Por Um Pouco de Sombra Após a Luz do Muro,
Por um pouco de sombra após a luz do muro,
por um pouco de luz quando a sombra se adensa,
duas faces se formam, alguém caminha cego,
alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.
Alguém a viu sair, essa mulher descalça
que marcha ao longo do muro impaciente e cega?
Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,
apenas o perfil do cavalo sem a força.
É preciso dormir sobre escadas marinhas,
é preciso voltar à luz do muro, à sombra,
é preciso que a onda nasça de outra onda.
E cavalo e mulher na nudez mais perfeita
são as figuras vivas do sentir mais completo,
a perfeição do ser na frescura da forma.
Uma Figura Errante, Ainda Incerta — E Sempre?
Uma figura errante, ainda incerta — e sempre?
Alguma folha nova caída de algum ramo?
Cai a sóbria noite em teus cabelos negros.
Pela janela vejo os campos divididos.
O cavalo entre nós é a força da paz
que dos teus ombros desce até aos teus joelhos.
Ganhei também meu rosto na sombra dolorosa.
O meu beijo, na música, é um gesto perfeito.
Suavidade intensa, uma estrela entre nós
num chão de suor negro, uma harmonia forte,
neste abraço ganhamos a força e o horizonte.
À Sombra do Cavalo, o Ócio Retempera-Se.
À sombra do cavalo, o ócio retempera-se.
O prazer de olhar a liberdade do campo
onde cada árvore e cada sombra dizem
o sossego de estar à sombra do cavalo.
O sossego do sol, a terra igual à terra,
e toda a luz firmando os volumes e as cores.
Tudo ressalta em força,
em pureza de estar em paz sob o cavalo.
À sombra do cavalo, o ócio aprende a ser
aquilo mesmo que é, um estar feito de luz,
uma razão de ser sem se saber mais nada
do que a razão das pedras, do que a visão das árvores.
A sombra do cavalo engloba tudo o mais.
Sinto a Perfeição de Um Corpo
Sinto a perfeição de um corpo
e nos seus olhos perpassa um pouco o medo.
Serei eu quem tu vês?
Quem me abraçou outro dia não é já quem me abraça?
Sinto o não e o sim — e a inflexão da noite.
Vivo à superfície de um corpo negro e fundo.
O amplexo é real
e o que escrevo é o frémito.
Porque é tudo tão breve e tão longo, não sei.
Tenho os olhos fechados de abertos de ternura.
Tenho um pouco a paz de uma noite vivida.
Não Creio Noutra Palavra Que Nasça Doutro Olhar.
Não creio noutra palavra que nasça doutro olhar.
Não creio noutro silêncio que não seja o da água
e deste odor de ferro numa ondulante marcha
até à fonte do ar junto às muralhas frescas.
Não creio noutra palavra que não seja a palavra
do teu outono fulvo, amadurecido.
A secura é cruel, mas tu sustentas o canto
de um espanto ainda maior e o depões no silêncio.
Os dois lados do rosto, dilacerados, loucos,
despertam os vales e as montanhas agrestes.
Cavalgas com a pausa e a fúria do alimento
que faz girar os astros, os girassóis, os ventos.
Mil caminhos se cruzam e tu feres a luz
com a negrura sábia do teu olhar maduro.
Aqui Seria a Mancha Mais Clara
Aqui seria a mancha mais clara
para um cavalo rosado ou cinza suave.
Aqui seria linear e ténue,
a vocação feliz de uma pequena nódoa.
As patas do cavalo vencem a inércia
de um princípio sem fim.
A fúria que eu invento é uma vontade
de dar à terra o seu cavalo fortíssimo.
E eu com ele soçobro ou me levanto.
Aqui seria… e é destino e força
o peso do animal que amo sobre mim.
As Formas do Teu Ser São Várias,
As formas do teu ser são várias,
mas negam a inércia, arrancam-te
do chão. Tens o poder e a altura precisas
para a vasta geografia dos campos e das casas.
És vertical no peso, na verdade do nome
do princípio ao fim, firme de seres terra
e o cheiro que tens é de um livre universo:
a terra pode esperar, confia em teu galope.
Porque te quero único, por não ser e
para ser, quantas vezes te falho
sem a paciência
da tua impaciência nobre de cavalo.
Mas o teu galope liberta o meu alento
e o meu desejo corre sobre a planície branca,
a teu lado chispando a rubra fúria,
com a garganta ébria
de uma implacável frescura.
Eis a Mão, o Vento, a Língua Sem Razão.
Eis a mão, o vento, a língua sem razão.
Que inscreve ela na árvore? Um nome de árvore,
a razão do efémero, a morte desse nome.
Só um cavalo salva o seu nome na árvore.
Árvore, cavalo errante, que dizem? Rasgam
a casca, o pêlo, as inscrições resistem,
a mão desta tarde de Abril não se eterniza
com um número ou um nome. Os nomes não se perdem.
Árvore, razão incessante, cavalo, razão errante,
simbiose de amor e obscuro furor estático,
a minha mão demora-se na árvore e no cavalo.
Um vento já soletra as palavras da árvore.
E o cavalo caminha inscrito no poema.
E tudo é sem razão por uma razão diferente.
Não Dura Aqui a Imagem, Não Dura Aqui o Som.
Não dura aqui a imagem, não dura aqui o som.
Aqui onde se insere a palavra mais forte.
O cavalo na lentidão caminha sobriamente.
Nada se inscreve na árvore nem o perdão subsiste?
Não dura aqui o som da mão ou a inscrição
da palavra mais forte no tronco dessa árvore
mas o cavalo caminha na tarde sobriamente
como inscrito perfeito num universo próprio.
Há outros animais, outras vozes, o mundo,
mas há este sossego neste lado do muro,
a visão de um instante, a inscrição metálica.
E tudo se prolonga na gestação da tarde.
O cavalo é o sossego próprio da sua força,
amadurecida imagem que dura e onde estou.
A Mulher Cede Ante a Visão Mais Viva.
A mulher cede ante a visão mais viva.
Mais forte do que a esperança é ela a pedra de água.
Ataca o núcleo forte; a serpente desenrola-se
para que a tua boca se abra sibilina.
Ouço-te: és a pedra. Vejo-te: és o corpo.
Na funda pausa encanto o teu olhar.
Sílaba a sílaba conheço as nervuras fortes
e a cor que tu emanas vem de uma infância atroz.
Mutilada voz, os braços decepados, sou um tronco
voraz.
Sou o teu olhar que cede
ante a visão mais viva,
sou o silêncio sóbrio
sobre os teus olhos fortes.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda