Poemas neste tema
Verdade
Edmir Domingues
Saltimbancos
Seremos saltimbancos nesta noite
que é preciso que alguém envergue o traje
das púrpuras e guizos, no vazio.
Todo silêncio é triste. E a madrugada
que está sendo construída neste instante
não deve ter nos passos, quando venha,
senão um canto exato como um rito.
Se cada madrugada que rebenta
é produto de um reino de trabalho
que além palpita, e nós o não sabemos,
pois nascemos de noite mal nascidos
de cérebro e sentidos amputados.
As palavras nos negam. 0 cristal
dorme na rocha e nasce como rosa
enquanto a flor que nasce da palavra
na própria inconsistência se desata.
Por isso o reino é nada, e os saltimbancos
valem mais do que o rei e os sacerdotes,
se eles são, no que dizem, no que pregam,
mais verdadeiros posto que mais falsos.
Dos ditos que diremos saltimbancos
claros ou não que sejam se conclua
que os países da infância são distantes
mas únicos na altura e na verdade.
Na sua neve dorme a consistência
dos anjos e das pétalas noturnas
que nenhuma mulher nos trouxe nunca
por mais que dela o vento nos falasse.
Não saberão, por certo, os da assistência,
que a verdade só vive nas comédias
as quais palpitam sempre como sangue.
Então nós construiremos um silêncio.
Se outra coisa não foram as palavras
faladas até hoje, na constância
que se permite aos tempos provisórios,
sob as sombras e a luz, senão silêncio.
Seremos saltimbancos, envergando
as púrpuras e os guizos, no vazio.
que é preciso que alguém envergue o traje
das púrpuras e guizos, no vazio.
Todo silêncio é triste. E a madrugada
que está sendo construída neste instante
não deve ter nos passos, quando venha,
senão um canto exato como um rito.
Se cada madrugada que rebenta
é produto de um reino de trabalho
que além palpita, e nós o não sabemos,
pois nascemos de noite mal nascidos
de cérebro e sentidos amputados.
As palavras nos negam. 0 cristal
dorme na rocha e nasce como rosa
enquanto a flor que nasce da palavra
na própria inconsistência se desata.
Por isso o reino é nada, e os saltimbancos
valem mais do que o rei e os sacerdotes,
se eles são, no que dizem, no que pregam,
mais verdadeiros posto que mais falsos.
Dos ditos que diremos saltimbancos
claros ou não que sejam se conclua
que os países da infância são distantes
mas únicos na altura e na verdade.
Na sua neve dorme a consistência
dos anjos e das pétalas noturnas
que nenhuma mulher nos trouxe nunca
por mais que dela o vento nos falasse.
Não saberão, por certo, os da assistência,
que a verdade só vive nas comédias
as quais palpitam sempre como sangue.
Então nós construiremos um silêncio.
Se outra coisa não foram as palavras
faladas até hoje, na constância
que se permite aos tempos provisórios,
sob as sombras e a luz, senão silêncio.
Seremos saltimbancos, envergando
as púrpuras e os guizos, no vazio.
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1
Nuno Júdice
Imagem do mundo
Vejo o mundo. E ao ver as coisas do mundo,
com a sua realidade própria, vejo também
a diversidade que existe em cada coisa,
distinguindo-a, múltipla ou plural.
como se diz. No entanto, o que eu vejo
é sempre igual ao que eu penso
que o mundo é; e tudo se torna
semelhante, dentro deste mundo que é
o meu, e é sempre diferente do mundo que
existe no pensamento de outro. É por isso
que não penso nas coisas do mundo como
se fossem minhas; e que o deixo para os outros,
para que eles façam o mundo como quiserem,
para que seja diferente do meu, quando o
olho, e o que vejo me restitui o mundo
como eu o quero, diferente do mundo que
os outros pensam.
com a sua realidade própria, vejo também
a diversidade que existe em cada coisa,
distinguindo-a, múltipla ou plural.
como se diz. No entanto, o que eu vejo
é sempre igual ao que eu penso
que o mundo é; e tudo se torna
semelhante, dentro deste mundo que é
o meu, e é sempre diferente do mundo que
existe no pensamento de outro. É por isso
que não penso nas coisas do mundo como
se fossem minhas; e que o deixo para os outros,
para que eles façam o mundo como quiserem,
para que seja diferente do meu, quando o
olho, e o que vejo me restitui o mundo
como eu o quero, diferente do mundo que
os outros pensam.
Nuno Júdice | "Geometria variável", 2005
2 730
1
Fernando Pessoa
Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega —
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega —
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.
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1
Fernando Pessoa
O nosso mundo é real e o Deus que tem
O nosso mundo é real e o Deus que tem
— O Deus das fés, das crenças, com seu céu (
É absolutamente verdadeiro,
É a realidade, é o criador,
É a Vida e a fonte da Eterna Vida...
Mas nada disso é a Verdade real...
E o próprio Deus não sabe qual é ela...
Ele próprio tem o seu mistério, e pesa
Sobre o que nele seja o Pensamento
O mesmo Górgona que sobre nós pesa...
Ele é sim, infinito e verdadeiro,
Ele sim o eterno criador
Que está além do tempo, e o espaço, e o (...)
Mas não é mais que um sol porque girando
Em torno ao Ser absoluto... e este é apenas
O sol centro dum sistema dos
Inúmeros sistemas
De que a Verdade Essencial é feita!
Sim, iremos, seres imortais
Sim, iremos a Deus e eternamente
Aí estaremos... E tudo isso é certo...
E tudo isso é falso, é tudo falso.
Outra e fechada sempre é a Verdade...
Outro é Deus do que Deus... e antes são reais
Outros seres do que o ser [...]
— O Deus das fés, das crenças, com seu céu (
É absolutamente verdadeiro,
É a realidade, é o criador,
É a Vida e a fonte da Eterna Vida...
Mas nada disso é a Verdade real...
E o próprio Deus não sabe qual é ela...
Ele próprio tem o seu mistério, e pesa
Sobre o que nele seja o Pensamento
O mesmo Górgona que sobre nós pesa...
Ele é sim, infinito e verdadeiro,
Ele sim o eterno criador
Que está além do tempo, e o espaço, e o (...)
Mas não é mais que um sol porque girando
Em torno ao Ser absoluto... e este é apenas
O sol centro dum sistema dos
Inúmeros sistemas
De que a Verdade Essencial é feita!
Sim, iremos, seres imortais
Sim, iremos a Deus e eternamente
Aí estaremos... E tudo isso é certo...
E tudo isso é falso, é tudo falso.
Outra e fechada sempre é a Verdade...
Outro é Deus do que Deus... e antes são reais
Outros seres do que o ser [...]
1 399
1
Fernando Pessoa
VIII - Ah quantas máscaras e submáscaras - T
VIII
Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?
De máscaras não sabe a vera máscara,
E lá de dentro fita mascarada.
Que consciência seja que se afirme,
O aceite uso de afirmar-se a ensona.
Como criança que ante o espelho teme,
As nossas almas, crianças, distraídas,
Julgam ver outras nas caretas vistas
E um mundo inteiro na esquecida causa;
E, quando um pensamento desmascara,
Desmascarar não vai desmascarado.
Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?
De máscaras não sabe a vera máscara,
E lá de dentro fita mascarada.
Que consciência seja que se afirme,
O aceite uso de afirmar-se a ensona.
Como criança que ante o espelho teme,
As nossas almas, crianças, distraídas,
Julgam ver outras nas caretas vistas
E um mundo inteiro na esquecida causa;
E, quando um pensamento desmascara,
Desmascarar não vai desmascarado.
1 897
1
Fernando Pessoa
NADA
Ó Nada, esposa do Padre Eterno
Mãe deste mundo
Segundo reza o profundo
Saber que a Bíblia impinge a este inferno
Que é a cabeça de quem quer achar
A verdade, sem nunca a encontrar.
Omnimaterno ventre (se é que mesmo
Em poesia se pode isto dizer)
(…)
Mãe deste mundo
Segundo reza o profundo
Saber que a Bíblia impinge a este inferno
Que é a cabeça de quem quer achar
A verdade, sem nunca a encontrar.
Omnimaterno ventre (se é que mesmo
Em poesia se pode isto dizer)
(…)
1 299
1
Fernando Pessoa
Em Mim
Paro à beira de mim e me debruço...
Abismo... E nesse abismo o Universo
Com seu Tempo e seu Espaço é um astro e nesse
Abismo há outros universos, outras
Formas de Ser com outros Tempos, Espaços
E outras vidas diversas desta vida...
O espírito é antes estrela... O Deus pensado
É um sol... E há mais Deuses, mais espíritos
Doutras maneiras de Realidade...
E eu precipito-me no abismo, e fico
Em mim... E nunca desço... E fecho os olhos
E sonho — e acordo para a Natureza...
Assim eu volto a Mim e à Vida...
Inclino o meu ouvido para mim
E escuto... Um Deus Real e Verdadeiro
Criou nosso universo em sua dupla
Unidade divina de corpo e alma... E esse
Deus, com seu Universo real e eterno,
É um átomo num mundo de universos.
Inextricavelmente
Há outras realidades.
É saber isto que me faz alheio
À vida e pálido entre a humanidade...
Deus a si próprio não se compreende.
Sua origem é mais divina que ele,
E ele não tem origem que as palavras
Possam fazer pensar...
Fecha as portas da Alma! Faze ruído!
Agita, grito, o teu externo Ser,
Encobre-me a Presença do Mistério!
Pode ser que mundo possuamos
Um paraíso eterno, e vida divina
Seja (ó relâmpago do pensamento!)
A realidade! A ilusão talvez
Dure pra sempre... Quem criou um átomo
Ainda por criar
Pode criar uma ilusão eterna...
Altitude! Altitude! Não respiro!
Passei além da Realidade, ergui-me
Acima da Verdade... Deus... O Ser
O abstracto ser em sua abstracta ideia
Esse próprio, o mesmo sonho divino (?(
Apagou-se e eu fiquei na noite eterna
Eu e o Mistério face a face...
Abismo... E nesse abismo o Universo
Com seu Tempo e seu Espaço é um astro e nesse
Abismo há outros universos, outras
Formas de Ser com outros Tempos, Espaços
E outras vidas diversas desta vida...
O espírito é antes estrela... O Deus pensado
É um sol... E há mais Deuses, mais espíritos
Doutras maneiras de Realidade...
E eu precipito-me no abismo, e fico
Em mim... E nunca desço... E fecho os olhos
E sonho — e acordo para a Natureza...
Assim eu volto a Mim e à Vida...
Inclino o meu ouvido para mim
E escuto... Um Deus Real e Verdadeiro
Criou nosso universo em sua dupla
Unidade divina de corpo e alma... E esse
Deus, com seu Universo real e eterno,
É um átomo num mundo de universos.
Inextricavelmente
Há outras realidades.
É saber isto que me faz alheio
À vida e pálido entre a humanidade...
Deus a si próprio não se compreende.
Sua origem é mais divina que ele,
E ele não tem origem que as palavras
Possam fazer pensar...
Fecha as portas da Alma! Faze ruído!
Agita, grito, o teu externo Ser,
Encobre-me a Presença do Mistério!
Pode ser que mundo possuamos
Um paraíso eterno, e vida divina
Seja (ó relâmpago do pensamento!)
A realidade! A ilusão talvez
Dure pra sempre... Quem criou um átomo
Ainda por criar
Pode criar uma ilusão eterna...
Altitude! Altitude! Não respiro!
Passei além da Realidade, ergui-me
Acima da Verdade... Deus... O Ser
O abstracto ser em sua abstracta ideia
Esse próprio, o mesmo sonho divino (?(
Apagou-se e eu fiquei na noite eterna
Eu e o Mistério face a face...
1 723
1
Raimundo Correia
Nua e Crua
Doire a Poesia a escura realidade
E a mim a encubra! Um visionário ardente
Quis vê-la nua um dia; e, ousadamente,
Do áureo manto despoja a divindade;
O estema da perpétua mocidade
Tira-lhe e as galas; e ei-la, de repente,
Inteiramente nua e inteiramente
Crua, como a Verdade! E era a Verdade!
Fita-a em seguida, e atônito recua...
— Ó Musa! exclama então, magoado e triste,
Traja de novo a louçainha tua!
Veste outra vez as roupas que despiste!
Que olhar se apraz em ver-te assim tão nua?...
À nudez da Verdade quem resiste?!
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.22
E a mim a encubra! Um visionário ardente
Quis vê-la nua um dia; e, ousadamente,
Do áureo manto despoja a divindade;
O estema da perpétua mocidade
Tira-lhe e as galas; e ei-la, de repente,
Inteiramente nua e inteiramente
Crua, como a Verdade! E era a Verdade!
Fita-a em seguida, e atônito recua...
— Ó Musa! exclama então, magoado e triste,
Traja de novo a louçainha tua!
Veste outra vez as roupas que despiste!
Que olhar se apraz em ver-te assim tão nua?...
À nudez da Verdade quem resiste?!
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.22
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1
Joaquim Manuel de Macedo
O dinheiro é um feitiço
(...)
Adriano — O dinheiro é um feitiço
Que a todo mundo enlouquece;
Aos ricos todos festejam,
O pobre nada merece.
Celestina — As senhoras melhor sabem
Do dinheiro o valimento;
Moça rica que tem dote,
Nunca perde casamento.
Pantaleão — O rico nunca tem frio,
Traz sempre a barriga cheia;
E até por coisas que eu sei
Jamais visita a cadeia.
Felisberto — Homem pobre é sempre feio
Bicho mau e desprezado;
Quem tem dinheiro é bonito,
É sábio, sempre engraçado.
Coro Geral — Dinheiro! venha dinheiro!
Dinheiro é tudo na terra;
Dá prazeres, glória, amores,
Faz a paz e move a guerra.
Publicado no livro O primo da Califórnia: ópera em dois atos, imitação do francês (1858).
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.147-148. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
Adriano — O dinheiro é um feitiço
Que a todo mundo enlouquece;
Aos ricos todos festejam,
O pobre nada merece.
Celestina — As senhoras melhor sabem
Do dinheiro o valimento;
Moça rica que tem dote,
Nunca perde casamento.
Pantaleão — O rico nunca tem frio,
Traz sempre a barriga cheia;
E até por coisas que eu sei
Jamais visita a cadeia.
Felisberto — Homem pobre é sempre feio
Bicho mau e desprezado;
Quem tem dinheiro é bonito,
É sábio, sempre engraçado.
Coro Geral — Dinheiro! venha dinheiro!
Dinheiro é tudo na terra;
Dá prazeres, glória, amores,
Faz a paz e move a guerra.
Publicado no livro O primo da Califórnia: ópera em dois atos, imitação do francês (1858).
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.147-148. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
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1
Colombina
Espírito
Não! A verdade és tu! A tua flama pura
sobre a matéria e além dos séculos cintila!
Plasmas o sonho e dás à humana criatura
forças para vencer a própria triste argila.
Conduzes ao saber; a ti pertence a altura;
tudo que é belo vem da tua luz tranquila.
Sem ti seria o mundo uma caverna escura;
nem a morte cruel te vence ou te aniquila.
Revelação de Deus, de toda a sua imensa
sabedoria, que dizendo ao homem "Pensa!"
no cérebro lhe pôs a forja das idéias.
Sim, a verdade és tu, espírito que elevas
as criaturas; tu, que enches de luz as trevas,
transformando a miséria e a dor em epopéias!
Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
sobre a matéria e além dos séculos cintila!
Plasmas o sonho e dás à humana criatura
forças para vencer a própria triste argila.
Conduzes ao saber; a ti pertence a altura;
tudo que é belo vem da tua luz tranquila.
Sem ti seria o mundo uma caverna escura;
nem a morte cruel te vence ou te aniquila.
Revelação de Deus, de toda a sua imensa
sabedoria, que dizendo ao homem "Pensa!"
no cérebro lhe pôs a forja das idéias.
Sim, a verdade és tu, espírito que elevas
as criaturas; tu, que enches de luz as trevas,
transformando a miséria e a dor em epopéias!
Publicado no livro Distância: poemas de amor e de renúncia (1948). Poema integrante da série Luzes na Neblina.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 185
1
Lila Ripoll
Grito
Não, não irei sem grito.
Minha voz nesse dia subirá.
E eu me erguerei também.
Solitária. Definida.
As portas adormecidas abrirão
passagem para o mundo
Meus sonhos, meus fantasmas,
meus exércitos derrotados,
sacudirão o silêncio de convenção
e as máscaras de piedade compungida.
Dispensarei as rosas, as violetas,
os absurdos véus sobre meu rosto.
Serei eu mesma. Estarei
inteira sobre a mesa.
As mãos vazias e crispadas,
os olhos acordados,
a boca vincada de amargor.
Não. Não irei sem grito.
Abram as portas adormecidas,
levantem as cortinas,
abaixem as vozes
e as máscaras —
que eu vou sair inteira.
Eu mesma. Solitária.
Definida.
Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.81-8
Minha voz nesse dia subirá.
E eu me erguerei também.
Solitária. Definida.
As portas adormecidas abrirão
passagem para o mundo
Meus sonhos, meus fantasmas,
meus exércitos derrotados,
sacudirão o silêncio de convenção
e as máscaras de piedade compungida.
Dispensarei as rosas, as violetas,
os absurdos véus sobre meu rosto.
Serei eu mesma. Estarei
inteira sobre a mesa.
As mãos vazias e crispadas,
os olhos acordados,
a boca vincada de amargor.
Não. Não irei sem grito.
Abram as portas adormecidas,
levantem as cortinas,
abaixem as vozes
e as máscaras —
que eu vou sair inteira.
Eu mesma. Solitária.
Definida.
Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.81-8
2 869
1
Gregório de Matos
Defende Seu Poeta por Seguro
Eu sou aquele, que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios, e enganos.
E bem que os decantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
(...)
A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por Poeta, o que é Pegaso.
De que pode servir calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um, e outro desconcerto,
Condena o roubo, e increpa a hipocrisia.
O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.
Diz logo prudentaço, e repousado,
Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio: se disso entendes nada, ou pouco,
Como mofas com riso, e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.
Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos há, que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Faz focinho: mostra desprezo ou desagrado, seria equivalente à expressão 'faz beicinho', 'franze o nariz'; chitom: 'silêncio' 'cale-se!'; haja saúde: fórmula de despedida equivalente a 'saúde!' ou a 'adeus', hoje a 'até logo
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios, e enganos.
E bem que os decantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
(...)
A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por Poeta, o que é Pegaso.
De que pode servir calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um, e outro desconcerto,
Condena o roubo, e increpa a hipocrisia.
O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.
Diz logo prudentaço, e repousado,
Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio: se disso entendes nada, ou pouco,
Como mofas com riso, e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.
Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos há, que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Faz focinho: mostra desprezo ou desagrado, seria equivalente à expressão 'faz beicinho', 'franze o nariz'; chitom: 'silêncio' 'cale-se!'; haja saúde: fórmula de despedida equivalente a 'saúde!' ou a 'adeus', hoje a 'até logo
2 124
1
Juvenal Galeno
As Formas de Governo
Logo após a indepêndencia
De minha pátria nação,
Sobre as formas de governo
Versou forte discussão:
Um queria monarquia
Sujeita à Constituição,
Outro — um rei absoluto,
E outro mais resoluto
Pedia a — federação!
Então, então
Não podia eu, como agora,
Dizer minha opinião!
Palavra puxa palavra...
Té que se escuta o canhão;
As balas voam ferinas...
De mortos cobrem-se o chão!
Quando o brado da vitória
Solta uma forte facção...
E gemidos consternados
A prole dos fuzilados
Aos olhos da multidão!
Então, então
Não podia eu, como agora,
Dizer minha opinião!
Como infante, a minha pátria
Não sabia o que escolher;
Era nóvel — só por isso
Ninguém devera morrer;
Pois é próprio das crianças
O querer e não querer;
Hoje, não — mestra exp'riência
Nos mostra a conveniência
Do que devemos fazer!
(...)
Assim pois com toda a calma,
Após muito meditar,
Vejamos qual dos governos
É o mais fácil de aturar:
A república?... Excelente!
Só ela vem-nos salvar!
Mas... se o chefe, ou presidente,
Como o Lopes, é ingente
No despotismo sem par?...
Então, então...
Já não sou republicano...
Já mudei de opinião!
O governo absoluto,
o rei não sendo cruel,
Sendo das letras esteio
Do povo amigo fiel...
Este sim... é excelente!
Mas, se como a cascavel,
Mau se torna e desumano...
E também fero tirano
Ódio todo... e todo fel?...
Então, então
Eu não quero tal governo,
Já mudei de opinião!
(...)
In: GALENO, Juvenal. Lendas e canções populares, 1859/1865. Introd. F. Alves de Andrade. 4.ed. Fortaleza: Casa de Juvenal Galeno, 197
De minha pátria nação,
Sobre as formas de governo
Versou forte discussão:
Um queria monarquia
Sujeita à Constituição,
Outro — um rei absoluto,
E outro mais resoluto
Pedia a — federação!
Então, então
Não podia eu, como agora,
Dizer minha opinião!
Palavra puxa palavra...
Té que se escuta o canhão;
As balas voam ferinas...
De mortos cobrem-se o chão!
Quando o brado da vitória
Solta uma forte facção...
E gemidos consternados
A prole dos fuzilados
Aos olhos da multidão!
Então, então
Não podia eu, como agora,
Dizer minha opinião!
Como infante, a minha pátria
Não sabia o que escolher;
Era nóvel — só por isso
Ninguém devera morrer;
Pois é próprio das crianças
O querer e não querer;
Hoje, não — mestra exp'riência
Nos mostra a conveniência
Do que devemos fazer!
(...)
Assim pois com toda a calma,
Após muito meditar,
Vejamos qual dos governos
É o mais fácil de aturar:
A república?... Excelente!
Só ela vem-nos salvar!
Mas... se o chefe, ou presidente,
Como o Lopes, é ingente
No despotismo sem par?...
Então, então...
Já não sou republicano...
Já mudei de opinião!
O governo absoluto,
o rei não sendo cruel,
Sendo das letras esteio
Do povo amigo fiel...
Este sim... é excelente!
Mas, se como a cascavel,
Mau se torna e desumano...
E também fero tirano
Ódio todo... e todo fel?...
Então, então
Eu não quero tal governo,
Já mudei de opinião!
(...)
In: GALENO, Juvenal. Lendas e canções populares, 1859/1865. Introd. F. Alves de Andrade. 4.ed. Fortaleza: Casa de Juvenal Galeno, 197
2 287
1
Alexandre de Gusmão
A Seus Dois Filhos Persuadindo-lhes o Conhecimento Próprio
Isto não é vaidade; é desengano
A elevação do vosso pensamento:
Dei-vos o ser, e dou-vos documento
Para fugirdes da soberba ao dano.
Esta grandeza, com que ao mundo engano,
Foi da fortuna errado movimento.
Subi; mas tive humilde nascimento:
Assim foi Viriato, assim Trajano.
Quando souberdes ler do mundo a história,
Nos dous heróis, que tomo por empresa,
Contemplareis a vossa e a minha glória.
Humildes quanto ao ser da natureza;
Ilustres nas ações; e esta memória
É só quem pode dar-vos a grandeza.
Publicado no livro Coleção de vários escritos inéditos, políticos e literários (1841)
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.122. (Textos, 2
A elevação do vosso pensamento:
Dei-vos o ser, e dou-vos documento
Para fugirdes da soberba ao dano.
Esta grandeza, com que ao mundo engano,
Foi da fortuna errado movimento.
Subi; mas tive humilde nascimento:
Assim foi Viriato, assim Trajano.
Quando souberdes ler do mundo a história,
Nos dous heróis, que tomo por empresa,
Contemplareis a vossa e a minha glória.
Humildes quanto ao ser da natureza;
Ilustres nas ações; e esta memória
É só quem pode dar-vos a grandeza.
Publicado no livro Coleção de vários escritos inéditos, políticos e literários (1841)
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.122. (Textos, 2
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1
Dante Milano
V [Na treva mais gelada, na brancura
Na treva mais gelada, na brancura
Mais cega e morta, a vida ainda transluz.
Até de dentro de uma sepultura
Brota um soluço trêmulo de luz,
A luz que sua, a luz que desfigura
As pétalas pendidas nos pauis,
A espuma nos penhascos, fria e pura,
As chamas em seus ápices azuis.
Desalentos, angústias e canseiras
Tornam maior, mais tenebroso o olhar
Que lembra o olhar dos mortos: só olheiras
São existências que se dão inteiras
E sofrem, como o vento, como o mar,
Como todas as coisas verdadeiras.
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Sonetos e Fragmentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.31. (Pedra mágica, 1
Mais cega e morta, a vida ainda transluz.
Até de dentro de uma sepultura
Brota um soluço trêmulo de luz,
A luz que sua, a luz que desfigura
As pétalas pendidas nos pauis,
A espuma nos penhascos, fria e pura,
As chamas em seus ápices azuis.
Desalentos, angústias e canseiras
Tornam maior, mais tenebroso o olhar
Que lembra o olhar dos mortos: só olheiras
São existências que se dão inteiras
E sofrem, como o vento, como o mar,
Como todas as coisas verdadeiras.
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Sonetos e Fragmentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.31. (Pedra mágica, 1
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1
Juan Andrés Leiwir
Nunca vou te esquecer
Essa misteriosa luz
que às vezes ilumina a frente
caprichosa inspiração,
que aparece quando quer,
conseguiu que uma vez um poeta
com muita paixão escrevesse:
"Nunca digas nunca...".
"Nunca digas sempre...".
Porém não posso com ele estar de acordo,
sei que meu coração não me mente
eu digo: "Nunca" vou te esquecer
e digo: "Sempre" vou te querer
que às vezes ilumina a frente
caprichosa inspiração,
que aparece quando quer,
conseguiu que uma vez um poeta
com muita paixão escrevesse:
"Nunca digas nunca...".
"Nunca digas sempre...".
Porém não posso com ele estar de acordo,
sei que meu coração não me mente
eu digo: "Nunca" vou te esquecer
e digo: "Sempre" vou te querer
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1
Alfonsina Storni
Luz
Andei na vida pergunta fazendo
Morrendo de tédio, de tédio morrendo.
Riram os homens de meu desvario...
É grande a terra! Se riem... eu rio...
Escutei palavras; demasiadas palavras!
Umas são alegres, outras são macabras.
Não pude entende-las; pedi as estrelas
Linguagem mais clara, palavras mais belas.
As doces estrelas me deram tua vida
E encontrei em teus olhos a verdade perdida
Oh! teus olhos cheios de verdades tantas,
Teus olhos escuros onde o universo meço!
Segura de tudo me jogo a teus pés:
Descanso e esqueço.
Morrendo de tédio, de tédio morrendo.
Riram os homens de meu desvario...
É grande a terra! Se riem... eu rio...
Escutei palavras; demasiadas palavras!
Umas são alegres, outras são macabras.
Não pude entende-las; pedi as estrelas
Linguagem mais clara, palavras mais belas.
As doces estrelas me deram tua vida
E encontrei em teus olhos a verdade perdida
Oh! teus olhos cheios de verdades tantas,
Teus olhos escuros onde o universo meço!
Segura de tudo me jogo a teus pés:
Descanso e esqueço.
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1
Mariazinha Congílio
Autorização
Se for
preciso
Pode mentir para mim.
Não se preocupe.
Console-se sabendo
Que por toda a minha vida
Tenho afirmado
Inverdades
Ou -pior ainda-
Tenho silenciado
Covardemente.
É justo que seja castigada.
Pode mentir para mim.
Mas
se algum dia você sentir
que já não me quer
conscientemente
plenamente
se perceber que o amor
está partindo
de mansinho
sorrateiramente
como fumaça
Se isso acontecer
Diga a verdade.
Você não deve mentir para mim.
preciso
Pode mentir para mim.
Não se preocupe.
Console-se sabendo
Que por toda a minha vida
Tenho afirmado
Inverdades
Ou -pior ainda-
Tenho silenciado
Covardemente.
É justo que seja castigada.
Pode mentir para mim.
Mas
se algum dia você sentir
que já não me quer
conscientemente
plenamente
se perceber que o amor
está partindo
de mansinho
sorrateiramente
como fumaça
Se isso acontecer
Diga a verdade.
Você não deve mentir para mim.
912
1
Silvaney Paes
Segredo
Tenho que lhe contar um segredo,
Vivo algo estranho e novo,
Que de tão grande já não me cabe no peito,
Sobra-me muito e dividir parece o único jeito,
Contudo, psiu... Escute bem baixinho,
Mesmo quando parecer estar aos gritos
Este segredo só contigo eu divido.
- Não vai acreditar...
Acho que estou apaixonado,
E esse meu amor é somente uma criança
No melhor viço de seus anos,
Ainda não vi o seu rosto, nunca a toquei,
Ou provei do seu gosto,
Tudo que tenho é a melodia de uma voz,
Que vez por outra, ouço.
Não fique chocado...
Ela não freqüentou muito o colégio,
Não sabe nada de prosa ou verso
De literatura, de teatro ou de outras artes,
E assim mesmo ela pinta quadros,
Fala de seus sonhos com tanta naturalidade,
E o que espera da vida para ser feliz
É de uma simplicidade que neste mundo não cabe.
- Acredite...
Quando ela me fala,
Sinto em suas palavras tanto verdade
Que acho poder vislumbrar sua alma,
E nisso carrega tanta graça, que toca,
Quando declara querer vestir de meu abraço,
Comer de meus afagos
E saciar sua sede em meus beijos,
Embora, nunca perguntou de minha boca.
- Às vezes fico confuso...
O meu amor tem muitos medos,
Dúvidas, receios,
Mas noutro dia declarou uma certeza:
A de um amor que faz de todo o medo, nada.
E em sua simplicidade me fala tantas coisas,
Que estou desnorteado, perdido,
Enfeitiçado, acho...
- Fiquei espantado...
Sabe o que noutro dia também me falou?
Que essa coisa de idade, de afinidades da carne,
De libido, desejo mesmo como ela falou,
Tudo não passa de uma grande bobagem.
Que ficaria comigo de qualquer jeito
Mesmo que fosse só para fazer afagos,
Beijar o rosto, cercar de cuidados,
Ficar abraçados e colocar nisso tanto afeto
Que nunca mais poderíamos sair de perto.
- Será?...
Eu não como mais direito,
Vivo com um aperto no peito,
Um desejo incontido de está perto,
Cercado de estranhas sensações,
Como a de se está irremediavelmente preso
Mas de não querer de nenhum modo ser liberto,
E por nunca ter vivido algo desse jeito
Acabo tendo que consulta-lo:
"-Será que estou apaixonado?..."
Vivo algo estranho e novo,
Que de tão grande já não me cabe no peito,
Sobra-me muito e dividir parece o único jeito,
Contudo, psiu... Escute bem baixinho,
Mesmo quando parecer estar aos gritos
Este segredo só contigo eu divido.
- Não vai acreditar...
Acho que estou apaixonado,
E esse meu amor é somente uma criança
No melhor viço de seus anos,
Ainda não vi o seu rosto, nunca a toquei,
Ou provei do seu gosto,
Tudo que tenho é a melodia de uma voz,
Que vez por outra, ouço.
Não fique chocado...
Ela não freqüentou muito o colégio,
Não sabe nada de prosa ou verso
De literatura, de teatro ou de outras artes,
E assim mesmo ela pinta quadros,
Fala de seus sonhos com tanta naturalidade,
E o que espera da vida para ser feliz
É de uma simplicidade que neste mundo não cabe.
- Acredite...
Quando ela me fala,
Sinto em suas palavras tanto verdade
Que acho poder vislumbrar sua alma,
E nisso carrega tanta graça, que toca,
Quando declara querer vestir de meu abraço,
Comer de meus afagos
E saciar sua sede em meus beijos,
Embora, nunca perguntou de minha boca.
- Às vezes fico confuso...
O meu amor tem muitos medos,
Dúvidas, receios,
Mas noutro dia declarou uma certeza:
A de um amor que faz de todo o medo, nada.
E em sua simplicidade me fala tantas coisas,
Que estou desnorteado, perdido,
Enfeitiçado, acho...
- Fiquei espantado...
Sabe o que noutro dia também me falou?
Que essa coisa de idade, de afinidades da carne,
De libido, desejo mesmo como ela falou,
Tudo não passa de uma grande bobagem.
Que ficaria comigo de qualquer jeito
Mesmo que fosse só para fazer afagos,
Beijar o rosto, cercar de cuidados,
Ficar abraçados e colocar nisso tanto afeto
Que nunca mais poderíamos sair de perto.
- Será?...
Eu não como mais direito,
Vivo com um aperto no peito,
Um desejo incontido de está perto,
Cercado de estranhas sensações,
Como a de se está irremediavelmente preso
Mas de não querer de nenhum modo ser liberto,
E por nunca ter vivido algo desse jeito
Acabo tendo que consulta-lo:
"-Será que estou apaixonado?..."
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Reinaldo Ferreira
Conferência à Imprensa
O processo
- O que importa é virá-lo do avesso,
Mudar as intenções,
Interpretar,
Sofismar -
Deve ser rápido e sumário.
Termos, preceitos, norma,
É tudo forma,
Matéria de processo e convenção.
Ao cabo, é o Calvário
Que é preciso atingir.
Alguém tem de subir.
Eu não quis, sou juiz.
Aos senhores,
Mais propagadores
De tudo o que acontece
- De todo o que parece
Que acontece
E passa a acontecer -
E disto e daquilo
- E da Verdade, às vezes -
.......................
- O que importa é virá-lo do avesso,
Mudar as intenções,
Interpretar,
Sofismar -
Deve ser rápido e sumário.
Termos, preceitos, norma,
É tudo forma,
Matéria de processo e convenção.
Ao cabo, é o Calvário
Que é preciso atingir.
Alguém tem de subir.
Eu não quis, sou juiz.
Aos senhores,
Mais propagadores
De tudo o que acontece
- De todo o que parece
Que acontece
E passa a acontecer -
E disto e daquilo
- E da Verdade, às vezes -
.......................
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1
Soares Bulcão
Parêmias
Quem muito quer do futuro
vê tudo através do verde;
Mais vale o pouco seguro:
— Quem muito quer, tudo perde.
A desgraça no mais forte
Mais robustece a esperança;
Nunca descreias da sorte;
—Quem espera sempre alcança.
Nunca motejes do pobre
Nem dos defeitos que vês;
Por igual o céu nos cobre:
— Cada qual como Deus fez.
Como a boca, a pena explica
Reservas do pensamento;
A letra da pena fica,
—Palavras, leva-as o vento.
Quem o bem fez bem espere,
E o mal também, se é devido:
Porque — Quem com ferro fere
Com o ferro será ferido.
Vai com jeito e paciência,
Se do melhor queres tu;
Bem nos mostra a experiência:
— Quem se vexa come cru.
Muita coisa que vidrilha
Parece ser um tesouro...
Não te iludas com o que brilha:
—Nem tudo que brilha é ouro...
vê tudo através do verde;
Mais vale o pouco seguro:
— Quem muito quer, tudo perde.
A desgraça no mais forte
Mais robustece a esperança;
Nunca descreias da sorte;
—Quem espera sempre alcança.
Nunca motejes do pobre
Nem dos defeitos que vês;
Por igual o céu nos cobre:
— Cada qual como Deus fez.
Como a boca, a pena explica
Reservas do pensamento;
A letra da pena fica,
—Palavras, leva-as o vento.
Quem o bem fez bem espere,
E o mal também, se é devido:
Porque — Quem com ferro fere
Com o ferro será ferido.
Vai com jeito e paciência,
Se do melhor queres tu;
Bem nos mostra a experiência:
— Quem se vexa come cru.
Muita coisa que vidrilha
Parece ser um tesouro...
Não te iludas com o que brilha:
—Nem tudo que brilha é ouro...
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Honório Armond
Palavras a Um Crente
— "Que vem a ser o Bem?" — perguntas. Digo
que nunca, até hoje, francamente, eu pude
entre o joio do mal achar o trigo.
O pecado é irmão-gêmeo da virtude...
Chamas a todos - Meu fraterno amigo!
A tua alma ingênua, meu irmão, se ilude...
Faze como eu que, há muito, já não sigo
fogos-fátuos brilhando na palude...
Leva este mundo tal como é... Mascara
as tuas emoções, o ódio, a alegria,
cerra o teu coração, aguça o olhar,
que hás de ver entre a turba ingrata e ignara
o Mal, que de virtude se fazia,
rir-se de gozo ao ver alguém chorar...
que nunca, até hoje, francamente, eu pude
entre o joio do mal achar o trigo.
O pecado é irmão-gêmeo da virtude...
Chamas a todos - Meu fraterno amigo!
A tua alma ingênua, meu irmão, se ilude...
Faze como eu que, há muito, já não sigo
fogos-fátuos brilhando na palude...
Leva este mundo tal como é... Mascara
as tuas emoções, o ódio, a alegria,
cerra o teu coração, aguça o olhar,
que hás de ver entre a turba ingrata e ignara
o Mal, que de virtude se fazia,
rir-se de gozo ao ver alguém chorar...
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Renato Russo
Monte Castelo
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
É só o amor, é só amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece
Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder
É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor
Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem
Agora vejo em parte
Mas veremos face a face
É só o amor, é só amor
Que conhece o que é verdade
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
É só o amor, é só amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece
Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder
É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor
Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem
Agora vejo em parte
Mas veremos face a face
É só o amor, é só amor
Que conhece o que é verdade
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
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Antero de Quental
A João de Deus
Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Ser vã toda a pesquisa da verdade,
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento;
É lei também, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.
O que há de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida;
Se procura, só acha... o desatino!
Só Deus pode acudir em tanto dano:
Esperemos a luz duma outra vida,
Seja a terra degrêdo, o céu destino.
Ser vã toda a pesquisa da verdade,
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento;
É lei também, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.
O que há de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida;
Se procura, só acha... o desatino!
Só Deus pode acudir em tanto dano:
Esperemos a luz duma outra vida,
Seja a terra degrêdo, o céu destino.
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