Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

1913–1980 · viveu 66 anos BR BR

Vinicius de Moraes foi um poeta, dramaturgo, jornalista e compositor brasileiro, considerado um dos maiores expoentes da poesia lírica em língua portuguesa. Sua obra é marcada por um lirismo profundo, que explora temas como o amor, a beleza, a melancolia e o cotidiano, com uma linguagem acessível e musical. É também lembrado como um dos pais da Bossa Nova, tendo composto diversas canções que se tornaram clássicos da música popular brasileira.

n. 1913-10-19, Rio de Janeiro · m. 1980-07-09, Rio de Janeiro

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Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Vinicius de Moraes, cujo nome completo era Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, foi um poeta, dramaturgo, jornalista, diplomata e compositor brasileiro. Nascido no Rio de Janeiro, viveu intensamente a cultura brasileira de meados do século XX. Sua obra é predominantemente escrita em língua portuguesa.

Infância e formação

Nascido em uma família de classe média alta, Vinicius teve uma infância no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Desde cedo, demonstrou interesse pela literatura, influenciado por leituras de poesia e pela atmosfera cultural da época. Estudou em colégios tradicionais e chegou a ingressar na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, mas sua verdadeira vocação era a arte.

Percurso literário

O início de sua carreira literária se deu com a publicação de seu primeiro livro de poemas, "O Caminho para a Distância", em 1933. Ao longo de sua vida, Vinicius alternou o ofício de diplomata com sua produção poética e musical. Sua obra evoluiu de um lirismo inicial, por vezes espiritualista, para uma poesia mais sensual e cotidiana, especialmente após o surgimento da Bossa Nova.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras mais notórias estão "Primeiros Cantos" (1945), "Sonetos e Baladas" (1949), "Forma e Exegese" (1955), "Poemas, Sonetos e Baladas" (1960) e "A Arte de Amar e Outros Poemas" (1969). Seus poemas exploram o amor em suas diversas facetas, a sensualidade, a alegria de viver, a melancolia, a morte e a beleza das coisas simples. Utilizou frequentemente o soneto, mas também experimentou o verso livre. Sua linguagem é coloquial, musical e direta, com forte apelo sensorial. Vinicius é frequentemente associado ao Modernismo brasileiro, embora sua obra transcenda classificações rígidas, dialogando com a tradição lírica e a inovação.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Vinicius de Moraes viveu em um período de efervescência cultural no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro. Foi amigo e contemporâneo de grandes nomes da literatura e da música, como Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Sua obra reflete a atmosfera boêmia e intelectual da época, e ele mesmo se tornou uma figura emblemática da Bossa Nova.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Vinicius foi casado três vezes e teve filhos. Sua vida boêmia, marcada por festas, amizades e romances, é frequentemente associada à sua obra, que celebra o amor e o prazer. Foi diplomata em diversas embaixadas, o que lhe proporcionou contato com outras culturas, mas sua dedicação à poesia e à música o levou a deixar a carreira diplomática para se dedicar integralmente à arte.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Vinicius de Moraes é amplamente reconhecido como um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Sua obra é estudada em escolas e universidades, e suas canções são parte do repertório da música popular brasileira. Recebeu diversas homenagens e seu nome se tornou sinônimo de poesia lírica e de um certo estilo de vida.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por poetas como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Seu legado se estende para além da poesia, com sua fundamental contribuição para a música popular brasileira, especialmente a Bossa Nova. Influenciou gerações de poetas e compositores com seu lirismo autêntico e sua capacidade de traduzir sentimentos humanos em versos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Vinicius é celebrada por sua aparente simplicidade e profundidade emocional. Seus poemas sobre o amor, em particular, são objeto de inúmeras análises, explorando a idealização, a sensualidade e a dor da perda. Sua poesia é vista como um espelho das contradições e belezas da vida.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Vinicius era conhecido por sua personalidade carismática e boêmia. Sua relação com o uísque e o cigarro era notória, e ele tinha o hábito de escrever em cadernos muitas vezes incompletos. Uma curiosidade é que ele considerava a Bossa Nova um desdobramento natural de sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Vinicius de Moraes faleceu em 1980, no Rio de Janeiro. Sua morte causou grande comoção nacional. Sua obra continua viva, perpetuada em livros, gravações musicais e na memória afetiva de muitos brasileiros, sendo considerado um dos poetas mais queridos e populares do Brasil.

Poemas

283

Genebra Em Dezembro

Campos de neve e píncaros distantes
Sinos que morrem
Asas brancas em frios céus distantes
Águas que correm.

Canais como caminhos prisioneiros
Em busca de saída
Para os mares, os grandes, traiçoeiros
Mares da vida.

Cisnes em bando interrogando as águas
Do Ródano, cativas
Ruas sem perspectivas e sem mágoas
Fachadas pensativas.

Chuva fina tangendo namorados
Sem amanhã
Transitando transidos e apressados
Pont du Mont Blanc.

Relógios pontuais batendo horas
Aqui, ali, adiante
Vida sem tempo pela vida afora
Tédio constante.

Tédio bom, tédio conselheiro, tédio
Da vida que não é
E para a qual há sempre bom remédio
Do bar do "Rabelais".

1 120

A Ponte de Van Gogh

O lugar não importa: pode ser o Japão, a Holanda, a campina inglesa.
Mas é absolutamente preciso que seja domingo.

O azul do céu ecoa na esmeralda do rio
E o rio reflete docemente as margens de relva verde-laranja
Dir-se-ia que da mansão da esquerda voou o lençol virginal de miss
Para ser no céu sem mancha a única nuvem.
A calma é velha, de uma velhice sem pátina
As cores são simples, ingênuas
A estação é feliz: o guarda da ponte chegou a pintar
De listas vermelhas o teto de sua casinhola.
E, meu Deus, se não fossem esses diabinhos de pinheiros a fazer caretas
E a pressa com que o homem da charrete vai:
- A pressa de quem atravessou um vago perigo
Tudo estivesse perfeito, e não me viesse esse medo tolo de a pequena ponte
levadiça
Desabe e se molhe o vestido preto de Cristina Georgina Rosseti
Que vai de umbrela especialmente para ouvir a prédica do novo pastor da
vila.



Itatiaia, 1937.
1 199

Elegia de Paris

Maintenant j'ai trop vu. Neste momento
Eu gostaria de esquecer as prostitutas de Amsterdam
Em seus mostruários, e os modelos
De Dior, comendo croque-monsieur com gestos
Japoneses, na terrasse do Hotel-des-Théâtres. O que
Eu gostaria agora era de ver-te surgir no claustro do meu sonho
Como uma tarde finda. Ah,
nsia de rever-te! ou de rever
O brilho de uma abotoadura de ouro - lembras-te? - caída no ralo da pia do
velho.

St. Thomas d'Aquin... há quanto tempo?
Não sei mais! Entrementes
A morte fez-se extraordinariamente próxima e por vezes
Tão doce, tão…Tem uma face amiga -
É a tua face, amiga?
1 135

O Mergulhador

E il naufragar m'è dolce in questo mare
Leopardi

Como, dentro do mar, libérrimos, os polvos
No líquido luar tateiam a coisa a vir
Assim, dentro do ar, meus lentos dedos loucos
Passeiam no teu corpo a te buscar-te a ti.

És a princípio doce plasma submarino
Flutuando ao sabor de súbitas correntes
Frias e quentes, substância estranha e íntima
De teor irreal e tato transparente.

Depois teu seio é a infância, duna mansa
Cheia de alísios, marco espectral do istmo
Onde, a nudez vestida só de lua branca
Eu ia mergulhar minha face já triste.

Nele soterro a mão como a cravei criança
Noutro seio de que me lembro, também pleno...
Mas não sei... o ímpeto deste é doído e espanta
O outro me dava vida, este me mete medo.

Toco uma a uma as doces glândulas em feixes
Com a sensação que tinha ao mergulhar os dedos
Na massa cintilante e convulsa de peixes
Retiradas ao mar nas grandes redes pensas.

E ponho-me a cismar… - mulher, como te expandes!
Que imensa és tu! maior que o mar, maior que a infância!
De coordenadas tais e horizontes tão grandes
Que assim imersa em amor és uma Atlântida!

Vem-me a vontade de matar em ti toda a poesia
Tenho-te em garra; olhas-me apenas; e ouço
No tato acelerar-se-me o sangue, na arritmia
Que faz meu corpo vil querer teu corpo moço.

E te amo, e te amo, e te amo, e te amo
Como o bicho feroz ama, a morder, a fêmea
Como o mar ao penhasco onde se atira insano
E onde a bramir se aplaca e a que retorna sempre.

Tenho-te e dou-me a ti válido e indissolúvel
Buscando a cada vez, entre tudo o que enerva
O imo do teu ser, o vórtice absoluto
Onde possa colher a grande flor da treva.

Amo-te os longos pés, ainda infantis e lentos
Na tua criação; amo-te as hastes tenras
Que sobem em suaves espirais adolescentes
E infinitas, de toque exato e frêmito.

Amo-te os braços juvenis que abraçam
Confiantes meu criminoso desvario
E as desveladas mãos, as mãos multiplicantes
Que em cardume acompanham o meu nadar sombrio.

Amo-te o colo pleno, onda de pluma e âmbar
Onda lenta e sozinha onde se exaure o mar
E onde é bom mergulhar até romper-me o sangue
E me afogar de amor e chorar e chorar.

Amo-te os grandes olhos sobre-humanos
Nos quais, mergulhador, sondo a escura voragem
Na ânsia de descobrir, nos mais fundos arcanos
Sob o oceano, oceanos; e além, a minha imagem.

Por isso - isso e ainda mais que a poesia não ousa
Quando depois de muito mar, de muito amor
Emergindo de ti, ah, que silêncio pousa
Ah, que tristeza cai sobre o mergulhador!
1 242

Amor

Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca
Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo
Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?
Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos
Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo
Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto
Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos
Fingir que hoje é domingo, vamos ver
O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?
Vamos, amor, tomar thé na Cavé com madame de Sevignée
Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar
Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?
Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos
Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol
Vamos, amor?
Porque excessivamente grave é a Vida.
1 090

Poema Feito Para Chegar Aos Ouvidos de Santa Teresa

Não quero ir pro inferno
Santa Teresinha
Quero é ir pro céu
Que é boa terrinha
Mas se eu for pro céu
V ocê me procura?
V ocê me namora,
Santa Teresinha?
V ocê me namora, hein, santa Teresinha?
1 228

P(B)A(O)I

Rio de Janeiro
A Carlos Drummond de Andrade,
que com seu só título Boitempo
me deu a chave deste poema

Pai
Modorrando de tarde na cadeira
De balanço, a cabeça cai-não-cai.
Pai
Espantando o moscardo
Feito o boi faz com o rabo
Zum! iridesceu, se foi, múu.
Pai. Ah, como dói
Lembrar-te assim, pai pé-de-boi
Sentado à mesa mastigando sonhos
Boipai, entre as samambaias e avencas
Do pequeno jardim, utilinútil, ai...
Paiboi, paiboiota, boipapai
Babando amor no curral das acácias
Quebrando ferrolhos com a força
Dos cascos fendidos para não entrar mais boi
No chão de dentro, igual a mim...
Ah, como dói lembrar-te, boi
Triste, boiassim, a córnea branca
No olho trágico, ruminando o medo
Pelo novilho tresmalhado.
Pai. Boi.
Olhando do portão o chão de fora
Na noite escura, múu, à espera. Onde estou eu
Teu vitelão insone, onde?
Nas tetas de que rês? Em que pasto?
Que não o teu, e da boieira
Que também já se foi? Boipai
Paiboi.
Muge-me, boi-espaço
Da tua eternidade as cantigas
Mais lindas que soavas com teus dedos
Ungulados nas cordas da viola
Hoje partida. Geme
Boi-da-guia, tua nunca boesia
Dá-me, boi-de-corte
Um quilo de tua alcatra decomposta
Tua língua comida
Um carrinho de mão de tua bosta
Com que fertilizar minha poesia
Neste instante transposta.
Para plantar meu novo verso
Menos eu, mais canção, menos enxerto
Não posso prescindir da tua morte
Teus ossos, teu estrume
Tu bom pai, tu boipai, tu boiconsorte
Eu boiciúme.
1 108

Balada Das Duas Mocinhas de Botafogo

Eram duas menininhas
Filhas de boa família:
Uma chamada Marina
A outra chamada Marília.
Os dezoito da primeira
Eram brejeiros e finos
Os vinte da irmã cabiam
Numa mulher pequenina.
Sem terem nada de feias
Não chegavam a ser bonitas
Mas eram meninas-moças
De pele fresca e macia.
O nome ilustre que tinham
De um pai desaparecido
Nelas deixara a evidência
De tempos mais bem vividos.
A mãe pertencia à classe
Das largadas de marido
Seus oito lustros de vida
Davam a impressão de mais cinco.
Sofria muito de asma
E da desgraça das filhas
Que, posto boas meninas
Eram tão desprotegidas
E por total abandono
Davam mais do que galinhas.

Casa de porta e janela
Era a sua moradia
E dentro da casa aquela
Mãe pobre e melancolia.
Quando à noite as menininhas
Se aprontavam pra sair
A loba materna uivava
Suas torpes profecias.
De fato deve ser triste
Ter duas filhas assim
Que nada tendo a ofertar
Em troca de uma saída
Dão tudo o que têm aos homens:
A mão, o sexo, o ouvido
E até mesmo, quando instadas
Outras flores do organismo.

Foi assim que se espalhou
A fama das menininhas
Através do que esse disse
E do que aquele diria.
Quando a um grupo de rapazes
A noite não era madrinha
E a caça de mulher grátis
Resultava-lhes maninha
Um deles qualquer lembrava
De Marília e de Marina
E um telefone soava
De um constante toque cínico
No útero de uma mãe
E suas duas filhinhas.
Oh, vida torva e mesquinha
A de Marília e Marina
Vida de porta e janela
Sem amor e sem comida
Vida de arroz requentado
E média com pão dormido
Vida de sola furada
E cotovelo puído
Com seios moços no corpo
E na mente sonhos idos!

Marília perdera o seu
Nos dedos de um caixeirinho
Que o que dava em coca-cola
Cobrava em rude carinho.
Com quatorze apenas feitos
Marina não era mais virgem
Abrira os prados do ventre
A um treinador pervertido.
Embora as lutas do sexo
Não deixem marcas visíveis
Tirante as flores lilases
Do sadismo e da sevícia
Às vezes deixam no amplexo
Uma grande náusea íntima
E transformam o que é de gosto
Num desgosto incoercível.

E era esse bem o caso
De Marina e de Marília
Quando sozinhas em casa
Não tinham com quem sair.
Ficavam olhando paradas
As paredes carcomidas
Mascando bolas de chicles
Bebendo água de moringa.
Que abismos de desconsolo
Ante seus olhos se abriam
Ao ouvirem a asma materna
Silvar no quarto vizinho!
Os monstros da solidão
Uivavam no seu vazio
E elas então se abraçavam
Se beijavam e se mordiam
Imitando coisas vistas
Coisas vistas e vividas
Enchendo as frondes da noite
De pipilares tardios.
Ah, se o sêmem de um minuto
Fecundasse as menininhas
E nelas crescessem ventres
Mais do que a tristeza íntima!
Talvez de novo o mistério
Morasse em seus olhos findos
E nos seus lábios inconhos
Enflorescessem sorrisos.
Talvez a face dos homens
Se fizesse, de maligna
Na doce máscara pensa
Do seu sonho de meninas!

Mas tal não fosse o destino
De Marília e de Marina.
Um dia, que a noite trouxe
Coberto de cinzas frias
Como sempre acontecia
Quando achavam-se sozinhas
No velho sofá da sala
Brincaram-se as menininhas.
Depois se olharam nos olhos
Nos seus pobres olhos findos
Marina apagou a luz
Deram-se as mãos, foram indo
Pela rua transversal
Cheia de negros baldios.
Às vezes pela calçada
Brincavam de amarelinha
Como faziam no tempo
Da casa dos tempos idos.
Diante do cemitério
Já nada mais se diziam.
Vinha um bonde a nove-pontos...
Marina puxou Marília
E diante do semovente
Crescendo em luzes aflitas
Num desesperado abraço
Postaram-se as menininhas.

Foi só um grito e o ruído
Da freada sobre os trilhos
E por toda parte o sangue
De Marília e de Marina.
630

A Perdida Esperança

De posse deste amor que é, no entanto, impossível
Este amor esperado e antigo como as pedras
Eu encouraçarei o meu corpo impassível
E à minha volta erguerei um alto muro de pedras.

E enquanto perdurar tua ausência, que é eterna
Por isso que és mulher, mesmo sendo só minha
Eu viverei trancado em mim como no inferno
Queimando minha carne até sua própria cinza.

Mas permanecerei imutável e austero
Certo de que, de amor, sei o que ninguém soube
Como uma estátua prisioneira de um castelo
A mirar sempre além do tempo que lhe coube.

E isento ficarei das antigas amadas
Que, pela Lua cheia, em rápidas sortidas
Ainda vêm me atirar flechas envenenadas
Para depois beber-me o sangue das feridas.

E assim serei intacto, e assim serei tranqüilo
E assim não sofrerei da angústia de revê-las
Quando, tristes e fiéis como lobas no cio
Se puserem a rondar meu castelo de estrelas.

E muito crescerei em alta melancolia
Todo o canto meu, como o de Orfeu pregresso
Será tão claro, de uma tão simples poesia
Que há de pacificar as feras do deserto.

Farto de saber ler, saberei ver nos astros
A brilharem no azul da abóbada no Oriente
E beijarei a terra, a caminhar de rastros
Quando a Lua no céu contar teu rosto ausente.

Eu te protegerei contra o Íncubo
Que te espreita por trás da Aurora acorrentada
E contra a legião dos monstros do Poente
Que te querem matar, ó impossível amada!
1 267

Exumação de Mário de Andrade

No 17º ano da sua morte e no 40º do seu nascimento
Na semana de Arte Moderna

Minha casa de Saint Andrews Place.
Duas da manhã. Abro uma gaveta
Com um gesto sem finalidade
E dou com o retrato do poeta
Me olhando, Mário de Andrade.

Seus olhos nem por um segundo
Piscam. O poeta me encara
E eu vejo pela sua cara
Que o poeta quer ser exumado
Daquela gaveta, desde muito.

Tiro-o de lá. Com mão amiga
Limpo a poeira que lhe embaça
O rosto e suja-lhe a camisa
E o poeta como que acha graça.

Busco um lugar onde instalá-lo
Na minha pequena sala fria
Essa sala tão sem poesia
Onde me encontro todo dia
E onde me sento e onde me calo.

Mas não acho. Ponho-o à minha frente
Sobre a mesa, sentindo a vertigem
Da sensação da forma virgem
Que assume de súbito o ambiente.

No papel branco palpitante
Das moléculas da poesia
A minha mão psicografa
O antigo nome de Maria.

E na sala transverberada
Pelo mistério da presença
Vai se corporificando imensa
A humana forma macerada.

Não tenho medo; mas meus pêlos
Se eriçam, na barba e no braço
Sinto pesar o puro espaço
Às mãos do poeta em meus cabelos.

Depois o toque cessa. Deixo
O poeta a gosto, para que ande
Por ali tudo, esmiuçando.
Depois ouço o som do piano
E olho: só vejo a vasta fronte
Os óculos e o queixo grande
Do poeta, se desincorporando.

E fico só: só como um vivo
Cheio de angústia e de saudade
E corro à porta, e olhando aflito
O silêncio, murmuro empós o bom amigo:
- V olte sempre, Mário de Andrade...


Los Angeles, outubro de 1946
Petrópolis, fevereiro de 1962
1 433

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Comentários (31)

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Mais que um poeta... um ser humano amoroso e sensual; lindo poema de amor.

obacalhau
obacalhau

eae faz uma interpretação para mim de dez linhas desse poema ]

joao
joao

eu gosto muito da arca de noe bom descaco

mgenthbjpafa21

Amigo, outro dia quis ler aos meus gémeos e pedi para abrir sua poesias completas... Saiu Balada dos Mortos nos Campos de Concentração. Tive que explicar, ste anos, porque seria melhor encontrar outro....esperava o enjoadinho ou porque hoje é sábado e não era para sete anos... Mas saltei o mosquito, entomologia... Li então Poetica: acho que entenderam perfeitamente pois dei o exemplo de alguém que conhecem menos mal e é o autor deste comentário. - meu tempo é quando! Obrigado

Maria Aparecida Leite
Maria Aparecida Leite

As borboletas e a casa ótimos auxiliares para se alfabetizar crianças