Poemas neste tema
Humanidade e Solidariedade
Lalla Romano
Já que um mesmo inimigo
Já que um mesmo inimigo
nos golpeia no escuro
e numa mesma armadilha
tenteamos perdidos
unamos as nossas noites
como os destroços dispersos
de um exército vencido
Será vitória o silêncio:
não requer som o diálogo
se em vez de dois somos um
:
Poichè uno stesso nemico
ci colpisce nel buio
e tra le stesse insidie
brancoliamo smarriti
uniamo le nostre notti
come gli sparsi tronconi
di un exercito in rotta
Sarà vittoria il silenzio:
il colloquio non ha suono
se non siamo due ma uno
nos golpeia no escuro
e numa mesma armadilha
tenteamos perdidos
unamos as nossas noites
como os destroços dispersos
de um exército vencido
Será vitória o silêncio:
não requer som o diálogo
se em vez de dois somos um
:
Poichè uno stesso nemico
ci colpisce nel buio
e tra le stesse insidie
brancoliamo smarriti
uniamo le nostre notti
come gli sparsi tronconi
di un exercito in rotta
Sarà vittoria il silenzio:
il colloquio non ha suono
se non siamo due ma uno
750
Lalla Romano
Quero converter-te
Quero converter-te
a uma doce fé
menino que a chuva encharca
tremendo ao frio insidioso
como se treme de medo
Eu te esquentarei
esquentarei a pedra
as pálidas veias da relva
o sangue frio dos peixes
o antigo silêncio
das serpentes de gélidas escamas
:
Vorrei persuaderti
a una dolce fede
bambino bagnato dalla pioggia
tremante per l'insidioso freddo
che è simile alla paura
Io ti riscalderò
riscalderò la pietra
le pallide vene dell'erba
il freddo sangue dei pesci
l'antico silenzio
dei serpi dalle gelide squame
a uma doce fé
menino que a chuva encharca
tremendo ao frio insidioso
como se treme de medo
Eu te esquentarei
esquentarei a pedra
as pálidas veias da relva
o sangue frio dos peixes
o antigo silêncio
das serpentes de gélidas escamas
:
Vorrei persuaderti
a una dolce fede
bambino bagnato dalla pioggia
tremante per l'insidioso freddo
che è simile alla paura
Io ti riscalderò
riscalderò la pietra
le pallide vene dell'erba
il freddo sangue dei pesci
l'antico silenzio
dei serpi dalle gelide squame
799
Luís Filipe Castro Mendes
ANOITECER NO GANGES
Lembras-te da «pequenina luz bruxuleante» do verso de Sena?
Anoitece no Ganges, tudo nos é tão estranho aqui, e no entanto,
vinda de onde não sabemos, de uma casa, de uma ruína, de um templo,
vem uma pequena luz chamar-nos para dizer do nosso comum destino.
Vou contar: íamos para Belur,
onde ensinaram Ramakrishna e Vivekananda,
compenetrados, atentos aos pormenores do caminho fluvial
(os ghats, o povo que lava e queima os seus mortos no rio,
com troncos e tábuas, mas sem caixão) e íamos a meditar em coisas muito sérias
e muito hindus e multiculturais.
Mas de repente tudo o que nos rodeava perdeu o seu sentido,
porque anoitecia simplesmente e uma luz nos chamava dentre o lusco-fusco.
Uma pequenina luz bruxuleante. Just a little light…
Tudo se tornou ao mesmo tempo mais comum e mais simples na sua estranheza
São momentos em que entendemos que somos da mesma gente,
neste país de tão diversa gente…
Mas só porque uma luz se acendeu na margem do Ganges
entre Calcutá e Belur – uma pequena luz vitoriosa!
1 070
Bruna Lombardi
Hino
Tenho lutado todos os dias pra ser uma mulher
no entanto onde nasci os homens têm sempre razão
e eu que não me interesso pela razão mas por outros sentimentos
teço silenciosamente à porta da minha casa
junto às outras mulheres da minha rua
a trama dos nossos instintos
e minha rua passa por outras cidades
atravessa países
não há fronteiras
tecemos todas nós o mesmo fio
matéria viva da nossa bandeira.
no entanto onde nasci os homens têm sempre razão
e eu que não me interesso pela razão mas por outros sentimentos
teço silenciosamente à porta da minha casa
junto às outras mulheres da minha rua
a trama dos nossos instintos
e minha rua passa por outras cidades
atravessa países
não há fronteiras
tecemos todas nós o mesmo fio
matéria viva da nossa bandeira.
3 434
Mário Dionísio
O maior poema
Como os outros
como os outros
sem nada mais que os outros
sentindo como os outros
pensando como os outros
e sofrendo e lutando
e morrendo
como os outros
como os outros
sem nada mais que os outros
sentindo como os outros
pensando como os outros
e sofrendo e lutando
e morrendo
como os outros
1 840
Juan Gelman
Limites
Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?
Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?
Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?
Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?
Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.
até aqui a água?
Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?
Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?
Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?
Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.
1 342
Julius Kazembe
Changara
Engoliram luas as crianças de Changara
Os olhos delas são pássaros tristes sem voo
que no desespero da fome acumulada
comem estrelas como se fossem grãos de milho.
Quando as sementes secaram nos campos
e o sangue secou nas veias dos rios
e a seiva secou nas veias das plantas
e o sol secou os celeiros da aldeia,
serpentes famintas silvam em volta
do peito cindido. Uma toupeira chora
ao frémito dos imbondeiros. Grave,
arde sobre a erva amarga a dor:
Das luas engolidas pelas crianças
quantas tardará a ecoar nos jornais?
Os olhos delas são pássaros tristes sem voo
que no desespero da fome acumulada
comem estrelas como se fossem grãos de milho.
Quando as sementes secaram nos campos
e o sangue secou nas veias dos rios
e a seiva secou nas veias das plantas
e o sol secou os celeiros da aldeia,
serpentes famintas silvam em volta
do peito cindido. Uma toupeira chora
ao frémito dos imbondeiros. Grave,
arde sobre a erva amarga a dor:
Das luas engolidas pelas crianças
quantas tardará a ecoar nos jornais?
1 051
Virgilio Pires
Mané Fú
Louco que povoou a minha infância
Que contava histórias maravilhosas
Histórias de Branca Flor
De bruxas e de princesas
Mané Fú Mané de Deus
Que tinha o corpo todo preto
Mas as palmas das mãos brancas
Porque as sextas-feiras subia aos céus
E ia banhar os anjos
Mané Fú Mané de Deus
Outras histórias me empolgam hoje
Histórias de crianças famintas
(Lembro-me do filho da Violante
Que comia a cal das paredes)
Histórias de velhos abandonados
(Como aquele que morreu a chorar
No Pavilhão de Alienados
E não era doido)
Histórias de prostitutas
(Ah! humilhadas amigas)
Histórias tristes nunca divulgadas
Que contava histórias maravilhosas
Histórias de Branca Flor
De bruxas e de princesas
Mané Fú Mané de Deus
Que tinha o corpo todo preto
Mas as palmas das mãos brancas
Porque as sextas-feiras subia aos céus
E ia banhar os anjos
Mané Fú Mané de Deus
Outras histórias me empolgam hoje
Histórias de crianças famintas
(Lembro-me do filho da Violante
Que comia a cal das paredes)
Histórias de velhos abandonados
(Como aquele que morreu a chorar
No Pavilhão de Alienados
E não era doido)
Histórias de prostitutas
(Ah! humilhadas amigas)
Histórias tristes nunca divulgadas
1 003
Augusto dos Anjos
O Negro
Oh! Negro, oh! filho da Hotentotia ufana
Teus braços brônzeos como dois escudos,
São dois colossos, dois gigantes mudos,
Representando a integridade humana!
Nesses braços de força soberana
Gloriosamente à luz do sol desnudos
Ao bruto encontro dos ferrões agudos
Gemeu por muito tempo a alma africana!
No colorido dos teus brônzeos braços,
Fulge o fogo mordente dos mormaços
E a chama fulge do solar brasido...
E eu cuido ver os múltiplos produtos
Da Terra — as flores e os metais e os frutos
Simbolizados nesse colorido!
O Comércio, 24-V-1905
Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.225-226. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 5 parte
Teus braços brônzeos como dois escudos,
São dois colossos, dois gigantes mudos,
Representando a integridade humana!
Nesses braços de força soberana
Gloriosamente à luz do sol desnudos
Ao bruto encontro dos ferrões agudos
Gemeu por muito tempo a alma africana!
No colorido dos teus brônzeos braços,
Fulge o fogo mordente dos mormaços
E a chama fulge do solar brasido...
E eu cuido ver os múltiplos produtos
Da Terra — as flores e os metais e os frutos
Simbolizados nesse colorido!
O Comércio, 24-V-1905
Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.
In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.225-226. (Ensaios, 32)
NOTA: Poema composto de 5 parte
4 661
Raul de Leoni
Artista
Por um destino acima do teu Ser,
Tens que buscar nas coisas inconscientes
Um sentido harmonioso, o alto prazer
Que se esconde entre as formas aparentes.
Sempre o achas, mas ao tê-lo em teu poder
Nem no pões na tua alma, nem no sentes
Na tua vida, e o levas, sem saber,
Ao sonho de outras almas diferentes...
Vives humilde e inda ao morrer ignoras
O Ideal que achaste... (Ingratidão das musas!)
Mas não faz mal, meu bômbix inocente:
Fia na primavera, entre as amoras.
A tua seda de ouro, que nem usas
Mas que faz tanto bem a tanta gente...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
Tens que buscar nas coisas inconscientes
Um sentido harmonioso, o alto prazer
Que se esconde entre as formas aparentes.
Sempre o achas, mas ao tê-lo em teu poder
Nem no pões na tua alma, nem no sentes
Na tua vida, e o levas, sem saber,
Ao sonho de outras almas diferentes...
Vives humilde e inda ao morrer ignoras
O Ideal que achaste... (Ingratidão das musas!)
Mas não faz mal, meu bômbix inocente:
Fia na primavera, entre as amoras.
A tua seda de ouro, que nem usas
Mas que faz tanto bem a tanta gente...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
1 791
Cora Coralina
Vida das Lavadeiras
Sombra da mata
sobre as águas quietas
onde as iaras
vêm dançar à noite...
Não. Mentira.
Façamos versos sem mentir.
— Onde batem roupa
as lavadeiras pobres.
Sombra verde dos morros
no poço fundo
da Carioca
onde as mulheres sem marido
carregadas de necessidades,
mães de muitos filhos
largados pelo mundo
batem roupa nas pedras
lavando a pobreza
sem cantiga, sem toada, sem alegria.
Quero escrever versos verdadeiros.
Por que será, Senhor
que a mentira se insinua
nos meus versos?
Onde vive você, poeta, meu irmão
que faz versos sem mentir?
In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
sobre as águas quietas
onde as iaras
vêm dançar à noite...
Não. Mentira.
Façamos versos sem mentir.
— Onde batem roupa
as lavadeiras pobres.
Sombra verde dos morros
no poço fundo
da Carioca
onde as mulheres sem marido
carregadas de necessidades,
mães de muitos filhos
largados pelo mundo
batem roupa nas pedras
lavando a pobreza
sem cantiga, sem toada, sem alegria.
Quero escrever versos verdadeiros.
Por que será, Senhor
que a mentira se insinua
nos meus versos?
Onde vive você, poeta, meu irmão
que faz versos sem mentir?
In: CORALINA, Cora. Meu livro de cordel. 2. ed. São Paulo: Global, 198
5 247
Carlos Nejar
Canga
Jesualdo Monte, não és homem.
És um burro
carregado de ossos;
as palavras, insetos,
volteiam-te a garupa;
até a carne é hostil
sob a carcaça
e o presságio dos seres
te enternece.
Não te movem as fendas,
nem as urzes,
nem o jogo de vozes,
o repouso das tardes
e as vigas
que desceram ao rio
no teu lombo.
O mundo te apertou com sua cincha
e tudo em ti
transpõe o desespero,
desapegando patas e raízes.
É esta a condição de não ser homem:
dormir, placidamente, sem remorsos,
no curral dos mortos.
É esta a condição de não ser homem:
ruminar o assombro, junto ao feno,
receber o milagre sem transtorno,
seguindo sempre, onde manda o dono.
É esta a condição de não ser homem:
lanhado o casco por chicote lesto,
zurrar, apenas, mastigando o freio.
É esta a condição de não ser homem.
Publicado no livro Canga: Jesualdo Monte (1971). Poema integrante da série Arrevesso.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.345-346. (Poiesis
És um burro
carregado de ossos;
as palavras, insetos,
volteiam-te a garupa;
até a carne é hostil
sob a carcaça
e o presságio dos seres
te enternece.
Não te movem as fendas,
nem as urzes,
nem o jogo de vozes,
o repouso das tardes
e as vigas
que desceram ao rio
no teu lombo.
O mundo te apertou com sua cincha
e tudo em ti
transpõe o desespero,
desapegando patas e raízes.
É esta a condição de não ser homem:
dormir, placidamente, sem remorsos,
no curral dos mortos.
É esta a condição de não ser homem:
ruminar o assombro, junto ao feno,
receber o milagre sem transtorno,
seguindo sempre, onde manda o dono.
É esta a condição de não ser homem:
lanhado o casco por chicote lesto,
zurrar, apenas, mastigando o freio.
É esta a condição de não ser homem.
Publicado no livro Canga: Jesualdo Monte (1971). Poema integrante da série Arrevesso.
In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.345-346. (Poiesis
1 607
Emiliano Perneta
Metamorfoses
A Mme. Georgine Mongruel.
Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.
Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.
Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...
Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.
Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.
Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...
Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 630
Carlos Nejar
No Ombro das Coisas
Como recolher-te, povo,
no ombro das coisas?
Preciso juntar tua bandeira
no caminho
do sol, das oliveiras.
Preciso recolher-te
onde não minto
e sou rebelde.
Pão.
Prego, espectro.
A alma imortal
e a outra alma
que é povo.
Casaco batido e longo,
o tempo se adivinha.
Tu também te adivinhas
cada manhã, embora
em fatias. A aurora
te adivinha na pura
distração, sem nuvem.
O menino ao nascer te adivinha
e é o mundo
chorando, adivinhando
o outro lado. O escuro.
É teu lábio: respiras.
Em cacos teu espelho.
Em cacos e sementes.
Já viajam sem ver-te.
E vão-se estilhaços
de ti, vão-se de braços
com o ar, as horas todas.
E o meu velho desespero.
O povo é remo
e a pátria, imóvel barco.
Teus fragmentos viajam
absurdos, indomáveis
e recolher-te, faz-me
nascer de novo.
Bendito seja o teu fruto,
América. Bendito seja
o ventre que tanto amei
e escuto pulsar, povo.
Teu fruto
no pomar da memória.
Quero-te inteiro. Ouso
por ti sofrer.
Vou recolher-te, fio
a fio. Medo a medo.
E quando fores completo,
virás me recolher.
Publicado no livro Árvore do mundo (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.113-11
no ombro das coisas?
Preciso juntar tua bandeira
no caminho
do sol, das oliveiras.
Preciso recolher-te
onde não minto
e sou rebelde.
Pão.
Prego, espectro.
A alma imortal
e a outra alma
que é povo.
Casaco batido e longo,
o tempo se adivinha.
Tu também te adivinhas
cada manhã, embora
em fatias. A aurora
te adivinha na pura
distração, sem nuvem.
O menino ao nascer te adivinha
e é o mundo
chorando, adivinhando
o outro lado. O escuro.
É teu lábio: respiras.
Em cacos teu espelho.
Em cacos e sementes.
Já viajam sem ver-te.
E vão-se estilhaços
de ti, vão-se de braços
com o ar, as horas todas.
E o meu velho desespero.
O povo é remo
e a pátria, imóvel barco.
Teus fragmentos viajam
absurdos, indomáveis
e recolher-te, faz-me
nascer de novo.
Bendito seja o teu fruto,
América. Bendito seja
o ventre que tanto amei
e escuto pulsar, povo.
Teu fruto
no pomar da memória.
Quero-te inteiro. Ouso
por ti sofrer.
Vou recolher-te, fio
a fio. Medo a medo.
E quando fores completo,
virás me recolher.
Publicado no livro Árvore do mundo (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.113-11
1 077
Carlos Frydman
Poema da Prece e do Amor Perdido
Aos adolescentes de Israel, Gaza, Cisjordânia e Soweto,
vítimas da incoerência e do obscurantismo.
"... porque Israel traz na sua carne a marca sagrada
da Aliança".
(ZAHAR III, 72b)
"Se um convertido residir contigo na tua aldeia,
não o maltrates, trata-o como os teus conterrâneos,
ama-o como teu próximo que eu, o Senhor, sou vosso
Deus; e vós foste estrangeiro em terras do Egito".
(Levítico, 19: 26-34)
II
Ninguém é uno.
Nem o homem, nem os povos,
nem os planetas, nem os sistemas:
todos se atraem na busca inevitável de horizontes.
Não há caminhos que não cruzem caminhos.
E não haverá destino
se barrarmos os caminhos dos que buscam.
Jamais uma verdade será eternamente soterrada.
Queiramos, ou não, em nosso judaísmo
habitam todos os povos;
todos estão presentes, indeléveis,
em nossa carne, em nossos atos,
como nas ruínas que escavamos.
Navegam em nossa essência
todas reconditórias vivências trucidadas.
Somam-se a nossa consciência,
todos os anseios impedidos.
Aflora de nosso passado compulsivo
caudais de ódio e vingança,
porque não soubemos estar presentes
com nossas vivências desoladas;
contra desavenças impingidas
e fazer fluir — a História — numa mesma harmonia.
(...)
Aprendemos com o Nazismo
que não se faz uma nação com instintos;
assim como nossa vivência provou,
que não se forja uma nação com submissão.
Os líderes opostos são sabiamente frios
no fogo de suas palavras ensaiadas
— enganam-se contornando labaredas insufladas.
Nossos erros, quando leves, são pesados.
Impedimo-nos em nossos pecados,
e nos condenam à expiação eterna
deste auto-afogamento.
Só afloraremos com todos os náufragos,
estendendo nossas mãos esperadas.
Jamais seremos êxodos
e jamais esmolaremos um canto,
se abrigarmos como filhos, filhos alheios.
Jamais teremos luz, se levantarmos sombras de ódio.
III
Em Israel, amanhecemos temerários e fatigados
porque nossa certeza é fustigada em todas as latitudes.
Assim como nossas mentes cresceram
quando queimaram nossos livros,
também cresce a presença de outros povos humilhados,
dentro de nosso destino.
As dores do mundo têm um mesmo embrião;
os povos devem espicaçá-lo até a morte, antes que nos anule.
O sangue envaído em Israel, Chalita,
Gaza, Cisjordânia ou Soweto,
continuará fluindo em nossa milenar tristeza
e ficará um pranto em todos os olhos semitas.
Deus!
Como sobreviveremos deste dilúvio
engendrado em ódio e sangue,
se a onipresença das armas
fustiga a onipresença dos povos?
Neste crepúsculo com silhuetas de morte,
um adolescente se afirma numa arma;
outro adolescente se incendeia no ódio
— ambos esqueceram a vida que descortinavam.
Uma mãe chora o filho morto,
outra mãe chora a alma do filho vivo e perdido
Imagem - 01330002
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
vítimas da incoerência e do obscurantismo.
"... porque Israel traz na sua carne a marca sagrada
da Aliança".
(ZAHAR III, 72b)
"Se um convertido residir contigo na tua aldeia,
não o maltrates, trata-o como os teus conterrâneos,
ama-o como teu próximo que eu, o Senhor, sou vosso
Deus; e vós foste estrangeiro em terras do Egito".
(Levítico, 19: 26-34)
II
Ninguém é uno.
Nem o homem, nem os povos,
nem os planetas, nem os sistemas:
todos se atraem na busca inevitável de horizontes.
Não há caminhos que não cruzem caminhos.
E não haverá destino
se barrarmos os caminhos dos que buscam.
Jamais uma verdade será eternamente soterrada.
Queiramos, ou não, em nosso judaísmo
habitam todos os povos;
todos estão presentes, indeléveis,
em nossa carne, em nossos atos,
como nas ruínas que escavamos.
Navegam em nossa essência
todas reconditórias vivências trucidadas.
Somam-se a nossa consciência,
todos os anseios impedidos.
Aflora de nosso passado compulsivo
caudais de ódio e vingança,
porque não soubemos estar presentes
com nossas vivências desoladas;
contra desavenças impingidas
e fazer fluir — a História — numa mesma harmonia.
(...)
Aprendemos com o Nazismo
que não se faz uma nação com instintos;
assim como nossa vivência provou,
que não se forja uma nação com submissão.
Os líderes opostos são sabiamente frios
no fogo de suas palavras ensaiadas
— enganam-se contornando labaredas insufladas.
Nossos erros, quando leves, são pesados.
Impedimo-nos em nossos pecados,
e nos condenam à expiação eterna
deste auto-afogamento.
Só afloraremos com todos os náufragos,
estendendo nossas mãos esperadas.
Jamais seremos êxodos
e jamais esmolaremos um canto,
se abrigarmos como filhos, filhos alheios.
Jamais teremos luz, se levantarmos sombras de ódio.
III
Em Israel, amanhecemos temerários e fatigados
porque nossa certeza é fustigada em todas as latitudes.
Assim como nossas mentes cresceram
quando queimaram nossos livros,
também cresce a presença de outros povos humilhados,
dentro de nosso destino.
As dores do mundo têm um mesmo embrião;
os povos devem espicaçá-lo até a morte, antes que nos anule.
O sangue envaído em Israel, Chalita,
Gaza, Cisjordânia ou Soweto,
continuará fluindo em nossa milenar tristeza
e ficará um pranto em todos os olhos semitas.
Deus!
Como sobreviveremos deste dilúvio
engendrado em ódio e sangue,
se a onipresença das armas
fustiga a onipresença dos povos?
Neste crepúsculo com silhuetas de morte,
um adolescente se afirma numa arma;
outro adolescente se incendeia no ódio
— ambos esqueceram a vida que descortinavam.
Uma mãe chora o filho morto,
outra mãe chora a alma do filho vivo e perdido
Imagem - 01330002
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
812
Carlos Vogt
Presenças de Vinicius
De tudo à tua ausência, por seres um e múltiplo serei
atento
antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
que, se te espedaças em vão contra o infinito,
recolhem-se os fragmentos no teu canto
que sempre se inicia e é sempre último.
Por seres, pois, quem me foste um dia,
sombra e luz, azul e branco, carnaval e cinzas,
sugestão de amor, verbo, saciedade e fome,
de repente se me afigura o verso, o samba, a namorada,
o bar,
em que sentado à mesa em boa companhia,
conheci o poeta sem jamais ter visto o homem:
o homem com seus sonhos de quem invejo os pares
inveja dos seus deuses de quem desejo as ninfas.
Na roda de cerveja, entre amigos e dilemas,
como um Castro Alves na província ardente de seu co-
ração,
recitei retórico a sina do operário
que erguendo a casa de sua liberdade
construía alheia a própria escravidão;
cantei o amor que tive e que não tive
(e por isso dura)
e porque era sábado
ali me apaixonei pela mulher distante,
leve e etérea como uma estrela longe,
feita não só do mangue de carências longas
e amarguras
mas da pureza vaga e sensual do sangue dos poemas.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
atento
antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
que, se te espedaças em vão contra o infinito,
recolhem-se os fragmentos no teu canto
que sempre se inicia e é sempre último.
Por seres, pois, quem me foste um dia,
sombra e luz, azul e branco, carnaval e cinzas,
sugestão de amor, verbo, saciedade e fome,
de repente se me afigura o verso, o samba, a namorada,
o bar,
em que sentado à mesa em boa companhia,
conheci o poeta sem jamais ter visto o homem:
o homem com seus sonhos de quem invejo os pares
inveja dos seus deuses de quem desejo as ninfas.
Na roda de cerveja, entre amigos e dilemas,
como um Castro Alves na província ardente de seu co-
ração,
recitei retórico a sina do operário
que erguendo a casa de sua liberdade
construía alheia a própria escravidão;
cantei o amor que tive e que não tive
(e por isso dura)
e porque era sábado
ali me apaixonei pela mulher distante,
leve e etérea como uma estrela longe,
feita não só do mangue de carências longas
e amarguras
mas da pureza vaga e sensual do sangue dos poemas.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 003
Domingos Carvalho da Silva
Com a Poesia no Cais
De macacão operário
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
2 151
Domingos Carvalho da Silva
Nós Todos, Cleópatra!
Nós todos temos culpa, mulher de sorrisos permanentes!
Velhos, mulheres e crianças,
nós todos nos culpamos
pelo teu passado,
pelo teu presente
e pelos dias roxos do futuro!
Os velhos abriram-te o caminho enganoso
das facilidades.
As mulheres empurraram-te com sorrisos malévolos.
As crianças já espiam tuas pernas
sem meias
e pensam nas noites do futuro.
Nós todos, homens válidos, compramos teus sorrisos
baratos,
alisamos teus cabelos dourados na farmácia
e te chamamos Madalena e Cleópatra!
Nós todos, mulher de encantos públicos e notórios,
nós todos temos culpa,
os mortos têm culpa,
os nossos filhos nascerão culpados!
Acompanhamos com esperanças cínicas
a tua decadência, e vimos,
em cada um de teus vestidos,
um preço menor.
Em cada um de teus perfumes,
uma essência pior...
Tripudiamos sobre a tua degradação.
Fomos cúmplices das tuas noitadas babilônicas,
quando eras mais fina
e mais nova!
Nós todos te olharemos com a nossa justa repugnância
e todos negaremos
que nossas mãos um dia te empurraram!
Publicado no livro Bem-amada Ifigênia: poemas (1943).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 198
Velhos, mulheres e crianças,
nós todos nos culpamos
pelo teu passado,
pelo teu presente
e pelos dias roxos do futuro!
Os velhos abriram-te o caminho enganoso
das facilidades.
As mulheres empurraram-te com sorrisos malévolos.
As crianças já espiam tuas pernas
sem meias
e pensam nas noites do futuro.
Nós todos, homens válidos, compramos teus sorrisos
baratos,
alisamos teus cabelos dourados na farmácia
e te chamamos Madalena e Cleópatra!
Nós todos, mulher de encantos públicos e notórios,
nós todos temos culpa,
os mortos têm culpa,
os nossos filhos nascerão culpados!
Acompanhamos com esperanças cínicas
a tua decadência, e vimos,
em cada um de teus vestidos,
um preço menor.
Em cada um de teus perfumes,
uma essência pior...
Tripudiamos sobre a tua degradação.
Fomos cúmplices das tuas noitadas babilônicas,
quando eras mais fina
e mais nova!
Nós todos te olharemos com a nossa justa repugnância
e todos negaremos
que nossas mãos um dia te empurraram!
Publicado no livro Bem-amada Ifigênia: poemas (1943).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 198
1 085
Junqueira Freire
O Jesuíta
Era longe — bem longe: e eu vim primeiro
Cindindo as ondas desse mar profundo.
E por amor da Cruz vaguei sozinho
Nas ínvias matas desse novo mundo.
O tamoio gentil ervava as setas,
Quando pelos vergéis, tão seus, me via:
E co'os olhos fosfóricos ardendo
A taquara fatal a mim tendia.
E tendia a taquara, — mas ao ver-me
Quão sem temor e quão inerme estava,
Trocando em doce o seu olhar fogoso,
O arco e a seta pelo chão rojava.
De mim as tribos bárbaras, indômitas,
De mim o verbo do evangelho ouviram.
E ergui a cruz nos píncaros dos montes,
E após o verbo os povos me seguiram!
Eu disse às tribos: — Todas vós sois ricas,
— Que o ouro e a prata o solo vosso esmalta.
Sois ricas tribos, — mas não sois felizes,
Porque uma crença de um só Deus vos falta.
E eu dei às tribos uma crença doce,
Qual uma chuva de maná celeste:
E as tribos foram desde então felizes,
Qual flor pomposa que os jardins reveste.
E quando os reis da terra se esqueceram
Das tribos dadas a seu cetro forte,
Eu levantei-me, e disse aos reis da terra,
— O povo geme: Transmudai-lhe a sorte. —
Eternos templos eu ergui sozinho,
Eternos como a duração da terra.
E sozinho sagrei altares tantos
Ao Deus que aos ímpios c'o trovão aterra.
Eu dei às tribos uma crença doce,
Eu levantei alcáceres eternos.
Deram-me os homens proscrição e morte,
Deram-me em prêmio as fezes dos infernos.
Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.1
Cindindo as ondas desse mar profundo.
E por amor da Cruz vaguei sozinho
Nas ínvias matas desse novo mundo.
O tamoio gentil ervava as setas,
Quando pelos vergéis, tão seus, me via:
E co'os olhos fosfóricos ardendo
A taquara fatal a mim tendia.
E tendia a taquara, — mas ao ver-me
Quão sem temor e quão inerme estava,
Trocando em doce o seu olhar fogoso,
O arco e a seta pelo chão rojava.
De mim as tribos bárbaras, indômitas,
De mim o verbo do evangelho ouviram.
E ergui a cruz nos píncaros dos montes,
E após o verbo os povos me seguiram!
Eu disse às tribos: — Todas vós sois ricas,
— Que o ouro e a prata o solo vosso esmalta.
Sois ricas tribos, — mas não sois felizes,
Porque uma crença de um só Deus vos falta.
E eu dei às tribos uma crença doce,
Qual uma chuva de maná celeste:
E as tribos foram desde então felizes,
Qual flor pomposa que os jardins reveste.
E quando os reis da terra se esqueceram
Das tribos dadas a seu cetro forte,
Eu levantei-me, e disse aos reis da terra,
— O povo geme: Transmudai-lhe a sorte. —
Eternos templos eu ergui sozinho,
Eternos como a duração da terra.
E sozinho sagrei altares tantos
Ao Deus que aos ímpios c'o trovão aterra.
Eu dei às tribos uma crença doce,
Eu levantei alcáceres eternos.
Deram-me os homens proscrição e morte,
Deram-me em prêmio as fezes dos infernos.
Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.1
5 396
Lila Ripoll
A Gabriela Mistral
Um nome tão simples,
a força que tem.
Três letras apenas,
três letras pequenas,
não custa dizer.
Joguemos o nome
por onde passarmos
e o nome tão simples
veremos crescer.
(...)
Veremos os homens
de todas as raças
de todas as línguas
na paz se encontrar.
Joguemos o nome
— ó sim, Gabriela —
por onde passarmos
e onde estivermos;
aos mais distraídos,
aos desesperados,
e todos um dia
nos hão de escutar.
(...)
A paz despontando
nos cantos do povo.
No canto dos ventos
a paz a cantar.
(...)
O nome brotando
de todas as bocas,
em todas as línguas,
na terra e no mar.
Três letras apenas,
três letras pequenas,
um nome tão simples,
a força que tem.
Publicado no livro Novos Poemas (1951).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.109-11
a força que tem.
Três letras apenas,
três letras pequenas,
não custa dizer.
Joguemos o nome
por onde passarmos
e o nome tão simples
veremos crescer.
(...)
Veremos os homens
de todas as raças
de todas as línguas
na paz se encontrar.
Joguemos o nome
— ó sim, Gabriela —
por onde passarmos
e onde estivermos;
aos mais distraídos,
aos desesperados,
e todos um dia
nos hão de escutar.
(...)
A paz despontando
nos cantos do povo.
No canto dos ventos
a paz a cantar.
(...)
O nome brotando
de todas as bocas,
em todas as línguas,
na terra e no mar.
Três letras apenas,
três letras pequenas,
um nome tão simples,
a força que tem.
Publicado no livro Novos Poemas (1951).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.109-11
1 589
Nelson Ascher
Leminski's Wake
Wieger polak dwa bratanki
ido bytky ido szklanky.
Que o coro comportado
dos anjos fique à espera
de letras para a música
maçante das esferas,
pois, fígado blindado,
quem destilava ainda,
no cérebro, de um álcool
barato boa tinta
e cuja mão, de tanto
usar a pena, presto
voou, tornada pássaro,
levando junto o resto,
talvez depois do porre
final, quando o constrange
a lei seca da morte,
já na terceira margem
do riverrun, prefira
abstêmio que o recordem
mais como o agitador que
compõe palavras de ordem
p'ra o Solidariedade
do além-mundo. Celebre-o,
poema, erguendo um brinde
não fúnebre — funébrio.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
ido bytky ido szklanky.
Que o coro comportado
dos anjos fique à espera
de letras para a música
maçante das esferas,
pois, fígado blindado,
quem destilava ainda,
no cérebro, de um álcool
barato boa tinta
e cuja mão, de tanto
usar a pena, presto
voou, tornada pássaro,
levando junto o resto,
talvez depois do porre
final, quando o constrange
a lei seca da morte,
já na terceira margem
do riverrun, prefira
abstêmio que o recordem
mais como o agitador que
compõe palavras de ordem
p'ra o Solidariedade
do além-mundo. Celebre-o,
poema, erguendo um brinde
não fúnebre — funébrio.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
1 207
Ulisses Tavares
Conteúdo
No toque, a troca.
No ato, o salto.
No esfrega, a entrega.
Na mão, o coração.
No rir, o repartir.
No sangue, o bumerangue.
Na ida, a vida.
In: TAVARES, Ulisses. Pega gente. 2.ed. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1978. p.71. (Coleção PF
No ato, o salto.
No esfrega, a entrega.
Na mão, o coração.
No rir, o repartir.
No sangue, o bumerangue.
Na ida, a vida.
In: TAVARES, Ulisses. Pega gente. 2.ed. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1978. p.71. (Coleção PF
1 847
Moacyr Felix
Eu Sou Daqui: 1970 a 1980
A Wilson Fadul, Waldo César e Luís Eduardo
Vanderlei, companheiros nas lutas pelo socialismo e
liberdade na Paz e Terra e na revista de mesmo nome
(...)
No Brasil o poema deve nascer como se fosse a própria vida
do coração que arranco como um peixe trêmulo nas horas
da liberdade a desmoronar-se devagarinho em cada rosto;
da melancolia a encolher-se na profundidade dos botecos;
das ruas que os ventos movem numa antiga cantilena de escravos;
da pobreza a dependurar-se no corpo grande da existência;
da revolução a servir de vinho para os que se constroem de pé.
No Brasil a palavra de cristal exila o tempo
da sombra quente do poema; usá-la tão-somente
para entoar brisas entre as roxas bundas do Saber
ou para dialogar com um Deus qualquer no espaço
sem sujeira e sem erros, sem manhãs estilhaçadas
no salário menor que as mãos,
é nos desfazermos da verdade que nos firma em homem
da cor do agora, homem comum, simples homem que escreve.
Em meu país, o poeta não usa a braçadeira dos patrões
e com mão insubmissa testemunha
os movimentos do Homem no tempo que sangra
entre a esperança e a história
de cada indivíduo e cada povo.
Em meu país a poesia manda os metafísicos à merda.
e é abrigo provisório das coisas e da vida que são provisórias.
E também às vezes é o definitivo lar
do desespero que se destina a servir a uma esperança
e sub-roga o suicídio pelos atos de criar.
Sem qualquer pretensão de eternidade
como o olhar do pivete a vigiar o carro
que passa, o poema brasileiro não nasce
alimentado pelo indefinível.
E nenhuma vaga saudade do Ser o impele
aqui e agora neste quando
em que se move
para existir, simplesmente existir
como é devido ao homem, a cada homem.
(...)
Imagem - 00810005
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.178-17
Vanderlei, companheiros nas lutas pelo socialismo e
liberdade na Paz e Terra e na revista de mesmo nome
(...)
No Brasil o poema deve nascer como se fosse a própria vida
do coração que arranco como um peixe trêmulo nas horas
da liberdade a desmoronar-se devagarinho em cada rosto;
da melancolia a encolher-se na profundidade dos botecos;
das ruas que os ventos movem numa antiga cantilena de escravos;
da pobreza a dependurar-se no corpo grande da existência;
da revolução a servir de vinho para os que se constroem de pé.
No Brasil a palavra de cristal exila o tempo
da sombra quente do poema; usá-la tão-somente
para entoar brisas entre as roxas bundas do Saber
ou para dialogar com um Deus qualquer no espaço
sem sujeira e sem erros, sem manhãs estilhaçadas
no salário menor que as mãos,
é nos desfazermos da verdade que nos firma em homem
da cor do agora, homem comum, simples homem que escreve.
Em meu país, o poeta não usa a braçadeira dos patrões
e com mão insubmissa testemunha
os movimentos do Homem no tempo que sangra
entre a esperança e a história
de cada indivíduo e cada povo.
Em meu país a poesia manda os metafísicos à merda.
e é abrigo provisório das coisas e da vida que são provisórias.
E também às vezes é o definitivo lar
do desespero que se destina a servir a uma esperança
e sub-roga o suicídio pelos atos de criar.
Sem qualquer pretensão de eternidade
como o olhar do pivete a vigiar o carro
que passa, o poema brasileiro não nasce
alimentado pelo indefinível.
E nenhuma vaga saudade do Ser o impele
aqui e agora neste quando
em que se move
para existir, simplesmente existir
como é devido ao homem, a cada homem.
(...)
Imagem - 00810005
Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.178-17
1 149
Bernardo Guimarães
À Sepultura de um Escravo
Também do escravo a humilde sepultura
Um gemido merece de saudade:
Uma lágrima só corra sobre ela
De compaixão ao menos...
Filho da África, enfim livre dos ferros
Tu dormes sossegado o eterno sono
Debaixo dessa terra que regaste
De prantos e suores.
Certo, mais doce te seria agora
Jazer no meio lá dos teus desertos
À sombra da palmeira, — não faltara
Piedoso orvalho de saudosos olhos
Que te regasse a campa;
Lá muita vez, em noites d'alva lua,
Canção chorosa, que ao tanger monótono
De rude lira teus irmãos entoam,
Teus manes acordara:
Mas aqui — tu aí jazes como a folha
Que caiu na poeira do caminho,
Calcada sob os pés indiferentes
Do viajor que passa.
Porém que importa — se repouso achaste,
Que em vão buscavas neste vale escuro,
Fértil de pranto e dores;
Que importa — se não há sobre esta terra
Para o infeliz asilo sossegado?
A terra é só do rico e poderoso,
E desses ídolos que a fortuna incensa,
E que, ébrios de orgulho,
Passam, sem ver que co'as velozes rodas
Seu carro d'ouro esmaga um mendigante
No lodo do caminho!...
Mas o céu é daquele que na vida
Sob o peso da cruz passa gemendo;
É de quem sobre as chagas do inditoso
Derrama o doce bálsamo das lágrimas;
É do órfão infeliz, do ancião pesado,
Que da indigência no bordão se arrima;
É do pobre cativo, que em trabalhos
No rude afã exala o alento extremo;
— O céu é da inocência e da virtude,
O céu é do infortúnio.
Repousa agora em paz, fiel escravo,
Que na campa quebraste os ferros teus,
No seio dessa terra que regaste
De prantos e suores.
E vós, que vindes visitar da morte
O lúgubre aposento,
Deixai cair ao menos uma lágrima
De compaixão sobre essa humilde cova;
Aí repousa a cinza do Africano,
— O símbolo do infortúnio.
Imagem - 00270006
Publicado no livro Cantos da Solidão: poesias do bacharel Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1852).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
Um gemido merece de saudade:
Uma lágrima só corra sobre ela
De compaixão ao menos...
Filho da África, enfim livre dos ferros
Tu dormes sossegado o eterno sono
Debaixo dessa terra que regaste
De prantos e suores.
Certo, mais doce te seria agora
Jazer no meio lá dos teus desertos
À sombra da palmeira, — não faltara
Piedoso orvalho de saudosos olhos
Que te regasse a campa;
Lá muita vez, em noites d'alva lua,
Canção chorosa, que ao tanger monótono
De rude lira teus irmãos entoam,
Teus manes acordara:
Mas aqui — tu aí jazes como a folha
Que caiu na poeira do caminho,
Calcada sob os pés indiferentes
Do viajor que passa.
Porém que importa — se repouso achaste,
Que em vão buscavas neste vale escuro,
Fértil de pranto e dores;
Que importa — se não há sobre esta terra
Para o infeliz asilo sossegado?
A terra é só do rico e poderoso,
E desses ídolos que a fortuna incensa,
E que, ébrios de orgulho,
Passam, sem ver que co'as velozes rodas
Seu carro d'ouro esmaga um mendigante
No lodo do caminho!...
Mas o céu é daquele que na vida
Sob o peso da cruz passa gemendo;
É de quem sobre as chagas do inditoso
Derrama o doce bálsamo das lágrimas;
É do órfão infeliz, do ancião pesado,
Que da indigência no bordão se arrima;
É do pobre cativo, que em trabalhos
No rude afã exala o alento extremo;
— O céu é da inocência e da virtude,
O céu é do infortúnio.
Repousa agora em paz, fiel escravo,
Que na campa quebraste os ferros teus,
No seio dessa terra que regaste
De prantos e suores.
E vós, que vindes visitar da morte
O lúgubre aposento,
Deixai cair ao menos uma lágrima
De compaixão sobre essa humilde cova;
Aí repousa a cinza do Africano,
— O símbolo do infortúnio.
Imagem - 00270006
Publicado no livro Cantos da Solidão: poesias do bacharel Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (1852).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
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