Poemas neste tema
Humanidade e Solidariedade
Ilka Brunhilde Laurito
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em chão
parede
poste.
(Em homem:
pode.)
1963
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
em chão
parede
poste.
(Em homem:
pode.)
1963
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
1 616
Ilka Brunhilde Laurito
Ciranda dos Meninos da Cidade Grande
Senhora Dona Sancha
coberta de ouro e prata
que anjos são esses
que andam rodeando
pelas ruas da cidade
dia e noite noite e dia
padre-nosso! ave-maria!?...
É o anjo-fujão-de-casa
que veio de circo em circo
andando no trem de carga
ou no aéreo porta-mala.
É o anjo-luz-dos-sapatos
(vai graxa negra, patrão?)
ajoelhado aos pés do homem
que é quem lhe deve perdão.
É o anjo-da-guarda-dos-carros
pastor de ovelhas de lata
assobiando na flauta
da sua garganta asmática.
É o anjo-do-amendoim
(nem um pouco afrodisíaco)
fugindo ao rapa do fisco,
ao seu medo e à sua anemia.
(...)
É o anjo-torto-e-raquítico
apodrecendo faminto
e amamentando na esquina
com leite de mãe menina.
É o anjo-dos-restaurantes
catando as migalhas das mesas
onde os problemas do mundo
naufragam em mar de cerveja.
É o anjo-da-rosa-noturna
vendendo aos noivos que riem
o aroma sem cor de seu mundo
e a murcha flor de sua vida.
É o anjo-carregador
chupando a laranja podre
que cai do excessivo cesto
da despesa das patroas.
(...)
É o anjo-rei-dos-mendigos,
filho de mãe postiça
orfão de pai foragido
adotivo do Juizado.
É o anjo-do-sexo-triste
herdeiro da tara e sífilis
no seu promíscuo exercício
nos quatro cantos das ruas.
É o anjo-das-negras-nuvens
que saem da boca do vício
puxando o sonho proibido
do ópio que o faz mais livre.
É o anjo-assaltante-franzino,
o corpo atrás do revólver,
matando o ódio do amor
em cada tiro assassino.
Senhora Dona Sancha
dê seu ouro dê sua prata
que estes anjos não são anjos
são os filhos da cidade
— nossos filhos, mãe de asfalto —
rodeando dia e noite noite e dia
sem pai nosso! e sem maria.
1975
Imagem - 00660002
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.36-38. (Sélesis, 13
coberta de ouro e prata
que anjos são esses
que andam rodeando
pelas ruas da cidade
dia e noite noite e dia
padre-nosso! ave-maria!?...
É o anjo-fujão-de-casa
que veio de circo em circo
andando no trem de carga
ou no aéreo porta-mala.
É o anjo-luz-dos-sapatos
(vai graxa negra, patrão?)
ajoelhado aos pés do homem
que é quem lhe deve perdão.
É o anjo-da-guarda-dos-carros
pastor de ovelhas de lata
assobiando na flauta
da sua garganta asmática.
É o anjo-do-amendoim
(nem um pouco afrodisíaco)
fugindo ao rapa do fisco,
ao seu medo e à sua anemia.
(...)
É o anjo-torto-e-raquítico
apodrecendo faminto
e amamentando na esquina
com leite de mãe menina.
É o anjo-dos-restaurantes
catando as migalhas das mesas
onde os problemas do mundo
naufragam em mar de cerveja.
É o anjo-da-rosa-noturna
vendendo aos noivos que riem
o aroma sem cor de seu mundo
e a murcha flor de sua vida.
É o anjo-carregador
chupando a laranja podre
que cai do excessivo cesto
da despesa das patroas.
(...)
É o anjo-rei-dos-mendigos,
filho de mãe postiça
orfão de pai foragido
adotivo do Juizado.
É o anjo-do-sexo-triste
herdeiro da tara e sífilis
no seu promíscuo exercício
nos quatro cantos das ruas.
É o anjo-das-negras-nuvens
que saem da boca do vício
puxando o sonho proibido
do ópio que o faz mais livre.
É o anjo-assaltante-franzino,
o corpo atrás do revólver,
matando o ódio do amor
em cada tiro assassino.
Senhora Dona Sancha
dê seu ouro dê sua prata
que estes anjos não são anjos
são os filhos da cidade
— nossos filhos, mãe de asfalto —
rodeando dia e noite noite e dia
sem pai nosso! e sem maria.
1975
Imagem - 00660002
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.36-38. (Sélesis, 13
1 483
Álvares de Azevedo
Canto Segundo
And her head droo'd as when the lily lies
O'er charged with rain.
Don Juan.
I
Dorme! ao colo do amor, pálido amante,
Repousa, sonhador, nos lábios dela!
Qual em seio de mãe, febril infante!
No olhar, nos lábios da infantil donzela
Inebria teu seio palpitante!
O murmúrio do amor em forma bela
Tem doçuras que esmaiam no desejo
Dos sonhos ao vapor, na onda de um beijo!
II
Que importa a perdição manchasse um dia
A alvura virginal das roupas santas
E o mundo a esse corpo que tremia
Rompesse o véu que tímido alevantas?
E à noite lhe pousasse a fronte fria
Nesse leito em que trêmulo te encantas
E ao batejo venal murchasse flores,
Flores que abriam a infantis amores?
III
Que importa? se o amor teu rosto beija,
Se a beijas nua e sobre o peito dela
Teu peito juvenil ama e lateja!
Se tua langue palidez revela
Que tua alma febril sonha e deseja
Desmaiar-lhe de amor, gemer com ela,
Ébrio de vida, a soluçar d'enleio,
Pálido sonhador morrer-lhe ao seio!
IV
Que importa o mundo além? teu mundo é esse
Onde na vida o coração te alegra!
Teu mundo é o serafim que às noites desce
E que lava no amor a mancha negra!
É a névoa de luz onde não lê-se
Escrita à porta vil a infame regra
Que assinala o bordel à mão poluta
E diz nas letras fundas — prostituta!
V
A essa pobre mulher na fronte bela
Anátema, escreveu a turba fria!
Banhe o remorso o travesseiro dela,
Corram-lhe a mil da pálpebra sombria
Prantos do coração, não há erguê-la
A eterna maldição. E quem diria
A solitária dor, da noite ao manto
Que lavra o seio à cortesã em pranto?
VI
Ah! Madalenas míseras! ardentes
Quantos olhos azuis se não inundam
Nos transes do prazer em prantos quentes
Quando os seios febris em ais abundam,
Que o amante nos óculos trementes
Crê sonhos que do amor no mar se afundam!
Que suspiros no beijo que delira
Que são lágrimas só! que são mentira!
VII
E quantas vezes na cheirosa seda
Da longa trança desatada, solta,
Onde o moço de gozos embebeda
A fronte à febre juvenil revolta;
Quando a vida, o frescor, a imagem leda
De esp'rança que morreu ao leito volta;
As lágrimas na dor ferventes correm...
Como em céu de verão estrelas morrem?
(...)
IX
Amar uma perdida! que loucura!
Mas tão bela! que seio de Madona!
Nunca amara tão nívea criatura
Como aquela mulher que ali ressona!
(...)
Imagem - 00280001
Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série O Poema do Frade.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1
NOTA: "O Poema do Frade" é composto de 5 cantos; o segundo é composto de 28 oitava
O'er charged with rain.
Don Juan.
I
Dorme! ao colo do amor, pálido amante,
Repousa, sonhador, nos lábios dela!
Qual em seio de mãe, febril infante!
No olhar, nos lábios da infantil donzela
Inebria teu seio palpitante!
O murmúrio do amor em forma bela
Tem doçuras que esmaiam no desejo
Dos sonhos ao vapor, na onda de um beijo!
II
Que importa a perdição manchasse um dia
A alvura virginal das roupas santas
E o mundo a esse corpo que tremia
Rompesse o véu que tímido alevantas?
E à noite lhe pousasse a fronte fria
Nesse leito em que trêmulo te encantas
E ao batejo venal murchasse flores,
Flores que abriam a infantis amores?
III
Que importa? se o amor teu rosto beija,
Se a beijas nua e sobre o peito dela
Teu peito juvenil ama e lateja!
Se tua langue palidez revela
Que tua alma febril sonha e deseja
Desmaiar-lhe de amor, gemer com ela,
Ébrio de vida, a soluçar d'enleio,
Pálido sonhador morrer-lhe ao seio!
IV
Que importa o mundo além? teu mundo é esse
Onde na vida o coração te alegra!
Teu mundo é o serafim que às noites desce
E que lava no amor a mancha negra!
É a névoa de luz onde não lê-se
Escrita à porta vil a infame regra
Que assinala o bordel à mão poluta
E diz nas letras fundas — prostituta!
V
A essa pobre mulher na fronte bela
Anátema, escreveu a turba fria!
Banhe o remorso o travesseiro dela,
Corram-lhe a mil da pálpebra sombria
Prantos do coração, não há erguê-la
A eterna maldição. E quem diria
A solitária dor, da noite ao manto
Que lavra o seio à cortesã em pranto?
VI
Ah! Madalenas míseras! ardentes
Quantos olhos azuis se não inundam
Nos transes do prazer em prantos quentes
Quando os seios febris em ais abundam,
Que o amante nos óculos trementes
Crê sonhos que do amor no mar se afundam!
Que suspiros no beijo que delira
Que são lágrimas só! que são mentira!
VII
E quantas vezes na cheirosa seda
Da longa trança desatada, solta,
Onde o moço de gozos embebeda
A fronte à febre juvenil revolta;
Quando a vida, o frescor, a imagem leda
De esp'rança que morreu ao leito volta;
As lágrimas na dor ferventes correm...
Como em céu de verão estrelas morrem?
(...)
IX
Amar uma perdida! que loucura!
Mas tão bela! que seio de Madona!
Nunca amara tão nívea criatura
Como aquela mulher que ali ressona!
(...)
Imagem - 00280001
Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série O Poema do Frade.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1
NOTA: "O Poema do Frade" é composto de 5 cantos; o segundo é composto de 28 oitava
2 110
Cassiano Ricardo
Os Subvivos
III
Na sobremesa
os convivas
alheios à fome
de quem ficou
sob a mesa.
Não os seduzem
os subvivos.
Os subnutridos
do subsolo.
Os subjugados
do subsolo.
Todos os súditos
do subsolo.
E os que sub/irão
ao solo
pra exigir seu
lugar ao sol,
na feroz luta
entre os vivos
e os subvivos?
E os que sob
a mesa
só roeram os
ossos
que sobraram
da sobremesa?
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.119. Poema integrante da série Diavirá
Na sobremesa
os convivas
alheios à fome
de quem ficou
sob a mesa.
Não os seduzem
os subvivos.
Os subnutridos
do subsolo.
Os subjugados
do subsolo.
Todos os súditos
do subsolo.
E os que sub/irão
ao solo
pra exigir seu
lugar ao sol,
na feroz luta
entre os vivos
e os subvivos?
E os que sob
a mesa
só roeram os
ossos
que sobraram
da sobremesa?
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.119. Poema integrante da série Diavirá
2 738
Sebastião Uchoa Leite
Jean-Jacques Rousseau às Avessas
o amor do próximo universal
ou a lógica do contrato social
é o papo furado triunfal
dos que seguem as lutas sindicais
pelos jornais
os amorosos nada morosos
na hora da comilança
sabem muito bem
como encher a pança
Publicado no livro Isso Não É Aquilo (1982).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
ou a lógica do contrato social
é o papo furado triunfal
dos que seguem as lutas sindicais
pelos jornais
os amorosos nada morosos
na hora da comilança
sabem muito bem
como encher a pança
Publicado no livro Isso Não É Aquilo (1982).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 426
Murillo Mendes
Cartão Postal
Domingo no jardim público pensativo.
Consciências corando ao sol nos bancos,
bebês arquivados em carrinhos alemães
esperam pacientemente o dia em que poderão ler o
[Guarani.
Passam braços e seios com um jeitão
que se Lenine visse não fazia o Soviete.
Marinheiros americanos bêbedos
fazem pipi na estátua de Barroso,
portugueses de bigode e corrente de relógio
abocanham mulatas.
O sol afunda-se no ocaso
como a cabeça daquela menina sardenta
na almofada de ramagens bordadas por Dona Cocota
[Pereira.
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959
NOTA: Referência ao romance O GUARANI de José de Alenca
Consciências corando ao sol nos bancos,
bebês arquivados em carrinhos alemães
esperam pacientemente o dia em que poderão ler o
[Guarani.
Passam braços e seios com um jeitão
que se Lenine visse não fazia o Soviete.
Marinheiros americanos bêbedos
fazem pipi na estátua de Barroso,
portugueses de bigode e corrente de relógio
abocanham mulatas.
O sol afunda-se no ocaso
como a cabeça daquela menina sardenta
na almofada de ramagens bordadas por Dona Cocota
[Pereira.
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959
NOTA: Referência ao romance O GUARANI de José de Alenca
3 625
Henriqueta Lisboa
Depois da Opção
Um reposteiro o mais espesso
caia sobre a tragédia dos Andes.
Os que a viveram não falem.
A língua que provou a carne
de seus irmãos emudeça
da mais humana miséria
para não se desnaturar
em sem remédio
depois da opção
Em estátuas de pedra
se transformem os seres
que amargaram a ponto
de negação a si mesmo
imprensados
entre o vulcão de sangue
e a geleira: fantasmas
caminhando brancas nódoas
negras hóstias em travo
depois da opção.
A dor de quem viu palpou
compreendeu e perdoou
o que a si próprio não
se perdoaria é covardia.
Heróica é a dor dos que sofrem
não pela fome ou sede ou frio
ou cegueira que sofreram
mas pela crua memória
do jamais deglutido
nos desvãos ruminando
entre a alma e os ossos
depois da opção.
Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
caia sobre a tragédia dos Andes.
Os que a viveram não falem.
A língua que provou a carne
de seus irmãos emudeça
da mais humana miséria
para não se desnaturar
em sem remédio
depois da opção
Em estátuas de pedra
se transformem os seres
que amargaram a ponto
de negação a si mesmo
imprensados
entre o vulcão de sangue
e a geleira: fantasmas
caminhando brancas nódoas
negras hóstias em travo
depois da opção.
A dor de quem viu palpou
compreendeu e perdoou
o que a si próprio não
se perdoaria é covardia.
Heróica é a dor dos que sofrem
não pela fome ou sede ou frio
ou cegueira que sofreram
mas pela crua memória
do jamais deglutido
nos desvãos ruminando
entre a alma e os ossos
depois da opção.
Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 559
Lara de Lemos
Anticanção para o Negrinho do Pastoreio
Não. Não quero a vela
para encontrar o inencontrável.
Nem quero achar gordos cavalos
que não pertencem
a nenhum só
de nossa gente.
Perca-se tudo
(menos coragem)
no perecível
das mãos que punem
homem indefeso
nas invernias.
Não quero a vela
nem teu segredo
menino-morto-assassinado
para encontrar campo
roubado
gado engordado
com tua pobreza
multiplicada.
Poupa teu choro menino-cristo
poupa teu medo, cresce
pra luta
preto com branco
branco com preto
no mesmo campo
no mesmo lado
no mesmo canto.
Poema integrante da série Do Mundo.
In: LEMOS, Lara de. Aura amara. Brasília: Coordenada Ed. de Brasília, 1969. (Poesia especial)
para encontrar o inencontrável.
Nem quero achar gordos cavalos
que não pertencem
a nenhum só
de nossa gente.
Perca-se tudo
(menos coragem)
no perecível
das mãos que punem
homem indefeso
nas invernias.
Não quero a vela
nem teu segredo
menino-morto-assassinado
para encontrar campo
roubado
gado engordado
com tua pobreza
multiplicada.
Poupa teu choro menino-cristo
poupa teu medo, cresce
pra luta
preto com branco
branco com preto
no mesmo campo
no mesmo lado
no mesmo canto.
Poema integrante da série Do Mundo.
In: LEMOS, Lara de. Aura amara. Brasília: Coordenada Ed. de Brasília, 1969. (Poesia especial)
1 560
Carlos Frydman
Metamorfose de Minha Anatomia
Na espiral heterogênea da vida,
onde vasculho e me determino,
não invento inspirações
nem ensaio sentimentos.
Na vida — mar irrequieto —
intervenho partindo dela
e ajudo a limpá-la
da poeira dos segredos.
Muitos homens
ainda são bigorna
e a vida lhes é um martelo.
Eu me insubordino
ante as pancadas que me impingiram.
Sou um par de punhos do incomensurável coletivo
martelando na bigorna da História,
moldando minha vida e as vidas
em brasas vivas.
Meu coração é uma ponte
unindo sentimentos.
Meus braços, um arco-íris
de gestos puros nas carícias
num convite claro e evidente,
buscando os deslocados, os inconsequentes,
presenteando o que me dão de ensinamentos.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
onde vasculho e me determino,
não invento inspirações
nem ensaio sentimentos.
Na vida — mar irrequieto —
intervenho partindo dela
e ajudo a limpá-la
da poeira dos segredos.
Muitos homens
ainda são bigorna
e a vida lhes é um martelo.
Eu me insubordino
ante as pancadas que me impingiram.
Sou um par de punhos do incomensurável coletivo
martelando na bigorna da História,
moldando minha vida e as vidas
em brasas vivas.
Meu coração é uma ponte
unindo sentimentos.
Meus braços, um arco-íris
de gestos puros nas carícias
num convite claro e evidente,
buscando os deslocados, os inconsequentes,
presenteando o que me dão de ensinamentos.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
986
Odylo Costa Filho
Os Guarás
Cada evangelista
com seu bicho foi
— um só! — para o Céu:
leão, águia ou boi.
Mas com outros santos
— Luís e Damião,
Vicente e Francisco —
veio a multidão
de pobres e doentes
por entre os joelhos:
e com o santo Anchieta
os guarás vermelhos
que o Sol lhe taparam
na canoa um dia:
contra a brasa ardente
foram brasa fria...
In: COSTA, Filho, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
com seu bicho foi
— um só! — para o Céu:
leão, águia ou boi.
Mas com outros santos
— Luís e Damião,
Vicente e Francisco —
veio a multidão
de pobres e doentes
por entre os joelhos:
e com o santo Anchieta
os guarás vermelhos
que o Sol lhe taparam
na canoa um dia:
contra a brasa ardente
foram brasa fria...
In: COSTA, Filho, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 309
Pedro Nava
Toadas Pra Meu Irmão
Esse homem é brasileiro que nem eu.
(Mário de Andrade - DESCOBRIMENTO)
Nem eu posso conceder
que esta noite fina assim
seja a mesma noite assu
que assobra Taquarassu!
Que seja a mesma noite densa
soturno enorme abajada
escondendo o sofrimento
dos brasileiros calados!
Mas fosse a noite maior
mais densa, mais abajada
mesmo assim seria fraca
e se deixaria varar
pela ternura que eu mando
voando com a força do vento
— Meu pensamento rasgando
o assombro da noite assu
vai velar sono cansado
dos brasileiros calados...
O sono tão sossegado
de um brasileiro cansado
dormindo na noite assu
que esmaga Taquarassu!
Da cidade outro poeta
quer a distância varar
pra ver o sono do irmão
seu descanso proteger!
Dorme teu sono José...
(...)
Meu pensamento voando
nesta noite fina assim
vai fugindo da cidade
desgarra sertão afora
pra vigiar bem de perto
o doce sono sossegado
dum brasileiro calado!
Te beijo de leve nos olhos
te beijo de leve na face
te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Brasileiro sossegado
dorme teu sono calado...
Dorme teu sono José...
E me perdoa, meu Mano
se eu não posso cantar
cantos mansos pro teu sono!
Quem me dera, mas não posso!
Pois na noite da cidade
Só de pensar no teu sono,
as veias ficaram doendo
O corpo todo sem jeito
fiquei esquisito, palavra!
Coração no peito calado...
Que dor nos nervos senti
de não ter voz pra falar
(o coração no peito calado)
de não ter choro pra chorar
de palavra não achar,
dor(i)da boa sincera
como aquela comovida
achada por Mário de Andrade
(aquela tão comovida)
que acalantou de São Paulo
o brasileiro do Acre...
Te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Descansa na noite mansa
descansa, Mano, descansa...
1928
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 25 fev. 1928: "Gosto. Talvez um pouco possam ser sintetizadas, a idéia vai repetindo muito. Quanto a ser imitação, não é. É o mesmo ritmo de inspiração porém a citação inicial e o final justificam isso. (...) Quem acusasse você de plágio ou de aluno mostrava bobagem. O que tem de parecido nos dois poemas é consciente, sem pasticho nem plágio". Referência aos "Dois Poemas Acreanos" (I - Descobrimento; II - Acalanto do Seringueiro), do livro CLÃ DO JABUTI (1927), de Mário de Andrad
(Mário de Andrade - DESCOBRIMENTO)
Nem eu posso conceder
que esta noite fina assim
seja a mesma noite assu
que assobra Taquarassu!
Que seja a mesma noite densa
soturno enorme abajada
escondendo o sofrimento
dos brasileiros calados!
Mas fosse a noite maior
mais densa, mais abajada
mesmo assim seria fraca
e se deixaria varar
pela ternura que eu mando
voando com a força do vento
— Meu pensamento rasgando
o assombro da noite assu
vai velar sono cansado
dos brasileiros calados...
O sono tão sossegado
de um brasileiro cansado
dormindo na noite assu
que esmaga Taquarassu!
Da cidade outro poeta
quer a distância varar
pra ver o sono do irmão
seu descanso proteger!
Dorme teu sono José...
(...)
Meu pensamento voando
nesta noite fina assim
vai fugindo da cidade
desgarra sertão afora
pra vigiar bem de perto
o doce sono sossegado
dum brasileiro calado!
Te beijo de leve nos olhos
te beijo de leve na face
te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Brasileiro sossegado
dorme teu sono calado...
Dorme teu sono José...
E me perdoa, meu Mano
se eu não posso cantar
cantos mansos pro teu sono!
Quem me dera, mas não posso!
Pois na noite da cidade
Só de pensar no teu sono,
as veias ficaram doendo
O corpo todo sem jeito
fiquei esquisito, palavra!
Coração no peito calado...
Que dor nos nervos senti
de não ter voz pra falar
(o coração no peito calado)
de não ter choro pra chorar
de palavra não achar,
dor(i)da boa sincera
como aquela comovida
achada por Mário de Andrade
(aquela tão comovida)
que acalantou de São Paulo
o brasileiro do Acre...
Te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Descansa na noite mansa
descansa, Mano, descansa...
1928
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 25 fev. 1928: "Gosto. Talvez um pouco possam ser sintetizadas, a idéia vai repetindo muito. Quanto a ser imitação, não é. É o mesmo ritmo de inspiração porém a citação inicial e o final justificam isso. (...) Quem acusasse você de plágio ou de aluno mostrava bobagem. O que tem de parecido nos dois poemas é consciente, sem pasticho nem plágio". Referência aos "Dois Poemas Acreanos" (I - Descobrimento; II - Acalanto do Seringueiro), do livro CLÃ DO JABUTI (1927), de Mário de Andrad
1 796
Capinan
Canção de Minha Descoberta
Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.
Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.
Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
1 235
Odylo Costa Filho
São Roque e os Cachorros
Caminhou São Roque
a pé, pelos morros
e várzeas da Terra,
juntando os cachorros
já velhos ou doentes,
sem osso e sem lar,
para oferecer-lhes
um grande jantar.
São Pedro zangou-se:
— "Isso não se faz!
Jantar de cachorro
no Céu? É demais!"
Jesus disse: — "Roque
é quem tem razão."
Pedro riu-se, e logo
deu-lhes vinho e pão.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
a pé, pelos morros
e várzeas da Terra,
juntando os cachorros
já velhos ou doentes,
sem osso e sem lar,
para oferecer-lhes
um grande jantar.
São Pedro zangou-se:
— "Isso não se faz!
Jantar de cachorro
no Céu? É demais!"
Jesus disse: — "Roque
é quem tem razão."
Pedro riu-se, e logo
deu-lhes vinho e pão.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 378
Claudio Willer
As Palavras da Tribo
poema coletivo em parceria com Roberto Piva,
Juan e Cristina Hernandez
"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche
(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
Juan e Cristina Hernandez
"Então, era isto a vida?
Pois bem: repita-se!"
Nietzsche
(...)
a espécie humana agride os verdes campos da memória a civilização
como passaporte para o próximo verão verdades cuspidas
pelas palavras da história a história atapetada de jasmins
[e
estercos noturnos dentaduras feito bandeiras atômicas mãos
sonâmbulas abismos sedosos feitos à intempérie daqueles que
choram pelos oceanos sem nome aqueles que dormem e se
suicidam sem culpa formada
amaldiçoo tua vez teu orgasmo pequeno e voraz tuas omoplatas
crepusculares chamando cordilheiras e sendeiros lunares
amores e ódios encapuçados num crucifixo opalino de olhos
matizados pela essência do teu nascimento austral gênio
hiperbóreo feito ao acaso de um fusil de asfaltos e
[pederastas
carcomidos pelos relógios de areias nucleares salvo-conduto
para uma eternidade comprada nas quitandas carboníferas de
deuses falsos
agora Fernando Pessoa flagra a espécie humana lombo de onça
africana que lambeu a esfera da carne rumo à veia jugular
sapateando no topo do prédio do bar Jeca onde eu e meu
amor um dia tomamos uma canja histórica fonte de orgasmos
cabeludos corações da noite constelações de ursas doidas
pondo ovos de celofane
vontade de transformar meu amor em toda espécie humana para dar o
beijo que nos transportará pela fenda da galáxia caindo no
prato de amêndoas do outro lado ou numa mesa branca de
Sto. Agostinho ou numa raça de hipopótamos longínqua e
delicada à espera da maluca união que não conhece limites
nem sul nem norte nem o doce naufrágio onde viramos do
avesso e dizemos Sim
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 350
Nelson Ascher
Outra Abordagem Crítica
Rompendo, uma após outra,
camadas sucessivas
de engano sobre engodo
em círculos concêntricos,
atinge-se, através
da crítica ortodoxa ao
discurso sobre o método
sincrônico, aliada à
dialética, ou seja, um
corte epistemológico
fatal, o assim chamado
Brasil que, todavia,
equívoco verídico,
resiste sempre à análise,
driblando, assim, a nossa
raquítica hermenêutica
pois, quando nesta terra
de contrastes, de farsas
que se repetem como
história, ou de subúrbio
em toda parte e centro
em parte alguma, mesmo
os ratos se subnutrem
com sobras do festim de
sobras, cujos convivas
não deixam nem gorjeta,
todos se mostram homens
cordiais que, lombrigas
otimistas no estômago
de um cadáver precoce,
abrem, súbito e sem
dente, o sorriso atávico.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p.69-7
camadas sucessivas
de engano sobre engodo
em círculos concêntricos,
atinge-se, através
da crítica ortodoxa ao
discurso sobre o método
sincrônico, aliada à
dialética, ou seja, um
corte epistemológico
fatal, o assim chamado
Brasil que, todavia,
equívoco verídico,
resiste sempre à análise,
driblando, assim, a nossa
raquítica hermenêutica
pois, quando nesta terra
de contrastes, de farsas
que se repetem como
história, ou de subúrbio
em toda parte e centro
em parte alguma, mesmo
os ratos se subnutrem
com sobras do festim de
sobras, cujos convivas
não deixam nem gorjeta,
todos se mostram homens
cordiais que, lombrigas
otimistas no estômago
de um cadáver precoce,
abrem, súbito e sem
dente, o sorriso atávico.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p.69-7
966
Sílvio Romero
XVIII - A Escravidão
Moça a terra uma vez ouvira um grito
Com que as selvas robustas ecoaram;
Era Adão, pai dos homens, que bradava:
"Caim!" Caim!... as gerações clamaram.
Clamaram no futuro. Os séculos todos
Apressados, ruidosos, têm chegado,
Procurando abafar o grito eterno
Aos ruídos das festas; mas... baldado!
Embalde o mar arroja as suas vagas
Para lavar dos homens a memória;
Sempre a mancha se avista no horizonte,
E a lauda negra dorme lá na história.
— E o pensador curvado que medita —
— Como rasgar a página da ira, —
Alça-se a fronte, ofuscado por um brilho,
Brada: — "Achei!" Mas o mundo diz "Mentira!"
É a voz dos desgraçados, dos perdidos
Para o festim dos livres, que se escuta;
É o choro dos cativos, alternando
Das cadeias com o som, que a vida enluta.
É a voz dos corações roto aos ventos
Que vai falando... As mágoas não se calam.
É o choro dos opressos, de onda em onda,
Retumbando nos templos, que se abalam.
Cresça mais essa vaga escarcelosa;
Desse mar é que o dia vem raiando,
E desse turbilhão brotam os monstros,
Que os tronos e a miséria vão tragando.
(...)
Poema integrante da série Parte Primeira: A Humanidade.
In: ROMERO, Sílvio. Cantos do fim do século, 1869/1873. Rio de Janeiro: Tip. Fluminense, 1878
Com que as selvas robustas ecoaram;
Era Adão, pai dos homens, que bradava:
"Caim!" Caim!... as gerações clamaram.
Clamaram no futuro. Os séculos todos
Apressados, ruidosos, têm chegado,
Procurando abafar o grito eterno
Aos ruídos das festas; mas... baldado!
Embalde o mar arroja as suas vagas
Para lavar dos homens a memória;
Sempre a mancha se avista no horizonte,
E a lauda negra dorme lá na história.
— E o pensador curvado que medita —
— Como rasgar a página da ira, —
Alça-se a fronte, ofuscado por um brilho,
Brada: — "Achei!" Mas o mundo diz "Mentira!"
É a voz dos desgraçados, dos perdidos
Para o festim dos livres, que se escuta;
É o choro dos cativos, alternando
Das cadeias com o som, que a vida enluta.
É a voz dos corações roto aos ventos
Que vai falando... As mágoas não se calam.
É o choro dos opressos, de onda em onda,
Retumbando nos templos, que se abalam.
Cresça mais essa vaga escarcelosa;
Desse mar é que o dia vem raiando,
E desse turbilhão brotam os monstros,
Que os tronos e a miséria vão tragando.
(...)
Poema integrante da série Parte Primeira: A Humanidade.
In: ROMERO, Sílvio. Cantos do fim do século, 1869/1873. Rio de Janeiro: Tip. Fluminense, 1878
2 231
Mafalda Veiga
Tatuagens
em cada gesto perdido
tu és igual a mim
em cada ferida que sara
escondida do mundo
eu sou igual a ti
fazes pintura de guerra
que eu não sei apagar
pintas o sol da cor da terra
e a lua da cor do mar
em cada grito da alma
eu sou igual a ti
de cada vez que um olhar
te alucina e te prende
tu és igual a mim
fazes pinturas de sonhos
pintas o sol na minha mão
e és mistura de vento e lama
entre os luares perdidos no chão
em cada noite sem rumo
tu és igual a mim
de cada vez que procuro
preciso um abrigo
eu sou igual a ti
faço pinturas de guerra
que eu não sei apagar
e pinto a lua da cor da terra
e o sol da cor do mar
em cada grito afundado
eu sou igual a ti
de cada vez que a tremura
desata o desejo
tu és igual a mim
faço pinturas de sonhos
e pinto a lua na tua mão
misturo o vento e a lama
piso os luares perdidos no chão
tu és igual a mim
em cada ferida que sara
escondida do mundo
eu sou igual a ti
fazes pintura de guerra
que eu não sei apagar
pintas o sol da cor da terra
e a lua da cor do mar
em cada grito da alma
eu sou igual a ti
de cada vez que um olhar
te alucina e te prende
tu és igual a mim
fazes pinturas de sonhos
pintas o sol na minha mão
e és mistura de vento e lama
entre os luares perdidos no chão
em cada noite sem rumo
tu és igual a mim
de cada vez que procuro
preciso um abrigo
eu sou igual a ti
faço pinturas de guerra
que eu não sei apagar
e pinto a lua da cor da terra
e o sol da cor do mar
em cada grito afundado
eu sou igual a ti
de cada vez que a tremura
desata o desejo
tu és igual a mim
faço pinturas de sonhos
e pinto a lua na tua mão
misturo o vento e a lama
piso os luares perdidos no chão
1 166
Mafalda Veiga
Outro dia que amanhece
São braços, abraços estreitos
Gente que vai e que vem
Gente parada a ver passar
São as imagens das viagens
De quem foi pra muito longe
De quem só sonhou um dia lá chegar
São navegantes em terra
Com a alma a velejar
São soldados sem guerra
Que atiram contra fantasmas
Que não podem alcançar
Que não vão poder matar
Nas ruas ficam as marcas
Da coragem e do medo
Nas sombras da madrugada
Há quem fuja ao seu degredo
E grite a negro nas paredes
São braços, abraços estreitos
Que se dão ou que se vendem
Nos atalhos da má sorte
É a vida a contorcer-se
Ao sabor da multidão
É a falta de coragem
Que mata mais do que a morte
Mata antes de se morrer
São navegantes rio acima
Rua abaixo sem um norte
É gente de pouca idade
Que aprendeu cedo a saudade
Do amor e de outra sorte
Nas ruas ficam as marcas
Do que alegra ou entristece
O grito de quem se cala
Quando outro dia amanhece
Outro dia que amanhece nas ruas
Gente que vai e que vem
Gente parada a ver passar
São as imagens das viagens
De quem foi pra muito longe
De quem só sonhou um dia lá chegar
São navegantes em terra
Com a alma a velejar
São soldados sem guerra
Que atiram contra fantasmas
Que não podem alcançar
Que não vão poder matar
Nas ruas ficam as marcas
Da coragem e do medo
Nas sombras da madrugada
Há quem fuja ao seu degredo
E grite a negro nas paredes
São braços, abraços estreitos
Que se dão ou que se vendem
Nos atalhos da má sorte
É a vida a contorcer-se
Ao sabor da multidão
É a falta de coragem
Que mata mais do que a morte
Mata antes de se morrer
São navegantes rio acima
Rua abaixo sem um norte
É gente de pouca idade
Que aprendeu cedo a saudade
Do amor e de outra sorte
Nas ruas ficam as marcas
Do que alegra ou entristece
O grito de quem se cala
Quando outro dia amanhece
Outro dia que amanhece nas ruas
877
Augusto dos Anjos
À Mesa Cedo à sofreguidão do estômago
É a hora
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,
Antegozando a ensangüentada presa,
Rodeado pelas moscas repugnantes,
Para comer meus próprios semelhantes
Eis-me sentado à mesa!
Como porções de carne morta... Ai! Como
Os que, como eu, têm carne; com este assomo
Que a espécie humana em comer carne tem!...
Como! E pois que a Razão não me reprime,
Possa a Terra vingar-se do meu crime
Comendo-me também
De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,
Antegozando a ensangüentada presa,
Rodeado pelas moscas repugnantes,
Para comer meus próprios semelhantes
Eis-me sentado à mesa!
Como porções de carne morta... Ai! Como
Os que, como eu, têm carne; com este assomo
Que a espécie humana em comer carne tem!...
Como! E pois que a Razão não me reprime,
Possa a Terra vingar-se do meu crime
Comendo-me também
4 262
Felipe Vianna
FOME
Aspiramos ao bem do povo
Mas, ao povo nada fazemos.
Com encarecimento peço de novo
Para que tentemos.
O que você ganha?
Não posso explicar;
É uma sensação incrível
Ver a felicidade de chorar.
A ventura de comer,
Matar a fome,
Matar a sede,
São direitos do homem.
Será maravilhoso,
Um mundo igual,
Esta utopia,
Uma anarquia total.
Os donos do mundo,
Conto-os nos dedos.
E por que são?
Espero uma explicação.
07/03/1996
Mas, ao povo nada fazemos.
Com encarecimento peço de novo
Para que tentemos.
O que você ganha?
Não posso explicar;
É uma sensação incrível
Ver a felicidade de chorar.
A ventura de comer,
Matar a fome,
Matar a sede,
São direitos do homem.
Será maravilhoso,
Um mundo igual,
Esta utopia,
Uma anarquia total.
Os donos do mundo,
Conto-os nos dedos.
E por que são?
Espero uma explicação.
07/03/1996
619
Felipe Vianna
BRASIL
Do carioca do samba,
Do paulista da Moca,
Do gaúcho do chimarrão,
Do caruru da baiana,
Do nordestino da rapadura.
Este é meu orgulho,
Este é meu país.
Neste país,
Onde tudo que se planta dá
Meus bisavós da Letônia vieram p´ra cá.
Dizia-se no tempo deles
Que o Brasil era o país do futuro,
E se o futuro é a globalização dos povos,
Presente, hoje, o Brasil do futuro é.
Por isso,
Digo em brados:
“Brasil
Do meu povo amado,
Sou te fiel
Aos teus povos e raças
Que unidos na graça
Faz do meu Brasil um país diferente,
Um país ausente
Da guerra dos povos sem paz “.
Várias religiões,
Várias cores e raças
Que não interessam em nada
Pois tu és Brasil,
Minha pátria amada.
11/06/2001
Do paulista da Moca,
Do gaúcho do chimarrão,
Do caruru da baiana,
Do nordestino da rapadura.
Este é meu orgulho,
Este é meu país.
Neste país,
Onde tudo que se planta dá
Meus bisavós da Letônia vieram p´ra cá.
Dizia-se no tempo deles
Que o Brasil era o país do futuro,
E se o futuro é a globalização dos povos,
Presente, hoje, o Brasil do futuro é.
Por isso,
Digo em brados:
“Brasil
Do meu povo amado,
Sou te fiel
Aos teus povos e raças
Que unidos na graça
Faz do meu Brasil um país diferente,
Um país ausente
Da guerra dos povos sem paz “.
Várias religiões,
Várias cores e raças
Que não interessam em nada
Pois tu és Brasil,
Minha pátria amada.
11/06/2001
930
César Vallejo
O pão nosso
Bebe-se o café da manhã...úmida terra
de cemitério cheira a sangue amado.
Cidade de inverno...A mordaz cruzada
de uma carreta que arrastar parece
uma emoção de jejum encadeada!
Quisera-se bater em todas as portas,
e perguntar por não sei quem, e logo
ver aos pobres, e, chorando quietos
dar pedacinhos de pão fresco a todos.
E saquear aos ricos seus vinhedos
com as duas mãos santas
que a um golpe de luz
voaram desencravadas da Cruz!
Pestana matinal, não vos levanteis!
O pão nosso de cada dia dá-nos,
Senhor...!
Todos os meus ossos são alheios
eu talvez os roubei!
Eu vim a dar-me o que acaso esteve
destinado para outro;
e penso que, se não houvesse nascido,
outro pobre tomasse este café!
Eu sou um mau ladrão...Aonde irei!
E nesta hora fria, em que a terra
transcende ao pó humano e é tão triste,
quisesse eu bater em todas as portas,
e suplicar a não sei quem, perdão,
e fazer-lhe pedacinhos de pão fresco
aqui, no forno de meu coração...!
de cemitério cheira a sangue amado.
Cidade de inverno...A mordaz cruzada
de uma carreta que arrastar parece
uma emoção de jejum encadeada!
Quisera-se bater em todas as portas,
e perguntar por não sei quem, e logo
ver aos pobres, e, chorando quietos
dar pedacinhos de pão fresco a todos.
E saquear aos ricos seus vinhedos
com as duas mãos santas
que a um golpe de luz
voaram desencravadas da Cruz!
Pestana matinal, não vos levanteis!
O pão nosso de cada dia dá-nos,
Senhor...!
Todos os meus ossos são alheios
eu talvez os roubei!
Eu vim a dar-me o que acaso esteve
destinado para outro;
e penso que, se não houvesse nascido,
outro pobre tomasse este café!
Eu sou um mau ladrão...Aonde irei!
E nesta hora fria, em que a terra
transcende ao pó humano e é tão triste,
quisesse eu bater em todas as portas,
e suplicar a não sei quem, perdão,
e fazer-lhe pedacinhos de pão fresco
aqui, no forno de meu coração...!
1 395
Jorge Luis Borges
Jactância de quietude
Escrituras de luz embestem a sombra, mais prodigiosa que meteoros.
A alta cidade irreconhecível se faz violenta sobre o campo.
Seguro da minha vida e da minha morte, vejo aos ambiciosos e quisesse
entendê-los.
Seu dia é ávido como o laço no ar.
Sua noite é trégua da ira no ferro, pronto em acometer.
Falam de humanidade.
Minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma
penúria.
Falam de pátria.
Minha pátria é um palpitado de violão, uns retratos e uma velha
espada,
a oração evidente do salgueiro nos entardeceres.
O tempo está vivendo-me.
Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tumulto da sua levantada
cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã. Meu
nome é alguém e qualquer.
Seu verso é um requerimento de alheia admiração.
Eu solicito do meu verso que não me contradiga, e é muito.
Que não seja persistência de formosura, mas sim de certeza
espiritual.
Eu solicito do meu verso que os caminhos e a solidão o testemunhem.
Gostosamente ociosa a fé, passou beirando meu viver.
Passou com lentidão, como quem vem de tão longe que não espera
chegar.
Retirado do livro Luna de enfrente, 1925
A alta cidade irreconhecível se faz violenta sobre o campo.
Seguro da minha vida e da minha morte, vejo aos ambiciosos e quisesse
entendê-los.
Seu dia é ávido como o laço no ar.
Sua noite é trégua da ira no ferro, pronto em acometer.
Falam de humanidade.
Minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma
penúria.
Falam de pátria.
Minha pátria é um palpitado de violão, uns retratos e uma velha
espada,
a oração evidente do salgueiro nos entardeceres.
O tempo está vivendo-me.
Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tumulto da sua levantada
cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã. Meu
nome é alguém e qualquer.
Seu verso é um requerimento de alheia admiração.
Eu solicito do meu verso que não me contradiga, e é muito.
Que não seja persistência de formosura, mas sim de certeza
espiritual.
Eu solicito do meu verso que os caminhos e a solidão o testemunhem.
Gostosamente ociosa a fé, passou beirando meu viver.
Passou com lentidão, como quem vem de tão longe que não espera
chegar.
Retirado do livro Luna de enfrente, 1925
1 912
Gabriela Mistral
Pezinhos
Pezinhos de criança
azulados de frio
Como os vêem e não os cobrem,
Deus meu!
Pezinhos feridos
pelas pedras todas,
ultrajados de neves
e lodos!
O homem cego ignora
que por onde passais,
uma flor de luz viva
deixais;
Que ali, onde colocais
a plantinha sangrante,
o narco nasce mais
perfumado.
Sede, posto que marchais
pelos caminhos retos,
heroicos como sois
perfeitos.
Pezinhos de criança,
duas joinhas sofridas,
como passam sem ver
as pessoas!
azulados de frio
Como os vêem e não os cobrem,
Deus meu!
Pezinhos feridos
pelas pedras todas,
ultrajados de neves
e lodos!
O homem cego ignora
que por onde passais,
uma flor de luz viva
deixais;
Que ali, onde colocais
a plantinha sangrante,
o narco nasce mais
perfumado.
Sede, posto que marchais
pelos caminhos retos,
heroicos como sois
perfeitos.
Pezinhos de criança,
duas joinhas sofridas,
como passam sem ver
as pessoas!
2 257