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Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Lobo da Costa

Lobo da Costa

Adeus

À sombra do Salgueiro
(Fragmentos)

Adeus! eu vou partir. Por que soluças?
Não brilha o pranto, a dor, à luz da festa,
Nem a rosa, por pálida e modesta,
Deve pender a fronte ainda em botão...
Que eu te diga este adeus — manda o destino!
Eu sou náufrago vil, sem norte ou guia,
Açoitado por ventos de agonia
Nas cavernas fatais do coração.

Chorarás no momento em que eu te deixe,
Ou, quando perto eu for da tua herdade,
Passarás uma noite com saudade;
Mas a aurora trará mimos a flux...
E desperta de um sonho que te aflige,
Os passos sulcarás dalmo folguedo,
Esquecida daquele que tão cedo,
Sem amparo caiu vergado à cruz.

Trará o esquecimento alívio às dores;
Muitos dias talvez virão por este,
E das bagas do pranto que verteste
Brotarão os jasmins de um novo amor...
Cantarão no teu lar os passarinhos,
Muitas flores virão com a primavera,
E de mim ficará de uma outra era
Agudo espinho de saudosa dor.

Bem sei... há de custar-te a minha ausência,
Enquanto a ela tu não te acostumas.
Mas, ah! que nunca choram as espumas,
Quando soltas das vagas vão além!
É fatal, bem eu sinto, este momento!
Lisonjeia-me a dor do que não valho...
Olha: o manso gatinho no borralho,
Parece que a me olhar chora também.

Teu cãozinho de neve que tu amas,
No latido gentil, como que implora
Que eu não faça chorar sua senhora,
Ou pedindo-me em prantos, que eu não vá...
Mas quem sabe, se um dia, quando os tempos
De novo me trouxerem a estas plagas,
Não serás, ó cãozinho que me afagas,
O primeiro que então me morderá!

De lágrimas se funde o esquecimento
Com que algema o sentido mais dileto,
Não há, por mais gentil que seja o afeto,
Quem se possa eximir àquela essência.
É gelo que entibia as flores da alma,
É fogo que consome alto destino.
E já vês, ó meu anjo peregrino,
Que não deves chorar a minha ausência.

Irei por sobre as ondas desfolhando
As flores da saudade, uma por uma;
Como elas, que fogem sobre a espuma,
Quem me diz onde irei? onde pairar?
E tu ficas à sombra de teus lares,
Sorrindo de ventura, anjo celeste,
E eu, quem sabe! se à sombra de um cipreste
Num profundo dormir — sem despertar

O tempo que corrói a pedra bruta,
Também destrói os frutos da memória.
Mal fora se, na vida transitória,
Não sucedesse ao golpe a cicatriz.
— Tudo arrasta da vida a vaga irosa,
O Sol que amanheceu baixa ao poente...
Só há uma saudade permanente,
— A saudade da mãe e a do infeliz.

Nunca viste a donzela lacrimosa
Curvada no ladrilho mortuário,
Beijando o esquife negro e solitário
Em que dorme o despojo maternal?
E dois anos após... nem tanto ainda!
Da festa no esplendor vir, orgulhosa,
Passando muitas vezes junto à lousa,
Sem lembrar-se do anjo do casal?

Já viste a triste mãe que um berço embala,
Velando uma criança adormecida,
Consagrando-lhe esperança, amor e vida,
Capaz de se finar se ela morrer;
E após, se a idade veste-a de esplendores,
Tornar-se seu algoz, ser seu patíbulo,
E ir vendê-la nas portas do prostíbulo,
Como rês inocente — a quem mais der?!

Nunca viste o mendigo esfarrapado
Beijar a mão bondosa que o ampara,
E depois, se a fortuna se lhe aclara,
Como Pedro negar ao próprio Cristo?
Nunca viste o impudor — calcando o pejo,
A dor desafiando — gargalhadas,
Em troca de carícias — punhaladas!
Nunca viste? Pois eu já tenho visto.

Só guarda uma saudade quem por fado
Teve a dor do proscrito, a do abandono.
Assim, se eu não morrer, se o eterno sono
Não for além dormir, pomba adorada,
Lembrarei teus encantos e meiguices,
Chorarei de saudade — embora rias,
Cobrindo com meu manto de agonias
Os espinhos da cruz que me foi dada.

E se um dia nas praias do futuro
Rolar o meu cadáver de descrente,
Sepulta-o junto à margem onde a corrente
Só muda quando em fluxo recresce...
Onde os salgueiros têm as mesmas folhas
E é sempre a mesma viração sombria,
Onde só muda o Sol quando anoitece.

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José Blanc de Portugal

José Blanc de Portugal

O Carpinteiro de Cenários

Sou um carpinteiro de cenários
Dum ballet russo ou doutro qualquer.
Guardo as ferramentas do ofício
Pregos, dobradiças, apetrechos vários;
Um ar canhestro de quem é sempre mandado
E a certeza do acaso quando quer
Que alguém nos tome pela mão numa aventura
Inesperada só do outro lado dessa pobre alma
("Pobre alma" vem do russo).
Ela ganha a certeza de que nada é por acaso
Perdendo a certeza de que nada dura
E alguma coisa fica do que era nada
Desespero da impossível calma
Esperança de que fique vício ou piedade
Em pedacinhos fragmentários
Pregos, dobradiças e a tinta escura ou viva
Que o sol ausente do teatro não comeu.
Cravo os pregos do amor por todo aquele armazém dos desperdícios
Que nenhuma vassoura limpará do pó das glórias mortas.
Fixo as dobradiças que me unirão pra sempre a tais memórias
Experimentando com cuidado e sem saber a serventia dessas portas
Que porão em cena novas glórias das ocasiões fatais
Pra eu sofrer do alto da urdidura.
Anos de acaso fizeram-me um perito
A que recorrem os que não têm coragem
De mostrarem que não se admiram a si próprios
Senão quando todos aplaudem
E se revoltam com a confiança dos maítres de ballet
que falam duro.
Mas, nos dias mornos, lhes é tudo indiferente.

A estrela untando as sapatilhas na resina
Olhou-me com os olhos a piscar, vermelhos.
Cairia se a não agarrasse e no escuro lhe dissesse
Porque atrasara o sexto fouetté do seu allegro.

Em cena todos os desculparam porque era estrela
Porque trinta e oito anos são uma idade perigosa
E amanhã não sucederia o mesmo
E há muitos anos não tinha amores a comentar e estava triste.
Mas eu sabia que onde ela passara o tablado tem sulcos que o tempo
Usou como fez para abrir as duas rugas
Que a pobre alma tem, como parênteses, em volta da pequena boca
Que floriu tantas Giselles e Odettes.
Não me casei porque vivo demais neste teatro
Que então já seria a minha casa que afinal não tenho.
Todos me tomam como uma parte desta casa.
E talvez sem o saberem me invejem
Tantos que nunca tiveram uma casa
Ou a que têm é apenas quanto dura

A Companhia ou a ligação de acaso.
As vezes é um grande sol de amor que a ilumina
Sol de teatro como os velhos arcos voltaicos
Choques e carvões sempre sujos que eu dantes ajudava a limpar.
Eu encontrei a casa que é minha por não ser.
Sabe-lo foi tudo o que encontrei.

Aquela rapariga que iria longe
E ao primeiro grand pas de deux classique
Partiu um braço porque julgara já poder esquivar-se
Aos desejos naturais do premier danseur
Foi pena ter esquecido depressa demais o tempo em que podia
Tomar comigo um café e achar-me um pouco filósofo.
É tarde. Tudo isto é escuro e amanhã
— Cedinho, é preciso que cá estejas... —
Bem sei. já não preciso dormir muito.
Guardo na caixa os pregos e as dobradiças.
Ao menos hoje a grande estrela
Aprendeu um segredo do palco.

Possa ela não se vingar aconselhando aquela diagonal
À pequena em que o diretor põe agora todas as esperanças
Só lhe direi o que ela quiser.
É tarde. É melhor ficar cá no teatro.
A única luz dá sobre a caixa da resina.
Basta-me apagá-la para adormecer.

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Eurícledes Formiga

Eurícledes Formiga

Canto de Amor ao Mar

Sempre tua canção, clamor e apelo,
Sabendo a sal e longes na memória,
ao ver-te cavalgado pelos ventos
nas escarpas da noite, em atropelo,
aos chicotes de fogo dos relâmpagos,
ou nas planícies de ouro das manhãs.
Recomponho o perdido itinerário,
respirando teu hálito — salsugem,
nesse meu navegar irrevelado
de minha origem marinheira... escuto
vir da gávea oscilante da lembrança
a voz evocativa de outras terras
aonde me levaram teus caminhos!
Não reclamo apagasses os meus passos
nas areias soando como teclas
em tuas longas e alvas mãos de espumas;
nem choro ser degredo o ter ficado
no alto dos alcantis a contemplar-te,
já que salgas meus olhos embebidos
na poesia verde-azul de tuas águas.
Quantas vezes me deixo submergir
em teu bojo de lendas e perigos
e vou sonhar remotas abordagens
no tombadilho das escunas mortas!
Sinto-te gotejar pelo meu corpo,
nas pálpebras, na pele, transpirando
teu sangue-sal, banhando-me de ti
nas enseadas das reminiscências.
Vem de longe esse vínculo profundo
de arco-íris e de algas que nos liga,
tanta é esta sensação de desaguar-me
em teu mundo abissal e confundir-me
com teus peixes, sargaços e corais,
ora a flutuar sobre ti como os santelmos,
ora a esgrimir os espadins da chuva
no convés de uma nau, como um pirata,
sob o alarido e o aplauso dos trovões!
Vejo-me assim, em honra de outros nautas,
heróis dos oceanos sem bandeiras,
marujos por amor às aventuras,
antepassados imemoriais.
Escuto-lhes a voz nas elegias
aos sóis que em teus abismos se afogaram
e às estrelas cadentes despencadas
do colo azul da noite como pérolas!
Para falar de amor à minha amada,
ponho tua harmonia nos meus versos;
eles recordam pequeninos búzios,
com tua alma cantando em seus recessos!
Não me é dado saber em quantos portos
ancorei minha nave... em suas quilhas
fulgem as tatuagens de saudades
com as transparências do teu ser ignoto!
Sei apenas que a música da vida
nasce contigo e cresce e envolve o mundo
e o coração-aquário do poeta!

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