A Estância do Dia
Compacta, volumosa barra (de sono e luz)
— o longo
elemento prenhe que perdura,
o corpo, esta madeira
da estância — actual em consistência fresca,
no lugar em que pouso, lugar dela,
pausa em que me apoio, estação una.
Habitável espaço pleno,
o surdo nome espesso, o ócio,
espraia sua toalha branca de horizonte interno.
Surde, no papel, o solo,
o lugar sem suporte, assomo
de estar
— até à fronte o intervalo abrindo
para o olhar que o perde e que o renova
ao fim de outro intervalo
— fluxo entre rupturas,
permanecendo todavia em todo o campo vivo,
o lugar do fogo entre pedras calmas,
visível figura respirável
no disperso centro do ar
em circular transparência global.
Maio de 68
a Eduardo Prado Coelho
As linhas, mil linhas, novas linhas
do ar que circula
numa língua desligada, de uma fábrica
de ervas violentas, jovens,
nutrindo o pulso e os membros,
água de silêncio, no ar agora,
nas avenidas abertas ao silêncio,
nas pedras sem memória, sem medo,
vitória que se perde na frescura rápida,
princípio irrefragável desvanecido, vindo,
lanço a fronte no ar para a linguagem viva
que respira na espessura fragmentada morta
perseguida no vazio, obscura carga,
peso de um olhar, de uma boca ávida sem passado,
no entusiasmo irreparável da língua por viver
do corpo imediato
no centro — turbilhão — da árvore.
Terra, o solo comum, originário, em que descalços
surgir, ó boca, surgir como só um
de nós,
na praia de um presente aberto,
o vulcão surdo convertido em jorro de ar,
a boca restituída ao corpo, a língua
dada ao ar, ao sopro de um corpo a renascer,
razão livre desde sempre, ignota, desde sempre a única
razão,
anterior chama de ar submersa,
que nos lábios soçobra, agora se levanta,
fronte única, fonte, ovo de tudo o que começa,
rajadas de ar,
árvore de homens num estrépito de folhas de ar nas ruas,
a pedra o sol a terra a chama ávida e nua
a praia sob os passos
a página de mil linhas
a boca as palavras que rompem como a água
de um princípio que encontra o seu presente
agora a língua livre e jovem
a língua irrefragável
No Elemento Único Global
Sem o ofegar da tensão cativa
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa
Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata
Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira
Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
Já Alguém Viu o Cavalo? Vou Aprendê-Lo
Já alguém viu o cavalo? Vou aprendê-lo
no jogo das palavras musculares.
Alento alto, volume de vontade,
força do ar nas ventas, dia claro.
Aqui a pata pesa só a mancha
do cavalo em liberdade lenta
para que o cavalo perca todo o halo
para que a mão seja fiel ao olhar lento
e o perfil em cinza azul aceso
de clareira de inverno. Bafo, o tempo
do cavalo é terra repisada
e sem véus, de vértebras desenhadas,
lê o cavalo na mancha, alerta,
na solidão da planície E uma montanha.
Um Sulco a Apagar-Se
Um sulco a apagar-se
lâmina ou ferida ao sol
o vento devagar
e a mão que lê o espaço
E porque não um sim
o sim de todo o espaço
numa cabeça vã
de uma formiga fácil
Nada mais do que sim
onde um porquê se extingue
e num talvez acorde
daqui a pouco — ou não.
Fora do Arco
Quem constrói?
Ninguém mais. Só
onde me lanço. E é terra ou não.
Nada quero dizer.
Nada se alcança.
Música, a necessária:
boca do desejo
que inicia a perda ou
o espaço em branco.
Quem escuta ou quem atende?
Fora do arco, no papel
a pedra não é pedra. É onde
nada imploro, mas avanço ou caio.
E sem a força, o aro flexível,
inscrevo, abrindo o branco
para onde não sei.
Não me nego. Mas cedo
ao duro arbusto que estremece
à minha frente.
Será a árvore, é para ti
se eu for
no alvo que atravesso.
Tronco Decepado
Tentação de dizer:
as largas gotas
de madeira e paz,
os veios do sono materiais.
As fronteiras redondas: labirinto exibido.
Ó tentação: mais ser
de vegetal viver no já vivido
e por surpresa na seiva que já seca
acorda ao olhar o respirar de ver.
Morta ou calada,
minha cabeça assim se enche vaga,
do ar da árvore decepada:
um cheio de nada, um tronco de ar.
Assim cortada,
redonda face
no chão de liso amor
te calco e te decalco
no vão que eu próprio sou,
rasa garganta em veios duros e macios
de um tronco que não sei nem sou,
por ti respiro.
Árvore Aberta
Dobrei os teus pulsos a dura aranha
do teu corpo
a tua árvore
a faca rasgou a barreira do ventre
a tua face abriu-se como um barco
amei-te tempestade de ossos e de nervos
contra ti
contra ti
exílio
pátria sobre o chão
e fuga
furiosa e suave lâmina animada
bebida a jactos
aranha alta e linda
enclavinhada
destilando o suor a baba o vinho a seiva
o estrépito da primavera
de uma árvore que se abre
no silêncio
Terra Imponderável
Uma toalha de água e de ar,
imponderável terra
de um longo instante suave.
Região de luz que toca as franjas
doces do ser: sem distância, distante.
Estou (estava) numa nuvem clara
sem linguagem nem corpo.
Um prolongado sim de todo o sangue calmo.
Imóvel barco ou suspensão que inunda.
Abrigo sem abrigo, morada do espaço.
Para além da mãe nocturna, da súplica e do abraço,
para além do pai funéreo, da cal e cinza pétrea,
o infindável átrio, a água libertada.
As palavras dizem os arcos do ar,
as mãos salvas conhecem-se, sem gestos.
Cheguei à fronte deste instante — à minha fronte,
os sonhos que tive desfizeram-se,
percorro agora a terra onde eles nascem,
os lábios livres cegos vêem e caminham.
Ouso ser simples como o pão e a água.
Da Incerteza Nasce
Da incerteza nasce,
ou dúvida. (Nem sempre.)
Débil, atravessa a folha.
A sua erva de animal:
a sede e o vazio da sombra.
Através das linhas
uma arbitrária rede justifica-se;
adiro à saliva do seu rastro:
a concha desenrola-se: uma casa
suspensa, vagarosa, incerta.
Uma figura? Ou vejo a casa mesma,
com olhos de animal, os olhos dele.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda