobre estacas
e pariste
deuses e linguagens
guerras
e paisagens sem alento.
De ti que domaste
o cavalo e os neutrões
e conquistaste
o lírico tropel
das águas e do vento.
De ti que traçaste
a régua e esquadro
uma abóboda inquieta
semeada de nuvens e tritões
santidades e tormentos.
De ti que levaste
a volupta da ambição
a trepar erecta
contra as leis do firmamento.
De ti que deixaste um dia
que o teu corpo se cansassse
desta terra de amargura e alegria
e se espalhasse aos quatro cantos
diluido lentamente
no mais plácido
silente
e negro breu.
De ti
meu irmão
ainda ouço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.
O grito de revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.
O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor.
a paz
a ternura
e a paixão
o beijo
o beijo fundo intenso e louco
e deixaste lá para trás
a côncava do medo
à hora entre cão e lobo
à hora entre lobo e cão.
De ti que em cada ano
cada dia cada mês
não paraste de acender
uma e outra vez
a flor eléctrica
do mais desvairado
coração.
De ti que fugiste à estepe
e obrigaste
à ordem dos caminhos
o pastor
a cabra e o boi
e do fundo do tempo
me chamaste teu irmão.
De ti que ergueste a casa
sobre estacas
e pariste
deuses e linguagens
guerras
e paisagens sem alento.
De ti que domaste
o cavalo e os neutrões
e conquistaste
o lírico tropel
das águas e do vento.
De ti que traçaste
a régua e esquadro
uma abóboda inquieta
semeada de nuvens e tritões
santidades e tormentos.
De ti que levaste
a volupta da ambição
a trepar erecta
contra as leis do firmamento.
De ti que deixaste um dia
que o teu corpo se cansassse
desta terra de amargura e alegria
e se espalhasse aos quatro cantos
diluido lentamente
no mais plácido
silente
e negro breu.
De ti
meu irmão
ainda ouço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.
O grito de revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.
O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor.
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1
Amélia Rodrigues
Uma Simples Homenagem
Todos pensam que é fácil ser poeta
Fazer das lágrimas, versos
E acumulá-los de amor.
Mas existem os que lutam
Não só por si e por suas criações,
Como pelo engrandecimento dos valores ocultos...
Os que veem e ajudam a crescer beleza,
Em si e na humanidade...
Os que tentam, com os seus poemas,
Desobstruir os caminhos da vida
Deixando desfilar os seus versos
No corredor do coração do mundo.
Dentre estes, Soares Feitosa:
O singular "mensageiro do amor".
Fazer das lágrimas, versos
E acumulá-los de amor.
Mas existem os que lutam
Não só por si e por suas criações,
Como pelo engrandecimento dos valores ocultos...
Os que veem e ajudam a crescer beleza,
Em si e na humanidade...
Os que tentam, com os seus poemas,
Desobstruir os caminhos da vida
Deixando desfilar os seus versos
No corredor do coração do mundo.
Dentre estes, Soares Feitosa:
O singular "mensageiro do amor".
2 238
1
Rui Costa
O pão
Há pessoas que amam
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.
Com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
E quando as perdemos estão sempre
Ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
A lua encontra o pão caiado que comemos
Enquanto o riso das promessas destila
Na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
Onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
E pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
Que não precisa de voar.
637
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 19
Deus sempre feito à imagem do homem
que o cria. Fabricam-se punhais para matar
com menos requinte do que as mãos; e
o crime continua a ser a mais antiga forma
da pureza. O primeiro artista pintava o
animal que queria seduzir. Dava-lhe uma
luz imóvel e amava-o deitado no tempo.
que o cria. Fabricam-se punhais para matar
com menos requinte do que as mãos; e
o crime continua a ser a mais antiga forma
da pureza. O primeiro artista pintava o
animal que queria seduzir. Dava-lhe uma
luz imóvel e amava-o deitado no tempo.
463
Herberto Helder
E Chamou Deus À Luz Dia
E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro.
... e fez a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento.
(Génesis).
... e eis que havia um grande terramoto: e o sol tomou-se negro como um saco de silício: e a lua tomou-se como sangue. E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento: E o céu retirou-se como um livro que se enrola: e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares.
E vi os mortos, pequenos e grandes, ... e foram abertos os livros. (Apocalipse).
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações. (François Yillon).
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. (Dante).
Maravilha fatal da nossa idade. (Camões).
Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. (Autor).
E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento. E eis que havia um grande terramoto, e o sol tornou-se negro como um saco de silício e a lua tornou-se como sangue. E fez-se a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento. E o céu retirou-se como um livro que se enrola e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. E vi os mortos, pequenos e grandes, e foram abertos os livros. Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável — maravilha fatal da nossa idade —, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror.
E vi os mortos, como quando a figueira lança os seus figos verdes, entre as águas que estavam debaixo do firmamento, águas negras, e a lua como sangue, denso granizo e neves do espaço tenebroso. E as estrelas do céu e as águas que estavam por cima do firmamento caíram na terra, e eis que havia um grande terramoto, e rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, e foram abertos os livros. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Os homens e as mulheres caíam cegamente pela boca, e o sol tornou-se negro como um livro que se enrola, e todos os pequenos e grandes montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Abalada de um grande vento, a luz terrível subia e girava, puxando violentamente os mortos brancos que ficavam presos pelos deslumbrados e arrastados lábios ao céu que se tornou como um saco de silício. E os seres aniquilados beijavam essa colina, e em baixo o céu retirou-se, e fez-se a separação, e estalavam as cúpulas
vermelhas.
Maravilha fatal da nossa idade.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
Na maravilha desta luz inextricável, vi os homens e as mulheres que estalavam como estrelas, como figos deslumbrados. E o sol negro e a lua de sangue caíram no
vento, nas águas, na terra, caíam da selvagem figueira por cima do firmamento que subia e girava como um livro terrível, uma colina que se enrola. E eis que se rasgou um grande terramoto de águas verdes no céu de silício violentamente baixo. E os seres moveram-se dos seus lugares pelo granizo tenebroso, puxando as cúpulas, os sons, os mortos abertos. E havia águas negras na luz abalada, na áspera floresta dos limbos, e as ilhas vermelhas e os montes arrastados amadureciam no terror da nossa idade. No espaço das fábulas os mortos, cegamente presos, estavam aniquilados pelos lábios e beijavam a grande luz, a grande morte. E fez-se a separação entre a boca e os livros. E quando as águas e as neves estavam dentro do céu, de cuja antiga lembrança custa falar, eu vi os mortos brancos despertar debaixo do céu fatal, e ficavam pequenos e grandes. E estavam todos mortos. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
... presos pela boca violentamente brancos os mortos amadureciam
e
dentro desta luz ficavam as mulheres puxando as fábulas vermelhas
e
a terrível colina subia pelos sons deslumbrados
e
os limbos estalavam
e
a luz rasgou cegamente os seres aniquilados
e
cúpulas beijavam os lábios arrastados na luz
e
a morte antiga girava em baixo com homens...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se atarde, e fez-se amanhã, dia primeiro...
... luz selvagem... e terramoto que se enrola de estrelas...
e água abalada... inextricável... o sol num saco de vento...
e a lua debaixo das ilhas que se moveram... e livros em silício dentro dos mortos verdes... e coração dos figos abertos... maravilha nos grandes lugares por cima... e montes como dentro das águas negras... espaço... separação... e mulheres vermelhas com cúpulas... a antiga colina do firmamento... e homens violentamente... sons cegamente... e seres arrastados do céu da boca para... luz selvagem...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite;
e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
1963.
... e fez a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento.
(Génesis).
... e eis que havia um grande terramoto: e o sol tomou-se negro como um saco de silício: e a lua tomou-se como sangue. E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento: E o céu retirou-se como um livro que se enrola: e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares.
E vi os mortos, pequenos e grandes, ... e foram abertos os livros. (Apocalipse).
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações. (François Yillon).
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. (Dante).
Maravilha fatal da nossa idade. (Camões).
Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. (Autor).
E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento. E eis que havia um grande terramoto, e o sol tornou-se negro como um saco de silício e a lua tornou-se como sangue. E fez-se a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento. E o céu retirou-se como um livro que se enrola e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. E vi os mortos, pequenos e grandes, e foram abertos os livros. Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável — maravilha fatal da nossa idade —, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror.
E vi os mortos, como quando a figueira lança os seus figos verdes, entre as águas que estavam debaixo do firmamento, águas negras, e a lua como sangue, denso granizo e neves do espaço tenebroso. E as estrelas do céu e as águas que estavam por cima do firmamento caíram na terra, e eis que havia um grande terramoto, e rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, e foram abertos os livros. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Os homens e as mulheres caíam cegamente pela boca, e o sol tornou-se negro como um livro que se enrola, e todos os pequenos e grandes montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Abalada de um grande vento, a luz terrível subia e girava, puxando violentamente os mortos brancos que ficavam presos pelos deslumbrados e arrastados lábios ao céu que se tornou como um saco de silício. E os seres aniquilados beijavam essa colina, e em baixo o céu retirou-se, e fez-se a separação, e estalavam as cúpulas
vermelhas.
Maravilha fatal da nossa idade.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
Na maravilha desta luz inextricável, vi os homens e as mulheres que estalavam como estrelas, como figos deslumbrados. E o sol negro e a lua de sangue caíram no
vento, nas águas, na terra, caíam da selvagem figueira por cima do firmamento que subia e girava como um livro terrível, uma colina que se enrola. E eis que se rasgou um grande terramoto de águas verdes no céu de silício violentamente baixo. E os seres moveram-se dos seus lugares pelo granizo tenebroso, puxando as cúpulas, os sons, os mortos abertos. E havia águas negras na luz abalada, na áspera floresta dos limbos, e as ilhas vermelhas e os montes arrastados amadureciam no terror da nossa idade. No espaço das fábulas os mortos, cegamente presos, estavam aniquilados pelos lábios e beijavam a grande luz, a grande morte. E fez-se a separação entre a boca e os livros. E quando as águas e as neves estavam dentro do céu, de cuja antiga lembrança custa falar, eu vi os mortos brancos despertar debaixo do céu fatal, e ficavam pequenos e grandes. E estavam todos mortos. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
... presos pela boca violentamente brancos os mortos amadureciam
e
dentro desta luz ficavam as mulheres puxando as fábulas vermelhas
e
a terrível colina subia pelos sons deslumbrados
e
os limbos estalavam
e
a luz rasgou cegamente os seres aniquilados
e
cúpulas beijavam os lábios arrastados na luz
e
a morte antiga girava em baixo com homens...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se atarde, e fez-se amanhã, dia primeiro...
... luz selvagem... e terramoto que se enrola de estrelas...
e água abalada... inextricável... o sol num saco de vento...
e a lua debaixo das ilhas que se moveram... e livros em silício dentro dos mortos verdes... e coração dos figos abertos... maravilha nos grandes lugares por cima... e montes como dentro das águas negras... espaço... separação... e mulheres vermelhas com cúpulas... a antiga colina do firmamento... e homens violentamente... sons cegamente... e seres arrastados do céu da boca para... luz selvagem...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite;
e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
1963.
1 075
Herberto Helder
64
limoeiros, riachos, faúlhas, montes levantados ao de cima da cabeça,
alguém amado com uma estrela esmagada contra o rosto como para
indiciá-lo,
frio aroma respirado muito,
inesperados membros que a luz trabalha,
ou é a luz que é inesperada com os membros dentro dela: dança,
o medo,
quer dizer: o paraíso, o inferno,
no uso expansivo das palavras, por exemplo: poemas
como foi possível escrevê-los antes ou depois de Auschwitz?
no corpo até se fazer osso,
até que fosse apenas uma ferida,
Auschwitz é sempre contra os mesmos,
e sempre se escreveu na língua do inimigo,
e escreve-se nessa língua porque é preciso que o inimigo não compreenda
nunca,
ou é preciso resgatar a língua do seu crime imprevisível
mas quem ronda lá fora as minhas ásperas moradas,
e rosna resvés ao rosto, quem, e em
que língua se estrangula,
que fomes o devoram,
que nomes loucos o destroem?
e é nesse instante mesmo que o poema retoma a sua fala bárbara,
e aí, nas líricas ignições, encontra o assassino,
Auschwitz é o dia imparcial, às vezes
leve com água raspando ao lado ou os lábios sobre as pálpebras,
ou quando vem nos jornais:
política, artes & letras, coacções, corrupções, e a violência do dinheiro
estúpido
como é que um dia, nos montes, os dedos numa
estrela fundida na cara, à sombra das frutas, se puderam escrever, ou
não puderam,
fanopeia, melopeia, logopeia,
as coisas cruas?
Auschwitz é sempre, immer, e escreve-se ou por fora ou por dentro,
ou por baixo ou por cima, ou cara a cara, que é o melhor de tudo
e é cada vez mais perigoso, ou é o mesmo, ou é menos perigoso?
dados os termos dos tempos: à quoi bon aujourd’hui la poésie?
ou então: la poésie comme l’amour
gantes ou depois: de quem, de quê, de como ou quando?
immer, always, Auschwitz, sempre, toujours, em todas as línguas rie
alguém amado com uma estrela esmagada contra o rosto como para
indiciá-lo,
frio aroma respirado muito,
inesperados membros que a luz trabalha,
ou é a luz que é inesperada com os membros dentro dela: dança,
o medo,
quer dizer: o paraíso, o inferno,
no uso expansivo das palavras, por exemplo: poemas
como foi possível escrevê-los antes ou depois de Auschwitz?
no corpo até se fazer osso,
até que fosse apenas uma ferida,
Auschwitz é sempre contra os mesmos,
e sempre se escreveu na língua do inimigo,
e escreve-se nessa língua porque é preciso que o inimigo não compreenda
nunca,
ou é preciso resgatar a língua do seu crime imprevisível
mas quem ronda lá fora as minhas ásperas moradas,
e rosna resvés ao rosto, quem, e em
que língua se estrangula,
que fomes o devoram,
que nomes loucos o destroem?
e é nesse instante mesmo que o poema retoma a sua fala bárbara,
e aí, nas líricas ignições, encontra o assassino,
Auschwitz é o dia imparcial, às vezes
leve com água raspando ao lado ou os lábios sobre as pálpebras,
ou quando vem nos jornais:
política, artes & letras, coacções, corrupções, e a violência do dinheiro
estúpido
como é que um dia, nos montes, os dedos numa
estrela fundida na cara, à sombra das frutas, se puderam escrever, ou
não puderam,
fanopeia, melopeia, logopeia,
as coisas cruas?
Auschwitz é sempre, immer, e escreve-se ou por fora ou por dentro,
ou por baixo ou por cima, ou cara a cara, que é o melhor de tudo
e é cada vez mais perigoso, ou é o mesmo, ou é menos perigoso?
dados os termos dos tempos: à quoi bon aujourd’hui la poésie?
ou então: la poésie comme l’amour
gantes ou depois: de quem, de quê, de como ou quando?
immer, always, Auschwitz, sempre, toujours, em todas as línguas rie
600
Herberto Helder
O Poema - Vii
A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas das palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.
Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.
Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.
E a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. E Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
—Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.
— Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para a sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.
—A manhã começa a colocar o poema na parte
mais limpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
Amanhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas das palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.
Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.
Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.
E a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. E Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
—Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.
— Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para a sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.
—A manhã começa a colocar o poema na parte
mais limpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
Amanhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
1 475
Eduardo Pitta
As coisas são como são
As coisas são como são.
Sempre haverá uma mão senhora de exemplar
desprendimento, atenta ao sufoco
e à desolação da alma.
Assim foi, por socalcos de tabaco,
o enredo dos caminhos, ardente magia.
Pouco importa saber
que toda a paisagem mente.
Sempre haverá uma mão senhora de exemplar
desprendimento, atenta ao sufoco
e à desolação da alma.
Assim foi, por socalcos de tabaco,
o enredo dos caminhos, ardente magia.
Pouco importa saber
que toda a paisagem mente.
607
Pero da Ponte
D'um Tal Ric'home Ouç'eu Dizer
D'um tal ric'home ouç'eu dizer
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
733
Fernão Garcia Esgaravunha
Nenguem-Mim, Que Vistes Mal Doente
Nenguem-mim, que vistes mal doente
de mao mal, ond'houver'a morrer,
eu puj'a mão em el e caente
o achei muit', e mandei-lhi fazer
mui boa cama, e adormeceu;
e espertou-s'e cobriu-s'e peeu
e or[a] já mais guarido se sente.
Achei-o eu jazer desacordado,
que nom cuidei que podesse guarir;
e pois eu vi que era mal coitado,
mandei-o bem caentar e cobrir;
e des que s'el bem coberto sentiu,
estornudou três peidos e guariu
já quanto mais, e é mais arriçado.
Achei-o eu mal doente, u jazia
desacordado todo com o mal;
e nom cuidava que guareceria;
mais a mercêe de Deus quanto val!
Que, u sa gente del desasperou,
feriu três peidos e determinhou
e conhoceu, ca já nom conhocia.
Deste mal nom cuidei que guarecesse,
pero mandei-lhi fazer ũa rem:
que aquel dia per rem nom comesse
e se deitasse e se cobrisse bem;
e el deitou-se e cobriu-s'entom,
e peeu bem e houve coraçom
pois de bever, e dix'eu que bevesse.
de mao mal, ond'houver'a morrer,
eu puj'a mão em el e caente
o achei muit', e mandei-lhi fazer
mui boa cama, e adormeceu;
e espertou-s'e cobriu-s'e peeu
e or[a] já mais guarido se sente.
Achei-o eu jazer desacordado,
que nom cuidei que podesse guarir;
e pois eu vi que era mal coitado,
mandei-o bem caentar e cobrir;
e des que s'el bem coberto sentiu,
estornudou três peidos e guariu
já quanto mais, e é mais arriçado.
Achei-o eu mal doente, u jazia
desacordado todo com o mal;
e nom cuidava que guareceria;
mais a mercêe de Deus quanto val!
Que, u sa gente del desasperou,
feriu três peidos e determinhou
e conhoceu, ca já nom conhocia.
Deste mal nom cuidei que guarecesse,
pero mandei-lhi fazer ũa rem:
que aquel dia per rem nom comesse
e se deitasse e se cobrisse bem;
e el deitou-se e cobriu-s'entom,
e peeu bem e houve coraçom
pois de bever, e dix'eu que bevesse.
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