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Poemas neste tema

Juventude

Kenneth Koch

Kenneth Koch

Energia na Suécia

Naqueles dias
Havia tanta energia dentro de mim e ao meu redor
Que podia usá-la e depois guardá-la, como as roupas
que alguém compra somente para uma viagem de ski
Mas que acaba usando todos os dias
Pois todos os dias são como uma viagem de ski –
Acho que eu era assim aos vinte e três anos.
Ver aquelas seis jovens no barco – estava em uma viagem de ski
Elas disseram, Somos todas de Mineápolis. Foi em Estocolmo.
A mistura de um visual feminino americano com sueco-americano
[era uma viagem de ski
Embora eu não tivesse nenhum motivo específico naquela
[para colocar toda a minha energia naquilo
Ainda assim ela estava ali, eu a tinha, era como
[um gigante que detém a hegemonia de seus nervos
No caso de precisar, ou como um pescador tem todas
[as suas varas e anzóis e iscas, e um acadêmico todos os seus livros
Ou como um aquecedor de água com seu gás
Sendo ele usado ou não, eu tinha toda aquela energia.
É sério, vocês são todas de Mineapolis? Eu disse, quase
[explodindo com a pressão.
Sim, uma delas, a segunda mais bonita, respondeu. Estamos
[aqui para passar alguns dias.
Durante oito ou dez anos eu pensei nesse momento
de tempos em tempos. Me pareceu que eu deveria ter
[feito algo naquela época,
Ter usado toda aquela energia. Fazer amor é uma maneira de usá-la
[e escrever é outra.
Talvez ambas sejam superestimadas, pois a relação é muito clara.
Mas provavelmente este é o destino humano e não vou contra ele aqui.
Às vezes as pessoas existem e a energia não, às vezes a energia existe
[mas as pessoas não.
Quando os deuses concedem os dois, um homem não pode reclamar.
(tradução de Marília Garcia)
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Audre Lorde

Audre Lorde

Fogo pendente

Tenho quatorze anos
e minha pele me traiu
o menino que não posso viver sem
ainda chupa o dedo
em segredo
me pergunto por que meus joelhos
estão sempre tão cinzentos
e se eu morrer
antes de amanhecer
mama está no quarto
com a porta fechada.

Eu preciso aprender a dançar
a tempo para a próxima festa
meu quarto é pequeno demais pra mim
considere se eu morro antes da formatura
eles cantarão melodias tristonhas
mas ao fim
dirão a verdade sobre mim
Não há nada que eu queira fazer
e coisas demais
que precisam ser feitas
mama está no quarto
com a porta fechada.

Ninguém nem para pra pensar
no meu lado nisso
Eu devia ter entrado pro Time de Matemática
minhas notas eram melhores que as dele
por que eu tenho que ser
aquela
que usa aparelho?
não tenho nada para vestir amanhã
será que viverei o suficiente
para crescer
e mama está no quarto
com a porta fechada.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Hanging Fire
Audre Lorde

I am fourteen
and my skin has betrayed me
the boy I cannot live without
still sucks his thumb
in secret
how come my knees are
always so ashy
what if I die
before morning
and momma's in the bedroom
with the door closed.

I have to learn how to dance
in time for the next party
my room is too small for me
suppose I die before graduation
they will sing sad melodies
but finally
tell the truth about me
There is nothing I want to do
and too much
that has to be done
and momma's in the bedroom
with the door closed.

Nobody even stops to think
about my side of it
I should have been on Math Team
my marks were better than his
why do I have to be
the one
wearing braces
I have nothing to wear tomorrow
will I live long enough
to grow up
and momma's in the bedroom
with the door closed.


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Dmitri Prigov

Dmitri Prigov

Diálogo n° 5

Estaline: Não há felicidade na terra!
Prigov: Não há felicidade!
Estaline: O que é que há então?
Prigov: O que é que há?
Estaline: Há Estaline!
Prigov: Há Estaline!
Estaline: E o que é Estaline?
Prigov: E o que é?
Estaline: Estaline é a nossa glória militar!
Prigov: Glória militar!
Estaline: Estaline é a maior inspiração da nossa juventude!
Prigov: A maior inspiração da juventude!
Estaline: Cantando nas batalhas e nas vitórias!
Prigov: Vitórias!
Estaline: O nosso povo segue Estaline!
Prigov: Segue Estaline.
Estaline: E o que mais é Estaline?
Prigov: E o que mais?
Estaline: Os três princípios principais.
Prigov: Os três princípios principais.
Estaline: E o que mais é Estaline?
Prigov: E o que mais?
Estaline: As cinco grandes ideias!
Prigov: As cinco grandes ideias!
Estaline: As oito grande letras!
Prigov: E como seria se deixássemos cair uma letra?
Estaline: Como seria?
Prigov: Seria Staline!
Estaline: Staline!
Prigov: E se deixássemos cair outra?
Staline: Outra?
Prigov: Seria Taline!
Taline: Taline!
Prigov: E se deixássemos cair outra?
Taline: Outra?
Prigov: Seria Aline.
Aline: Seria Aline!
Prigov: E se deixássemos cair ainda outra?
Aline: Outra?
Prigov: Seria Line.
Line: Seria Line!
Prigov: E outra?
Line: Outra?
Prigov: Seria Ine.
Ine: Ine?
Prigov: E outra?
Ine: Outra?
Prigov: Seria Ne!
Ne: Seria Ne!
Prigov: E outra?
Ne: Outra?
Prigov: Seria E!
E: Seria E!
Prigov: E outra?
(Versão do tradutor português Luís Filipe Parrado – daí o uso de Estaline quando no Brasil dizemos Stálin – a partir da tradução inglesa de J. Kates reproduzida em "In the grip of strange thoughts - Russian poetry en a new era", selecção e organização de J. Kates, Bloodaxe Books, Newcastle, 1999, pp. 261-263).
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Herberto Helder

Herberto Helder

As Musas Cegas - V

Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
— E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.

Esta linguagem era o disposto verão das musas,
o meu único verão.
A profundidade das águas onde uma mulher
mergulha os dedos, e morre.
Onde ela ressuscita indefinidamente.
— Porque uma mulher toma-me
em suas mãos livres e faz de mim
um dardo que atira. — Sou amado,
multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto —
e doado às coisas mínimas.

Na treva de uma carne batida como um búzio
pelas cítaras, sou uma onda.
Escorre minha vida imemorial pelos meandros
cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
E de repente eu sou uma torre queimada
pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
— Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.

Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
acendo-lhe as falangetas,
faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
Sou eterno, amado, análogo.
Destruo as coisas.

Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trémulas
da carne,
tudo o que é húmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
— não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.

E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
lírio a lírio todo o sangue interior,
e a vida que se toca de uma escoada
recordação.

Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito
nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. — E é uma pedra celeste.

Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me, multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.
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