Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Felipe d’Oliveira
História Leal dos Meus Amores
Eu tive a iniciação para a alegria
num tempo primitivo de paisagem,
em que, num fundo aberto de baía,
da argila das montanhas, emergia
a forma azul de um ídolo selvagem.
Entrei na imensidade dessas águas,
de alma feliz, cantando em tons de trova...
E ao batismo de um sol chispando fráguas
eu jurei esquecer antigas mágoas
numa esperança ideal de vida nova...
A vida, então, logo me deu meu fado,
— meus maus desígnios e meus bons misteres —
e, no decurso desse tempo andado,
os homens quase todos tenho odiado
e tenho amado todas as mulheres.
Foste a primeira que amei, perdida...
E desse amor de insânias e segredos,
conservo ainda na boca ressequida
a saciedade farta e umedecida
dos teus beijos acídulos e azedos.
Depois, glorifiquei, como um profano,
a luxúria pagã do meu instinto,
ritmando, num delírio parnasiano,
os meus beijos lascivos de Romano
numa boca de Vênus de Corinto.
...Meu alabastro engrinaldado de ouro,
não peço mais que tu não me abandones...
Foste, no meu destino, um mau-agouro:
endoudeceu-me o teu cabelo louro,
nessa linda cabeça à Burne Jones...
E ao fim de tanto anseio, ao fim de tanto
intenso desvairar, de intensa febre,
tu me mandaste esse teu vulto santo,
que eu não celebro em versos neste canto,
por não haver um ritmo que o celebre.
A curva não modela, a linha, esquiva,
não esboça, e não canta o plectro raro
teu nervoso perfil de sensitiva,
como apanhar não pode uma objetiva
o infinito de um céu lúcido e claro...
Publicado no livro Vida extinta (1911).
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.39-4
num tempo primitivo de paisagem,
em que, num fundo aberto de baía,
da argila das montanhas, emergia
a forma azul de um ídolo selvagem.
Entrei na imensidade dessas águas,
de alma feliz, cantando em tons de trova...
E ao batismo de um sol chispando fráguas
eu jurei esquecer antigas mágoas
numa esperança ideal de vida nova...
A vida, então, logo me deu meu fado,
— meus maus desígnios e meus bons misteres —
e, no decurso desse tempo andado,
os homens quase todos tenho odiado
e tenho amado todas as mulheres.
Foste a primeira que amei, perdida...
E desse amor de insânias e segredos,
conservo ainda na boca ressequida
a saciedade farta e umedecida
dos teus beijos acídulos e azedos.
Depois, glorifiquei, como um profano,
a luxúria pagã do meu instinto,
ritmando, num delírio parnasiano,
os meus beijos lascivos de Romano
numa boca de Vênus de Corinto.
...Meu alabastro engrinaldado de ouro,
não peço mais que tu não me abandones...
Foste, no meu destino, um mau-agouro:
endoudeceu-me o teu cabelo louro,
nessa linda cabeça à Burne Jones...
E ao fim de tanto anseio, ao fim de tanto
intenso desvairar, de intensa febre,
tu me mandaste esse teu vulto santo,
que eu não celebro em versos neste canto,
por não haver um ritmo que o celebre.
A curva não modela, a linha, esquiva,
não esboça, e não canta o plectro raro
teu nervoso perfil de sensitiva,
como apanhar não pode uma objetiva
o infinito de um céu lúcido e claro...
Publicado no livro Vida extinta (1911).
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.39-4
1 218
Carlos Felipe Moisés
Em Minhas Mãos
Em minhas mãos
estas paredes ardem.
Não são retratos
nas paredes
não são remorsos
em minhas mãos
estas paredes ardem.
A mesma casa? O corredor
vazio, o quarto imenso
em minhas mãos?
Estas paredes ardem.
Não o desejo impuro
o amor saciado
(sequer desejado)
em minhas mãos
agora esvaído
ardendo no alto de um muro
mas o vício lento
implacável da memória,
óleo espesso a descer
das paredes
do sono
que o fogo devora
em minhas mãos.
Vitória e cansaço,
a lembrança impossível
e o medo extinto,
as paredes
a casa
estas palavras —
tudo a mesma combustão
em minhas mãos.
Estas palavras ardem em minhas mãos.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série II. Sentimental.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
estas paredes ardem.
Não são retratos
nas paredes
não são remorsos
em minhas mãos
estas paredes ardem.
A mesma casa? O corredor
vazio, o quarto imenso
em minhas mãos?
Estas paredes ardem.
Não o desejo impuro
o amor saciado
(sequer desejado)
em minhas mãos
agora esvaído
ardendo no alto de um muro
mas o vício lento
implacável da memória,
óleo espesso a descer
das paredes
do sono
que o fogo devora
em minhas mãos.
Vitória e cansaço,
a lembrança impossível
e o medo extinto,
as paredes
a casa
estas palavras —
tudo a mesma combustão
em minhas mãos.
Estas palavras ardem em minhas mãos.
(São Paulo 1976)
Poema integrante da série II. Sentimental.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
852
Lila Ripoll
Cantiga de Roda
"Bota terra no meu lenço,
pra plantá manjericão."
— Ai! versos da minha infância,
meus anos não volverão.
"Atirei um limão verde
por cima da sacristia."
— Ai! vozes que me prenderam
a um passado de alegria!
"Menina, minha menina,
cinturinha de retrós."
— Ai! balcão de nossa loja,
onde andarão meus avós?
"O cravo brigou com a rosa
defronte de uma sacada."
— Ai! cantigas esquecidas,
crianças de mãos trançadas.
"Roda, roda cirandinha,
vamos todos cirandar."
— Ai! prendas da minha infância,
deixem meus olhos chorar!
"Lá vem o sol, vem chegando
redondo como um botão."
— Ai! joguem terra em meu corpo
mas deixem meu coração.
Ai! joguem terra em meu corpo
mas poupem meu coração.
Botem terra no meu corpo
mas plantem manjericão!
Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.78-7
pra plantá manjericão."
— Ai! versos da minha infância,
meus anos não volverão.
"Atirei um limão verde
por cima da sacristia."
— Ai! vozes que me prenderam
a um passado de alegria!
"Menina, minha menina,
cinturinha de retrós."
— Ai! balcão de nossa loja,
onde andarão meus avós?
"O cravo brigou com a rosa
defronte de uma sacada."
— Ai! cantigas esquecidas,
crianças de mãos trançadas.
"Roda, roda cirandinha,
vamos todos cirandar."
— Ai! prendas da minha infância,
deixem meus olhos chorar!
"Lá vem o sol, vem chegando
redondo como um botão."
— Ai! joguem terra em meu corpo
mas deixem meu coração.
Ai! joguem terra em meu corpo
mas poupem meu coração.
Botem terra no meu corpo
mas plantem manjericão!
Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.78-7
2 604
Alcides Villaça
Matinê
madalena era tão grave com duas tranças
recusou minha mão no cinema embora o combinado
e seu vestido branco fosse para mim
há quem ache melosas as fotos amarelas.
não são, proustianas madalenas
guerrilham e sangram sob o leve organdi
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior
recusou minha mão no cinema embora o combinado
e seu vestido branco fosse para mim
há quem ache melosas as fotos amarelas.
não são, proustianas madalenas
guerrilham e sangram sob o leve organdi
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Estação Anterior
1 480
Lila Ripoll
Retrato
Clara manhã de inverno.
Na rua longa e fria
procuro ansiosamente
um número, uma casa.
(...)
Aguardo a professora,
aguardo e penso,
no agasalho do ambiente de silêncio.
E detenho meus olhos surpreendidos
no retrato maior que a sala guarda.
Reconheço a figura, a fronte ampla,
o olhar audaz e manso ao mesmo tempo.
É ele sim, é o grande Cavaleiro,
Cavaleiro de muitas esperanças.
Que faz ali? Que faz ali? pergunto.
Por que naquela casa silenciosa
tranquilamente antiga e acolhedora,
o retrato de Prestes na parede
sobressai e ilumina a sala inteira?
(...)
"É meu neto, menina. Gosta dele?
É o Luís Carlos, meu neto, não sabia?"
E vejo à minha frente, nobre e simples,
a vovó Ermelinda, de Luís Carlos,
para mim Cavaleiro da Esperança
E a voz continuou serena e mansa:
"Um menino tão terno, tão sensível,
quem diria pudesse ser um dia
um revolucionário?"
(...)
Anda longe o Luís Carlos, de seus dias.
Anda longe e está próximo e presente:
nas palavras apenas murmuradas
— afetivos suspiros e lembranças —
e nas outras que brotam impetuosas
dominando planícies e cidades.
(...)
Seu passo um dia cantará nas pedras
e humildes casas se iluminarão.
E à sua voz, de chama e tempestade,
as vozes triunfais responderão.
Publicado no livro Novos Poemas (1951).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.106-10
Na rua longa e fria
procuro ansiosamente
um número, uma casa.
(...)
Aguardo a professora,
aguardo e penso,
no agasalho do ambiente de silêncio.
E detenho meus olhos surpreendidos
no retrato maior que a sala guarda.
Reconheço a figura, a fronte ampla,
o olhar audaz e manso ao mesmo tempo.
É ele sim, é o grande Cavaleiro,
Cavaleiro de muitas esperanças.
Que faz ali? Que faz ali? pergunto.
Por que naquela casa silenciosa
tranquilamente antiga e acolhedora,
o retrato de Prestes na parede
sobressai e ilumina a sala inteira?
(...)
"É meu neto, menina. Gosta dele?
É o Luís Carlos, meu neto, não sabia?"
E vejo à minha frente, nobre e simples,
a vovó Ermelinda, de Luís Carlos,
para mim Cavaleiro da Esperança
E a voz continuou serena e mansa:
"Um menino tão terno, tão sensível,
quem diria pudesse ser um dia
um revolucionário?"
(...)
Anda longe o Luís Carlos, de seus dias.
Anda longe e está próximo e presente:
nas palavras apenas murmuradas
— afetivos suspiros e lembranças —
e nas outras que brotam impetuosas
dominando planícies e cidades.
(...)
Seu passo um dia cantará nas pedras
e humildes casas se iluminarão.
E à sua voz, de chama e tempestade,
as vozes triunfais responderão.
Publicado no livro Novos Poemas (1951).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.106-10
1 383
Carlos Felipe Moisés
A Noite Flutua no Ar
Por saber-te distante,
a noite se fez mais densa
sobre as casas e o desassossego
Parou diante
(por que não defronte?)
diante de mim,
o rosto escondido na bruma.
Agora caminha.
Percorre-me bolsos e alma
por saber-te ausente,
não mais distante
que a sombra que apalpo
no recesso da vida que é minha.
Noite!
Por que não o dia?
Dia pleno de avisos e medo
oculto na roupa que despi.
A noite, flutua no ar sozinha
por saber-te distante
(e fez-se o quê? lembrança?),
nuvem perdida, lentidão, rainha.
Poema integrante da série Urna Diurna, 1965/1973.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Poemas reunidos, 1956/1973. São Paulo: Cultrix, 197
a noite se fez mais densa
sobre as casas e o desassossego
Parou diante
(por que não defronte?)
diante de mim,
o rosto escondido na bruma.
Agora caminha.
Percorre-me bolsos e alma
por saber-te ausente,
não mais distante
que a sombra que apalpo
no recesso da vida que é minha.
Noite!
Por que não o dia?
Dia pleno de avisos e medo
oculto na roupa que despi.
A noite, flutua no ar sozinha
por saber-te distante
(e fez-se o quê? lembrança?),
nuvem perdida, lentidão, rainha.
Poema integrante da série Urna Diurna, 1965/1973.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Poemas reunidos, 1956/1973. São Paulo: Cultrix, 197
863
Carlos Felipe Moisés
Minotauro
Abrasado em sonho, uma vez foi rei
de um reino sem refúgio nem fronteira.
Reinou além do seu país e sua grei,
enquanto ruminava a hora derradeira.
Seu coração de lava incendiou
a memória de dálias e jacintos
e o segredo que o vento lhe negou
se converteu em treva e labirinto.
Estrelas e nuvens teve a seus pés
(o sonho azul de toda criatura)
e tudo recusou. Um trono fez
do nada em que abrigou sua loucura.
Hoje devora gafanhotos e o mel
destila do seu flanco sem idade.
Reino em ruínas, seu manto é o céu
onde pasta serena majestade.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
de um reino sem refúgio nem fronteira.
Reinou além do seu país e sua grei,
enquanto ruminava a hora derradeira.
Seu coração de lava incendiou
a memória de dálias e jacintos
e o segredo que o vento lhe negou
se converteu em treva e labirinto.
Estrelas e nuvens teve a seus pés
(o sonho azul de toda criatura)
e tudo recusou. Um trono fez
do nada em que abrigou sua loucura.
Hoje devora gafanhotos e o mel
destila do seu flanco sem idade.
Reino em ruínas, seu manto é o céu
onde pasta serena majestade.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
715
Alcides Villaça
A Língua Num Canto da Boca
Onde aprendi a ler foi Toddy
— com seus DD, com seu Y.
Quem me ensinou a ler foi ela,
seu papel de pão, seu lápis,
seu reino de mantimentos.
Muito mais tarde soube de multinacionais,
de Édipo, de poesia
que mancha o pardo simples do papel
com beabás.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série Sala de Espera
— com seus DD, com seu Y.
Quem me ensinou a ler foi ela,
seu papel de pão, seu lápis,
seu reino de mantimentos.
Muito mais tarde soube de multinacionais,
de Édipo, de poesia
que mancha o pardo simples do papel
com beabás.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série Sala de Espera
1 400
Álvaro Moreyra
Pena
Dona Domitila, marquesa de Santos, eu gosto
muito da senhora.
O seu vestido foi o vestido mais bonito da
nossa terra.
Dona Domitila, marquesa de Santos, a senhora
se vestiu de amor...
Que pena não ter morrido moça, de cachos pretos,
de olhos alegres.
Que pena ter teimado em ficar velha, de vista
cansada, de cabelos brancos, dona Domitila, marquesa
de Santos...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
muito da senhora.
O seu vestido foi o vestido mais bonito da
nossa terra.
Dona Domitila, marquesa de Santos, a senhora
se vestiu de amor...
Que pena não ter morrido moça, de cachos pretos,
de olhos alegres.
Que pena ter teimado em ficar velha, de vista
cansada, de cabelos brancos, dona Domitila, marquesa
de Santos...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
2 102
Alphonsus de Guimaraens Filho
Rota do Desconhecido
Quando eu seguir na rota do desconhecido
a minha voz ficará cantando na tua memória
e tua alma sentirá a presença
do meu sonho em teu sonho,
do meu riso de perdão à miséria do mundo.
Então, Amada, canta!
A noite se embalará com as canções marinhas
subindo, diretas, do teu coração.
Tua alma será, então uma praia branca,
onde cantarão os pescadores tristes:
os teus sonhos de amor abraçados ao desânimo...
Eu irei longe... Minha memória errará nas estrelas
e minha alma será o vento que acarinha plantas,
que acarinha flores sonolentas.
Eu irei longe, eu irei tão longe,
que meu coração vencerá distâncias
para ouvir tuas canções praieiras,
amada, grande Amada,
e minha alma será o céu pontilhado de estrelas
que há de fazer adormecer tua saudade!
Publicado no livro Lume de estrelas: poemas (1940).
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 27-2
a minha voz ficará cantando na tua memória
e tua alma sentirá a presença
do meu sonho em teu sonho,
do meu riso de perdão à miséria do mundo.
Então, Amada, canta!
A noite se embalará com as canções marinhas
subindo, diretas, do teu coração.
Tua alma será, então uma praia branca,
onde cantarão os pescadores tristes:
os teus sonhos de amor abraçados ao desânimo...
Eu irei longe... Minha memória errará nas estrelas
e minha alma será o vento que acarinha plantas,
que acarinha flores sonolentas.
Eu irei longe, eu irei tão longe,
que meu coração vencerá distâncias
para ouvir tuas canções praieiras,
amada, grande Amada,
e minha alma será o céu pontilhado de estrelas
que há de fazer adormecer tua saudade!
Publicado no livro Lume de estrelas: poemas (1940).
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 27-2
1 386
da Costa e Silva
Saudade
Saudade! és a ressonância
De uma cantiga sentida,
Que, embalando a nossa infância,
Nos segue por toda a vida!
Publicado no livro Pandora (1919).
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.22
De uma cantiga sentida,
Que, embalando a nossa infância,
Nos segue por toda a vida!
Publicado no livro Pandora (1919).
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.22
2 426
Neide Archanjo
40 [Ah, esta manhã tão clara
Ah, esta manhã tão clara
e teu corpo que se inclina para o mar.
Como conciliar a luz em teu olho,
as ondas deitadas mansamente, mansamente
e a tua imagem
longa gaivota
indo e vindo pela praia verde de sol,
tudo como numa marinha de Pancetti
que tenho dentro de mim?
Não há o que lembrar.
Falo desta luz que me ilumina
e que te alcança embora longe
porque é primavera aqui onde estou
e é primavera aí onde estás.
Pressinto a tua mansidão hoje
nesta manhã tão clara
e sempre te quis saber assim:
olhando o mar.
Não há onde buscar lembranças,
senão naquelas lembranças
agora retomadas nesta manhã tão clara
em que vejo nítida e precisamente
em frente ao mar
a imagem que me aprisiona e mata docemente
que me aprisiona e mata docemente
em frente a outro mar.
In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
e teu corpo que se inclina para o mar.
Como conciliar a luz em teu olho,
as ondas deitadas mansamente, mansamente
e a tua imagem
longa gaivota
indo e vindo pela praia verde de sol,
tudo como numa marinha de Pancetti
que tenho dentro de mim?
Não há o que lembrar.
Falo desta luz que me ilumina
e que te alcança embora longe
porque é primavera aqui onde estou
e é primavera aí onde estás.
Pressinto a tua mansidão hoje
nesta manhã tão clara
e sempre te quis saber assim:
olhando o mar.
Não há onde buscar lembranças,
senão naquelas lembranças
agora retomadas nesta manhã tão clara
em que vejo nítida e precisamente
em frente ao mar
a imagem que me aprisiona e mata docemente
que me aprisiona e mata docemente
em frente a outro mar.
In: ARCHANJO, Neide. Quixote largo e foxtrote. São Paulo: Ed. do Escritor, 1975
1 124
Nelson Ascher
Onde Há Fumaça
"dan steigt ihr als Rauch in die Luft"
(Paul Celan)
Fumaça alguma implica
memória, já que as coisas
se perdem na fumaça
que, assim, tampouco pode
tornar-se um monumento,
pois sendo transitória
nem mesmo homenageia
a transitoriedade.
Fumaça enquanto tinta,
embora branca (um branco
mais palidez de horror
que alvura de inocência),
serve talvez à escrita;
porém, não há destreza
que inscreva na fumaça,
como na pedra, um nome.
Quando a fumaça, quase
vegetativa, irrompe e,
traindo o genealógico,
assume aspecto arbóreo,
não cabe perguntar
acerca (onde há fumaça,
há cinzas) das raízes
mais fundas da fumaça.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
(Paul Celan)
Fumaça alguma implica
memória, já que as coisas
se perdem na fumaça
que, assim, tampouco pode
tornar-se um monumento,
pois sendo transitória
nem mesmo homenageia
a transitoriedade.
Fumaça enquanto tinta,
embora branca (um branco
mais palidez de horror
que alvura de inocência),
serve talvez à escrita;
porém, não há destreza
que inscreva na fumaça,
como na pedra, um nome.
Quando a fumaça, quase
vegetativa, irrompe e,
traindo o genealógico,
assume aspecto arbóreo,
não cabe perguntar
acerca (onde há fumaça,
há cinzas) das raízes
mais fundas da fumaça.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993
1 074
Alberto da Costa e Silva
Outro Adeus
Sob o teto e a ferrugem
do mercado, em Fortaleza,
ele tocava a rabeca
e era cego. Tocava
com a cabeça inclinada,
esta mesma que vejo
na fieira de músicos
sobre a porta da igreja
larga e ocre de Sória,
os mesmos pés descalços
e chagados na pedra,
e a voz que me chega,
baixa, rouca, irritante,
toda sujo e pobreza.
Como dizer a outrem
o que está no meu sangue?
Que levei ao curral
os corcéis de Patroclo
e deitei minha nuca
sobre um colo de espinhos?
Mas, em Medinaceli,
Alberca e entardeceres,
senti o mesmo cheiro
de palha, urina e pêlo
de um jumento suado
sob o sol de Sobral
e o rancor da saudade
e a saudade sonhada.
Por que reparo tanto
em cada coisa, atento
ao poro, ao grão, ao risco,
ao veio, à sombra e ao brilho?
Para me amanhecer.
E não ter, à distância
de outro chão e outra luz,
esta carne. Contemplo
o cego e o céu do tempo:
um odor de farelo
repousa a servidão
deste corpo em que perco
o que em nós há de encontro
entre o ausente e o eterno.
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
do mercado, em Fortaleza,
ele tocava a rabeca
e era cego. Tocava
com a cabeça inclinada,
esta mesma que vejo
na fieira de músicos
sobre a porta da igreja
larga e ocre de Sória,
os mesmos pés descalços
e chagados na pedra,
e a voz que me chega,
baixa, rouca, irritante,
toda sujo e pobreza.
Como dizer a outrem
o que está no meu sangue?
Que levei ao curral
os corcéis de Patroclo
e deitei minha nuca
sobre um colo de espinhos?
Mas, em Medinaceli,
Alberca e entardeceres,
senti o mesmo cheiro
de palha, urina e pêlo
de um jumento suado
sob o sol de Sobral
e o rancor da saudade
e a saudade sonhada.
Por que reparo tanto
em cada coisa, atento
ao poro, ao grão, ao risco,
ao veio, à sombra e ao brilho?
Para me amanhecer.
E não ter, à distância
de outro chão e outra luz,
esta carne. Contemplo
o cego e o céu do tempo:
um odor de farelo
repousa a servidão
deste corpo em que perco
o que em nós há de encontro
entre o ausente e o eterno.
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
1 469
Alberto da Costa e Silva
O Menino a Cavalo
(...)
3
A mão de meu pai sobre o papel desenha,
quase num só traço, o menino a cavalo.
Sai de sua mão a mão com que lhe aceno,
e vai sobre o papel o menino a cavalo.
Choro sobre o colo do triste, e órfão, e cego,
para tudo o que atado estava à vida, vivo,
mas sem sonho e sem carne, a falar-me sem nexo
sobre um céu e um sol de que foi desterrado,
mas que punha ao redor do menino a cavalo.
O rosto longo e só, rasgado pelas rugas,
o olhar a rever o que perpétuo tinha,
e que nunca me disse, em seu pensar cortado
do dia em que vivia (no seu convívio raro
com a cadeira de braços, o pijama, os seus pássaros,
a cinza e a rotina de estar morto, acordado),
no papel ele unia a mão que desenhava
à mão com que acenava ao menino a cavalo,
neste adeus em que estou, desde então, ao seu lado,
o menino que volta, a chorar, a cavalo.
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
NOTA: Poema composto de 3 parte
3
A mão de meu pai sobre o papel desenha,
quase num só traço, o menino a cavalo.
Sai de sua mão a mão com que lhe aceno,
e vai sobre o papel o menino a cavalo.
Choro sobre o colo do triste, e órfão, e cego,
para tudo o que atado estava à vida, vivo,
mas sem sonho e sem carne, a falar-me sem nexo
sobre um céu e um sol de que foi desterrado,
mas que punha ao redor do menino a cavalo.
O rosto longo e só, rasgado pelas rugas,
o olhar a rever o que perpétuo tinha,
e que nunca me disse, em seu pensar cortado
do dia em que vivia (no seu convívio raro
com a cadeira de braços, o pijama, os seus pássaros,
a cinza e a rotina de estar morto, acordado),
no papel ele unia a mão que desenhava
à mão com que acenava ao menino a cavalo,
neste adeus em que estou, desde então, ao seu lado,
o menino que volta, a chorar, a cavalo.
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
NOTA: Poema composto de 3 parte
2 117
Walmir Ayala
32 [Onde ficou aquela hora
Onde ficou aquela hora
de sentar à mesa e ver
a água no vidro do copo?
Tirar da cesta o pão
passar no molho e gostar
de ver o abrir da sombra?
E em silêncio mastigar
a carne e o pomo, quente
o elo em torno da pobre
toalha e sua nódoa.
Nenhum lobo lá fora.
A comunhão completa
de olhos baixos e um canto
calando nas vasilhas.
Hoje o lobo está dentro.
Pelos cantos gememos,
sós pousamos no prato
uma fome imprecisa.
O pão nos sabe a ázimo
e o vinho avinagrado
sangra no lábio a pausa
de lembrar, sem recurso.
Já não temos ninguém
que nos dobre a toalha
e apague a luz.
Vagamos,
inofensivo lobo
de uma ira apagada.
E a lamparina, amor,
tremeluz do outro lado
como absorto fantasma.
In: AYALA, Walmir. Os reinos e as vestes. Pref. Lélia Coelho Frota. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Poesia brasileira)
de sentar à mesa e ver
a água no vidro do copo?
Tirar da cesta o pão
passar no molho e gostar
de ver o abrir da sombra?
E em silêncio mastigar
a carne e o pomo, quente
o elo em torno da pobre
toalha e sua nódoa.
Nenhum lobo lá fora.
A comunhão completa
de olhos baixos e um canto
calando nas vasilhas.
Hoje o lobo está dentro.
Pelos cantos gememos,
sós pousamos no prato
uma fome imprecisa.
O pão nos sabe a ázimo
e o vinho avinagrado
sangra no lábio a pausa
de lembrar, sem recurso.
Já não temos ninguém
que nos dobre a toalha
e apague a luz.
Vagamos,
inofensivo lobo
de uma ira apagada.
E a lamparina, amor,
tremeluz do outro lado
como absorto fantasma.
In: AYALA, Walmir. Os reinos e as vestes. Pref. Lélia Coelho Frota. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. (Poesia brasileira)
1 338
Alberto de Oliveira
Velha Fazenda - III
— "... Vi um por um, oh! provação tremenda!
Nunca me há de esquecer aquele dia!
Debandar os escravos da fazenda.
A esta, em idos tempos de alegria,
Chamara, porque as tinha, de "Esperança",
"Desengano" melhor lhe chamaria.
Ah! dor nenhuma, como a da lembrança
Da ventura que foi, na desventura
Ferir mais fundo o coração alcança!
Tanta grandeza há pouco! e eis que da altura
Do meu sonho resvalo e me subverto
Chão adentro em rasgada sepultura!
Ergo-me, tonto ainda, olho — o deserto!
Falo — silêncio! movo os braços — nada!
Somente a solidão ao peito aperto.
Minha "Esperança" desesperançada!
Com que ouvidos te ouvi então o rouco
Arrastado mugido da boiada!
Pus-me a chorar, como criança ou louco,
(Esta fraqueza, amigo, não te encubro)
Pus-me a chorar. Naquele mês, em pouco,
A flor do cafezal, filha de Outubro,
Reclamando a colheita, a rir-se agora,
Já mudada se achava em fruto rubro.
Naquele mês a várzea se melhora
Com a estação mais regrada e água da serra;
Ao sol pompeando, todo caule enflora;
Viça o vesco faval, com o humor que encerra;
Os grãos amojam nas espigas de ouro;
Racha com as grossas túberas a terra.
Mas com que mãos colher tanto tesouro?
As mãos Maio as levou, levando o escravo,
Maio agora tornado sestro agouro.
Meu mal, assim pensando, aflito agravo;
Nas terras, nas lavouras em abandono
Em desesperação os olhos cravo.
Depois, a pouco e pouco, um meio sono
Me vem. Olho estas cousas com fastio,
E deixo-as ir, como se vai sem dono
Barco largado na tensão do rio."
Publicado no livro Poesias, 1904/1911: terceira série (1913). Poema integrante da série Natália.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
Nunca me há de esquecer aquele dia!
Debandar os escravos da fazenda.
A esta, em idos tempos de alegria,
Chamara, porque as tinha, de "Esperança",
"Desengano" melhor lhe chamaria.
Ah! dor nenhuma, como a da lembrança
Da ventura que foi, na desventura
Ferir mais fundo o coração alcança!
Tanta grandeza há pouco! e eis que da altura
Do meu sonho resvalo e me subverto
Chão adentro em rasgada sepultura!
Ergo-me, tonto ainda, olho — o deserto!
Falo — silêncio! movo os braços — nada!
Somente a solidão ao peito aperto.
Minha "Esperança" desesperançada!
Com que ouvidos te ouvi então o rouco
Arrastado mugido da boiada!
Pus-me a chorar, como criança ou louco,
(Esta fraqueza, amigo, não te encubro)
Pus-me a chorar. Naquele mês, em pouco,
A flor do cafezal, filha de Outubro,
Reclamando a colheita, a rir-se agora,
Já mudada se achava em fruto rubro.
Naquele mês a várzea se melhora
Com a estação mais regrada e água da serra;
Ao sol pompeando, todo caule enflora;
Viça o vesco faval, com o humor que encerra;
Os grãos amojam nas espigas de ouro;
Racha com as grossas túberas a terra.
Mas com que mãos colher tanto tesouro?
As mãos Maio as levou, levando o escravo,
Maio agora tornado sestro agouro.
Meu mal, assim pensando, aflito agravo;
Nas terras, nas lavouras em abandono
Em desesperação os olhos cravo.
Depois, a pouco e pouco, um meio sono
Me vem. Olho estas cousas com fastio,
E deixo-as ir, como se vai sem dono
Barco largado na tensão do rio."
Publicado no livro Poesias, 1904/1911: terceira série (1913). Poema integrante da série Natália.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
2 471
Edimilson de Almeida Pereira
Tear
O amor é farto.
Nas terrinas foge sob
olhos que cercam
(encarcerados).
o amor vige,
ao resto, embornal.
A sobra tem pegadas
do amor: por isso sobra
no campo.
Amor se debruça
no vão das costelas.
E após, se configura
em renda, texto,
memória.
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.64. Poema integrante da série Hipocampo
Nas terrinas foge sob
olhos que cercam
(encarcerados).
o amor vige,
ao resto, embornal.
A sobra tem pegadas
do amor: por isso sobra
no campo.
Amor se debruça
no vão das costelas.
E após, se configura
em renda, texto,
memória.
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.64. Poema integrante da série Hipocampo
1 409
Raimundo Correia
O Vinho de Hebe
Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...
A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...
E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.
Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.4
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...
A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...
E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.
Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.4
4 960
Cora Coralina
O Longínquo Cantar do Carro
(...)
Carregar o carro, jungir os bois,
pegar na dispensa da casa grande mantimento para a viagem,
— quatro dias ida e volta, receber a lista das encomendas,
levar bruacas de couro por cima do taboado com os presentes
que a fazenda oferecia a parentes,
era a rotina da vida no Paraíso e nós, jovens, ansiando já pela volta
[do carro,
cartas e jornais do Rio de Janeiro.
Minha mãe era assinante do "Paiz" e para nós vinham os romances
do Gabinete Literário Goiano.
Esperar a volta do carro, imaginar as coisas que viriam da cidade,
tomavam a imaginação desocupada das meninas moças.
Acostumei a ler jornais com a leitura do "Paiz".
Colaboravam Carlos de Laet, Arthur Azevedo, Júlia Lopes de Almeida,
Carmem Dolores.
Meus primeiros escritinhos foram publicados no suplemento desse
[jornal.
Acompanhei, na sua leitura, fatos e acontecimentos universais.
O casamento de Afonso XIII com a princesa de Betenberg,
neta da rainha Vitória, um atentado anarquista,
uma bomba atirada no cortejo nupcial.
E mais todo o desenrolar da guerra russo-japonesa no começo deste
[século,
onde o Japão se revelou potência bélica, vencendo a Rússia.
Muitos meninos nascidos naquele tempo
tiveram o nome de Togo, o grande general japonês
A casa esperava o café. Regrava-se o sal na cozinha.
As mulheres dos moradores também esperavam suas encomendas.
Chita vistosa para vestidos, chinelos para dia santo e domingo.
Pente. Carrinho de linha, agulheiro, peça de algodão Americano.
Salamargo, riscado para camisa de homem. Metros de mescla barata
para o nu dos meninos, lenço ramado pra cabeça.
Alguma ferramenta para o serviço.
A "carrada" tinha que pagar toda esta bagaceira,
às vezes um saldo, mais vezes um "deve" no comércio
para acertar "da outra vez".
Uma festa, apurar o ouvido ao longínquo cantar do carro,
avistado na distância, esperar as novidades que vinham:
cartas, livros e jornais.
Era uma vida para aquela mocidade despreocupada,
pobre e feita de sonhos.
Imagem - 00580006
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
Carregar o carro, jungir os bois,
pegar na dispensa da casa grande mantimento para a viagem,
— quatro dias ida e volta, receber a lista das encomendas,
levar bruacas de couro por cima do taboado com os presentes
que a fazenda oferecia a parentes,
era a rotina da vida no Paraíso e nós, jovens, ansiando já pela volta
[do carro,
cartas e jornais do Rio de Janeiro.
Minha mãe era assinante do "Paiz" e para nós vinham os romances
do Gabinete Literário Goiano.
Esperar a volta do carro, imaginar as coisas que viriam da cidade,
tomavam a imaginação desocupada das meninas moças.
Acostumei a ler jornais com a leitura do "Paiz".
Colaboravam Carlos de Laet, Arthur Azevedo, Júlia Lopes de Almeida,
Carmem Dolores.
Meus primeiros escritinhos foram publicados no suplemento desse
[jornal.
Acompanhei, na sua leitura, fatos e acontecimentos universais.
O casamento de Afonso XIII com a princesa de Betenberg,
neta da rainha Vitória, um atentado anarquista,
uma bomba atirada no cortejo nupcial.
E mais todo o desenrolar da guerra russo-japonesa no começo deste
[século,
onde o Japão se revelou potência bélica, vencendo a Rússia.
Muitos meninos nascidos naquele tempo
tiveram o nome de Togo, o grande general japonês
A casa esperava o café. Regrava-se o sal na cozinha.
As mulheres dos moradores também esperavam suas encomendas.
Chita vistosa para vestidos, chinelos para dia santo e domingo.
Pente. Carrinho de linha, agulheiro, peça de algodão Americano.
Salamargo, riscado para camisa de homem. Metros de mescla barata
para o nu dos meninos, lenço ramado pra cabeça.
Alguma ferramenta para o serviço.
A "carrada" tinha que pagar toda esta bagaceira,
às vezes um saldo, mais vezes um "deve" no comércio
para acertar "da outra vez".
Uma festa, apurar o ouvido ao longínquo cantar do carro,
avistado na distância, esperar as novidades que vinham:
cartas, livros e jornais.
Era uma vida para aquela mocidade despreocupada,
pobre e feita de sonhos.
Imagem - 00580006
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
2 495
Cora Coralina
Aquela Gente Antiga - II
Aquela gente antiga explorava a minha bobice.
Diziam assim, virando a cara como se eu estivesse distante:
"Senhora Jacinta tem quatro fulores mal falando.
Três acham logo casamento, uma, não sei não, moça feia num casa
[fácil."
Eu me abria em lágrimas. Choro manso e soluçado...
"Essa boba... Chorona... Ninguém nem falou o nome dela..."
Minha bisavó ralhava, me consolava com palavras de ilusão:
Sim, que eu casava. Que certo mesmo era menina feia, moça bonita.
E me dava a metade de uma bolacha.
Eu me consolava e me apegava à minha bisavó.
Cresci com os meus medos e com o chá de raiz de fedegoso,
prescrito pelo saber de minha bisavó.
Certo que perdi a aparência bisonha. Fiquei corada
e achei quem me quisesse.
Sim, que esse não estava contaminado dos princípios goianos,
de que moça que lia romance e declamava Almeida Garrett
não dava boa dona de casa.
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
Diziam assim, virando a cara como se eu estivesse distante:
"Senhora Jacinta tem quatro fulores mal falando.
Três acham logo casamento, uma, não sei não, moça feia num casa
[fácil."
Eu me abria em lágrimas. Choro manso e soluçado...
"Essa boba... Chorona... Ninguém nem falou o nome dela..."
Minha bisavó ralhava, me consolava com palavras de ilusão:
Sim, que eu casava. Que certo mesmo era menina feia, moça bonita.
E me dava a metade de uma bolacha.
Eu me consolava e me apegava à minha bisavó.
Cresci com os meus medos e com o chá de raiz de fedegoso,
prescrito pelo saber de minha bisavó.
Certo que perdi a aparência bisonha. Fiquei corada
e achei quem me quisesse.
Sim, que esse não estava contaminado dos princípios goianos,
de que moça que lia romance e declamava Almeida Garrett
não dava boa dona de casa.
In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
3 987
Castro Alves
Quando eu Morrer
Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
JUNQUEIRA FREIRE
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.
Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.
Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.
Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...
Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...
Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...
Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."
Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
...Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...
São Paulo, março de 1869.
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
JUNQUEIRA FREIRE
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.
Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.
Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.
Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...
Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...
Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...
Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."
Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
...Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...
São Paulo, março de 1869.
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
3 570
Paulo Setúbal
A Vila
Lembro-me bem dessa vilota rude,
Onde eu me fui, sem gosto e sem saúde,
Buscar um poiso para os meus cansaços.
Que terra triste! Triste e sertaneja:
A escola, a hospedaria, a antiga igreja,
E a capelinha do Senhor dos Passos...
Na esquina, em frente à Câmara, o barbeiro,
Logo depois, num colossal letreiro,
A "Loja Popular" do velho Lopes.
E é bem no largo da Matriz que fica
A sempiterna, a clássica botica,
Com seus reclames de óleos e xaropes...
Ah! Foi aí, nesse ermo de tristeza,
Nessa terreola fúnebre e burguesa,
Tão sem encantos, tão descolorida,
Que eu fui viver, com lágrimas e flores,
No mais cruel amor dos meus amores,
A página melhor da minha vida!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
Onde eu me fui, sem gosto e sem saúde,
Buscar um poiso para os meus cansaços.
Que terra triste! Triste e sertaneja:
A escola, a hospedaria, a antiga igreja,
E a capelinha do Senhor dos Passos...
Na esquina, em frente à Câmara, o barbeiro,
Logo depois, num colossal letreiro,
A "Loja Popular" do velho Lopes.
E é bem no largo da Matriz que fica
A sempiterna, a clássica botica,
Com seus reclames de óleos e xaropes...
Ah! Foi aí, nesse ermo de tristeza,
Nessa terreola fúnebre e burguesa,
Tão sem encantos, tão descolorida,
Que eu fui viver, com lágrimas e flores,
No mais cruel amor dos meus amores,
A página melhor da minha vida!
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
2 404
Olegário Mariano
Fulaninha
Foxtrotando pela rua
Vai Fulaninha, seminua,
Tem movimentos de onda do mar.
O corpo moço, a pele fresca,
Futurista, bataclanesca,
Chi! Eu gosto! Nem é bom falar...
Pisa a calçada, toc... toc...
No seu encalço vão a reboque
Peralvilhos, gênios do mal.
E ela nem liga... Continua
Foxtrotando pela rua...
Gentes, Que coisa mais fatal!
Figurino de dia cálido!
O seu semblante moreno-pálido
A mão de um gênio foi que compôs.
Como se chama? Vera? Estefânia?
Meu Luluzinho da Pomerânia,
Meu Luluzinho número 2!
Aonde vais, lindo vagalume?
— Vou ao Bazin comprar perfume...
Guerlain, Houbigant, Coty?
Todo o perfume é o mesmo, ardente,
E alucinante, e estuante, e quente,
Quando o perfume vem de ti.
— Meu bizarro João da Avenida!
Já ficou bom daquela ferida
Que lhe abriram no coração?
— Há muito tempo estou curado.
Por que falar-me do Passado?
E ela pôs os olhos no chão.
E dizer que tu foste... Perdoa...
— Pr'a que dizer? A lembrança é boa
— Lembrar é falta de educação.
— Mas a saudade purifica...
O sofrimento é o único bem que fica
Para a volúpia do perdão!
In: MARIANO, Olegário. Ba-Ta-Clan. Figurinhas de J. Carlos. Rio de Janeiro: B. Costallat & Micolis, 1924
Vai Fulaninha, seminua,
Tem movimentos de onda do mar.
O corpo moço, a pele fresca,
Futurista, bataclanesca,
Chi! Eu gosto! Nem é bom falar...
Pisa a calçada, toc... toc...
No seu encalço vão a reboque
Peralvilhos, gênios do mal.
E ela nem liga... Continua
Foxtrotando pela rua...
Gentes, Que coisa mais fatal!
Figurino de dia cálido!
O seu semblante moreno-pálido
A mão de um gênio foi que compôs.
Como se chama? Vera? Estefânia?
Meu Luluzinho da Pomerânia,
Meu Luluzinho número 2!
Aonde vais, lindo vagalume?
— Vou ao Bazin comprar perfume...
Guerlain, Houbigant, Coty?
Todo o perfume é o mesmo, ardente,
E alucinante, e estuante, e quente,
Quando o perfume vem de ti.
— Meu bizarro João da Avenida!
Já ficou bom daquela ferida
Que lhe abriram no coração?
— Há muito tempo estou curado.
Por que falar-me do Passado?
E ela pôs os olhos no chão.
E dizer que tu foste... Perdoa...
— Pr'a que dizer? A lembrança é boa
— Lembrar é falta de educação.
— Mas a saudade purifica...
O sofrimento é o único bem que fica
Para a volúpia do perdão!
In: MARIANO, Olegário. Ba-Ta-Clan. Figurinhas de J. Carlos. Rio de Janeiro: B. Costallat & Micolis, 1924
1 045