Poemas neste tema
Música
Sebastião Alba
Como os outros
Como os outros discipulo da noite
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço
dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si
As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço
dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si
As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.
1 144
Vasco Graça Moura
Soneto do amor e da morte
Quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar,
sempre a doer, sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar,
sempre a doer, sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
4 789
Donizete Galvão
Solilóquio de Nina Simone
Habitou-me um deus espesso.
Sangue cor de fígado.
Veneno talhado, macerado e amargoso.
Fez morada em cada célula.
Nos alvéolos, nas entranhas, sob as unhas.
Expande a veia do pescoço.
Sangra pelas gengivas.
Lateja nas têmporas e nos pulsos.
Planta arrancada da terra africana,
deita suas raízes fundas de baobá
e traz gosto de lama à boca.
Tem sabor atávico a relembrar
o lodo de que se originou o homem.
Habitou-me um deus exigente,
que me fere e exaspera.
Que espezinha o que eu era.
Que fala o que eu não pensara
e, dizendo-me ao contrário,
faz-me gostar do calvário
que, às cegas, eu criei.
Nomeio que não tem nome:
Raio de Iansã, trovão, ciclone,
Sopro de Orixá, c´est moi
Nina Simone.
701
Moacy Cirne
A praça
joão da paraíba oferece a alguém,
com
muito
amor
e carinho,
"lábios que beijei", na voz de orlando silva
(in Cinema Pax, 1983)
1 227
Ruy Belo
Espaço para a canção
As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra
Adeus ó meu verão impiedoso
ó limpidez da água sobre as pedras
ó inúmeros galos da manhã
ó tempestade agreste de alegria
É o país da música é a fome da noite
impossível estar só razoável rapaz
meu príncipe da própria juventude
Nos cabelos de vento do mar morto do destino
fundo antigo de água conchas e areias
no centro solitário deste solo
ante a solenidade sensual do sono
eu olho os paralelipípedos do nada
não me detenho nos umbrais das trevas
caminho numa mesma direcção
Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu?
Ponho os pés sobre as folhas no asfalto
espero por dezembro mês para morrer
evoco a luz discreta das doenças de outrora
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra
Adeus ó meu verão impiedoso
ó limpidez da água sobre as pedras
ó inúmeros galos da manhã
ó tempestade agreste de alegria
É o país da música é a fome da noite
impossível estar só razoável rapaz
meu príncipe da própria juventude
Nos cabelos de vento do mar morto do destino
fundo antigo de água conchas e areias
no centro solitário deste solo
ante a solenidade sensual do sono
eu olho os paralelipípedos do nada
não me detenho nos umbrais das trevas
caminho numa mesma direcção
Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu?
Ponho os pés sobre as folhas no asfalto
espero por dezembro mês para morrer
evoco a luz discreta das doenças de outrora
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção
4 447
Geraldo Bessa-Victor
O feitiço do batuque
Sinto o som do batuque nos meus ossos,
o ritmo do batuque no meu sangue.
É a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.
Tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
E meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quanto o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.
Músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus impetos carnais.
O batuque ressoa-se nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuido de magia!
A batucada tem feitiço eterno.
O batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais tera fim,
nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!
o ritmo do batuque no meu sangue.
É a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.
Tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
E meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quanto o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.
Músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus impetos carnais.
O batuque ressoa-se nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuido de magia!
A batucada tem feitiço eterno.
O batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais tera fim,
nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!
2 232
Tomaz Vieira da Cruz
Rebita
Mulata da minha alma
batuque dos meus sentidos,
meus nervos encandecidos
vibram por ti, sem ter calma.
Por isso vou á rebita,
quase triste e indeciso,
a queimar minha desdita
nas chamas do teu sorriso.
E, triste, assim, vou dançar,
vou dançar e vou beber
o vinho do teu olhar,
que me faz entontecer.
Ouvindo, longe, tocar
o quissange do gentio,
que vive, além no palmar,
onde corre o verde rio!
E depois adormecer
na tua esteira de prata,
onde quero, enfim, morrer,
oh minha linda mulata.
..........................................
Mulata da minha alma,
batuque dos meus sentidos...
Por isso vou á rebita,
quase triste e indeciso,
a queimar minha desdita
nas chamas do teu sorriso.
batuque dos meus sentidos,
meus nervos encandecidos
vibram por ti, sem ter calma.
Por isso vou á rebita,
quase triste e indeciso,
a queimar minha desdita
nas chamas do teu sorriso.
E, triste, assim, vou dançar,
vou dançar e vou beber
o vinho do teu olhar,
que me faz entontecer.
Ouvindo, longe, tocar
o quissange do gentio,
que vive, além no palmar,
onde corre o verde rio!
E depois adormecer
na tua esteira de prata,
onde quero, enfim, morrer,
oh minha linda mulata.
..........................................
Mulata da minha alma,
batuque dos meus sentidos...
Por isso vou á rebita,
quase triste e indeciso,
a queimar minha desdita
nas chamas do teu sorriso.
1 704
Eduardo Guimaraens
Na solidão do parque abandonado
Na solidão do parque abandonado,
chora, abraçado às àrvores, o vento.
Ouve-se da água o trêmulo lamento
sobre as conchas de mármore gelado.
Sobe, lúcida, a lua. Solitário,
foge smorzando, sob o azul sereno,
como um grito de amor, o último treno
do último e doloroso stradivário.
— "Oh, dá-me o teu desejo! Sob o vasto,
noturno encanto, dá-me o teu desejo!
Quero a tua alma que, entre os lírios, vejo
como outro lírio, luminoso e casto!
Por que te afastas sempre do meu passo?
Sou o mudo exilado do teu seio...
Não sentirás jamais o meu anseio?
Levam-me o Amor e a Morte, pelo braço."
Que estranha insônia acorda o mal pressago,
vem despertar o antigo pesadelo?
Pudesse a lua, ao menos, compreendê-lo!
Perde-se, ao longe, o último acorde vago.
Sobre as conchas de mármore, gelado,
não se ouve mais o trêmulo lamento.
Queda-se a lua. Silencia o vento.
Dorme, sombrio, o parque do Passado.
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
chora, abraçado às àrvores, o vento.
Ouve-se da água o trêmulo lamento
sobre as conchas de mármore gelado.
Sobe, lúcida, a lua. Solitário,
foge smorzando, sob o azul sereno,
como um grito de amor, o último treno
do último e doloroso stradivário.
— "Oh, dá-me o teu desejo! Sob o vasto,
noturno encanto, dá-me o teu desejo!
Quero a tua alma que, entre os lírios, vejo
como outro lírio, luminoso e casto!
Por que te afastas sempre do meu passo?
Sou o mudo exilado do teu seio...
Não sentirás jamais o meu anseio?
Levam-me o Amor e a Morte, pelo braço."
Que estranha insônia acorda o mal pressago,
vem despertar o antigo pesadelo?
Pudesse a lua, ao menos, compreendê-lo!
Perde-se, ao longe, o último acorde vago.
Sobre as conchas de mármore, gelado,
não se ouve mais o trêmulo lamento.
Queda-se a lua. Silencia o vento.
Dorme, sombrio, o parque do Passado.
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194
1 197
Eduardo Guimaraens
Carnaval
Andaluzíssimas Manolas
que faz mais lindas a peineta,
soai, vibrai as castanholas
e a pandeireta!
E vós, dos bandós empoados,
ó Marquesinhas de Watteau,
que abrís os lábios recortados
em formas de ô!
Napolitanas, de escarlate
lenço à cabeça em cada orelha
um argolão, seios "di latte"
e de groselha!
Lascivas Zíngaras de olheiras,
ó pestanudas e fatais,
esfarrapadas feiticeiras
que adivinhais,
lendo nas mãos, sortes de amores,
fados de morte, ó desgraçadas
que, entre esses trapos de mil cores,
sois como Fadas!
Vinde, gementes Colombinas
que abandonou, sem pena, o amor,
ao triste som de mandolinas
da noite em flor!
E vós, soberbas Odaliscas
que Harum-al-Rachild invejara,
tendo um incêndio de faíscas
na carne clara!
Ó Nubianas d'azeviche
e brancos dentes de marfim,
como a giz, postos num fetiche
feito a nanquim!
Ó Gueixas dos jardins de Yeddo:
Nuvem que passa, Arco de jade,
Sonho de luz, casto Segredo,
Sol de bondade,
na graça alacre e flutuante
de aves e peixes e dragões
dos quimonos, à luz berrante
dos seus balões,
vinde! E vós, de que os grandes laços
à testa voam, gráceis lhanas,
para trazer-vos há cem braços,
Alsacianas!
Agora, ó Girls de saiote,
é vossa vez: eia, ao tan-tan
dumone-step, dum fox-trot...
troa o jazz-band!
Ó Baiadeiras! Eh, floristas!
Vós, Escocesas! Midinettes!
Ó saias-curtas! Sufragistas
e gigolettes!
Dai-vos as mãos: e andai à roda,
que a mascarada às ruas sai,
andai à roda, à roda toda!
E desandai!
E queira o céu que a água não role,
que não desbote o rico traje,
mas o divino emplastro mole
dos "maquillages"...
Dirija a ronda a minha Musa
que apenas usa pó de arroz,
pois quanto ao "rouge" que a lambuza,
foi Deus que o pôs...
Imagem - 00350001
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Estâncias de um Peregrino
que faz mais lindas a peineta,
soai, vibrai as castanholas
e a pandeireta!
E vós, dos bandós empoados,
ó Marquesinhas de Watteau,
que abrís os lábios recortados
em formas de ô!
Napolitanas, de escarlate
lenço à cabeça em cada orelha
um argolão, seios "di latte"
e de groselha!
Lascivas Zíngaras de olheiras,
ó pestanudas e fatais,
esfarrapadas feiticeiras
que adivinhais,
lendo nas mãos, sortes de amores,
fados de morte, ó desgraçadas
que, entre esses trapos de mil cores,
sois como Fadas!
Vinde, gementes Colombinas
que abandonou, sem pena, o amor,
ao triste som de mandolinas
da noite em flor!
E vós, soberbas Odaliscas
que Harum-al-Rachild invejara,
tendo um incêndio de faíscas
na carne clara!
Ó Nubianas d'azeviche
e brancos dentes de marfim,
como a giz, postos num fetiche
feito a nanquim!
Ó Gueixas dos jardins de Yeddo:
Nuvem que passa, Arco de jade,
Sonho de luz, casto Segredo,
Sol de bondade,
na graça alacre e flutuante
de aves e peixes e dragões
dos quimonos, à luz berrante
dos seus balões,
vinde! E vós, de que os grandes laços
à testa voam, gráceis lhanas,
para trazer-vos há cem braços,
Alsacianas!
Agora, ó Girls de saiote,
é vossa vez: eia, ao tan-tan
dumone-step, dum fox-trot...
troa o jazz-band!
Ó Baiadeiras! Eh, floristas!
Vós, Escocesas! Midinettes!
Ó saias-curtas! Sufragistas
e gigolettes!
Dai-vos as mãos: e andai à roda,
que a mascarada às ruas sai,
andai à roda, à roda toda!
E desandai!
E queira o céu que a água não role,
que não desbote o rico traje,
mas o divino emplastro mole
dos "maquillages"...
Dirija a ronda a minha Musa
que apenas usa pó de arroz,
pois quanto ao "rouge" que a lambuza,
foi Deus que o pôs...
Imagem - 00350001
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Estâncias de um Peregrino
1 122
Casimiro de Abreu
A J
Minh'alma dorme, indolente
A tudo o que é grande e belo.
Ai! não sei que pesadelo
Assim me pousou na mente!
Debalde agora procuro
Os sonhos do meu futuro
De amor e glória tão cheios,
Na quadra dos devaneios
E das longas ilusões!
Mas se dócil a teus dedos
O teu piano palpita,
Se derramas teus segredos
Nessa harmonia infinita,
Nessa queixa vaga e incerta,
Então minh'alma — desperta
Desse fatal pesadelo —
Sacode o manto de gelo,
Banha-se em novo fulgor,
Ama a luz que o sol exala,
E em cada nota que fala
Soletra um hino de amor!
Mas se também indolente
O teu piano se cala,
Minh'alma é só languidez.
— Como a criança dormente,
Que os olhos súbito abrira,
Queixosa e triste suspira,
E — sem ti — dorme outra vez!
1859
Publicado no livro As primaveras (1867). Poema integrante da série Suplemento às Primaveras.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
A tudo o que é grande e belo.
Ai! não sei que pesadelo
Assim me pousou na mente!
Debalde agora procuro
Os sonhos do meu futuro
De amor e glória tão cheios,
Na quadra dos devaneios
E das longas ilusões!
Mas se dócil a teus dedos
O teu piano palpita,
Se derramas teus segredos
Nessa harmonia infinita,
Nessa queixa vaga e incerta,
Então minh'alma — desperta
Desse fatal pesadelo —
Sacode o manto de gelo,
Banha-se em novo fulgor,
Ama a luz que o sol exala,
E em cada nota que fala
Soletra um hino de amor!
Mas se também indolente
O teu piano se cala,
Minh'alma é só languidez.
— Como a criança dormente,
Que os olhos súbito abrira,
Queixosa e triste suspira,
E — sem ti — dorme outra vez!
1859
Publicado no livro As primaveras (1867). Poema integrante da série Suplemento às Primaveras.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
2 017
Sousândrade
Harpa XXIV - O Inverno
(...)
Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos
Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.
Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.
(...)
Poema integrante da série Estâncias.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos
Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.
Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.
(...)
Poema integrante da série Estâncias.
In: SOUSÂNDRADE. Harpas selvagens. Rio de Janeiro: Laemmert, 1857
3 599
Raul de Leoni
Ciganos
Lá vêm os saltimbancos, às dezenas
Levantando a poeira das estradas.
Vêm gemendo bizarras cantilenas,
No tumulto das danças agitadas.
Vêm num rancho faminto e libertino,
Almas estranhas, seres erradios,
Que tem na vida um único destino,
O Destino das aves e dos rios.
Ir mundo a mundo é o único programa,
A disciplina única do bando;
O cigano não crê, erra, não ama,
Se sofre, a sua dor chora cantando.
Nunca pararam desde que nasceram.
São da Espanha, da Pérsia ou da Tartária?
Eles mesmos não sabem; esqueceram
A sua antiga pátria originária...
Quando passam, aldeias, vilarinhos
Maldizem suas almas indefesas,
E a alegria que espalham nos caminhos
É talvez um excesso de tristezas...
Quando acampam de noite, é no relento,
Que vão sonhar seu Sonho aventureiro;
Seu teto é o vácuo azul do Firmamento,
Lar? o lar do cigano é o mundo inteiro.
Às vezes, em vigílias ambulantes,
A noite em fora, entre canções dalmatas,
Vão seguindo ao luar, vão delirantes,
Alados no langor das serenatas.
Gemem guzlas e vibram castanholas,
E este rumor de errantes cavatinas
Lembra coisas das terras espanholas,
Nas saudades das terras levantinas.
E, então, seus vultos tredos envolvidos
Em vestes rotas, sórdidas, imundas.
Vão passando por ermos esquecidos,
Como um grupo de sombras vagabundas.
Lá vem os saltimbancos, às dezenas,
Levantando a poeira das estradas,
Vêm gemendo bizarras cantilenas,
No tumulto das danças agitadas.
Povo sem Fé, sem Deus e sem Bandeira!
Todos o temem como horrível gente,
Mas ele na existência aventureira,
Ri-se do medo alheio, indiferente.
E, livres como o Vento e a Luz volante,
Sob a aparência de Infelicidade,
Realizam, na sua vida errante,
O poema da eterna Liberdade.
Imagem - 00180002
Poema integrante da série Poemas Inéditos.
In: LEONI, Raul de. Trechos escolhidos. Org. Luiz Santa Cruz. Rio de Janeiro: Agir, 1961. (Nossos clássicos, 58)
Levantando a poeira das estradas.
Vêm gemendo bizarras cantilenas,
No tumulto das danças agitadas.
Vêm num rancho faminto e libertino,
Almas estranhas, seres erradios,
Que tem na vida um único destino,
O Destino das aves e dos rios.
Ir mundo a mundo é o único programa,
A disciplina única do bando;
O cigano não crê, erra, não ama,
Se sofre, a sua dor chora cantando.
Nunca pararam desde que nasceram.
São da Espanha, da Pérsia ou da Tartária?
Eles mesmos não sabem; esqueceram
A sua antiga pátria originária...
Quando passam, aldeias, vilarinhos
Maldizem suas almas indefesas,
E a alegria que espalham nos caminhos
É talvez um excesso de tristezas...
Quando acampam de noite, é no relento,
Que vão sonhar seu Sonho aventureiro;
Seu teto é o vácuo azul do Firmamento,
Lar? o lar do cigano é o mundo inteiro.
Às vezes, em vigílias ambulantes,
A noite em fora, entre canções dalmatas,
Vão seguindo ao luar, vão delirantes,
Alados no langor das serenatas.
Gemem guzlas e vibram castanholas,
E este rumor de errantes cavatinas
Lembra coisas das terras espanholas,
Nas saudades das terras levantinas.
E, então, seus vultos tredos envolvidos
Em vestes rotas, sórdidas, imundas.
Vão passando por ermos esquecidos,
Como um grupo de sombras vagabundas.
Lá vem os saltimbancos, às dezenas,
Levantando a poeira das estradas,
Vêm gemendo bizarras cantilenas,
No tumulto das danças agitadas.
Povo sem Fé, sem Deus e sem Bandeira!
Todos o temem como horrível gente,
Mas ele na existência aventureira,
Ri-se do medo alheio, indiferente.
E, livres como o Vento e a Luz volante,
Sob a aparência de Infelicidade,
Realizam, na sua vida errante,
O poema da eterna Liberdade.
Imagem - 00180002
Poema integrante da série Poemas Inéditos.
In: LEONI, Raul de. Trechos escolhidos. Org. Luiz Santa Cruz. Rio de Janeiro: Agir, 1961. (Nossos clássicos, 58)
1 858
Olegário Mariano
De Papo Pro Á, 1931
I
Não quero outra vida
Pescando no rio
De jereré
Tenho peixe bom...
Tem siri-patola
De dá com o pé
Quando no terreiro
Faz noite de luá
E vem a saudade
Me atormentá
Eu me vingo dela
Tocando viola
De papo pro á
II
Se compro na feira
Feijão rapadura
Pra que trabaiá
Eu gosto do rancho
O home não deve
Se amofiná
Estribilho
In: MASCARENHAS, Mário. O melhor da música popular brasileira. São Paulo: Irmãos Vitale, 1982. v.4, p.146-147
NOTA: Música de Joubert de Carvalh
Não quero outra vida
Pescando no rio
De jereré
Tenho peixe bom...
Tem siri-patola
De dá com o pé
Quando no terreiro
Faz noite de luá
E vem a saudade
Me atormentá
Eu me vingo dela
Tocando viola
De papo pro á
II
Se compro na feira
Feijão rapadura
Pra que trabaiá
Eu gosto do rancho
O home não deve
Se amofiná
Estribilho
In: MASCARENHAS, Mário. O melhor da música popular brasileira. São Paulo: Irmãos Vitale, 1982. v.4, p.146-147
NOTA: Música de Joubert de Carvalh
1 016
Emiliano Perneta
Vencidos
Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?
Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?... E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?
Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço...
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E glória à fome dos vermes concupiscentes!
Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?
Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?... E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?
Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço...
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E glória à fome dos vermes concupiscentes!
Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 682
Tite de Lemos
como algum astro mestre
como algum astro mestre
apontado nos mapas celestes
um rayito de sol
tostando a testa dos homens sós
como um barco à deriva
uma lady, uma dona, uma diva
uma lasca de noz
no agridoce metal da sua voz
um afago nos ramos mais altos das árvores
uma rosa na sala das armas
como um vitral
infiltrado de luz natural
aeroplano em céu noturno
a letra a de aurora, puro ouro
O ouro. Para Antonio Carlos Jobim
In: LEMOS, Tite de. Corcovado Park. Pref. Armando Freitas Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poesia brasileira)
apontado nos mapas celestes
um rayito de sol
tostando a testa dos homens sós
como um barco à deriva
uma lady, uma dona, uma diva
uma lasca de noz
no agridoce metal da sua voz
um afago nos ramos mais altos das árvores
uma rosa na sala das armas
como um vitral
infiltrado de luz natural
aeroplano em céu noturno
a letra a de aurora, puro ouro
O ouro. Para Antonio Carlos Jobim
In: LEMOS, Tite de. Corcovado Park. Pref. Armando Freitas Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poesia brasileira)
1 150
Auta de Souza
Num Leque
Na gaze loura deste leque adeja
Não sei que amora místico e encantado...
Doce morena! Abençoado seja
O doce aroma de teu leque amado
Quando o entreabres, a sorrir, na Igreja,
O templo inteiro fica embalsamado...
Até minh'alma carinhosa o beija,
Como a toalha de um altar sagrado.
E enquanto o aroma inebriante voa,
Unido aos hinos que, no coro, entoa
A voz de um órgão soluçando dores,
Só me parece que o choroso canto
Sobe da gaze de teu leque santo,
Cheio de luz e de perfume e flores!
In: SOUSA, Auta de. Horto. 4.ed. Natal: Fundação José Augusto, 197
Não sei que amora místico e encantado...
Doce morena! Abençoado seja
O doce aroma de teu leque amado
Quando o entreabres, a sorrir, na Igreja,
O templo inteiro fica embalsamado...
Até minh'alma carinhosa o beija,
Como a toalha de um altar sagrado.
E enquanto o aroma inebriante voa,
Unido aos hinos que, no coro, entoa
A voz de um órgão soluçando dores,
Só me parece que o choroso canto
Sobe da gaze de teu leque santo,
Cheio de luz e de perfume e flores!
In: SOUSA, Auta de. Horto. 4.ed. Natal: Fundação José Augusto, 197
2 246
Carlos Felipe Moisés
Capibaribe
Capibaribe não é um rio,
Capibaribe: enredo musical
Melodia, Manuel Bandeira.
Texto e coreografia, João Cabral.
(Recife 1977)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
Capibaribe: enredo musical
Melodia, Manuel Bandeira.
Texto e coreografia, João Cabral.
(Recife 1977)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
960
Alcides Villaça
Rumo Oeste
O rádio no carro canta pelas cidades.
Já sei onde está a melhor garapa
de Araras, o melhor algodão em Leme.
Em Pirassununga o hábito do Angelus
ainda veste de santa qualquer tarde.
O locutor e seu melhor emplastro
para curar no peito aquela velha aflição.
Todas as rádios abrem para o mundo
o coração do largo e um recado de Ester:
esta canção vai para W.J.
que ainda não esqueci.
O céu de todas as rádios
se estende para a capital: o que se dança
em New York direto para São Simão.
Para você, Lucinha, mexer o que Deus lhe deu.
A velha teia das cidades
enleia agora as estrelas.
Ao som da sétima badalada
do coração da Matriz
desligue o rádio! e respire
de passagem tudo o que fica:
são ondas soltas no ar.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série No Desvio
Já sei onde está a melhor garapa
de Araras, o melhor algodão em Leme.
Em Pirassununga o hábito do Angelus
ainda veste de santa qualquer tarde.
O locutor e seu melhor emplastro
para curar no peito aquela velha aflição.
Todas as rádios abrem para o mundo
o coração do largo e um recado de Ester:
esta canção vai para W.J.
que ainda não esqueci.
O céu de todas as rádios
se estende para a capital: o que se dança
em New York direto para São Simão.
Para você, Lucinha, mexer o que Deus lhe deu.
A velha teia das cidades
enleia agora as estrelas.
Ao som da sétima badalada
do coração da Matriz
desligue o rádio! e respire
de passagem tudo o que fica:
são ondas soltas no ar.
In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988 (Claro enigma). Poema integrante da série No Desvio
1 392
Armindo Trevisan
Guitarra
Guitarra sobre o lençol
teu corpo
guitarra de ponteio
que te desata à sombra
de outra sombra
guitarra de fome
que espanta
os pássaros de teu nome
oh guitarra
invisível garra
em que te derramas
para o bebedor
de tua flama
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série A Fabricação do Real
teu corpo
guitarra de ponteio
que te desata à sombra
de outra sombra
guitarra de fome
que espanta
os pássaros de teu nome
oh guitarra
invisível garra
em que te derramas
para o bebedor
de tua flama
In: TREVISAN, Armindo. O abajur de Píndaro. A fabricação do real. Il. Almada Negreiros. São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1975. (Sélesis, 4). Poema integrante da série A Fabricação do Real
1 264
Nelson Ascher
Voz
Ninguém jamais
regeu tão extra-
(pois sem rivais)
vagante orquestra
como a que destra-
vando os umbrais
com chave-mestra
— cordas vocais —
propõe que além da
canção, com elas,
a mente aprenda
(mais do que vê-las
sem qualquer venda)
a ouvir estrelas.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p. 47
regeu tão extra-
(pois sem rivais)
vagante orquestra
como a que destra-
vando os umbrais
com chave-mestra
— cordas vocais —
propõe que além da
canção, com elas,
a mente aprenda
(mais do que vê-las
sem qualquer venda)
a ouvir estrelas.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p. 47
1 060
Odylo Costa Filho
Cantigas
Meu Deus, como é amarga esta paz,
paz de veias somadas, mas rompidas,
e em que o sangue se junta para chorar como outrora
se juntaram nossos corpos de marido e mulher.
Dai-nos, para consolo e esquecimento,
não alegrias quentes, exaltantes,
mas as ternuras do ressuscitar:
telhados velhos em cidades pobres,
cemitérios com poetas enterrados,
cadeiras de balanço em frente ao mar.
Livrai do incontido choro as nossas noites.
Meu Deus, livrai do incontido choro as nossas noites.
Dai-nos antes miúdas mãos, pés pequeninos
pisando flores no capim molhado,
nomes maternos na saudade densa,
cantigas, algumas cantigas.
Dai-nos cantigas descendo o rio
como canoas descendo o rio.
Cantigas de dor mansa, simples, humilde.
Tão mansa que não quer dizer nada.
Tão simples que não sabe dizer nada.
Tão humilde que nada ousa pedir a Deus.
Poema integrante da série A Visita do Anjo.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971
paz de veias somadas, mas rompidas,
e em que o sangue se junta para chorar como outrora
se juntaram nossos corpos de marido e mulher.
Dai-nos, para consolo e esquecimento,
não alegrias quentes, exaltantes,
mas as ternuras do ressuscitar:
telhados velhos em cidades pobres,
cemitérios com poetas enterrados,
cadeiras de balanço em frente ao mar.
Livrai do incontido choro as nossas noites.
Meu Deus, livrai do incontido choro as nossas noites.
Dai-nos antes miúdas mãos, pés pequeninos
pisando flores no capim molhado,
nomes maternos na saudade densa,
cantigas, algumas cantigas.
Dai-nos cantigas descendo o rio
como canoas descendo o rio.
Cantigas de dor mansa, simples, humilde.
Tão mansa que não quer dizer nada.
Tão simples que não sabe dizer nada.
Tão humilde que nada ousa pedir a Deus.
Poema integrante da série A Visita do Anjo.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Pref. Heráclio Salles. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971
1 268
Walmir Ayala
Pranto por Federico García
Disseram que a noite se alarmava
entre dois caules de aura
quando abateram o cristal profundo
da tua cara;
disseram que despertava o dia
Federico García.
Mas em tua carne anoitecia
uma urna letal de azufre,
e em teus cabelos despetalava
a fina flor de Andaluzia.
Disseram que o cão do horizonte
gemeu dolorosamente,
Federico,
E se ergueram lençóis de espinhos
à tua frente,
para amortalhar teu corpo
e sanar tua nostalgia,
para amansar tua boca
Federico García!
Tua boca que mais cantava
do que a morte jamais pensara,
tua boca como a bandeira
nos campos da tua cara,
campos de cravos e amêndoas,
de olivais e litanias,
onde os gitanos se abraçam
Federico García.
E teu canto, como uma pedra
fundia a fúria assassina,
e mais amargor havia
naquelas mãos delatoras,
do que na tua agonia,
ai, Federico García.
Teu canto quebrava espadas
nos ares de Andaluzia,
e as mães choravam os filhos
de Espanha, que em ti morriam;
mas morria mais que tudo
teu corpo de sol e azeite,
e eram em seios eternos
que então bebias teu leite!
Ai, Federico García!
E tudo eram rumos antigos
no espanto do teu sacrifício,
aqui estamos deplorados
neste doloroso vício
de viver, que era o teu gáudio;
aqui estamos com teu sangue,
com tua melancolia,
com tua guitarra heróica,
com teus touros de alegria,
e a paixão da liberdade.
Ai, FEDERICO GARCÍA!
Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.348-35
entre dois caules de aura
quando abateram o cristal profundo
da tua cara;
disseram que despertava o dia
Federico García.
Mas em tua carne anoitecia
uma urna letal de azufre,
e em teus cabelos despetalava
a fina flor de Andaluzia.
Disseram que o cão do horizonte
gemeu dolorosamente,
Federico,
E se ergueram lençóis de espinhos
à tua frente,
para amortalhar teu corpo
e sanar tua nostalgia,
para amansar tua boca
Federico García!
Tua boca que mais cantava
do que a morte jamais pensara,
tua boca como a bandeira
nos campos da tua cara,
campos de cravos e amêndoas,
de olivais e litanias,
onde os gitanos se abraçam
Federico García.
E teu canto, como uma pedra
fundia a fúria assassina,
e mais amargor havia
naquelas mãos delatoras,
do que na tua agonia,
ai, Federico García.
Teu canto quebrava espadas
nos ares de Andaluzia,
e as mães choravam os filhos
de Espanha, que em ti morriam;
mas morria mais que tudo
teu corpo de sol e azeite,
e eram em seios eternos
que então bebias teu leite!
Ai, Federico García!
E tudo eram rumos antigos
no espanto do teu sacrifício,
aqui estamos deplorados
neste doloroso vício
de viver, que era o teu gáudio;
aqui estamos com teu sangue,
com tua melancolia,
com tua guitarra heróica,
com teus touros de alegria,
e a paixão da liberdade.
Ai, FEDERICO GARCÍA!
Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.
In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.348-35
1 630
Edimilson de Almeida Pereira
Ouvido
O viajante recebe da cobra
um amuleto.
Aprende o riso dos mortos,
das pedras ouve a música.
Roubado em seu segredo
o viajante desaparece.
A cobra muda de veste,
o homem perde o corpo.
Publicado no livro Árvore dos arturos & Outros poemas (1988). Poema integrante da série Contos Africanos: Reinvenção de Imagens.
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.193
NOTA: Título original do poema: "O Ouvido. Conto de Angola
um amuleto.
Aprende o riso dos mortos,
das pedras ouve a música.
Roubado em seu segredo
o viajante desaparece.
A cobra muda de veste,
o homem perde o corpo.
Publicado no livro Árvore dos arturos & Outros poemas (1988). Poema integrante da série Contos Africanos: Reinvenção de Imagens.
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.193
NOTA: Título original do poema: "O Ouvido. Conto de Angola
1 230
Alphonsus de Guimaraens
XXIV - Carnaval! Carnaval!
(Jovelino Gomes)
Chibante, ora a bater numa zabumba,
Ora a tocar uma buzina rouca,
Queira o deus infernal que eu não sucumba
Nesta farra em que estou, bulhenta e louca!
Não sei se tombarei na minha tumba,
Que a minha força para a luta é pouca.
Este bombo de modo tal retumba,
Que até me faz a pobre orelha mouca.
Mas seguirei avante, destemido,
Alerta sempre o desvairado ouvido,
Nos pinchos desta enorme pagodeira...
Berrarei, urrarei, com todo o gosto,
Tendo mais feia máscara no rosto
Do que a cara do Bento de Oliveira!
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 582-583. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Em Mariana: Outras Sátiras / Versos Humorísticos
Chibante, ora a bater numa zabumba,
Ora a tocar uma buzina rouca,
Queira o deus infernal que eu não sucumba
Nesta farra em que estou, bulhenta e louca!
Não sei se tombarei na minha tumba,
Que a minha força para a luta é pouca.
Este bombo de modo tal retumba,
Que até me faz a pobre orelha mouca.
Mas seguirei avante, destemido,
Alerta sempre o desvairado ouvido,
Nos pinchos desta enorme pagodeira...
Berrarei, urrarei, com todo o gosto,
Tendo mais feia máscara no rosto
Do que a cara do Bento de Oliveira!
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 582-583. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Em Mariana: Outras Sátiras / Versos Humorísticos
3 108