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Poemas neste tema

Passado e Futuro

Horst Bienek

Horst Bienek

A época seguinte

I
Há uma época
........e a época seguinte
sobre qual época gostaríamos de conversar?
II
Quando o cervo pastou junto ao leão
quando amadureceu a maçã para aquele que adubara a macieira
quando àquele que pescou o peixe permitiu-se também comê-lo
era uma época
....................época paradisíaca
..........................sobre a qual nossos ouvidos
apreciavam o sermão
Quando nos apertamos de bruços em catres de madeira
quando a escuridão trancafiou nossos corpos em suor
quando a fome esmigalhou-nos os sonhos e o sono
era uma época
....................época tenebrosa
..........................que não desejávamos
aos nossos inimigos
Quando os vigias berravam no pátio para nossa contagem
quando cavamos da terra o carvão com ferramentas cegas
quando buscamos uma resposta nas petrificações negras
por que essa época
....................assim era
...........................sobre a qual preferiríamos
haver lido nos manuais escolares
Quando voltamos sem lembrança às cidades natais
quando – incógnitos – misturamo-nos entre os habitantes
quando arrombamos suas portas e deixamos voltar a desconfiança
era uma época
....................época dolorosa
...........................em que transbordamos
em nossa aflição
III
Nós estamos no caminho de uma época
para outra
..............................mas aonde nos encaminhamos
..............................não haveremos de chegar
..............................às vezes nossos joelhos partem-se
..............................e a chuva molha nossos rostos
nós cantamos
.............ninguém nos ouve
.............(pois o cansaço
.............cola-nos de suor os lábios)
nossos gestos são trémulos
.............ninguém os compreende
.............(pois o desespero
.............rebenta-nos os braços do tronco)
nós continuamos
no caminho que leva de uma época
...........................à época seguinte
IV
Por compaixão jogam-nos palavras no colo
:
Die Zeit danach:/ I / Es gibt eine Zeit / und die Zeit danach / von welcher Zeit wollen wir reden? // II / Als das Reh neben dem Löwen weidete / als der Apfel reifte für den der den Apfelbaum düngte / als wer den Fisch fing ihn auch essen durfte / das war eine Zeit / paradiesische Zeit / von der wir gerne / predigen hörten. // Als wir zusammengedrängt lagen auf hölzernen Pritschen / als die Dunkelheit unsere schwitzenden Leiber einsperrte / als uns der Hunger den Schlaf und den Traum zerspellte / das war eine Zeit / finstere Zeit / die wir unseren Feinden / nicht wünschten // Als der Schrei des Wachmanns uns auf den Appellplatz jagte / als wir mit stumpfen Geräaten die Kohle aus der Erde gruben / als wir in den schwarzen Versteinerungen eine Antwort suchten / warum diese Zeit / so war / von der wir lieber / in den Lesebüchern gelesen hätten // Als wir heimkehrten in die Städte ohne Erinnerung / als – unerkannt – wir uns unter ihre Bewohner mischten / als wir einbrachen in ihre Häuser und den Argwohn zurückliessen / das war eine Zeit / schmerzliche Zeit / die wir unserer Trauer / zuschütteten // III // Wir sind auf den Weg von der einen Zeit / in die andere / doch wohin wir auch gehen / wir kommen nicht an / machmal brechen wir in die Knie / und der Regen nässt unsre Gesichter / wir singen / man hört uns nicht / (denn die Müdigkeit / schweisst uns die Lippen zusammen) / unsere Gesten sind zaghaft / man begreift sie nicht / (denn die Verzweiflung / schlägt uns die Arme vom Rumpf) / wir gehen weiter / auf dem Weg von der einen Zeit / ind die Zeit danach // IV // Mitleidig wirft man uns Wörter in den Schoss
.
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746
Antonio Cisneros

Antonio Cisneros

Karl Marx died 1883 aged 65

Ainda estou pronto para recordar a casa de minha avó e
esse par de gravuras:
Um cavalheiros na casa do alfaiate, Grande desfile militar
em Viena, 1902.
Dias em que mais nada de ruim podia acontecer. Todos levavam
seu pé de coelho na cintura.
Também minha tia-avó - vinte anos e o chapéu de palha sob o sol,
preocupando-se apenas
com manter a boca, as pernas bem fechadas.
Eram os homens de boa vontade e as orelhas limpas.
No music hall apenas os anarquistas, loucos barbudos e envoltos
em cachecóis.
Que outonos, que verões!
Eiffel fez uma torre que dizia: “até aqui chegou o homem”.
Outra gravura:
Virtude e amor e ciúme protegendo as melhores famílias.
E dizer que o velho Marx ainda não cumprira os vinte anos de idade
debaixo desta erva
- gorda e eriçada, conveniente para os campos de golf.
As coroas de flores e o caixão tinham três descanços
ao pé da colina
e depois foi enterrado
junto ao túmulo de Molly Redgrove “bombardeado pelo inimigo
em 1940 e logo reconstruído”.
Ah o velho Marx moendo e derretendo na marmita os diversos metais
enquanto os filhos pulavam das torres de Spiegel às ilhas de Times
e sua mulher fervia as cebolas e a coisa não avançava e depois
sim e então
veio o da Praça Vendome e aquilo de Lênin e o montão de revoltas
e então
as damas temeram algo mais do que mão nas nádegas
e os cavalheiros puderam suspeitar
que a locomotiva a vapor já não era mais o rosto
da felicidade universal.
“Assim foi, e estou te devendo, velho estraga-festas”.
(tradução de Aníbal Cristobo e Carlito Azevedo)
:
Todavía estoy a tiempo de recordar la casa de mi tía
abuela y ese par de grabados:
Un caballero en la casa del sastre, Gran desfile militar
en Viena, 1902.
Días en que ya nada malo podía ocurrir. Todos llevaban
su pata de conejo atada a la cintura.
También mi tía abuela —veinte anos y el sombrero de
paja bajo el sol, preocupándose apenas
por mantener la boca, las piernas bien cerradas.
Eran los hombres de buena voluntad y las orejas limpias.
Sólo en el music-hall los anarquistas, locos barbados y
envueltos en bufandas.
Qué otoños, qué veranos.
Eiffel hizo una torre que decía "hasta aquí llegó el
hombre".
Otro grabado:
Virtud y amor y cela protegiendo a las buenas familias.
Y eso que el viejo Marx aún no cumplía los veinte años
de edad bajo esta yerba
—gorda y erizada, conveniente a los campos de golf.
Las coronas de flores y el cajón tuvieron tres descansos al
pie de la colina
y después fue enterrado
junto a I
la tumba de Molly Redgrove "bombardeada por
el enemigo en 1940 y vuelta a construir".
Ah el viejo Karl moliendo y derritiendo en la marmita
los diversos metales
mientras sus hijos saltaban de las torres de Spiegel a las
islas de Times
y su mujer hervía las cebollas y la cosa no iba y después
sí y entonces
vino lo de Plaza Vendome y eso de Lenin y el montón
de revueltas y entonces
las damas temieron algo más que una mano en las naIgas
y los caballeros pudieron sospechar
que la locomotora a vapor ya no era más el rostro
de la felicidad universal.
"Así fue, y estoy en deuda contigo, viejo aguafiestas:”
.
.
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Tomás Antônio Gonzaga

Tomás Antônio Gonzaga

Lira XV

Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro,
fui honrado Pastor da tua Aldeia;
vestia finas lãs e tinha sempre
a minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal e o manso gado,
nem tenho, a que me encoste, um só cajado.

Para ter que te dar, é que eu queria
de mor rebanho ainda ser o dono;
prezava o teu semblante, os teus cabelos
ainda muito mais que um grande Trono.
Agora que te oferte já não vejo,
além de um puro amor, de um são desejo.

(...)

Propunha-me dormir no teu regaço
as quentes horas da comprida sesta,
escrever teus louvores nos olmeiros,
toucar-te de papoilas na floresta.
Julgou o justo Céu que não convinha
que a tanto grau subisse a glória minha.

Ah! minha bela, se a fortuna volta,
se o bem, que já perdi, alcanço e provo,
por essas brancas mãos, por essas faces
te juro renascer um homem novo,
romper a nuvem que os meus olhos cerra,
amar no céu a Jove e a ti na terra!

Fiadas comprarei as ovelhinhas,
que pagarei dos poucos do meu ganho;
e dentro em pouco tempo nos veremos
senhores outra vez de um bom rebanho.
Para o contágio lhe não dar, sobeja
que as afague Marília, ou só que as veja.

Se não tivermos lãs e peles finas,
podem mui bem cobrir as carnes nossas
as peles dos cordeiros mal curtidas,
e os panos feitos com as lãs mais grossas.
Mas ao menos será o teu vestido
por mãos de amor, por minhas mãos cosido.

Nós iremos pescar na quente sesta
com canas e com cestos os peixinhos;
nós iremos caçar nas manhãs frias
com a vara enviscada os passarinhos.
Para nos divertir faremos quanto
reputa o varão sábio, honesto e santo.

Nas noites de serão nos sentaremos
c'os filhos, se os tivermos, à fogueira:
entre as falsas histórias, que contares,
lhes contarás a minha, verdadeira:
Pasmados te ouvirão; eu, entretanto,
ainda o rosto banharei de pranto.

Quando passarmos juntos pela rua,
nos mostrarão c'o dedo os mais Pastores,
dizendo uns para os outros: — Olha os nossos
exemplos da desgraça e sãos amores.
Contentes viveremos desta sorte,
até que chegue a um dos dois a morte.

Imagem - 00170003


Publicado no livro Marília de Dirceu: Segunda Parte (1799).

In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
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Basílio da Gama

Basílio da Gama

Canto Terceiro (II)

(...)
Mas a enrugada Tanajura, que era
Prudente, e experimentada, e que a seus peitos
Tinha criado em mais ditosa idade
A mãe da mãe da mísera Lindóia,
E lia pela história do futuro.
Visionária, supersticiosa,
Que de abertos sepulcros recolhia
Nuas caveiras, e esburgados ossos,
A uma medonha gruta, onde ardem sempre
Verdes candeias, conduziu chorando
Lindóia, a quem amava como filha;
E em ferrugento vaso licor puro
De viva fonte recolheu. Três vezes
Girou em roda, e murmurou três vezes
Co'a carcomida boca ímpias palavras,
E as águas assoprou: depois com o dedo
Lhe impõe silêncio, e faz que as águas note.
Como no mar azul, quando recolhe
A lisonjeira viração as asas,
Adormecem as ondas, e retratam
Ao natural as debruçadas penhas,
O copado arvoredo, e as nuvens altas:
Não de outra sorte à tímida Lindóia
Aquelas águas fielmente pintam
O rio, a praia, o vale, e os montes, onde
Tinha sido Lisboa; e viu Lisboa
Entre despedaçados edifícios,
Com o solto cabelo descomposto,
Tropeçando em ruínas encostar-se
Desamparada dos habitadores
A Rainha do Tejo, e solitária,
No meio de sepulcros procurava
Com seus olhos socorro; e com seus olhos
Só descobria de um, e de outro lado
Pendentes muros, e inclinadas torres.
Vê mais o Luso Atlante, que forceja
Por sustentar o peso desmedido
Nos roxos ombros. Mas do Céu sereno,
Em branca nuvem Próvida Donzela
Rapidamente desce, e lhe apresenta
De sua mão, Espírito Constante,
Gênio de Alcides, que de negros monstros
Despeja o Mundo, e enxuga o pranto à praia.
Tem por despojos cabeludas peles
De ensanguentados, e famintos lobos,
E fingidas raposas. Manda, e logo
O incêndio lhe obedece; e de repente
Por onde quer que ele encaminha os passos,
Dão lugar as ruínas. Viu Lindóia
Do meio delas, só a um seu aceno,
Sair da terra feitos, e acabados
Vistosos edifícios. Já mais bela
Nasce Lisboa de entre as cinzas: glória
Do grande Conde, que co'a mão robusta
Lhe firmou na alta testa os vacilantes
Mal seguros castelos. Mais ao longe
Prontas no Tejo, e ao curvo ferro atadas
Aos olhos dão de si terrível mostra,
Ameaçando o mar, as poderosas
Soberbas naus. (...)

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In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941

NOTA: Poema composto de 5 canto
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

Quem Lucrava?

Mas quem, na verdade, lucrava com esse vasto ouro? Com esse ouro brasileiro, extorquido com tanta ganância e molhado de tanta lágrima? O Brasil? Não. Portugal? Fato incrível: também não. Portugal não lucrou coisa alguma com aquela caudalosa riqueza. "O inglez sentava-se com o Rei á mesa e aplaudia o desperdício: porque todo o ouro do Brasil passava apenas por Portugal, indo fundear em Inglaterra, em pagamento da farinha e dos generos alimentícios com que elle nos alimentava e vestia. A industria nacional constava de operas e devoções. Por isso nem todo o ouro do Brasil bastou: a divida nacional cresceu (!) e Lisboa, para não morrer de sede, teve de pagar com um imposto especial a construção do seu acqueducto".

"Nem todo o ouro do Brasil bastou! A divida nacional cresceu!" Mal acredita a gente no que lê. Será possível? Talvez, numa crise de mau humor, tomado subitamente de parcialidade, deixasse o notabilíssimo escritor tombar da pena a frase azeda. Mas não. Vêde Coelho da Rocha: "No reinado seguinte ao de D. João V, para occorrer ás necessidades do Estado e atrazo dos pagamentos, abriu o governo um empréstimo de dez milhões de cruzados a juro de cinco por cento". Ao que pondera o Pinheiro Chagas: "Parece incrível que, tendo D. João V nas minas do Brasil um banqueiro tão commodo, fosse durante o seu governo que o Estado contrahisse mais empréstimos". "De forma que o reinado, em que as torrentes de ouro do Brasil verdadeiramente inundaram Portugal, foi aquelle em que o Paiz ficou mais empenhado e em que se deixou mais vasio o thesouro".

Que triste destino teve o ouro do Brasil! Ouro fatídico! Não serviu de nada, absolutamente nada, para a colônia que o produziu com sangue. Mas também não serviu de nada, absolutamente nada, para o país afortunado que o recebeu aos jorros.

Apenas — pálido consolo! — como relíquias evocadoras daquelas grandezas magníficas, "hoje (escreve saudosamente A. Pimentel), quando os coches de D. João V se estadeiam em alguma das grandes solemnidades officiaes, como que se desdobram aos nossos olhos todo o esplendor dessa corte que o ouro e os diamantes do Brasil egualaram ás riquezas phantasticas do Oriente ..."

E é só.

Convenhamos que é muito pouco.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 110-112. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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Manuel de Santa Maria Itaparica

Manuel de Santa Maria Itaparica

Canto Quinto

XIII

Em um vasto me achei, e novo Mundo,
De nós desconhecido e ignorado,
Em cujas praias bate um mar profundo,
Nunca ategora de algum lenho arado:
O clima alegre, fértil e jucundo,
E o chão de árvores muitas povoado,
E no verdor das folhas julguei que era
Ali sempre contínua a Primavera.

XIV

Delas estavam pomos pendurados
Diversos na fragrância e na pintura,
Nem dos homens carecem ser plantados,
Mas agrestes se dão, e sem cultura;
E entre os troncos muitos levantados,
Que ainda a fantasia me figura,
Havia um pau de tinta mui fecunda,
Transparente na cor, e rubicunda.

XV

Pássaros muitos de diversas cores
Se viam várias ondas transformando,
E dos troncos suavíssimos licores
Em cópia grande estavam dimanando:
Peixes vi na grandeza superiores,
E animais quadrúpedes saltando,
A Terra tem do metal louro as veias,
Que de alguns rios se acha nas areias.

XVI

E quando a vista estava apascentando
Destas cousas na alegre formosura,
Um velho vi, que andava passeando,
De desmarcada e incógnita estatura:
Com sobressalto os olhos fui firmando
Naquela sempre móvel criatura,
E pareceu-me, se bem reparava,
Que vários rostos sempre me mostrava.

(...)

XVIII

Fiquei desta visão maravilhado,
Como quem de tais Monstros não sabia,
E logo perguntei sobressaltado
Quem era, que buscava, e que queria?
Ele virando o rosto remendado,
De cor da escura noute e claro dia,
Que eu era, respondeu, quem procurava,
E que Póstero, disse, se chamava.

(...)

XXII

Este pois lá num século futuro,
Posto que dela ausente e apartado,
Porque cos filhos sempre foi perjuro
O pátrio chão, e os trata sem agrado,
Por devoção intrínseca, e amor puro,
Talvez do Deus, que adoras, inspirado,
De ti e desses dous dessa pousada
Há de cantar com lira temperada.

XXIII

Aqui fez termo o velho, sufocando
A voz dentro do escuro e oculto peito,
Nunca do seu passeio descansando,
Nem quando me explicava o alto conceito:
Eu do letargo atônito despertando
Me alegrei de ver cousas deste jeito,
E vede que julgais, ó companheiros,
Que os sonhos são às vezes verdadeiros.

(...)


Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).

In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.138-141. (Textos, 2
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