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Poemas neste tema

Serenidade e Paz Interior

M. de Monte Maggiore

M. de Monte Maggiore

Salmo da Meia Noite

Tua voz suavizou minha alma e teu pensamento desceu ao meu
coração como um bálsamo.

As tristezas se foram, dispersadas.

A Paz veio, leve como um pássaro,
e a Poesia desatou suas pétalas perfumadas.

Repara, doce Amor, na melodia do meu alaúde.
Estes acordes delicados são para ti uma carícia.
Que vaie a vida sem o Cisne Branco do meu lago azul?
Desprende, Ave Sagrada, um vôo altaneiro e vem pousar nas
águas mansas do meu jardim fechado.

Dar-te-ei carne de coração na hóstia de um amor imenso!

Beberás o licor da poesia no cálice dos meus lábios.
Serás imortal!
Abre as asas brancas nas campinas azuis, onde o sol passeia, e
vem, que te espero, ansiosamente.

Ergueremos um pavilhão colorido nos montes de Sião.
Nossa casa terá água cristalina para os que têm sede
e pão branco para os que pisam os caminhos da vida.

Todas as tardes passearemos envoltos na brisa vespertina e descobriremos,
no horizonte, as telas imortais do Criador,

Em nossa tenda haverá tapetes de Caxemira e pérolas de Ofir e
marfim da índia e rosas de Jericó...

Nossas manhãs serão claras como as manhãs de abril e nossas
noites suaves como as noites de luar de agosto.

Haverá em tudo aquele riso bom que sai do coração, porque
nossa felicidade saiu das mãos de Deus!

Doce amiga, teu perfume me vem na asa da saudade.
A carícia de tuas mãos, sinto-a sobre meus olhos cansados, ao
cair da tarde.

Há um lugar chorando uma ausência... Dentro da noite, ouve-se
um canto triste. É o pombo chamando a companheira para o
ninho vazio.

A felicidade está cantando baixinho a cancão da "Espera". "Ela"
vem vindo, lá longe, na curva azul da lemerança...

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Humberto Fialho Guedes

Humberto Fialho Guedes

Contemplação da Aurora

Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Por entre as mãos por entre os gestos
invisíveis no tecer as cores
formas e objetos compondo panoramas.

Deixar-se estar. Os olhos mansos
(derramado olhar banhando muros)
amanhecendo em concreção de pedra e limo;
o cais solene vai barrando águas
em postura de silêncio e longa espera.

Deixar-se estar. E as mãos
amaciando gestos revolvendo sonhos
na modulação do instante percebido
pelos rostos e corações em muda contemplação.

Deixar-se estar. Enquanto
(vivazes e esquivas) gaivotas brancas
sobrevoam ilhas; e o mar azul
(traçado em vagas e horizontes)
derrama nas praias restos de vento.

Deixar-se estar. Quedar imóvel.
Para que nem um pensamento (fímbria de luz)
perturbe o enovelar-se que há no vôo
marítimo das ondas convertido em salto.

Deixar-se estar.
Contemplando os objetos esquecidos
( limitadas formas de extensão exata)
com amor de quem os tem como encontrados
depois de longa busca após os ter perdido.

(Velhos remos lembram velhos braços
ancorados ao velho porto do esquecimento;
contariam velhas estórias se pudessem
ser ouvidos em silêncio e muita fé)

Contemplando os objetos esquecidos:
barcos lemes búzios quilhas
velas e mastros tombados ao som dos ventos.

E enquanto o instante se consome lento
na floração de formas colorindo espaços
derramados sons revelam idos
e anunciam no tempo o que se aguarda:

ao longe se divisa e vão surgindo
corcéis de espuma patinando águas
desfazendo brumas semeando cravos
(brancos e breves) que se vão abrindo
em jorros de luz: cristais da aurora.

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