Viste o Cavalo Varado a Uma Varanda?
Viste o cavalo varado a uma varanda?
Era verde, azul e negro e sobretudo negro.
Sem assombro, vivo da cor, arco-íris quase.
E o aroma do estábulo penetrando a noite.
Doutra margem ascendia outro astro
como uma lua nua ou como um sol suave
e o cavalo varado abria a noite inteira
ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.
Uma língua de sabor para ficar na sombra
de todo um verão feliz e de uma sombra de água.
Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste
o tambor do silêncio marcar a tua força
e tudo em ti jazia na noite do cavalo.
A Estância do Dia
Compacta, volumosa barra (de sono e luz)
— o longo
elemento prenhe que perdura,
o corpo, esta madeira
da estância — actual em consistência fresca,
no lugar em que pouso, lugar dela,
pausa em que me apoio, estação una.
Habitável espaço pleno,
o surdo nome espesso, o ócio,
espraia sua toalha branca de horizonte interno.
Surde, no papel, o solo,
o lugar sem suporte, assomo
de estar
— até à fronte o intervalo abrindo
para o olhar que o perde e que o renova
ao fim de outro intervalo
— fluxo entre rupturas,
permanecendo todavia em todo o campo vivo,
o lugar do fogo entre pedras calmas,
visível figura respirável
no disperso centro do ar
em circular transparência global.
No Intervalo
É aqui que a terra cede,
a mão soçobra na entranha húmida,
e todo o visco se escreve como um gosto visto.
Seio invertido em que estremece a pena
para o espaço extenso a ser folha na folha.
A falha em que penetro, ó feliz falha,
para que não há nome nem grito,
não peço o teu não, escorro a tinta
que te não diz, e digo-te feliz na folha.
Assim eu falho e sou feliz.
A falha em que prossigo (a folha é lisa)
não diverte, mas desvia, e eu quero que anule
e seja a direcção nula da folha
igual à folha que fale, e que eu falhe feliz.
Aqui seria a forma de um jardim,
a forma, as formas: a presença do corpo.
Sem corpo, um só olhar em torno.
Mas sem tronco, em que apoiar-me?
O gosto já esquecido, tive-o. Não.
As folhas só aqui seriam folhas.
Vi-as. Em vão aqui as lembro. O espaço
só aqui é espaço e as suas folhas
aqui são as iguais, as únicas felizes.
Não nego o que vi, mas aqui é nulo.
Aqui é a sombra e esta sombra seria
feliz sombra vermelha. Na memória
anulada e ressurgida, ó sombra tu serias
minha sombra vermelha.
Que nulo seja ou morra,
no surdo brilho intervalo em que
o movimento me aniquila e escrevo: sim.
A lâmpada de folhas enche a mão.
Amo as fendas, e as pequenas teias
são o enleio do instante.
Que morra ou surja.
Neste campo
o corpo não escolho nem reduzo,
é ampla a folhagem em que me embrenho.
Que morra ou surja, ó espaçosa
cabeleira e o quarto que preenches com teus raios.
Não sou mais do que uma pequena sombra com olhos
para os seus insectos lúcidos.
São nomes sobre o sangue. Nomes vãos
mas que propagam, apagando-se. E
se num ímpeto leve os apreendo,
direi que são azuis ou verdes. E que brilham.
Sou apenas uma sombra com olhos neste instante.
Mil Cores, E Uma Sombra Só Te Despe.
Mil cores, e uma sombra só te despe.
Substância perfeita da sombra mais feliz.
Substância ardente e diamante firme.
Água feliz do corpo, água de mil sombras,
e esta é a mais fresca, onde o cavalo bebe
sobre os teus seios tão altos como as chamas mais verdes.
O teu vestido de sombras torna cálido o corpo
e as sílabas do cavalo refrescam-se no mar.
Na praia mais selvagem caminha esse cavalo
que nos transforma o corpo e nos abre a face
mais escura da terra. E todo o mundo aceso.
No Trabalho da Folha
É por um outro incompreensível
poema
que escrevo
contra a claridade nula
o mito de uma palavra única
o incessante rumor
a inútil passagem
suspendo
o fogo rápido da mão
o som de lâmina que apaga
E agora digo a água
sombria a escoar-se igual ao tempo
a casa que escrevo no gosto de se abrir
os limites invisíveis
sem o fogo do espaço
que a palavra verde em vão separa
Verdes parêntesis
(não de flores lembradas
ou glória das mãos
à beira de água)
Verdes, ou azuis já, cinza,
em móveis signos,
indecifráveis, claros
As sombras que se lêem,
folhas, arcos, sons
— ao mesmo tempo a água deste muro,
os intervalos E uma alta
pedra, figura nula no papel,
rupturas sucessivas,
rede ou roda, nomes
da febre que percorrem
Intermináveis
Impenetrável, não ascende
Não é oca, mas não sabe
Surda, anula, e contra ela
calco ou cedo Nunca
escuto E a mão
o círculo não limita
No branco da elipse
demora
ar suposto, ou quase, ou quase o espaço
Se ao espelho ofereço
a obscura face
eu nada vejo Escrevo, avanço
negando o nada dessa fauce
Se se abre alguma vez
foi-se
Cerradamente oponho os traços
sucessivos, tensos
ao fosso aberto
em movimentos que me surgem
me alimentam
na luta — vã? — por novo espaço
Pela febre de ler
umas gotas (não de água, mas
de um som de folhas
e no espaço)
Aqui
eu digo: instante
nulo
E contra a fuga, a fronte
sem outra luz além da página
onde surgir a água
da palavra
Resistir, entregar-me? A quê? E quando?
Por ler a boca a página ou o verde
na conjunção de acaso,
necessária árvore e todavia
feita de vãos, involuntários, voluntários, surtos
pela água onde o silêncio em vão se faz
no trabalho da folha Neste
instante
Desfigura-Se a Face, E o Coração do Pássaro
Desfigura-se a face, e o coração do pássaro
cor de melancolia, a água atroz do lago.
Pela boca do chão, pela tensão do muro
procuro com paciência um nome e outro nome.
Torturado pelo álcool
da noite mais nocturna,
caminho para o fogo no alto da montanha.
Desfigurou-se o rosto. O meu cavalo perdeu-se.
Onde está o jardim de outono e primavera?
As formigas apossam-se de um corpo destroçado.
Perdeu-se a visão de um dos lados da face.
Contra o Silêncio
Ardem os braços, ardem contra
o silêncio. Não grito.
Doem os ossos contra a porta.
Abrem-se ao abraço. Estalam? Querem?
Suporto frente à porta.
Não é o silêncio do silêncio.
Não a terra da casa nem o tronco da terra.
Não a face no espelho onde nulo me vejo.
Rosto pregado ao solo, às pregas mínimas,
contacto a pura força dos ossos masculinos.
Dói. Dói-me a força que sustento.
A parede do silêncio mais espessa.
As escuras veias que se engrossam.
Rasgarei uma nuvem? Abrirei uma pedra?
Contenho o tronco, a força contra o tempo?
Uma janela? Não. Não antecipo.
No meu corpo ainda não se fez silêncio.
Abro, abro a porta deste tronco ou fecho-a?
Estendo os braços que estalam. Uma ponte?
Atravesso as veias de madeira ou de pedra.
Silva algum astro na seiva ou as raízes rangem?
Sou compactamente. Nada ainda sou.
Sobrevivo ainda. Resisto ainda. Forço ainda. Quero.
O silêncio ainda é uma bandeira de febre.
Um país de insectos dissemina-se.
Vibro no saibro ardente. Vibro e ardo.
Se atingir os ombros, desaguar as espáduas,
deixarei a onda mais branca do silêncio
abrir-me a porta, descerrar-me o tronco?
Estou aqui. Aonde? Cerradamente inverso.
Por uma ferida verde, por uma porta aberta?
Estou aqui onde não é uma torre,
contra a expulsão. Por uma explosão suave.
Ah, se caísse, caísse na queda que me erguesse?
Até à folha onde escrevo, que país de mãos seria?
O Cavalo Decide Antes Ainda
O cavalo decide antes ainda
da decisão, na planície.
Cavalo azul, não, mas forma
do meu bafo que lhe respira o ardor.
Eu sou cavalo no cavalo
porque a palavra o diz inteiro
e vejo que ela cava, é terra e pedra
e músculo a músculo retenho a força dele.
Com a paciência do campo e o amor do olhar
a precisão do cavalo é maior que o caminho
e tem em si todo o hálito da casa.
Há Um Sol de Cavalo Nas Ruas E Nos Olhos.
Há um sol de cavalo nas ruas e nos olhos.
Há um cavalo de sol nos campos e nas cores.
E a tua língua embriaga-se de sabores tão verdes
como as maçãs da infância das tias e avós.
Há um sul e há um norte na cabeça do cavalo,
uma agulha se crava no centro do meu cérebro,
as minhas vértebras dilatam-se pelo vigor do novo,
por cada pedra ferida e pelo verbo intenso.
O minério do cavalo, a parede, o incêndio
tudo devora a palavra, tudo tomba e se centra
no vigor de um alento de primavera verde.
Para Ser Nos Limites
Para ser nos limites, luz da árvore, para estar no espaço,
mãos que formem um corpo — que o desfaçam e o reúnam
— corpo nu,
a primeira palavra, o primeiro tacto.
Nasce a árvore no lugar onde é o espaço
onde tu estás.
Eu amo essa palavra no lugar — a palavra no olhar
a palavra que me faz
ver-te.
Para ser e para estar
quero construir-te árvore
do meu tacto,
árvore do meu olhar,
minha árvore.
A árvore inteira
no hálito de te ver.
Árvore no seu lugar.
Sou eu perante ti — de face
em meu rosto real
e o mesmo ar
da árvore.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda