Poemas neste tema
Natal
Carlos Drummond de Andrade
O Rei Menino
O estandarte do Rei não é de púrpura e brocado,
é um lírio flutuante sobre o caos
onde ambições se digladiam
e ódios se estraçalham.
O Rei vem cumprir o anúncio de Isaías:
vem para evangelizar os brutos,
consolar os que choram,
exaltar os cobertos de cinza,
desentranhar o sentido exato da paz,
magnificar a justiça.
Entre Belém e Judá e Wall Street
no torvelinho de negações e equívocos,
a vergasta de luz deixa atônitos os fariseus.
Cegos distinguem o sinal,
surdos captam a melodia de anjos-cantadores,
mudos descobrem o movimento da palavra.
O Rei sem manto e sem joias,
nu como folha de erva,
distribui riquezas não tituladas.
Oferece a transparência
da alma liberta de cuidados vis.
As coisas já não são as antigas coisas
de perecível beleza
e o homem não é mais cativo de sua sombra.
A limitação dos seres foi vencida
por uma alegria não censurada,
graça de reinventar a Terra,
antes castigo e exílio,
hoje flecha em direção infinita.
O Rei, criança,
permanecerá criança mesmo sob vestes trágicas,
porque assim o vimos e queremos,
assim nos curvamos diante do seu berço
tecido de palha, vento e ar.
Seu sangrento destino prefixado não dilui
a luminosidade desta cena.
O menino, apenas um menino,
acima das filosofias, da cibernética e dos dólares,
sustenta o peso do mundo
na palma ingênua das mãos.
é um lírio flutuante sobre o caos
onde ambições se digladiam
e ódios se estraçalham.
O Rei vem cumprir o anúncio de Isaías:
vem para evangelizar os brutos,
consolar os que choram,
exaltar os cobertos de cinza,
desentranhar o sentido exato da paz,
magnificar a justiça.
Entre Belém e Judá e Wall Street
no torvelinho de negações e equívocos,
a vergasta de luz deixa atônitos os fariseus.
Cegos distinguem o sinal,
surdos captam a melodia de anjos-cantadores,
mudos descobrem o movimento da palavra.
O Rei sem manto e sem joias,
nu como folha de erva,
distribui riquezas não tituladas.
Oferece a transparência
da alma liberta de cuidados vis.
As coisas já não são as antigas coisas
de perecível beleza
e o homem não é mais cativo de sua sombra.
A limitação dos seres foi vencida
por uma alegria não censurada,
graça de reinventar a Terra,
antes castigo e exílio,
hoje flecha em direção infinita.
O Rei, criança,
permanecerá criança mesmo sob vestes trágicas,
porque assim o vimos e queremos,
assim nos curvamos diante do seu berço
tecido de palha, vento e ar.
Seu sangrento destino prefixado não dilui
a luminosidade desta cena.
O menino, apenas um menino,
acima das filosofias, da cibernética e dos dólares,
sustenta o peso do mundo
na palma ingênua das mãos.
1 361
Carlos Drummond de Andrade
Presépio Mecânico do Pipiripau
Jesus nasce no Pipiripau,
em refolho sigiloso da Floresta,
bairro com alguma coisa de rural.
Tudo nasce, tudo mexe, tudo gira
em torno do menino sobre o capim-mimoso.
A paisagem é movimento
contínuo, circular.
Jesus aciona todas as forças
do homem. Ninguém parado.
Organiza-se a indústria em seu redor.
Jesus determina a vida em expansão.
Lutadores de boxe trocam murros
para maior glória do menino.
Seu Raimundo, criador do presépio,
revela Deus-motor.
Pipiripau, presépio modernista 1927.
em refolho sigiloso da Floresta,
bairro com alguma coisa de rural.
Tudo nasce, tudo mexe, tudo gira
em torno do menino sobre o capim-mimoso.
A paisagem é movimento
contínuo, circular.
Jesus aciona todas as forças
do homem. Ninguém parado.
Organiza-se a indústria em seu redor.
Jesus determina a vida em expansão.
Lutadores de boxe trocam murros
para maior glória do menino.
Seu Raimundo, criador do presépio,
revela Deus-motor.
Pipiripau, presépio modernista 1927.
1 449
Carlos Drummond de Andrade
As Notícias
E lá se foi aquela extraordinária
Eunice Weaver: cada preventório
para filhos de lázaros proclama,
pelo Brasil inteiro, o seu supremo
dom de servir à vida das crianças.
Já na Gamboa umedecidos lenços
despedem-se… Ficou de Dona Eunice
uma lição de amor, cheia de graça.
Mas andemos. Que tal esses ornatos
de rua, a celebrar os velhos ritos?
Eu acho que o Natal ronda por fora
dos signos natalinos: sua rara
contextura de sonho e de esperança
num Deus garoto abriga-se no esconso
particular da alma; esse, o presépio
mais real, mais tocante; esse, o cardápio
da ceia imaterial, sem mesa posta
e sem badalação, sem jingle e cesta.
Chartres no Russell, toda iluminada?
Tenho a Glória do Outeiro, estou com tudo.
Só me faltam, nas férias dos meninos,
dois elefantes, vastos ou pequenos.
Quando virão? Exige-se vacina,
identidade, visto de aduana,
título de eleitor em Bombaim
e prova de que são bichos de bem.
Oi, meus elefantinhos ofertados
por Indira (?), tão logo repelidos
para a jângal natal: ficai por lá,
que saudoso de vós me quedo aqui.
Não vos desejo pouso na Ilha Grande,
pois muito mais a gosto ficais onde
a um paquiderme não se exige tanto
papelório que a um bípede põe tonto.
A papoula sangrenta, a flor dos hippies,
antes tão alva? A mão pega do lápis,
anotando massacres. Sharon Tate,
My Lai, nosso “Esquadrão”… Matar é um ato
de prazer, como uma extensão do sexo,
um novo haxixe, um fascinante tóxico?
Matar em grosso; nunca um só, apenas.
Aos cinco, aos mil: esporte de bacanos.
Então, por que temer, pergunto, a gripe
A-2 Hong-Kong, no seu doido galope?
O vírus isolar, em honra à vida,
para depois fazê-la espedaçada?
O mundo é dos carrascos? Deus é fábula
esmaecida no pó de um incunábulo?
Ou vamos aprender a ser humanos
— ao menos aprendizes pequeninos?
13/12/1969
Eunice Weaver: cada preventório
para filhos de lázaros proclama,
pelo Brasil inteiro, o seu supremo
dom de servir à vida das crianças.
Já na Gamboa umedecidos lenços
despedem-se… Ficou de Dona Eunice
uma lição de amor, cheia de graça.
Mas andemos. Que tal esses ornatos
de rua, a celebrar os velhos ritos?
Eu acho que o Natal ronda por fora
dos signos natalinos: sua rara
contextura de sonho e de esperança
num Deus garoto abriga-se no esconso
particular da alma; esse, o presépio
mais real, mais tocante; esse, o cardápio
da ceia imaterial, sem mesa posta
e sem badalação, sem jingle e cesta.
Chartres no Russell, toda iluminada?
Tenho a Glória do Outeiro, estou com tudo.
Só me faltam, nas férias dos meninos,
dois elefantes, vastos ou pequenos.
Quando virão? Exige-se vacina,
identidade, visto de aduana,
título de eleitor em Bombaim
e prova de que são bichos de bem.
Oi, meus elefantinhos ofertados
por Indira (?), tão logo repelidos
para a jângal natal: ficai por lá,
que saudoso de vós me quedo aqui.
Não vos desejo pouso na Ilha Grande,
pois muito mais a gosto ficais onde
a um paquiderme não se exige tanto
papelório que a um bípede põe tonto.
A papoula sangrenta, a flor dos hippies,
antes tão alva? A mão pega do lápis,
anotando massacres. Sharon Tate,
My Lai, nosso “Esquadrão”… Matar é um ato
de prazer, como uma extensão do sexo,
um novo haxixe, um fascinante tóxico?
Matar em grosso; nunca um só, apenas.
Aos cinco, aos mil: esporte de bacanos.
Então, por que temer, pergunto, a gripe
A-2 Hong-Kong, no seu doido galope?
O vírus isolar, em honra à vida,
para depois fazê-la espedaçada?
O mundo é dos carrascos? Deus é fábula
esmaecida no pó de um incunábulo?
Ou vamos aprender a ser humanos
— ao menos aprendizes pequeninos?
13/12/1969
864
Edmir Domingues
Que criança é esta?...
Que criança é esta criança
coberta de palha e luz,
dormindo tranquilamente
entre o barulho dos tiros,
entre o rugido das feras,
entre o pânico dos homens?
Que criança é esta criança
que dorme entre o burro e o boi
mas dorme tão docemente
(entre o pânico dos homens)
que não percebe que a estrela
dos magos da lenda antiga
se encontra agora mudada
no céu que cobre o presépio
por um satélite plástico?
Por que não vêm reis modernos,
reis do aço, reis do petróleo,
nos seus carros de mansinho
olhar de perto o menino?
Também como os reis do oriente
eis que seriam tocados
por essa paz que o menino
por sobre o mundo irradia.
Nós também, ah, se nós fôramos
repetição do menino,
mesmo no mundo da angústia,
no mundo do desamor,
entre o pânico dos homens
dormiríamos tranquilos
um sono como esse sono.
Ó vós que olhais o presépio
pelos olhos da ternura
e tendes amor e paz,
neste mundo amargo e frio
que tudo a nada reduz
olhai os filhos dos pobres.
Que foi um filho de pobres
nosso menino de luz.
coberta de palha e luz,
dormindo tranquilamente
entre o barulho dos tiros,
entre o rugido das feras,
entre o pânico dos homens?
Que criança é esta criança
que dorme entre o burro e o boi
mas dorme tão docemente
(entre o pânico dos homens)
que não percebe que a estrela
dos magos da lenda antiga
se encontra agora mudada
no céu que cobre o presépio
por um satélite plástico?
Por que não vêm reis modernos,
reis do aço, reis do petróleo,
nos seus carros de mansinho
olhar de perto o menino?
Também como os reis do oriente
eis que seriam tocados
por essa paz que o menino
por sobre o mundo irradia.
Nós também, ah, se nós fôramos
repetição do menino,
mesmo no mundo da angústia,
no mundo do desamor,
entre o pânico dos homens
dormiríamos tranquilos
um sono como esse sono.
Ó vós que olhais o presépio
pelos olhos da ternura
e tendes amor e paz,
neste mundo amargo e frio
que tudo a nada reduz
olhai os filhos dos pobres.
Que foi um filho de pobres
nosso menino de luz.
1 036
Ruy Belo
A charneca e a praia
Num dia vagamente de Natal fechado pelo frio
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio
Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?
Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada
tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão
Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa
Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto
Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio
Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?
Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada
tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão
Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa
Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto
Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 267
Florbela Espanca
Que o pequenino Deus
Que o pequenino Deus que na Judeia outrora
Nasceu, trazendo ao mundo a era mais ditosa
Por cada flor roxa que me enviaste agora
Te dê um sonho bom, suave e cor-de-rosa.
Nasceu, trazendo ao mundo a era mais ditosa
Por cada flor roxa que me enviaste agora
Te dê um sonho bom, suave e cor-de-rosa.
1 456
Ruy Belo
Sobre um simples significante
Meados de janeiro. No aeroporto duma capital
- Leitores eventuais se quereis saber qual
terei de ser sincero como sempre o sou e não apenas em geral:
o caso que vos conto aconteceu no europeu nepal -
um grupo de pessoas num encontro casual
desses que nem viriam no melhor jornal
de qualquer dos países donde alguém de nós seria natural
decerto por alguma circunstância puramente acidental
emprega no decurso da conversa a palvra "natal"
embora a pensem todos na respectiva língua original
E sem saber porquê eu sinto-me subitamente mal
Ainda que me considerem um filólogo profissional
e tenha escrito páginas e páginas sobre qualquer fenómeno fonético banal
não conheço a palavra. Porventura terá equivalente em portugal?
Deve dizer-me alguma coisa pois me sinto mal
mas embora disposto a consultar o português fundamental
ia jurar que nem sequer a usa o leitor habitual
de dicionários e glossários e vocabulários do idioma nacional
e o mesmo acontece em qualquer língua ocidental
das quais pelo menos possuo uma noção geral
conseguida aliás por meio de um esforço efectivo e real
E ali naquela sala principal
daquele aeroporto do nepal
enquanto esperam pelo seu transporte habitual
embora o tempo passe o assunto central
da conversa daquele grupo de gente ocasional
continua na mesma a ser o do "natal"
Tratar-se-á de um facto universal?
Alguma festa? Uma tragédia mundial?
Consulto as caras sem obter satisfação cabal
Li por exemplo a bíblia li pessoa e pertenci à igreja ocidental
e tenho de reconhecer que não sei nada do natal
Mas se assim é porque diabo sofro como sofro eu afinal'
Porque me atinge assim palavra tão fatal?
Que passado distante permanece actual?
Como é que uma mera palavra se me torna visceral?
Ninguém daquela gente reunida no nepal
um professor um engenheiro ou um industrial
um técnico uma actriz um intelectual
um revolucionário ou um príncipe real
que ali nas suas línguas falam do natal
aí por quinze de janeiro e num dia invernal
pressentem como sofre este filólogo profissional
Eu tenho atrás de mim uma vida que por sinal
começada no campo e num quintal
junto da pedra da árvore e do animal
debaixo das estrelas e num meio natural
vida continuada na escola entre o tratado e o manual
me assegurou prestígio internacional
Mas para que me serve tudo isso se naquela capital
entre pessoas que inocentemente falam do natal
eu que conheço as coisas e as palavras de maneira oficial
que como linguista as trato de igual para igual
travo afinal inexorável batalha campal
com tão simples significante como o de "natal"?
E entre línguas diversas num aeroporto do nepal
alguém bem insensível sofre mais do que um sentimental
pois pressente em janeiro que se o foi foi há muito o natal
- Leitores eventuais se quereis saber qual
terei de ser sincero como sempre o sou e não apenas em geral:
o caso que vos conto aconteceu no europeu nepal -
um grupo de pessoas num encontro casual
desses que nem viriam no melhor jornal
de qualquer dos países donde alguém de nós seria natural
decerto por alguma circunstância puramente acidental
emprega no decurso da conversa a palvra "natal"
embora a pensem todos na respectiva língua original
E sem saber porquê eu sinto-me subitamente mal
Ainda que me considerem um filólogo profissional
e tenha escrito páginas e páginas sobre qualquer fenómeno fonético banal
não conheço a palavra. Porventura terá equivalente em portugal?
Deve dizer-me alguma coisa pois me sinto mal
mas embora disposto a consultar o português fundamental
ia jurar que nem sequer a usa o leitor habitual
de dicionários e glossários e vocabulários do idioma nacional
e o mesmo acontece em qualquer língua ocidental
das quais pelo menos possuo uma noção geral
conseguida aliás por meio de um esforço efectivo e real
E ali naquela sala principal
daquele aeroporto do nepal
enquanto esperam pelo seu transporte habitual
embora o tempo passe o assunto central
da conversa daquele grupo de gente ocasional
continua na mesma a ser o do "natal"
Tratar-se-á de um facto universal?
Alguma festa? Uma tragédia mundial?
Consulto as caras sem obter satisfação cabal
Li por exemplo a bíblia li pessoa e pertenci à igreja ocidental
e tenho de reconhecer que não sei nada do natal
Mas se assim é porque diabo sofro como sofro eu afinal'
Porque me atinge assim palavra tão fatal?
Que passado distante permanece actual?
Como é que uma mera palavra se me torna visceral?
Ninguém daquela gente reunida no nepal
um professor um engenheiro ou um industrial
um técnico uma actriz um intelectual
um revolucionário ou um príncipe real
que ali nas suas línguas falam do natal
aí por quinze de janeiro e num dia invernal
pressentem como sofre este filólogo profissional
Eu tenho atrás de mim uma vida que por sinal
começada no campo e num quintal
junto da pedra da árvore e do animal
debaixo das estrelas e num meio natural
vida continuada na escola entre o tratado e o manual
me assegurou prestígio internacional
Mas para que me serve tudo isso se naquela capital
entre pessoas que inocentemente falam do natal
eu que conheço as coisas e as palavras de maneira oficial
que como linguista as trato de igual para igual
travo afinal inexorável batalha campal
com tão simples significante como o de "natal"?
E entre línguas diversas num aeroporto do nepal
alguém bem insensível sofre mais do que um sentimental
pois pressente em janeiro que se o foi foi há muito o natal
4 126
Marcelo Gama
A uma Velhinha
No dia de Natal
Boas festas, velhinha! Eu te dou boas festas,
nestes versos que faço à glória dessas cãs
lavadas pelo pranto, as tuas cãs honestas,
— lindo corado ao sol de trinta mil manhãs.
Consente que eu te beije as mãos mumificadas,
trêmulas de sentir o frio dos desenganos;
mãos secas, espetrais, tiritantes, cansadas
de tanto abençoar durante oitenta anos.
E tomem essas mãos — camélias fenecidas,
que ora o amor elevou, quais ramos de oliveira,
ora o ódio agitou, crispadas, contraídas —
os versos em que evoco a tua vida inteira.
Já no tempo em que os teus cabelos foram pretos
e se usavam bandós, e os toucavas de flores,
um poeta de então fizera-te uns sonetos.
onde muito falava em — olhos sonhadores!
Inda os sabes de cor! — Os netos que os confrontem
com os versos de agora... E pões-te a recitar...
Bons tempos!... E parece entanto que foi ontem...
Não te podes conter... e ficas a chorar...
Choras... Que a tua vida é uma flor em desfolhos...
Sonhavam, velam hoje os teus olhos tristonhos.
Os sonhos, noutro tempo, erravam nos teus olhos;
os teus olhos, agora, é que erram pelos sonhos...
(...)
Publicado no livro Via Sacra (1902).
In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.49-50
NOTA: Poema composto de 20 quadra
Boas festas, velhinha! Eu te dou boas festas,
nestes versos que faço à glória dessas cãs
lavadas pelo pranto, as tuas cãs honestas,
— lindo corado ao sol de trinta mil manhãs.
Consente que eu te beije as mãos mumificadas,
trêmulas de sentir o frio dos desenganos;
mãos secas, espetrais, tiritantes, cansadas
de tanto abençoar durante oitenta anos.
E tomem essas mãos — camélias fenecidas,
que ora o amor elevou, quais ramos de oliveira,
ora o ódio agitou, crispadas, contraídas —
os versos em que evoco a tua vida inteira.
Já no tempo em que os teus cabelos foram pretos
e se usavam bandós, e os toucavas de flores,
um poeta de então fizera-te uns sonetos.
onde muito falava em — olhos sonhadores!
Inda os sabes de cor! — Os netos que os confrontem
com os versos de agora... E pões-te a recitar...
Bons tempos!... E parece entanto que foi ontem...
Não te podes conter... e ficas a chorar...
Choras... Que a tua vida é uma flor em desfolhos...
Sonhavam, velam hoje os teus olhos tristonhos.
Os sonhos, noutro tempo, erravam nos teus olhos;
os teus olhos, agora, é que erram pelos sonhos...
(...)
Publicado no livro Via Sacra (1902).
In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.49-50
NOTA: Poema composto de 20 quadra
1 257
Marly de Oliveira
Natal
Natal. Nesta província não neva,
mas a chuva anda constante,
e anda tão longe, perdido,
o que a alma busca na treva.
Que me ficou do ano findo?
Que se pode aprender neste Natal?
A renascer, gritam os sinos,
embora todos saibam que é mortal
aprendizagem essa, sem sossego.
Nasce um deus de palha que o cerca
e nos convida a reviver sua paixão,
já não a cada ano, a cada instante
renovada. E o sangue se rebela
e tem vontade de dizer-lhe não.
mas a chuva anda constante,
e anda tão longe, perdido,
o que a alma busca na treva.
Que me ficou do ano findo?
Que se pode aprender neste Natal?
A renascer, gritam os sinos,
embora todos saibam que é mortal
aprendizagem essa, sem sossego.
Nasce um deus de palha que o cerca
e nos convida a reviver sua paixão,
já não a cada ano, a cada instante
renovada. E o sangue se rebela
e tem vontade de dizer-lhe não.
1 394
Angela Santos
Gingle Bells
Gingle
Bells
Segundo dia do mês da celebração
Natividade, a alegria…
mas não se esquece
o que escorre por fora dos dias da festa
Luzes, ruas serpenteadas, tristeza e alegria
olhos de agua rasos, fartura, falta,
miséria, desperdício,descaminhos,
almas vazias e a imensa solidão…
dos que vão sozinhos
pelas avenidas feridas de Neóns
Gingle Bells
nas vitrines, nos corações que comerciam
na imaginação pura e sem enfeites das crianças,
nos olhos de quem vai ao frio
sentir que está longe de tudo
e guarda esbatida, a memória longínqua
de uma noite de Natal.
"We Wish a Merry Christmas"
cantam sorridentes pais-natais
dentro de redomas longe do alcance
de quem não sabe outra língua
e fixa com olhos de espanto
o boneco barbudo articulado
Perdidos, apressados, massificados
não reparamos…
atiramos os dias pela janela
guardando o brilho nos olhos
para a festa marcada nos calendários.
Natal
quotidianamente impresso
em nossas vidas e gestos
diária celebração, era o Natal que eu queria
ter
sem uivos que rompam a nossa surdez
ou ilusórios mundos de luz
sem marcas na agenda que insistem lembrar
que é dia da vida acontecer.
Bells
Segundo dia do mês da celebração
Natividade, a alegria…
mas não se esquece
o que escorre por fora dos dias da festa
Luzes, ruas serpenteadas, tristeza e alegria
olhos de agua rasos, fartura, falta,
miséria, desperdício,descaminhos,
almas vazias e a imensa solidão…
dos que vão sozinhos
pelas avenidas feridas de Neóns
Gingle Bells
nas vitrines, nos corações que comerciam
na imaginação pura e sem enfeites das crianças,
nos olhos de quem vai ao frio
sentir que está longe de tudo
e guarda esbatida, a memória longínqua
de uma noite de Natal.
"We Wish a Merry Christmas"
cantam sorridentes pais-natais
dentro de redomas longe do alcance
de quem não sabe outra língua
e fixa com olhos de espanto
o boneco barbudo articulado
Perdidos, apressados, massificados
não reparamos…
atiramos os dias pela janela
guardando o brilho nos olhos
para a festa marcada nos calendários.
Natal
quotidianamente impresso
em nossas vidas e gestos
diária celebração, era o Natal que eu queria
ter
sem uivos que rompam a nossa surdez
ou ilusórios mundos de luz
sem marcas na agenda que insistem lembrar
que é dia da vida acontecer.
728
Reinaldo Ferreira
Segundo canto para a renovação do Natal
A Noémia de Sousa
Tudo foi emprestado e alheio
Para que Deus nascesse conforme as Escrituras:
A gruta, que os presépios embelezam,
- Ou talvez um estábulo?
- Ou talvez o ventre autêntico da mãe?
A burra e a vaca,
José, que era o pai cómodo,
E a mãe, que era o empréstimo supremo,
O recurso, a verdade
E a necessidade
Para que Deus nascesse entre os homens,
Mais do que Deus,
Um Homem.
Havia os magos com presentes deslocados,
O astro dos sinais,
A voz, o anjo, os pastores e a frase
Que nos presépios fabricados
Fala da paz, dos homens e da boa-vontade.
Havia a noite e nós,
Filhos de pai e mãe,
Nascidos antes e depois à espera de que Deus viesse,
Fruto dA que não teve marido neste mundo
Para que o filho deslisasse sem pecado.
E havia Herodes,
Para que não fosse fácil
O que era inevitável.
E houvesse drama.
Ora bem.
Entre a burra e a vaca,
Dentro do hálito tépido das bestas,
Sobre as palhas
E ao nível das tetas,
O menino jazia
Nascido,
Que é como quem diz cumprido
Da promessa que havia.
José,
Os magos e os pastores
Tinham a sua fé;
A estrela tinha o seu ofício de ser estrela;
A noite e as bestas tinham a sua inconsciência,
Que é tudo,
Porque tudo e nada são a mesma coisa;
O Menino tinha o mistério de ser menino
E já Deus;
Ela, Ela tinha a miséria de ser mãe
E só mãe.
Ela é o Natal.
Ora bem.
Não falemos de Herodes, nem dos magos, nem dos pastores,
Nem sequer de José,
Do amável, do amoroso José
Que nos enternece
E discreto desaparece
Pela esquerda baixa
Do primeiro quadro da tragédia
De que somos o coro
- E também a tragédia.
Mas falemos dEle,
Que Ele é Ele,
Mesmo quando se faz pequenino
Para ter o nosso tamanho.
Não falemos da noite,
Que é um pouco mais que tudo isso,
- E menos do que a mãe,
De quem falemos.
Ora bem.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada na vista do conjunto
Que é o Natal,
Comparsa dos presépios que hão-de vir,
Entre arraiais e foguetes
E estrelas de papel.
Ela ali estava para ser pintada
Na fuga para o Egipto,
Ao trote gracioso do burrito,
Sem vaca, só com José e o deserto e as escrituras,
Que mandam mais que Herodes
E todos os seus bigodes.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada - pouco e bem -
Sem o burrito, só com SantAna e S. José
No breve engano de ser só mãe
Dum filho que fosse só filho.
Ela ali estava para ser pintada
No alarme de Jesus entre os doutores.
Ela ali estava pra não ser pintada
Depois que Jesus fez trinta,
Antes dos trinta e três
(Disseram trinta doutores:
- Diga trinta e três.
Ele disse.
Ele disse e morreu
Sem sofrer dos pulmões).
Ela ali estava para ser pintada
E no zénite de Jesus ser Jesus,
Depois dos trinta,
Quando Jesus
Fez
Trinta e três,
Ela ressuscitou pintura ao pé da cruz.
Ora bem.
A cruz que Ele trazia,
Mal lhe pesava.
Ele esperava.
Ele salvava.
Ele descia
E por isso subia.
Ela era mulher, era mãe - e Sabia.
A sua cruz
Era Jesus.
O seu inferno
Era ser mãe do Eterno
Que havia de sangrar
E morrer
Pelo caminho.
Por isso é que Ela mal se vê no palheiro,
Que é como quem diz, no estábulo.
Não é a estrela que A deslustra
(O Universo e todos os seus astros
Não valem o que Ela é);
Não são os magos que A repelem
Para o canto, de não ser rainha,
Porque Ela o é dos reinos que eles buscavam;
Não é José que A excede, porque José é José,
E isso lhe basta sem ser bastante;
Não é o Filho que A tolda,
Porque Ela é a Mãe.
Ora bem.
É ser a Mãe.
É ver que o Seu menino
Não é apenas menino,
Mas a dose anunciada
De Homem e Deus;
A ponte que tem de ser pisada
Para que haja estrada
Para os céus;
É o ser-lhe filho e ser-lhe pai,
O filho que Ela estremece
Vivo e já morto,
Porque o Pai quer e Ela obedece.
Irmãos em Cristo!
Irmãos do mesmo pai,
Quem quer que seja o Cristo
Que buscais.
Esta é a Sua hora!
A Sua - e a nossa.
Ela é o Natal.
Ave-Maria.
Ora bem.
Tudo foi emprestado e alheio
Para que Deus nascesse conforme as Escrituras:
A gruta, que os presépios embelezam,
- Ou talvez um estábulo?
- Ou talvez o ventre autêntico da mãe?
A burra e a vaca,
José, que era o pai cómodo,
E a mãe, que era o empréstimo supremo,
O recurso, a verdade
E a necessidade
Para que Deus nascesse entre os homens,
Mais do que Deus,
Um Homem.
Havia os magos com presentes deslocados,
O astro dos sinais,
A voz, o anjo, os pastores e a frase
Que nos presépios fabricados
Fala da paz, dos homens e da boa-vontade.
Havia a noite e nós,
Filhos de pai e mãe,
Nascidos antes e depois à espera de que Deus viesse,
Fruto dA que não teve marido neste mundo
Para que o filho deslisasse sem pecado.
E havia Herodes,
Para que não fosse fácil
O que era inevitável.
E houvesse drama.
Ora bem.
Entre a burra e a vaca,
Dentro do hálito tépido das bestas,
Sobre as palhas
E ao nível das tetas,
O menino jazia
Nascido,
Que é como quem diz cumprido
Da promessa que havia.
José,
Os magos e os pastores
Tinham a sua fé;
A estrela tinha o seu ofício de ser estrela;
A noite e as bestas tinham a sua inconsciência,
Que é tudo,
Porque tudo e nada são a mesma coisa;
O Menino tinha o mistério de ser menino
E já Deus;
Ela, Ela tinha a miséria de ser mãe
E só mãe.
Ela é o Natal.
Ora bem.
Não falemos de Herodes, nem dos magos, nem dos pastores,
Nem sequer de José,
Do amável, do amoroso José
Que nos enternece
E discreto desaparece
Pela esquerda baixa
Do primeiro quadro da tragédia
De que somos o coro
- E também a tragédia.
Mas falemos dEle,
Que Ele é Ele,
Mesmo quando se faz pequenino
Para ter o nosso tamanho.
Não falemos da noite,
Que é um pouco mais que tudo isso,
- E menos do que a mãe,
De quem falemos.
Ora bem.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada na vista do conjunto
Que é o Natal,
Comparsa dos presépios que hão-de vir,
Entre arraiais e foguetes
E estrelas de papel.
Ela ali estava para ser pintada
Na fuga para o Egipto,
Ao trote gracioso do burrito,
Sem vaca, só com José e o deserto e as escrituras,
Que mandam mais que Herodes
E todos os seus bigodes.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada - pouco e bem -
Sem o burrito, só com SantAna e S. José
No breve engano de ser só mãe
Dum filho que fosse só filho.
Ela ali estava para ser pintada
No alarme de Jesus entre os doutores.
Ela ali estava pra não ser pintada
Depois que Jesus fez trinta,
Antes dos trinta e três
(Disseram trinta doutores:
- Diga trinta e três.
Ele disse.
Ele disse e morreu
Sem sofrer dos pulmões).
Ela ali estava para ser pintada
E no zénite de Jesus ser Jesus,
Depois dos trinta,
Quando Jesus
Fez
Trinta e três,
Ela ressuscitou pintura ao pé da cruz.
Ora bem.
A cruz que Ele trazia,
Mal lhe pesava.
Ele esperava.
Ele salvava.
Ele descia
E por isso subia.
Ela era mulher, era mãe - e Sabia.
A sua cruz
Era Jesus.
O seu inferno
Era ser mãe do Eterno
Que havia de sangrar
E morrer
Pelo caminho.
Por isso é que Ela mal se vê no palheiro,
Que é como quem diz, no estábulo.
Não é a estrela que A deslustra
(O Universo e todos os seus astros
Não valem o que Ela é);
Não são os magos que A repelem
Para o canto, de não ser rainha,
Porque Ela o é dos reinos que eles buscavam;
Não é José que A excede, porque José é José,
E isso lhe basta sem ser bastante;
Não é o Filho que A tolda,
Porque Ela é a Mãe.
Ora bem.
É ser a Mãe.
É ver que o Seu menino
Não é apenas menino,
Mas a dose anunciada
De Homem e Deus;
A ponte que tem de ser pisada
Para que haja estrada
Para os céus;
É o ser-lhe filho e ser-lhe pai,
O filho que Ela estremece
Vivo e já morto,
Porque o Pai quer e Ela obedece.
Irmãos em Cristo!
Irmãos do mesmo pai,
Quem quer que seja o Cristo
Que buscais.
Esta é a Sua hora!
A Sua - e a nossa.
Ela é o Natal.
Ave-Maria.
Ora bem.
2 289
Reinaldo Ferreira
Natal de longe
Natal! Natal!
A boca o diz,
A mão o escreve,
O coração já não sente.
Que a emoção,
Vibração
Das asas da fantasia
No voo do pensamento,
Deixou-se ficar parada
Só porque a noite está quente;
Só porque ser indolente
É como parar na estrada
E desistir da jornada,
Sem coragem de voltar
Pelo caminho tão rude!
Natal! Natal!
A doce força que tinha
Devorou-a a latitude.
A boca o diz,
A mão o escreve,
O coração já não sente.
Que a emoção,
Vibração
Das asas da fantasia
No voo do pensamento,
Deixou-se ficar parada
Só porque a noite está quente;
Só porque ser indolente
É como parar na estrada
E desistir da jornada,
Sem coragem de voltar
Pelo caminho tão rude!
Natal! Natal!
A doce força que tinha
Devorou-a a latitude.
2 044
Rogério Bessa
Soneto da Amada
vou perdido e achado em ti
em tempo partida do mundo sem tempo
tempo de omissão de todos os cuidados
para o mundo da tua presença
vou achado e perdido em ti
duas vidas solam um só tempo
vida de mãos dadas
de morno amor de seios
vou perdido e achado em ti
dormindo no sem tempo
à sombra do eterno
vou durmo esqueço à sombra em ti a
árvore de natal está linda
perdido e achado caminho e não ando.
em tempo partida do mundo sem tempo
tempo de omissão de todos os cuidados
para o mundo da tua presença
vou achado e perdido em ti
duas vidas solam um só tempo
vida de mãos dadas
de morno amor de seios
vou perdido e achado em ti
dormindo no sem tempo
à sombra do eterno
vou durmo esqueço à sombra em ti a
árvore de natal está linda
perdido e achado caminho e não ando.
945
Celso Pinheiro
Crepúsculo
Crepúsculo. Dlin, dlon... Sinos gemendo aos dobres
Há paisagens no Céu e paisagens na Terra.
A alma branca da Torre e a alma verde da Serra,
Concentram-se a rezar, tristonhamente nobres...
A hemoptise da Luz mancha a toalha do rio...
Caravelas e naus, como enormes aranhas,
Em reverberações magníficas e estranhas,
Sobre as águas, a arfar, têm bailados de cio...
Chove, empastando o mato, uns filetes de sangue
Como cordas de sol do tear da Mocidade:
É a virgem-Natureza estuando em puberdade
Para a fecundação da Noite linda e langue...
Os velhos buritis dos confins da Floresta,
Vão pregando o Evangelho entre cardos e espinhos,
E a árvore seca, a rir, com seus frutos de ninhos,
É uma árvore de Natal engalanada em festa...
Chopin estende as mãos sobre as teclas de Poentex
E arranca a sinfonia estética das cores,
Enquanto nos vergéis as pequeninas flores
São mil bocas a arder na tarde flavescente!...
Há paisagens no Céu e paisagens na Terra.
A alma branca da Torre e a alma verde da Serra,
Concentram-se a rezar, tristonhamente nobres...
A hemoptise da Luz mancha a toalha do rio...
Caravelas e naus, como enormes aranhas,
Em reverberações magníficas e estranhas,
Sobre as águas, a arfar, têm bailados de cio...
Chove, empastando o mato, uns filetes de sangue
Como cordas de sol do tear da Mocidade:
É a virgem-Natureza estuando em puberdade
Para a fecundação da Noite linda e langue...
Os velhos buritis dos confins da Floresta,
Vão pregando o Evangelho entre cardos e espinhos,
E a árvore seca, a rir, com seus frutos de ninhos,
É uma árvore de Natal engalanada em festa...
Chopin estende as mãos sobre as teclas de Poentex
E arranca a sinfonia estética das cores,
Enquanto nos vergéis as pequeninas flores
São mil bocas a arder na tarde flavescente!...
1 179
Oldegar Vieira
Gravuras no Vento
Gravura no vento.
Pois é desacontecido
o acontecimento.
Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.
Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.
Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.
Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.
Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.
Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.
À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.
Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.
Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.
Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.
Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.
Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.
Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.
Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.
Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.
Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.
Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.
Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...
Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.
Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...
Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?
Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.
Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.
Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.
Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...
Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!
Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.
Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.
Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?
Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.
Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.
Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?
Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.
Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.
Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.
Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...
Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.
Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.
Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?
Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.
Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?
Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.
Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.
Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.
Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?
Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.
Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.
Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.
É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?
Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.
Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.
Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...
Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.
Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.
Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.
Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.
Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.
Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.
E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.
Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.
Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.
Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.
Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?
Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.
Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.
Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.
Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.
Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.
Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.
Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.
O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.
Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.
Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.
Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.
Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.
Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.
Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.
Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.
Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.
Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.
Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.
Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.
Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.
Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.
Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.
Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?
Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.
Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?
Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
Pois é desacontecido
o acontecimento.
Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.
Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.
Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.
Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.
Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.
Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.
À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.
Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.
Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.
Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.
Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.
Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.
Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.
Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.
Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.
Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.
Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.
Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...
Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.
Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...
Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?
Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.
Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.
Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.
Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...
Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!
Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.
Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.
Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?
Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.
Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.
Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?
Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.
Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.
Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.
Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...
Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.
Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.
Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?
Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.
Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?
Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.
Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.
Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.
Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?
Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.
Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.
Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.
É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?
Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.
Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.
Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...
Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.
Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.
Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.
Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.
Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.
Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.
E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.
Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.
Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.
Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.
Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?
Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.
Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.
Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.
Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.
Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.
Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.
Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.
O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.
Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.
Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.
Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.
Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.
Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.
Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.
Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.
Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.
Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.
Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.
Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.
Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.
Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.
Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.
Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?
Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.
Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?
Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
1 206
Newton de Freitas
O Natal
Senhor! No teu Natal tanta ventura,
tantos sorrisos, tantas esperanças,
e eu cansado e sozinho,
sentindo tanta mágoa em meu Natal?
Senhor, no teu Natal tanta alegria,
e eu sem fé, sem vontade de viver?
Ah! Meus dez anos de ilusão tão bons,
o tempo em que eu beijava a borda dos presepes
e sorria feliz, contemplando os pastores!
Senhor! No teu Natal tanta ventura
e eu pensando em saudade e eu sentindo amargura!
tantos sorrisos, tantas esperanças,
e eu cansado e sozinho,
sentindo tanta mágoa em meu Natal?
Senhor, no teu Natal tanta alegria,
e eu sem fé, sem vontade de viver?
Ah! Meus dez anos de ilusão tão bons,
o tempo em que eu beijava a borda dos presepes
e sorria feliz, contemplando os pastores!
Senhor! No teu Natal tanta ventura
e eu pensando em saudade e eu sentindo amargura!
1 069
Sonia Mori
Verão
Manhã de sol.
Gaivotas mariscam n’areia
coqueiros farfalham.
Rosto do bebê
pontuado de vermelho
cruel pernilongo!
Verão, mas já vejo
o inverno nas vitrinas
É o natal chegando...
Gaivotas mariscam n’areia
coqueiros farfalham.
Rosto do bebê
pontuado de vermelho
cruel pernilongo!
Verão, mas já vejo
o inverno nas vitrinas
É o natal chegando...
862
Moreira Campos
Minhas Sombras
Como gostar de festas,
se logo se apresentam
e são convivas os meus mortos,
que antes já habitavam a dor e a conformação?
Nem sei bem onde estão enterrados,
se eu mesmo tive necessidade de braçadas fortes
para não soçobrar, de todo.
Minha irmã
(primeira companheira de brinquedos)
cancelou-se aos cinco anos
e morreu aos quarenta
de solidão e desamparo,
e é espinho longo e agudo
profundamente encravado,
profundamente,
no mais sensível da carne
(como encarar seus olhos magoados?).
Nesta noite de Natal
é de sangue, silêncio e queixa
(porque nem sequer terá direito à revolta)
o leito de meu irmão
na ala anônima do hospital.
De resto, nasci com a consciência
de que a dor é geratriz da vida.
A dose de uísque
tornar-me-ia apenas mais absurdo.
Como gostar de festas,
se eles estão presentes
e são convivas deste estranho banquete?
se logo se apresentam
e são convivas os meus mortos,
que antes já habitavam a dor e a conformação?
Nem sei bem onde estão enterrados,
se eu mesmo tive necessidade de braçadas fortes
para não soçobrar, de todo.
Minha irmã
(primeira companheira de brinquedos)
cancelou-se aos cinco anos
e morreu aos quarenta
de solidão e desamparo,
e é espinho longo e agudo
profundamente encravado,
profundamente,
no mais sensível da carne
(como encarar seus olhos magoados?).
Nesta noite de Natal
é de sangue, silêncio e queixa
(porque nem sequer terá direito à revolta)
o leito de meu irmão
na ala anônima do hospital.
De resto, nasci com a consciência
de que a dor é geratriz da vida.
A dose de uísque
tornar-me-ia apenas mais absurdo.
Como gostar de festas,
se eles estão presentes
e são convivas deste estranho banquete?
1 144
Mário Donizete Massari
O natal de Raimundo
Raimundo ganhou
presente de Natal
Um incrível carro de bois
movido a pilhas
Leva a boiada Raimundo
Raimundo leva a boiada
E assim ele se diverte
num feliz faz de contas
empurrando um pedaço de madeira
na favela de São Leopoldo
presente de Natal
Um incrível carro de bois
movido a pilhas
Leva a boiada Raimundo
Raimundo leva a boiada
E assim ele se diverte
num feliz faz de contas
empurrando um pedaço de madeira
na favela de São Leopoldo
893
Leopoldo Neto
Noite de Natal
Cidades enfeitadas
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.
947
Cludia Nobre de Oliveira
Natal
Fonte de alegria
dia especial dia de festa
Presentes, comes e bebes
Abraços, apertos e choro
As vezes fútil as vezes doloroso
Mas dia de festa
Festa para o aniversariante
Glorioso, filho do Pai, irmão de todos
Amigo de todas horas
Jesus fonte de luz
Não nos esqueçamos que é
para Ele esse dia
Natal paz, luz
para todos irmãos
dia especial dia de festa
Presentes, comes e bebes
Abraços, apertos e choro
As vezes fútil as vezes doloroso
Mas dia de festa
Festa para o aniversariante
Glorioso, filho do Pai, irmão de todos
Amigo de todas horas
Jesus fonte de luz
Não nos esqueçamos que é
para Ele esse dia
Natal paz, luz
para todos irmãos
940
Carvalho Nogueira
História de Trancoso
Cartões, folhinhas vivem repetindo
"Feliz Natal e Próspero Ano Novo"
e à sucessão dos anos vão provando
que estas palavras não têm mais sentido.
São tantas as pessoas deserdadas
nas festas do Ano Novo e de Natal,
que hoje a figura de Papai Noel
devia ser proibida em toda parte.
Se os presentes não chegam para todos,
é pecado mortal a fantasia
do lendário velhinho dos brinquedos.
Pelo menos se diga aos infelizes
que este Papai Noel tão decantado
nunca passou de história de Trancoso.
"Feliz Natal e Próspero Ano Novo"
e à sucessão dos anos vão provando
que estas palavras não têm mais sentido.
São tantas as pessoas deserdadas
nas festas do Ano Novo e de Natal,
que hoje a figura de Papai Noel
devia ser proibida em toda parte.
Se os presentes não chegam para todos,
é pecado mortal a fantasia
do lendário velhinho dos brinquedos.
Pelo menos se diga aos infelizes
que este Papai Noel tão decantado
nunca passou de história de Trancoso.
812
Cleonice Rainho
Humildade
Há dois mil anos, ali, Menino Jesus, se eu fosse um bem-te-vi!
De vela em vela dos barcos, ia a Belém bem-te-ver de um galho da figueira da Gruta de David.
Asas encolhidas, ante Teus bracinhos e bico fechado para ouvir Teus murmúrios de neném.
Cabeça mexendo,as perninhas nos panosque Sara teceu.pés tocando a manjedoura,o olhar brilhando tudo:meu peito mais amareloà Tua luz.
O semblante manso de Maria, José de joelhosTe abençoando.
E na manhã de espanto, ao vôo de volta, mil voltas à terra — a palhinha no bico para mostrar Tua lição .
De vela em vela dos barcos, ia a Belém bem-te-ver de um galho da figueira da Gruta de David.
Asas encolhidas, ante Teus bracinhos e bico fechado para ouvir Teus murmúrios de neném.
Cabeça mexendo,as perninhas nos panosque Sara teceu.pés tocando a manjedoura,o olhar brilhando tudo:meu peito mais amareloà Tua luz.
O semblante manso de Maria, José de joelhosTe abençoando.
E na manhã de espanto, ao vôo de volta, mil voltas à terra — a palhinha no bico para mostrar Tua lição .
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