Poemas neste tema
Verdade
Herberto Helder
Que Um Punhado de Ouro Fulgure No Escuso
que um punhado de ouro fulgure no escuso do mundo,
agora, antes que as palavras desapareçam,
que a palavra firmada brilhe,
porque tive também a força,
porque tive a graça e a desgraça,
porque fui e vim a andar entre muralhas de água,
espuma e grande perigo da razão e da vida,
e cheguei lá,
sobrevivente ao desastre das artes,
o louco,
o roído pelo coração adentro,
com lágrimas que me arrefeciam a cara depois de a lavrarem toda,
e já não acreditava na verdade e na realeza da forma,
nem movia a boca,
a testa,
a mão esquerda,
até que me levaram por cima das massas de água e de iodo,
rumo aos infernos que já em vida conhecera,
talvez uma braçada de rosas de inomináveis raças,
talvez um feixe de cardos,
talvez um botão simples todo cerrado sobre si mesmo,
talvez soprasse uma brisa como um nome nisso que era agora
minha língua nenhuma, sal de água grossa,
gosto agraz na boca,
um só nome para a terra toda
agora, antes que as palavras desapareçam,
que a palavra firmada brilhe,
porque tive também a força,
porque tive a graça e a desgraça,
porque fui e vim a andar entre muralhas de água,
espuma e grande perigo da razão e da vida,
e cheguei lá,
sobrevivente ao desastre das artes,
o louco,
o roído pelo coração adentro,
com lágrimas que me arrefeciam a cara depois de a lavrarem toda,
e já não acreditava na verdade e na realeza da forma,
nem movia a boca,
a testa,
a mão esquerda,
até que me levaram por cima das massas de água e de iodo,
rumo aos infernos que já em vida conhecera,
talvez uma braçada de rosas de inomináveis raças,
talvez um feixe de cardos,
talvez um botão simples todo cerrado sobre si mesmo,
talvez soprasse uma brisa como um nome nisso que era agora
minha língua nenhuma, sal de água grossa,
gosto agraz na boca,
um só nome para a terra toda
985
Helga Moreira
Ao rimar dor com pensamento
Ao rimar dor com pensamento
escrevo ternura, afecto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto
um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina
Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige
em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo
escrevo ternura, afecto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto
um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina
Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige
em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo
1 014
António Ferra
Gótica de Corpete Negro
Que bem que passa aquela gótica,
de negra cabeleira espevitada
na noite fria, um tanto asmática,
onde mora a madrugada!
Toda de negro e prata na cabeça,
redonda e larga a bota alta
num corpete negro de mistério
quando a altas horas se aperalta,
é falsa tristeza, é falso olhar,
é tudo uma questão a produzir
o lábio fino e roxo a falsear
a alegria reprimida de se rir.
De umbigo solto, fascinante,
por baixo da frágil sombra da olheira,
outros olhares atrai, só por instante,
o corpete da miúda que se esgueira.
Mas vem dos seus genes ancestrais
aquele corpo reflectido nos espelhos,
vem de longe um galante de T-shirt
que por vergonha não tomba de joelhos.
E alta noite, já quando regressada
de passear a solidão pela cidade,
remove a máscara, atira-se p’rá cama,
e por fim fica nua de verdade.
de negra cabeleira espevitada
na noite fria, um tanto asmática,
onde mora a madrugada!
Toda de negro e prata na cabeça,
redonda e larga a bota alta
num corpete negro de mistério
quando a altas horas se aperalta,
é falsa tristeza, é falso olhar,
é tudo uma questão a produzir
o lábio fino e roxo a falsear
a alegria reprimida de se rir.
De umbigo solto, fascinante,
por baixo da frágil sombra da olheira,
outros olhares atrai, só por instante,
o corpete da miúda que se esgueira.
Mas vem dos seus genes ancestrais
aquele corpo reflectido nos espelhos,
vem de longe um galante de T-shirt
que por vergonha não tomba de joelhos.
E alta noite, já quando regressada
de passear a solidão pela cidade,
remove a máscara, atira-se p’rá cama,
e por fim fica nua de verdade.
644
Eduardo Pitta
Gente propensa a ver a luz
Gente propensa a ver a luz por um funil
a vê-la assim em corredores,
esplendidamente ignorante das forças vitais,
de qualquer alegoria. Esse sentido
mediúnico, três vezes milenário, de fabular
a perversa mudez dos animais.
Contudo eles estão onde os encontramos.
E estão simplesmente calados.
a vê-la assim em corredores,
esplendidamente ignorante das forças vitais,
de qualquer alegoria. Esse sentido
mediúnico, três vezes milenário, de fabular
a perversa mudez dos animais.
Contudo eles estão onde os encontramos.
E estão simplesmente calados.
592
Valter Hugo Mãe
modo de amar
prometo ser-te fiel se mo fores
também, não é certo que mo venhas a
ser. por isso, já to perdoo
prefiro partir assim para o resto da
vida. assim, com os olhos abertos à
frustração e talvez à vulnerabilidade
não prevejo nada em concreto, acredita,
não tenho olhos para outras moças,
só o digo assim por ser verdade
que tarde ou cedo havemos de encontrar
nos outros motivos de inusitado
interesse, e depois, pergunto,
vale mais que acordemos um amor
sobreposto ao futuro, um amor agora
que tenha conhecimento do futuro
e não esperar mais nada senão
a verdade. a decadente verdade que
chega já depois dos primeiros beijos
também, não é certo que mo venhas a
ser. por isso, já to perdoo
prefiro partir assim para o resto da
vida. assim, com os olhos abertos à
frustração e talvez à vulnerabilidade
não prevejo nada em concreto, acredita,
não tenho olhos para outras moças,
só o digo assim por ser verdade
que tarde ou cedo havemos de encontrar
nos outros motivos de inusitado
interesse, e depois, pergunto,
vale mais que acordemos um amor
sobreposto ao futuro, um amor agora
que tenha conhecimento do futuro
e não esperar mais nada senão
a verdade. a decadente verdade que
chega já depois dos primeiros beijos
956
Nuno Fernandes Torneol
Preguntam-Me Por Que Ando Sandeu
Preguntam-me por que ando sandeu,
e nom lhe'lo quer'eu já mais negar;
e pois me deles nom poss'amparar,
nem me leixam encobrir com meu mal,
direi-lhes eu a verdad'e nom al:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
Nem mais fremosa, lhes direi, de pram,
(ca lhes nom quero negar nulha rem
de mia fazenda – ca lhes quero bem),
nem pola que hoj'eu sei mais de prez.
E se m'ar preguntarem outra vez,
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E Deu'lo sabe quam grav'a mi é
de lhes dizer o que sempre neguei;
mais pois me coitam, dizer-lhe-la-ei
a meus amigos, e a outros nom,
mui gram verdade, si Deus mi perdom!:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E se a eles virem, creerám
ca lhes dig'eu verdade, u al nom há,
e leixar-m'-am de me preguntar já;
e se o nom ar quiserem fazer,
querê'-lhes-ei a verdade dizer:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
e nom lhe'lo quer'eu já mais negar;
e pois me deles nom poss'amparar,
nem me leixam encobrir com meu mal,
direi-lhes eu a verdad'e nom al:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
Nem mais fremosa, lhes direi, de pram,
(ca lhes nom quero negar nulha rem
de mia fazenda – ca lhes quero bem),
nem pola que hoj'eu sei mais de prez.
E se m'ar preguntarem outra vez,
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E Deu'lo sabe quam grav'a mi é
de lhes dizer o que sempre neguei;
mais pois me coitam, dizer-lhe-la-ei
a meus amigos, e a outros nom,
mui gram verdade, si Deus mi perdom!:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
E se a eles virem, creerám
ca lhes dig'eu verdade, u al nom há,
e leixar-m'-am de me preguntar já;
e se o nom ar quiserem fazer,
querê'-lhes-ei a verdade dizer:
direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.
722
Nuno Fernandes Torneol
De Longas Vias, Mui Longas Mentiras
"De longas vias, mui longas mentiras":
este verv'antig[o] é verdadeiro,
ca um ric'hom'achei eu mentireiro,
indo de Valedolide pera Toledo:
achei sas mentiras, entrant'a Olmedo,
e[m] sa repost[e] e seu pousadeiro.
Aquestas som as que el enviara,
sem as outras que com el [i] ficarom,
de que paga os que o aguardarom,
há gram sazom; e demais seus amigos
pagará delas, e seus enmiigos,
ca tal est el, que nunca lhi menguarom,
nem minguarám, ca mui bem as barata
de mui gram terra que tem, bem parada,
de que lhi nom tolhe nulh'home nada;
[e] gram dereit'é, ca el nunca erra:
dá-lhis mentiras, em paz e em guerra,
a seus cavaleiros, por sa soldada.
este verv'antig[o] é verdadeiro,
ca um ric'hom'achei eu mentireiro,
indo de Valedolide pera Toledo:
achei sas mentiras, entrant'a Olmedo,
e[m] sa repost[e] e seu pousadeiro.
Aquestas som as que el enviara,
sem as outras que com el [i] ficarom,
de que paga os que o aguardarom,
há gram sazom; e demais seus amigos
pagará delas, e seus enmiigos,
ca tal est el, que nunca lhi menguarom,
nem minguarám, ca mui bem as barata
de mui gram terra que tem, bem parada,
de que lhi nom tolhe nulh'home nada;
[e] gram dereit'é, ca el nunca erra:
dá-lhis mentiras, em paz e em guerra,
a seus cavaleiros, por sa soldada.
750
Fernão Garcia Esgaravunha
A Que Vos Fui, Senhor, Dizer Por Mi
A que vos fui, senhor, dizer por mi
que vos queria mao preço dar,
do que eu quer'agora a Deus rogar,
ponh'eu dela e de mi outrossi:
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
A que a gram torto me vosco miscrou
e que gram torto vos disse, senhor,
por en serei sempr'[a] Deus rogador,
de mim e dela, que m'esto buscou,
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
Mais torne-se na verdade, por Deus,
(ca vos nom disse verdad', e[u] o sei!)
log'eu dela e de mim rogarei
a Deus, que vejam estes olhos meus,
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
que vos queria mao preço dar,
do que eu quer'agora a Deus rogar,
ponh'eu dela e de mi outrossi:
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
A que a gram torto me vosco miscrou
e que gram torto vos disse, senhor,
por en serei sempr'[a] Deus rogador,
de mim e dela, que m'esto buscou,
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
Mais torne-se na verdade, por Deus,
(ca vos nom disse verdad', e[u] o sei!)
log'eu dela e de mim rogarei
a Deus, que vejam estes olhos meus,
que El i leixe mao prez haver
a quem mal preço vos quer apoer!
570
Pedro Amigo de Sevilha
Um Bispo Diz Aqui, Por Si
Um bispo diz aqui, por si,
que é de Conca; mais bem sei
de mi que bispo nom achei
de Conca, des que eu naci,
que dalá fosse natural;
mais daqueste mi venha mal,
se nunca tam sem conca vi.
E nunca tal mentira oí
qual el diss'aqui ant'el-rei,
ca se meteu por qual direi:
por bispo de Conca log'i;
e dixi-lh'eu log'entom al:
- U est essa conca bispal,
de que vós falades assi?
E polo bisp'haver sabor
grande de conca [e] nõn'[a] haver,
nom lho queremos nós caber;
ca diss[e] o vesitador:
- Que bispo! Per nẽum logar
nom pode por de Conca andar
bispo, que de Conca nom for!
Vedes que bisp'e que senhor,
que vos cuida a fazer creer
que é de Conca; mais saber
podedes que é chufador,
per mim, que o fui asseitar
per um telhad', e nom vi dar
ant'el conca nem telhador.
que é de Conca; mais bem sei
de mi que bispo nom achei
de Conca, des que eu naci,
que dalá fosse natural;
mais daqueste mi venha mal,
se nunca tam sem conca vi.
E nunca tal mentira oí
qual el diss'aqui ant'el-rei,
ca se meteu por qual direi:
por bispo de Conca log'i;
e dixi-lh'eu log'entom al:
- U est essa conca bispal,
de que vós falades assi?
E polo bisp'haver sabor
grande de conca [e] nõn'[a] haver,
nom lho queremos nós caber;
ca diss[e] o vesitador:
- Que bispo! Per nẽum logar
nom pode por de Conca andar
bispo, que de Conca nom for!
Vedes que bisp'e que senhor,
que vos cuida a fazer creer
que é de Conca; mais saber
podedes que é chufador,
per mim, que o fui asseitar
per um telhad', e nom vi dar
ant'el conca nem telhador.
550
Pedro Amigo de Sevilha
Disserom-Vos, Meu Amigo
Disserom-vos, meu amigo,
que, por vos fazer pesar,
fui eu com outrem falar;
mais nom faledes vós migo
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
E bem vos per vingaredes
de mi, se eu com alguém
falei por vos pesar en;
mais vós nunca mi faledes
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
Se vós por verdad'achardes,
meu amigo, que é assi,
confonda Deus log'i mi
muit', e vós, se mi falardes,
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
que, por vos fazer pesar,
fui eu com outrem falar;
mais nom faledes vós migo
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
E bem vos per vingaredes
de mi, se eu com alguém
falei por vos pesar en;
mais vós nunca mi faledes
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
Se vós por verdad'achardes,
meu amigo, que é assi,
confonda Deus log'i mi
muit', e vós, se mi falardes,
se o poderdes saber
por alguen'o entender.
740
Rui Queimado
Dom Estêvam, Em Grand'entençom
Dom Estêvam, em grand'entençom
foi já or'aqui por vosso preito:
oí dizer por vós que a feito
sodes cego; mais dix'eu que mui bem
oídes, cada que vos cham'alguém:
vedes como tiv'eu vossa razom!
E muitos oí eu hoj'em mal som
dizer por vós [atal]: que a feito
sodes cego; e dix'eu log'a eito
esto que sei que vos a vós avém:
que nunca vos home diz nulha rem
que nom ouçades, se Deus mi perdom.
Oí dizer por vós que há sazom
que vedes [já] quanto, pois me deito
e dormesco e dórmio bem a feito,
que assi veedes vó'lo artom;
e assanhei-m'eu e dixi por en:
- Confonda Deus quem cego chama quem
assi ouve come vó'lo sarmom.
foi já or'aqui por vosso preito:
oí dizer por vós que a feito
sodes cego; mais dix'eu que mui bem
oídes, cada que vos cham'alguém:
vedes como tiv'eu vossa razom!
E muitos oí eu hoj'em mal som
dizer por vós [atal]: que a feito
sodes cego; e dix'eu log'a eito
esto que sei que vos a vós avém:
que nunca vos home diz nulha rem
que nom ouçades, se Deus mi perdom.
Oí dizer por vós que há sazom
que vedes [já] quanto, pois me deito
e dormesco e dórmio bem a feito,
que assi veedes vó'lo artom;
e assanhei-m'eu e dixi por en:
- Confonda Deus quem cego chama quem
assi ouve come vó'lo sarmom.
643
Lourenço
Quem Ama Deus, Lourenç', Am'a Verdade
- Quem ama Deus, Lourenç', am'a verdade,
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
584
Martim Soares
Muitos Me Vêm Preguntar
Muitos me vêm preguntar,
mia senhor, a quem quero bem;
e nom lhes quer'end'eu falar,
com medo de vos pesar en,
nem quer'a verdade dizer,
mais jur'e faço-lhes creer
mentira, por vo-lhes negar.
E por que me vêm coitar
do que lhes nom direi per rem
- ca m'atrev'eu em vos amar?
E mentr'eu nom perder o sem,
nom vos en devedes temer,
ca o nom pod'home saber
per mim, se nom adevinhar.
Nem será tam preguntador
nulh'home que sábia de mim
rem, per que seja sabedor
[d]o bem que vos quis, pois vos vi.
E pois vos praz, negá-lo-ei
mentr'o sem nom perder; mais sei
que mi o tolherá voss'amor.
E se per ventura assi for,
que m'ar preguntem des aqui
se sodes vós a mia senhor
que amei sempre e servi,
vedes como lhes mentirei:
doutra senhor me lhes farei,
ond'haja mais pouco pavor.
mia senhor, a quem quero bem;
e nom lhes quer'end'eu falar,
com medo de vos pesar en,
nem quer'a verdade dizer,
mais jur'e faço-lhes creer
mentira, por vo-lhes negar.
E por que me vêm coitar
do que lhes nom direi per rem
- ca m'atrev'eu em vos amar?
E mentr'eu nom perder o sem,
nom vos en devedes temer,
ca o nom pod'home saber
per mim, se nom adevinhar.
Nem será tam preguntador
nulh'home que sábia de mim
rem, per que seja sabedor
[d]o bem que vos quis, pois vos vi.
E pois vos praz, negá-lo-ei
mentr'o sem nom perder; mais sei
que mi o tolherá voss'amor.
E se per ventura assi for,
que m'ar preguntem des aqui
se sodes vós a mia senhor
que amei sempre e servi,
vedes como lhes mentirei:
doutra senhor me lhes farei,
ond'haja mais pouco pavor.
707
Martim Anes Marinho
Ena Primeira Rua Que Cheguemos
Ena primeira rua que cheguemos,
guarnir-nos-á Dom Foam mui bem
d'um pan'estranho que todos sabemos,
d'ũa ucha pere[nal] que [i] tem;
e as calças seram de melhor pano:
feitas seram de névoa d'antano;
e nós de chufas guarnidos seremos.
E prometeu-m'el ũa bõa capa,
ca nom destas maas feitas de luito,
mais outra bõa, feita de gualdrapa,
cintada, e de nom pouco nem muito;
e ũa pena, nom destas mizcradas,
mais outra bõa, de chufas paradas;
já m'eu daqui nom irei sem a capa.
Viste'lo potro coor de mentira,
que mi antano prometeu em Janeiro,
que nunca home melhor aqui vira?
Criado foi em Castro Mentireiro.
E prometeu-m'ũas armas entom,
nom destas maas feitas de León,
mais melhores, d'Outeir'em Freixeeiro.
Com grande labor, mi deu a loriga,
e toda era de chufas viada;
e como quer que vos end'eu al diga,
nunca mi a home viu na pousada;
e [atam] cravelada de mensonha
e tam lev'era, que bem de Coronha
a trageria aqui ũa formiga.
E prometeu-m'ũa arma preçada,
como dizem os que a conhocerom;
"gualdrapa Fariz" havia nom'a espada,
de mouros foi, nom sei u x'a perderom;
e pelo pão mi prometeu log'i
de nevoeiro, e eu lho recebi,
que me pagass', a seu poder, de nada.
[De preç'e com labor foi a loriga
que m'el mandou e de parla viada;
mais como quer que vo-lo homem diga,
nunca a mim virom teer na pousada:
bem cravelada e[ra] de zamponha,
des i tam leve, que bem de Monçonha
mi a aduria aqui ũa formiga.]
guarnir-nos-á Dom Foam mui bem
d'um pan'estranho que todos sabemos,
d'ũa ucha pere[nal] que [i] tem;
e as calças seram de melhor pano:
feitas seram de névoa d'antano;
e nós de chufas guarnidos seremos.
E prometeu-m'el ũa bõa capa,
ca nom destas maas feitas de luito,
mais outra bõa, feita de gualdrapa,
cintada, e de nom pouco nem muito;
e ũa pena, nom destas mizcradas,
mais outra bõa, de chufas paradas;
já m'eu daqui nom irei sem a capa.
Viste'lo potro coor de mentira,
que mi antano prometeu em Janeiro,
que nunca home melhor aqui vira?
Criado foi em Castro Mentireiro.
E prometeu-m'ũas armas entom,
nom destas maas feitas de León,
mais melhores, d'Outeir'em Freixeeiro.
Com grande labor, mi deu a loriga,
e toda era de chufas viada;
e como quer que vos end'eu al diga,
nunca mi a home viu na pousada;
e [atam] cravelada de mensonha
e tam lev'era, que bem de Coronha
a trageria aqui ũa formiga.
E prometeu-m'ũa arma preçada,
como dizem os que a conhocerom;
"gualdrapa Fariz" havia nom'a espada,
de mouros foi, nom sei u x'a perderom;
e pelo pão mi prometeu log'i
de nevoeiro, e eu lho recebi,
que me pagass', a seu poder, de nada.
[De preç'e com labor foi a loriga
que m'el mandou e de parla viada;
mais como quer que vo-lo homem diga,
nunca a mim virom teer na pousada:
bem cravelada e[ra] de zamponha,
des i tam leve, que bem de Monçonha
mi a aduria aqui ũa formiga.]
622
João Soares Coelho
Quem Diz de Dom 'Stêvam Que Nom Vê Bem
Quem diz de Dom 'Stêvam que nom vê bem
dig'eu que mente, ca diz mui gram falha;
e [eu] mostrar-lh'-ei que nom disse rem
nem é recado que nulha rem valha;
pero mostrado devia seer
ca nom pode, per nulha rem, veer
mal home que nom vêe nemigalha.
E quem lho diz, sei que lhe nom diria
ca vêe mal, se migo falass'ante,
ou se o visse andar fora da via,
como o eu vi, junt'a Amarante,
que nom sabia, sair d'um tojal;
por en vos digo que nom vêe mal
quem vêe de redo quant'é deante.
dig'eu que mente, ca diz mui gram falha;
e [eu] mostrar-lh'-ei que nom disse rem
nem é recado que nulha rem valha;
pero mostrado devia seer
ca nom pode, per nulha rem, veer
mal home que nom vêe nemigalha.
E quem lho diz, sei que lhe nom diria
ca vêe mal, se migo falass'ante,
ou se o visse andar fora da via,
como o eu vi, junt'a Amarante,
que nom sabia, sair d'um tojal;
por en vos digo que nom vêe mal
quem vêe de redo quant'é deante.
550
João Soares Coelho
Quem Ama Deus, Lourenç', Am'a Verdade
- Quem ama Deus, Lourenç', am'a verdade,
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
e farei-ch'entender por que o digo:
home que entençom furt'a seu amigo
semelha ramo de deslealdade;
e tu dizes que entenções faes
que, pois nom rimam e som desiguaes,
sei m'eu que x'as faz Joam de Guilhade.
- Joam Soares, ora m'ascuitade:
eu hôuvi sempre lealdade migo;
e quem tam gram parte houvesse sigo
em trobar com'eu hei, par caridade,
bem podia fazer tenções quaes
fossem, bem feitas; e direi-vos mais:
lá com Joam Garcia baratade.
- Pero, Lourenço, pero t'eu oía
tençom desigual e que nom rimava,
pero essa entençom de ti falava,
[o] Demo lev'esso que teu criia:
ca nom cuidei que entençom soubesses
tam desigual fazer, nen'a fezesses;
mas sei-m'eu que x'a fez Joam Garcia.
- Joam Soares, par Santa Maria,
fiz eu entençom, e ben'a iguava,
com outro trobador que bem trobava,
e de nós ambos bem feita seria;
e nom vo-lo posso eu mais jurar;
mais se [um] trobador mig'entençar,
defender-mi-lh'hei mui bem todavia.
572
João Soares Coelho
Dizem Que Digo Que Vos Quero Bem
Dizem que digo que vos quero bem,
senhor, e buscam-me convosco mal;
mais rog'a Deus, senhor, que pod'e val
e que o mund'e vós em poder tem:
se o dixe, mal me leixe morrer,
se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!
E venh'a vós, chorando destes meus
olhos, com vergonha e com pavor,
e com coita que hei desto, senhor,
que vos disserom, e rog'assi Deus:
se o dixe, mal me leixe morrer;
se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!
Nom me sei en doutra guisa salvar:
mais nunca o soub'home nem molher
per mi, nem vós; e Deus, se lhe prouguer,
rog'eu assi quanto posso rogar:
se o dixe, mal me leixe morrer,
se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!
E lhe faça atal coita sofrer
qual faz a mim e non'o ouso dizer!
senhor, e buscam-me convosco mal;
mais rog'a Deus, senhor, que pod'e val
e que o mund'e vós em poder tem:
se o dixe, mal me leixe morrer,
se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!
E venh'a vós, chorando destes meus
olhos, com vergonha e com pavor,
e com coita que hei desto, senhor,
que vos disserom, e rog'assi Deus:
se o dixe, mal me leixe morrer;
se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!
Nom me sei en doutra guisa salvar:
mais nunca o soub'home nem molher
per mi, nem vós; e Deus, se lhe prouguer,
rog'eu assi quanto posso rogar:
se o dixe, mal me leixe morrer,
se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!
E lhe faça atal coita sofrer
qual faz a mim e non'o ouso dizer!
663
João Soares Coelho
Meus Amigos, Quero-Vos Eu Mostrar
Meus amigos, quero-vos eu mostrar
com'eu querria bem da mia senhor,
e nom mi valha ela, nem Amor,
nem Deus, se vos verdade nom jurar:
bem querria que me fezesse bem,
pero nom bem u perdess'ela rem!
E mais vos direi: o que pod'e val
me nom valha, se querria viver
eno mundo, nem nẽum bem haver
dela, nem d'outrem, se fosse seu mal:
bem querria que me fezesse bem,
pero nom bem u perdess'ela rem!
Ca a mi semelha cousa sem razom:
pois algum home mais ama molher
ca si nem al, seu bem por seu mal quer?
E por aquest'é 'ssi meu coraçom:
bem querria que me fezesse bem,
pero nom bem u perdess'ela rem!
com'eu querria bem da mia senhor,
e nom mi valha ela, nem Amor,
nem Deus, se vos verdade nom jurar:
bem querria que me fezesse bem,
pero nom bem u perdess'ela rem!
E mais vos direi: o que pod'e val
me nom valha, se querria viver
eno mundo, nem nẽum bem haver
dela, nem d'outrem, se fosse seu mal:
bem querria que me fezesse bem,
pero nom bem u perdess'ela rem!
Ca a mi semelha cousa sem razom:
pois algum home mais ama molher
ca si nem al, seu bem por seu mal quer?
E por aquest'é 'ssi meu coraçom:
bem querria que me fezesse bem,
pero nom bem u perdess'ela rem!
239
João Lobeira
Um Cavaleiro Há 'Qui Tal Entendença
Um cavaleiro há 'qui tal entendença
qual vos eu agora quero contar:
faz, u dev'a fazer prazer, pesar,
e sa mesura toda é entença;
e o que lhi preguntam, respond'al;
e o seu bem fazer é fazer mal,
e todo seu saber é sem sabença.
E nom depart'em rem, de que se vença,
pero lh'outro [a]guisado falar;
e verveja, u se dev'a calar,
e nunca diz verdad', u mais nom mença;
e, u lhi pedem cousimento, fal;
pero é mans', u dev'a fazer al
e, u deve sofrer, é sem sofrença.
Des i er fala sempr'em conhocença
que sabe bem sem-conhocer mostrar;
e dorme, quando se dev'espertar,
e meos sab', u mete mais femença;
e, se com guisa diz, logo s'en sal;
e, u lh'avém algũa cousa tal
que lh'é mester cienç', é sem ciença.
E nom lhi fazem mal, de que se sença,
ante leix'assi o preito passar,
e os que lhi deviam a peitar,
peita-lhis el, por fazer aveença,
e diz que nẽum prez nada nom val;
mais Deus, que o fez tam descomunal,
lhi queira dar, por saúde, doença.
qual vos eu agora quero contar:
faz, u dev'a fazer prazer, pesar,
e sa mesura toda é entença;
e o que lhi preguntam, respond'al;
e o seu bem fazer é fazer mal,
e todo seu saber é sem sabença.
E nom depart'em rem, de que se vença,
pero lh'outro [a]guisado falar;
e verveja, u se dev'a calar,
e nunca diz verdad', u mais nom mença;
e, u lhi pedem cousimento, fal;
pero é mans', u dev'a fazer al
e, u deve sofrer, é sem sofrença.
Des i er fala sempr'em conhocença
que sabe bem sem-conhocer mostrar;
e dorme, quando se dev'espertar,
e meos sab', u mete mais femença;
e, se com guisa diz, logo s'en sal;
e, u lh'avém algũa cousa tal
que lh'é mester cienç', é sem ciença.
E nom lhi fazem mal, de que se sença,
ante leix'assi o preito passar,
e os que lhi deviam a peitar,
peita-lhis el, por fazer aveença,
e diz que nẽum prez nada nom val;
mais Deus, que o fez tam descomunal,
lhi queira dar, por saúde, doença.
608
João Garcia de Guilhade
Vi Eu Estar Noutro Dia
Vi eu estar noutro dia
infanções com um ric'home
posfaçando de quem mal come;
e dix'eu, que os ouvia:
"Cada casa, favas lavam!"
Posfaçavam d'um escasso,
[e] foi-os eu ascuitando;
eles forom posfaçando,
e dixi-m'eu, pass'em passo:
"Cada casa, favas lavam!"
Posfaçavam d'encolheito
e de vil e d'espantoso
e em sa terra lixoso;
e dix'eu entom dereito:
"Cada casa, favas lavam!"
infanções com um ric'home
posfaçando de quem mal come;
e dix'eu, que os ouvia:
"Cada casa, favas lavam!"
Posfaçavam d'um escasso,
[e] foi-os eu ascuitando;
eles forom posfaçando,
e dixi-m'eu, pass'em passo:
"Cada casa, favas lavam!"
Posfaçavam d'encolheito
e de vil e d'espantoso
e em sa terra lixoso;
e dix'eu entom dereito:
"Cada casa, favas lavam!"
423
João Garcia de Guilhade
A Mia Senhor Já Lh'eu Muito Neguei
A mia senhor já lh'eu muito neguei
o mui gram mal que me por ela vem,
e o pesar, e nom baratei bem;
e des oimais já lho nom negarei:
ante lhi quer'a mia senhor dizer
o por que posso guarir ou morrer.
Neguei-lho muit'e nunca lhi falar
ousei na coita que sofr'e no mal
por ela; e se me cedo nom val,
eu já oimais lho nom posso negar:
ante lhe quer'a mia senhor dizer
o por que posso guarir ou morrer.
Eu lhe neguei sempre, per bõa fé,
a gram coita que por ela sofri;
e eu morrerei por en des aqui,
se lho negar, mais pois que assi é,
ante lhe quer'a mia senhor dizer
o por que posso guarir ou morrer.
o mui gram mal que me por ela vem,
e o pesar, e nom baratei bem;
e des oimais já lho nom negarei:
ante lhi quer'a mia senhor dizer
o por que posso guarir ou morrer.
Neguei-lho muit'e nunca lhi falar
ousei na coita que sofr'e no mal
por ela; e se me cedo nom val,
eu já oimais lho nom posso negar:
ante lhe quer'a mia senhor dizer
o por que posso guarir ou morrer.
Eu lhe neguei sempre, per bõa fé,
a gram coita que por ela sofri;
e eu morrerei por en des aqui,
se lho negar, mais pois que assi é,
ante lhe quer'a mia senhor dizer
o por que posso guarir ou morrer.
802
João Garcia de Guilhade
Cada Que Vem o Meu Amig'aqui
Cada que vem o meu amig'aqui
diz-m', ai amigas, que perd'o [seu] sem
por mi, e diz que morre por meu bem,
mais eu bem cuido que nom est assi:
ca nunca lh'eu vejo morte prender
nen'o ar vejo nunca ensandecer.
El chora muito e filha-s'a jurar
que é sandeu e quer-me fazer fiz
que por mi morr', e pois morrer nom quis,
mui bem sei eu que há ele vagar;
ca nunca lh'eu vejo morte prender
nen'o ar vejo nunca ensandecer.
Ora vejamos o que nos dirá
pois veer viv'e pois sandeu nom for;
ar direi-lh'eu: "Nom morrestes d'amor?"
Mais bem se quite de meu preito já:
ca nunca lh'eu vejo morte prender
nen'o ar vejo nunca ensandecer.
E jamais nunca mi fará creer
que por mi morre, ergo se morrer.
diz-m', ai amigas, que perd'o [seu] sem
por mi, e diz que morre por meu bem,
mais eu bem cuido que nom est assi:
ca nunca lh'eu vejo morte prender
nen'o ar vejo nunca ensandecer.
El chora muito e filha-s'a jurar
que é sandeu e quer-me fazer fiz
que por mi morr', e pois morrer nom quis,
mui bem sei eu que há ele vagar;
ca nunca lh'eu vejo morte prender
nen'o ar vejo nunca ensandecer.
Ora vejamos o que nos dirá
pois veer viv'e pois sandeu nom for;
ar direi-lh'eu: "Nom morrestes d'amor?"
Mais bem se quite de meu preito já:
ca nunca lh'eu vejo morte prender
nen'o ar vejo nunca ensandecer.
E jamais nunca mi fará creer
que por mi morre, ergo se morrer.
401
João Airas de Santiago
Alguém Vos Diss', Amig', E Sei-O Eu
Alguém vos diss', amig', e sei-o eu,
por mi miscrar convosco, que falei
com outr'homem, mais nunca o cuidei,
e, meu amig', e direi-vo-l[o] eu:
de mentira nom me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.
Alguém sabe que mi queredes bem
e pesa-lh'end'e nom pod'al fazer
senom que mi quer mentira põer;
[e] meu amig'e meu lum'e meu bem
de mentira nom me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.
E bem sei de quem tam gram sabor há
de mentir e nom teme Deus nem al,
que mi assaca tal mentira e al,
[e], meu amig', e vedes quant'i há:
de mentira nom me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.
De fazer mentira sei-m'eu guardar,
mais nom de quem me mal quer assacar.
por mi miscrar convosco, que falei
com outr'homem, mais nunca o cuidei,
e, meu amig', e direi-vo-l[o] eu:
de mentira nom me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.
Alguém sabe que mi queredes bem
e pesa-lh'end'e nom pod'al fazer
senom que mi quer mentira põer;
[e] meu amig'e meu lum'e meu bem
de mentira nom me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.
E bem sei de quem tam gram sabor há
de mentir e nom teme Deus nem al,
que mi assaca tal mentira e al,
[e], meu amig', e vedes quant'i há:
de mentira nom me poss'eu guardar,
mais guardar-m'-ei de vos fazer pesar.
De fazer mentira sei-m'eu guardar,
mais nom de quem me mal quer assacar.
914
João Baveca
Os Que Nom Amam Nem Sabem D'amor
Os que nom amam nem sabem d'amor
fazem perder aos que amor ham,
vedes porquê: quand'ant'as donas vam,
juram que morrem por elas d'amor,
e elas sabem pois que nom é 'ssi;
e por esto perç'eu e os que bem
lealmente amam, segundo meu sem.
Ca se elas soubessem os que ham
bem verdadeiramente grand'amor,
d'alguém se doeria sa senhor;
mais, por aqueles que o jurad'ham,
cuidam-s'elas que todos taes som;
e por esto perç'eu e os que bem
lealmente amam, segundo meu sem.
E aqueles que já medo nom ham
que lhis faça coita sofrer amor,
vêm ant'elas e juram melhor
ou tam bem come os que amor ham,
e elas nom sabem quaes creer;
e por esto perç'eu e os que bem
lealmente amam, segundo meu sem.
E os bem desamparados d'amor
juram que morrem com amor que ham,
seend'ant'elas, e mentem de pram;
mais, quand'ar vêm os que ham amor,
já elas cuidam que vêm mentir;
e por esto perç'eu e os que bem
lealmente amam, segundo meu sem.
fazem perder aos que amor ham,
vedes porquê: quand'ant'as donas vam,
juram que morrem por elas d'amor,
e elas sabem pois que nom é 'ssi;
e por esto perç'eu e os que bem
lealmente amam, segundo meu sem.
Ca se elas soubessem os que ham
bem verdadeiramente grand'amor,
d'alguém se doeria sa senhor;
mais, por aqueles que o jurad'ham,
cuidam-s'elas que todos taes som;
e por esto perç'eu e os que bem
lealmente amam, segundo meu sem.
E aqueles que já medo nom ham
que lhis faça coita sofrer amor,
vêm ant'elas e juram melhor
ou tam bem come os que amor ham,
e elas nom sabem quaes creer;
e por esto perç'eu e os que bem
lealmente amam, segundo meu sem.
E os bem desamparados d'amor
juram que morrem com amor que ham,
seend'ant'elas, e mentem de pram;
mais, quand'ar vêm os que ham amor,
já elas cuidam que vêm mentir;
e por esto perç'eu e os que bem
lealmente amam, segundo meu sem.
403