Quem Pega o Sol do Osso E Lhe Dá a Boca?
Quem pega o sol do osso e lhe dá a boca?
Quem dá o seio firme à mão dilacerada?
Quem saceia de orvalho uma sede nocturna?
Quem abriu esta mão ao turbilhão do dia?
Pulsa a terra e o pulso torna-se o movimento
de fibras minerais ferindo a pedra feliz.
Mil filhos do sol, mil campos, mil abraços
restabelecem a torre, sua pureza rubra.
Ó sabor da alegria, ó sabor de argila!
Aqui é o campo da boca mais sedenta:
Liberta o arco da cabeça,
diz bom dia ao vento.
Da Substância Ao Quarto a Substância Cresce
Da substância ao quarto a substância cresce
pelo amor de uma árvore ou de um brinquedo fácil.
Tu despes-te. Alegria de tão suave seio.
A substância cresce com o cavalo aceso.
Quem regula o manejo que faz vibrar o verde?
Quem une as fibras e alarga as estreitas vértebras?
O animal avança para uma praça-forte
onde as varandas todas abrem o céu inteiro.
Esta é a terra das moitas de sol, das dunas
e dos grilos. Pernas fortes, seios de lança,
a rapariga avança sobre um cavalo sem sela.
Que É Construir Um Corpo Onde Existe Apenas
Que é construir um corpo onde existe apenas
a memória do sol? É quase a terra firme.
Quase o dorso da terra, a água abrindo o olhar.
Mas o cavalo caminha, mas o olhar se abre.
Sou um pouco de mar entre dois montes, sou
a madeira e a seiva da árvore sob escombros,
sou o cavalo partido e pertinaz no cimo
do monte retalhado e de garganta aberta.
Entre giestas e pedras sou um corpo construído
pela paisagem nua, sou quase um alento cúmplice
da simplicidade absoluta
do vasto alento da altitude pura.
Que é construir um corpo na paisagem com
a memória do sol por sob nuvens baixas?
Sou uma força feroz, com um cavalo estacado.
A Elegância Negra. Um Punhal — E Um Corpo.
A elegância negra. Um punhal — e um corpo.
Dissolve-se a leitura
dispersa-se onde
se reduz a sombra toda a palavra opaca.
Quero ver o que não vejo: a igualdade de ombros
extensa a tudo o mais, o calor dos membros,
a fulguração dos papéis espalhados no horizonte.
O nosso olhar atinge o espaço inteiro.
A brancura crucifica-me, o cavalo defende-me.
O cavalo ataca as estruturas frágeis.
Uma cabeça córnea defende o intacto.
A pureza das armas.
A presença das muralhas.
O Direito de Viver Pela Escrita Incorrupta,
O direito de viver pela escrita incorrupta,
a seta disparada acerta ou não o alvo,
o poeta ganha o seu cavalo por dia,
virilmente o arranca do seu escuro magma.
O direito de viver pela vida mais forte
na intensidade pura do cavalo que
reúne em si tensões e rasga a folha escrita,
é o direito ao mar, ao espaço inteiro.
O direito da vida pela palavra viva,
por ela o meu cavalo:
as suas patas ferem o sol e rasgam nuvens.
Na Biblioteca Entre Pedras, Livros, Sombras
Na biblioteca entre pedras, livros, sombras
e a estrela a que está presa a mulher e o cavalo.
A paciência dilacera um último reduto.
Abertas as janelas, dilata-se o desejo
de igualar a altura e a firmeza à sombra.
Preso o cavalo à estrela, dimensão bem clara,
renova-se o ar e a luz penetra a sombra.
Biblioteca de pedras e o mar roendo as rochas.
Pode o cavalo soltar-se sem a mulher e a sombra,
pode o céu afirmar-se na tranquilidade da cena.
Uma luta suave e negra entrega aos ombros
a liberdade oculta e fortalece os ossos.
Um caminho de pedras na biblioteca acesa
e o cavalo pastando entre flores e livros.
Escrever-Te É Preparar-Me Para Um Novo Dia,
Escrever-te é preparar-me para um novo dia,
uma luta de abraços e de flores no mar.
Escrever-te é enamorar-me do primeiro nome, a terra,
a casa, o chão; ligá-los músculo a músculo
até ao sabor quente do teu bafo animal.
A ferida, a raiva ferida, arrebatada
pelo teu corpo disparado, no silêncio
de um campo de ervas altas; o silêncio
dos nomes do campo concentrado
num muro branco.
O canto e o encanto das coisas nomeadas,
pedra alta, fria chuva, olhos acesos,
ervas e flores,
a geometria do teu andar desperta
e da dureza da terra faz o lugar voltar
ao seu lugar primeiro, ao teu nome de terra.
Batalha de Formigas — Puros Exercícios
Batalha de formigas — puros exercícios
do prazer de olhar a face viva da terra
e cada grão de terra é uma razão de vida.
Há um incêndio na água, há um olhar que ilumina
a suspensão da pedra e o enlace incompleto
e a árvore da noite cobre a árvore do dia.
Quem verá outros olhos, quem ouvirá a noite?
A solidão mortal do mesmo e não igual.
Porque só um morre em cada um de nós.
Mil Cores, E Uma Sombra Só Te Despe.
Mil cores, e uma sombra só te despe.
Substância perfeita da sombra mais feliz.
Substância ardente e diamante firme.
Água feliz do corpo, água de mil sombras,
e esta é a mais fresca, onde o cavalo bebe
sobre os teus seios tão altos como as chamas mais verdes.
O teu vestido de sombras torna cálido o corpo
e as sílabas do cavalo refrescam-se no mar.
Na praia mais selvagem caminha esse cavalo
que nos transforma o corpo e nos abre a face
mais escura da terra. E todo o mundo aceso.
Ausência do Poema? Clamor de Nada.
Ausência do poema? Clamor de nada.
Ou a harmonia inesperada. O corte brusco
de um apelo, pura invenção ainda!
Chamo-te meu desejo, minha terra,
meu chão, montanha, meu cavalo,
chamo-te sobre a terra, este papel.
Mas é o ventre vivo que te chama!
Longe da vida, não sei que vida seja,
se no abrupto seio da treva súbito
nasce o apelo cerrado a uma outra vida.
Esta só de linhas, ou de ímpetos no vácuo,
sabe que morrerá de sua morte. Mas
a ignorância surge e nela a esperança!
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda