Himalayanpanda

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Sou um Nepalês, mas moro no Bahia, Brasil há 12 anos. Sou estudante de antropologia e gosto muito de ler literatura variada, desde literatura até ciências. Ocasionalmente, também escrevo na minha língua materna, que não está listada no Google Tradutor. Alguns dos meus escritos já foram publicados. Estou aprendendo português (BR).

1967-07-30 Nepal
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Alguns Poemas

A Tempestade (um conto filosófico por Khalil Gibran)

-Khalil Gibran
Tra.: Ranjan Lekhy
December 1, 2025

 

Yusuf al-Fakhri tinha cerca de trinta anos quando abandonou a sociedade e se instalou em um eremitério isolado perto do vale de Kadisha, no norte do Líbano. Nos vilarejos ao redor, circulavam muitas lendas sobre Yusuf. Alguns diziam que ele vinha de uma família rica, que havia amado uma mulher que o traiu, e que, decepcionado com a vida, escolhera o isolamento. Outros afirmavam que ele era um poeta que abandonara a cidade barulhenta para viver na solidāo, a fim de coletar seus pensamentos e imaginações, e versificar suas inspirações divinas. Mas muitos acreditavam que ele era um homem misterioso que encontrava satisfação na espiritualidade. No entanto, a maioria das pessoas o considerava simplesmente um louco. Quanto a mim, não cheguei a nenhuma conclusão definitiva sobre esse homem. Apenas senti que, em seu coração, devia haver algum segredo profundo, cujo conhecimento não poderia ser obtido apenas pela imaginação.

Há muito tempo eu desejava encontrar esse eremita. Tentei de várias maneiras fazer amizade com ele, para descobrir sua realidade e perguntar qual era o objetivo de sua vida. Mas todos os meus esforços foram em vão. Na primeira vez que o encontrei, ele estava passeando na floresta de cedros sagrados do Líbano. Escolhi as palavras mais belas para saudá-lo, mas ele apenas inclinou ligeiramente a cabeça em resposta e seguiu em frente, dando grandes passos. 

Na segunda vez, eu o vi no meio de um pequeno pomar de videiras perto do eremitério. Aproximei-me para cumprimentá-lo e iniciei uma conversa perguntando: “As pessoas dizem que este eremitério foi construído no século XIV por seguidores de uma seita síria. Pode me contar algo sobre sua história?” Ele respondeu com indiferença, em poucas palavras: “Não sei quem construiu este eremitério, nem quando foi construído, e não me importo em saber.” Virou as costas para mim e disse: “Por que não você pergunta aos seus ancestrais? Eles são mais velhos que eu e sabem mais sobre este vale do que eu !” Vendo que meu esforço era completamente inútil, voltei embora. 

Assim se passaram dois anos. A vida excêntrica daquele homem estranho se instalara em minha mente, aparecendo frequentemente em meus sonhos e me atormentando. Em um dia de outono, enquanto eu passeava pelas montanhas e ravinas ao redor do eremitério de Yusuf al-Fakhri, de repente uma violenta tempestade com chuva torrencial me cercou de repente. Como um marinheiro perdido em uma tormenta oceânica, sem leme nem mastro, eu me sentia vagando sem direção. Com grande dificuldade, dirigi meus passos para o eremitério de Yusuf e pensei comigo mesmo: “Depois de tanto tempo esperando, finalmente chegou a oportunidade. Usarei a tempestade como pretexto para entrar no eremitério e, com as roupas molhadas, poderei ficar por mais tempo.” 

Quando cheguei ao eremitério, minha condição era muito precária. Bati à porta e, para minha surpresa, o próprio homem que eu buscava abriu. Ele segurava em uma das mãos um pássaro agonizante com a cabeça ferida e uma asa quebrada. Pedi desculpas: “Perdoe-me, Senhor, por entrar sem convite e causar incômodo. Estou muito longe de casa, perdido nesta solidão por causa da tempestade.” 

Ele respondeu com voz rouca: “Há muitas cavernas nesta floresta deserta onde você poderia se abrigar.” Mas ele não fechou a porta. Meu coração acelerou ainda mais, pois minha antiga espera estava prestes a ser recompensada. Ele acariciava a cabeça do pássaro com extrema delicadeza, revelando qualidades humanas que me agradaram muito. Fiquei admirado ao ver, naquele homem, compaixão e crueldade coexistindo. De repente, senti um profundo silêncio me envolver. Ele parecia irritado com minha presença, mas eu queria ficar mais um pouco. Como se tivesse lido meus pensamentos, ele quebrou o silêncio olhando para as nuvens: “A tempestade não quer comer comida azeda (como os carne do homens). Por quê você quer escapar dela?” 

Com um toque de ironia, respondi: “Pode ser que a tempestade não goste de coisas azedas ou salgadas, mas ela é capaz de esfriar e enfraquecer tudo. Se ela me pegar, certamente me engolirá sem mastigar.” 

Ao ouvir isso, seu rosto endureceu de repente e ele disse: “Se a tempestade te engolisse, você receberia uma honra que não merece.” Eu retruquei com uma piada: “Sim, senhor, eu me escondi neste eremitério exatamente para não receber uma honra que não mereço.” Apesar de não querer, ele sorriu e virou o rosto para esconder o sorriso. Então, apontou para um banco de madeira perto do fogo e disse: “Sente-se e seque suas roupas.” Ao ouvir isso, uma alegria surgiu em meu coração, que mal consegui esconder. 

Agradeci e me sentei no banco. Ele se sentou à minha frente, em um banco esculpido na rocha. Mergulhava os dedos em um frasco – talvez com algum óleo ayurvédico – e massageava suavemente a cabeça e a asa do pássaro. Sem olhar para cima, disse: “Um forte vendaval jogou esta pobre criatura entre a vida e a morte, batendo-a contra as pedras.” 

Eu continuei a comparação: “E esta terrível tempestade, antes disso, quase despedaçou minha cabeça e quebrou minhas pernas, me fazendo vagar até me enviar para sua cabana.” Ele olhou seriamente para mim e disse: “Eu desejo que o homem adote a natureza dos pássaros e enfrente a tormenta, mesmo que suas pernas se quebrem. O homem tende ao medo e à covardia. Quando sabe que uma tempestade está vindo, rasteja como um inseto para dentro de um buraco e se esconde.” 

Meu objetivo era descobrir o segredo de seu isolamento voluntário. Para provocá-lo, disse: “Sim, os pássaros têm essa qualidade e coragem que o homem não possui. O homem vive à sombra das leis e costumes que ele mesmo criou. Mas os pássaros vivem sob a lei eterna e livre, por isso a Terra gira continuamente ao redor do Sol em sua órbita invisível.” 

Seus olhos e rosto brilharam, como se tivesse encontrado em mim as qualidades de um discípulo sábio. Ele disse: “Muito belo! Se você acredita nas suas próprias palavras, deve abandonar imediatamente esta civilização, suas leis sujas e tradições podres, e viver como um pássaro em um lugar vazio onde não haja nada além da grande lei do céu e da terra.” 

“Acreditar é uma coisa fácil, mas colocar essa crença em prática exige grande coragem. Muitos são como o oceano: rugem e gritam, mas sua vida é oca e sem fluxo, como um esgoto sujo. Alguns são como montanhas: erguem a cabeça e o peito com orgulho, mas sua alma dorme no escuro de uma caverna.” 

Ele se levantou devagar, envolveu o pássaro em um pano pendurado na janela e o colocou perto do fogo seco. Depois disse: “Tire os sapatos e aqueça os pés no fogo; ficar molhado por muito tempo é prejudicial à saúde. Seque suas roupas e descanse.” 

As palavras hospitaleiras de Yusuf aumentaram a esperança em meu coração. Segui seu conselho e me aproximei do fogo. Vapor subia da minha roupa. Ele ficou de pé na soleira, olhando para as nuvens escuras. Em minha mente, fervilhavam perguntas de todos os tipos para desvendar seu segredo. 

Fingindo ignorância, perguntei: “Desde quando o senhor vive neste lugar?” Sem olhar para mim, respondeu calmamente: “Cheguei aqui quando a Terra era sem forma e vazia, quando estava envolvida em trevas misteriosas e Deus pairava sobre as águas.” 

Fiquei atônito ao ouvir isso. Perturbado, tentei compreender aquele conhecimento profundo e pensei: “Que homem estranho e difícil de desvendar! Mas devo prosseguir com cautela, paciência e perseverança até que seu silêncio se torne eloquente e sua estranheza compreensível.” 

À medida que a noite avançava, a escuridão se espalhava como um véu sobre o vale cheio de florestas e selvas. A tempestade furiosa uivava, a chuva não dava sinais de parar – pelo contrário, aumentava. Em minha mente, vinham imagens terríveis do dilúvio descrito nas escrituras, como se uma inundação destruidora tivesse vindo novamente para limpar a sujeira da humanidade da face da Terra. 

A noite caía. Parecia que, após anos de ascetismo, uma amizade e compaixão espontâneas haviam surgido no coração daquele misterioso asceta por mim, seu hóspede humano. Ele acendeu duas velas no fogão, preparou o jantar e logo colocou à minha frente uma mesa com uma jarra de vinho de uvas, pão com manteiga em um grande prato, azeitonas, uma tigela de mel e algumas frutas secas. Sentou-se em sua cadeira, convidando-me a comer: “Venha, irmão! Coma este simples alimento e mate a fome.” 

Agradeci e comemos em silêncio, ouvindo o lamento do vento e o choro da chuva. A cada mordida, eu observava seu rosto, tentando extrair os segredos de seu coração. Pensava nas possíveis razões de sua existência extraordinária. Após o jantar leve, ele pegou uma chaleira de latão do fogão e serviu café perfumado em duas xícaras. Abriu uma pequena caixa de madeira, tirou charutos e me ofereceu um: “Fuma, irmão?” Bebemos café e fumamos charutos. Mas o que meus olhos viam parecia inacreditável. 

Como se tivesse lido meus pensamentos, ele olhou para mim, sorriu e, dando uma longa tragada no charuto e um gole no café, disse: “Certamente você está surpreso ao ver vinho, café e charutos – coisas de luxo e conforto – aqui. Não te culpo. Você é como aqueles que acreditam que quem abandona a sociedade e se torna eremita renuncia à vida humana, ou deve viver privado de todos os confortos, em miséria e sofrimento, infligindo dor a si mesmo.” 

Concordei imediatamente: “Sim, os sábios dizem que quem abandona o mundo apenas para devoção e oração a Deus, tornando-se um asceta, deve renunciar a todos os prazeres mundanos. Deve contentar-se apenas com o que Deus criou: viver de água, árvores e vegetais.” 

Suspirando profundamente, perdido em pensamentos, ele disse: “O isolamento não é necessário para a devoção a Deus. A devoção pode ser praticada mesmo vivendo entre as pessoas. Não, irmão, eu não abandonei o mundo em busca de Deus. Eu sempre senti Deus na presença de meu pai e de minha mãe.” Abandonei a sociedade humana apenas porque minha natureza não se encaixa na dos outros. Seus sonhos são diferentes dos meus. Deixei a companhia da humanidade porque as rodas da minha alma giram em direção oposta às dos outros, colidindo. Abandonei a civilização humana porque ela é como uma árvore antiga, corroída e destruída, mas ainda poderosa e cruel. Suas raízes estão presas em cavernas escuras da terra, seus galhos perdidos em nuvens densas. Suas flores são ganância, injustiça e pecado; seus frutos, insatisfação, medo e sofrimento. Alguns santos tentaram reformar a civilização humana, mas falharam e morreram decepcionados e tristes.” 

Parando, Yusuf inclinou-se ligeiramente para o fogo, como se esperasse uma reação às suas palavras. Achei melhor permanecer em silêncio. 

Vendo meu silêncio, ele continuou: “Não adotei o isolamento para viver como um monge. A oração é o canto do coração, e mesmo no meio de milhares de gritos, uma oração sincera e silenciosa chega aos ouvidos de Deus.” 

“Viver como asceta significa torturar o corpo e a alma, sufocar os desejos. Isso é uma tradição contra a qual sou totalmente oposto. A natureza criou este corpo como templo da alma, e nosso dever é cuidá-lo.” 

“Não, irmão, não adotei o isolamento nem por motivos espirituais. Fiz isso apenas para ficar longe dos homens, de suas leis, ideias, queixas, sofrimentos e lamentos.” 

“Tornei-me eremita para não ver o rosto feio do homem que se vende por um preço baixo, tanto espiritual quanto material.” 

“Vivo isolado para não encontrar mulheres que andam orgulhosas com sorrisos falsos nos lábios, mas com um único objetivo escondido nas profundezas de seus corações.” 

“Afastei-me das pessoas auto-satisfatórias que veem um vislumbre de conhecimento nebuloso em seus sonhos e acreditam ter alcançado a verdade completa.” 

“Fugi da sociedade para ficar longe daqueles que, ao acordar, captam apenas um vislumbre da verdade, mas gritam para o mundo inteiro que a conquistaram por completo.” 

“Abandonei o mundo porque me cansei de ser cortês com pessoas que consideram a humildade fraqueza, a compaixão covardia e a crueldade força.” 

“Meu isolamento se deve ao cansaço de conviver com aqueles que acreditam que o sol, a lua e as estrelas nascem de seu tesouro e se põem apenas em seu jardim.” 

“Fugi dos políticos gananciosos pelo poder que enganam o povo inocente com poeira brilhante nos olhos e sons vazios nos ouvidos, destruindo suas vidas.” 

“Escolhi o isolamento voluntário porque nunca recebi compaixão de ninguém sem pagar o preço total com minha vida.” 

“Afastei-me dos líderes religiosos, sacerdotes e clérigos que pregam religião em voz alta, exigem conduta que eles mesmos não seguem, se consideram os mais puros e vivem apenas de doações.” 

“Fui forçado ao isolamento por esta grande e terrível instituição chamada civilização, que cobre a contínua miséria da humanidade com uma monstruosidade feia.” 

“Tornei-me eremita porque só no isolamento há plenitude para minha alma, meu coração e meu corpo. Neste isolamento, encontro um belo país onde o sol repousa sua luz, as flores espalham sua fragrância em cada respiração livre no vazio, e os riachos cantam chuá-chuá a caminho do mar. Encontrei montanhas onde vejo a primavera clara acordar, as aspirações coloridas do verão, os cantos magníficos do outono e os belos mistérios do inverno. Vim para esta ravina distante por causa do reino de Deus. Estou ansioso para conhecer os mistérios do mundo e chegar perto do trono do Senhor.” 

Yusuf Baba deu um longo suspiro e ficou em silêncio, como se tivesse se livrado de um grande fardo. Seus olhos brilhavam com uma luz estranha e mágica, e seu rosto radiante refletia orgulho, determinação e satisfação. 

Passou algum tempo em silêncio assim. Eu o observava atentamente, vendo o véu se erguer do que até então era desconhecido para mim, e disse: “Sem dúvida, tudo o que o senhor disse é cem por cento verdadeiro. Pelo sintomas, pode-se diagnosticar corretamente a doença social, provando que o senhor é um médico habilidoso. Entendo que uma sociedade doente precisa desesperadamente de um médico como o senhor para curar suas várias doenças. Não ajudar uma sociedade assim seria injusto para o senhor e infortúnio para a sociedade.” 

Ele me olhou fixamente por alguns momentos, pensando, como se buscasse uma resposta sólida à minha acusação, mas quando respondeu, estava imerso em decepção. Defendendo sua vida isolada, disse: “Os médicos lutam desde o início da criação para ajudar os doentes a se livrarem das doenças. Alguns usaram cirurgia, outros ervas medicinais, mas as epidemias continuaram a se espalhar de forma terrível. As pessoas morriam sem esperança, porque a esperança não existe.” 

“Em minha opinião, se o doente se contenta em deitar em sua cama suja e encontra prazer em lamentar sua velha doença, o que alguém pode fazer? O pior é quando um médico vem tratar o doente, e o doente, tirando a mão de debaixo da coberta, agarra o pescoço do médico e o sufoca até a morte. Ai! Que infortúnio que o doente mau mate seu médico e, fechando os olhos, diga: ‘Pobre médico grande!’ Não, irmão, ninguém no mundo pode ajudar esta humanidade. Por mais hábil e sábio que seja o agricultor, nada cresce no inverno gelado.” 

Para inspirar esperança, eu disse: “O inverno da humanidade um dia terminará, virá uma bela primavera, flores desabrocharão nos campos e riachos fluirão das montanhas.” 

Ao ouvir isso, suas sobrancelhas se franziram e ele falou em tom duro: “Tomara que Deus tivesse dividido a vida humana em estações como o ano! Há alguma comunidade ou grupo humano no mundo que viva pela verdade de Deus e fé no Divino, desejando nascer nesta terra? Virá algum tempo em que o homem se estabilize e dependa apenas da consciência divina? Pode ficar feliz com a luz do dia e o silêncio escuro da noite? Meu sonho algum dia se tornará realidade? Ou só será verdadeiro quando esta terra estiver coberta pelo carne podre do homem e encharcada com seu sangue?” 

Yusuf Baba se levantou, ergueu as mãos para o céu como se apontasse para outro mundo e respondeu a si mesmo: “Não pode acontecer. Para este mundo, é apenas um sonho. Mas eu o busco para mim. O que encontro está espalhado no fundo do meu coração, neste vale e nestas montanhas.” Elevando ainda mais a voz excitada, disse: “Na verdade, eu sei. É o grito da minha consciência. Estou muito cansado, mas meu ser está cheio de fome e sede. Gosto de comer o pão da vida preparado e servido por minhas próprias mãos; nisso encontro alegria. Por isso abandonei os assentamentos humanos e vim para este deserto isolado, e ficarei aqui até o fim.” 

Ele andava agitado de um lado para o outro na sala, enquanto eu refletia sobre suas palavras e estudava a explicação das feridas profundas da sociedade. 

Então, para provocá-lo mais uma vez, disse: “Concordo com suas ideias, respeito completamente sua vontade pessoal, admiro e invejo seu isolamento. Mas a nação infeliz sofre grande perda ao se separar do senhor. A nação precisa de um reformador sábio como o senhor para ajudá-la em dificuldades e despertar sua consciência adormecida.” 

Balançando lentamente a cabeça, ele disse: “Esta nação é como as outras; suas pessoas são feitas dos mesmos cinco elementos que o resto da humanidade. A diferença está apenas na aparência externa, que não tem significado especial. A dor das nações orientais é a dor do mundo inteiro. O que você chama de civilização ocidental não é nada além de outra forma feia de tragédias e ilusões enganosas.” 

“Hipocrisia sempre permanece hipocrisia, não importa o quanto seja colorida com henna ou embelezada com maquiagem. Engano nunca se transforma em honestidade, por mais suave e doce que seja seu toque. Mentira nunca se torna verdade, mesmo se vestida com seda e sentada em um palácio. Desejo nunca se torna satisfação. Quanto à escravidão eterna – seja de princípios, costumes ou história – escravidão sempre é escravidão. Não importa como pinte o rosto ou mude a voz, escravidão permanece em sua forma horrenda e repugnante, mesmo se você a chamar de liberdade.” 

“Não, irmão, o Ocidente não é nem um pouco superior nem inferior ao Oriente. A diferença entre os dois não é mais que entre um leão e um tigre. Além da forma externa da sociedade, devemos buscar uma lei suprema e completa que trate igualmente felicidade, sofrimento e ignorância. Essa lei não considera uma raça superior a outra nem tenta elevar uma rebaixando a outra.” 

Admirado, eu disse: “O orgulho da humanidade é falso, e tudo o que nele está contido é inútil.” 

Ele respondeu imediatamente: “Sim, o orgulho da humanidade não é nada além de uma ilusão falsa. Invenções e descobertas são apenas entretenimento e conforto para o homem quando ele está completamente cansado. Conquistar distâncias terrestres e vencer os mares são frutos perecíveis que não satisfazem a alma nem nutrem e desenvolvem o coração. A vitória é completamente antinatural. Tudo o que o homem chama de arte e ciência da criação não é nada além de elos de correntes ou correntes douradas. Preso em sua ilusão, o homem as arrasta consigo, feliz com seu brilho e som.

Na verdade, o homem começou a construir essa forte jaula há séculos, mas não sabia que, construindo-a de dentro, logo se tornaria seu próprio prisioneiro para sempre. Ha ha! As ações do homem são inúteis, seus objetivos sem sentido, e tudo nesta terra é vão.” 

Parando um pouco, ele falou mais devagar: “Nesta vaidade toda da vida, há apenas uma coisa que a alma ama e deseja. Uma coisa única e brilhante!” 

Com voz trêmula, perguntei: “O que é isso?” 

Ele me olhou por um momento, fechou os olhos, colocou as mãos no peito. Seu rosto brilhava. Com voz confiante e grave, disse: “Não é nada além do despertar da alma, o despertar camada por camada nas profundezas do coração.” 

“É um grande poder que se espalha por tudo, capaz de iluminar a consciência humana a qualquer momento, clarear sua visão interior para que veja a vida cercada por música, envolvida em uma coroa, erguida como uma torre de luz entre a terra e o infinito.” 

“É uma chama que de repente se acende na alma interna, purifica o coração com seu calor e, descendo à terra, gira no céu eterno.” 

“É uma compaixão que desce ao coração do homem para inspirá-lo com maravilha e rejeitar tudo o que se opõe a ela. Odeia tudo o que não está de acordo com ela. Rebela-se contra todos que não compreendem seu segredo.” 

“É uma mão misteriosa que removeu o véu dos meus olhos quando eu vivia feliz com família, amigos, benfeitores e compatriotas.” 

“Na infância, muitas vezes fiquei atônito e pensei: ‘De quem são esses rostos que me olham? Quem são essas pessoas? Como me conhecem? Como vim parar entre elas? Como estou sentado e conversando com elas? Sou estranho para elas ou elas são estranhas nesta casa que a vida construiu para mim e cuja chave a vida me entregou?’” 

De repente, ele se calou, como se tentasse lembrar algo esquecido, mas não quisesse revelar. Abriu os braços e sussurrou: “Há quatro anos, quando abandonei o mundo, isso aconteceu comigo! Vim para este lugar isolado para viver em estado de despertar, desfrutar da paz com silêncio sagrado, amizade e pensamentos significativos.” 

Lá fora, estava escuro e sussurrante. Ele se aproximou da porta, olhou para a tempestade e gritou em voz alta: “É o despertar dentro da alma. Quem o conhece não pode expressá-lo em palavras, e quem não o conhece nunca poderá pensar no belo mistério forçado da existência.” 

Uma hora se passou enquanto Yusuf al-Fakhri andava de um canto ao outro da cabana, parando às vezes na porta para olhar a atmosfera escura iluminada por relâmpagos. 

Eu fiquei em silêncio, observando as ondas em sua alma, tentando compreender o significado de suas declarações, pensando em sua vida e nos prazeres e sofrimentos de sua solidão. Quando o segundo quarto da noite terminou, ele se aproximou de mim, olhou longamente para meu rosto, como se tentasse preservar na memória a imagem do homem diante de quem revelara os segredos de sua vida isolada. Meu coração estava pesado com a agitação dos pensamentos, e meus olhos, cansados pela névoa da tempestade. 

Então, ele disse devagar: “Agora vou passear na tempestade. É um hábito que me dá prazer nas estações de outono e inverno. Há café na chaleira e charutos. Se quiser vinho, está na jarra. Se quiser dormir, há cobertor e travesseiro naquele canto.” 

Cobriu o corpo com um casaco preto, sorriu e disse: “Peço que, quando voltar amanhã, feche a porta para niguém entrar sem permissão. Planejo passar o dia inteiro passeando na floresta de cedros sagrados.” 

Pegou uma bengala simples e disse: “Se a tempestade te cercar de repente nesta selva, não hesite em buscar abrigo no eremitério. Espero que agora você aprenda a amar a tempestade e não tenha medo dela. Adeus, meu irmão.” 

Abriu a porta, ergueu a cabeça na escuridão e saiu. Fiquei na soleira observando por qual caminho ele ia. Logo desapareceu da minha vista. Por alguns minutos, ouvi o som de seus passos nas pedras da estrada. 

Após aquela conversa profunda à noite, quando amanheceu, a tempestade havia cessado, o céu estava claro, e os raios quentes e suaves do sol faziam brilhar toda a planície e o vale. 

Antes de sair da cabana, não esqueci de fechar a porta. Comecei a sentir o despertar espiritual sobre o qual Yusuf al-Fakhri falara na noite anterior. Esse despertar se espalhava por todos os meus membros. Pensei que essa inspiração certamente deveria se manifestar. Quando me acalmei um pouco, vi plenitude e beleza florescendo ao meu redor. 

Quando voltei para a sociedade humana na cidade barulhenta, ouvi seus sons e vi suas atividades, parei e disse ao meu coração: “Sim, o autoconhecimento é extremamente necessário na vida humana e deve ser o único objetivo da vida humana. Não é a civilização, com toda sua dolorosa ambiguidade e incerteza, uma grande razão para o despertar espiritual? Maravilho-me como podemos negar a existência de algo existente apenas porque sua existência é sua própria prova? Talvez a civilização moderna seja um acidente decrescente, mas a lei eterna pode transformar a escada de todos os acidentes em degraus que levam à plenitude.” 

Nunca mais encontrei Yusuf al-Fakhri, porque, devido aos meus próprios esforços para remover os males da civilização, fui exilado do norte do Líbano no final daquele outono e tive que viver como expatriado em um país distante onde as tempestades são muito fracas, e o isolamento de um monge é considerado uma loucura considerável – porque a sociedade aqui também está muito doente. 

Fim

Fome (Poema)

Ranjan Lekhy
Santo Antônio de Jesus, Bahia, Brasil
25 de agosto de 2025

No ventre do pobre arde a chama da fome,
Buscando alimento, seu coração consome.
Sonhos queimados no abraço cruel da dor,
A estrada da vida — espinhos e suor.
 

No peito do rico, a fome joga esperta,
Ganância o guia, a alma nunca desperta.
Quer mais e mais, seu cofre a acumular,
Mas mesmo em ouro, vazio há de ficar.
 

A fome da fama deseja aplausos do mundo,
Todo coração quer ser reconhecido e fecundo.
Vida brilhante, de elogios repleta,
Mas na multidão, só a alma deserta.
 

A fome do poder tece sonhos de mandar,
Reinar pra sempre — desejo a dominar.
Em nome do povo, o banquete é egoísta,
Com o trono nas mãos, o fardo é à vista.
 

A fome da beleza conta outra história,
De ser sempre belo — eterna memória.
A juventude encanta com perfume e cor,
Mas a velhice apaga o brilho e o vigor.
 

A fome do desejo mergulha em paixão,
Caminhos do corpo e da mente — divisão.
A fome do amor é pura e fortalece o ser,
Mas a da luxúria é frágil e vai se perder.
 

A fome é a história do viver humano,
Diferentes jornadas, um mesmo desengano.
Nos cantos do mundo, a dor é igual,
Na sombra da fome — um segredo fatal.
 

mas
 

A fome do saber é jornada de libertação,
A educação justa liberta da servidão.
Buscando a verdade com mente desperta,
A luz do saber toda sombra liberta.

Fim


Traduzido da língua Tharu:   https://dhakiyakhabar.com/news/2024/07/06/2354?fbclid=IwZXh0bgNhZW0CMTEAAR2sohIX5fgWJDg1Y0P9nIovpu1D3_NrNtF8-_wFgkBiBM6mOt1bJjl9Z0g_aem_y9c0rbPbyfiJ79ahxJv0tg

Seprotelogia (Conto)

—Ranjan Lekhy
SAJ, Bahia, Brasil 
Domingo, 15 de junho de 2025 

 

         Era uma vez um jovem professor extremamente educado que embarcou em uma viagem marítima ao redor do mundo. Ele foi o Decano de Ciências Naturais em uma universidade renomada. Antes e depois do seu nome vinha uma longa lista de títulos e diplomas. A sociedade o considerava um grande sábio, um verdadeiro depósito vivo de conhecimento. No entanto, ele quase não tinha experiência real da vida.

       Na cabine ao lado da dele viajava um velho. Durante a apresentação, descobriu-se que ele era um pescador que passara a vida a pescar no mar. Agora velho e aposentado, decidira fazer essa viagem marítima para aproveitar a vida. Por causa da pobreza, desde criança fora obrigado a trabalhar na pesca e, por isso, nunca pudera estudar nem aprender a ler. Mas décadas de trabalho lhe tinham dado um conhecimento do mar, do tempo e da própria vida que nenhum livro poderia oferecer. Sua pele estava marcada e endurecida pelo sol forte e pelo vento salgado do oceano; as linhas profundas e ásperas das mãos calejadas contavam histórias de trabalho duro, e os olhos úmidos cantavam em silêncio as incontáveis ondas de lembranças do mar.

       Todas as tardes, pouco antes do pôr do sol, o professor subia ao convés, sentava-se numa confortável cadeira de descanso e se deliciava com o espetáculo do sol que se afundava no horizonte. O sol vermelho desaparecia lentamente no céu azul. Embora as cores do céu e do mar mudassem a cada instante por causa dos raios solares, no exato momento do pôr do sol todo o horizonte e a terra se tornavam dourados. O velho pescador também aparecia e, em silêncio, sentava-se na cadeira ao lado do professor.

         O professor exibia seu conhecimento. Falava dezesseis línguas e se gabava de que não havia poliglota como ele. O pescador ouvia encantado aquelas conversas sobre céu e terra. Ouvir o professor falar clara e fluentemente em sua própria língua materna deixava o pescador de boca aberta. O pobre velho não sabia nada além de pescar e da sua língua da mãe. Parecia-lhe estar ouvindo algum mistério que só pessoas instruídas poderiam compreender.

         Depois de algumas horas de conversa, quando o velho pescador se levantava da cadeira para voltar à sua cabine, o jovem professor lhe perguntou: 

— Pescador, você já ouviu falar em geologia?

O velho hesitou um pouco e respondeu: 

— O que é isso, senhor?

O professor deu um leve sorriso e disse: 

— É a ciência da Terra — essa ciência (chamada de “-logia”), explica como o planeta foi formado, como surgiram o solo, as pedras, as rochas, as montanhas, os rios e os oceanos.

O velho pescador baixou a cabeça, envergonhado, e respondeu: 

— Não, senhor. Nunca estudei nada. Nem a porta de uma escola eu vi.

O professor respirou fundo e disse, com gravidade: 

— Velho, você vive sobre esta Terra e não conhece geologia. Desperdiçou um quarto da sua vida.

         O rosto do pescador desabou. Ele se afastou em silêncio. Seu coração ficou pesado — “Será que realmente desperdicei um quarto da minha vida? Se um sábio tão grande diz isso, deve estar certo.”

         No dia seguinte, aconteceu exatamente o mesmo: conversa, exibição de saber científico e, de novo, uma pergunta do jovem professor: 

— Pescador, você já estudou oceanologia?

— Oceanologia? — o pescador perguntou, tímido e espantado. — Não, senhor, nunca nem ouvi esse nome.

O professor balançou a cabeça com ar de superioridade e disse: 

— Você passou a vida inteira no mar e não conhece oceanologia! Oceanologia é a ciência do oceano. Pescador, você desperdiçou metade da sua vida.

O velho ficou ainda mais triste. “Metade da vida?”, murmurou. “Será que realmente não aprendi nada que valha a pena?”

No dia seguinte, a mesma cena se repetiu. O professor perguntou outra vez: 

— Velho, pelo menos você deve conhecer meteorologia, não é?

Mais uma vez o pescador se sentiu envergonhado e respondeu: 

— Não, senhor. Como eu já disse, sou analfabeto, não sei de nada.

O professor ficou profundamente decepcionado e disse, com pesar: 

— Nem geologia, nem oceanologia, nem meteorologia. Você enfrenta tudo isso todos os dias e não sabe nada a respeito. Me diga, como conseguiu pescar no mar sem conhecer a ciência do tempo? Velho, você desperdiçou três quartos da sua vida.

Agora a cabeça do pescador pendeu ainda mais, cheia de dor e vergonha. Com o coração pesado, voltou para a cabine. Deitado de costas na cama, olhando para o teto, pensava: “Três quartos da vida jogados fora! O que foi que eu fiz até hoje? Pescar, comer, dormir, criar filhos. Só isso. Nem uma gota de conhecimento. O professor tem toda razão.”

Naquela noite ele não conseguiu dormir direito. As palavras do professor rodaram a noite inteira em sua cabeça. Sua própria vida começou a lhe parecer pequena e sem sentido. Pensando assim, acabou adormecendo sem perceber.

Na manhã seguinte, de repente, uma tempestade terrível explodiu sobre o oceano. O céu se encheu de nuvens negras e densas. As ondas ficaram incontroláveis e começaram a rugir como elefantes. O navio de madeira balançava violentamente. Antes que o capitão pudesse recolher as velas, com um estrondo assustador, o navio bateu numa rocha.

O pânico se espalhou por toda parte. Na confusão, muitos passageiros caíram e se feriram; gritos enchiam o ar. O capitão gritou o aviso: 

— O navio está afundando! Salvem-se quem puder!

Ao ouvir o tumulto e sentir o impacto, o professor correu da cabine em direção ao convés. No caminho, encontrou o velho pescador vindo na sua direção. O rosto do velho estava sério. Com voz desesperada, perguntou: 

— Professor! O senhor sabe Seprotelogia ?

O professor, apavorado, respondeu: 

— O que é isso? Nunca ouvi nem li nada sobre Seprotelogia.

Então o velho pescador disse, direto e simples: 

— O senhor, sabe como se proteger do afogamento? O navio está afundando.

Ao ouvir isso, o professor, assustado e sem esperança, respondeu: 

— Eu li livros sobre técnicas de natação, mas nadar eu não sei.

O coração do pescador se encheu de compaixão. Mesmo assim, sem poder fazer mais, disse com voz grave: 

— Professor, o senhor desperdiçou a vida inteira. O navio está afundando. Quem sabe nadar chega a alguma praia e salva a vida. Quem não sabe desaparece no fundo deste oceano imenso. Me dói muito que o senhor tenha aprendido tudo, menos a nadar. Agora o que fazer? Mesmo assim, mexa braços e pernas, tente salvar a vida!

Dito isso, o velho pescador deixou o sábio professor ali parado e, com um grande “plash!”, pulou no mar. Cortando as ondas gigantes, seguiu em frente — em direção à vida. Afinal, era o que ele fazia todos os dias havia décadas: enquanto pescava, rasgava as ondas mortais do oceano dia após dia.

O professor ficou ali, plantado — atônito, envergonhado e aterrorizado. Aos poucos o navio afundava. De tanto medo, nem tentou nadar. Quando começou a submergir, finalmente percebeu que o mais importante na vida não era aprender ciências para circo intelectual — era aprender a ciência de nadar, a ciência de sobreviver. 

(Fim)

Hino da Bondade Amorosa

Isso é o que deve ser feito  
Por quem é hábil na bondade  
E conhece o caminho da paz:  
Que seja capaz e reto,  
Fala franca, voz de suavidade,  
Humilde, sem orgulho ou vaidade.  

Contentamento lhe baste,  
Fácil de satisfazer,  
Leve de deveres, simples no viver.  
Calmo, sereno, sábio e destro,  
Sem arrogância nem exigência no gesto.  

Que nada faça, por menor que seja,  
Que os sábios depois venham a reprovar.  
Que deseje, com alegria e segurança:  
“Que todos os seres tenham paz e calma!”  

Todos os seres que existem,  
Fracos ou fortes, sem deixar ninguém,  
Grandes ou poderosos, médios, altos ou pequenos,  
Visíveis ou invisíveis, bem além,  
Perto ou longe, já nascidos ou por nascer —  
Que todos os seres tenham paz e bem-querer!  

Que ninguém engane o outro,  
Nem despreze ser algum em qualquer estado.  
Que ninguém, por raiva ou má vontade,  
Deseje mal a quem quer que seja ao lado.  

Como mãe que com a vida protege  
O filho único, seu bem maior,  
Assim, com coração sem limite ou fronteira,  
Que se ame a toda criatura vivente com ternura.  

Que a bondade se espalhe pelo mundo inteiro,  
Subindo aos céus, descendo aos abismos,  
Para os lados, sem fim nem barreiras,  
Livre de ódio, livre de rancores.  

De pé, andando, sentado ou deitado,  
Sem torpor, sem sono que entorpeça,  
Que se sustente essa lembrança sagrada.  
Dizem que esta é a morada sublime, a mais bela.  

Sem se prender a visões fixas ou rígidas,  
O coração puro, de visão cristalina,  
Livre de todo desejo dos sentidos,  
Não volta a nascer neste mundo, já finda a roda.

नक्कली मसीहाको उद्गीथ (A balada do falso Messias de Moacyr Scliar em nepalês.)

मोआसीर स्लियर

अनुवादकः रंजन लेखी

साज, बाहिया, ब्राजिल

२२ जुलाई २०२४

 

             ऊ गिलासमा रक्सी हाल्न गईरहेको छ । उसका चाउरी परेका हातहरु अहिले काँपिरहेका छन् । तर तिनीहरू अझै पनि मलाई प्रभावित गर्दैछन्, ती ठूला र बलिया हातहरू । म तिनीहरूलाई मेरो आफ्नै हातहरुसँग तुलना गर्दछु, तिनीहरूका छोटा तर बाक्ला औंलाहरू । र म स्वीकार गर्दछु कि उसलाई मैले कहिल्यै बुझ्न सकिनँ र शायद कहिल्यै बुझ्न सक्दिनँ होला ।

           मैले उसलाई जेमलियामा पहिलो पटक भेटेँ । त्यो पुरानो जहाजमा, हामी यहूदीहरू रूस छोड्दै थियौं । हामीलाई नरसंहारको डर थियो । (लातिन) अमेरिकाले सहयोग गर्ने वाचाको साथ हामीलाई निमन्त्रण गरेको थियो, त्यसैले हामी त्यहाँ पुग्न तेश्रो दर्जामा बसेर यात्रा गर्दै थियौं । सन् १९०६ को कुरो हो, हामीले रोयौं र बान्ता ग¥यौं । हामी चढ्दा तिनीहरू पहिले नै जहाजमा उपस्थित थिए ।

          शब्ताई ज्वी र गाजा (प्यालेस्टाईन) को नाथन । हामीले उनीहरूलाई बेवास्ता गर्यौं । हामीलाई थाहा थियो कि तिनीहरू पनि यहूदी थिए तर हामी रूसमा शंकास्पद थियौं । हामीलाई आफू भन्दा बढी प्राच्य (पूर्वीया) मान्छे मन पर्दैन थियो । र शब्ताई ज्वी एशिया माइनरको तुर्क थियो– तपाईंले उसको श्याम वर्णको त्वचा र कालो आँखा हेरेर बताउन सक्नुहुन्छ । कप्तानले हामीलाई भने कि उ धेरै धनी परिवारबाट थियो । वास्तवमा, उ र फिलिस्तिनी नाथनसँग मात्र जहाजमा एउटा राम्रो क्याबिन थियो । त्यसोभए उनीहरू किन (लातिन) अमेरिका जाँदै थिए त ? तिनीहरू किन भाग्दै थिए ? अनुत्तरित प्रश्नहरू थिए ।

            फिलिस्तिनी नाथनको सानो कद र श्यामल त्वचाले मानिसहरुलाई, विशेष गरी हामीलाई, जिज्ञासा जगायो । हामीले एरेत्ज इजरायलको कुनै फिलिस्तिनी यहूदीलाई कहिल्यै देखेका थिएनौं – हामी मध्ये धेरैका लागि त्यो भूमी सपनामा मात्र अवस्थित रहेको थियो । फिलिस्तिनी नाथन, एक दम वाकपटु वक्ता थियो, श्रोताहरूलाई गलीलीका सहज डाँडाहरू, सुन्दर ताल किनरेट, गाजाको ऐतिहासिक सहर, जहाँ उ जन्मेको थियो र जसका ढोकाहरू शिमशोनले भत्काएका थिए भन्ने वर्णन गर्यो । तर मातेको अवस्थामा उसले आफ्नो मातृभूमिलाई धिक्कारथ्यो, ढुँगा र बालुवा, ऊँटहरू, चोर अरबहरूको देश भनेर । क्यानरी टापुहरू बाहिर, शब्ताई ज्वीले उसलाई एरेत्ज इजरायललाई सराप्दै समातेको थियो । रगत बगेसम्म उसले नाथनलाई भुँईमा लडाएर पिटेको थियो । जब नाथनले पनि प्रतिकार गर्ने हिम्मत गर्यो तब उसले नाथनलाई अन्तिम पटक लात्तीले हिर्काएको थियो ।

           त्यसपछि उसले कसैसँग नबोली आफ्नो क्याबिनमा थुनेर दिन बितायो । जब हामी छेउबाट गयौं, हामीले रोएको, हिकहिक गरेको र मधुरो गीत गाएको सुन्यौं । एक बिहान, हामी नाविकहरूको चिच्याएको आवाज सुनेर उठ्यौं । हामी डेकमा दौडियौं र त्यहाँ शब्ताई ज्वीलाई चिसो समुद्रमा पौडी खेलिरहेको देख्यौं । तिनीहरूले लामो डुङ्गालाई तल झारे र कठिनाइले उसलाई पानीबाट निकाल्न सफल भए ।

           ऊ पूर्णतया नाङ्गो थियो र त्यसरी नै ऊ हाम्रो छेउबाट हिँड्यो, टाउको उचालेर हामीलाई नहेरी आफूलाई केबिनमा कैद गर्यो । फिलिस्तिनी नाथनले भन्यो कि त्यो स्नान अध्यात्मिक अनुष्ठानको लागि थियो, तर हाम्रो निष्कर्ष फरक थियो – त्यो तुर्क सनकी थियो ।

            हामीहरु रियो दि जेनेरियो (ब्राजील) को फूलहरुको द्वीप (Ilha das Flores) मा आइपुग्यौं, र त्यहाँबाट हामीहरु इरेक्सिमको यात्रा गर्यौं । त्यहाँबाट हामीहरुलाई गाडीमा चढाएर हाम्रो नयाँ घरहरूमा लगियो, ब्यारोन फ्रान्क भनिने धनी कोलोनीमा । हामीलाई प्रायोजित गर्ने एक अस्ट्रियाली परोपकारी सामाजिक अभियन्ताको सम्मानमा हामीहरु भेटन गयौं तर हामीहरुले उहाँलाई कहिल्यै भेटन सकेनौ । हामीहरु उहाँ महोदयप्रति धेरै नै आभारी थियौं । कोही–कोहीले भने कि रेलमार्ग त्यसै जग्गा भएर जाने छ जहाँ हामीलाई स्थापित गरिनेबाला थियो, जसबाट सेयरको मूल्य बढन सक्ने फ्रान्क ब्यारोनलाई चासो थियो रे । तर मलाई विश्वास लाग्दैन । मलाई लाग्छ ऊ राम्रो मान्छे थियो, अरु केही हैन । उहाँले प्रत्येक परिवारलाई जमिन, काठको घर, कृषि औजार र मवेशीहरू दिनुभयो ।

          शब्ताई ज्वी र फिलिस्तिनी नाथन दुबै जना संग सँगै रहन लागे । उनीहरूलाई पनि एउटा घर दिइयो, यद्यपि ब्यारोनको प्रतिनिधिले उनीहरूलाई एउटै छानामुनि सँगै हेर्ने विचार मन परेको थिएन ।

            “हामीलाई परिवार चाहिन्छ ।” उसले चिच्याएर भन्यो, “अपरिचत र अनौठा मान्छेहरु होईन ।”

शब्ताई ज्वीले उसलाई कडके आँखाले हेर्यो । उसको नजरमा यस्तो शक्ति थियो कि हामी स्तब्ध भयौं । ब्यारोनको एजेन्ट पनि काँप्यो, हामीलाई अलविदा भनेर हत्पत बाहिर निस्कयो । 

              हामी पनि काममा लाग्यौं । अति कष्टकर थियो ग्रामीण जीवन ! रुख काटनु पर्ने । खन जोत गरेर रोपाइँ गर्नु पर्ने, हाम्रा हातहरु रगतले लतपतिएका हुन्थे ।

            महिनौंसम्म हामीले शब्ताई ज्वीलाई देखेनौं । उ आफ्नो घरमा स्वैक्षिक कैद भएर एकान्तवास गरिरहेको थियो । फिलिस्तिनी नाथन गाउँमा वरिपरि घुमिरहेका थियो, कपडा र भोजनको लागि सहयोग माँगीरहेको थियो । उसले शब्ताई ज्वी चाँडै नै फर्कने र सम्पूर्ण जनतालाई शुभ समाचार दिने घोषणा गर्यो । “ऊ के गर्दैछ”, हामीले सोध्यौ ।

           “के गर्दै हुनुहुन्छ उहाँले ? उहाँले अध्ययन गर्दै हुनुहुन्छ । उहाँले कबलाह, यहूदी रहस्यवादको उत्कृष्ट कृतिहरुः सृष्टिको पुस्तक (O Livro da Criação), प्रतिभाको पुस्तक (O Livro do Brilho), वैभवको पुस्तक (O Livro do Esplendor) को अध्ययन गरिरहेको हुनुहुन्छ। अनि गुढवाद  (O ocultismo), आत्माको संसरण र अवातारशास्त्र  (A Metempsicose), भूतदानव विद्या (A Demonologia), मन्त्रविद्या (जसले भूतात्मालाई आव्हान गरेर बोलाउन सक्छ र धपाउन पनि सक्छ, यही मन्त्रशक्तिले पानीमा खुट्टा नभिजाएर हिंडन सक्छ विभिन्न ऋद्धि सिद्धि देखाउन सक्छ आदि), अंकविज्ञान ज्योतिषशास्त्र आदि।

            यसै बीचमा चिकु डियावो नामको नामी डाकू ब्यारोन फ्रैंकमा प्रकट भयो । उ आफ्नो ठूलो गीरोहको साथ अवास लार्गस (कुरिचिवा शहर भन्दा थोरै टाँढा) बाट भागेर हाम्रो गाँउको सीमामा आएर लुक्यो र ताण्डव मच्चाउन थाल्यो । हामीलाई लुटेर अय्यासी गर्दथ्यो र हाम्रो सम्पतिको नाश गर्दथ्यो । अट्हास् गर्दै हाम्रो मवेशीलाई कुट्थ्यो र उनका अण्डकोषहरु निकालेर भूटेर खाई दिन्थ्यो । र यदि हामीले अधिकारीहरुलाई यसको शिकायत गर्यौं भने हामीलाई जान मार्ने धम्की दिन्थ्यो । मानौं यो दूर्भाग्य हाम्रो लागि प्रयाप्त थिएन, ओलावृष्टि भएर गहुँबाली सखाप पार्यो र हाम्रा फलका वगान पनि खत्तम पार्यो । र साथै त्यहीँ समयमा शब्ताई ज्वी पनि गाँउमा देखाई पर्यो । हामी झन गहिरो निराशाको तालमा डूब्यौं ।

           उसको रूपमा परिवर्तन भैसकेको थियो । उपवासले उसको बलियो शरीरलाई ध्वस्त पारेको थियो, उसका काँध र पाखुराहरु ढलेका थिए, शिथिल थिए उसको दाह्री, अहिले अनौठो रूपमा सेतो, छातीको आधा तल पुगेको थियो । पवित्रताले उसलाई ढाकेको थियो । उसको आँखामा तेज चमक आई सकेको थियो ।

          उ बिस्तारै मुख्य सडकको अन्त्य सम्म आईपुग्यो । हामीहरु हाम्रा उपकरणहरू राख्यौं, हामी हाम्रा घरबाट निसस्कयौ र उसलाई अनुशरण गर्दै पछि लाग्यौ । माटोको ढिस्कोमा उभिएर, शब्ताई ज्वीले हामीलाई सम्बोधन गर्न थाल्यो ।

        “ईश्वरीय दण्ड तिमीहरु माथि आई परेको छ ।”

        उसले डाकू चिकु डियाबो र असिना तिर संकेत गरिरहेको थियो । हामीले भगवानको क्रोध भोगेका थियौं रे । अनि हामीले हाम्रा पापहरूको प्रायश्चित गर्नु पर्छ रे ।

           उसको कथनानुसार, हामीले सबै कुरा त्याग्नु पर्छ । हाम्रा घरहरू, हाम्रा खेत र बाली, हाम्रा पाठशाला, र हाम्रो सभाघर । यसको बदला हामी आफैंले हाम्रा घरका काठ पात प्रयोग गरेर एउटा जहाज बनाउनेछौं,  हाम्रो प्रार्थनाघरका पर्दाहरुहरूलाई पाल बनाउने छौं । हामी समुद्र पार गर्नेछौं । हामी प्यालेस्टाइन, एरेत्ज इजरायल पुग्नेछौं र त्यहाँ, पवित्र र पुरानो सहर स्फाटमा, हामी एउटा ठूलो भब्य मन्दिर निर्माण गर्नेछौं ।

          “र के हामीले त्यहाँ मसीहको आगमनलाई पर्खनेछौं ?” – काँपिरहेको स्वरमा कसैले सोध्यो ।

— “मसीह आई सक्नुभएको छ !”— फिलिस्तीनी नाथन भीडमा चिच्यायो — “मसीह यहाँ हुनु हुन्छ ! हाम्रो मसीह उहाँ शब्ताई ज्वी हुनुहुन्छ !”

            शब्ताई ज्वीले आफूले बेरेको लुगा खोल्यो । हामीहरु डरले पछि हट्यौं । हामीहरुले दागले ढाकिएको उसको नाङ्गो शरीर देख्यौं । उसको पेटमा, कीलहरुले भरिएको बेल्ट, जसको टुप्पो उसको मासुमा धँसेको थियो । त्यस दिनदेखि हामीले कहिल्यै काम गर्न गएनौं । असिनाले बालीनाली नष्ट भई नै सकेको थियो । चिकु डियाबोले जनावरहरू चोर्ने डर रहेन किनभने हामी जाँदै थियौं । हामीले सहर्ष हाम्रा घरहरू भत्कायौं । महिलाहरूले डुङ्गाको लागि पाल बनाउन कपडा सिलाई कटाई गर्न थाले । केटाकेटीहरूले जङ्गली फलहरू सङ्कलन गरेर संरक्षण गर्न थाले । फिलिस्तिनी नाथनले पैसा जम्मा गरे ताकि उसले पवित्र भूमिमा शासन गर्ने तुर्कीका शक्तिशालीहरूलाई घूस दिन सकोस् ।

             “यी यहूदीहरूलाई के भइरहेको छ?” स्थानीय बासिन्दाहरूलाई खुल्दुली भई रहेको थियो । तिनीहरू यति उत्सुक थिए कि तिनीहरूले पादरी ब्यातिस्तेलालाई अनुसन्धान गर्न आग्रह गरे । पादरी पनि हामीलाई भेट्न आए । उहाँलाई हाम्रो कठिनाइहरू थाहा थियो र हामीलाई मद्दत गर्न इच्छुक हुनुहुन्थ्यो ।

          “हामीलाई यसको आवश्यकता छैन, फादर !”, हामीले पूर्ण निर्दोषता साथ जवाफ दियौं । “हाम्रो मसीह आउनुभएको छ । उहाँले हामीलाई मुक्त गर्नुहुनेछ, उहाँले हामीलाई खुशी पार्नुहुनेछ ।”

         “मसीह?” – पुजारी छक्क परे । — “मसीह पहिले नै पृथ्वीमा आएर गई सक्नु भयो ।

उहाँ हाम्रा प्रभु येशू ख्रीष्ट हुनुहुन्थ्यो, जसले पानीलाई मदीरामा परिणत गर्नुभयो र हाम्रा पापहरूका लागि क्रूसमा मर्नुभयो ।”

         “चुप लाग्नुस्, फादर !”– संता चिच्याईन् –  “शब्ताई ज्वी हाम्रो मसीह हो !”  सन्ता, मोटो लीब रुबिनकी धर्मपुत्री छोरी थिईन् । उनी एउटा नररंहारमा आफ्ना आमाबालाई गुमाएकी थिईन् । उसको मन विचलित थियो । उसले शब्ताई ज्वीलाई जहाँ पनि अनुशरण गरेकी थिईन् । उसलाई विश्वास थियो कि उ चाँहि प्रभु मसीहको अभिषेकको लागि आरक्षित पत्नी हो । र हामीलाई अचम्म पार्दै शब्ताई ज्वीले उसलाई स्वीकार पनि गर्यो । हामीले जुन दिन डुङ्गाको पतवार तैयार पारेर समाप्त गर्यौं त्यसै दिन तिनीहरूको विवाह पनि सम्पन्न भयो ।  जहाँसम्म डुङ्गाको सवाल छ त्यो त एक दम राम्रो बनेको थियो । हाम्रो उद्देश्य त्यसलाई समुद्रमा लानु थियो । बेन्तो गोन्जालेसले डुङ्गा बोकेर तान्न आफ्नो ठूलो बैल गाडा तयार पारेको थियो, जसले समुद्रमा लैजान सकोस् ।

          थोरै दिनको कुरो थियो । यस बीचमा चिकु डियाबो अब हरेक हप्ता देखा पर्न थाल्यो । एक पटक मा दुई वा तीन ठाँउमा डकैती गर्दथ्यो । कतिपयले ती डाँकाको सामना गर्ने कुरा पनि गरे । तर शब्ताई ज्वीले यो विचारलाई अनुमोदन गरेन । “हाम्रो राज्य समुद्र पारी छ । र परमेश्वरले हामीलाई हेर्दै हुनुहुन्छ । उहाँले सब उपलब्ध गराउनुहुनेछ ।”

            न भन्दै केही दिनमा डाकु चिकु डियाबो पनि गायब भयो । दुई हप्तासम्म हामीले शान्तिपूर्वक काम गर्यौं, प्रस्थानको तयारीलाई अन्तिम रूप दियौं । त्यसपछि, एक शनिबार बिहान, एउटा घोडसवार गाउँमा आयो । उ गुमेरचिन्डो थियो, चिकु डियाबोको दायाँ हात ।

          “चिकु डियाबो बिरामी छ !” – उसले घोडाबाट नओर्ली करायो “उहाँ धेरै बिरामी हुनुहुन्छ ।

डाक्टरले सही उपचार गर्न सकेन । चिको डियाबोले मलाई तिमीहरुको वैद्यलाई उहाँलाई निको पार्न ल्याउ भन्नु भएको छ ।”

    हामीहरुले उसलाई चूपचाप भएर घेरेका थियौं ।

 “र यदि ऊ आउन चाहँदैन भने” – गुमेरचिन्डोले भन्न जारी राख्यो – “हामीले पूरै गाउँलाई जलाउनु पर्छ । के तिमीहरुले सुन्दैछौ ?”

 “म जानेछु ”– ठूलो आवाज करायो ।

त्यो शब्ताई ज्वी थियो । हामीले उसको लागि बाटो बनायौं । ऊ बिस्तारै नजिक पुग्यो, डाकुलाई हेर्दै भन्यो ।

“झर !”

गुमेरचिन्डोले आफ्नो घोडाबाट ओल्र्यो । शब्ताई ज्वी घोडामा चढ्यो ।

“अगाडि जानुहोस्, दौड ।”

          ती तीन जना मध्येः पहिलो गुमेर्सिन्डो चाँहि दौड्दै, शब्ताई ज्वी घोडामा र फिलिस्तिनी नाथन चाँही गधामा सवार थिए । सन्ता पनि जान चाहन्थिन तर लीब रुबिनले उसलाई जान दिएन ।

         हामी दिनभर स्कूलमा सँगै बस्यौँ । हामीले केही बोलेनौं, चूप थियांै, हाम्रो पीडा धेरै ठूलो थियो । जब रात पर्यो हामीले घोडाको टापको आवाज सुन्यौं । हामी ढोकातिर दौड्यौं । त्यो फिलिस्तिनी नाथन थियो, उसको साँस फुलेको ।

         उसले साँस सम्हाल्दै भन्न थाल्यो, “हामीले चिकु डियाबोलाई भुइँमा लडिरहेको भेट्टायौं । उसको छेउमा, एक जना धामी झाँक्रीले झार फूक गदै थियो । हाम्रो मसीह शब्ताई ज्वी डाकूको छेउमा बस्नु भयो । उहाँले केही पनि भन्नु भएन, केही गर्नु भएन, डाँकालाई छुनु पनि भएन । मात्र त्यसलाई नियालेर बसी राख्नु भयो । अनि चिकु डियाबोले आफ्नो टाउको उठायो, हाम्रो मसीहलाई हेर्यो, चिच्यायो र मर्यो । डाँकाहरूले त्यहीँ त्यो झाँक्रीलाई मारे । मलाई मसीह शब्ताई ज्वी को बारे मा केहीं थाहा छैन । म भाग्दै यहाँ तिमीहरुलाई चेतावनी दिन आएको हुँ । भाग, यहाँबाट भागी हाल ।”

        हामीहरु पनि गाडीमा चढयौं र इरेक्सिमतिर भाग्यौं । सन्तालाई बलपूर्वक लानु परेको थियो । भोलिपल्ट लीब रुबिनले हामीलाई भेला गर्यो ।

        “मलाई थाहा छैन तपाईंहरुले के गर्न सोच्दै हुनुहुन्छ”, उसले भन्यो – “तर म यी सबै ब्यारोन फ्रान्क, प्यालेस्टाइन, स्फाटका कथाहरूबाट थाकी सकेको छु । म पोर्तो अलेग्रे जाँदैछु । के तपाईहरु मसँग जान चाहनुहुन्छ ?”

   “अनि शब्ताई ज्वी?”, फिलिस्तिनी नाथनले काँपिरहेको स्वरमा सोध्यो (शायद पश्चातापको भावना थियो) ।

“ऊ नर्कमा जान सक्छ, त्यो पागल! ” — लीब रुबिनले चिच्यायो । – “उसले दुर्भाग्य मात्र ल्यायो ।”

“यस्तो कुरा नगर्नु बाबा !” – सन्ता पनि चिच्याईन — “उहाँ मसीह हुनुहुन्छ ।”

          “के मसीह, केहि छैन यहाँ ! यो कथा बन्द गर । यसले अझै पनि विरोधीहरूलाई उत्तेजित गर्नेछ । पादरीले भनेको कुरा सुनेनौ ? मसीह पहिले नै आई सक्नु भएको छ, ठीक छ ? उहाँले पानीलाई रक्सी र अन्य चीजहरूमा परिणत गर्नुभयो । अब चूप । हामी जाँदैछौं । तिम्रो श्रीमान् यदि अझै जीवित छ भने र यदि उसको टाउको सलामत छ भने, उसले हामीलाई खोज्दै आउनेछ । तिम्रो हेरचाह गर्ने दायित्व मेरो हो र म तिम्रो हेरचाह गर्नेछु, तिम्रो पतिको साथ वा बिना !”

       हामी पोर्तो एलेग्रेको यात्रा गर्यौं । त्यहाँका दयालु यहूदीहरूले हामीलाई शरण दिए । र नभन्दै हामीलाई चकित पार्दै, शब्ताई ज्वी पनि केही दिन पछि देखा पर्यो । उसलाई अबास लार्गासबाट ल्याइएको थियो, चिकु डियाबोको सम्पूर्ण गिरोहलाई गिरफ्तार गरिएको थियो ।

              एउटा सिपाहीले हामीलाई भन्यो कि उनीहरूले शब्ताई ज्वीलाई चट्टानमा बसेर चिकु डियाबोको शवलाई हेर्दै भेटेका थिए । “रक्सी खाएर मातेका डाँकुहरू जमिनभरी छरपष्ट थिए, घुर्दै थिए ।  जताततै मारिएका गाईवस्तु थिए र रक्सी । मैले यति धेरै रक्सी कहिल्यै देखेको थिईन । पहिले पानी भर्ने सबै भाँडोहरुमा अब रक्सी भरेको थियो ! बोतलहरू, जर्किनहरू, बाल्टिनहरू, बेसिनहरू, ब्यारेलहरू सबैमा । नजिकैको पोखरीको पानी रातो थियो । मलाई थाहा छैन त्यो गाईवस्तुको रगत थियो कि रक्सी थियो । तर मलाई लाग्छ त्यो रक्सी नै थियो ।”

            एक जना धनी आफन्तको सहयोगमा, लीब रुबिनले आफ्नो कपडाको पसल स्थापना गर्यो । त्यसपछि उनी रियल इस्टेटमा लाग्यो र पछि ठूलो सम्पत्ति जम्मा गर्दै फाइनान्स कम्पनी पनि  खोल्यो । शब्ताई ज्वी उनको एउटा फर्ममा काम गर्न थाल्यो जहाँ म पनि जागिरे भएँ । फिलिस्तिनी नाथन तस्करीमा संलग्न भयो, भाग्नुपर्याे र फेरि कहिल्यै देखिएन ।

          सन्ताको मृत्यु पछि, शब्ताई ज्वी र म अक्सर वारमा रक्सी पिउन भेट्छौं । अनि हामी रातभर त्यही बस्छौं । उ थोरै बोल्छ र म पनि कुरा गर्दिन । उसले रक्सी खन्याँउछ र हामी चुपचाप पिउछौं । मध्यरातमा उसले आँखा बन्द गर्छ, हातले गिलास समाती राख्छ र हिब्रू (वा अरमाइक, वा लाडिनो भाषा) का शब्दहरू गुनगुनाउँछ । रक्सी पानीमा परिणत हुन्छ । वार मालिकले यो केवल एक चाल हो भन्ने सोंच्दछ । जहाँसम्म मेरो कुरो छ, म मेरो सशँकित भावले मात्र हेर्छु ।

समाप्त

Viva em Qualquer Situação (Poema)

-Ranjan Lekhy
Saj, Bahia, Brasil
22 de agosto de 2025

Aconteça o que acontecer,
Viva — em qualquer situação.

Não morra antes da morte chegar.
Não desista antes do fôlego acabar.
Não perca pra si mesmo, não se traia.
Não mate o respeito próprio em vida.
Enquanto ainda respira — não caia.

Sem vício que te prenda a ilusão.
Sem dar morada à desesperação.
Não dependa de alguém pra te erguer.
Não solte a fé no que pode fazer.
Você — viva.
Você — viva.
Em qualquer situação — viva.

No coração ferido, rasgado em dor,
Passe em si mesmo o próprio curador.
Dos pensamentos quebrados, da visão escura,
Rasgue a tinta negra da noite dura.
Você carrega sementes de despertar —
Regue com luz que vem do seu olhar.
Reconheça direção, reconheça o chão.
Tempestades vêm e vão — é condição.
Mesmo com a água alta, continue a remar.
Em qualquer situação — saiba flutuar.
Em qualquer situação — viva.

Com você mesmo.
Com cada respiração.
Passo por passo.
Até o último chão.

Você — viva.
Você — viva.
Em qualquer situação — viva.

Você — viva.
Leia, escreva, estude sem cessar.
Pense o novo. Ouse criar.
Novo ofício, novo saber.
Veja sonhos novos nascer.
Pratique conforme o que sonhar.
Crie o novo.
Depois — deixe ir, deixe passar.

Teste outra vez.
Falhe outra vez.
Caminhe outra vez.
Se vier insulto — suporte.
Se vier perda — suporte.
Se vier dor, luto, ruína — suporte.
Mas procure outra estrada, outro lugar.
Crave sua estaca em solo por explorar.
Erga abrigo mais uma vez.

Mas acima de tudo —
Você — viva.
Em qualquer situação — viva.

Você — viva.
Vivo por fora. Vivo por dentro.
Nesse mundo barulhento e violento,
Escolha suas cores preferidas.
Preencha-se livre, sem medida.
Sem vergonha. Com coragem.

Preencha-se de calma.
Preencha-se de paz.
Encha seus sonhos de esperança eficaz.
Seja feliz. Permaneça vivo.
Preencha-se de compaixão e gozo compartilhado.
De amizade, equilíbrio, verdade enraizada.
De empatia e ética afinada.

Faça de cada fôlego um vaso sagrado.
A vida é remédio — inteiro, integrado.
Viva bem. Viva em fluidez.
Viva inteiro, contínuo outra vez.
Deixe o amor correr — simples, sem nó.
Um néctar eterno, livre, só.

Viva — em qualquer situação.

(Traduzido da composição Tharu)

As sementes de mostarda (Conto)

(A História de Kisa Gotami)

– Ranjan Lekhy 
SAJ, Bahia, Brasil 
16 de novembro de 2025 

 

Setecentos anos antes de Jesus Cristo, na antiga Índia, em uma favela da capital Shravasti, no Reino de Kosala, vivia uma família muito pobre. Apesar do trabalho esmagador do pai todos os dias, nunca conheciam uma alimentação equilibrada ou nutritiva. Nesse ambiente sufocado por preocupações e dificuldades nasceu uma menina. Deram-lhe o nome de Gotami. Com o passar dos anos, seu rosto continuou belíssimo, mas a desnutrição e o trabalho incessante reduziram seu corpo a pouco mais que um esqueleto coberto de pele. Era inocente, disciplinada e incansável. No mesmo bairro viviam várias outras meninas também chamadas Gotami, todas rechonchudas e graciosas. Para diferenciá-la, os vizinhos começaram a chamá-la de “Kisa Gotami” – Gotami Magrinha.

O tempo girou sua roda. Dizem que após toda noite escura, o amanhecer há de chegar. Um dia o destino, por um breve instante, mostrou piedade. Para guiá-la à felicidade, entregou-lhe o fio frágil que chamamos casamento. Aos dezoito anos casou-se com uma casa rica. No início parecia um paraíso: sogros bondosos, marido amoroso, cunhados carinhosos. Mas a ilusão rachou e desmoronou em poucos anos. Quando, apesar do tempo passar, nenhum filho veio, a língua da sogra afiou-se e o olhar do sogro esfriou. Os membros mais jovens da família passaram a tratá-la com desprezo aberto. Era tolerada apenas como esposa cumpridora. Em casa tornou-se menos que uma criada – acordada antes do amanhecer, só podia dormir depois da meia-noite.

Então, um dia, um milagre. Contra toda esperança, engravidou. Um dia deu à luz um menino perfeito, de termo completo, de membros dourados e sem defeito. Da noite para o dia a casa mudou. Os sorrisos voltaram, mãos se estendiam para ajudar, palavras doces enchiam novamente o ar. Ela viu a verdade amarga: não havia sido acolhida como ser humano, apenas como uma máquina – ou para gerar filhos ou para trabalhar dia e noite sem amor, carinho ou descanso.

Mas aquela criança era dela, um pedaço do seu próprio coração. Tornou-se a sombra fresca de uma figueira-da-índia imortal que lhe dava paz, alegria e segurança. Derramou nele tudo: cada momento de dor, cada gota de leite arrancada da fome, cada canção de ninar tirada de um coração exausto. Observava maravilhada enquanto ele descobria o mundo com olhos arregalados, enquanto seus bracinhos se moviam, enquanto dava os primeiros passos cambaleantes, ria sem medo, chorava quando tinha fome ou estava molhado. Ao ver o filho nascido do seu ventre, todos os longos anos de fome, humilhação e nojo da vida dissolveram-se como cânfora no ar. Agora tinha o sol da esperança, a lua que cantava canções de ninar, os olhos pelos quais via o mundo inteiro. Numa palavra, estava completamente feliz.

Então, num dia de festa, a desgraça caiu. Um mau-olhado atingiu sua alegria. Um raio de dor desabou. No mês frio de Aghan, seu filho de três anos pegou febre, tossiu sem parar, lutou para respirar. A pobre Gotami tentou todos os remédios caseiros. No terceiro dia a tosse parou. A criança ficou babando, inconsciente. Ela o pegou no colo e correu para o pátio gritando: “Acorda, meu principezinho, meu amor! Por que dormes tanto?” Sacudiu-o suavemente, esfregou calor nas bochechas frias, rezou desesperada ao deus da família. Mas os olhos dele permaneceram fechados para sempre. Para ela parecia apenas um sono profundo. Seu mundo desabou, mas coração e mente se recusavam a aceitar.

Os vizinhos se reuniram com o alvoroço. Ela implorou aos parentes: “Chamem um xamã, qualquer exorcista! Algum mantra, algum ritual – qualquer coisa para acordar meu filho!” Um ancião verificou o pulso, colocou o dedo sob o narizinho. Nada. Seu próprio coração se partiu. Com voz embargada de tristeza disse: “Minha querida, o menino se foi. A roda da vida dele parou para sempre.” Com essas palavras o coração dela disparou, a mente ficou dormente. A loucura a envolveu como um sudário. “Ninguém vai me ajudar! Eu mesma vou encontrar um curandeiro. Meu filho vai ficar bem!” Apertando o corpinho sem vida contra o peito, fugiu.

Correu pelas ruelas tortuosas – uma sombra negra de desespero. Em cada porta batia, suplicando com voz que rasgava o coração: “Me deem remédio, qualquer remédio para acordar meu filho deste sono profundo!” As pessoas viam o cadáver em seus braços e os olhos queimando de esperança impossível; seus corações se derretiam. Alguém a mandou a um curandeiro famoso em outra rua; ela foi a todos os nomes mencionados, mas todos se revelaram inúteis. Rituais sem fim, orações sem fim – a criança não se mexia. Os mortos só ressuscitam nas histórias e mitologias, nunca realmente na vida. Uma alma bondosa sussurrou: “Aceite a verdade da morte, filha querida. Volte a si.” Outros, assustados com sua loucura, batiam portas e janelas. Homens cruéis brandiam varas, atiravam pedras, gritavam: “Fora, louca! Leve sua maldição embora!” Mas ela seguia correndo, pés descalços sangrando, sari rasgado, ornamentos quebrados, ainda pedindo ajuda. Acreditava que na próxima esquina certamente havia alguém que poderia acordar seu filho e devolver-lhe a vida.

Fome, sede e cansaço a esmagavam, mas a esperança queimava mais forte e feroz que tudo. Por fim chegou à casa de um velho cujo rosto trazia a calma de séculos. Ao ver a criança sem vida, o corpo quebrado da mãe, os olhos afogados em lágrimas, seu coração se derreteu. Pensou: “Nenhum remédio terreno pode reanimar este menino, mas o grande médico, o Tathāgata Buda, ainda pode acalmar o tormento desta mente perturbada.” Com voz suave de amor disse: “Nobre senhora, refugie-se no Buda, o supremo curador. O remédio que você procura está com ele.”

Ao ouvir o nome do Buda, um lampejo de memória iluminou sua mente. Há muito tempo ela havia vislumbrado de longe o brilho sereno do Senhor; já naquela época seu coração transbordara de fé. Nova força correu por seus membros. O mosteiro não ficava longe. Apertando o filho morto, correu em direção ao Mūlagandhakuti Vihāra.

O Senhor Buda estava sentado num divã, rodeado pela comunidade de monges. Milhares de fiéis leigos estavam ouvindo em silêncio absoluto seu sublime discurso. No instante em que Kisa Gotami chegou, prostrou-se aos pés dele, juntou as mãos, controlou a respiração ofegante e, com voz trêmula, implorou: “Senhor Buda! Dê-me o remédio que possa acordar meu querido deste sono profundo.”

O Tathāgata viu imediatamente a loucura em sua mente. Compaixão infinita brotou nele. Com voz suave disse: “Claro, filha. Tenho remédio para você. Mas para que funcione, você precisa me trazer um único punhado de sementes de mostarda pedidas como esmola na cidade.”

“Sim, Senhor!” Antes mesmo que ele terminasse, ela gritou, transbordando de alegria e esperança: “Eu trarei agora mesmo!” e levantou-se de um salto. Sementes de mostarda eram o tempero mais barato; certamente todas as casas tinham.

Mas o Buda ainda não havia terminado. “Há uma condição, filha. As sementes devem vir de uma casa na qual ninguém jamais tenha morrido.”

Kisa Gotami ainda não compreendeu o significado. Aceitando a ordem, saiu abraçando o cadáver do filho morto!

Na primeira casa bateu confiante, explicou que com aquelas sementes o Senhor Buda ressuscitaria seu filho. Os moradores, comovidos com sua situação, disseram generosamente: “Se sementes de mostarda podem trazê-lo de volta, leve não um punhado, mas um saco inteiro!” e encheram um saco para ela. Quando se virou para ir embora, lembrou-se da segunda condição do Buda. Perguntou: “Esqueci uma coisa – alguém já morreu nesta casa?”

“Sim, querida”, veio a resposta. “Há poucos meses meu pai faleceu; seus últimos ritos mal foram concluídos.” Seu rosto desabou. Devolveu as sementes: “Então seu presente não pode me ajudar. Preciso de sementes de uma casa que a morte nunca tenha tocado.”

Pensou: “Azar na primeira casa. A próxima certamente terá.”

A mesma cena se repetiu. Casa após casa tinha sementes em abundância, mas em todas as famílias alguém havia morrido – pai, mãe, filho, filha, avô, avó, tio, tia, irmão, irmã, servo, patroa. Depois de um tempo ela nem pedia mais as sementes; simplesmente batia e perguntava: “A morte já visitou esta casa?” Os moradores, assustados ao verem seu estado de loucura, respondiam rápido por piedade. Gotami seguia adiante.

A noite caiu. Ela havia batido em centenas de portas. Finalmente a compreensão atravessou sua mente: não existe no mundo uma casa que a morte não tenha tocado. Começou a aceitar que não era a única a perder um filho, que essa dor não era única nem injusta. O destino não a havia amaldiçoado só a ela. A morte do filho não significava que o universo tivesse se tornado cruel. Era simplesmente o curso natural das coisas – como uma lamparina a óleo que se apaga silenciosamente quando o óleo acaba, a morte vem sem ser chamada e leva o que é seu. Depois de percorrer a cidade e ouvir a dor de centenas de famílias, viu claramente: a morte prematura é comum. Ela era apenas uma entre incontáveis pais que perderam um filho cedo demais. Agora também ela precisava fazer o que os pais fazem – levar o corpo ao local de cremação e realizar os últimos ritos com amor.

Ainda dilacerada pela dor de mãe, mas liberta do peso da ignorância e do apego, Kisa Gotami aceitou a verdade no fundo do coração. Com amor terno levou o filho em sua última jornada e o cremou.

Então, com a mente angustiada acalmada, voltou ao Mūlagandhakuti Vihāra. Ao chegar diante do Abençoado, prostrou-se com plena reverência, recompôs-se e sentou-se em atenção plena. Pela postura dela o Buda soube que uma transformação profunda havia ocorrido, mas com um sorriso afetuoso perguntou: “Filha, você trouxe as sementes de mostarda?”

“Não, Senhor”, respondeu ela. “Sementes de mostarda havia em toda parte, e todos estavam prontos a dar, mas não encontrei uma única casa onde a morte nunca tivesse entrado.”

O Tathāgata sorriu suavemente. “Quando eu disse que tinha remédio para você, talvez tenha pensado que eu ressuscitaria seu filho. Mas a verdade é que o remédio nunca foi para ele – foi para você. Vejo que já começou a fazer efeito.”

Gotami curvou a cabeça em gratidão. “Sim, Senhor. Agora estou livre da ignorância e do desejo. Agora vejo claramente: ninguém escapa da velhice, da doença e da morte. Esta é a verdade inescapável para todo ser vivo.”

O Senhor Buda disse: “Muito bem, filha. Você realizou diretamente a Primeira Nobre Verdade: o nascimento é sofrimento, a velhice é sofrimento, a doença é sofrimento, a morte é sofrimento; a união com o desagradável é sofrimento, a separação do amado é sofrimento, não conseguir o que se deseja é sofrimento; em resumo, os cinco agregados sujeitos ao apego são sofrimento.”

Então Gotami disse: “Venerável Senhor, nasci numa família pobre e nada tive. Fui doente por desnutrição. Casei-me numa família egoísta e sem amor, e naquele ambiente tóxico tive que viver uma vida cheia de miséria e frustração. Quando nasceu meu filho amado, pensei que finalmente havia encontrado apoio para minha vida. Mas quando ele morreu, enlouqueci com a dor insuportável da perda. Porém, pela compaixão do Senhor, agora ganhei o olho da sabedoria. Já não sofro mais no delírio da dor; ao contrário, reflito e analiso com clareza.”

O Abençoado elogiou-a: “Excelente, filha. Agora aprenda as três Nobres Verdades restantes.”

Ao ouvir isso, Gotami pediu a ordenação e tornou-se bhikkhuni (uma freira). Anos depois, numa noite em sua cabana, contemplou a chama de uma pequena lamparina – tão frágil que a menor brisa poderia apagá-la. Naquele instante realizou profundamente a natureza fugaz da vida e atingiu o estado de arahant. Sua mente fundiu-se à mente do Senhor. O Buda soube que Kisa Gotami havia alcançado o Imortal. No salão da assembleia, para acender a diligência na Sangha meditante, anunciou a notícia alegre e recitou este verso:

Ainda que alguém vivesse cem anos
sem ver o estado a liberdade,
melhor é um único dia de vida
para quem vê o a liberdade.

Ainda hoje Kisa Gotami é honrada como uma das principais entre as grandes discípulas mulheres do Buda. Ela não apenas continuou a linhagem das bhikkhunis, mas, ao alcançar o fruto supremo do ensinamento, tornou-se uma fonte inesgotável de inspiração.

Após toda noite escura, o amanhecer chega mesmo. 

 

Fim

Sutta dos Kalamas: O Caminho da Investigação (Poema)

- Ranjan Lekhy
Santo Antônio de Jesus, Bahia, Brasil
May 5th 2024

 

Em nosso Kesaputta,
missionários e filósofos,
Brahmanes e Shramanas
vêm pregar e habitar
mas eles trazem
menos fatos, mais surrealidade.
Cada um proclama
sua doutrina a ser defendida,
enquanto a dos outros
desprezam e reprovam.
 

Ó Buda, sábio e gentil!
Por favor, guia-nos
com tua mente desperta.
Neste labirinto de visões conflitantes,
Mostra-nos o caminho
que devemos escolher.
Perplexos e perdidos,
pedimos a ti,
quem fala falsidades
e quem fala a verdade?
Guia-nos por
esta complicada encruzilhada,
ajuda-nos a encontrar 'o caminho da luz'.
 

Assim, o Tathagata
Buda falou aos Kalamas:
Não acreditem em rumores
que se espalham como fogo
na floresta.
Pois a verdade nem sempre é encontrada
nas palavras que confiamos,
mas sim nas perguntas
de quem, o quê, por quê, onde,
qual e como são justas.
Pergunte, sem medo,
nunca tenha medo!
 

Não acreditem em tradições
que são velhas e desgastadas,
só porque estão aqui
antes de vocês nascerem.
Tudo é transitório,
não se apeguem pessoalmente, vejam
para não se prenderem ao dogma,
cegos por decretos.
Façam as perguntas apropriadas.
Boa pergunta traz boa resposta,
assim não precisamos temer,
nunca temer!
 

Nossos anciãos podem falar
com vozes antigas e sábias,
mas seus ensinamentos às vezes
não satisfazem.
Nova era e novas situações,
daí surgem novos problemas.
Precisamos de soluções modernas.
Nova ciência,
novas tecnologias
e ao abraçar o progresso, prosperamos.
 

Não acreditem nas palavras
dos gurus só porque são faladas
com convicção e certeza.
E não se deixem hipnotizar
por seus milagres e magia
nem serem influenciados
por sua personalidade e popularidade,
nem por retórica vazia e enrolação.
Olhem além da superfície,
sem orgulho ou preconceito,
busquem a verdade além do axioma.
 

Em todos os textos sagrados,
encontramos palavras tão divinas,
mas simplesmente acreditar
sem razão, recuso.
Pois o conhecimento deve ser buscado,
alegações extraordinárias
precisam de evidências extraordinárias,
para que não caiamos na armadilha
 de uma mente dogmática.
Dhamma significa despertar
não iludir a mente.
 

Raciocínio lógico,
pensamento crítico, ferramenta poderosa.
Mas ao confiar exclusivamente nele,
não sejamos tolos.
Má lógica ou falácias lógicas
matam o espírito das descobertas!
Proposição falsa
leva a uma conclusão falsa.
Quatro limites da lógica:
Verdades parciais, Linguagem,
Incerteza e Percepção.
 

Em resumo,
não acreditem em nada
de novo ou antigo
Nem todo o brilho
é ouro verdadeiro.
Encontrem evidências e provas,
experimentem e testem
com cuidado em torno.
O conhecimento empírico é poderoso,
quando é livre de erro e claro.
Adotem-no e promovam-no
se servir ao bem-estar.

FIM

Traduzido do inglês, originalmente publicado aqui: https://english.sahityapost.com/kalama-sutta-the-path-of-inquiry/

Manteiga Ghee e Pedrinhas (Conto)

—Ranjan Lekhy
Saj, Bahia, Brasil 
Quinta-feira, 12 de junho de 2025

Um dia, um jovem, chorando amargamente, veio buscar refúgio com Gautama Buda. Lágrimas escorriam de seus olhos, e ele soluçava incontrolavelmente, o rosto refletindo profunda tristeza, desamparo e desespero. O Senhor Buda olhou para ele com compaixão e perguntou em voz calma: “O que aconteceu, filho? Por que você está tão aflito?”

O jovem, com voz trêmula, respondeu: “Ó desperto, ontem meu venerado pai faleceu.” Sua voz estava cheia de dor. Soluçando, continuou: “É por isso que meu coração está profundamente angustiado. Eu o amava muito. Sua partida é a maior perda da minha vida. Agora me sinto destruído.”

O Senhor Buda, tentando acalmar sua mente, disse: “Querido filho, o que aconteceu faz parte do ciclo natural da vida. Todo ser que nasce deve enfrentar a morte. Seu choro não pode trazer seu pai de volta. Nem mesmo deuses e deusas têm o poder de deter a morte.”

O jovem assentiu. “Sim, Senhor, eu sei que a morte é inevitável. Mas vim com um humilde pedido.”

“Qual é o seu pedido, filho?”, perguntou Buda gentilmente.

“Ó Senhor, por favor, faça algo pela libertação da alma do meu pai. O Senhor possui poderes maravilhosos. Quando outros brâmanes, sadhus, sacerdotes, monges e sábios realizam rituais, as pessoas dizem que a alma do falecido atinge a libertação ou chega ao céu. Eu sei que o Senhor é muito mais poderoso do que todos eles. Se o Senhor fizer algo pelo meu pai, ele não vai ganhar apenas um visto de entrada para o céu — vai ganhar um green card para residência permanente! Por favor, encontre uma maneira para ele.”

A mente do jovem estava tão perturbada que ele não estava em condições de ouvir ou entender raciocínios lógicos. Seus pensamentos ainda estavam enredados em crenças populares e tradições supersticiosas. Buda viu que um ensinamento direto não funcionaria naquele momento. Ele decidiu usar um experimento simbólico para ajudar o jovem a perceber a verdade.

Consolando-o externamente, Buda disse: “Filho, eu entendo o seu apelo. Venha, vamos realizar um ritual. Vá ao mercado e compre dois vasos de barro e um pedaço de tecido musseline vermelho.”

O rosto do jovem se iluminou de alegria. Ele pensou que o Senhor estava prestes a realizar algum ritual divino para facilitar a jornada do pai no além. Ele correu até o Mangal Hatiya (Mercado), comprou dois belos vasos de barro pretos (pequenos) do oleiro e um tecido musseline vermelho, e então voltou. A notícia se espalhou pela vila de que o Senhor Buda estava conduzindo uma grande cerimônia fúnebre. Logo, todos se reuniram na casa do jovem.

No devido tempo, o Senhor Buda chegou com cinco discípulos. Os aldeões prestaram homenagem à Sangha e sentaram-se em silêncio, observando com curiosidade.

Buda então disse ao jovem: “Encha um vaso com um quilo de ghee.”

O jovem assim o fez.

“Agora encha o outro vaso com dez ou quinze pedrinhas pequenas.”

Sem questionar, o jovem fez isso também.

“Agora sele bem os dois vasos de barro pela parte de cima e amarre-os com o tecido vermelho para que as bocas fiquem completamente fechadas.”

Cuidadosamente, o jovem selou e amarrou os dois vasos conforme instruído.

“Faça duas placas com folhas limpas e coloque nelas arroz inteiro, folha de betel, noz de areca, folhas de tulsi, uma lâmpada de ghee e incenso para adoração.”

“Um bastão de bambu para cajado.”

O cajado foi rapidamente preparado conforme ordenado.

“Agora vamos ao lago para o ritual.”

O jovem, vestido com um dhoti limpo e pano superior, segurava o cajado de bambu verde na mão. Um a um, as pessoas carregaram os dois potes em uma corrente em direção ao lago da vila. O Senhor Buda e a comunidade monástica seguiam atrás. As mulheres da casa, chorando, carregavam os materiais de adoração. Uma multidão de aldeões se reuniu na margem do lago.

O Senhor Buda disse ao jovem: “Agora fique com a água na cintura e coloque os dois vasos e os materiais de adoração ali para o ritual.”

O jovem entrou na água, colocou os dois vasos e as placas de folhas com os materiais. Todos os itens flutuaram como esperado. De frente para o leste, ele realizou a adoração de coração. Todos sentaram-se em silêncio na margem.

Após a adoração, Buda disse: “Agora pegue o cajado de bambu.”

Todos estavam curiosos sobre o próximo passo.

“Agora quebre os dois vasos, um de cada vez, com o cajado.”

O jovem golpeou com força, e os dois vasos de barro se despedaçaram. O ghee de um vaso se espalhou e flutuou na água, enquanto as pedrinhas do outro vaso tilintaram e afundaram no fundo.

Buda sorriu e disse: “Filho, agora vamos todos juntos orar com corações puros — ‘Ó pedras, subam! Ó ghee, desçam!’”

O jovem ficou atônito. Após um momento de silêncio, ele disse: “Senhor, isso é impossível. As pedras são mais pesadas que a água, por isso afundam. O ghee é leve e escorregadio, por isso flutua na superfície. Essa é a lei da natureza. Nenhum mantra ou oração pode mudar essa lei.”

Buda sorriu, olhou para ele e disse: “Filho, assim como há leis da natureza física — que objetos pesados afundam e objetos leves flutuam —, também há leis da vida. A virtude é leve, o pecado é pesado; a felicidade é leve, a tristeza é pesada. O que uma pessoa faz determina se ela sobe ou desce, na vida e após a morte.”

“Se seu pai cumprisse seus deveres em vida, servisse aos outros e trilhasse o caminho da verdade, da compaixão e da bondade, suas ações virtuosas seriam leves como ghee. Ele ascenderia, alcançaria um bom renascimento e nada poderia derrubá-lo. Mas se sua vida tivesse sido gasta em egoísmo, ódio, ganância e violência, ele afundaria como uma pedra. Nenhum deus, deusa, ritual ou cerimônia poderia elevá-lo ou conceder-lhe a libertação. ”

Ao ouvir as palavras de Buda, todos reunidos na margem do lago caíram em profunda reflexão. O jovem ficou em silêncio, atordoado com esse choque intelectual. Logo, uma faísca de compreensão começou a brilhar dentro dele. Ele agora percebia que boas ações são muito mais importantes do que qualquer ritual externo.

Buda olhou para ele com terna compaixão. “Filho, libere sua preocupação pela alma do seu pai. Se o karma dele foi saudável, ele alcançou seu destino merecido. Se não, seu dever agora é viver de tal maneira que, quando chegar a sua hora, você também suba. Ações feitas pelos mortos não geram mérito. No entanto, realizar boas ações em nome do seu pai — isso é a verdadeira homenagem.”

Uma nova luz brilhou nos olhos do jovem. Ele caiu aos pés de Buda com os aldeões e disse: “Ó desperto! Hoje, com a luz da sua sabedoria, o Senhor dissipou as trevas da nossa ignorância. Agora entendemos que, para mudar a direção da vida, devemos mudar nossas ações. Nós nos esforçaremos para tornar nossas vidas leves como o ghee, não pesadas como pedrinhas.”

Buda, com uma voz cheia de tranquilidade e compaixão, disse: “Filho, esta é a verdade, este é o Dharma, este é o caminho para a libertação.”

Uma criança na margem perguntou: “Senhor, o Senhor falou de boas ações. Quais são elas?” Buda respondeu: “Observar a conduta moral, praticar a meditação e desenvolver a sabedoria são boas ações.” Ele então explicou o Nobre Caminho Óctuplo em linguagem simples:  
·      Moralidade: Fala Correta, Ação Correta, Meio de Vida Correto  
·      Meditação: Esforço Correto, Atenção Plena Correta, Concentração Correta  
·      Sabedoria: Visão Correta, Intenção Correta  

Todos entoaram “Sadhu, sadhu, sadhu” em gratidão ao Senhor. Começaram os preparativos para oferecer comida à comunidade monástica.

(Fim)

Melhor Morrer Lutando (Conto)


(Esforço sobre a Inatividade)

– Ranjan Lekhy
Santo Antônio de Jesus, Bahia, Brasil
7 de setembro de 2025

Em um tempo distante, o Bodhisattva nasceu como uma humilde codorna, habitando uma floresta exuberante. Em um dia fatídico, um fogo feroz rugiu através das árvores, mergulhando a selva no caos. Criaturas de todos os tipos fugiram aterrorizadas, seus gritos ecoando através da copa das árvores. Se o incêndio não fosse contido, ele consumiria tudo, sem deixar alma ilesa.

Sem se deixar abalar, a pequena codorna entrou em ação. Com determinação inabalável, ela voou até um lago próximo, mergulhou suas delicadas asas na água e voltou ao incêndio. Pairando sobre as chamas, ela balançou as asas, espalhando gotas de água, cada gota estalando contra o fogo. Repetidamente, a codorna retornava ao lago, seu pequeno corpo incansável em sua missão de apagar as chamas.

Das alturas celestiais de Brahmaloka, o Senhor Brahma observava esse esforço valente. Assumindo a forma de um corvo, ele desceu e se empoleirou perto da codorna, sua voz cheia de escárnio. “Pássaro tolo, o que suas gotas insignificantes podem fazer? O fogo vai te consumir, como o destino determina.”

A codorna, destemida, fixou o olhar no corvo. “O destino pode ser implacável, mas a inatividade não é uma virtude. Prefiro perecer lutando do que ficar parado observando. Meus esforços me colocarão entre aqueles que lutaram, não entre os que apenas assistiram.” Com isso, ela subiu novamente em direção ao lago, resoluta.

Cega pela fumaça em uma de suas viagens perigosas, a codorna vacilou e caiu no chão. Um elefante, tocado por sua coragem, gentilmente levantou a pequena ave com sua tromba e a colocou em segurança. Inspirado, o elefante reuniu seu rebanho e, cada animal, começou a pegar água do lago e jogar nas chamas com poderosos jatos de suas trombas.

A floresta entrou em ação. Rinocerontes avançaram, chutando a terra para sufocar o fogo. Pássaros molharam suas asas, lançando água sobre as chamas. Até o cético corvo, envergonhado pela determinação coletiva, se juntou, carregando gotas em seu bico. Unidos, os animais lutaram como um só, e seus esforços combinados abafaram o incêndio.

No final, sua perseverança triunfou. O fogo foi extinto e, embora a floresta tenha ficado marcada, ela permaneceu resiliente. O lar dos animais foi salvo, como um testemunho do poder do esforço coletivo sobre a desesperança passiva.

(Fim)

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