Poemas neste tema
Música
Sebastião Uchoa Leite
Ouvivendo Stockhausen
Quando Harlequin entra
Para o solo de clarinete
Iniciado com ecos do fauno
O olhouvido se petrifica
Suzanne Stephens
Colante multicolor
Contorce-se em curvas
A música também se contorce
A sombra se reflete no fundo
Uma sombra nua
O solo se reflete no espaço
Música-espelho
O clarinete é um símbolo
Arlequim
É o mensageiro do diabo
Ela dialoga com o símbolo
Dançando com o clarinete
Até o sopro final
Até o último suspiro
1988
Poema integrante da série Cortes/Toques, 1983-1988.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma)
Para o solo de clarinete
Iniciado com ecos do fauno
O olhouvido se petrifica
Suzanne Stephens
Colante multicolor
Contorce-se em curvas
A música também se contorce
A sombra se reflete no fundo
Uma sombra nua
O solo se reflete no espaço
Música-espelho
O clarinete é um símbolo
Arlequim
É o mensageiro do diabo
Ela dialoga com o símbolo
Dançando com o clarinete
Até o sopro final
Até o último suspiro
1988
Poema integrante da série Cortes/Toques, 1983-1988.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma)
1 004
Murillo Mendes
Perspectiva da Sala da Jantar
A filha do modesto funcionário público
dá um bruto interesse à natureza-morta
da sala pobre no subúrbio.
O vestido amarelo de organdi
distribui cheiros apetitosos de carne morena
saindo do banho com sabonete barato.
O ambiente parado esperava mesmo aquela vibração:
papel ordinário representando florestas com tigres,
uma Ceia onde os personagens não comem nada
a mesa com a toalha furada
a folhinha que a dona da casa segue o conselho
e o piano que eles não têm sala de visitas.
A menina olha longamente pro corpo dela
como se ele hoje estivesse diferente,
depois senta-se ao piano comprado a prestações
e o cachorro malandro do vizinho
toma nota dos sons com atenção.
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
dá um bruto interesse à natureza-morta
da sala pobre no subúrbio.
O vestido amarelo de organdi
distribui cheiros apetitosos de carne morena
saindo do banho com sabonete barato.
O ambiente parado esperava mesmo aquela vibração:
papel ordinário representando florestas com tigres,
uma Ceia onde os personagens não comem nada
a mesa com a toalha furada
a folhinha que a dona da casa segue o conselho
e o piano que eles não têm sala de visitas.
A menina olha longamente pro corpo dela
como se ele hoje estivesse diferente,
depois senta-se ao piano comprado a prestações
e o cachorro malandro do vizinho
toma nota dos sons com atenção.
Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
1 866
Ascenso Ferreira
Toré
Os dois maracás,
um fino e outro grosso,
fazem alvoroço
nas mãos do Pajé:
— Toré!
— Toré!
Bambus enfeitados,
compridos e ocos,
produzem sons roucos
de querequexé!
— Toré!
— Toré!
Lá vem a asa-branca,
no espaço voando,
vem alto, gritando...
— Meus Deus, o que é?
— Toré!
— Toré!
— É o Caracará
que está na floresta,
vai ver minha besta
de pau catolé...
— Toré!
— Toré!
Cabocla bonita,
do passo quebrado,
teu beiço encarnado,
parece um café
— Toré!
— Toré!
Pra te ver, cabocla!
na minha maloca,
fiando na roça,
torrando pipoca,
eu entro na toca
e mato onça a quicé!
— Toré!
— Toré!
Publicado no livro Cana caiana (1939).
In: FERREIRA, Ascenso. Poemas: Catimbó, Cana Caiana, Xenhenhém. Il. por 20 artistas plásticos pernambucanos. Recife: Nordestal, 198
um fino e outro grosso,
fazem alvoroço
nas mãos do Pajé:
— Toré!
— Toré!
Bambus enfeitados,
compridos e ocos,
produzem sons roucos
de querequexé!
— Toré!
— Toré!
Lá vem a asa-branca,
no espaço voando,
vem alto, gritando...
— Meus Deus, o que é?
— Toré!
— Toré!
— É o Caracará
que está na floresta,
vai ver minha besta
de pau catolé...
— Toré!
— Toré!
Cabocla bonita,
do passo quebrado,
teu beiço encarnado,
parece um café
— Toré!
— Toré!
Pra te ver, cabocla!
na minha maloca,
fiando na roça,
torrando pipoca,
eu entro na toca
e mato onça a quicé!
— Toré!
— Toré!
Publicado no livro Cana caiana (1939).
In: FERREIRA, Ascenso. Poemas: Catimbó, Cana Caiana, Xenhenhém. Il. por 20 artistas plásticos pernambucanos. Recife: Nordestal, 198
2 549
Gilka Machado
Encantamento
A Francisco Alves
- O perfeito intérprete da canção brasileira
Canta,
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.
Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.
Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...
Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!
Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo
para tua linda voz.
(...)
Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 335
- O perfeito intérprete da canção brasileira
Canta,
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.
Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.
Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...
Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!
Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo
para tua linda voz.
(...)
Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 335
2 344
Mário Faustino
Cino
Campagna italiana 1309, em plena estrada
Arre! já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei do sol.
Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.
Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, "Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!"
Uma vez, duas vezes, um ano —
E vagamente assim se exprimem:
"Cino?" "Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata?"
"Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas...
"São todos a mesma coisa, esses vagabundos
Peste! As canções eram dele?
Ou cantava as dos outros?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade?"
Mas e o senhor, "Meu Senhor", bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino SemTerra, tal como eu sou,
O Sinistro.
Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei o sol.
... eh?... a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei o sol.
'Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d'azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!
'Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze de teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem nós!
Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol...
...................................
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
Arre! já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei do sol.
Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.
Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, "Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!"
Uma vez, duas vezes, um ano —
E vagamente assim se exprimem:
"Cino?" "Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata?"
"Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas...
"São todos a mesma coisa, esses vagabundos
Peste! As canções eram dele?
Ou cantava as dos outros?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade?"
Mas e o senhor, "Meu Senhor", bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino SemTerra, tal como eu sou,
O Sinistro.
Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei o sol.
... eh?... a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei o sol.
'Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d'azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!
'Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze de teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem nós!
Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol...
...................................
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
1 338
Glauco Mattoso
Cansioneiro, 1977
viramundo vaila estrada violeiro
barravento ventania travessia disparada
arrastão veleiro saveiro jangadeiro canoeiro
caminhemos caminhando caminhada
andança chegança ponteio boiadeiro
berimbau arueira aruanda enluarada
opinião louvação cantador cirandeiro
banda sarabanda porta-estandarte batucada
incerteza insensatez inquietação
fracasso palhaço jurei errei sofri
antonico tico-tico maracangalha construção
rosa roda ronda bodas baby zambi
cadência decadência aquarela conceição
adalgisa amélia aurora irene geni
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
barravento ventania travessia disparada
arrastão veleiro saveiro jangadeiro canoeiro
caminhemos caminhando caminhada
andança chegança ponteio boiadeiro
berimbau arueira aruanda enluarada
opinião louvação cantador cirandeiro
banda sarabanda porta-estandarte batucada
incerteza insensatez inquietação
fracasso palhaço jurei errei sofri
antonico tico-tico maracangalha construção
rosa roda ronda bodas baby zambi
cadência decadência aquarela conceição
adalgisa amélia aurora irene geni
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
1 276
Glauco Mattoso
Tropicalista, 1999
Uma antropofagia, até tardia,
tornou a nossa música salada
de fruta, nacional ou importada,
naquela tropicália de alegria.
Sessenta foi a década do dia:
solar, viva na cor, iluminada.
Criou-se como não se cria nada.
Valia tudo e tudo, então, valia.
Caetano, Gil, Mutantes, circo e pão.
Modernantiga guarda, esquerdireita.
Barroco'n'roll. Mambossa. Rumbaião.
Eu era adolescente, e, certa feita,
senti num festival que uma canção
é letra, e tudo nela se aproveita.
In: MATTOSO, Glauco. Paulisseia ilhada: sonetos tópicos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999.
tornou a nossa música salada
de fruta, nacional ou importada,
naquela tropicália de alegria.
Sessenta foi a década do dia:
solar, viva na cor, iluminada.
Criou-se como não se cria nada.
Valia tudo e tudo, então, valia.
Caetano, Gil, Mutantes, circo e pão.
Modernantiga guarda, esquerdireita.
Barroco'n'roll. Mambossa. Rumbaião.
Eu era adolescente, e, certa feita,
senti num festival que uma canção
é letra, e tudo nela se aproveita.
In: MATTOSO, Glauco. Paulisseia ilhada: sonetos tópicos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999.
1 639
Bruno de Menezes
Maria D'Aparecida, 1963
Ai, ai, Brasil,
das gostosuras morenas!
Para que sapoti, Ângela Maria,
pó de canela, tanta
coisa apetecida,
se tens Maria D'Aparecida,
que os franceses recomendam:
"Regardez-la bien et retenez son nom"!
Ai, ai, Brasil,
de alma branca por dentro,
todo moreno por fora!
Pra que coco da Bahia,
se tens Maria D'Aparecida,
morena Iemanjá nascida
no areal da Guanabara?
Ai, ai, Brasil,
do canto do uirapuru,
de outros pássaros-feitiço!
Para que solos alados
de sabiás do poeta,
se tens Maria D'Aparecida,
que traz, na voz languescida,
moreno, dourado mel?
Ai, ai, Brasil,
de nossas brasileirinhas
que em Paris fazem cartaz!
Pra que café adoçado,
cheiroso, bom, que convida,
se tens Maria D'Aparecida,
das convivas a mais fina?
Ai, ai, Brasil,
da beleza, do talento,
como arte em "performance"!
Tudo isto sintonizado
na nossa brasileirinha
de alma em canção diluída,
Maria D'Aparecida!
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.528-529. (Lendo o Pará, 14)
NOTA: Último poema feito em Belém. Intérprete vocal de Villa-Lobos, W. Henrique e Ernani Braga, com seu programa "Brasil em Paris, Maria D'Aparecida se tornou, segundo os franceses, a mais parisiense dos brasileiros
das gostosuras morenas!
Para que sapoti, Ângela Maria,
pó de canela, tanta
coisa apetecida,
se tens Maria D'Aparecida,
que os franceses recomendam:
"Regardez-la bien et retenez son nom"!
Ai, ai, Brasil,
de alma branca por dentro,
todo moreno por fora!
Pra que coco da Bahia,
se tens Maria D'Aparecida,
morena Iemanjá nascida
no areal da Guanabara?
Ai, ai, Brasil,
do canto do uirapuru,
de outros pássaros-feitiço!
Para que solos alados
de sabiás do poeta,
se tens Maria D'Aparecida,
que traz, na voz languescida,
moreno, dourado mel?
Ai, ai, Brasil,
de nossas brasileirinhas
que em Paris fazem cartaz!
Pra que café adoçado,
cheiroso, bom, que convida,
se tens Maria D'Aparecida,
das convivas a mais fina?
Ai, ai, Brasil,
da beleza, do talento,
como arte em "performance"!
Tudo isto sintonizado
na nossa brasileirinha
de alma em canção diluída,
Maria D'Aparecida!
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.528-529. (Lendo o Pará, 14)
NOTA: Último poema feito em Belém. Intérprete vocal de Villa-Lobos, W. Henrique e Ernani Braga, com seu programa "Brasil em Paris, Maria D'Aparecida se tornou, segundo os franceses, a mais parisiense dos brasileiros
2 936
Pedro Nava
Noturno de Chopin
Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin
Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...
Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.
Os olhos de você, amor...
O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin
Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...
Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.
Os olhos de você, amor...
O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
1 560
Alphonsus de Guimaraens
O Lago de Tai-Hu
(Poesia chinesa de Yang-Pi)
Uma após outra (os ares são tranqüilos)
As gôndolas deslizam suavemente.
O espaço cortam sons de flauta... e a gente
Tem o ouvido encantado só de ouvi-los.
Oh Lago de Tai-Hu! Poente vermelho...
O vento morre em calmaria e o undoso
Céu, repleto de azul, vem luminoso
Refletir-se no movediço espelho.
Publicado no livro Poesias (1938). Segundo João Alphonsus, tradução de poema que se encontra como parte inicial da terceira novela, Mariage Forcé, em Trois Nouvelles Chinoises traduites pour la première fois par le Marquis D’Hervev-Saint-Denis (1885).
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 199. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Uma após outra (os ares são tranqüilos)
As gôndolas deslizam suavemente.
O espaço cortam sons de flauta... e a gente
Tem o ouvido encantado só de ouvi-los.
Oh Lago de Tai-Hu! Poente vermelho...
O vento morre em calmaria e o undoso
Céu, repleto de azul, vem luminoso
Refletir-se no movediço espelho.
Publicado no livro Poesias (1938). Segundo João Alphonsus, tradução de poema que se encontra como parte inicial da terceira novela, Mariage Forcé, em Trois Nouvelles Chinoises traduites pour la première fois par le Marquis D’Hervev-Saint-Denis (1885).
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 199. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
2 503
Álvares de Azevedo
Tenho um seio que delira
I
Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!
II
Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!
III
Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!
IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemeu,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos loiros do céu!
V
Vibra à noite do mistério,
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!
VI
Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!
II
Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!
III
Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!
IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemeu,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos loiros do céu!
V
Vibra à noite do mistério,
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!
VI
Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
3 024
Mafalda Veiga
O menino do piano (um sonho do Tomás)
vi um menino com um piano
no céu da minha cabeça
veio de tão longe só para me pedir
que nunca o esqueça
vinha a tocar o seu piano
como só nos sonhos pode ser
por entre as nuvens e as estrelas
apareceu quando me viu adormecer
ficou sentado perto de mim
onde mora a fantasia
quis-lhe tocar mas não se pode ter
a noite a iluminar o dia
soprou devagarinho uma estrela
que se acendeu na sua mão
disse-me: podes sempre vê-la
se souberes soprá-la no teu coração
vi um menino com um piano
a despedir-se de mim
com uma nuvem fez o mar e partiu
(nos sonhos pode ser assim)
disse-me: está a nascer o dia
vou pra onde a noite se esconder
volto com a primeira estrela
para tu nunca teres medo ao escurecer
no céu da minha cabeça
veio de tão longe só para me pedir
que nunca o esqueça
vinha a tocar o seu piano
como só nos sonhos pode ser
por entre as nuvens e as estrelas
apareceu quando me viu adormecer
ficou sentado perto de mim
onde mora a fantasia
quis-lhe tocar mas não se pode ter
a noite a iluminar o dia
soprou devagarinho uma estrela
que se acendeu na sua mão
disse-me: podes sempre vê-la
se souberes soprá-la no teu coração
vi um menino com um piano
a despedir-se de mim
com uma nuvem fez o mar e partiu
(nos sonhos pode ser assim)
disse-me: está a nascer o dia
vou pra onde a noite se esconder
volto com a primeira estrela
para tu nunca teres medo ao escurecer
1 207
Cruz e Sousa
Incensos
Dentre o chorar dos trêmulos violinos,
por entre os sons dos órgãos soluçantes
sobem nas catedrais os neblinantes
incensos vagos, que recordam hinos...
Rolos d'incensos alvadios, finos
e transparentes, fúlgidos, radiantes,
que elevam-se aos espaços, ondulantes,
em Quimeras e Sonhos diamantinos.
Relembrando turíbulos de prata
incensos aromáticos desata
teu corpo ebúrneo, de sedosos flancos.
Claros incensos imortais que exalam,
que lânguidas e límpidas trescalam
as luas virgens dos teus seios brancos.
Publicado no Livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981. pg. 32
por entre os sons dos órgãos soluçantes
sobem nas catedrais os neblinantes
incensos vagos, que recordam hinos...
Rolos d'incensos alvadios, finos
e transparentes, fúlgidos, radiantes,
que elevam-se aos espaços, ondulantes,
em Quimeras e Sonhos diamantinos.
Relembrando turíbulos de prata
incensos aromáticos desata
teu corpo ebúrneo, de sedosos flancos.
Claros incensos imortais que exalam,
que lânguidas e límpidas trescalam
as luas virgens dos teus seios brancos.
Publicado no Livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1981. pg. 32
4 061
Mafalda Veiga
Por esta cidade fora
Nem sempre esta cidade
Anoitece assim
Perdida na maresia
E no nevoeiro
Nem sempre se sabe
Do fim do sonho
Que se guarda inteiro
Às vezes é preciso
Desfazer o nó
Desancorar por dentro
Quem se amou
Deixar seguir
Abrir os braços
E ver o que ficou
A cor da fogueira
É como um barco aceso ao largo
Sem fim nem fronteira sem correr
A companhia é o teu riso
É não deixar esta noite morrer
Há sempre nesta cidade
Um sabor a mar
O som de uma guitarra
E de um fado
Que se enleia no vento assim
Só isso quero
Guardar para mim
A cor da fogueira
É como um barco a ir embora
Sem fim nem fronteira
Quando a noite nos acolhe
À conversa sem ter pressa
Por esta cidade fora
Anoitece assim
Perdida na maresia
E no nevoeiro
Nem sempre se sabe
Do fim do sonho
Que se guarda inteiro
Às vezes é preciso
Desfazer o nó
Desancorar por dentro
Quem se amou
Deixar seguir
Abrir os braços
E ver o que ficou
A cor da fogueira
É como um barco aceso ao largo
Sem fim nem fronteira sem correr
A companhia é o teu riso
É não deixar esta noite morrer
Há sempre nesta cidade
Um sabor a mar
O som de uma guitarra
E de um fado
Que se enleia no vento assim
Só isso quero
Guardar para mim
A cor da fogueira
É como um barco a ir embora
Sem fim nem fronteira
Quando a noite nos acolhe
À conversa sem ter pressa
Por esta cidade fora
992
Eduardo Guimaraens
Aos Lustres
Suspensos, nos salões, dos tetos decorados,
que de arabescos orna o gesso alvinitente,
ó lustres de cristal, enganadoramente
ao mesmo tempo sois sonoros e calados.
Pesados, dais no entanto às pompas do ambiente,
onde há ricos painéis entre florões dourados,
a mais aérea graça; e o os olhos deslumbrados
sentem que os cega o vosso encanto reluzente.
Que o silêncio ao redor guarde a fragilidade
translúcida que sois: e ouçam-se quase a medo
os rumores quaisquer que em torno a voz se formem!
Toquem-vos docemente a sombra, a claridade...
Nem se turbe jamais, ó lustres, o segredo
das vibrações que em vós musicalmente dormem!
Publicado no Jornal da Manhã (Porto Alegre, 1908).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 3.ed. rev. e ampl. São Paulo: Perspectiva, 1987. v.2, p.1058
que de arabescos orna o gesso alvinitente,
ó lustres de cristal, enganadoramente
ao mesmo tempo sois sonoros e calados.
Pesados, dais no entanto às pompas do ambiente,
onde há ricos painéis entre florões dourados,
a mais aérea graça; e o os olhos deslumbrados
sentem que os cega o vosso encanto reluzente.
Que o silêncio ao redor guarde a fragilidade
translúcida que sois: e ouçam-se quase a medo
os rumores quaisquer que em torno a voz se formem!
Toquem-vos docemente a sombra, a claridade...
Nem se turbe jamais, ó lustres, o segredo
das vibrações que em vós musicalmente dormem!
Publicado no Jornal da Manhã (Porto Alegre, 1908).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 3.ed. rev. e ampl. São Paulo: Perspectiva, 1987. v.2, p.1058
2 132
Mafalda Veiga
Cidade
À noite
No silêncio da rua
Passavam ciganos cantando
E a cidade chamava
Nas luzes perdidas do rio
No teu carro
Andámos por aí
Bebemos cerveja e falámos
Entre sombras de prédios calados
E sonhos de homens cansados
E algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Há escuro
Na inquietação do vento
Nas luzes esquecidas do rio
E tentam roubar-nos os dias
Tentam calar-nos as forças
Mas algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio, perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
No teu carro
Cruzámos as fronteiras
Bebemos cervejas e sonhámos
De tudo o que há sem regresso
Quem guardará o passado?
Entrego-me
Em passos sem destino
Até onde a fúria se acalma
vou procurando a gente
Que à noite na rua cantava
E algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
No silêncio da rua
Passavam ciganos cantando
E a cidade chamava
Nas luzes perdidas do rio
No teu carro
Andámos por aí
Bebemos cerveja e falámos
Entre sombras de prédios calados
E sonhos de homens cansados
E algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Há escuro
Na inquietação do vento
Nas luzes esquecidas do rio
E tentam roubar-nos os dias
Tentam calar-nos as forças
Mas algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio, perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
No teu carro
Cruzámos as fronteiras
Bebemos cervejas e sonhámos
De tudo o que há sem regresso
Quem guardará o passado?
Entrego-me
Em passos sem destino
Até onde a fúria se acalma
vou procurando a gente
Que à noite na rua cantava
E algo em mim sobrevive
Desesperadamente
Quero que por fim nos traga o sol
Andando pelo rio perdidos na claridade
Hoje só quero deixar viver este momento
Hoje só quero caminhar pela cidade
1 163
Edgar Allan Poe
The Bells — A Song
The bells! — hear the bells!
The merry wedding bells!
The little silver bells!
How fairy-like a melody there swells
From the silver tinkling cells
Of the bells, bells, bells!
Of the bells!
The bells! — ah, the bells!
The heavy iron bells!
Hear the tolling of the bells!
Hear the knells!
How horrible a monody there floats
From their throats —
From their deep-toned throats!
How I shudder at the notes
From the melancholy throats
Of the bells, bells, bells —
Of the bells —
1849
The merry wedding bells!
The little silver bells!
How fairy-like a melody there swells
From the silver tinkling cells
Of the bells, bells, bells!
Of the bells!
The bells! — ah, the bells!
The heavy iron bells!
Hear the tolling of the bells!
Hear the knells!
How horrible a monody there floats
From their throats —
From their deep-toned throats!
How I shudder at the notes
From the melancholy throats
Of the bells, bells, bells —
Of the bells —
1849
1 143
Cruz e Sousa
PRODÍGIO!
Últimos Sonetos
Como o Rei Lear não sentes a tormenta
que te desaba na fatal cabeça!
(Que o céu d'estrelas todo resplandeça.)
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta.
A Desventura mais sanguinolenta
sobre os teus ombros impiedosa desça,
seja a treva mais funda e mais espessa,
Todo o teu ser em músicas rebenta.
Em músicas e em flores infinitas
de aromas e de formas esquisitas
e de um mistério singular, nevoento...
Ah! só da Dor o alto farol supremo,
consegue iluminar, de extremo a extremo,
o estranho mar genial do Sentimento!
Como o Rei Lear não sentes a tormenta
que te desaba na fatal cabeça!
(Que o céu d'estrelas todo resplandeça.)
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta.
A Desventura mais sanguinolenta
sobre os teus ombros impiedosa desça,
seja a treva mais funda e mais espessa,
Todo o teu ser em músicas rebenta.
Em músicas e em flores infinitas
de aromas e de formas esquisitas
e de um mistério singular, nevoento...
Ah! só da Dor o alto farol supremo,
consegue iluminar, de extremo a extremo,
o estranho mar genial do Sentimento!
1 839
Manuel Machado
Cantares
Vinho, sentimentos, guitarra e poesia
fazem os cantares da pátria minha.
Cantares...
Quem disse cantares disse Andaluzia.
À sombra fresca da velha parreira,
um moço dedilha a guitarra...
Cantares...
Algo que acaricia e algo que dilacera
"A nota aguda" que canta e o "baixo que chora...
E o tempo calado se vai hora após hora.
Cantares...
São marcas fatais da raça moura.
Não importa a vida, que já está perdida,
e, depois de tudo, que é isso, a vida?...
Cantares...
Cantando a dor, a dor se esquece.
Mãe, dor, sorte, dor, mãe, morte,
olhos pretos, negros, e negra a sorte...
Cantares...
Neles a alma da alma se verte.
Cantares. Cantares da pátria minha,
quem disse cantares disse Andaluzia.
Cantares...
Não tem mais notas a guitarra minha.
fazem os cantares da pátria minha.
Cantares...
Quem disse cantares disse Andaluzia.
À sombra fresca da velha parreira,
um moço dedilha a guitarra...
Cantares...
Algo que acaricia e algo que dilacera
"A nota aguda" que canta e o "baixo que chora...
E o tempo calado se vai hora após hora.
Cantares...
São marcas fatais da raça moura.
Não importa a vida, que já está perdida,
e, depois de tudo, que é isso, a vida?...
Cantares...
Cantando a dor, a dor se esquece.
Mãe, dor, sorte, dor, mãe, morte,
olhos pretos, negros, e negra a sorte...
Cantares...
Neles a alma da alma se verte.
Cantares. Cantares da pátria minha,
quem disse cantares disse Andaluzia.
Cantares...
Não tem mais notas a guitarra minha.
1 243
Germán Carrasco
Para uma aprendiz de Espanhol
Sons que raspam a garganta como certos sabores,
ruídos na rugiente Babel, ritmo e rareza de uma língua
cujo ronco raspar fricando alvéolos retumba
certa rudeza ou rugir de raça rara, erres
tribais, endogamias, difíceis, o último de aprender
em uma língua: linguagem refinada da poesia ou um
áspero blues, se prefere: delirario:diário de lírios e delírios
mas já que desordem como a de teu cabelo sem ir mais longe
é uma desordem dinâmica, por aí temos de começar: de rosa.
ruídos na rugiente Babel, ritmo e rareza de uma língua
cujo ronco raspar fricando alvéolos retumba
certa rudeza ou rugir de raça rara, erres
tribais, endogamias, difíceis, o último de aprender
em uma língua: linguagem refinada da poesia ou um
áspero blues, se prefere: delirario:diário de lírios e delírios
mas já que desordem como a de teu cabelo sem ir mais longe
é uma desordem dinâmica, por aí temos de começar: de rosa.
813
Mariza Fontes de Almeida
Sonhar de sonhar
Gostaria de sair caminhando
por aí,
entre notas musicais,
sozinha, olhos, fechados, sonhando...
...em sonhar cada vez mais!...
Gostaria de, no meio da escala,
encontrar-te assim, de repente,
e que as notas
te dissessem tudo o que sente
essa caixa de rimas sem jeito,
da forma precisa de um coração,
que me bate louca dentro do peito!
E que, depois de tudo te falar,
cantasse, numa linda canção,
todo esse acorde de amores
que guardei para te dar!...
por aí,
entre notas musicais,
sozinha, olhos, fechados, sonhando...
...em sonhar cada vez mais!...
Gostaria de, no meio da escala,
encontrar-te assim, de repente,
e que as notas
te dissessem tudo o que sente
essa caixa de rimas sem jeito,
da forma precisa de um coração,
que me bate louca dentro do peito!
E que, depois de tudo te falar,
cantasse, numa linda canção,
todo esse acorde de amores
que guardei para te dar!...
900
Marilina Ross
Dança
Dança sobre restos de cristais
deste tempo não tão belo
porque sozinha não estás
Dança sobre antigas cinzas
sobre todas as tuas feridas
sozinha não estás
Se a imagem de teu espelho já não está
será que estás
aprendendo a caminhar?
Dança sobre tua casa, entre a erva
o odor do inverno
sozinha não estás
Dança bela criança, pequena criança
distorções do tempo...
sozinha não estás
Sobre a fumaça que cobriu
a luz de nossa cidade
e ainda que doa
não a podemos modificar
Dança sobre a dor
que a dança à consumirá
Dança sobre a tua rua que dança
sobre esta casa que dança
se não se pode fazer mais...
Dança sobre a desventura
à luz da lua
sobre o campo e o mar
Dança, é caricia, é pudor
dança não é ódio, é amor
é aprender a voar
Se puderes dançar pelo ar
também as estrelas poderão abraçar-te
não sigas agarrada as tuas dores
que não sabem dançar
Dança junto a tua vida que dança
junto a tudo que falta
se não se pode fazer mais...
Dança...
Dança...
Dança...
deste tempo não tão belo
porque sozinha não estás
Dança sobre antigas cinzas
sobre todas as tuas feridas
sozinha não estás
Se a imagem de teu espelho já não está
será que estás
aprendendo a caminhar?
Dança sobre tua casa, entre a erva
o odor do inverno
sozinha não estás
Dança bela criança, pequena criança
distorções do tempo...
sozinha não estás
Sobre a fumaça que cobriu
a luz de nossa cidade
e ainda que doa
não a podemos modificar
Dança sobre a dor
que a dança à consumirá
Dança sobre a tua rua que dança
sobre esta casa que dança
se não se pode fazer mais...
Dança sobre a desventura
à luz da lua
sobre o campo e o mar
Dança, é caricia, é pudor
dança não é ódio, é amor
é aprender a voar
Se puderes dançar pelo ar
também as estrelas poderão abraçar-te
não sigas agarrada as tuas dores
que não sabem dançar
Dança junto a tua vida que dança
junto a tudo que falta
se não se pode fazer mais...
Dança...
Dança...
Dança...
1 026
Rita Barém de Melo
Minha lira a suspirar
Minha lira a suspirar,
Que dizes nesta canção?
São saudades são amores
Dessa flor - recordação! -
Minha lira a suspirar,
Que cantas com tanto ardor?
- Mais prantos do que sorrisos,
Mais tristezas que amor! -
Minha lira a suspirar,
Que tanges nesse amargor?
Não tens nas cordas sensíveis
Nem uma singela flor?
Lira minha que suspiras,
Não tens na vida (que dor)
Uma voz que fale ardente,
Ardentes falas damor?!
Lira minha que suspiras,
Como tu meiga quem é?
Mas triste lira não podes
Na ventura teres fé!
Lira minha que suspiras,
Na ventura tu não crês?
Mau condão fadou-te, lira,
Tão jovem, por que descrês?...
Minha lira a suspirar
Continua já não tens crença,
Na dita quem infiltrou-te
Essa profunda descrença?
Minha lira a suspirar
Só tens hinos damargor,
Só cantos de sofrimento,
Endeixas de muita dor!
(Março de 1856)
Que dizes nesta canção?
São saudades são amores
Dessa flor - recordação! -
Minha lira a suspirar,
Que cantas com tanto ardor?
- Mais prantos do que sorrisos,
Mais tristezas que amor! -
Minha lira a suspirar,
Que tanges nesse amargor?
Não tens nas cordas sensíveis
Nem uma singela flor?
Lira minha que suspiras,
Não tens na vida (que dor)
Uma voz que fale ardente,
Ardentes falas damor?!
Lira minha que suspiras,
Como tu meiga quem é?
Mas triste lira não podes
Na ventura teres fé!
Lira minha que suspiras,
Na ventura tu não crês?
Mau condão fadou-te, lira,
Tão jovem, por que descrês?...
Minha lira a suspirar
Continua já não tens crença,
Na dita quem infiltrou-te
Essa profunda descrença?
Minha lira a suspirar
Só tens hinos damargor,
Só cantos de sofrimento,
Endeixas de muita dor!
(Março de 1856)
1 275