Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Paulo Leminski
às vezes penso que as melhores inteligências
(...)
às vezes penso que as melhores inteligências como as nossas são
você riso caetano gil alice waly duda pedrinho sebastião
etc etc etc
etc etc
etc
não deviam se ocupar de arte/literatura/SIGNO
deviam partir para a militância
aplicar-se numa militância
A REVOLUÇÃO É SEMPRE NO PLANO PRAGMÁTICO DA MENSAGEM
o que interessa, o que a gente quer, no fundo, é MUDAR A VIDA
alterar as relações de propriedade a distribuição das riquezas
os equilíbrios de poder entre classe e classe nação e nação
este é o grande Poema: nossos poemas são índices dele
meramente
nossa poesia tem que estar a serviço de uma Utopia
ou como v. disse de uma ESPERANÇA
é isso que quero dizer quando falo
que o poeta para ser poeta tem que ser mais que poeta
é preciso deixar que a História chegue em você
dê choque em você
te chame te eleja te corteje
te envolva e te engaje
uma coisa pode ter certeza:
nascemos na classe errada
estou tomando o máximo de cuidado
para que tudo isso que estou dizendo
saia sem o menor resquício de stalinismo
sectarismo esquerdofrênico
and so on
mas não dá para jogar fora esse lance
nós que temos o know-how e o dont-know-how
temos que ter esse what
esse whatever it is
dont you think so?
chega de sutilezas críticas
com meia dúzia de slogans verdadeiros na cabeça
cerco a montanha
ponho cerco às fortificações
tomo a posição e a defendo
os patriarcas já teorizaram bastante por nós
foi seu martírio
estamos dentro de uma onda
uma grande vaga atlântica
me leva do pacífico
até as praias da Atlântida (a Terra Santa)
talvez não haja mais tempo
para grandes GESTOS INAUGURAIS
como a poesia concreta foi
a antropofagia foi
a tropicália foi
agora é tudo assim
ninguém sabe
as certezas se evaporam
que a estátua da liberdade
e a estátua do rigor
velem por todos nós
amor abraços
Leminski
Imagem - 00590007
In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 42-44
às vezes penso que as melhores inteligências como as nossas são
você riso caetano gil alice waly duda pedrinho sebastião
etc etc etc
etc etc
etc
não deviam se ocupar de arte/literatura/SIGNO
deviam partir para a militância
aplicar-se numa militância
A REVOLUÇÃO É SEMPRE NO PLANO PRAGMÁTICO DA MENSAGEM
o que interessa, o que a gente quer, no fundo, é MUDAR A VIDA
alterar as relações de propriedade a distribuição das riquezas
os equilíbrios de poder entre classe e classe nação e nação
este é o grande Poema: nossos poemas são índices dele
meramente
nossa poesia tem que estar a serviço de uma Utopia
ou como v. disse de uma ESPERANÇA
é isso que quero dizer quando falo
que o poeta para ser poeta tem que ser mais que poeta
é preciso deixar que a História chegue em você
dê choque em você
te chame te eleja te corteje
te envolva e te engaje
uma coisa pode ter certeza:
nascemos na classe errada
estou tomando o máximo de cuidado
para que tudo isso que estou dizendo
saia sem o menor resquício de stalinismo
sectarismo esquerdofrênico
and so on
mas não dá para jogar fora esse lance
nós que temos o know-how e o dont-know-how
temos que ter esse what
esse whatever it is
dont you think so?
chega de sutilezas críticas
com meia dúzia de slogans verdadeiros na cabeça
cerco a montanha
ponho cerco às fortificações
tomo a posição e a defendo
os patriarcas já teorizaram bastante por nós
foi seu martírio
estamos dentro de uma onda
uma grande vaga atlântica
me leva do pacífico
até as praias da Atlântida (a Terra Santa)
talvez não haja mais tempo
para grandes GESTOS INAUGURAIS
como a poesia concreta foi
a antropofagia foi
a tropicália foi
agora é tudo assim
ninguém sabe
as certezas se evaporam
que a estátua da liberdade
e a estátua do rigor
velem por todos nós
amor abraços
Leminski
Imagem - 00590007
In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 42-44
2 011
1
Menotti del Picchia
I - Praça da República
Os chorões lavaram seus cabelos verdes
nas piscinas de cimento
dentadas de rochedos feitos por marmoristas
e desenhados por Debugras
Há peixes dispépticos que só comem pão-de-ló
servidos pelos dedos lunares das Salomés-normalistas
que sabem de cor as façanhas de Tom-Mix e Tiradentes.
As astúrias cortaram suas tranças "à la garçonne"
e ouvem lições de geometria no espaço
de sábios buxos cubistas...
Praça da República cheia de mulheres públicas
de detritos humanos, como um porto cosmopolita onde os táxis atracam,
velhas catraias urbanas
que vogam nos canais de asfalto das alamedas.
Álvares de Azevedo, o último Romântico,
condenado às galés da imortalidade,
cospe na praça noturna,
do alto de sua herma,
o seu desdém de bronze.
Publicado no livro Chuva de Pedra (1925). Poema integrante da série Impromptus Urbanos.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.67. (Obras de Menotti del Picchia
nas piscinas de cimento
dentadas de rochedos feitos por marmoristas
e desenhados por Debugras
Há peixes dispépticos que só comem pão-de-ló
servidos pelos dedos lunares das Salomés-normalistas
que sabem de cor as façanhas de Tom-Mix e Tiradentes.
As astúrias cortaram suas tranças "à la garçonne"
e ouvem lições de geometria no espaço
de sábios buxos cubistas...
Praça da República cheia de mulheres públicas
de detritos humanos, como um porto cosmopolita onde os táxis atracam,
velhas catraias urbanas
que vogam nos canais de asfalto das alamedas.
Álvares de Azevedo, o último Romântico,
condenado às galés da imortalidade,
cospe na praça noturna,
do alto de sua herma,
o seu desdém de bronze.
Publicado no livro Chuva de Pedra (1925). Poema integrante da série Impromptus Urbanos.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.67. (Obras de Menotti del Picchia
1 740
1
Geir Campos
Poema-Bilhete
Amigo, este meu canto não é manso
nem de manso cantar seria a hora.
Reviro as páginas da História e vejo
que, se em cada uma existe alguém que chora,
razão de pranto mais que em todas elas
sobeja na que se rascunha agora:
com cães de armas por toda parte à espreita,
entre miras vacila e se apavora
o gado humano, sem saber se a luz
que se desdobra no horizonte é mais
reflexo de tarde ou clarão de aurora
ou mais fogo de bomba maquinada
por um gênio às avessas que decora
o alfabeto do inferno e que, por ele
bem soletrando a morte, a vida ignora...
Sabendo e amando a vida, o verso enrija-se
e o canto é como quem finca uma escora
contra o a-b-c do diabo, contra o cão
do gatilho suspenso, contra o fogo
que no céu se desdobre e ali não seja
reflexo de tarde ou clarão de aurora.
Publicado no livro Operário do canto (1959).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
nem de manso cantar seria a hora.
Reviro as páginas da História e vejo
que, se em cada uma existe alguém que chora,
razão de pranto mais que em todas elas
sobeja na que se rascunha agora:
com cães de armas por toda parte à espreita,
entre miras vacila e se apavora
o gado humano, sem saber se a luz
que se desdobra no horizonte é mais
reflexo de tarde ou clarão de aurora
ou mais fogo de bomba maquinada
por um gênio às avessas que decora
o alfabeto do inferno e que, por ele
bem soletrando a morte, a vida ignora...
Sabendo e amando a vida, o verso enrija-se
e o canto é como quem finca uma escora
contra o a-b-c do diabo, contra o cão
do gatilho suspenso, contra o fogo
que no céu se desdobre e ali não seja
reflexo de tarde ou clarão de aurora.
Publicado no livro Operário do canto (1959).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 192
1
Manoel de Barros
Na Rua Mário de Andrade
Na Rua Mário de Andrade
vou andar —
por ter sido Tarumã
e hoje ser Mário de Andrade
Ainda não sei onde é
mas vou procurar —
na rua Mário de Andrade
vou andar...
Vou ir com Macunaíma
rente às paredes
vou ir com Mário de Andrade
Ele, Mário, me diz: é preciso
flanar...
Eu digo a ele — ó Mário,
era o que eu ia te falar
É preciso flanar em ruas
— os passos levando sempre
para nenhum lugar
E Mário me diz: — Poeta,
nenhum-lugar é o melhor
lugar de um poeta chegar
Não há que ter nem começo
nem fim
essa antiga rua Tarumã
Como serão seus moradores?
Vou até lá
Saberão quem foi esse homem
bom — o da rua Lopes Chaves? Bem —
mas também ele não sabia
quem fora Lopes Chaves
Não há como não saber
quem foi o nome da rua
em que se morou ou vai morar
Se nome de gente, é bom
que ele desapareça
completamente
Não seja mais nem lembrança
nem a sombra de um homem
— como queria o poeta Bandeira
Talvez melhor conservar
rua Tarumã
mas vai ver que lá não existe
um pé de tarumã!
sequer uma criança
que conheça tarumã
(...)
Se houver flores nessa rua
Mário de Andrade — a todos nós
ela agradará
Se houver sobrados líricos
com janelas azuis ou verdes — pronto!
nada mais necessário será
para nutrir uns sonhos brancos...
(...)
Mas,
há de ser como ele foi
essa rua Mário de Andrade: simples
amiga — uma rua companheira —
uma grande alma de rua —
uma rua de óculos, de cara enorme
e de uma enorme ternura debaixo dos óculos...
Rua Mário de Andrade...
Publicado no livro Poesias (1956).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
vou andar —
por ter sido Tarumã
e hoje ser Mário de Andrade
Ainda não sei onde é
mas vou procurar —
na rua Mário de Andrade
vou andar...
Vou ir com Macunaíma
rente às paredes
vou ir com Mário de Andrade
Ele, Mário, me diz: é preciso
flanar...
Eu digo a ele — ó Mário,
era o que eu ia te falar
É preciso flanar em ruas
— os passos levando sempre
para nenhum lugar
E Mário me diz: — Poeta,
nenhum-lugar é o melhor
lugar de um poeta chegar
Não há que ter nem começo
nem fim
essa antiga rua Tarumã
Como serão seus moradores?
Vou até lá
Saberão quem foi esse homem
bom — o da rua Lopes Chaves? Bem —
mas também ele não sabia
quem fora Lopes Chaves
Não há como não saber
quem foi o nome da rua
em que se morou ou vai morar
Se nome de gente, é bom
que ele desapareça
completamente
Não seja mais nem lembrança
nem a sombra de um homem
— como queria o poeta Bandeira
Talvez melhor conservar
rua Tarumã
mas vai ver que lá não existe
um pé de tarumã!
sequer uma criança
que conheça tarumã
(...)
Se houver flores nessa rua
Mário de Andrade — a todos nós
ela agradará
Se houver sobrados líricos
com janelas azuis ou verdes — pronto!
nada mais necessário será
para nutrir uns sonhos brancos...
(...)
Mas,
há de ser como ele foi
essa rua Mário de Andrade: simples
amiga — uma rua companheira —
uma grande alma de rua —
uma rua de óculos, de cara enorme
e de uma enorme ternura debaixo dos óculos...
Rua Mário de Andrade...
Publicado no livro Poesias (1956).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
3 667
1
Cacaso
Poética
Alguma palavra,
este cavalo que me vestia como um cetro,
algum vômito tardio modela o verso.
Certa forma se conhece nas infinitas,
a fauna guerreira, a lua fria
encrustada na fria atenção.
Onde era nuvem
sabemos a geometria da alma, a vontade
consumida em pó e devaneio.
E recuamos sempre, petrificados,
com a metafísica
nos dentes: o feto
fixado
entre a náusea e o lençol.
Meu poema me contempla horrorizado.
Rio, 1965
Publicado no livro A palavra cerzida (1967). Poema integrante da série III. A Palavra de Dois Gumes.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.132
NOTA: "Poética" se apropria de motivos dos poemas "Psicologia da Composição" e "Antiode", de João Cabral de Melo Neto, e "A Flor e a Náusea", de Carlos Drummond de Andrad
este cavalo que me vestia como um cetro,
algum vômito tardio modela o verso.
Certa forma se conhece nas infinitas,
a fauna guerreira, a lua fria
encrustada na fria atenção.
Onde era nuvem
sabemos a geometria da alma, a vontade
consumida em pó e devaneio.
E recuamos sempre, petrificados,
com a metafísica
nos dentes: o feto
fixado
entre a náusea e o lençol.
Meu poema me contempla horrorizado.
Rio, 1965
Publicado no livro A palavra cerzida (1967). Poema integrante da série III. A Palavra de Dois Gumes.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.132
NOTA: "Poética" se apropria de motivos dos poemas "Psicologia da Composição" e "Antiode", de João Cabral de Melo Neto, e "A Flor e a Náusea", de Carlos Drummond de Andrad
4 803
1
Paulo Bomfim
O Ar
Em nossa transparência
Os muros da carne.
Em nossa angústia
O vento rebelde.
Em nossa nuvem
O vôo do pássaro.
Em nossa fonte
A água invisível.
Em nossa árvore
A serpente do nada.
Somos o ar
Na torre das palavras.
Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7
Os muros da carne.
Em nossa angústia
O vento rebelde.
Em nossa nuvem
O vôo do pássaro.
Em nossa fonte
A água invisível.
Em nossa árvore
A serpente do nada.
Somos o ar
Na torre das palavras.
Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7
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1
Joaquim Cardozo
Sonetossom
I
Sonetossom é música — sonata —
Suíte da qual desponta o som da giga
Que o Novo a voz imita em voz antiga
E alude a um alaúde em tom de prata.
É canto inverso, divisão, cantata
Que do alto vem, do teto, minha amiga,
Onde a canção das cordas de uma viga,
Uma equação vibrante a mim relata.
Sonetossom é música, retrata,
Em traços de Bourrée e de Alamanda,
Aquilo que comove ou que maltrata.
Inda mais é, amiga, ouça o sentido:
A mímica do fogo em sarabanda,
A voz do tempo, pelo som, perdido.
II
Sonetossom é cor também... também...
Jalne sutil, rude açafrão; dossel
Que do animal, da planta, a cor contém:
Composição de púrpura e pastel.
Como um tapete vai rolando, além:
De sucessivas cores, carrosel.
Às margens dos seus versos entretém,
De cores vegetais, debrum, cairel.
Sonetossom, também, de cor brasil
Tingido está, de índigo, de anil...
Cores que a um povo deu prazer perdido.
Branco de Kaolim; de genipapo
Preto retinto: mínimo farrapo,
De morta luz, bem sei, constituído.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.193-194. Poema integrante da série Mundos Paralelos.
Sonetossom é música — sonata —
Suíte da qual desponta o som da giga
Que o Novo a voz imita em voz antiga
E alude a um alaúde em tom de prata.
É canto inverso, divisão, cantata
Que do alto vem, do teto, minha amiga,
Onde a canção das cordas de uma viga,
Uma equação vibrante a mim relata.
Sonetossom é música, retrata,
Em traços de Bourrée e de Alamanda,
Aquilo que comove ou que maltrata.
Inda mais é, amiga, ouça o sentido:
A mímica do fogo em sarabanda,
A voz do tempo, pelo som, perdido.
II
Sonetossom é cor também... também...
Jalne sutil, rude açafrão; dossel
Que do animal, da planta, a cor contém:
Composição de púrpura e pastel.
Como um tapete vai rolando, além:
De sucessivas cores, carrosel.
Às margens dos seus versos entretém,
De cores vegetais, debrum, cairel.
Sonetossom, também, de cor brasil
Tingido está, de índigo, de anil...
Cores que a um povo deu prazer perdido.
Branco de Kaolim; de genipapo
Preto retinto: mínimo farrapo,
De morta luz, bem sei, constituído.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.193-194. Poema integrante da série Mundos Paralelos.
1 130
1
Cacaso
Estilos de Época
Havia
os irmãos Concretos
H. e A. consanguíneos
e por afinidade D.P.,
um trio bem informado:
dado é a palavra dado
E foi assim que a poesia
deu lugar à tautologia
(e ao elogio à coisa dada)
em sutil lance de dados:
se o triângulo é concreto
já sabemos: tem 3 lados.
Publicado no livro Grupo Escolar (1974). Poema integrante da série 2a. Lição: Rachados e Perdidos.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.106
NOTA: Referência aos poetas Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, signatários do 'Plano Piloto para Poesia Concreta' (1958); ao verso 'flor é a palavra flor', de João Cabral de Melo Neto ("Antiode"); Ao poema "Um Lance de Dados", de Mallarm
os irmãos Concretos
H. e A. consanguíneos
e por afinidade D.P.,
um trio bem informado:
dado é a palavra dado
E foi assim que a poesia
deu lugar à tautologia
(e ao elogio à coisa dada)
em sutil lance de dados:
se o triângulo é concreto
já sabemos: tem 3 lados.
Publicado no livro Grupo Escolar (1974). Poema integrante da série 2a. Lição: Rachados e Perdidos.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.106
NOTA: Referência aos poetas Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, signatários do 'Plano Piloto para Poesia Concreta' (1958); ao verso 'flor é a palavra flor', de João Cabral de Melo Neto ("Antiode"); Ao poema "Um Lance de Dados", de Mallarm
3 801
1
Lara de Lemos
IV [Trazes os olhos derramando estrelas
A Cecília Meireles
Trazes os olhos derramando estrelas.
Foges de ti por tudo o que te cerca.
Teu roteiro é a Rosa-Ventania
apontando além de tuas fronteiras.
Nos limites do mundo crias espaços
por onde segues crente e arrebatada,
repartindo teus dias, teus abraços,
teu jardim, tuas fontes, teus segredos.
Renasces a cada morte prematura
com tesouro maior e mais profundo,
à grandeza do amor acostumada.
Inventando canções enternecidas,
prossegues com teu cântaro de sonhos
reverdecendo em cada madrugada.
Poema integrante da série Do Irreversível.
In: LEMOS, Lara de. Canto breve: poesia. Porto Alegre: Difusão de Cultura, 1962
Trazes os olhos derramando estrelas.
Foges de ti por tudo o que te cerca.
Teu roteiro é a Rosa-Ventania
apontando além de tuas fronteiras.
Nos limites do mundo crias espaços
por onde segues crente e arrebatada,
repartindo teus dias, teus abraços,
teu jardim, tuas fontes, teus segredos.
Renasces a cada morte prematura
com tesouro maior e mais profundo,
à grandeza do amor acostumada.
Inventando canções enternecidas,
prossegues com teu cântaro de sonhos
reverdecendo em cada madrugada.
Poema integrante da série Do Irreversível.
In: LEMOS, Lara de. Canto breve: poesia. Porto Alegre: Difusão de Cultura, 1962
1 354
1
Corrêa de Araújo
Canção Banal
Ó pálida folha escrita
por minha letra assustada,
vá dizer ao meu amado
que dele não quero nada.
(Que eu dele não queria nada,
nem tampouco compaixão)
Que não se apague a face
que eu guardo no coração.
Que não me venha buscar,
me respeite essa distância,
me sinta sem me beijar.
Pois ai dele se não for,
como o deseja essa ânsia,
como o espera esse amor.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
por minha letra assustada,
vá dizer ao meu amado
que dele não quero nada.
(Que eu dele não queria nada,
nem tampouco compaixão)
Que não se apague a face
que eu guardo no coração.
Que não me venha buscar,
me respeite essa distância,
me sinta sem me beijar.
Pois ai dele se não for,
como o deseja essa ânsia,
como o espera esse amor.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
1 153
1
Machado de Assis
Conto do Vigário
DE QUANDO em quando aparece-nos o conto-do-vigário. Tivemo-lo esta semana, bem contado, bem ouvido, bem vendido, porque os autores da composição puderam receber integralmente os lucros do editor.
O conto-do-vigário é o mais antigo gênero de ficção que se conhece. A rigor, pode crer-se que o discurso da serpente, induzindo Eva a comer o fruto proibido, foi o texto primitivo do conto. Mas, se há dúvida sobre isso, não a pode haver quanto ao caso de Jacó e seu sogro. Sabe-se que Jacó propôs a Labão que lhe desse todos os filhos das cabras que nascessem malhados. Labão concordou certo de que muitos trariam uma só cor; mas Jacó, que tinha plano feito, pegou de umas varas de plátano, raspou-as em parte, deixando-as assim brancas e verdes a um tempo, e, havendo-as posto nos tanques, as cabras concebiam com os olhos nas varas, e os filhos saíam malhados. A boa fé de Labão foi assim embaçada pela finura do genro; mas não sei que há na alma humana que Labão é que faz sorrir, ao passo que Jacó passa por um varão arguto e hábil.
O nosso Labão desta semana foi um honesto fazendeiro do Chiaque, estando em uma rua desta cidade, viu aparecer um homem, que lhe perguntou por outra rua. Nem o fazendeiro, nem o outro desconhecido que ali apareceu também, tinha notícia da rua indicada. Grande aflição do primeiro homem recentemente chegado da Bahia, com vinte contos de réis de um tio dele, já falecido, que deixara dezesseis, para os náufragos da Terceira e quatro para a pessoa que se encarregasse da entrega.
Quem é que, nestes ou em quaisquer tempos, perderia tão boa ocasião de ganhar depressa e sem cansaço quatro contos de réis? eu não, nem o leitor, nem o fazendeiro do Chiador, que se ofereceu ao desconhecido para ir com ele depositar na Casa Leitão, Largo de Santa Rita, os dezesseis contos, ficando-lhe os quatro de remuneração.
– Não é preciso que o acompanhe, respondeu o desconhecido; basta que o senhor leve o dinheiro, mas primeiro é melhor juntar a êste o que traz aí consigo.
– Sim, senhor, anuiu o fazendeiro. Sacou do bolso o dinheiro que tinha (um conto e tanto), entregou-o ao desconhecido, e viu perfeitamente que este o juntou ao maço dos vinte; ação análoga à das varas de Jacó. O fazendeiro pegou do maço todo, despediu-se e guiou para o Largo de Santa Rita. Um homem de má fé teria ficado com o dinheiro, sem curar dos náufragos da Terceira, nem da palavra dada. Em vez disso, que seria mais que deslealdade, o portador chegou à Casa do Leitão, e tratou de dar os dezesseis contos, ficando com os quatro de recompensa. Foi então que viu que todas as cabras eram malhadas. O seu próprio dinheiro, que era de uma só cor, corno as ovelhas de Labão, tinha a pele variegada dos jornais velhos do costume.
A prova de que o primeiro movimento não é bom, é que o fazendeiro do Chiador correu logo a polícia; é o que fazem todos ... Mas a polícia, não podendo ir à cata de uma sombra, nem adivinhar a cara e o nome de pessoas hábeis em fugir, como os heróis dos melodramas, não fez mais que distribuir o segundo milheiro do conto-do-vigário, mandando a notícia aos jornais. Eu, se algum dia os contistas me pegassem, trataria antes de recolher os exemplares da primeira edição.
Aos sapientes e pacientes recomendo a bela monografia que podem escrever estudando o conto-do-vigário pelos séculos atras, as suas modificações segundo o tempo, a raça e o clima. A obra, para ser completa, deve ser imensa. É seguramente maior o número das tragédias, tanta é a gente que se tem estripado, esfaqueado, degolado, queimado, enforcado, debaixo deste belo sol, desde as batalhas de Josué até aos combates das ruas de Lima, onde as autoridades sanitárias, segundo telegramas de ontem, esforçam-se grandemente por sanear a cidade "empestada pelos cadáveres que ficam apodrecidos ao ar livre". Lembrai-vos que eram mais de mil, e imaginai que o detestável fedor de gente morta não custa a vitória de um princípio. O conto é menos numeroso, e, seguramente, menos sublime; mas ainda assim ocupa lugar eminente nas obras de ficção. Nem é o tamanho que dá primazia à obra, é a feitura dela. O conto-do-vigário não é propriamente o de Voltaire, Boccaccio ou Andersen, roas é conto, um conto especial, tão célebre como os outros, e mais lucrativo que nenhum.
ASSIS, Machado. Obra completa. Organização de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 3. p. 650-651. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira).
NOTAS: Terceira. Membros da Ordem Terceira da igreja católica. Voltaire. François-Marie Arouet (1694-1778), escritor francês que se colocou contra a intolerância. Boccaccio. Giovanni Boccaccio (1313-1375), escritor italiano criador da prosa literária de seu país. Andersen. Hans Christian Andersen (1805-1875), escritor dinamarquês que se notabilizou pelo elementos fantásticos de suas narrativas para crianças
O conto-do-vigário é o mais antigo gênero de ficção que se conhece. A rigor, pode crer-se que o discurso da serpente, induzindo Eva a comer o fruto proibido, foi o texto primitivo do conto. Mas, se há dúvida sobre isso, não a pode haver quanto ao caso de Jacó e seu sogro. Sabe-se que Jacó propôs a Labão que lhe desse todos os filhos das cabras que nascessem malhados. Labão concordou certo de que muitos trariam uma só cor; mas Jacó, que tinha plano feito, pegou de umas varas de plátano, raspou-as em parte, deixando-as assim brancas e verdes a um tempo, e, havendo-as posto nos tanques, as cabras concebiam com os olhos nas varas, e os filhos saíam malhados. A boa fé de Labão foi assim embaçada pela finura do genro; mas não sei que há na alma humana que Labão é que faz sorrir, ao passo que Jacó passa por um varão arguto e hábil.
O nosso Labão desta semana foi um honesto fazendeiro do Chiaque, estando em uma rua desta cidade, viu aparecer um homem, que lhe perguntou por outra rua. Nem o fazendeiro, nem o outro desconhecido que ali apareceu também, tinha notícia da rua indicada. Grande aflição do primeiro homem recentemente chegado da Bahia, com vinte contos de réis de um tio dele, já falecido, que deixara dezesseis, para os náufragos da Terceira e quatro para a pessoa que se encarregasse da entrega.
Quem é que, nestes ou em quaisquer tempos, perderia tão boa ocasião de ganhar depressa e sem cansaço quatro contos de réis? eu não, nem o leitor, nem o fazendeiro do Chiador, que se ofereceu ao desconhecido para ir com ele depositar na Casa Leitão, Largo de Santa Rita, os dezesseis contos, ficando-lhe os quatro de remuneração.
– Não é preciso que o acompanhe, respondeu o desconhecido; basta que o senhor leve o dinheiro, mas primeiro é melhor juntar a êste o que traz aí consigo.
– Sim, senhor, anuiu o fazendeiro. Sacou do bolso o dinheiro que tinha (um conto e tanto), entregou-o ao desconhecido, e viu perfeitamente que este o juntou ao maço dos vinte; ação análoga à das varas de Jacó. O fazendeiro pegou do maço todo, despediu-se e guiou para o Largo de Santa Rita. Um homem de má fé teria ficado com o dinheiro, sem curar dos náufragos da Terceira, nem da palavra dada. Em vez disso, que seria mais que deslealdade, o portador chegou à Casa do Leitão, e tratou de dar os dezesseis contos, ficando com os quatro de recompensa. Foi então que viu que todas as cabras eram malhadas. O seu próprio dinheiro, que era de uma só cor, corno as ovelhas de Labão, tinha a pele variegada dos jornais velhos do costume.
A prova de que o primeiro movimento não é bom, é que o fazendeiro do Chiador correu logo a polícia; é o que fazem todos ... Mas a polícia, não podendo ir à cata de uma sombra, nem adivinhar a cara e o nome de pessoas hábeis em fugir, como os heróis dos melodramas, não fez mais que distribuir o segundo milheiro do conto-do-vigário, mandando a notícia aos jornais. Eu, se algum dia os contistas me pegassem, trataria antes de recolher os exemplares da primeira edição.
Aos sapientes e pacientes recomendo a bela monografia que podem escrever estudando o conto-do-vigário pelos séculos atras, as suas modificações segundo o tempo, a raça e o clima. A obra, para ser completa, deve ser imensa. É seguramente maior o número das tragédias, tanta é a gente que se tem estripado, esfaqueado, degolado, queimado, enforcado, debaixo deste belo sol, desde as batalhas de Josué até aos combates das ruas de Lima, onde as autoridades sanitárias, segundo telegramas de ontem, esforçam-se grandemente por sanear a cidade "empestada pelos cadáveres que ficam apodrecidos ao ar livre". Lembrai-vos que eram mais de mil, e imaginai que o detestável fedor de gente morta não custa a vitória de um princípio. O conto é menos numeroso, e, seguramente, menos sublime; mas ainda assim ocupa lugar eminente nas obras de ficção. Nem é o tamanho que dá primazia à obra, é a feitura dela. O conto-do-vigário não é propriamente o de Voltaire, Boccaccio ou Andersen, roas é conto, um conto especial, tão célebre como os outros, e mais lucrativo que nenhum.
ASSIS, Machado. Obra completa. Organização de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 3. p. 650-651. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira).
NOTAS: Terceira. Membros da Ordem Terceira da igreja católica. Voltaire. François-Marie Arouet (1694-1778), escritor francês que se colocou contra a intolerância. Boccaccio. Giovanni Boccaccio (1313-1375), escritor italiano criador da prosa literária de seu país. Andersen. Hans Christian Andersen (1805-1875), escritor dinamarquês que se notabilizou pelo elementos fantásticos de suas narrativas para crianças
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Luiz de Miranda
Retina do Ofício
a Antônio Hohlfeldt
Não trabalho a palavra
temperada ao vão ofício
de cozê-la ao zelo maior
do jogo formal
trabalho-a como a madeira
onde fixo cepilho
plaina e lixa
e que nela se perca
a condição central de madeira
que a mão torna em utensílio
doméstico: cama mesa cadeira
trabalho-a pela retina
dolorosa destes dias
cheia de mortos
e tempero essa palavra
com o gosto que a vida
empresta ao tempo
incinerando o medo
a angústia
o mofo da lembrança
o espelho sem brilho dos fantasmas
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.29
Não trabalho a palavra
temperada ao vão ofício
de cozê-la ao zelo maior
do jogo formal
trabalho-a como a madeira
onde fixo cepilho
plaina e lixa
e que nela se perca
a condição central de madeira
que a mão torna em utensílio
doméstico: cama mesa cadeira
trabalho-a pela retina
dolorosa destes dias
cheia de mortos
e tempero essa palavra
com o gosto que a vida
empresta ao tempo
incinerando o medo
a angústia
o mofo da lembrança
o espelho sem brilho dos fantasmas
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.29
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Luiz de Miranda
Resistência
Cavamos a tarde
o tumulto o túmulo
Cavamos até o fundo
a felicidade
desde um fim de mundo
começando pelas artérias da casa
de minha mãe
já velha
de Uruguaiana
um terreno de lembranças
de uma mulher que há anos
se anuncia
e que se adia
por intempéries
Cavamos sem cessar
o doce emprego da poesia
a pesar o meio-dia
o segredo da meia-noite
a vida triste dos relógios
sob a poeira da espera
Cavamos a rigor
uma nova espera
dentro da esfera rubra do espanto
Dentro e fora
em qualquer latitude
cavamos o pão nosso de cada hora
Publicado no livro Solidão provisória (1978).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.33
o tumulto o túmulo
Cavamos até o fundo
a felicidade
desde um fim de mundo
começando pelas artérias da casa
de minha mãe
já velha
de Uruguaiana
um terreno de lembranças
de uma mulher que há anos
se anuncia
e que se adia
por intempéries
Cavamos sem cessar
o doce emprego da poesia
a pesar o meio-dia
o segredo da meia-noite
a vida triste dos relógios
sob a poeira da espera
Cavamos a rigor
uma nova espera
dentro da esfera rubra do espanto
Dentro e fora
em qualquer latitude
cavamos o pão nosso de cada hora
Publicado no livro Solidão provisória (1978).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.33
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Tasso da Silveira
Canção
Quando a alta onda de poesia
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.
Publicado no livro Regresso à Origem (1960).
In: POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.69. (Literatura brasileira, 9C
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.
Publicado no livro Regresso à Origem (1960).
In: POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.69. (Literatura brasileira, 9C
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Pedro Nava
Palíndromo do Amigo
"Amor a Roma"
Afonso Arinos de Melo Franco
Amora, roma:
Amor a Roma.
Amor, aroma:
Amor a Roma.
1964
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.18
Afonso Arinos de Melo Franco
Amora, roma:
Amor a Roma.
Amor, aroma:
Amor a Roma.
1964
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.18
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Affonso Ávila
Os Insurgentes
O LÚRIDO JOIO DO REVERSO
(...)
onde o vôo insurgente de Antônio
como poderá ser independente um povo
que não produz toda a roupa de que se veste
onde o vôo insurgente de Artur
é a questão do nosso minério de ferro
é o futuro do Brasil, que se atira criminosamente
pela janela,
como se faz a um traste incômodo e imprestável
onde o vôo insurgente de Aníbal
queria ver como surgiam as novas gerações
todos livres da exploração e do medo
onde o vôo insurgente de Murilo
grandes da terra, tremei nas cadeiras blindadas
que já vem a cólera santa
abrindo narinas de fogo
onde o vôo insurgente de Carlos
o poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e
outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
O LÚCIDO JOGO DO REVÉS
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 37-39. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Código de Minas.
NOTA: Citação do poema "Nosso Tempo", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
(...)
onde o vôo insurgente de Antônio
como poderá ser independente um povo
que não produz toda a roupa de que se veste
onde o vôo insurgente de Artur
é a questão do nosso minério de ferro
é o futuro do Brasil, que se atira criminosamente
pela janela,
como se faz a um traste incômodo e imprestável
onde o vôo insurgente de Aníbal
queria ver como surgiam as novas gerações
todos livres da exploração e do medo
onde o vôo insurgente de Murilo
grandes da terra, tremei nas cadeiras blindadas
que já vem a cólera santa
abrindo narinas de fogo
onde o vôo insurgente de Carlos
o poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e
outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
O LÚCIDO JOGO DO REVÉS
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 37-39. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Código de Minas.
NOTA: Citação do poema "Nosso Tempo", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
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Paulo Leminski
as coisas estão pretas
uma chuva de estrelas
deixa no papel
esta poça de letras
deixa no papel
esta poça de letras
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1
Paulo Leminski
Distâncias Mínimas
um texto morcego
se guia por ecos
um texto texto cego
um eco anti anti anti antigo
um grito na parede rede rede
volta verde verde verde
com mim com com consigo
ouvir é ver se se se se se
ou se se me lhe te sigo?
se guia por ecos
um texto texto cego
um eco anti anti anti antigo
um grito na parede rede rede
volta verde verde verde
com mim com com consigo
ouvir é ver se se se se se
ou se se me lhe te sigo?
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Haroldo de Campos
Aproximações ao Topázio
o topázio
canibaliza seus amarelos
lente no olho tórrido
da luz
forno solar
aqui se mascam
carvões ardentes
(cinzas, fogos rasurados, cúspides
truncadas: br/asa)
o girassol pensa:
leopázios!
In: CAMPOS, Haroldo de. Singnatia quasi coelum = signância quase céu.
São Paulo: Perspectiva, 1979. p. 53. (Signos, 7).
canibaliza seus amarelos
lente no olho tórrido
da luz
forno solar
aqui se mascam
carvões ardentes
(cinzas, fogos rasurados, cúspides
truncadas: br/asa)
o girassol pensa:
leopázios!
In: CAMPOS, Haroldo de. Singnatia quasi coelum = signância quase céu.
São Paulo: Perspectiva, 1979. p. 53. (Signos, 7).
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1
Paulo Leminski
Quem dera eu fosse um músico
Quem dera eu fosse um músico
que só tocasse os clássicos,
a platéia chorando
e eu contando os compassos.
Se eu soubesse agora,
como eu soube antes,
a dança alegórica
entre as vogais e as consoantes!
que só tocasse os clássicos,
a platéia chorando
e eu contando os compassos.
Se eu soubesse agora,
como eu soube antes,
a dança alegórica
entre as vogais e as consoantes!
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1
Paulo Leminski
o bicho alfabeto
o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase
por onde ele passa
nascem palavras
e frases
com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve
o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve
tem vinte e três patas
ou quase
por onde ele passa
nascem palavras
e frases
com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve
o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve
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1
Paulo Leminski
parem
parem
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta
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Manuel Bandeira
A Camões
Quando n'alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.
Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.
E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,
Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.
Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.
E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,
Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.
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William Blake
Introdução
Das Canções da inocência
(Tradução de Orlando Ferreira)
Tocando uma flauta no vale selvagem
Tocando canções doces e alegres
Vi uma criança surgir nas nuvens,
E ela me disse a sorrir,
"Toque aquela do cordeiro";
Então toquei com alegria;
"Toque, por favor, a canção de novo" -
Então eu toquei, e ela chorou ao ouvir.
"Largue a flauta, tua flauta feliz
E cante canções que tragam alegria;
Então toquei a mesma canção
Enquanto ela chorou deliciada ao ouvir.
"Flautista, sente-se e escreva
Num livro para que leiam" -
Então ela desapareceu".
E eu catei um junco oco,
E fiz uma caneta rústica,
E Mergulhei-a nas águas claras
Para escrever as felizes canções
Que toda criança adora ouvir.
(Tradução de Orlando Ferreira)
Tocando uma flauta no vale selvagem
Tocando canções doces e alegres
Vi uma criança surgir nas nuvens,
E ela me disse a sorrir,
"Toque aquela do cordeiro";
Então toquei com alegria;
"Toque, por favor, a canção de novo" -
Então eu toquei, e ela chorou ao ouvir.
"Largue a flauta, tua flauta feliz
E cante canções que tragam alegria;
Então toquei a mesma canção
Enquanto ela chorou deliciada ao ouvir.
"Flautista, sente-se e escreva
Num livro para que leiam" -
Então ela desapareceu".
E eu catei um junco oco,
E fiz uma caneta rústica,
E Mergulhei-a nas águas claras
Para escrever as felizes canções
Que toda criança adora ouvir.
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