Viste o Cavalo Varado a Uma Varanda?
Viste o cavalo varado a uma varanda?
Era verde, azul e negro e sobretudo negro.
Sem assombro, vivo da cor, arco-íris quase.
E o aroma do estábulo penetrando a noite.
Doutra margem ascendia outro astro
como uma lua nua ou como um sol suave
e o cavalo varado abria a noite inteira
ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.
Uma língua de sabor para ficar na sombra
de todo um verão feliz e de uma sombra de água.
Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste
o tambor do silêncio marcar a tua força
e tudo em ti jazia na noite do cavalo.
Ó Boca Ferida, Inconsolável Boca
Ó boca ferida, inconsolável boca
que entre o silêncio e o grito só conhece o gemido.
Daqui não se levanta o cavalo prostrado.
É aqui que se dorme o sono de uma pedra.
Eis o flagelo do silêncio, a negrura do sono.
Como desperta a pedra, como rebenta o ovo,
em que o sol e a lua renascerão vermelhos?
Uma centelha de súbito desperta
o cavalo que me iguala ao teu corpo solar.
Que É Construir Um Corpo Onde Existe Apenas
Que é construir um corpo onde existe apenas
a memória do sol? É quase a terra firme.
Quase o dorso da terra, a água abrindo o olhar.
Mas o cavalo caminha, mas o olhar se abre.
Sou um pouco de mar entre dois montes, sou
a madeira e a seiva da árvore sob escombros,
sou o cavalo partido e pertinaz no cimo
do monte retalhado e de garganta aberta.
Entre giestas e pedras sou um corpo construído
pela paisagem nua, sou quase um alento cúmplice
da simplicidade absoluta
do vasto alento da altitude pura.
Que é construir um corpo na paisagem com
a memória do sol por sob nuvens baixas?
Sou uma força feroz, com um cavalo estacado.
Da Substância Ao Quarto a Substância Cresce
Da substância ao quarto a substância cresce
pelo amor de uma árvore ou de um brinquedo fácil.
Tu despes-te. Alegria de tão suave seio.
A substância cresce com o cavalo aceso.
Quem regula o manejo que faz vibrar o verde?
Quem une as fibras e alarga as estreitas vértebras?
O animal avança para uma praça-forte
onde as varandas todas abrem o céu inteiro.
Esta é a terra das moitas de sol, das dunas
e dos grilos. Pernas fortes, seios de lança,
a rapariga avança sobre um cavalo sem sela.
Escrevo Pela Paixão de Te Inventar de Um Nada,
Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.
Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que eu experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!
Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.
És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.
A Elegância Negra. Um Punhal — E Um Corpo.
A elegância negra. Um punhal — e um corpo.
Dissolve-se a leitura
dispersa-se onde
se reduz a sombra toda a palavra opaca.
Quero ver o que não vejo: a igualdade de ombros
extensa a tudo o mais, o calor dos membros,
a fulguração dos papéis espalhados no horizonte.
O nosso olhar atinge o espaço inteiro.
A brancura crucifica-me, o cavalo defende-me.
O cavalo ataca as estruturas frágeis.
Uma cabeça córnea defende o intacto.
A pureza das armas.
A presença das muralhas.
O Cavalo Que Respira a Manhã E Bebe o Sol.
El muro al sol respira, vibra, ondula
…………………………………
el hombre bebe sol, es agua, es tierra.
OCTAVIO PAZ
O cavalo que respira a manhã e bebe o sol
é água e terra como o homem que o lê
nas letras desta página ou deste muro
onde o sol respira, vibra, ondula.
A leitura é de sangue por um cimo límpido,
por um planeta verde e por um céu vermelho,
por um amor transparente, pela liberdade ardente
de um voo sobre a terra, rente aos muros.
Quem compreende a aliança entre cavalo e homem
compreende a mulher e a solidão da montanha.
Eu adormeço aqui entre céu e amizade
com a cabeça reclinada na visão da margem
em que as longas mãos se dão nuas e quentes
na aliança do cavalo, do homem e a mulher.
As Palavras Têm Rosto: Ou de Silêncio Ou de Sangue.
As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue.
O cavalo que nos domina é uma sombra apenas.
Sem sílabas de água, avança até ao outono.
Uma árvore estende os ramos. As nuvens subsistem.
O cavalo é uma hipótese, uma paixão constante.
Na rede das suas veias corre um sangue de tempo,
uma árvore se desloca com a alegria das folhas.
Árvore e cavalo transformam-se num só ente real.
Eu que acaricio a árvore sinto a força tenaz
da testa do cavalo, a eternidade férrea,
o ser em explosão e eu tão leve folha
na sombra deste ser animal vegetal
busco a razão perfeita, a humildade estática,
a força vertical de ser quem sou e o ar.
Olhos de Terra Ou de Água Ou Mesmo de Árvore
Olhos de terra ou de água ou mesmo de árvore
podem vencer a inércia e os próprios olhos nascem
para verem outros olhos (diferença-identidade),
a luta que se trava de olho a olho na água.
Raso, deixo-me erguer por esta imagem só.
Antes dos olhos terra (não imagem), antes da árvore
a água
e assim antes do poema a terra do poema.
Porque há um chão de terra no poema
e um cavalo que pasta a solidão real
e só real é o fim ou o princípio da água.
Quem Vem Negar As Folhas,
Quem vem negar as folhas,
quem as expõe à morte? O pólen do céu?
Este corpo rejuvenescido e verde ainda.
Ardente.
Quem desfaz o sentido e quem me dá a sede?
Aqui a perfeição: a água e o seu outono.
A companhia deste olhar ao rés das ervas.
As pedras que existem só para a compreensão.
E o frio mortal detido. A perfeição do corpo.
Este é o teu dia em que ninguém te nega.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda