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Animais e Natureza

Sílvio Romero

Sílvio Romero

X - A Serpe

I

Passa, meu condenado, a tarde é linda,
O céu é pensativo; para ver-te
Ei-lo que se ilumina; quer fazer-te
Um sinal como atento; mas por quê?
É que dás um exemplo majestoso
De galé resignado, indiferente
Às auras, que te embalam docemente,
E à nuvem, que é vaidosa, e que o não crê.

Passa, meu condenado; a moita é fresca.
Copada e perfumosa; vai, te esconde
Pois, já que tudo exulta, lá por onde
A flor agreste oculta se retrai.
O mundo folga e ri-se... é magnífico!
Mas tu sereno, impávido te mostras;
Nunca desces, medroso, nem te prostras...
Estupendo parece quem não cai!

Oculta lá na treva escura e densa
A serpe cala as queixas, e proscrita,
Tranquila, esquece a cólera, que agita
Muita rábida insânia do furor.
Vê por entre a folhage', a imensidade;
Estupefata tem ímpetos de amá-la...
Tão pequena que é!... mas como exala
Tanta desgraça cheia de fulgor!

Gosta da luz, mas compreende a sombra.
Da altivez é fanática; desdenha
A fera, que arrogante se desenha
A seus olhos, frenética de si.
Miserável, que sofre a exuberância
Da desdita cruel; mas não ostenta
Mentida superfluidade opulenta
Lá de íntimo sossego... Por aí —

Pela selva sombria odeia o pássaro,
O frívolo que canta e não medita,
E a flor que se intumesce, e que se agita
A cada rir do vento que passou.
Ignóbil, parece uma blasfêmia
Da natureza enraivada, a ironia
Que a terra arroja aos céus! E quem diria
Que fel de gênio atroz a formulou?!

(...)


Poema integrante da série Parte Segunda: A Natureza.

In: ROMERO, Sílvio. Cantos do fim do século, 1869/1873. Rio de Janeiro: Tip. Fluminense, 1878
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Manuel de Santa Maria Itaparica

Manuel de Santa Maria Itaparica

Canto Quinto

XIII

Em um vasto me achei, e novo Mundo,
De nós desconhecido e ignorado,
Em cujas praias bate um mar profundo,
Nunca ategora de algum lenho arado:
O clima alegre, fértil e jucundo,
E o chão de árvores muitas povoado,
E no verdor das folhas julguei que era
Ali sempre contínua a Primavera.

XIV

Delas estavam pomos pendurados
Diversos na fragrância e na pintura,
Nem dos homens carecem ser plantados,
Mas agrestes se dão, e sem cultura;
E entre os troncos muitos levantados,
Que ainda a fantasia me figura,
Havia um pau de tinta mui fecunda,
Transparente na cor, e rubicunda.

XV

Pássaros muitos de diversas cores
Se viam várias ondas transformando,
E dos troncos suavíssimos licores
Em cópia grande estavam dimanando:
Peixes vi na grandeza superiores,
E animais quadrúpedes saltando,
A Terra tem do metal louro as veias,
Que de alguns rios se acha nas areias.

XVI

E quando a vista estava apascentando
Destas cousas na alegre formosura,
Um velho vi, que andava passeando,
De desmarcada e incógnita estatura:
Com sobressalto os olhos fui firmando
Naquela sempre móvel criatura,
E pareceu-me, se bem reparava,
Que vários rostos sempre me mostrava.

(...)

XVIII

Fiquei desta visão maravilhado,
Como quem de tais Monstros não sabia,
E logo perguntei sobressaltado
Quem era, que buscava, e que queria?
Ele virando o rosto remendado,
De cor da escura noute e claro dia,
Que eu era, respondeu, quem procurava,
E que Póstero, disse, se chamava.

(...)

XXII

Este pois lá num século futuro,
Posto que dela ausente e apartado,
Porque cos filhos sempre foi perjuro
O pátrio chão, e os trata sem agrado,
Por devoção intrínseca, e amor puro,
Talvez do Deus, que adoras, inspirado,
De ti e desses dous dessa pousada
Há de cantar com lira temperada.

XXIII

Aqui fez termo o velho, sufocando
A voz dentro do escuro e oculto peito,
Nunca do seu passeio descansando,
Nem quando me explicava o alto conceito:
Eu do letargo atônito despertando
Me alegrei de ver cousas deste jeito,
E vede que julgais, ó companheiros,
Que os sonhos são às vezes verdadeiros.

(...)


Publicado no livro Eustáquidos: poema sacro e tragicômico (1769*).

In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.138-141. (Textos, 2
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