Poemas neste tema
Justiça e Igualdade
Fernando Pessoa
JOSEPH CHAMBERLAIN
Their blood on thy head, whom the Afric waste
Saw struggling, puppets with unwilful hand,
Brother and brother: their bought souls shall brand
Thine own with horror. Be thy name erased
From the full mouth of men; nor be there traced
To thee one glory to thy parent land;
But'fore us, as'fore God e'er do thou stand
In that thy deed forevermore disgraced.
Where lie the sons and husbands, where those dear
That thy curst craft hath lost? Their drops of blood,
One by one fallen, and many a cadenced tear,
With triple justice weighted trebly dread,
Shall each, rolled onward in a burning flood,
Crush thy dark soul. Their blood be on thy head!
Saw struggling, puppets with unwilful hand,
Brother and brother: their bought souls shall brand
Thine own with horror. Be thy name erased
From the full mouth of men; nor be there traced
To thee one glory to thy parent land;
But'fore us, as'fore God e'er do thou stand
In that thy deed forevermore disgraced.
Where lie the sons and husbands, where those dear
That thy curst craft hath lost? Their drops of blood,
One by one fallen, and many a cadenced tear,
With triple justice weighted trebly dread,
Shall each, rolled onward in a burning flood,
Crush thy dark soul. Their blood be on thy head!
1 105
Fernando Pessoa
TO ENGLAND
(when English journalists joked on Russia’s disasters)
How long, oh Lord, shall war and strife be rolled
On the God‑breathing breast of slumbering man,
Horrible nightmares in the doubtful span
Of his sleep blind to heaven? As of old,
Shall we, more wise, in frantic joy behold
The bloody fall of nation and of clan,
And ever others' woes with rough glee scan,
And war’s dark names in Glory's charts inscrolled?
We now that in vile joy our egoist fears
Behold dispelled, one day shall mourn the more
That blood of men erased them‑bitter tears
Of desolated woe, as wept of yore
(Yet not for the short space of ten long years)
The Grecian archer on the Lemnian shore.
II
Our enemies are fallen; other hands
Than ours have struck them, and our joy is great
To know that now at length our fears abate
From hurt and menace on great Eastern lands.
Bardling, scribbler and artist, servile bands,
From covert sneer outsigh their trembling hate,
Laughing at misery, and woe, and fal]en state,
Armies of men whole‑crushed on desolate strands.
The fallen lion every ass can kick,
That in his life, shamed to unmotioned fright,
His every move with eyes askance did trace.
I’ll scorn beseems us, men for war and trick,
Whose groanings nation poured her fullest might
To take the freedom of a former [?] race.
How long, oh Lord, shall war and strife be rolled
On the God‑breathing breast of slumbering man,
Horrible nightmares in the doubtful span
Of his sleep blind to heaven? As of old,
Shall we, more wise, in frantic joy behold
The bloody fall of nation and of clan,
And ever others' woes with rough glee scan,
And war’s dark names in Glory's charts inscrolled?
We now that in vile joy our egoist fears
Behold dispelled, one day shall mourn the more
That blood of men erased them‑bitter tears
Of desolated woe, as wept of yore
(Yet not for the short space of ten long years)
The Grecian archer on the Lemnian shore.
II
Our enemies are fallen; other hands
Than ours have struck them, and our joy is great
To know that now at length our fears abate
From hurt and menace on great Eastern lands.
Bardling, scribbler and artist, servile bands,
From covert sneer outsigh their trembling hate,
Laughing at misery, and woe, and fal]en state,
Armies of men whole‑crushed on desolate strands.
The fallen lion every ass can kick,
That in his life, shamed to unmotioned fright,
His every move with eyes askance did trace.
I’ll scorn beseems us, men for war and trick,
Whose groanings nation poured her fullest might
To take the freedom of a former [?] race.
1 735
Fernando Pessoa
Se eu tirar com urna pancada
Se eu tirar com urna pancada
O bolo barato da boca da criança pobre
Onde encontrarei justiça no mundo,
Onde me esconderei dos olhos do Vulto
Invisível que espreita pelas estrelas
Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo?
Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças,
Ó pequenas alegrias legítimas da gente obscura,
Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém...
Os móveis comprados com tanto sacrifício,
As toalhas remendadas com tanto cuidado,
As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar
E a roda de um dos mil carros do rei vencedor
Parte tudo, e todos perderam tudo.
Que imperador tem o direito
De partir a boneca à filha do operário?
Que César com suas legiões tem justiça
Para partir a máquina de costura da velha
Se eu for pela rua
E arrancar a fita suja na mão da garota
E a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo?
O bolo barato da boca da criança pobre
Onde encontrarei justiça no mundo,
Onde me esconderei dos olhos do Vulto
Invisível que espreita pelas estrelas
Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo?
Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças,
Ó pequenas alegrias legítimas da gente obscura,
Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém...
Os móveis comprados com tanto sacrifício,
As toalhas remendadas com tanto cuidado,
As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar
E a roda de um dos mil carros do rei vencedor
Parte tudo, e todos perderam tudo.
Que imperador tem o direito
De partir a boneca à filha do operário?
Que César com suas legiões tem justiça
Para partir a máquina de costura da velha
Se eu for pela rua
E arrancar a fita suja na mão da garota
E a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo?
1 289
Fernando Pessoa
EPIGRAMS - III
If rank [?] the guinea‑stamp but be,
Why, to this one thing may be said:
That 'tis only midst men we see
A guinea‑stamp on head [?]
Why, to this one thing may be said:
That 'tis only midst men we see
A guinea‑stamp on head [?]
937
Fernando Pessoa
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
1 126
Fernando Pessoa
Meu pobre Portugal,
Meu pobre Portugal,
Dóis-me no coração.
Teu mal é o meu mal
Por imaginação.
Tão fraco, tão doente,
E com a boa cor
Que a tísica põe quente
Na cara, o exterior.
Meu pobre e magro povo
A quem deram, às peças,
Um fato em estado novo
Para que o não pareças!
Tens a cara lavada,
Um fato de se ver
Mas não te deram nada,
Coitado, que comer.
E aí, nessa cadeira,
Jazes, apresentável.
(…)
O transeunte amável.
Dóis-me no coração.
Teu mal é o meu mal
Por imaginação.
Tão fraco, tão doente,
E com a boa cor
Que a tísica põe quente
Na cara, o exterior.
Meu pobre e magro povo
A quem deram, às peças,
Um fato em estado novo
Para que o não pareças!
Tens a cara lavada,
Um fato de se ver
Mas não te deram nada,
Coitado, que comer.
E aí, nessa cadeira,
Jazes, apresentável.
(…)
O transeunte amável.
1 683
Fernando Pessoa
JUSTICE
There was a land, which I suppose,
Where everyone had a crooked nose;
And the crooked nose that everyone had
In no manner did make him sad.
But in that land a man was born
Whose nose more straight and clean was worn;
And the men of that land with a public hate
Killed the man whose nose was straight.
Where everyone had a crooked nose;
And the crooked nose that everyone had
In no manner did make him sad.
But in that land a man was born
Whose nose more straight and clean was worn;
And the men of that land with a public hate
Killed the man whose nose was straight.
1 757
Florbela Espanca
Poder da Graça
Altiva e perfumada em cetinoso trem
Passeia uma mundana à luz da tarde quente,
O seu olhar gelado onde se lê desdém
Passeia pela rua, altivo e insolente.
Para ninguém abaixa o orgulhoso olhar;
Passa o luxo da alta em luminoso traço;
Parece não ouvir da rua o murmurar
Que o seu olhar altivo é sempre triste e baço.
Nem o rir da criança ou o sorrir da luz
Dão vida àquela sombra altiva que seduz
A multidão absorta em roda, a murmurar...
Uma mendiga passa. É ’ma beleza ideal!
Nasceu do seu olhar o céu de Portugal!
...............................................................
Abaixa então a rica o luminoso olhar!
Passeia uma mundana à luz da tarde quente,
O seu olhar gelado onde se lê desdém
Passeia pela rua, altivo e insolente.
Para ninguém abaixa o orgulhoso olhar;
Passa o luxo da alta em luminoso traço;
Parece não ouvir da rua o murmurar
Que o seu olhar altivo é sempre triste e baço.
Nem o rir da criança ou o sorrir da luz
Dão vida àquela sombra altiva que seduz
A multidão absorta em roda, a murmurar...
Uma mendiga passa. É ’ma beleza ideal!
Nasceu do seu olhar o céu de Portugal!
...............................................................
Abaixa então a rica o luminoso olhar!
1 846
Dantas Motta
Tiradentes sobe ao patíbulo
de Tiradentes sobe ao patíbulo, pretende falar, não o deixam, sofre 3 sermões
35. Jm. Jzé. da Sva. Xer.
dá entrada no LARGO DA LAMPADOSA,
e como que possuídos de furor histero-religioso,
os padres da Comunidade do Convento de Santo Antônio,
aumentando as suas vozes,
alteiam-n'as com a Recitação da Oração dos Agonizantes.
36. Subindo, rápido, ao patíbulo de 24 degraus,
Tiradentes quis falar.
Não o deixaram,
Sinal próprio das épocas em que os outros têm medo
da liberdade.
Deram-lhe, porém, ao invés da fala,
água, pois que suava com abundância.
Recusou-a.
Pediu que apressassem o bárbaro espetáculo.
Prolongaram-n'o.
1º — com dois sermões
2º — com o recitativo do Eu Pecador
3º — com a encomendação do seu corpo ainda vivo.
35. Jm. Jzé. da Sva. Xer.
dá entrada no LARGO DA LAMPADOSA,
e como que possuídos de furor histero-religioso,
os padres da Comunidade do Convento de Santo Antônio,
aumentando as suas vozes,
alteiam-n'as com a Recitação da Oração dos Agonizantes.
36. Subindo, rápido, ao patíbulo de 24 degraus,
Tiradentes quis falar.
Não o deixaram,
Sinal próprio das épocas em que os outros têm medo
da liberdade.
Deram-lhe, porém, ao invés da fala,
água, pois que suava com abundância.
Recusou-a.
Pediu que apressassem o bárbaro espetáculo.
Prolongaram-n'o.
1º — com dois sermões
2º — com o recitativo do Eu Pecador
3º — com a encomendação do seu corpo ainda vivo.
791
Bessie Head
Coisas de que não gosto
Eu sou negra.
Tá bem?
Sol forte e disposição geográfica
Fizeram-me negra;
E através de minha pele
Muita coisa acontece comigo
DE QUE NÃO GOSTO
E acordo toda manhã
Com sangue homicida nos olhos
Porque um malandro me roubou de novo,
Levando o pouco que tinha nas mãos
Com todo o mundo assistindo
E fazendo nada
Tá bem?
Ah, não.
Hoje é meu dia.
Vou recuperar tintim por tintim,
Tudo o que me roubaste.
Vou à briga até que tu e eu
Estejamos no chão esvaindo-nos em sangue,
E não me importa quem morra, tu ou eu,
Mas vou para a briga -
Tá bem?
:
Things I Don't Like
I am Black.
Okay?
Hot sun and the geographical set-up
Made me Black;
And through my skin
A lot of things happen to me
THAT I DON'T LIKE
And I wake each morning
Red murder in my eyes
'Cause some crook's robbed me again,
Taken what little I had right out of my hands
With the whole world standing by
And doing nothing
Okay?
Oh no.
Today is my day.
Going to get back tit-for-tat,
All you stole.
Going to fight you till you or I
Lie smashed and bleeding dead
And don't care who dies, You or I,
But going to fight -
Okay?
721
Hashem Shaabani
Sete razões pelas quais eu deveria morrer
Por sete dias eles gritaram comigo:
Você trava uma guerra contra Alá!
Sábado, porque você é árabe!
Domingo, bem, você vem de Ahvaz
Segunda, lembre-se que você é iraniano
Terça: você zomba da revolução sagrada
Quarta, você não ergue sua voz pelos outros?
Quinta, você é um poeta e um bardo
Sexta: você é um homem, não basta para morrer?
(tradução de Eduardo Sterzi, a partir da tradução inglesa)
647
Paulo Colina
Pressentimento
Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
1 488
Lois Pereiro
Cero a la izquierda
O corredor de fondo perde o alento
fuxindo dunha vida inzada de renuncias
da súa liturxia obesa e oleosa,
mediocre nos seus comunais fracasos,
bágoas de xelo, indignación contida
non deu chegado a tempo de exercer
a súa rebelión,
nin de levar a cabo
a súa vinganza definitiva
contra un mundo inxusto, homicida, e cruel,
pola inutilidade da súa propia vida
solitario, enfermo e fatigado,
a morte anticipouse e chegou antes.
936
Cruz e Sousa
A ironia dos vermes
Eu imagino que és uma princesa
Morta na flor da castidade branca...
Que teu cortejo sepulcral arranca
Por tanta pompa espasmos de surpresa.
Que tu vais por um coche conduzida,
Por esquadrões flamívomos guardada,
Como carnal e virgem madrugada,
Bela das belas, sem mais sol, sem vida.
Que da Corte os luzidos Dignitários
Com seus aspectos marciais, bizarros,
Seguem-te após nos fagulhantes, carros
E a excelsa cauda dos cortejos vários.
Que a tropa toda forma nos caminhos
Por onde irás passar indiferente;
Que há no semblante vão de toda a gente
Curiosidades que parecem vinhos.
Que os potentes canhões roucos atroam
O espaço claro de uma tarde suave,
E que tu vais, Lírio dos lírios e ave
Do Amor, por entre os sons que te coroam.
Que nas flores, nas sedas, nos veludos,
E nos cristais do féretro radiante
Nos damascos do Oriente, na faiscante
Onda de tudo há longos prantos mudos.
Que do silêncio azul da imensidade,
Do perdão infinito dos Espaços
Tudo te dá os beijos e os abraços
Do seu adeus a tua Majestade.
Que de todas as coisas como Verbo
De saudades sem termo e de amargura,
Sai um adeus a tua formosura,
Num desolado sentimento acerbo
Que o teu corpo de luz, teu corpo amado,
Envolto em finas e cheirosas vestes,
Sob o carinho das Mansões celestes
Ficará pela Morte encarcerado.
Que o teu séquito é tal, tal a coorte,
Tal o sol dos brasões, por toda a parte,
Que em vez da horrenda Morte suplantar-te
Crê-se que és tu que suplantaste a Morte.
Mas dos faustos mortais a regia trompa,
Os grandes ouropéis, a real Quermesse,
Ah! tudo, tudo proclamar parece
Que hás de afinal apodrecer com pompa.
Como que foram feitos de luxúria
E gozo ideal teus funerais luxuosos
Para que os vermes, pouco escrupulosos,
Não te devorem com plebéia fúria.
Para que eles ao menos vendo as belas
Magnificências do teu corpo exausto
Mordam-te com cuidados e cautelas
Para o teu corpo apodrecer com fausto.
Para que possa apodrecer nas frias
Geleiras sepulcrais d'esquecimentos,
Nos mais augustos apodrecimentos,
Entre constelações e pedrarias.
Mas ah! quanta ironia atroz, funérea,
Imaginária e cândida Princesa:
És igual a uma simples camponesa
Nos apodrecimentos da Matéria!
Morta na flor da castidade branca...
Que teu cortejo sepulcral arranca
Por tanta pompa espasmos de surpresa.
Que tu vais por um coche conduzida,
Por esquadrões flamívomos guardada,
Como carnal e virgem madrugada,
Bela das belas, sem mais sol, sem vida.
Que da Corte os luzidos Dignitários
Com seus aspectos marciais, bizarros,
Seguem-te após nos fagulhantes, carros
E a excelsa cauda dos cortejos vários.
Que a tropa toda forma nos caminhos
Por onde irás passar indiferente;
Que há no semblante vão de toda a gente
Curiosidades que parecem vinhos.
Que os potentes canhões roucos atroam
O espaço claro de uma tarde suave,
E que tu vais, Lírio dos lírios e ave
Do Amor, por entre os sons que te coroam.
Que nas flores, nas sedas, nos veludos,
E nos cristais do féretro radiante
Nos damascos do Oriente, na faiscante
Onda de tudo há longos prantos mudos.
Que do silêncio azul da imensidade,
Do perdão infinito dos Espaços
Tudo te dá os beijos e os abraços
Do seu adeus a tua Majestade.
Que de todas as coisas como Verbo
De saudades sem termo e de amargura,
Sai um adeus a tua formosura,
Num desolado sentimento acerbo
Que o teu corpo de luz, teu corpo amado,
Envolto em finas e cheirosas vestes,
Sob o carinho das Mansões celestes
Ficará pela Morte encarcerado.
Que o teu séquito é tal, tal a coorte,
Tal o sol dos brasões, por toda a parte,
Que em vez da horrenda Morte suplantar-te
Crê-se que és tu que suplantaste a Morte.
Mas dos faustos mortais a regia trompa,
Os grandes ouropéis, a real Quermesse,
Ah! tudo, tudo proclamar parece
Que hás de afinal apodrecer com pompa.
Como que foram feitos de luxúria
E gozo ideal teus funerais luxuosos
Para que os vermes, pouco escrupulosos,
Não te devorem com plebéia fúria.
Para que eles ao menos vendo as belas
Magnificências do teu corpo exausto
Mordam-te com cuidados e cautelas
Para o teu corpo apodrecer com fausto.
Para que possa apodrecer nas frias
Geleiras sepulcrais d'esquecimentos,
Nos mais augustos apodrecimentos,
Entre constelações e pedrarias.
Mas ah! quanta ironia atroz, funérea,
Imaginária e cândida Princesa:
És igual a uma simples camponesa
Nos apodrecimentos da Matéria!
1 871
Bruna Lombardi
Hino
Tenho lutado todos os dias pra ser uma mulher
no entanto onde nasci os homens têm sempre razão
e eu que não me interesso pela razão mas por outros sentimentos
teço silenciosamente à porta da minha casa
junto às outras mulheres da minha rua
a trama dos nossos instintos
e minha rua passa por outras cidades
atravessa países
não há fronteiras
tecemos todas nós o mesmo fio
matéria viva da nossa bandeira.
no entanto onde nasci os homens têm sempre razão
e eu que não me interesso pela razão mas por outros sentimentos
teço silenciosamente à porta da minha casa
junto às outras mulheres da minha rua
a trama dos nossos instintos
e minha rua passa por outras cidades
atravessa países
não há fronteiras
tecemos todas nós o mesmo fio
matéria viva da nossa bandeira.
3 434
José Afonso
TERESA TORGA
No centro da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua
A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la
Mas surge António Capela
Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la
Mulher na democracia
Não é biombo de sala
Dizem que se chama Teresa
Seu nome é Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga
Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que o diga António Capela
T'resa Torga T'resa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua
A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la
Mas surge António Capela
Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la
Mulher na democracia
Não é biombo de sala
Dizem que se chama Teresa
Seu nome é Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga
Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que o diga António Capela
T'resa Torga T'resa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha
1 525
Mário Dionísio
Que nojo
Que nojo São carcaças
de gente morta por dentro
Escondem mucos pegajosos
que empestam toda a paisagem
São abutres pelados são caraças
de olhos vítreos de intenção
são bostas de sangue e o centro
de onde mana a corrupção
Só nunca serão carrascos
porque lhes falta a coragem
O medo os faz silenciosos
pelas costas atrevidos
Movem-nos ódios e ascos
flatulências de ambição
pequeninos verrinosos
gordurosos retraídos
São fura-greves são espias
vaidosos de ser pisados
segregam epidemias
de vergonha São repolhos
de gangrena engravatados
São piolhos são piolhos
são piolhos
de gente morta por dentro
Escondem mucos pegajosos
que empestam toda a paisagem
São abutres pelados são caraças
de olhos vítreos de intenção
são bostas de sangue e o centro
de onde mana a corrupção
Só nunca serão carrascos
porque lhes falta a coragem
O medo os faz silenciosos
pelas costas atrevidos
Movem-nos ódios e ascos
flatulências de ambição
pequeninos verrinosos
gordurosos retraídos
São fura-greves são espias
vaidosos de ser pisados
segregam epidemias
de vergonha São repolhos
de gangrena engravatados
São piolhos são piolhos
são piolhos
2 524
Geraldo Bessa-Victor
Lamento da Maricota
- "Bom dia, senhor José.
Como passou? Passou bem?"
Mas o senhor José virou a cara,
rudemente, com desdém.
E a pobre Maricota, que passara
mesmo ao lado,
a Maricota ficou
a cismar, a dizer com ar banzado:
-"Aiué, senhor José!
Para quê fazer assim?
Não se recorda de mim?
Pois, então, eu vou ser franca.
Agora tem mulher branca,
a senhora dona Rosa,
a sua mulher casada,
a quem chama "minha esposa";
já não quer saber da preta,
desprezada, abandonada,
a Maricota, coitada!
Agora veste bom fato,
estreia lindo sapato;
não se lembra do passado,
quando usava calça rota
e casaco remendado,
e sapato esburacado
mostrando os dedos do pé...
Aiué, senhor José!
Hoje está forte e contente,
a passear na avenida;
não lembra que esteve doente,
muito mal, quase morrendo,
e lhe dei jula de dendo,
para lhe salvar a vida,
pois nem doutor em Luanda,
nem quimbanda no muceque,
ninguém o curou, ninguém,
senão eu, pobre moleque!
Agora já cheira bem,
com boa perfumaria,
quer de noite quer de dia;
não se recorda, afinal,
da catinga, do chulé,
no tempo em que lhe dizia:
- José, voçê cheira mal,
vá tomar banho, José!
Veio agora de Lisboa,
comprou uma casa grande,
dorme numa cama boa;
nós tínhamos, lá no Dande,
a cubata de capim,
e dormíamos no luando.
Agora tem dona Rosa,
já não se lembra de mim!
Aiué, senhor José,
para quê fazer assim!?...
Como passou? Passou bem?"
Mas o senhor José virou a cara,
rudemente, com desdém.
E a pobre Maricota, que passara
mesmo ao lado,
a Maricota ficou
a cismar, a dizer com ar banzado:
-"Aiué, senhor José!
Para quê fazer assim?
Não se recorda de mim?
Pois, então, eu vou ser franca.
Agora tem mulher branca,
a senhora dona Rosa,
a sua mulher casada,
a quem chama "minha esposa";
já não quer saber da preta,
desprezada, abandonada,
a Maricota, coitada!
Agora veste bom fato,
estreia lindo sapato;
não se lembra do passado,
quando usava calça rota
e casaco remendado,
e sapato esburacado
mostrando os dedos do pé...
Aiué, senhor José!
Hoje está forte e contente,
a passear na avenida;
não lembra que esteve doente,
muito mal, quase morrendo,
e lhe dei jula de dendo,
para lhe salvar a vida,
pois nem doutor em Luanda,
nem quimbanda no muceque,
ninguém o curou, ninguém,
senão eu, pobre moleque!
Agora já cheira bem,
com boa perfumaria,
quer de noite quer de dia;
não se recorda, afinal,
da catinga, do chulé,
no tempo em que lhe dizia:
- José, voçê cheira mal,
vá tomar banho, José!
Veio agora de Lisboa,
comprou uma casa grande,
dorme numa cama boa;
nós tínhamos, lá no Dande,
a cubata de capim,
e dormíamos no luando.
Agora tem dona Rosa,
já não se lembra de mim!
Aiué, senhor José,
para quê fazer assim!?...
1 523
Herrique Guerra
Vem, Cacimbo
Estende teus dedos anelados sobre a minha carapinha
derrama a tua inconsciente tranquilidade
sobre a minha angústia submergida.
Vem, cacimbo
eu quero ver os cafeeiros ao peso dos bagos vermelhos
endireita os troncos vencidos dos bambus
coroa os cumes altos das serras do Bailundo
limpa a visão empoeirada dos comboios que descem para Benguela
nimba poeticamente os horizontes dos camionistas de Angola.
Vem, cacimbo
debruça-te cuidadosamente sobre as plantas da madrugada,
destrói a angústia resignada das gentes da minha terra
abre-lhes os horizontes dos cantos de esperança.
Vem, cacimbo
Derrama a tua inquieta saciedade sobre a minha natureza
a esta hora empoeirada com o barulho das esquinas
com o cheiro a óleo sujo dos automóveis
e com a visão daquele nosso amigo
cujo ordenado são quinze escudos diários
irremediavelmente caido sobre a grama do jardim
O cacimbo
eu quero percorrer teus campos sossegados
orquestrados pela alegria do beija-flor.
derrama a tua inconsciente tranquilidade
sobre a minha angústia submergida.
Vem, cacimbo
eu quero ver os cafeeiros ao peso dos bagos vermelhos
endireita os troncos vencidos dos bambus
coroa os cumes altos das serras do Bailundo
limpa a visão empoeirada dos comboios que descem para Benguela
nimba poeticamente os horizontes dos camionistas de Angola.
Vem, cacimbo
debruça-te cuidadosamente sobre as plantas da madrugada,
destrói a angústia resignada das gentes da minha terra
abre-lhes os horizontes dos cantos de esperança.
Vem, cacimbo
Derrama a tua inquieta saciedade sobre a minha natureza
a esta hora empoeirada com o barulho das esquinas
com o cheiro a óleo sujo dos automóveis
e com a visão daquele nosso amigo
cujo ordenado são quinze escudos diários
irremediavelmente caido sobre a grama do jardim
O cacimbo
eu quero percorrer teus campos sossegados
orquestrados pela alegria do beija-flor.
1 198
Tony Tcheca
A prometida
Dóli só
Djena sem ninguém
do romance inocente
a tragédia bacilenta
papá homem grande
se meteu
uma vaca
um saco de farinha
um tambor de cana
umas folhas de tabaco
a permuta
a prometida
três
dias
depois
da lua
com fome de amor
boca acre não come
com sede de ternura
garganta seca rejeita água
as lágrimas engrossam
e rolam
no rosto macilento
Djena dezassete chuvas
Djena uma vida por viver
Djena a prometida
Djena mulher de hoje
tem fome
não come
tem sede
não bebe
corpo de mulher
inerte como o silêncio
firme como a recusa
repousa intacta
num sono inviolável
Djena sem ninguém
do romance inocente
a tragédia bacilenta
papá homem grande
se meteu
uma vaca
um saco de farinha
um tambor de cana
umas folhas de tabaco
a permuta
a prometida
três
dias
depois
da lua
com fome de amor
boca acre não come
com sede de ternura
garganta seca rejeita água
as lágrimas engrossam
e rolam
no rosto macilento
Djena dezassete chuvas
Djena uma vida por viver
Djena a prometida
Djena mulher de hoje
tem fome
não come
tem sede
não bebe
corpo de mulher
inerte como o silêncio
firme como a recusa
repousa intacta
num sono inviolável
1 344
Alexandre Dáskalos
Resignação
I
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
1 353
Alexandre Dáskalos
Qu é São Tomé
I
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
1 501
Oswaldo Osório
Manhã inflor
as héveas murcharam
desertas de folhas
desertas de flores
propositadamente
nem só o sangue mas também a seiva
nem só a criança mas também a pétala
nem só o homem mas também a planta
nem só a carne mas também a lenha
propositadamente
tudo o hamadricida flagelou
a beleza da flor
a inocência da criança
a certeza dos campos
o aconchego duma sombra
mas nos covis a vida continuou
e o apelo à luta redobrou
as héveas murcharam
e com as héveas
a manhã inflor
a terra nua
mas ainda a vida
nos covis continua
desertas de folhas
desertas de flores
propositadamente
nem só o sangue mas também a seiva
nem só a criança mas também a pétala
nem só o homem mas também a planta
nem só a carne mas também a lenha
propositadamente
tudo o hamadricida flagelou
a beleza da flor
a inocência da criança
a certeza dos campos
o aconchego duma sombra
mas nos covis a vida continuou
e o apelo à luta redobrou
as héveas murcharam
e com as héveas
a manhã inflor
a terra nua
mas ainda a vida
nos covis continua
1 548
Emílio de Menezes
O D E
Este é o ranzinza-mor, porém no bom sentido.
Monta guarda à pureza e à precisão do idioma.
É o espectro do imbecil, o horror do presumido;
Contra ele a arraia miúda o ódio que tem não doma.
Geninhos da Garnier, geniões de ar sucumbido,
Poetinhas de salão, poetarrões de redoma
Que deturpam a língua, ai deles! é sabido:
O cacete é aforismo e a cacetada é axioma.
Mas este foge a lei (que aliás é conceituosa)
De que a crítica faz só aquele que, perverso,
De produzir, o orgulho e a delícia não goza.
De pena o bico atroz, no vernáculo, imerso,
Se a sabe esmerilhar, sabe polir a prosa,
Se o sabe criticar, sabe compor o verso.
Publicado no livro Mortalhas: os deuses em ceroulas (1924).
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
Monta guarda à pureza e à precisão do idioma.
É o espectro do imbecil, o horror do presumido;
Contra ele a arraia miúda o ódio que tem não doma.
Geninhos da Garnier, geniões de ar sucumbido,
Poetinhas de salão, poetarrões de redoma
Que deturpam a língua, ai deles! é sabido:
O cacete é aforismo e a cacetada é axioma.
Mas este foge a lei (que aliás é conceituosa)
De que a crítica faz só aquele que, perverso,
De produzir, o orgulho e a delícia não goza.
De pena o bico atroz, no vernáculo, imerso,
Se a sabe esmerilhar, sabe polir a prosa,
Se o sabe criticar, sabe compor o verso.
Publicado no livro Mortalhas: os deuses em ceroulas (1924).
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
1 354